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Introdução de Samuel Dunn

A vida de Adam Clarke

por Samuel Dunn · Páginas vii a 36 da edição de 1835

ADAM CLARKE, de cujos volumosos escritos foram tirados os trechos deste volume, nasceu no povoado de Moybeg, perto de Coleraine, no norte da Irlanda. Pouco antes da sua morte, ele me contou que nunca tinha conseguido averiguar o ano do seu nascimento: a sua mãe afirmava que ele nascera em 1760, e o seu pai sustentava que fora em 1763. O sr. John Clarke, pai de Adam, era pessoa de cultura literária muito respeitável; foi educado com vistas à Igreja e estudou sucessivamente em Edimburgo e em Glasgow, onde se graduou mestre em artes, e depois entrou como sizar no Trinity College, em Dublin, num tempo em que só o mérito clássico podia conseguir tal admissão. [N. do T.: sizar, estudante pobre que recebia auxílio do colégio em troca de serviços.] Era de ascendência inglesa, e a sra. Clarke, escocesa. Tiveram dois filhos e cinco filhas.

Adam era três anos mais novo que o seu irmão Tracy e de modo nenhum foi uma criança mimada. Era sempre corrigido quando merecia e cedo se acostumou às durezas da vida. Por isso foi sempre grato e costumava dizer: “O meu Pai celestial viu que eu provavelmente encontraria muitas rajadas rudes na jornada da vida e me preparou na infância para a sorte que a sua Providência me destinava; de modo que, pela sua misericórdia, pude levar uma infância proveitosa até os cabelos brancos. Ele sabia que eu teria de caminhar sozinho pela vida e por isso me pôs bem cedo de pé, para que eu fosse preparado por uma longa prática para a obra que estava designado a realizar”. Por volta dos cinco anos de idade, ele pegou varíola por contágio natural; mas, embora coberto de pústulas da cabeça aos pés, tinha o costume de fugir da sua cama muito quente sempre que se apresentava uma oportunidade e de correr nu ao ar livre. Adotando esse “regime frio”, teve um desfecho misericordioso da doença e escapou sem uma só marca.

O sr. Clarke mantinha uma escola de inglês e de clássicos e também tinha uma pequena fazenda. Esta era cultivada pelos seus filhos, Adam e Tracy, um dos quais cuidava da fazenda e o outro ia à escola, alternadamente durante o dia; e assim dividiam entre si a instrução que um só menino recebe em circunstâncias comuns. Procuravam suprir essa falta ensaiando cada um para o outro, ao sair da escola, tudo o que tinha aprendido naquele dia.

Adam era um menino bastante lento e tinha uns oito anos de idade antes de ser capaz de “juntar vogais e consoantes”. Tendo, numa ocasião, falhado repetidas vezes na tentativa de decorar a sua lição, atirou o livro ao chão em desespero; e então as ameaças do professor, que lhe disse que ele seria mendigo a vida toda, junto com as zombarias dos outros alunos, o despertaram como de uma letargia. Sentiu como se alguma coisa se tivesse rompido dentro dele; num momento a sua memória ficou toda iluminada. “O quê?”, disse ele consigo mesmo, “hei de ser sempre um burro e o alvo dos insultos desses sujeitos?” Retomou o livro, venceu a lição, subiu depressa, repetiu-a sem errar uma palavra e prosseguiu com uma facilidade que nunca tinha conhecido. Logo se tornou apaixonado pela leitura. Muitas vezes se retirava para um bosque perto da escola e ali lia as Éclogas e as Geórgicas de Virgílio, tendo diante dos olhos ilustrações vivas delas. Também se divertia compondo hinos e pondo em verso os Salmos de Davi e outras partes do Volume Sagrado. Logo dominou toda a mitologia e a biografia pagãs. Tornou-se completo senhor do Dicionário Clássico de Littleton.

Com apenas seis anos, o jovem Clarke teve impressões religiosas. Um dia, quando ele e outro menino, de quem era muito amigo, estavam sentados num barranco, puseram-se a conversar sobre a natureza terrível do castigo eterno. Ficaram tão comovidos com esses pensamentos que choraram amargamente; e oraram a Deus para que perdoasse os seus pecados, fazendo mútuas promessas de emenda. Adam contou à mãe o que sentia e lhe disse que esperava daí em diante não dizer palavrões e obedecer sempre aos pais. Ela ficou profundamente comovida, encorajou-o e orou por ele. Os seus pais eram de denominações diferentes: o pai era anglicano, e a mãe, presbiteriana, embora não calvinista. A ela ele deveu principalmente o seu primeiro conhecimento religioso e até as suas primeiras impressões religiosas. Ela tinha o costume, especialmente no dia do Senhor, de ler para os filhos, catequizá-los e cantar e orar com eles.

Numa ocasião, tendo Adam desobedecido à mãe, ela correu imediatamente à Bíblia e abriu em Provérbios 30.17, que leu e comentou do modo mais tremendo: “Os olhos de quem zomba do pai ou de quem nega obediência à sua mãe, corvos do vale os arrancarão e pelos filhotes da águia serão comidos”. Ele ficou de coração ferido, pensando que as palavras tinham sido enviadas diretamente do céu! Saiu para o campo muito aflito e estava meditando nessa terrível ameaça do desagrado divino quando o crocitar rouco de um corvo soou à sua consciência um alarme mais terrível que o grito de fogo à meia-noite. Olhou para cima e logo avistou essa ave de tão mau agouro; e, supondo realmente que era o corvo de que o texto falava, que vinha arrancar-lhe os olhos, tapou-os com as mãos com a maior rapidez e aflição e correu para casa tão depressa quanto lhe permitia o seu estado de susto e perturbação salutares, para escapar da vingança iminente!

Os pais o mandaram para uma escola de canto, onde, depois de algum tempo, recebeu instrução de dança além de música. Por essa arte sedutora logo se apaixonou intensamente; e diz que achou nela uma influência pervertedora, um mal moral sem mistura; e até a morte, em todas as ocasiões oportunas, levantou a voz contra esse ramo da educação elegante.

No ano de 1777, os pregadores metodistas visitaram a paróquia em que a família Clarke morava. Adam foi ouvi-los; e, sob a sua pregação, especialmente sob a do sr. Thomas Barber, a sua mente foi iluminada para ver o seu perigo, e ele desejou ardentemente fugir da ira que está por vir (cf. Mt 3.7). Abandonou o seu antigo mau caminho, deixou os seus velhos companheiros e começou a frequentar a classe. Depois de uma longa noite de tristeza, aproximou-se o dia do livramento; e nunca esquecerei o sentimento com que, há uns dez anos, ele contou esta parte da sua experiência religiosa num grupo de amigos, entre os quais havia vários jovens ainda não decididamente religiosos; foi em benefício deles, como me disse depois, que ele entrou tão largamente nas circunstâncias que acompanharam a sua conversão. Descreveu o campo para onde foi com a consciência pesadamente carregada de culpa e o lugar onde se ajoelhou e lutou com Deus em oração até as suas forças se esgotarem. Os céus pareciam de bronze: ele não encontrava acesso ao trono da graça. Concluindo que não havia misericórdia para ele, levantou-se por fim em desespero, decidido a “cessar a luta agonizante”. Ao se retirar do lugar, ouviu, ou pensou ouvir, uma voz que lhe dizia: “Experimente JESUS!”. Ele não foi desobediente, mas voltou imediatamente ao mesmo lugar, invocou ali a Jesus, e a sua tristeza se transformou instantaneamente em alegria. Um brilho de felicidade pareceu percorrer todo o seu ser; toda a culpa e toda a condenação tinham desaparecido. Examinou a consciência e viu que ela já não era um registro de pecados contra Deus. Olhou para o céu, e tudo era luz do sol. Procurou a sua aflição, mas não conseguiu encontrá-la. O seu coração estava leve, a sua força física e a sua disposição voltaram, e ele podia, mais ligeiro do que nunca, saltar como uma corça. Sentiu uma passagem súbita das trevas para a luz, da culpa e do medo opressivo para a confiança e a paz. Agora podia se aproximar de Deus com mais confiança do que jamais pudera se aproximar do seu pai terreno: tinha liberdade de acesso e liberdade de palavra.

Com essa alegria de alma, recebeu também grande ampliação intelectual. Podia prosseguir os seus estudos literários com muito mais facilidade. Agora aprendia num dia mais do que antes conseguia aprender num mês. A sua mente se ampliou para receber qualquer coisa útil. Viu que a religião era a porta do verdadeiro saber e da verdadeira ciência e logo começou, além das suas outras ocupações, a se dedicar à astronomia, à filosofia natural e à matemática.

Os pais o destinaram a princípio à igreja e depois à profissão médica; mas a estreiteza dos seus recursos financeiros apresentou inúmeros obstáculos, que eles não puderam vencer. Concluiu-se então que ele seria mestre-escola; mas para isso ele não tinha inclinação nenhuma. Foi por fim mandado ao sr. Francis Bennett, comerciante de linho de Coleraine, parente dos seus pais, que se tinha proposto a recebê-lo em condições vantajosas.

Deve-se mencionar aqui que o biografado destas Memórias, na sua meninice, escapou por um triz de morte repentina duas vezes. A primeira foi uma queda grave de um cavalo: um saco de grãos, que ele não conseguira equilibrar sobre o animal, caiu com toda a força sobre ele, e, como as suas costas bateram numa pedra pontuda, ele foi levantado aparentemente morto. Em umas vinte e quatro horas foi levado para casa e em pouco tempo se restabeleceu completamente. A segunda foi de morrer afogado: tendo imprudentemente, ao cavalgar a égua do pai para lavá-la num braço de mar, levado o animal para onde não dava pé, foram arrastados além da arrebentação para o mar alto, onde ambos submergiram num instante. Mas aquele Deus a quem “as ondas obedecem”, e que o destinava a coisas de grande e alta importância, fez que uma onda depois da outra lhe prestasse o serviço benfazejo de rolá-lo até a praia antes que a centelha vital se apagasse de todo.

Mal o amor de Deus foi derramado no seu coração (cf. Rm 5.5), ele sentiu uma compaixão ansiosa, uma caridade ardente, pelos seus amigos e pelo seu próximo. Não só induziu os pais a ter culto doméstico de manhã e à noite todos os dias da semana, além do domingo, como já costumavam fazer, mas também consentiu, embora fosse uma cruz pesada, em dirigi-lo ele mesmo regularmente. Teve, porém, a sua recompensa: todos os seus parentes se tornaram ouvintes dos metodistas, e a maioria deles membros da sociedade. Começou então a exortar os vizinhos a se converterem a Deus. No domingo, ia regularmente, com qualquer tempo, a uma distância de mais de seis milhas, para frequentar uma classe que se reunia tão cedo que, no inverno, ele tinha de sair duas horas antes do amanhecer. Terminada a classe, seguia para o povoado mais próximo e, entrando pela primeira porta aberta, dizia: “Paz seja nesta casa!” (Lc 10.5). Se lhe davam licença, chamava os vizinhos, orava e fazia uma breve exortação. Feito isso, ia para outro povoado e repetia o mesmo plano, e assim pelo dia afora, sem jamais encontrar uma recusa direta. A sua juventude e a sua grande seriedade causavam uma impressão favorável, que as suas orações e exortações tendiam a aprofundar. Desse modo, não raro visitava nove ou dez povoados num só dia.

Depois que se mudou para Coleraine, ele e o seu patrão se deram muito bem por algum tempo, e o sr. Bennett estava muito satisfeito com ele. Ao sr. Henry Moore, que conhecia pessoalmente o sr. Bennett, devemos a seguinte informação: “O sr. Bennett e o jovem Clarke estavam um dia ocupados em medir uma peça de linho, em preparação para a grande feira de Dublin. Viram que aquela peça em particular tinha algumas polegadas a menos de uma jarda no fim. ‘Vamos, Adam’, diz o sr. Bennett, ‘segure e puxe contra mim, e logo a faremos chegar à jarda.’ Mas ele mal sabia com quem estava tratando. Adam deixou cair o linho no chão e ficou parado olhando como alguém entorpecido. ‘Que foi?’, disse o sr. Bennett. ‘Senhor’, respondeu ele, ‘não posso fazer isso: acho que é uma coisa errada.’ O sr. Bennett insistiu que isso se fazia todos os dias, que não deixaria o linho nem um pouco pior e que o processo pelo qual ele tinha passado o fizera encolher um pouco; e concluiu mandando que ele segurasse! ‘Não’, diz Adam, ‘não!’ O sr. Bennett era um homem muito plácido, e entraram calmamente em discussão. Por fim, ele foi obrigado a desistir; Adam não consentiu em mexer na peça; achava que não era honesto. Não se ajustava ao padrão da sua consciência.” Ele ficou com o sr. Bennett cerca de um ano, sem ter sido contratado como aprendiz, e depois se separou dele do modo mais amigável.

Pouco depois disso, recebeu um convite para visitar o sr. Bredin, um dos pregadores, então no lado de Londonderry do circuito. No dia seguinte à sua chegada, o sr. B. pediu que ele pregasse e tomasse um texto. Isso ele ainda não tinha tentado e, consciente da sua importância, objetou; mas, como o amigo insistisse fortemente, por fim cedeu e pregou o seu primeiro sermão em New Buildings, um povoado a cinco milhas de Derry, em 19 de junho de 1782, sobre 1João 5.19: “Sabemos que somos de Deus e que o mundo inteiro jaz no Maligno”. Os ouvintes em geral ficaram tão satisfeitos que lhe pediram que pregasse para eles na manhã seguinte às cinco. Ele consentiu e, durante a sua curta estada, pregou cinco vezes. O sr. Bredin, crendo que o seu jovem amigo era chamado por Deus à obra do ministério, escreveu ao sr. Wesley sobre ele, e este imediatamente se ofereceu para receber Adam na Escola de Kingswood, perto de Bristol. Quando essa proposta foi comunicada aos pais, eles ficaram muito indignados. O pai não queria nem falar com ele nem vê-lo. A mãe lhe disse que, se ele os deixasse, iria com a maldição dela e não com a sua bênção. Ele recorreu ao trono da graça, e Deus o ouviu. Os pais se convenceram de que ele tinha outra obra a fazer e lhe deram permissão para deixá-los. Ele embarcou em Londonderry no dia 17 de agosto de 1782, levando como provisão para a viagem um pão e uma libra de queijo, e chegou a Liverpool em dois dias. Viajou de diligência até Bristol; e, na manhã seguinte, 25 de agosto, com apenas três meios pence no bolso, foi a pé até Kingswood.

O tratamento que recebeu ali do diretor e da sua esposa foi muito duro, e exatamente o contrário do que esperava; mas durou apenas um mês e dois dias, trinta e um dias a mais do que devia, se Deus não tivesse querido dispor de outro modo. O sr. Wesley, porém, voltou em poucas semanas da Cornualha e então mandou chamar Adam. “Fui a Bristol”, diz ele, “e vi o sr. Rankin, que me levou ao gabinete do sr. Wesley, ao lado do grande saguão das salas sobre a capela de Broadmead. Ele bateu à porta, que foi aberta por esse homem verdadeiramente apostólico; o sr. Rankin se retirou. O sr. Wesley tomou-me bondosamente pela mão e perguntou-me quanto tempo fazia que eu tinha deixado a Irlanda. A nossa conversa foi curta. Ele disse: ‘Bem, irmão Clarke, deseja dedicar-se inteiramente à obra de Deus?’. Respondi: ‘Senhor, desejo fazer e ser o que agradar a Deus!’. Ele então disse: ‘Precisamos de um pregador para Bradford (Wiltshire); esteja pronto para ir para lá; vou para o interior e lhe direi quando deverá ir’. Depois se voltou para mim, pôs as mãos sobre a minha cabeça e passou alguns momentos orando a Deus para que me abençoasse e me preservasse e me desse êxito na obra para a qual eu era chamado.”

O sr. Clarke começou o trabalho regular de pregador itinerante metodista em 26 de setembro de 1782, tendo um conhecimento razoável das Escrituras e um coração cheio de zelo pela salvação das almas; e, embora tivesse a aparência de um “menino”, era tão prudente e profundamente sério que “ninguém desprezava a sua juventude” (cf. 1Tm 4.12). Almas foram despertadas, e muitos jovens especialmente começaram a perguntar com seriedade pelo caminho da salvação. O circuito era muito extenso, abrangendo nada menos que trinta e uma cidades e povoados, e ele tinha de pregar e viajar várias milhas todos os dias, além de atender a vários outros deveres; contudo, tal era a sua sede de saber que aproveitava toda oportunidade de cultivar a mente, levantando-se cedo, lendo a cavalo e “nunca desperdiçando o seu tempo”. Mas aconteceu nesse período uma circunstância que quase arruinou todos os seus progressos literários. Na sala dos pregadores em Motcombe, perto de Shaftesbury, vendo uma frase latina na parede, ele escreveu outra, de Virgílio, que confirmava a primeira. Um dos seus colegas, o sr. J. A., acrescentou: “Escreveu isso para nos mostrar que sabe escrever latim? Que vergonha! Mande o orgulho para o inferno, de onde veio. Ó jovem! Aproveite o seu tempo! A eternidade está próxima”. Essa efusão ridícula, provavelmente fruto da inveja, teve tal efeito na mente do sr. Clarke que, num momento de forte tentação, ele se ajoelhou no meio da sala e prometeu solenemente a Deus que nunca mais mexeria com grego ou latim enquanto vivesse! Esse voto precipitado ele cumpriu durante quatro anos, quando se arrependeu amargamente dele, pediu perdão a Deus e recomeçou o estudo dessas línguas.

Nesse ano leu a Carta sobre o chá do sr. Wesley e resolveu que não beberia chá nem café até poder responder aos seus argumentos de modo satisfatório para si mesmo. Essa resolução ele manteve até o fim da vida.

Na Conferência seguinte foi admitido em plena conexão e depois designado para o circuito de Norwich, que naquele tempo se estendia por partes consideráveis de Norfolk e Suffolk. A religião estava num nível extremamente baixo, e quase não passava um domingo sem tumultos na capela metodista. Durante um inverno extraordinariamente rigoroso, ele sofreu muitas privações, dormindo muitas vezes em sótãos e em anexos e sendo obrigado a viver de alimento muito escasso.

De Norwich ele foi, em 1784, para St. Austell, na Cornualha, que também era um circuito muito pesado: os lugares eram numerosos, e ele tinha de pregar quase todas as semanas do ano ao ar livre, às vezes com a chuva caindo a cântaros e com a neve funda no chão. “Mas a prosperidade do metodismo tornava tudo agradável.” Irrompeu uma chama celestial, e grande número de pessoas se uniu à sociedade. Entre elas estava Samuel Drew, que então terminava o seu aprendizado de sapateiro: “Um homem”, diz o sr. C., “de simplicidade primitiva de costumes, amabilidade de disposição, piedade para com Deus e benevolência para com os homens raramente igualadas; e, quanto ao alcance do pensamento, à agudeza do discernimento, à pureza da linguagem e à eloquência varonil, insuperável em qualquer dos caminhos comuns da vida. Em suma, consideradas as suas circunstâncias e o modo da sua educação, é um daqueles prodígios da natureza e da graça que Deus raramente exibe, mas que servem para manter o elo entre os que estão confinados em casas de barro, cujos fundamentos estão no pó, e os seres de ordem superior naquelas regiões onde a enfermidade não pode entrar e onde a luz do conhecimento não sofre diminuição nem eclipse”. Por elogioso que seja isso, posso dar testemunho da sua exatidão. Conheci bem o sr. D., recebi dele muitas lições úteis, estimei-o enquanto viveu e agora reverencio profundamente a sua memória. Ouvi-o muitas vezes, e ao meu venerável pai, com outros metodistas idosos do meu circuito natal, falar da popularidade sem limites do sr. C. naqueles primeiros tempos: às vezes ele era obrigado, quando a capela estava apinhada, a entrar pela janela e a se arrastar de mãos e joelhos por sobre as cabeças e os ombros do povo para chegar ao púlpito. A morte do Doutor foi um golpe duro para o sr. D.; ele lhe sobreviveu só alguns meses; uniram-se então

Original Tradução
“In those Elysian seats, “Naquelas moradas elísias,
Where Jonathan his David meets.” onde Jônatas encontra o seu Davi.”

[N. do T.: versos de Charles Wesley, Funeral Hymns (1759), hino VI, “Another” (o segundo sobre a morte de John Hutchinson, 1754), estrofe 8; Dunn adapta o primeiro verso, que no hino diz Repos’d in those Elysian seats.]

Em 1785 o sr. Clarke foi designado para Plymouth Dock (agora chamada Devonport), onde a sociedade dobrou no decorrer do ano. Ali James Hore, Esq., lhe emprestou a Cyclopaedia de Chambers, em dois volumes in-fólio. Ele a leu atentamente, assimilou quase todos os assuntos nela tratados e pôs o conjunto a serviço do seu trabalho ministerial. Obteve também, por empréstimo da srta. Kennicott, a edição da Bíblia hebraica do seu irmão (o célebre Dr. Kennicott), em dois volumes in-fólio, com variantes de quase setecentos manuscritos e das primeiras edições impressas. Esse livro aumentou muito a sua sede de um conhecimento melhor da crítica bíblica.

Os três anos seguintes ele passou nas Ilhas Normandas. Ali obteve muita ajuda da biblioteca pública de St. Helier, onde passava a maior parte das horas livres lendo e cotejando os textos originais na Bíblia Poliglota de Walton, particularmente o hebraico, o samaritano, o caldeu, o siríaco, a Vulgata e a Septuaginta. E, antes de partir, pôde comprar uma Poliglota para si, com dez libras que recebera numa carta de uma pessoa de quem não esperava receber nada desse tipo. Mas, o que lhe foi mais agradável, a palavra do Senhor se propagou e foi glorificada (cf. 2Ts 3.1). Entre os convertidos estava um soldado que tinha sido escravo da embriaguez. Numa manhã, tendo se embriagado antes das cinco horas, ele andou a esmo até Les Terres, onde o sr. C. estava pregando, e ficou profundamente convencido da sua condição perdida. No fim do culto, tomou o sr. C. pela mão e, com as lágrimas correndo pelo rosto, entre a embriaguez e a angústia, disse: “Ó senhor! Eu sei que o senhor é um homem possuído pelo Espírito de Deus!”. Foi para casa e, depois de três dias de agonia, Deus, em terna compaixão, pôs a sua alma em liberdade.

Enquanto esteve nesse posto, teve vários livramentos muito notáveis: uma ou duas vezes das mãos de uma turba furiosa; outra vez dos efeitos fatais do frio intenso, ao andar pela neve funda; e uma vez de uma sepultura de água, quando estava num pequeno barco, durante uma tempestade tremenda, ao largo de Alderney.

Em 17 de abril de 1788, o sr. Clarke se casou com a srta. Mary Cooke, filha mais velha do sr. John Cooke, fabricante de tecidos de Trowbridge. Numa comunicação particular, ele diz: “Antes de tomar pela mão a minha amada Mary, que tinha sido criada com todo o conforto e delicadeza, perguntei-lhe: ‘Como estou à disposição do sr. Wesley e da Conferência, e eles podem me mandar para onde quiserem, você irá comigo para onde quer que eu seja mandado?’. ‘Sim; se eu o aceito, aceito-o como ministro de Cristo e irei com você até os confins da terra.’ E o primeiro passo que ela deu foi comigo na minha missão às Ilhas Normandas”. Como a sra. C. ainda vive, basta dizer que, durante os mais de quarenta e dois anos em que estiveram unidos, ela mostrou, em todas as várias circunstâncias por que passaram, que era a mulher digna de ser a esposa de Adam Clarke. Seis filhos e seis filhas foram o fruto do seu casamento. A srta. Anne Cooke, uma das irmãs da sra. Clarke, tornou-se esposa de Joseph Butterworth, Esq., e, com o marido, foi levada a Deus por meio do sr. e da sra. Clarke; e durante muitos anos, numa posição muito elevada, manifestou em todas as coisas a beleza da doutrina de Deus, seu Salvador (cf. Tt 2.10). Em 1789 o sr. Clarke foi designado superintendente do circuito de Bristol. Este, por causa de aflições familiares e de outras causas, ele me disse, foi um dos anos mais dolorosos da sua vida. A Conferência de 1790 o designou para Dublin,1 onde mal tinha chegado e já se viu exposto a inúmeras dificuldades e circunstâncias aflitivas. Ele e a família foram obrigados a ir para alojamentos muito inconvenientes; e, quando a nova casa dos pregadores ficou pronta, foram induzidos a se mudar para ela antes que estivesse seca, o que quase custou a vida de todos eles. Ele foi acometido de uma grave afecção reumática na cabeça, da qual se recuperou muito lentamente. Havia também disputas muito acaloradas na sociedade a respeito do uso da Liturgia na capela de Whitefriar Street, o que lhe causou grande inquietação. Enquanto esteve nesse circuito, fundou uma instituição de caridade chamada “Sociedade Amiga dos Forasteiros”, a primeira de várias que ele organizou nas principais cidades da Inglaterra, como Manchester, Liverpool e Londres, e que contribuíram muito para o alívio da humanidade sofredora.

O ano de 1791 é notável na história do metodismo pela morte do sr. Wesley. Quando o sr. Clarke soube pela primeira vez desse acontecimento solene, diz que “ficou esmagado de dor; e que, tais eram os seus sentimentos, tudo o que pôde fazer foi ler o pequeno relato impresso dos seus últimos momentos”. A sua admiração pelo sr. Wesley era tal como não percebi em nenhum outro dos seguidores daquele homem extraordinário. Ouvi-o dizer mais de uma vez que, considerando-o no conjunto, como homem, como cristão, como teólogo, como filantropo, como instrumento favorecido nas mãos de Deus para ganhar almas, ele não tinha sido superado, se é que tinha sido igualado, desde os dias dos apóstolos. É profundamente lamentável que circunstâncias particulares tenham impedido o Doutor de escrever a Vida do Fundador do metodismo: um Apeles que poderia ter pintado um Alexandre. A opinião do sr. Wesley sobre o sr. C. a temos numa carta dele ao sr. King. Já no ano de 1787, aquele juiz seguro de caráter não hesitou em afirmar: “Adam Clarke é sem dúvida um jovem extraordinário e capaz de fazer muito bem”. No seu testamento, o sr. Wesley o nomeou um dos sete curadores de toda a sua propriedade literária.

Na primeira Conferência depois da morte do sr. Wesley, como a saúde do sr. Clarke estava muito abalada, ele foi designado para o circuito de Manchester, principalmente para que usasse as águas de Buxton, como o meio mais provável da sua recuperação. O remédio foi experimentado, e a sua saúde se restabeleceu completamente. Por esse tempo, a Revolução Francesa era o assunto universal, e várias questões políticas eram agitadas com considerável exaltação. Às vezes eram levadas ao púlpito, mas nunca pelo sr. Clarke: ele me contou que, durante esse período doloroso, em quase todos os sermões exortava os ouvintes a buscar a inteira santificação. Dos seus colegas, os srs. Samuel Bradburn e Joseph Benson, ouvi-o falar nos termos mais elevados. Ele os considerava os dois maiores pregadores da época. É um tanto notável que lhe tenha cabido prestar o último triste ofício de amizade aos restos mortais desses dois homens eminentes, fazendo um discurso junto aos seus túmulos. O primeiro morreu em 1816, e o segundo em 1821.

De Manchester o sr. C. foi para Liverpool, onde ele e o venerável sr. Pawson, com quem agia em perfeita harmonia, tiveram a satisfação de ver a sociedade mais que dobrar durante o seu ministério conjunto. A sra. Pawson registrou então no seu diário particular a sua opinião sobre o colega do marido nos seguintes termos: “O irmão Clarke é, na minha avaliação, um pregador extraordinário; e o seu saber confere grande brilho aos seus talentos: ele o faz servir à graça. Os seus discursos são altamente evangélicos: ele nunca perde Cristo de vista. Quanto ao perdão e à santidade, oferece uma salvação presente. O seu modo de falar é vivo, animado e muito encorajador para os que buscam a salvação. Em relação aos não despertados, pode-se de fato dizer que ele obedece àquele preceito: ‘Grite a plenos pulmões, não se detenha! Erga a voz como a trombeta’ (Is 58.1). As suas palavras fluem espontaneamente do coração; as suas ideias se ampliam à medida que avança; e ele traz à mente uma torrente de coisas novas e velhas (cf. Mt 13.52). Enquanto ele prega, raramente se pode lançar os olhos sobre o auditório sem perceber uma unção que comove pairando sobre ele. A sua ‘palavra destila como o orvalho, como chuvisco sobre a relva’ (cf. Dt 32.2). Geralmente prega sobre alguma parte da leitura do dia; e, no domingo de manhã, sobre o Evangelho do dia: esse método dá uma variedade abundante ao seu ministério”.

Enquanto esteve nesse circuito, o sr. C. quase perdeu a vida num atentado. Voltando para casa uma noite de um povoado do interior, acompanhado de dois amigos, uma pedra de mais de uma libra de peso o atingiu na cabeça, atravessou o chapéu e lhe fez uma ferida profunda. Provou-se que esse ato horrível foi obra de um papista que, com outro do mesmo credo, tinha ido ouvi-lo pregar e o esperou de emboscada na volta; e, se ele estivesse sozinho, com toda a probabilidade o teriam assassinado. Ele ficou de cama mais de um mês, e durante boa parte desse tempo a sua vida esteve em grande perigo. Os homens foram levados diante de um magistrado; mas, como confessaram a culpa e se comprometeram a nunca mais ofender, ambos foram soltos, embora em poucos anos os dois tivessem um fim trágico.

Os três anos seguintes o sr. Clarke passou em Londres e, durante esse tempo, andou mais de sete mil milhas, só no cumprimento do seu dever de pregador metodista. No ano de 1797, começou a sua carreira de autor com a publicação de um folheto intitulado Dissertação sobre o uso e o abuso do tabaco.

De 1798 a 1805, o biografado destas Memórias foi designado sucessivamente para Bristol, Liverpool e Manchester. O seu pai morreu em novembro de 1798, cheio de fé e de esperança. Ele sentiu isso profundamente e falava como se os laços da vida se tivessem afrouxado ao seu redor e ele desejasse “ir e morrer com ele”. Nunca mais passou pelo cemitério de Ardwick, onde o pai foi sepultado, sem tirar o chapéu e segurá-lo na mão até ter passado além dele, para mostrar o quanto honrava, e também amava, esse guia da sua juventude.

No ano de 1800, o sr. Clarke publicou uma tradução das Reflexões sobre as obras de Deus, de Sturm, que teve venda ampla e rápida.

Em 1802, editou e publicou um Dicionário Bibliográfico, em seis volumes in-12, ao qual, em 1806, acrescentou mais dois volumes como Miscelânea Bibliográfica ou Suplemento; e, por volta do mesmo tempo, Um relato sucinto das Bíblias Poliglotas, desde a publicação da de Porrus em 1516 até a de Reineccius em 1750, incluindo vários pormenores curiosos relativos à Poliglota de Londres e ao Léxico Heptaglota de Castell, não notados pelos bibliógrafos; e também Um relato sucinto das principais edições do Testamento grego, desde a primeira impressa em Complutum, em 1514, até a do professor Griesbach, em 1797. Essas várias obras contêm uma massa de informações e serão um guia útil para o estudo da literatura bíblica.

Enquanto esteve em Liverpool, o sr. Clarke projetou a formação de uma “Sociedade Filológica”, da qual foi escolhido presidente por unanimidade. A mesma honra lhe foi conferida alguns anos depois, quando se fundou uma sociedade semelhante em Manchester. O código de regras e cento e setenta e uma perguntas sobre vários assuntos literários e científicos saíram da pena do sr. Clarke. Tenho diante de mim uma cópia deles. Algumas das perguntas são extremamente importantes e curiosas.

Em 1804, o sr. Clarke deu ao público uma edição melhorada de Os costumes dos antigos israelitas, de Fleury, e um resumo do Diretório Cristão de Baxter, em dois volumes in-8. No mesmo ano começou a Eclectic Review, e pediram encarecidamente ao sr. Clarke que prestasse a sua competente ajuda na resenha de algumas obras hebraicas e de outras obras orientais. Depois de alguma relutância, ele consentiu e forneceu algumas resenhas que contribuíram não pouco para a respeitabilidade do novo periódico. Sobre a sua resenha da Septuaginta de Holmes, o professor Bentley escreve: “É mais conforme à minha ideia do que deve ser uma resenha do que o que geralmente se encontra nas publicações periódicas atuais: é um relato e uma análise tão completos da obra que permitirão a qualquer pessoa formar dela uma opinião justa. O artigo contém muitos pormenores de informação adicional, além dos que Holmes dá; e você os misturou de tal modo com os tirados de Holmes que a maioria dos leitores não perceberá a quem deve cada um. O contrário disso é, creio, a prática habitual dos resenhistas: muitas vezes exibem como sua a informação que devem inteiramente ao autor, a quem talvez estejam insultando; e assim fazem mais questão de parecer eruditos do que até mesmo de dar um relato apropriado e justo do autor cuja obra professam resenhar”.

Ele foi designado pela segunda vez para o circuito de Londres em 1805; e, na Conferência realizada em Leeds em 1806, foi eleito presidente; e, apesar de todos os seus protestos, foi levado à força, tirado do seu assento e posto na cadeira!

Por esse tempo, a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira nomeou o sr. Clarke membro da sua Comissão. A ajuda que ele prestou foi importantíssima, tal que “era indispensável ao bom andamento dos planos da Sociedade”, e lhe custou um sacrifício nada comum de tempo e de trabalho. Por ela a Comissão pediu licença para lhe oferecer cinquenta libras; “uma oferta”, diz o falecido rev. John Owen, “que aquele indivíduo erudito e dedicado ao bem público recusou respeitosa mas peremptoriamente”. O seu Panorama conciso da sucessão da literatura sagrada apareceu em 1807. Para completar o segundo volume dessa valiosa obra, o Doutor nunca encontrou tempo; mas este, e uma edição nova e ampliada do primeiro, em in-8, foram terminados e publicados pelo filho mais novo do Doutor, o rev. J. B. B. Clarke, mestre em artes, de modo que faz grande honra ao seu saber e aos seus talentos. No mesmo ano, a Universidade de Aberdeen, por sugestão do célebre professor Porson, conferiu ao sr. Clarke o grau de mestre em artes; e, no ano seguinte, deu-lhe o diploma de doutor em leis. Ambos os diplomas lhe foram enviados do modo mais honroso e lisonjeiro, recusando-se o Colégio a aceitar até as taxas costumeiras dos funcionários dadas em tais ocasiões. “Em algum momento de fevereiro de 1808”, observa ele, “soube que tinha sido recomendado aos Comissários de Sua Majestade para os Registros Públicos do reino pelo ilustríssimo Charles Abbot, presidente da Câmara dos Comuns e um dos comissários, a quem eu só era conhecido por alguns dos meus escritos sobre bibliografia, como pessoa adequada para assumir o setor de coletar e organizar aqueles papéis de Estado que pudessem servir para completar e continuar a coleção de papéis de Estado geralmente chamada Foedera, de Rymer.” Ele ficou assombrado e procurou escusar-se alegando inaptidão geral. Mas, fortemente instado por John Caley, Esq., secretário da Comissão, e por alguns dos seus amigos a tentar, começou essa tarefa hercúlea. Teve de examinar sessenta volumes in-fólio, com numerosas provas colaterais, visitar as diferentes repartições públicas e fazer uma seleção dos registros que conviesse imprimir, sob a autoridade do Parlamento, como suplemento ou continuação da obra de Rymer. Esses trabalhos excessivos2 prejudicaram muito a sua saúde, até que ele foi obrigado, em três ocasiões diferentes, a apresentar a sua demissão à “Junta”. Ela, porém, só foi aceita em março de 1819, quando ele se despediu dessa parte dos seus deveres públicos nas seguintes palavras: “E aqui registro os meus agradecimentos a Deus, Fonte de sabedoria e de bondade, que me capacitou a conduzir esta obra dificílima e delicadíssima durante dez anos, com crédito para mim mesmo e satisfação para o Governo de Sua Majestade. Durante esse tempo me pediram que resolvesse muitas questões difíceis e esclarecesse muitas obscuridades; e em nenhuma delas jamais falhei, embora os assuntos não me fossem de modo nenhum familiares, já que tive pouco de formação de antiquário e nada de formação jurídica”.

Em 1808, o Dr. Clarke foi persuadido a se tornar bibliotecário da Surrey Institution; e, quando deixou o cargo, os administradores, em sinal de respeito, o constituíram “bibliotecário honorário”, título que manteve enquanto a instituição existiu. No decorrer do mesmo ano, publicou Um breve relato da última doença e morte do erudito Porson, com o fac-símile de uma antiga inscrição grega que tinha sido o tema da última conversa literária do professor.

No ano de 1810, o Dr. Clarke projetou, juntamente com o rev. Josiah Pratt, uma nova edição da Bíblia Poliglota de Londres. O prospecto foi impresso e distribuído, mas, por falta de apoio adequado, o importante empreendimento foi abandonado. Isso ele lamentou muito até o dia da sua morte. Foi em julho desse ano que a primeira parte do seu Comentário sobre as Sagradas Escrituras saiu do prelo. Desse monumento de saber e de piedade falaremos depois.

Em 1º de dezembro de 1814, realizou-se pela primeira vez uma Reunião Missionária Metodista Wesleyana na capela de City Road, em Londres. O Dr. Clarke, sendo naquele ano presidente da Conferência, foi chamado a presidi-la; e pouco depois publicou o discurso que fez, sob o título de Um breve relato da introdução do evangelho nas Ilhas Britânicas, e a obrigação dos britânicos de dar a conhecer a sua salvação a todas as nações da terra.

Em 1815, o Dr. Clarke deixou Londres e fixou residência em Millbrook, no Lancashire. Ali ficou aliviado de muitos fardos que na metrópole pesavam muito sobre ele, respirou ar puro e se ocupou das suas atividades agrícolas favoritas, o que teve um efeito muito benéfico sobre a sua constituição. No verão de 1816, fez uma viagem por parte da Escócia e da Irlanda e visitou o que chama, numa carta que tenho diante de mim, “o lugar que tinha tudo para recomendá-lo à minha atenção e ao meu coração. O lugar é aquele em que passei os meus dias de menino, onde recebi os rudimentos da pouca educação que tenho; onde senti pela primeira vez a convicção do pecado, da justiça e do juízo; onde vi ou ouvi pela primeira vez um metodista; onde provei pela primeira vez o amor perdoador de Deus, depois de ter passado por uma grande luta de aflição; onde me uni à Sociedade Metodista; onde dirigi pela primeira vez uma classe; onde comecei a pregar a redenção em Cristo Jesus, e de onde fui chamado para me tornar pregador itinerante. E essas coisas aconteceram na paróquia, e no espaço de uns três campos de largura dessa paróquia, que fica à beira do mar, onde há a mais bela praia do mundo, estendendo-se por mais de vinte milhas de areia firme tão perfeitamente plana quanto se possa imaginar; o próprio lugar onde uma vez me afoguei e talvez tenha sido milagrosamente restituído à vida; onde costumava tomar banho, e de cujas rochas costumava pescar muitos peixes, e entre cujas rochas passei muitas horas apanhando caranguejos etc. Um lugar assim, nessas circunstâncias, há de oferecer uma multidão das mais impressionantes lembranças. Nenhum lugar na face da terra pode ter tantos atrativos para mim”.

O Dr. Clarke veio à cidade em maio de 1818 para assistir às reuniões anuais da Sociedade Missionária Metodista Wesleyana; e, estando na plataforma, recebeu um bilhete de sir Alexander Johnston, que então estava à vista da terra, voltando do Ceilão, e que trouxera consigo, a pedido muito insistente deles mesmos, dois sumos sacerdotes de Buda, que desejavam ser instruídos nos princípios do cristianismo. Sir Alexander e a Comissão Missionária convenceram o Dr. Clarke a encarregar-se deles e a dar-lhes toda a instrução que pudesse no conhecimento das coisas divinas. Dois dias depois da sua chegada a Londres, tive o prazer de acompanhar o Doutor e esses dois interessantes estrangeiros, um dos quais tinha então vinte e cinco anos de idade e o outro vinte e sete, até Bristol. Viajavam sem chapéu nem gorro, com uma esplêndida veste amarela lançada folgadamente sobre o ombro esquerdo, e com a cabeça, e também o pescoço, o peito e o braço direito, inteiramente nus, para espanto nada pequeno de quem os via. Ficaram com o seu bondoso e eminente instrutor uns dois anos, foram batizados na fé cristã e depois voltaram para o Ceilão, onde se mantiveram firmes na sua profissão: um ocupa um cargo importante no governo, e o outro é mestre licenciado na Igreja oficial.

Em junho de 1821, o Doutor visitou de novo a Irlanda, e pouco depois o seu nome foi inscrito entre os principais homens de letras do país. Numa carta a mim, escreve: “M.R.I.A. significa Membro da Real Academia Irlandesa, para a qual fui eleito de modo muito honroso, sem conhecer nenhuma das pessoas que me apresentaram à Academia; os meus compatriotas estavam decididos a me conceder a mais alta honra literária ao seu alcance”.

Na primavera do ano seguinte, começou uma amizade entre o Dr. Clarke e Sua Alteza Real o Duque de Sussex. Isso foi muito honroso para o Doutor, não foi solicitado por ele e continuou sem nenhum comprometimento do seu caráter ou dos seus princípios.

Na Conferência realizada em Londres no ano de 1822, o Dr. Clarke foi escolhido presidente pela terceira vez, circunstância até agora única na história do metodismo. Determinou-se nessa Conferência que se enviassem dois pregadores às Ilhas Shetland. Quem escreve estas linhas, que estava presente na ocasião, foi o primeiro a oferecer os seus serviços, se os seus irmãos o julgassem apto para o árduo empreendimento. Foi imediatamente designado; e, com o rev. John Raby, depois de passar alguns dias em Millbrook, seguiu para Edimburgo, ali tomou navio e, depois de quatro dias de viagem, chegou a salvo a Lerwick. Em nome do Senhor dos Exércitos levantaram a sua bandeira; pregaram uma salvação livre, plena e presente; multidões acorreram para ouvir a palavra, e não poucos sentiram a sua eficácia transformadora. Outros pregadores seguiram o mesmo caminho e tiveram igual êxito. Foram erguidas de dez a vinte capelas e formadas numerosas sociedades. Há agora seis pregadores metodistas wesleyanos trabalhando nas ilhas e mil trezentos e setenta membros nas sociedades. O que a missão a essas “ilhas nuas e melancólicas” deve ao Dr. Clarke não se saberá antes que “raie aquele dia que nunca mais se fechará”. Ele viajou, pediu, escreveu e orou por ela; e é minha convicção firme que, sem a sua ajuda muito eficiente, tal como nenhum outro homem no reino poderia ter prestado, ela teria sido abandonada há muito tempo. Dessa ajuda está agora privada e depende, para o seu sustento, do Fundo de Contingência dos Metodistas e das contribuições de um público esclarecido e benevolente. Recomendo-a, portanto, com a maior insistência, à atenção e à liberalidade de todos os que reverenciam a memória do venerável Doutor ou que sentem compaixão das ovelhas espalhadas pelos montes (cf. Ez 34.6).3

O Doutor visitou as ilhas pessoalmente no ano de 1826, e de novo em 1827; e, na volta, quando eu estava em Newcastle-upon-Tyne, escreveu-me assim: “E agora, Sammy, que direi da obra sobre a qual tanto escrevemos e falamos? Não posso dizer que correspondeu à minha expectativa. Excedeu muito tudo o que eu tinha até esperado. Não presenciei tanto bem feito em tão pouco tempo, com meios tão escassos, por onde quer que tenha viajado; nem li coisa semelhante. Vi todos os pregadores e tive comigo os guias de classe de cada ilha e de cada lugar de pregação (em Walls ou em Lerwick), e indaguei minuciosamente sobre a obra em toda parte; e creio que conheço bastante bem o todo. Vi a graça de Deus que está entre eles e estou soberanamente contente. Não me tinham contado nem metade do bem que presenciei. De fato, os próprios pregadores não o conhecem plenamente. Quando refleti sobre a sua primeira entrada no meio desse povo, as dificuldades que você teve de enfrentar, o solo inteiramente despreparado etc. etc., fico assombrado com a obra. Vejo plenamente que da grande colheita nas partes principais das Shetland foi você quem semeou a semente. Deus lhe deu grande honra, e multidões se lembram de você até com lágrimas de afeto”.

Foi no ano de 1824 que o Dr. Clarke vendeu a sua casa e as suas terras no Lancashire, deixou Millbrook e comprou Haydon Hall, para onde se mudou: um lugar encantador perto de Pinner, a umas dezesseis milhas de Londres.

Em 1830, o Doutor, na sua visita à Irlanda, fundou várias escolas nos distritos extensos e populosos em torno de Coleraine, onde muitos pereciam por falta de conhecimento. Essas escolas foram inspecionadas por ele em 1831.

Em janeiro de 1832, ele deu o seguinte relato da morte de Robert Scott, Esq., de Pensford, perto de Bristol, numa carta à sra. Clarke: “Às dez e meia desta noite, o sr. Scott trocou a mortalidade pela vida. Nunca presenciei uma morte assim. Tínhamos orado a Deus para que lhe desse uma passagem fácil, e não oramos em vão: porque ele teve uma das mais plácidas e fáceis que já ouvi ou vi. A sua esposa, vários dos parentes e eu estávamos ajoelhados em volta da cama. Fiz a oração pelo moribundo; e, depois dela, mal tive tempo de me levantar, ir até ele, pôr as mãos sobre a sua cabeça e pronunciar a bênção de Arão sobre os israelitas: ‘O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti! O Senhor sobre ti levante o seu rosto e te dê a paz!’ (cf. Nm 6.24-26), quando o seu último suspiro se foi! Assim, no octogésimo quinto ano da sua idade, morreu esse amigo constante das Shetland.4 Eu não teria perdido essa cena por muita coisa. Parece que vim aqui para aprender a morrer”.

Ao voltar a Haydon Hall, encontrou uma carta com um convite da Junta de Administradores da Sociedade Missionária da Igreja Metodista Episcopal de Nova York para ir à América ajudá-los nos seus trabalhos missionários e na sua assembleia eclesiástica. Depois de expor as razões por que não podia aceitar o convite e de manifestar o seu pesar, ele continua assim: “Contudo, estou longe de supor que não possa haver um impedimento providencial no caminho. Sou um homem velho, que passou dos setenta anos, e, consequentemente, não sou capaz de fazer o trabalho da juventude. Vocês naturalmente esperariam que eu pregasse muito, e isso eu não poderia fazer… Eu diria a todos: guardem as suas doutrinas e a sua disciplina, não só nos livros da sua igreja e nas regras das suas sociedades, mas preguem as primeiras sem lhes acrescentar sutilezas e observem a segunda sem dobrá-la às circunstâncias nem enfraquecer o seu vigor com exceções e favoritismos frívolos. Assim como creio que a sua nação está destinada a ser a mais poderosa e a mais feliz do globo, creio que a sua igreja provavelmente se tornará a mais extensa e pura do universo. Como igreja, permaneçam na doutrina dos apóstolos e na comunhão (cf. At 2.42). Como nação, sejam firmemente unidos; não alimentem diferenças mesquinhas; acabem totalmente com o tráfico de escravos; abominem todas as guerras ofensivas; nunca provoquem nem o mais insignificante dos Estados; e nunca deem o primeiro golpe. Incentivem a agricultura e o comércio amigável. Cultivem as ciências e as artes; deem ao saber o seu lugar próprio, o seu espaço e a sua devida parte de estima e de honra. Se possível, vivam em paz com todas as nações; conservem o seu santo zelo pela causa de Deus e pelo bem do seu país; e, para que conservem sempre a sua liberdade, evitem, como a sua ruína e perdição, uma dívida nacional”.

Em maio de 1832, ele visitou a Irlanda pela última vez; e, numa comunicação particular, dá o seguinte relato da viagem: “Na terça-feira, deixei Bruerton no coche do correio para Liverpool, onde cheguei às seis da tarde; atravessei imediatamente o Mersey e fui para Oakfield, à casa do meu velho amigo, o sr. Forshaw, onde descansei até sexta-feira; e então embarquei no Corsair ao meio-dia e meia; e, embora tivéssemos o vento bem de proa, tivemos um mar muito calmo e uma das melhores travessias, para a distância, que já tive, nestes ou em quaisquer outros mares. Em quinze horas eu tinha atravessado completamente o canal; e, tendo jantado num reino, estava no outro muito antes da hora do café da manhã. Foi de fato uma misericórdia que a travessia fosse tão curta, porque nunca encontrei pior grupo de passageiros. Passavam por cavalheiros irlandeses e fingiam sê-lo; e, pela sua conduta, pareciam estar aliados ao inferno e à morte e em acordo com o diabo: bebendo, vociferando, discutindo política do modo mais feroz; proferindo palavras de alta traição; injuriando o rei, a rainha, o duque de Wellington e muitos outros da maneira mais desmedida; jurando, praguejando, prometendo a morte de todos os cobradores de dízimos; um declarou que tinha contratado um homem, a meia coroa por cabeça, para cortar o pescoço e arrancar a cabeça de todos e cada um dos cobradores de dízimos que aparecessem nas suas terras. E a tudo isso se acrescentava a mais vil obscenidade de prostíbulo. O meu coração foi muitas vezes obrigado a dizer: ‘Não colhas a minha alma com a dos pecadores, nem a minha vida com a dos sanguinários’ (Sl 26.9); e podia dizer com um dos antigos: ‘Ó Senhor, tu sabes que não amei a companhia dos injustos neste mundo; não me condenes a tê-la eternamente no mundo vindouro’. Para evitar esses seres infernais, andei pelo convés até tarde e depois desci para o meio deles para me deitar num sofá, porque não tinha outra cama. Ó, que inferno ser condenado a fazer companhia a tais praticantes da iniquidade! Depois de tal companhia, que bênção senti ser a comunhão dos santos na manhã do domingo seguinte! Tivemos uma congregação encantadora na capela deste lugar (Donaghadee), e todos pareciam ouvir de bom grado e sentir profundamente”.

A Conferência de 1832 foi realizada em Liverpool, no tempo em que a cólera grassava de modo alarmante. Embora o Doutor estivesse com a saúde muito fraca, e a sra. Clarke lhe pedisse afetuosamente que não fosse, ele respondeu: “Sei que você nunca se queixou de me ver entregue ao meu dever e à minha obra; e penso como você que mal estou em condições de ir. Mas tenho deveres a cumprir em relação às Shetland e às escolas irlandesas; e, além disso, desejo ardentemente deixar mais uma vez o meu testemunho em favor de Deus e do metodismo no meio dos meus irmãos”. Ele foi; mas, estando lá, escreveu assim a um amigo: “Tenho sido afligido de várias maneiras e, de fato, fui levado quase à beira da cova; e, embora esteja muito melhor, a minha saúde está em grande parte prostrada; e, embora esteja aqui na Conferência, estou longe de estar em condições de fazer muita coisa ou de atender a muitos assuntos. Fui à Irlanda para trabalhar muito, mas fui chamado a sofrer, não a trabalhar. De fato, eu estava sobrecarregado de trabalho antes de atravessar o canal e tinha pouca força a perder quando cheguei ao cenário dos meus trabalhos. Esforçando-me por fazer o que não era capaz de realizar, tive quatro recaídas. Pois bem, em todas elas fui guardado de todo pensamento de murmuração. Eu sabia que estava nas mãos do Senhor e, portanto, estava seguro, e a minha expectativa não foi frustrada; sinto que só Deus é a minha porção. Escrevo na Conferência e tenho uma tosse tão incômoda que mal consigo escrever de modo inteligível, e tenho de parar”. Contudo, a pedido insistente dos seus irmãos, pregou duas vezes. Os seus sermões não serão esquecidos tão cedo pelos que os ouviram. Depois da Conferência, foi a Frome, onde o seu filho Joseph era cura, para ajudar na formação de uma “Sociedade para a Melhoria da Condição dos Pobres” naquela extensa paróquia. No dia 19 de agosto, pregou o seu último sermão em Westbury, perto de Bristol, sobre 1Timóteo 1.15: “Esta palavra é fiel e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores”. No dia 23 chegou a salvo em casa. No culto doméstico, fez as suas súplicas a respeito da cólera, para que “todos e cada um fossem salvos da sua influência ou preparados para uma morte repentina”. No sábado, dia 25, a família observou que ele começou a oração com estas palavras: “Graças te damos, ó Pai celestial, porque temos por meio de Cristo uma bendita esperança de entrar na tua glória”. Ao se levantar dos joelhos, observou à sra. Clarke que achava que não devia se ajoelhar por muito mais tempo, porque era com dor e dificuldade que conseguia se levantar de novo. Ao anoitecer, foi de carruagem a Bayswater, lugar onde estava comprometido a pregar no dia seguinte. Pareceu cansado da viagem; e, quando lhe pediram que marcasse a hora para pregar um sermão de caridade, respondeu: “Não estou bem; não posso marcar hora; preciso primeiro ver o que Deus vai fazer comigo”. Na manhã seguinte foi acometido de cólera, teve apenas tempo e força para declarar que a sua confiança estava em Cristo e, por volta das onze horas da noite desse mesmo dia, 26 de agosto de 1832, adormeceu em Jesus. Na quarta-feira, dia 29, os seus restos mortais foram sepultados no cemitério contíguo à capela metodista de City Road. A sua sepultura é a vizinha da do sr. Wesley. “Deus, mediante Jesus, trará, na companhia dele, os que dormem” (1Ts 4.14).

Pelos principais acontecimentos da vida do Dr. Clarke, narrados nas páginas anteriores, o leitor pode ter uma visão bastante correta do seu caráter e não pode deixar de perceber que o Doutor não era um homem comum. Vamos agora tratar brevemente das suas características particulares. Na sua aparência pessoal não havia nada de muito notável. Tinha cerca de cinco pés e dez polegadas de altura [N. do T.: cerca de 1,78 m] e, à medida que envelhecia, tendia a ser corpulento. O seu corpo era bem constituído, os membros simétricos e toda a sua pessoa notavelmente ereta. Os olhos eram pequenos e brilhantes, de um cinzento claro. O rosto era extremamente corado; e o cabelo, quando jovem, era de um amarelo avermelhado, mas muito cedo tomou uma cor prateada. Até o seu andar exprimia a vivacidade da sua mente, e todos os seus traços eram característicos da benevolência do seu coração.

O seu entendimento era claro, ativo, penetrante e vigoroso; feito para a investigação, capaz de enfrentar qualquer dificuldade, notável pela sua aplicação paciente, e possuía uma capacidade singular de ordenar e generalizar os assuntos; talvez mais apto para a análise do que para a síntese. As suas faculdades de invenção eram fecundas, e a sua imaginação, viva; mas essa faculdade ele antes negligenciou do que cultivou. A sua memória era surpreendentemente retentiva. Ele afirma, de fato, que, dos milhares de sermões que pregou, nunca soube de antemão uma só frase que iria proferir, e que isso se devia à imperfeição verbal da sua memória. Mas os que estiveram muito na sua companhia ficaram muitas vezes impressionados com a sua poderosa lembrança, não só de um assunto no conjunto, mas também nos seus pormenores mais minuciosos. A multidão de livros que leu, os manuscritos que examinou, os sermões que pregou, os doentes que visitou, as viagens que fez, as comissões a que compareceu, os negócios públicos em que ajudou, as entrevistas particulares que concedeu, os muitos volumes que compôs e publicou, os milhares de cartas que escreveu, além de todos os seus outros deveres como pregador metodista, são provas de que a sua diligência deve ter sido ininterrupta e prosseguida com energia sem exemplo. No começo da sua vida pública, escreveu: “Estou decidido, pela graça de Deus, a vencer e morrer; e tomei o seguinte lema e o pus diante de mim no consolo da lareira: ‘Fica firme como a bigorna batida pelo golpe; porque é próprio de um bom guerreiro ser esfolado vivo e ainda assim vencer’”. Mas, como o sr. Wesley, embora “estivesse sempre com pressa, nunca estava afobado”. O seu vestuário, a sua biblioteca, o seu jardim e a sua fazenda, tudo mostrava que ele era homem de ordem. Tudo o que vinha às suas mãos para fazer, fazia-o com todas as suas forças (cf. Ec 9.10), e fazia-o logo. A quase todas as cartas respondia na volta do correio. Para a ociosidade parece não ter tido inclinação nenhuma: em qualquer companhia ou situação em que estivesse, até nos seus momentos de descanso, a sua mente estava ocupada. Enquanto outros dormiam, ou banqueteavam, ou desperdiçavam os seus dias desprezíveis em mexericos e tolices, ele tinha a gloriosa colheita deste resultado bem diante dos olhos e arava com todas as suas novilhas, sem se importar com o sol e a chuva. A um jovem diz ele: “Como pregador itinerante, aprendi mais num ano do que tinha aprendido antes em muitos na escola. O grande segredo é poupar tempo. Não gaste nenhum sem necessidade; afaste-se de toda companhia desnecessária; nunca esteja sem um coração que ora; e tenha, sempre que possível, um livro na mão. Torne-se senhor das Obras do sr. Wesley e das do sr. Fletcher e do sr. Sellon. Leia as Vidas dos primeiros pregadores metodistas (estão nas antigas revistas) e leia o Diário de David Brainerd, missionário entre os índios norte-americanos, e O descanso eterno dos santos, resumido pelo sr. Wesley. Não fique muito tempo na cama nem fique acordado até tarde da noite”.

O Doutor Clarke cultivou as artes úteis mais do que as de ornamento. De todas as artes liberais, considerou sempre a música a menos útil. Os poucos poetas de primeira linha ele lia com grande gosto. Nos de segunda ou terceira ordem raramente punha os olhos. Possuía em alto grau a rara capacidade de usar o conhecimento. Ele mesmo observou que o saber que se tira dos livros, ou do estudo das línguas, é de pouca utilidade para qualquer pessoa e não tem valor nenhum, a não ser que se aplique na prática aos fins da vida; e diz alguém que o conheceu bem que “nunca houve um indivíduo que soubesse usar com tanto proveito todos os tesouros que acumulava. Ele possuía um poder espantoso de reunir os raios de luz de todo o círculo do seu conhecimento e derramá-los, num só feixe brilhante, sobre qualquer ponto que desejasse ilustrar ou explicar. E os tesouros de conhecimento que a sua diligência incansável juntou estavam todos a serviço do cumprimento mais eficaz do seu ofício ministerial”.

A sua conversão, como vimos, foi clara, sólida e decidida: disso é testemunha encantadora uma vida de piedade constante, prática e crescente, que cobriu um espaço de mais de meio século. Mas não se deve omitir o seguinte testemunho do venerável Henry Moore, que conheceu o Doutor por mais tempo do que qualquer homem que lhe sobreviveu: “A nossa Conexão, creio, nunca conheceu uma vida mais irrepreensível que a do Dr. Clarke. Ele teve os seus adversários; teve os que discordavam dele, às vezes na doutrina, às vezes em outras coisas; mas esses adversários, fosse o que fosse que lhe imputassem, nunca ousaram pôr uma mancha no seu caráter moral ou religioso. Ele era, como o sr. Wesley costumava dizer que deve ser um pregador do evangelho, ‘sem mancha’; ou, como disse alguém maior do que ele, o Dr. Clarke poderia ter dito: ‘Quem de vocês me convence de pecado?’” (cf. Jo 8.46). Como o patriarca, ele dizia: “Até morrer, nunca abrirei mão da minha integridade. À minha justiça me apegarei e não a largarei; a minha consciência não me acusará em toda a minha vida” (Jó 27.5-6). Tal era a sua integridade inflexível que se pode dizer dele, com tanta verdade quanto jamais se afirmou de qualquer estadista ou patriota: “Daria a vida pelo seu país e não faria uma coisa vil para salvá-lo; um homem que não pisaria num inseto nem se curvaria diante de um imperador”.

O seu apego ao metodismo continuou até o fim, e se mostrou então num legado para o alívio das suas capelas. Ouviram-no dizer mais de uma vez: “Pertenço aos metodistas, de corpo e alma, de sangue e nervos. Este casaco” (agarrando a própria manga) “é deles”. Numa carta a mim, observa: “Por quase cinquenta anos vivi só para o sustento e o crédito do metodismo: eu mesmo e os meus interesses, sabe-o aquele que sonda os corações, nunca foram objeto da minha atenção. Entrei na Conexão com um olhar simples e um coração reto; e, pela misericórdia de Deus, consegui conservar ambos”. Era inteiramente isento de espírito censurador. O seu juízo sobre os irmãos nunca era duro ou severo. Estava sempre pronto a falar em seu louvor e a dar a melhor interpretação às suas palavras e ações. A sua humildade era profunda e sem afetação; com todo o seu saber, não havia ostentação. Por mais familiar que fosse entre os amigos, entre os grandes e os eruditos era modesto em excesso. Fugia dos olhares do público e preferia pregar em capelas pequenas a pregar nas grandes. Tinha um alto senso de honra, mas sem orgulho nem ambição. Submetia-se com toda a alegria, e sem a menor afetação, a fazer os serviços mais humildes para si, para os amigos ou para os pobres. Numa carta datada de 4 de fevereiro de 1823, escreve: “Visite o povo de casa em casa e fale com ele do modo mais afetuoso. Dê atenção às crianças; trate-as com amor: isso fará bem às crianças, e os pais gostarão. Participe com alegria da comida mais humilde quando o povo o convidar. Há uns dois anos, viajando entre as choupanas da Irlanda, entrei num casebre miserabilíssimo, e eles acabavam de despejar as batatas num cesto, as quais, com um pouco de sal, iam servir de almoço. Eu disse: ‘Boa gente, me deixam comer uma das suas batatas?’. ‘Oh, sim, senhor! E mil vezes bem-vindo, ainda que fossem cobertas de ouro!’ O povo ficou encantado de me ver comer uma, e outra, e uma terceira, e achou que eu os tinha posto sob obrigação sem fim. Mas me tiveram por um anjo quando, por cada batata que comi, lhes dei um xelim. Mas não tinham nenhuma expectativa desse tipo quando lhes pedi licença para provar com eles. Outros clérigos se mantêm altivos e distantes do seu povo e assim assumem e mantêm uma espécie de importância antibíblica. Os pregadores metodistas têm outro tipo de importância: a sua humildade, a sua unção celestial e o som dos pés do seu Mestre atrás deles. A familiaridade excessiva gera desprezo, mas a humildade e a condescendência são outras qualidades”. O seu desprendimento estava acima de todo louvor. Nunca usou uma só vez a influência que tinha com algumas pessoas de alta posição em favor de si mesmo ou da sua família. Quando teve oportunidade de colher considerável remuneração pelos seus trabalhos sob o governo, e lhe perguntaram o que podiam fazer por ele, respondeu: “Oh! Nada; habito no meio do meu próprio povo”. Tinha também um coração bondoso: as várias formas de desgraça humana despertavam a sua mais terna compaixão. Os aflitos nunca deixavam a sua porta sem socorro. Mais de uma vez se soube que, perto do seu próprio portão, ele deu os seus sapatos para cobrir os pés de outro. No começo do ano de 1816, que foi extraordinariamente rigoroso, muitas centenas de marinheiros ficaram entregues à benevolência e à compaixão dos habitantes de Liverpool. O Dr. Clarke tinha algumas casinhas desocupadas, nas quais pôs uma quantidade de palha e de cobertores, e então mandou chamar vinte desses pobres homens. De dia, eles se ocupavam em fazer a estrada até a sua casa; e, em horas marcadas, reuniam-se na sua cozinha para as refeições, ficando um do grupo em casa para cozinhar para os outros. Como patrão, era, se possível, indulgente demais. Como pai, embora muito raramente elogiasse diretamente algum dos filhos, gostava deles apaixonadamente; e eles, em troca, gostavam igualmente do pai. Quando ouviu o seu filho Joseph pregar pela primeira vez, escreveu-me numa linguagem que talvez não fosse prudente publicar, mas que exemplificava plenamente o dito: “O filho sábio é a alegria do seu pai” (Pv 10.1). Como marido, era exatamente o que um marido deve ser: amava a esposa como também Cristo amou a igreja (cf. Ef 5.25). Como amigo, era acessível, afável, comunicativo, prestativo, fiel e afetuoso. Era, porém, uma máxima sua que “a simpatia oferecida no tempo de profunda tristeza e privação, venha pessoalmente ou por carta, tende a agravar o mal que deseja remover”. Quando perdi, pela morte, um filho encantador, ele me escreveu assim: “Sei bem o que é sepultar um filho, porque sepultei seis. Um amigo compassivo pode dizer: ‘Bem! É a vontade do Senhor, e eles estão mais bem amparados!’. Assim aprendi que é coisa muito fácil sepultar os filhos dos outros!”. Em todas as relações da vida particular ele foi um exemplo digno de ser imitado por todos; e não o foi menos no seu caráter público de ministro de Cristo. Antes de fazer qualquer observação sobre a pregação ou os escritos do Doutor, quero agradar aos meus leitores com uma valiosa carta sua a um jovem pregador, que lhe escrevera pedindo conselho sobre os assuntos de que ela trata: “MEU QUERIDO IRMÃO,

“Dei muitos conselhos gerais e particulares aos meus irmãos mais jovens em Uma carta a um pregador no seu primeiro ingresso na obra do ministério. Se você não leu esse pequeno folheto, deve obtê-lo sem demora. Eu estabeleceria duas máximas para a sua conduta: 1. Nunca esqueça nada do que aprendeu, especialmente em línguas, ciência, história, cronologia, antiguidades e teologia. 2. Aperfeiçoe-se em tudo o que aprendeu e adquira o que nunca teve, especialmente o que lhe possa ser útil na obra do ministério. Quanto a fazer ou compor sermões, não tenho boa opinião disso. Adquira um conhecimento completo do seu assunto; entenda o seu texto em todas as suas ligações e relações; e então suba ao púlpito dependendo do Espírito de Deus para lhe dar poder de explicar e ilustrar ao povo as visões gerais e particulares que você já formou do seu assunto e que crê conscienciosamente serem corretas e conformes à palavra de Deus. Mas não decore nada para dizer ali, do contrário até a sua memória contribuirá para mantê-lo em escravidão perpétua. Nenhum homem jamais foi pregador bem-sucedido sem discutir o seu assunto com o próprio juízo e a própria experiência. Os recitadores de sermões podem ser populares, mas Deus quase nunca os emprega para converter pecadores ou edificar os santos na sua santíssima fé. Não recomendo neste caso uma confiança cega em Deus: tomar um texto que você não sabe tratar e depender de Deus para lhe dar alguma coisa para dizer. Ele não se deixará empregar assim. Suba ao púlpito com o entendimento cheio de luz e o coração cheio de Deus; e o seu Espírito o ajudará, e então você verá uma maravilhosa reunião de ideias vindo em seu auxílio; e sentirá o benefício da doutrina da associação, de que os recitadores e os homens de memória não podem fazer uso nenhum. Os pensamentos mais belos, melhores e mais impressionantes se obtêm no púlpito quando o pregador sobe a ele com a preparação mencionada acima.

“Quanto ao hebraico, aconselho-o a aprendê-lo com os pontos. A Gramática Hebraica do Dr. C. Bayley é uma das melhores, porque tem várias porções analisadas do texto hebraico, que são de grande ajuda para os principiantes. E o Léxico Hebraico de Parkhurst excede tudo o que veio antes dele. Dá o sentido ideal das raízes, sem o qual quem pode entender a língua hebraica? Fixe tão bem os seus verbos e substantivos na memória que seja capaz de dizer a conjugação, o modo, o tempo, a pessoa e o número de cada palavra; e assim sentirá que pisa em terreno firme à medida que avança. Gênesis é o livro mais simples para começar; e, embora os Salmos sejam altamente poéticos, e não seja bom começar a adquirir o conhecimento de uma língua pela produção poética mais elevada dela, a forma curta dos versos em hemistíquios e a poderosa religião da experiência que os Salmos ensinam os tornam comparativamente fáceis para quem tem a vida de Deus na alma. A Lyra Prophetica de BYTHNER, em que todos os Salmos são analisados, é de grande ajuda; mas as raízes devem ser procuradas em Parkhurst. O sr. Bell publicou uma boa Gramática Grega em inglês; e também vários outros. O grego, como o hebraico, depende tanto dos seus verbos, da sua formação e do seu valor, que, para tirar alguma coisa com êxito, você deve familiarizar-se completamente com eles em todas as suas conjugações etc. Não é trabalho pequeno adquiri-los; porque, nessa língua, até um só verbo regular chega a apresentar mais de oitocentas formas diferentes! O sr. Dawson publicou um Léxico para o Testamento grego, no qual você pode encontrar qualquer palavra que aparece, com o modo, o tempo etc. Qualquer das edições mais recentes de Schrevelius servirá ao seu propósito. Leia com cuidado a História de Prideaux. As edições anteriores a 1725 valem pouco; nenhuma desde então foi muito melhorada, se é que foi em alguma coisa. Familiarize-se com a história britânica. Leia poucos sermões; eles lhe farão pouco bem, exceto os do sr. Wesley. As Vidas de homens santos lhe serão proveitosas. Viva na vida divina; ande na vida divina. Viva para a salvação dos homens”.

Nesta carta o Doutor deu o seu próprio método de se preparar para o púlpito e de anunciar as palavras da vida eterna. No ano de 1825, tive o prazer de viajar na companhia do meu venerável amigo de Londres a Liverpool, para pregar em favor das escolas dominicais metodistas wesleyanas. Hospedamo-nos sob o teto hospitaleiro de W. Comer, Esq. Na manhã de domingo, o Doutor me chamou ao seu quarto e, com o seu afeto costumeiro, disse: “Sammy, diga-me que assunto devo tomar esta manhã”. “Ora, Doutor, que sermões ou esboços o senhor trouxe?” “Esboços!”, disse ele, “nunca escrevo esboços, nem tenho comigo uma linha de espécie alguma.” Diante disso manifestei a minha surpresa, sabendo que ele tinha de pregar em Liverpool no domingo e na segunda-feira, na inauguração da capela de Brunswick, em Leeds, e de outra capela nova em Bradford, na semana seguinte, e num sermão missionário em Lincoln, no caminho de volta. Ele disse então: “Leia-me um capítulo”. Peguei a Bíblia e li. Quando eu tinha percorrido parte do capítulo, ele me interrompeu dizendo: “Leia aquele versículo de novo; acho que servirá”. Assim se fez, e pouco depois descemos para o café da manhã. Às dez e meia, fui para a capela de Mount Pleasant, e ele para a de Leeds Street, onde pregou, sobre o texto que eu lhe tinha lido, um sermão, como me informou um juiz nada desprezível, da mais alta qualidade. Isso ajudará a pôr a questão na sua base própria; e, a não ser que se julgue a pregação do Doutor pelas circunstâncias em que ele aparecia no púlpito, não se lhe faz justiça. A questão não é se alguns pregadores, aplicando todas as suas forças durante semanas ou meses para preparar um sermão e depois pregando-o repetidas vezes durante muitos anos, não produziram um discurso tão acabado quanto os que o Doutor em geral fazia; mas se conhecemos algum pregador que, sem ter escrito uma palavra, pudesse subir ao púlpito sem quase nenhum aviso e derramar uma torrente tal de matéria importante, toda brotando do texto, como o Dr. Clarke muitas vezes fazia. Creio que não. Ele podia não agradar em todos os casos aos admiradores de uma “eloquência elaborada e artificial, de graça estudada e de eufonia, de exatidão metódica e de brilho imaginativo”; mas possuía, acima de toda dúvida, ainda que a única prova fosse a popularidade sem limites e o êxito de cinquenta anos, das Ilhas Normandas no sul às Shetland no norte, os elementos essenciais de um grande pregador. A sua matéria era rica e variada; o seu coração, fervoroso; e ele tinha o poder de escolher dos seus tesouros, quase de imediato, os materiais adequados para a ocasião presente, que derramava com energia e liberdade. O seu plano era preparar a mente, mais do que o papel, com arranjos particulares; manter a fonte cheia, e ele sabia que, à sua ordem, ela correria; e, pelo seu gênio dominador, dava a medida e a direção apropriadas às correntes, enquanto Deus acompanhava a sua palavra com uma unção extraordinária do Espírito Santo. A pregação do Dr. Clarke era principalmente expositiva. Ele procurava explicar os termos do seu texto, determinar o sentido preciso do Espírito Santo e então aplicar ao entendimento e à consciência dos ouvintes as verdades santificadoras assim descobertas. A sua pregação, embora argumentativa, era decididamente evangélica. Nenhum ministro jamais viveu que desse maior destaque nos seus discursos às verdades vitais do cristianismo ou que lutasse por elas com mais coerência e zelo. Em todo o seu ministério havia uma referência constante à divindade e à expiação de Cristo, às doutrinas da justificação pela fé no seu sangue e da santificação pela energia do seu Espírito, que tudo penetra e tudo purifica. A “misericórdia ilimitada do Céu”, a redenção universal da humanidade e especialmente o testemunho do Espírito ao fato da adoção do crente na família de Deus, e a perfeição cristã, eram os seus temas favoritos, aqueles em que mais insistia; dizia muitas vezes que, se os metodistas abandonassem essas doutrinas, logo perderiam a sua glória. Tinha também um modo particularmente feliz de descrever as condições simples, adequadas e rápidas da salvação, e foi o instrumento honrado que levou muitos pecadores arrependidos imediatamente ao Salvador. A religião que recomendava aos ouvintes era eminentemente experiencial, prática e feliz: tal como se sente no coração, se mostra na vida e faz quem a possui “alegrar-se sempre no Senhor e alegrar-se outra vez” (cf. Fp 4.4). E todos os seus assuntos ele aplicava com fidelidade, agudeza e expressividade particulares. Pregava uma vez sobre o amor de Deus ao ser humano e, perto do fim do discurso, fez um amplo movimento com o braço, trazendo-o para si e fechando a mão como se tivesse recolhido nela vários objetos de valor; e então, lançando-os como esmola, na plena generosidade da sua alma, no meio do povo, disse: “Aqui estão; tomem os argumentos entre vocês; tirem deles o melhor proveito para a sua salvação; eu garanto a sua solidez; aposto neles o meu crédito de homem de inteligência. Sim, se fosse possível reuni-los num só e pendurá-los, como se pendura um peso, num único fio desta cabeça grisalha, esse mesmo fio se acharia tão firmemente preso ao trono do Deus Todo-Misericordioso e Sempre Amoroso que se poderia desafiar todos os demônios do inferno a cortá-lo em dois”. Nem era ele jamais “difícil de entender”. Uma pobre mulher das Shetland lhe fez sem querer o seguinte elogio. Tinha ouvido falar da sua fama e foi ouvi-lo em Lerwick. Ao voltar para casa, observou com grande simplicidade: “Dizem que o Dr. Clarke é um homem erudito, e eu esperava achá-lo assim; mas ele é só como qualquer outro homem, porque eu entendi todas as palavras que ele disse”.

Na oração, o Dr. Clarke era simples, espiritual e às vezes singularmente ardente. Aproximava-se do trono da graça com uma ousadia santa e reverente, como se estivesse falando com Alguém com quem tinha familiaridade, com Alguém a quem tinha uma estima indizível. As suas orações “eram literalmente coletas, em que todo o sentido e todo o ardor recolhidos da sua alma, naquele momento, eram lançados de uma só vez”.

Nem o fervor do seu amor a Cristo e às almas dos pecadores que pereciam esfriou o mínimo “à medida que os dias e os meses aumentavam”. Quando já tinha passado dos sessenta anos, escreveu: “Ó Sammy! Quanto Deus o favoreceu ao empregá-lo nesta obra! Como eu ficaria contente de ser seu companheiro! Quando pude, fui missionário; e sofri muitas privações, e sinto ainda o mesmo espírito. Abismos, pântanos, inimigos, homens e demônios não seriam nada para mim: enfrentei tudo isso em nome de Jesus, e sofri, e venci”.

E em outra carta: “Se Deus me restituísse a juventude, eu teria glória em ser seu companheiro: passar por tudo, no seco e no molhado; deitar no chão, morar com os bois ou deitar num feixe de palha, como fui obrigado a fazer em outros tempos. Tenho inveja de você. Onde está em jogo o dever, ventos, ondas e regiões hiperbóreas não são nada para mim. Posso comer até as coisas mais humildes; posso fazer a minha refeição com gosto umas poucas batatas e um pouco de sal, ou meio quartilho de leite. Posso vestir um saco, se for necessário, porque nunca fiz questão de roupas finas. Os S. P. são todos cavalheiros. Graças a Deus, levei o jugo na minha juventude. Você não toma sobre si coisa demais. Alguém tem de trabalhar; o fardo foi posto sobre você. Se Deus me poupar a vida, ficarei ao seu lado; e ele o fará, se lhe aprouver me levar”. [N. do T.: a abreviatura “S. P.” não é explicada no original.]

Os escritos do Dr. Clarke são muito volumosos; e, pela simplicidade, pela clareza e pela energia do estilo, pela informação variada, extensa e importante, talvez não tenham sido superados nesta nem em qualquer outra língua. Poucos escritores transmitiram com mais êxito “pensamentos que respiram em palavras que ardem”. [N. do T.: verso de Thomas Gray, The Progress of Poesy.] A medida das sílabas e a dança dos períodos estavam abaixo da sua atenção. Nunca sacrificou o sentido ao som; mas comunicava aos outros, e isso sem esforço laborioso, os tesouros da sua mente, nas palavras mais adequadas para transmitir o seu pensamento e mais prováveis de serem entendidas. As mesmas grandes verdades em que tanto insistia na sua pregação são igualmente proeminentes nos seus escritos. Quanto aos “Cinco Pontos”, todos os seus leitores sabem que as suas ideias eram semelhantes às do célebre Armínio, de quem tinha alta opinião; e uma vez me disse que “o público britânico estava muito em dívida com o sr. Nichols pela sua excelente tradução das Obras daquele eminente teólogo”, que ele recomendava calorosamente aos amigos em toda ocasião oportuna. Sobre os temas principais da revelação, o Doutor falava e escrevia como quem tem autoridade. “Pela amplitude do pensamento, pela argumentação clara e vigorosa e pelas visões profundas da verdade divina, alguns dos seus sermões”, diz um competente resenhista, “igualam os melhores de Farindon, Barrow ou South; mas, sobre o tema da piedade pessoal, são incomparavelmente superiores. Não conhecemos sermões em que tanto saber seja aplicado ao tema importantíssimo da religião vivida na experiência.” O seu Dicionário Bibliográfico e a Sucessão da literatura sagrada revelam pesquisa e aplicação extraordinárias e formam uma enciclopédia sobre assuntos bibliográficos digna da atenção de todo estudante de teologia. O Dr. Clarke nunca escreveu um volume, nem mesmo um folheto, desinteressante ou sem importância. Mas a sua obra principal, aquela em que gastou uma vida laboriosa e com a qual o seu nome descerá à posteridade com o maior brilho, é o seu COMENTÁRIO SOBRE AS SAGRADAS ESCRITURAS. É sem dúvida a mais crítica e literária e, ao mesmo tempo, a mais espiritual e prática de todas as obras do gênero já publicadas em qualquer língua viva. O autor tinha um modo indescritível de simplificar o seu saber; e por isso é difícil dizer se o Comentário é mais lido e apreciado pelos eruditos ou pelos iletrados, pelo príncipe ou pelo camponês. É um rio em que um elefante pode nadar e um cordeiro pode vadear. Ele não “evitou toda passagem obscura”, como fazem comentadores demais; mas desalojou os inimigos da revelação de todos os textos em que tinham procurado se entrincheirar e enfrentou com lealdade e respondeu satisfatoriamente às suas objeções mais fortes. O falecido rev. John Newton, visitando um dia o rev. Eli Bates e vendo a primeira parte do Comentário do Dr. Clarke sobre a mesa, abriu-o por acaso no lugar em que o Doutor faz vários cálculos sobre o tamanho da arca de Noé. Quando o sr. N. terminou de ler a análise, fechou o livro, exclamando: “Graças a Deus! Nunca encontrei essas dificuldades nos Registros Sagrados!”. Ao que o sr. Bates respondeu: “Sim, senhor, o senhor as encontrou tanto quanto o Dr. Clarke; mas a diferença é que o senhor sempre pula por cima delas, enquanto ele as atravessa”.

O Dr. Clarke sempre deu a sua opinião sobre o que conscienciosamente cria ser o pensamento do Espírito com “honestidade e fidelidade inabaláveis, intransigentes e sem evasivas”; e, quando discordou de noções comumente aceitas, o fez do modo mais modesto, franco e cristão. Nos seguintes termos ele fala de si mesmo: “Embora perfeitamente satisfeito com a pureza dos meus motivos e a simplicidade da minha intenção, estou longe de estar contente com a obra em si. Quaisquer erros que se observem devem ser atribuídos à escassez do meu conhecimento. Não pretendo escrever para os eruditos; eu mesmo olho para eles em busca de instrução. Todas as pretensões da minha obra estão contidas na frase que está no título: ela é ‘destinada a ajudar a entender melhor os Escritos Sagrados’”. Aos numerosos escritores de folhetos e de revistas que pegaram a pena contra ele enquanto o seu Comentário estava em publicação, a sua resposta constante era: “Estou fazendo uma grande obra e não posso descer: por que a obra haveria de parar enquanto eu a deixo e desço até vocês?” (cf. Ne 6.3). Numa carta ao falecido rev. Joseph Hughes, diz ele: “Nunca escrevi um folheto de controvérsia na minha vida; vi com grande pesar as provocações de muitos, e mil vezes o meu coração disse:

Original Tradução
Semper ego auditor TANTUM, nunquamque reponam, Hei de ser sempre SÓ ouvinte, e nunca responder,
Vexatus toties? tantas vezes atormentado?

[N. do T.: Juvenal, Sátiras I, 1-2.]

Mas o meu amor à paz e a minha aversão às disputas religiosas me levaram a ficar dentro da minha concha e a nunca atravessar as águas da contenda. Eu esperava que, já que vivia pelo menos uma vida inofensiva, não sem os esforços mais sinceros e enérgicos, no meu pequeno modo, para fazer todo o bem público e particular ao meu alcance, me fosse permitido descer tranquilamente à sepultura. Mas isso me é negado”.

A algumas observações minhas, em 1825, ele respondeu: “Você diz que as minhas notas sobre Isaías são curtas demais. Não penso assim: segundo o meu plano, são tão longas quanto deveriam ser. Teria sido fácil fazê-las muito mais longas. Jeremias e Lamentações estão terminando no prelo. Ezequiel e Daniel estão prontos para entrar assim que os outros saírem. E, se Deus me poupar a vida e a saúde, os doze profetas menores estarão terminados antes do próximo Natal: assim avisto terra, finalmente, nesta longa e perigosa viagem”.

Na conclusão do Comentário, em 1826, diz ele: “Neste árduo trabalho não tive auxiliares; nem uma só semana de ajuda de um amanuense; nenhuma pessoa para procurar passagens de referência ou consultar um autor antigo, para encontrar o lugar e transcrever uma passagem de grego, de latim ou de qualquer outra língua que a minha memória geralmente tinha recordado, ou para verificar uma citação; excetuada a ajuda que recebi, na parte cronológica, do meu próprio sobrinho. Trabalhei sozinho durante quase vinte e cinco anos antes de a obra ser mandada para o prelo; e quinze anos foram empregados em fazê-la passar pelo prelo até o público: e assim se consumiram uns quarenta anos da minha vida”. As seguintes observações que ele fez numa carta a um jovem amigo deveriam ser conhecidas mais publicamente: “As Notas sobre o Novo Testamento do sr. Wesley são excelentes e úteis; e, se eu não estivesse plenamente convencido, no temor de Deus, do que vou dizer, não o diria. Digo, então: leia com cuidado o meu Comentário sobre as Escrituras. Escrevi cada página dele tendo em vista os ministros da palavra de Deus, e especialmente os que estão entre os metodistas; e não conheço nenhuma obra, seja ela qual for, em que as doutrinas dos metodistas sejam tão claramente expostas, ilustradas e provadas”. Nisto concordo de coração.

Ainda jovem, o Dr. Clarke tomou como lema: “Pelo desejo, o homem, tendo-se separado, busca e se ocupa de toda sabedoria” (cf. Pv 18.1). [N. do T.: Clarke segue a King James, Through desire a man, having separated himself, seeketh and intermeddleth with all wisdom; a NAA traduz o versículo de modo bem diferente: “O solitário busca o seu próprio interesse e se opõe à verdadeira sabedoria”.] E lembro-me de lhe ter perguntado, há alguns anos, se ele me aconselharia a me dedicar ao estudo da geologia e da mineralogia; e ele respondeu prontamente: “Sim; um pregador metodista deve saber de tudo”. Ele não só possuía uma das bibliotecas mais seletas e valiosas do reino, mas fez tal uso das suas oportunidades como poucas pessoas fizeram. Os tesouros de conhecimento útil que acumulou foram prodigiosos. O falecido rev. Robert Hall o declarou “um oceano de saber”, enquanto outro eminente ministro batista diz que ele era “sem dúvida o erudito mais universal da sua época”. Nunca buscou honras literárias, antes fugiu delas, julgando-se indigno; mas as sociedades eruditas e literárias pensavam de outro modo. Recebeu, como vimos, os seus diplomas de mestre em artes e de doutor em leis da Universidade e King’s College de Aberdeen; e foi sucessivamente eleito presidente da Sociedade Filológica de Liverpool e de Manchester; membro da Subcomissão Oriental da Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira; subcomissário dos Registros Públicos; bibliotecário da Surrey Institution; membro da Sociedade dos Antiquários; membro da Real Academia Irlandesa; membro da Sociedade Americana de Antiquários; membro da Sociedade Geológica de Londres; membro da Real Sociedade Asiática; e membro da Sociedade Eclética de Londres. Mas, numa carta ao seu amigo, o sr. Drew, observa piedosamente: “O saber eu amo; os homens eruditos eu prezo; com a companhia dos grandes e dos bons muitas vezes me deleito; mas, infinitamente acima de todas essas coisas e de todos os outros prazeres possíveis, glorio-me em Cristo, que vive e reina em mim e me prepara para o seu céu”.

Da escravidão o Dr. Clarke foi um inimigo decididíssimo, considerando-a, com todos os seus apêndices, “a primeira cria do inferno”. Em política era whig; mas raramente passava os olhos pelas páginas de um jornal. Eu estava com ele quando leu A voz de Santa Helena e não esquecerei tão cedo os termos em que falou do tratamento dado ao imperador exilado e do modo como foi conduzida a última guerra. Sobre vários assuntos, civis e eclesiásticos, que nos últimos anos causaram não pequena agitação, ele me escreveu com a maior liberdade. Essas cartas, por razões que não é preciso mencionar, não são publicadas nestas Memórias do meu querido e venerável amigo, cujo rosto não verei mais. Dizer que o estimei, admirei e amei é dizer pouco: porque a minha estima, a minha admiração e o meu afeto foram tais como nunca senti por nenhum outro homem; e sou obrigado a acrescentar: “Tomai-o em tudo e por tudo, não verei outro igual a ele”. [N. do T.: Shakespeare, Hamlet, ato I, cena 2.] Ele era uma lâmpada que ardia e iluminava (cf. Jo 5.35); e milhares, por algum tempo, se alegraram com a sua luz. Sofreu, da sombra da morte, um obscurecimento momentâneo, e agora aparece naquela região onde “os que forem sábios resplandecerão como o fulgor do firmamento, e os que conduzirem muitos à justiça brilharão como as estrelas, sempre e eternamente” (Dn 12.3).

Notas de Samuel Dunn

1. “Ele tinha recebido antes a seguinte carta do sr. Wesley: ‘Perto de Dublin, 25 de junho de 1789. Querido Adam, você me manda boas notícias a respeito das Ilhas. Quem nos pode fazer mal, se Deus está do nosso lado? Provações podem vir, mas todas são boas. Não sou tão provado há muitos anos. Todas as semanas, e quase todos os dias, sou enlameado nos jornais. Muitos estão em lágrimas por causa disso, muitos terrivelmente assustados e clamando: “Ó, qual será o fim? Qual será o fim?”. Ora, glória a Deus nas alturas e paz e boa vontade entre os homens. Mas, enquanto isso, o que se deve fazer? Qual será o meio mais eficaz de deter esta torrente furiosa? Acabo de visitar as classes e acho ainda na sociedade mais de mil membros; e, entre eles, muitos cristãos tão profundos quanto quaisquer que encontrei na Europa. Mas quem é capaz de vigiar sobre eles, para que não sejam abalados na sua firmeza? Não conheço ninguém mais apropriado do que Adam Clarke e a sua esposa. De fato, pode parecer duro para eles irem de novo para uma terra estranha. Pois bem, você pode vir ter comigo em Leeds no fim do mês que vem; e, se puder me mostrar alguém mais apropriado, mandarei esses em lugar de vocês, para que Deus seja glorificado em tudo o que é planejado por, querido Adam, o seu amigo e irmão afetuoso, J. Wesley’.” ↩

2. “Numa carta que me escreveu, ele diz: ‘Lord Glenbervie, que era um dos comissários, uma vez me escreveu: “Dr. Clarke, festina lente. O senhor se destruirá com o seu trabalho. Faça pouco, para que possa fazê-lo por muito tempo”. O mesmo conselho eu lhe dou. Deus o abençoe, meu querido Sammy’.” [N. do T.: festina lente, “apressa-te devagar”.] ↩

3. “Subscrições e donativos serão recebidos com gratidão pela amável viúva do Doutor, a sra. Clarke, em Stoke Newington, ou por qualquer dos ministros wesleyanos.” ↩

4. “Recebi a seguinte carta em 1825: ‘MEU QUERIDO SAMMY, quando eu tinha um só soberano no mundo para as Shetland, orei, clamei ardentemente a Deus, sentei-me e chorei, e chorei até mal conseguir enxergar para escrever ou ler. Bem, pensei mais uma vez, tenho de expor tudo ao nosso melhor amigo na terra. Com o coração cheio, expus o assunto numa carta ao sr. Scott, carta que foi regada de lágrimas que caíam depressa. Ele me escreveu dizendo que ele e a sra. S. viriam me ver dentro de quinze dias. Vieram; e eu parti, com a saúde muito ruim, para Londres a fim de encontrá-los. E, ó, que encontro! O coração deles estava quase tão cheio quanto o meu. Diz o sr. S.: “Vamos, dê-me um cheque; darei uma ordem de cem libras contra o meu banco”. Diz a sra. S.: “E eu, da minha bolsa particular, darei cinco libras”. “E a minha cunhada, a srta. Grainger”, diz o sr. S., “me pediu que desse cinco libras; e, para que nenhuma capela começada fique impedida, aqui estão mais dez libras; e assim darei o cheque de cento e vinte libras. E isso não é tudo o que farei; digo-lhe de novo: darei dez libras a cada capela ou casa começada sob a sua direção nas Shetland.” Ó meu Sammy! Você mal pode imaginar quanto me alegrei: agradeci a Deus, agradeci a eles e poderia ter beijado o chão em que pisavam. Disse no meu coração: “Ó meus pobres shetlandeses (que nunca vi e agora nunca verei, mas Deus os pôs no meu coração!), Deus não se esqueceu de vocês”. Mandei o meu cheque aos banqueiros, recebi o dinheiro, cento e vinte libras, e imediatamente escrevi a você e lhe contei o que Deus tinha feito, para que tomasse coragem e seguisse em frente. O sr. Scott me escreveu há dois ou três dias, dizendo que está muito doente e deseja fazer uma “escritura de fideicomisso” em favor das Shetland, e fazê-lo imediatamente; e deseja que eu lhe dê os nomes com que quero que ela seja preenchida. Velho como sou, tenho de ser um; o sr. Butterworth será outro, e você será o terceiro. Seu, meu querido Sammy, afetuosamente, ADAM CLARKE’. O sr. Butterworth, o sr. Scott e o querido Doutor foram todos chamados desde então a prestar contas da sua administração. O sr. S. deixou três mil libras para a Missão das Shetland, em títulos de três e meio por cento.” ↩

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Adam Clarke, Christian Theology, selecionada e organizada por Samuel Dunn (Londres, Thomas Tegg and Son, 1835), exemplar digitalizado pelo Google (Universidade de Illinois). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).