A necessidade da revelação. A absoluta necessidade de uma revelação divina está suficientemente demonstrada. Se Deus é a única Fonte da luz e da verdade, todo conhecimento tem de vir dele. “O espírito do homem pode conhecer as coisas do homem, mas só o Espírito de Deus pode conhecer e ensinar as coisas de Deus” (cf. 1Co 2.11). Isto é, o intelecto humano, no seu poder e na sua atividade comuns, é capaz de compreender as diversas coisas terrenas que dizem respeito ao sustento e ao bem-estar do ser humano na vida social. Mas esse intelecto não consegue sondar as coisas de Deus. Não consegue descobrir a mente do Altíssimo; não conhece a sua vontade; não tem ideia correta do fim para o qual o ser humano foi feito, nem daquilo em que estão os seus verdadeiros interesses, nem da sua própria natureza, nem da natureza do bem e do mal morais, nem de como evitar o mal e alcançar o bem, no qual consiste a verdadeira felicidade, o bem supremo. Ensinar essas coisas é tarefa da revelação divina, pois elas nunca foram ensinadas nem concebidas pelo ser humano.
Como somos indizivelmente devedores a Deus por nos ter dado uma revelação da sua VONTADE e das suas OBRAS! É possível conhecer a mente de Deus a não ser pelo próprio Deus? É impossível. Será que as coisas e os serviços dignos de um Espírito infinitamente puro, perfeito e santo, e agradáveis a ele, podem ser descobertos por raciocínio e conjectura? Jamais, porque só o Espírito de Deus pode conhecer a mente de Deus. Por esse Espírito ele se revelou ao ser humano e, nessa revelação, ensinou-lhe não apenas a conhecer as glórias e perfeições do Criador, mas também a sua própria origem, o seu dever e o seu interesse. Até aqui, era absolutamente necessário que Deus revelasse a sua VONTADE. Mas, se ele não tivesse dado também uma revelação das suas OBRAS, a origem, a constituição e a natureza do universo jamais poderiam ter sido devidamente conhecidas. O mundo não conheceu a Deus por sua própria sabedoria (cf. 1Co 1.21). Isso é demonstrado pelos escritos dos pagãos mais eruditos e inteligentes. Eles não tinham nenhuma noção correta, nenhuma noção racional, da origem e do propósito do universo. Entre todos os escritores antigos, somente Moisés dá um relato coerente e racional da criação, um relato que tem sido confirmado pelas investigações dos filósofos mais rigorosos.
As Escrituras são revelações de Deus. As Escrituras do Antigo e do Novo Testamento são geralmente chamadas, em todos os países cristãos e em quase todas as línguas, de A BÍBLIA, de uma palavra grega, biblos, que quer dizer O LIVRO. São assim chamadas por serem o único livro que ensina o conhecimento do verdadeiro Deus, a origem do universo, a criação e a queda do ser humano, o começo das diferentes nações da terra, a confusão das línguas, a fundação da igreja de Deus, a natureza abominável e destruidora da idolatria e do falso culto, o plano divino da redenção, a imortalidade da alma, a doutrina do mundo invisível e espiritual, o juízo futuro e a retribuição final: dos ímpios, nas penas da perdição eterna, e dos bons, na bem-aventurança de uma glória sem fim. Sabemos que essas Escrituras são revelações do céu:
1. Pela sublimidade das doutrinas que contêm. Todas as descrições de Deus, do céu e dos mundos espiritual e eterno são, em todos os aspectos, dignas do seu assunto. Por isso diferem amplamente das fantasias infantis, das representações absurdas e dos relatos ridículos que sobre esses assuntos se encontram nos escritos dos idólatras e dos religiosos supersticiosos de todas as nações da terra.
2. Pela razoabilidade e santidade dos seus preceitos. Todos os seus mandamentos, exortações e promessas tendem diretamente a tornar as pessoas sábias, santas e felizes em si mesmas, e úteis umas às outras.
3. Pelos milagres que registram. São milagres da natureza mais espantosa, que só poderiam ser realizados pelo poder onipotente de Deus; milagres feitos à vista de milhares de pessoas, que ninguém negou, atestados ao longo dos séculos por escritores da maior respeitabilidade, tanto inimigos quanto amigos da religião cristã.
4. Pela veracidade das suas profecias, isto é, das predições de acontecimentos futuros, que se cumpriram exatamente da maneira e no tempo que as predições, feitas muitas centenas de anos antes, haviam indicado.
5. Pelas promessas que contêm. São promessas de perdão e paz aos arrependidos, de assistência e amparo divinos aos verdadeiros crentes e de santidade e felicidade aos piedosos. Essas promessas se cumprem sempre, com exatidão, em todos os que pela fé as apresentam diante de Deus.
6. Pelos efeitos que essas Escrituras produzem no coração e na vida dos que as leem com piedade. Sempre se verifica que essas pessoas se tornam mais sábias, melhores e mais felizes em si mesmas, e mais úteis aos outros: melhores maridos e esposas, melhores pais e filhos, melhores governantes e governados, melhores amigos e vizinhos. Já os que as negligenciam são, em geral, uma maldição para si mesmos, uma maldição para a sociedade e uma vergonha para o nome humano.
7. A essas provas se pode acrescentar a pobreza, a falta de instrução e o desamparo dos discípulos do nosso Senhor e dos primeiros pregadores do seu evangelho. Os governantes e os sacerdotes judeus se opuseram a eles como um só homem. Procuraram por todos os meios ao seu alcance impedir a pregação do cristianismo na Judeia. Os discípulos eram perseguidos em toda parte e não tinham um único homem de poder ou autoridade que os apoiasse ou abraçasse a sua causa. Ainda assim, fundou-se uma gloriosa igreja cristã na própria Jerusalém; milhares receberam e professaram a fé em Cristo crucificado, e muitos deles selaram alegremente essa verdade com o próprio sangue. Depois de pregarem o evangelho por toda a Judeia, foram aos pagãos e pregaram em diversas partes da Ásia Menor, da Grécia e da Itália. Em todos esses lugares, tiveram de enfrentar todo o poder e toda a influência do Império Romano, então inteiramente pagão e senhor de todo o mundo conhecido! Mesmo assim, fundaram-se igrejas cristãs em toda parte, inclusive na própria Roma, o trono do imperador! Ali estavam tão desamparados quanto na Judeia. Tiveram de enfrentar todos os sacerdotes idólatras, todos os filósofos gregos, o governo civil e os muitos milhões de pessoas do povo, iludidas e supersticiosas, que, instigadas por um zelo furioso, procuravam sustentar com os atos de perseguição mais bárbaros os seus falsos deuses, os seus ídolos, os seus templos e o seu falso culto. E, no entanto, diante da pregação desses homens pobres, relativamente sem estudo e totalmente indefesos, a idolatria caiu por terra, os oráculos pagãos emudeceram, os filósofos ficaram confundidos e o povo se converteu aos milhares. Por fim, toda a Ásia Menor e a Grécia, com a Itália e as várias partes do Império Romano, receberam o evangelho e aboliram a idolatria! Se essa doutrina não viesse de Deus, e se ele não tivesse ajudado esses santos homens com o seu poder onipotente, tais efeitos jamais teriam sido produzidos. O êxito dos apóstolos e dos primeiros pregadores do cristianismo, desarmados e indefesos, é portanto uma prova incontestável de que o evangelho é uma revelação de Deus, de que é o meio de levar luz e vida à alma humana e de que nenhum poder, terreno ou diabólico, jamais conseguirá derrubá-lo. Ele prevaleceu e há de prevalecer, até que toda a terra seja subjugada e o universo se encha da glória de Deus. Amém.
Essa revelação agora está completa. Deus não lhe acrescentará mais nada, porque ela contém tudo o que é necessário às pessoas, tanto em relação a este mundo quanto ao que há de vir. E ele anunciou os juízos mais pesados contra quem lhe acrescentar ou dela tirar qualquer coisa (Ap 22.18-19).
Os registros mais antigos, tanto dos judeus quanto dos cristãos, mencionam pelo número e pelo nome os livros que compõem as Escrituras do Antigo Testamento, e são exatamente os mesmos livros, em número e em nome, que permanecem até hoje no cânon hebraico. Nenhum foi acrescentado; nenhum foi tirado. Também não temos a menor evidência de que um só capítulo ou parágrafo de qualquer dos livros que chegaram até nós tenha sido acrescentado ou omitido. O mesmo vale para o Novo Testamento: não perdemos nem recebemos um único livro ou capítulo que a verdadeira igreja de Deus tenha considerado divinamente inspirado e canônico. Examinei diligentemente essa questão em todos os relatos que temos da Antiguidade, e em todas as coleções de manuscritos hebraicos e gregos do Antigo e do Novo Testamento, com as suas variantes, que os críticos mais capazes publicaram. Alguns dos principais desses manuscritos eu mesmo colacionei, assim como a maioria, se não todas, das versões antigas. E posso dizer em sã consciência que temos os sagrados oráculos, ao menos na sua soma e substância essenciais, tal como foram entregues por Deus a Moisés e aos profetas, e por Jesus, seus evangelistas e apóstolos à igreja de Cristo. Nada nas variantes dos manuscritos hebraicos e gregos serve para fortalecer qualquer erro de doutrina ou qualquer desvio na prática moral. Está tudo seguro e são; tudo puro e santo. É a lei perfeita do Senhor, que restaura a alma (Sl 19.7); o testemunho do Senhor, que permanece para sempre; e o evangelho genuíno de Jesus Cristo, que pode tornar as pessoas sábias para a salvação pela fé nele (2Tm 3.15). Este é o testemunho de alguém que examinou o assunto do princípio ao fim. E não posso perguntar se esse testemunho não é infinitamente superior às suposições temerárias e ousadas de homens escravos das próprias paixões? Homens que, pela impureza do próprio coração e pela desordem da própria vida, acham que lhes convém que aquilo que se chama palavra de Deus seja falso ou espúrio, porque têm muitas razões para temer a destruição dos ímpios (2Pe 3.7), da qual as Escrituras tratam tão amplamente. Eu poderia acrescentar ainda a superioridade desse testemunho em relação ao daqueles homens ousados e presunçosos que nunca examinaram a questão, e que eram tão incapazes de examinar as correntes que brotaram da fonte quanto de seguir essas correntes até a própria fonte! O que vale o testemunho desses homens contra o testemunho de Deus, de toda a igreja de Cristo através dos séculos e dos homens melhores, mais sábios e mais eruditos que já existiram? Bem se pode dizer aqui, e dizer em triunfo: “O que é que a palha tem a ver com o trigo? diz o Senhor” (Jr 23.28).
Quem são, então, os que gritam: “A Bíblia é uma fábula”? São os que nunca a leram, ou que a leram apenas com o propósito firme de contradizê-la. Certa vez encontrei uma pessoa que dizia não acreditar em uma única palavra do Novo Testamento, do qual, como ela mesma admitiu, nunca tinha lido um só capítulo. Perguntei-lhe se havia lido o Antigo. Respondeu que não! E, no entanto, esse homem teve o atrevimento de rejeitar tudo como impostura! Deus tem misericórdia daqueles cuja ignorância os leva a formar preconceitos contra a verdade, mas confunde os que os adotam por inveja e malícia e se esforçam por transmiti-los aos outros.
Os que conseguem desprezar e ridicularizar este livro sagrado são cegos demais para enxergar os objetos que esta luz brilhante lhes apresenta e sensuais demais para perceber e apreciar as coisas espirituais.
O livro de GÊNESIS é o registro mais antigo do mundo. Contém a história de dois grandes assuntos, a CRIAÇÃO e a PROVIDÊNCIA, e de cada um dá um relato resumido, mas espantosamente minucioso e detalhado. Desse livro quase todos os antigos filósofos, astrônomos, cronologistas e historiadores tiraram os seus dados. E todos os aperfeiçoamentos modernos e todas as descobertas exatas nas diversas artes e ciências só serviram para confirmar os fatos narrados por Moisés e para mostrar que todos os escritores antigos sobre esses assuntos se aproximaram da VERDADE e dos fenômenos da natureza, ou se afastaram deles, na mesma medida em que seguiram a história mosaica.
Podemos dizer com justiça que as obras de Moisés têm sido uma espécie de livro-texto para quase todos os que escreveram sobre geologia, geografia, cronologia, astronomia, história natural, ética, jurisprudência, economia política, teologia, poesia e crítica, do tempo dele até hoje. São livros aos quais os melhores escritores e filósofos da Antiguidade pagã muito devem; livros que foram o texto-base de todos os profetas; livros dos quais os superficiais escritores contra a revelação divina tiraram a sua religião natural e toda a sua excelência moral; livros escritos com toda a força e toda a pureza da língua incomparável em que foram compostos. São, por fim, livros que, pela importância da matéria, pela variedade de informação, pela dignidade de sentimento, pela exatidão dos fatos, pela imparcialidade, pela simplicidade e pela sublimidade da narração, tendendo a aprimorar e enobrecer o intelecto e a melhorar a condição física e moral do ser humano, nunca foram igualados, e só encontram paralelo no EVANGELHO do Filho de Deus! Fonte de misericórdia, justiça, verdade e bondade sem fim! Como os teus dons e favores são desprezados por aqueles que não leem esta lei, e por aqueles que, tendo-a lido, não se tornam moralmente melhores por ela nem se tornam sábios para a salvação!
Se a história de José não fizesse parte das Sagradas Escrituras, teria sido publicada em todas as línguas vivas e lida no mundo inteiro! Mas ela contém “as coisas de Deus”, e contra todas essas coisas “a inclinação da carne é inimizade” (Rm 8.7).
Numerosas profecias, entregues muito tempo antes e guardadas por aqueles que, nos dias em que Cristo esteve na carne, eram os seus inimigos mais ferrenhos, haviam anunciado a sua vinda, descrito a sua pessoa, detalhado os seus sofrimentos, mostrado de antemão a sua morte e ressurreição e predito a propagação e a influência da sua religião sobre a terra. Dessa fonte de luz e salvação procedeu uma nova linhagem de autores inspirados, que brilharam com a luz clara e constante que dele receberam e refletiram o seu esplendor por todo o universo. É digno de nota que, embora os escritores mais numerosos e mais eminentes que já ornaram a república das letras tenham brotado dessa luz de vida e verdade, ele mesmo só se sabe que escreveu uma vez (Jo 8.8), e isso no chão, a respeito de uma pecadora que lhe fora trazida para ser condenada. E o que ele escreveu então ninguém sabe, pois ele não julgou conveniente transmiti-lo à posteridade.
Os fatos que São Lucas menciona (Lc 3.1-2) contribuem muito para confirmar a verdade da história evangélica. O cristianismo difere muito de um sistema filosófico: está fundado na bondade e na autoridade de Deus e é atestado por fatos históricos. Difere também da tradição popular, que ou não teve origem pura ou se perde numa antiguidade desconhecida ou fabulosa. Difere ainda das revelações pagãs e maometanas, que foram fabricadas às escondidas e não tiveram testemunhas. Nesses versículos encontramos as pessoas, os lugares e os tempos marcados com a máxima exatidão. Foi sob os primeiros Césares que se deu a pregação do evangelho, e foi no tempo deles que apareceram os fatos sobre os quais se funda todo o cristianismo, numa época das mais esclarecidas e das mais conhecidas, pela quantidade de registros históricos. Foi na Judeia, onde tudo o que se apresentava como vindo de Deus era examinado com a crítica mais rigorosa e implacável. Ao escrever a história do cristianismo, os evangelistas apelam para certos fatos realizados publicamente em tais lugares, sob o governo e a fiscalização de tais e tais pessoas, em tais tempos determinados. Mil pessoas poderiam ter desmascarado a falsidade, se falsidade houvesse! Esses apelos são feitos; um desafio é lançado ao governo romano e aos governantes e ao povo judeus: uma nova religião foi introduzida em tal lugar, em tal tempo, acompanhada de tais e tais fatos e milagres! Quem pode refutar isso? Todos se calam. Ninguém aparece para fazer sequer uma objeção. A causa da incredulidade e da irreligião está em jogo! Se esses fatos não puderem ser refutados, a religião de Cristo há de triunfar. Ninguém aparece, porque ninguém podia aparecer. Observe-se agora que somente as pessoas daquele tempo poderiam ter refutado essas coisas, se fossem falsas. Elas nunca o tentaram. Portanto, esses fatos são verdades absolutas e incontestáveis. Essa conclusão é necessária. Deverá então alguém abandonar a sua fé em fatos tão atestados porque, mais de mil anos depois, um incrédulo sai do seu canto e se atreve a zombar em público daquilo que a sua alma perversa espera que não seja verdade?
Como é imparcial a história que Deus escreve! Podemos ver, por vários comentaristas, o que o ser humano teria feito se tivesse de relatar os mesmos fatos. A história escrita por Deus registra tanto os vícios quanto as virtudes das pessoas de quem trata. Como é diferente da Bíblia a biografia dos nossos dias! Atos virtuosos que nunca foram praticados, privações voluntárias que nunca foram suportadas, piedade que nunca foi sentida e, numa palavra, vidas que nunca foram vividas são os principais assuntos dos nossos relatos biográficos. Bem se poderiam chamar de Vidas dos Santos, pois aos biografados se atribuem todas as virtudes que podem adornar o caráter humano, quase sem nenhuma falha ou mancha. Já as pessoas mencionadas nos Escritos Sagrados aparecem, em geral, marcadas por sombras profundas. Que conclusão tira uma mente reflexiva, que conhece a natureza humana, ao comparar a biografia das Escrituras com a dos escritores não inspirados? Esta: a história das Escrituras é natural, é verossímil, tem todas as marcas da veracidade, narra circunstâncias que parecem depor contra a sua própria honra, e ainda assim se demora nelas e muitas vezes procura ocasião para REPETI-LAS. É verdadeira! Infalivelmente verdadeira! Nessa conclusão concordam o bom senso, a razão e a crítica. Da biografia em geral, ao contrário, temos de dizer que muitas vezes é antinatural e inverossímil, carece de muitas das marcas essenciais da verdade, evita cuidadosamente mencionar as circunstâncias desonrosas para o biografado e se esforça ardentemente para lançar em sombra profunda as que não pode esconder de todo, ou para transformá-las em virtudes. Isso é notório, e não precisamos ir longe para encontrar muitos exemplos. Desses fatos, uma mente reflexiva tirará esta conclusão geral: uma história imparcial, verdadeira em todos os aspectos, só se pode esperar do próprio Deus.
Os Escritos Sagrados contêm tais provas de origem divina que, ainda que todos os mortos ressuscitassem para convencer um incrédulo das verdades ali declaradas, a convicção não poderia ser maior, nem as provas da divindade e da verdade desses registros sagrados mais evidentes, do que as que eles mesmos oferecem (Lc 16.31).
Como a revelação foi dada. Nos tempos antigos, Deus comunicou as Escrituras a homens santos pela inspiração do seu próprio Espírito. Eles as escreveram com cuidado e as entregaram àqueles a quem eram primeiramente destinadas, e estes as transmitiram de geração em geração, sem acréscimo, supressão ou corrupção deliberada de qualquer espécie.
Em muitos casos, o silêncio das Escrituras não é menos instrutivo do que as suas declarações mais incisivas.
As próprias Escrituras dão evidência suficiente de que a revelação da vontade divina foi dada aos seres humanos das cinco maneiras seguintes:
1. Pela aparição pessoal daquele que é chamado “o Anjo da Aliança” (Ml 3.1) [N. do T.: o hebraico mal’ak significa “anjo” ou “mensageiro”; a NAA traz “o mensageiro da aliança”] e “o Anjo em quem estava o nome de Jeová” (Êx 23.20-21), e que depois foi revelado como o Salvador da humanidade.
2. Por uma voz audível, às vezes acompanhada de manifestações simbólicas.
3. Pelo ministério de anjos, que muitas vezes operavam milagres.
4. Por sonhos e visões da noite, ou por êxtases durante o dia.
5. Mas a maneira mais comum era a inspiração direta, pela ação poderosa de Deus sobre a mente, que lhe dava uma concepção forte e uma persuasão sobrenatural da verdade das coisas que ele revelava ao entendimento.
Por que Deus seguiu uma gradação tão lenta para levar à humanidade o conhecimento necessário da sua vontade e dos interesses dela? Por que, por exemplo, deu um pouco na dispensação patriarcal, um acréscimo na mosaica e a plenitude da bênção na dispensação do evangelho? É verdade que ele poderia ter dado tudo desde o princípio a Adão, a Noé, a Abraão ou a qualquer outro dos patriarcas anteriores ou posteriores ao dilúvio. Mas pode-se afirmar com segurança que isso não teria cumprido o propósito divino com a mesma eficácia.
Deus, assim como a natureza, que é instrumento dele, tem prazer na progressão. Embora as obras de ambos estivessem acabadas em semente desde o princípio, não são trazidas à existência real e completa senão por acréscimos sucessivos. E isso parece acontecer para que as bênçãos que resultam de uma e de outra sejam devidamente valorizadas: enquanto elas se aproximam, as pessoas têm tempo de descobrir as próprias necessidades e, quando são socorridas depois de terem plena consciência da urgência delas, veem e sentem que é justo serem gratas ao seu bondoso Benfeitor.
Se Deus concedesse as suas bênçãos antes que a falta delas fosse realmente sentida, as pessoas não poderiam ser devidamente gratas por receber bênçãos cujo valor não conheceram, por não terem antes sentido a falta delas. Deus dá as suas bênçãos para que sejam devidamente estimadas e para que ele mesmo seja o único objeto da nossa dependência. E alcança esse fim comunicando os seus favores aos poucos, à medida que se sente a necessidade deles. Dá-los todos de uma vez frustraria a sua própria intenção e nos deixaria inconscientes da nossa dependência da sua graça e da nossa dívida para com ela. Por isso, ele vai apresentando as suas várias dispensações de misericórdia e amor à medida que vê as pessoas preparadas para recebê-las e valorizá-las. E, como receber a graça de uma dispensação abre caminho para a seguinte, e a alma se torna assim capaz de visões e comunicações mais amplas, o Ser divino faz cada dispensação superar a anterior. Por isso encontramos uma gradação de dispensações e, em cada uma delas, uma escala progressiva de luz, vida, PODER e santidade.
O uso da revelação. A palavra torah, ou LEI, vem da raiz yarah, que significa “mirar, ensinar, indicar, dirigir, conduzir, guiar, endireitar ou aplanar”. Por esses significados da palavra (e em todos esses sentidos ela é usada na Bíblia) podemos ver de imediato a natureza, as propriedades e o propósito da lei de Deus. Ela é um sistema de INSTRUÇÃO na justiça. Ensina a diferença entre o bem e o mal morais; determina o que é certo e conveniente fazer, e o que se deve deixar de fazer por ser impróprio. Visa continuamente à glória de Deus e à felicidade das suas criaturas. Ensina o verdadeiro conhecimento do verdadeiro Deus e a natureza destruidora do pecado. Mostra a absoluta necessidade de uma expiação, como o único meio pelo qual Deus pode se reconciliar com os transgressores. E, nos seus ritos e cerimônias tão expressivos, aponta para o Filho de Deus, até que ele viesse para tirar a iniquidade pelo sacrifício de si mesmo. É uma revelação da sabedoria e da bondade de Deus, admiravelmente adequada para dirigir o coração humano à verdade, guiar os seus pés no caminho da vida e tornar reto, aplanado e plano o caminho que leva a Deus, no qual a alma tem de andar para chegar à vida eterna. É a fonte de onde vieram todas as noções corretas a respeito de Deus: das suas perfeições, da sua providência, graça, justiça, santidade, onisciência e onipotência. E é a origem de onde se deduziram todos os verdadeiros princípios do direito e da justiça. O estudo piedoso dessa lei foi o grande meio de formar os maiores reis, os estadistas mais esclarecidos, os poetas mais talentosos e os homens mais santos e úteis que já ornaram o mundo. Só é superada pelo evangelho de Jesus Cristo, que é ao mesmo tempo o cumprimento dos seus ritos e predições e a realização do seu grande plano e esboço. Como sistema de ensino ou instrução, é o mais soberano e o mais eficaz, pois por ela vem o conhecimento do pecado (Rm 3.20), e só ela é o guardião que conduz as pessoas a Cristo, para que sejam justificadas pela fé (Gl 3.24). Quem pode determinar com exatidão o grau de desvio de uma linha torta sem lhe aplicar uma linha reta? E o pecado, com todas as suas voltas, curvas e enredos, poderia jamais ter sido verdadeiramente conhecido se Deus não tivesse dado ao ser humano essa régua perfeita para julgar? As nações que reconhecem essa revelação de Deus têm, na medida em que atendem aos seus ditames, as leis mais sábias, mais puras, mais equitativas e mais benéficas. As nações que não a recebem têm leis ao mesmo tempo extremamente severas e extremamente indulgentes. Nesses Estados não se conhecem as devidas distinções entre o bem e o mal morais. Por isso, as penas não se fundam nos princípios da justiça, que pesa a proporção exata da torpeza moral, mas nos caprichos mais arbitrários, que em muitos casos mostram a maior indulgência para com os crimes mais graves, enquanto punem com rigor e crueldade as faltas menores. Qual é a consequência? Exatamente o que se poderia esperar. Quando a vontade e o capricho de um homem tomam o lugar da sabedoria de Deus, o governo se torna opressor, e o povo, muitas vezes levado ao desespero, se levanta em massa e o derruba, de modo que o monarca, por mais poderoso que seja por algum tempo, raramente vive a metade dos seus dias. Foi assim na Grécia, em Roma e na maior parte dos governos asiáticos, e é assim até hoje em todas as nações do mundo onde o governante é despótico e as leis não são formadas segundo a revelação de Deus.
Entre os romanos, a palavra lex, “lei”, tem sido derivada de lego, “eu leio”, porque, quando se fazia uma lei ou estatuto, ele era afixado nos lugares mais públicos, para que todos o vissem, lessem e conhecessem, a fim de que os que deviam obedecer às leis não as transgredissem por ignorância e assim incorressem na pena. Isso se chamava promulgatio legis, como se fosse provulgatio, “a promulgação da lei”, isto é, a sua apresentação ao povo comum. Ou então de ligo, “eu ligo”, porque a lei liga as pessoas à estrita observância dos seus preceitos. Os gregos chamam a lei de nomos, de nemo, “dividir, distribuir, servir ou prestar serviço”, porque a lei divide a todos os seus justos direitos, designa ou distribui a cada um o seu dever e assim serve ou presta serviço ao bem-estar do indivíduo e à sustentação da sociedade. Por isso, onde não há leis, ou onde as leis são desiguais e injustas, tudo é confusão, violência, rapina, opressão, anarquia e ruína.
“A espada do Espírito, que é a palavra de Deus” (Ef 6.17), corta em todas as direções. Convence do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8); penetra entre as juntas e as medulas, divide alma e espírito, disseca toda a mente e expõe uma anatomia ordenada da alma (Hb 4.12). Não apenas repreende e expõe o pecado, mas fere de morte os ímpios, indicando e determinando o castigo que haverão de sofrer.
“É um crítico das inclinações e sugestões do coração”. [N. do T.: tradução do próprio Clarke para o final de Hb 4.12, onde a NAA diz “é apta para julgar os pensamentos e propósitos do coração”. O grego diz kritikós, de onde o “crítico” de Clarke.] Quantos já sentiram essa propriedade da palavra de Deus quando ela foi fielmente pregada! Quantas vezes aconteceu de alguém ver todo o seu próprio caráter, e algumas das ações mais secretas da sua vida, expostos como que à vista pública pelo pregador, sem que um conhecesse o outro! Alguns, expostos dessa maneira, chegaram a supor que os vizinhos tinham informado o pregador às escondidas sobre o seu caráter e a sua conduta. Mas foi a palavra de Deus que, pela direção e pela força do Espírito divino, os sondou dessa forma, foi “um examinador crítico das inclinações e sugestões do seu coração” e os perseguiu por todos os seus caminhos públicos e privados. Todo verdadeiro ministro do evangelho já testemunhou efeitos como esses no seu ministério, repetidas vezes.
A lei de Deus é um código de instrução no qual Deus se dá a conhecer na santidade e na justiça da sua natureza, no seu desagrado com o pecado e no seu amor à justiça, e também se manifesta na grandeza da sua misericórdia e na sua prontidão para salvar. Numa palavra, é o sistema de instrução de Deus, pelo qual as pessoas aprendem a conhecer o seu Criador e a si mesmas, são orientadas a andar de modo a agradar a Deus, são resgatadas dos caminhos tortos e são guiadas no caminho que leva à vida eterna. Isto é a Bíblia: O Livro por excelência; o Livro feito por Deus; o único livro sem mancha nem erro; o Livro que contém a VERDADE, toda a VERDADE e nada mais que a VERDADE. Sem ele, saberíamos pouco de Deus, menos ainda de nós mesmos e nada do céu, da ressurreição ou do estado futuro. É o Livro que contém a maior soma de saber já reunida; o Livro do qual todos os sábios da Antiguidade tiraram, direta ou indiretamente, o seu conhecimento; o Livro por meio do qual as nações que mais o estudaram e melhor o conheceram formaram os códigos de leis mais sábios e se tornaram as nações mais sábias e mais poderosas da terra.
A revelação que Deus deu de si mesmo é um sistema perfeito de instrução. Não revela mais do que devemos saber e não retém nada que nos seria proveitoso. Dá-nos uma visão adequada da natureza e da autoridade do Legislador. Mostra o direito que ele tem de nos governar.
Todas as leis bem constituídas e sabiamente promulgadas são para o benefício dos súditos. Isso vale de modo especial para a lei de Deus. Ele não precisa da nossa lealdade; não tem falta do nosso tributo. É infinitamente perfeito e não precisa de nada que possamos trazer. Mas havia a maior necessidade dessa lei. Quem está sem lei está sem razão e sem regra. Não tem linha por onde andar; nada que o ensine, contenha ou corrija. É desviado pelas próprias paixões e vive para a própria ruína e destruição. Deus, na sua misericórdia, deu-lhe uma lei para o prender, instruir e conduzir. Nessa lei, ele mostrou ao ser humano ao mesmo tempo o seu dever e o seu interesse.
A revelação de Deus é a mente de Deus dada a conhecer ao ser humano, e a mente não é mais fiel a si mesma do que os Escritos Inspirados o são à mente e ao propósito de Deus.
Todos os mandamentos de Deus levam à pureza, ordenam a pureza e apontam para a oferta sacrificial pela qual se alcançam a purificação e a limpeza.
Como é verdadeira esta palavra: “A lei do Senhor é PERFEITA!” (Sl 19.7). Num espaço pequeno, e num detalhamento minucioso, ela abrange tudo o que serve para instruir, dirigir, convencer, corrigir e fortalecer a mente humana. Tudo o que tende a corromper ou prejudicar o ser humano, ela proíbe; tudo o que serve para consolá-lo, promover e garantir os seus melhores interesses, ela ordena. Ela o considera em todas as situações possíveis, observa-o em todas as suas relações e provê para a sua felicidade presente e eterna. Como a alma humana está contaminada e tende à contaminação, a grande doutrina da lei é “Santidade ao Senhor” (Êx 28.36). É isso que ela tem constantemente em vista em todos os seus mandamentos, preceitos, ordenanças, ritos e cerimônias. E com que força diz em tudo isso: “Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e com toda a sua força”, e “Ame o seu próximo como você ama a si mesmo” (Mc 12.30-31)! Esta é a doutrina principal da Bíblia, e ela se cumprirá em todos os que creem, porque “o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10.4). Leitor, engrandeça a Deus pela sua lei, porque por ela vem o conhecimento do pecado; e engrandeça-o pelo seu evangelho, porque por ele vem a cura do pecado. Que a lei seja o seu guardião para conduzir você a Cristo, para que você seja justificado pela fé, para que a exigência da lei se cumpra em você e para que você não viva segundo a carne, mas segundo o Espírito (Rm 8.4). A lei não deve ser vista como um sistema de ritos e cerimônias exteriores, nem mesmo como uma regra de ação moral. É um sistema espiritual: alcança os propósitos, pensamentos, disposições e desejos mais escondidos do coração e da alma, e repreende e condena, sem esperança de adiamento ou perdão, tudo o que é contrário à verdade e à retidão eternas. A lei não podia perdoar; a lei não podia santificar; a lei não podia dispensar as suas próprias exigências. Ela é a regra da justiça e, portanto, tem de condenar a injustiça. Essa é a sua natureza inalterável. Se tivesse havido obediência perfeita aos seus ditames, em vez de condenar, ela teria aplaudido e recompensado. Mas, como a carne, o princípio carnal e rebelde, prevaleceu e houve transgressão, ela se tornou fraca, incapaz de desfazer essa obra da carne e de levar o pecador a um estado de perdão e aceitação diante de Deus (Rm 8.3).
Onde a lei termina, Cristo começa. A lei termina com sacrifícios representativos; Cristo começa com a oferta real. A lei é o nosso guardião para nos conduzir a Cristo; ela não pode salvar, mas nos deixa à porta dele, onde unicamente se encontra a salvação. Cristo, como sacrifício expiatório pelo pecado, era o grande objeto de todo o código sacrificial de Moisés; a sua paixão e morte foram o cumprimento do grande objetivo e propósito desse código. Separe-se da lei essa morte sacrificial de Cristo, e a lei não tem nenhum sentido, porque “é impossível que o sangue de touros e de bodes remova pecados” (Hb 10.4).
Tire-se da Bíblia Jesus, a sua graça, o seu Espírito e a sua religião, e ela fica sem alcance, sem propósito, sem objetivo e sem fim.
O evangelho é o método de Deus para salvar um mundo perdido, de uma maneira que esse mundo jamais poderia ter imaginado. Não há nada de humano nele; é todo verdadeira e gloriosamente divino, essencialmente necessário à salvação humana e plenamente adequado aos propósitos para os quais foi instituído.
Toda língua está mais ou menos confundida, menos a da verdade eterna. Esta é sempre a mesma. Em todos os países, climas e épocas, a língua da verdade, como o Deus de quem procede, é imutável. Fala em todas as línguas, a todas as nações e em todos os corações: “Há um só DEUS, a Fonte da bondade, da justiça e da verdade. SER HUMANO, você é criatura dele, ignorante, fraca e dependente; mas ele é todo-suficiente, não odeia nada do que fez, ama você e pode e quer salvá-lo. Volte para ele e dependa dele; tome a sua vontade revelada como a sua lei, submeta-se à autoridade dele e aceite a vida eterna nos termos propostos na sua palavra, e você jamais perecerá nem será desgraçado”. Essa língua da verdade, todos os construtores de Babel, antigos e modernos, não conseguiram confundir, apesar das suas repetidas tentativas. Quanto as pessoas se esforçaram para fazer essa língua vestir as suas próprias ideias e assim obrigar Deus a falar segundo o orgulho, o preconceito e as piores paixões humanas! Mas, por um justo juízo de Deus, a língua de todos os que tentaram fazer isso foi confundida, e “a palavra do Senhor permanece para sempre” (1Pe 1.25).
Todos devem conhecer as Escrituras. As Santas Escrituras são suficientemente claras, mas o coração humano está obscurecido pelo pecado. A Bíblia não precisa tanto de um comentário quanto a alma precisa da luz do Espírito Santo. Se não fosse a escuridão do intelecto humano, as coisas relativas à salvação seriam facilmente compreendidas.
Nada pode ser mais absurdo e monstruoso do que chamar as pessoas a abraçar as doutrinas do cristianismo e recusar-lhes a oportunidade de consultar o livro em que elas estão contidas. As pessoas a quem se nega o uso dos Escritos Sagrados podem ser moldadas de diversas formas e maneiras, e levadas mecanicamente a crer em certos dogmas e a praticar certos atos religiosos. Mas, sem o uso das Escrituras, nunca podem ser cristãos esclarecidos: não examinam as Escrituras e, portanto, não podem conhecer aquele de quem essas Escrituras testificam (Jo 5.39).
1. “Para um breve relato do assunto, do autor e da data de cada livro das Santas Escrituras, veja-se o Prefácio a cada um no Comentário do Dr. Clarke, e também a sua Clavis Biblica, obra que contém um tesouro de informações importantíssimas num espaço muito pequeno. S. D.” ↩