Capítulo II

Deus

Páginas 56 a 60 da edição de 1835

Muitas tentativas têm sido feitas de definir o termo DEUS.1 Quanto à palavra em si [God], ela é puro anglo-saxão e, entre os nossos antepassados, significava não apenas o Ser divino, que hoje ela comumente designa, mas também “bom” [good]. Na compreensão deles, Deus e bom pareciam termos correlatos, e, quando pensavam ou falavam dele, a própria palavra sem dúvida os levava a considerá-lo O SER BOM, uma fonte de infinita benevolência e generosidade para com as suas criaturas. [N. do T.: Clarke se refere à palavra inglesa God e à sua suposta ligação com good, “bom”. A etimologia era corrente na época.]

Uma definição geral dessa grande Causa Primeira, até onde as palavras humanas ousam tentá-la, pode ser dada assim: o Ser eterno, independente e que existe por si mesmo; o Ser cujos propósitos e ações procedem dele mesmo, sem motivo ou influência de fora; aquele que é absoluto em domínio; a mais pura, a mais simples e a mais espiritual de todas as essências; infinitamente benevolente, generoso, verdadeiro e santo; a Causa de todo ser, o Sustentador de todas as coisas; infinitamente feliz, porque infinitamente perfeito; eternamente suficiente em si mesmo, sem precisar de nada do que fez; ilimitado na sua imensidade, inconcebível no seu modo de existir e indescritível na sua essência; plenamente conhecido só por si mesmo, porque uma mente infinita só pode ser plenamente compreendida por si mesma. Numa palavra, um Ser que, pela sua infinita sabedoria, não pode errar nem ser enganado, e que, pela sua infinita bondade, não pode fazer nada que não seja eternamente justo, reto e bondoso. Leitor, assim é o Deus da Bíblia. Mas como é diferente do Deus da maioria dos credos e das concepções humanas!

Todos os que pensam corretamente sobre o assunto admitem que o Ser chamado DEUS é uma Essência viva e racional.

A. Ele é uma Essência, isto é, algo que existe, e existe distinto de todas as coisas. E é uma Essência ou Ser independente: existe de si e por si mesmo e não depende de nenhum outro para ser preservado na existência, de modo que, se todas as outras essências fossem destruídas, esta continuaria a subsistir. Isso implica que essa Essência não pode ser derivada, do contrário não seria independente, e a destruição do seu princípio implicaria necessariamente a sua própria destruição, já que todos os efeitos cessam com as causas que os produzem.

Como essa Essência é, portanto, independente e não derivada, existindo de si e por si mesma, tem de ser também eterna. Sendo a Causa Primeira e independente de todas as outras espécies de ser, não pode ser afetada por nenhuma delas. Também não pode destruir a si mesma, porque isso suporia que ela possui um poder superior a si mesma, o que é absurdo. E, como nenhuma outra coisa pode destruí-la, e ela não pode destruir a si mesma, tem de ser eterna.

Se todos os outros seres são seres derivados (isto é, não podem ser a causa da própria existência), e este é a única Causa primeira e sem origem, então todos os outros têm de lhe dever o ser e depender dele. Este Ser é, portanto, o Criador e Preservador de todas as coisas. E essa é a noção geral que se tem de DEUS.

B. Eu disse acima que esse Ser é considerado uma Essência viva. Isso o distingue da matéria, de todo caos, das primeiras sementes ou princípios das coisas e de toda inércia, ou vis inertiae, aquela disposição da matéria pela qual ela resiste a todo esforço para alterar o seu estado de repouso. E, como a vida implica uma existência ativa e operante, ela se aplica com propriedade a DEUS, de cuja vida procede o princípio vital de todas as coisas, e por cuja atividade ou energia vem toda a vida e todas as operações dos seres animados e inanimados.

C. Ele é chamado Essência racional. Como a razão implica a faculdade pela qual distinguimos o bem do mal e o certo do errado, na Essência divina ela implica um conhecimento ou discernimento sem limites, pelo qual ela compreende todas as ideias de todas as coisas que existem ou podem existir, com todas as suas relações, ligações, combinações, usos e fins. Tal Essência racional é DEUS. E, assim como ele é a Causa de todo ser, toda razão, discernimento, conhecimento e entendimento vêm dele.

Vemos, assim, que ele é a mais excelente e a mais perfeita de todas as essências vivas e racionais, e que toda excelência ou perfeição encontrada em qualquer ser tem de derivar dele.

D. Essa Essência é a mais excelente. Excelência significa ultrapassar ou ir além dos outros em qualidades grandiosas ou úteis. Tudo o que dessa espécie vemos em qualquer ser, tudo o que ouvimos dizer que alguém possuiu e tudo o que podemos conceber como possível de ser possuído por alguém, Deus o excede, e infinitamente mais. Por isso ele é a mais excelente de todas as Essências.

E. Essa Essência é a mais perfeita. Perfeição significa algo completo, consumado, feito e acabado em todos os aspectos, de modo que nada falta e nada sobra. Em sentido moral, significa o que é inteiramente puro, irrepreensível e imaculado, ou aquilo que, em todos os aspectos morais e espirituais, tem excelência consumada. Assim DEUS, sendo a Causa de tudo o que é grande, bom, imaculado e excelente, é ele mesmo a mais perfeita de todas as Essências. Não conseguimos conceber nada que possa ser acrescentado à sua excelência para torná-la maior ou mais perfeita do que é, nem nenhuma perfeição que ele não possua de modo absoluto e ilimitado.

Adonai é a palavra que os judeus, ao ler, sempre põem no lugar de Jeová, porque consideram ímpio pronunciar esse nome. Adonai significa meu Diretor, Base, Sustentador, Apoio ou Esteio. Dificilmente se poderia dar nome mais apropriado ao Deus que é o Autor e Diretor de toda palavra e ação justas; a Base ou Fundamento sobre o qual repousa toda esperança racional; o Sustentador das almas e dos corpos humanos, bem como do universo em geral; o Apoio e o Esteio dos fracos e desfalecidos; o Contraforte que escora o edifício, o qual de outro modo cairia necessariamente. Essa palavra aparece com frequência na Bíblia hebraica e é traduzida na nossa versão por “Senhor”, o mesmo termo pelo qual se expressa a palavra “Jeová”. Mas, para distinguir os dois e mostrar ao leitor quando o original diz Jeová e quando diz Adonai, o primeiro é sempre impresso em maiúsculas, SENHOR, e o segundo em letras comuns, Senhor.

Esse Jeová é um Ser de perfeições tão infinitas que não se pode imaginar nele nenhum defeito, nem conceber nada que possa elevar, melhorar ou exaltar a sua natureza. Por ser uma plenitude infinita, nada lhe pode ser acrescentado. E, por encher todo o espaço, os céus e a terra, e habitar a eternidade (Jr 23.24; Is 57.15), nada lhe pode ser tirado. Tudo o que existe tem de ser necessariamente criatura sua, ou efeito produzido por ele, a Suprema Causa Primeira. Sendo independente e suficiente em si mesmo, não precisa de nada do que fez. Desde a eternidade existiu sem nenhuma outra espécie de ser. E, quando quis criar inúmeros seres de naturezas infinitamente variadas, com graus diversos de perfeição relativa, continuou sendo o mesmo Ser independente, e todos os outros passaram a receber dele a existência e o sustento.

“Senhor” e “Deus” são frequentemente usados um pelo outro, mas nem todo senhor é Deus. É o domínio de um Ser espiritual, ou Senhor, que constitui DEUS: domínio verdadeiro, Deus verdadeiro; domínio supremo, Deus supremo; domínio fingido, deus falso. Ele governa todas as coisas que existem e conhece todas as coisas que se podem conhecer. Ele não é a eternidade nem a infinitude, mas é eterno e infinito. Não é a duração nem o espaço, mas dura para sempre e está presente em toda parte. E, existindo sempre e em toda parte, ele constitui a própria duração e o próprio espaço, a eternidade e a infinitude.

A natureza de Deus é ilimitada, e todos os atributos dessa natureza são infinitamente gloriosos. Não podem ser diminuídos pelas transgressões das suas criaturas, nem aumentados pela obediência eterna e ininterrupta e pelos aleluias sempre crescentes de todas as criaturas inteligentes que povoam todo o turbilhão da natureza.

Notas de Samuel Dunn

1. “Os que desejarem ver uma tentativa de demonstrar, por argumentos a priori e a posteriori, a existência necessária de um Ser Supremo e Eterno podem consultar o Comentário do Doutor, Hebreus 11, no fim. S. D.” ↩

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Adam Clarke, Christian Theology, selecionada e organizada por Samuel Dunn (Londres, Thomas Tegg and Son, 1835), exemplar digitalizado pelo Google (Universidade de Illinois). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).