João Crisóstomo, Sobre o Sacerdócio · Livro I

A fuga da ordenação e o estratagema entre amigos

A amizade de João e Basílio, as súplicas da mãe viúva, o plano de agirem juntos e o estratagema pelo qual João fugiu da ordenação e deixou o amigo ser ordenado.

Livro I

1. Tive muitos amigos sinceros e verdadeiros, homens que entendiam as leis da amizade e as observavam com fidelidade; mas, de todo esse grande número, havia um que superava todos os outros na afeição que me tinha, esforçando-se por ultrapassá-los tanto quanto eles mesmos ultrapassavam os simples conhecidos. Era um dos que estavam constantemente ao meu lado, pois nos dedicávamos aos mesmos estudos e tínhamos os mesmos mestres.1 Tínhamos o mesmo ardor e o mesmo zelo pelos estudos em que trabalhávamos, e um desejo apaixonado, nascido das mesmas circunstâncias, era igualmente forte em nós dois. Pois não só quando frequentávamos a escola, mas também depois de a termos deixado, quando foi preciso ponderar que rumo de vida seria melhor para nós, descobrimos que pensávamos do mesmo modo.

2. Além disso, havia ainda outras coisas que preservavam e mantinham essa concórdia intacta e segura. Quanto à grandeza da nossa pátria, nenhum dos dois tinha motivo para se gabar diante do outro; nem eu estava carregado de riquezas enquanto ele passava aperto na pobreza, mas os nossos recursos correspondiam tão de perto quanto os nossos gostos. Também as nossas famílias eram de igual condição, e assim tudo concorria com a nossa disposição.

3. Mas, quando chegou o momento de seguirmos a vida bem-aventurada dos monges e a verdadeira filosofia,2 a nossa balança já não ficou equilibrada: o prato dele subiu bem alto, enquanto eu, ainda enredado nas cobiças deste mundo, puxava o meu para baixo e o mantinha embaixo, carregando-o com as fantasias a que os jovens costumam se entregar. Dali em diante, a nossa amizade continuou, é verdade, tão firme quanto antes, mas o nosso convívio foi interrompido, pois era impossível que pessoas que não se interessavam pelas mesmas coisas passassem muito tempo juntas. Mas, assim que eu também comecei a emergir um pouco da enxurrada das coisas mundanas, ele me recebeu de braços abertos; nem assim, porém, conseguimos manter a igualdade de antes, pois, tendo saído na minha frente no tempo e demonstrado grande empenho, ele outra vez se elevou acima do meu nível e alçou voo a grande altura.

4. Sendo, porém, um homem bom e dando grande valor à minha amizade, ele se separou de todos os demais (dos irmãos) e passava todo o seu tempo comigo, coisa que antes já desejava fazer, mas fora impedido, como eu dizia, pela minha frivolidade. Pois era impossível que um homem que frequentava os tribunais e vivia num alvoroço de excitação com os prazeres do teatro estivesse muitas vezes na companhia de alguém que vivia pregado aos seus livros e nunca punha os pés na praça pública. Por isso, quando os obstáculos foram removidos e ele me trouxe para a mesma condição de vida que a sua, deu livre curso ao desejo que havia muito o atormentava. Não suportava deixar-me nem por um instante, e insistia com persistência para que cada um de nós abandonasse a própria casa e partilhássemos uma moradia comum. De fato, ele me convenceu, e o assunto foi posto em andamento.

5. Mas as contínuas lamentações de minha mãe me impediram de lhe conceder esse favor, ou melhor, de receber das mãos dele esse benefício. Pois, quando ela percebeu que eu planejava esse passo, levou-me ao seu quarto particular e, sentando-se perto de mim, no leito em que me dera à luz, derramou torrentes de lágrimas, às quais acrescentou palavras ainda mais dignas de compaixão do que o seu pranto, neste tom lamentoso: Meu filho, não foi da vontade do Céu que eu gozasse por muito tempo da bênção da virtude de seu pai. Pois a morte dele seguiu-se logo às dores que suportei no seu nascimento, deixando você órfão e a mim viúva antes do tempo, para enfrentar todos os horrores da viuvez, que só quem os experimentou pode entender bem. Pois não há palavras que bastem para descrever a condição, sacudida pela tempestade, de uma moça que, tendo deixado há pouco a casa paterna e sem experiência nos negócios, se vê de repente torturada por uma dor esmagadora e obrigada a carregar um fardo de preocupações grande demais para a sua idade e o seu sexo. Pois ela tem de corrigir a preguiça dos criados e vigiar as suas velhacarias, repelir as tramas dos parentes, suportar com coragem as ameaças dos que cobram os impostos públicos3 e a dureza na fixação dos tributos. E, se o falecido tiver deixado um filho, ainda que seja uma menina, a mãe terá grande ansiedade, embora livre de muita despesa e temor; mas um menino a enche de dez mil sobressaltos e de muitas aflições todos os dias, para não falar da grande despesa que se é obrigada a fazer quando se deseja educá-lo de maneira digna de um homem livre. Nenhuma dessas coisas, porém, me levou a contrair um segundo casamento ou a introduzir um segundo marido na casa de seu pai; mas permaneci como estava, no meio da tempestade e do tumulto, e não fugi da fornalha de ferro (Dt 4.20; Jr 11.4)4 da viuvez. O meu primeiro socorro foi, sem dúvida, a graça do alto; mas não foi pequeno consolo para mim, naquelas terríveis provações, contemplar continuamente o seu rosto e conservar em você uma imagem viva daquele que se foi, imagem, aliás, bastante fiel.

Por isso, mesmo quando você era um bebê e ainda não tinha aprendido a falar, no tempo em que os filhos são a maior alegria dos pais, você me deu muito consolo. Nem você pode se queixar de que, embora eu tenha suportado a viuvez com coragem, diminuí o seu patrimônio, o que sei que tem sido a sorte de muitos que tiveram a desgraça de ficar órfãos. Pois, além de conservá-lo inteiro, não poupei nenhuma despesa necessária para lhe dar uma posição honrosa, gastando para isso parte dos meus próprios bens e do meu dote de casamento. Mas não pense que digo essas coisas para lhe fazer censura; apenas, em troca de todos esses benefícios, peço um favor: não me lance numa segunda viuvez, nem reavive a dor que agora está adormecida. Espere a minha morte: talvez dentro de pouco tempo eu parta. Os jovens, sim, esperam uma velhice distante; mas nós, que já envelhecemos,5 nada temos a esperar senão a morte. Quando, então, você tiver entregado o meu corpo à terra e misturado os meus ossos aos de seu pai, empreenda uma longa viagem e navegue pelo mar que quiser: então não haverá ninguém para impedi-lo. Mas, enquanto durar a minha vida, contente-se em viver comigo. Não se oponha a Deus em vão, eu lhe peço, envolvendo-me sem motivo nessas grandes calamidades, a mim, que não lhe fiz mal algum. Pois, se você tem alguma razão para se queixar de que eu o arrasto para as preocupações do mundo e o obrigo a cuidar de negócios, não se deixe deter por nenhum respeito às leis da natureza, à educação ou ao costume, mas fuja de mim como de um inimigo; se, ao contrário, eu faço tudo para lhe proporcionar tranquilidade na sua jornada por esta vida, que ao menos este laço, se nenhum outro, o mantenha ao meu lado. Pois, ainda que você pudesse dizer que dez mil o amam, ninguém lhe proporcionará o gozo de tanta liberdade, visto que não há ninguém igualmente zeloso do seu bem.

6. Essas palavras, e outras mais, minha mãe me disse, e eu as relatei àquele nobre jovem. Mas ele, longe de desanimar com esses discursos, insistia ainda mais no mesmo pedido de antes. Ora, enquanto estávamos nessa situação, ele suplicando continuamente e eu recusando o meu consentimento, fomos ambos perturbados por um boato que de repente nos chegou: estávamos para ser elevados à dignidade do episcopado.6 Assim que ouvi esse rumor, fui tomado de alarme e de perplexidade: de alarme, temendo ser capturado contra a minha vontade; e de perplexidade, perguntando-me muitas vezes de onde poderia ter entrado na mente daqueles homens uma ideia dessas a nosso respeito, pois, olhando para mim mesmo, não encontrava nada digno de tal honra. Mas aquele nobre jovem veio ter comigo em particular e, tendo conversado comigo sobre essas coisas como se eu ignorasse o boato, pediu que também neste caso, como antes, orientássemos as nossas ações e os nossos conselhos no mesmo sentido, pois ele de boa vontade me seguiria, qualquer que fosse o caminho que eu tomasse, quer eu tentasse fugir, quer me sujeitasse a ser capturado. Percebendo, então, o seu entusiasmo, e considerando que eu causaria um prejuízo a todo o corpo da Igreja se, por causa da minha própria fraqueza, privasse o rebanho de Cristo de um jovem tão bom e tão bem preparado para a supervisão de grandes multidões, abstive-me de lhe revelar o propósito que eu tinha formado, embora nunca antes tivesse permitido que algum dos meus planos lhe ficasse oculto. Disse-lhe então que seria melhor adiar a nossa decisão sobre esse assunto para outra ocasião, visto que não era coisa de urgência imediata, e assim o convenci a afastá-la dos pensamentos e, ao mesmo tempo, animei-o a esperar que, se alguma vez tal coisa nos acontecesse, eu estaria de acordo com ele. Mas, pouco tempo depois, quando chegou aquele que nos haveria de ordenar, eu me mantive escondido; Basílio, porém, que de nada sabia, foi levado sob outro pretexto e obrigado a tomar sobre si o jugo, esperando, pelas promessas que eu lhe tinha feito, que eu certamente o seguiria, ou melhor, supondo que era ele quem me seguia. Pois alguns dos que estavam presentes, vendo que ele se ressentia de ser agarrado, o enganaram, exclamando como era estranho que aquele que geralmente tinha fama de ser o mais esquentado (referindo-se a mim) tivesse cedido com toda a mansidão ao juízo dos Pais, ao passo que ele, considerado um homem muito mais sábio e mais manso, se mostrava exaltado e presunçoso, indisciplinado, rebelde e contestador.7 Tendo cedido a essas admoestações, e sabendo depois que eu escapara da captura, veio ter comigo em profundo abatimento, sentou-se perto de mim e tentou falar, mas foi impedido pela angústia da alma e pela incapacidade de exprimir em palavras a violência que tinha sofrido. Mal abria a boca, a dor o impedia de falar, cortando-lhe as palavras antes que lhe passassem pelos lábios. Vendo, então, o seu estado de lágrimas e agitação, e conhecendo como eu conhecia a causa, ri de alegria e, tomando-lhe a mão direita, dei-lhe à força um beijo e louvei a Deus porque o meu plano tinha terminado com tanto êxito, como eu sempre pedira em oração. Mas, quando ele viu que eu estava encantado e radiante de alegria, e compreendeu que fora enganado por mim, ficou ainda mais aborrecido e aflito.

7. Quando se recobrou um pouco dessa agitação de espírito, ele começou: Se você rejeitou a parte que lhe foi destinada e já não tem nenhuma consideração por mim (não sei, na verdade, por que motivo), deveria ao menos pensar na sua própria reputação; mas, do jeito que está, você abriu a boca de todos, e o mundo anda dizendo que você recusou este ministério por amor à vanglória, e não há ninguém que o livre dessa acusação. Quanto a mim, não suporto ir à praça pública; são tantos os que vêm ter comigo e me censuram todos os dias. Pois, quando me veem em qualquer parte da cidade, todos os meus amigos íntimos me chamam à parte e lançam sobre mim a maior parte da culpa. Conhecendo a intenção dele, dizem, pois nenhum dos assuntos dele podia ficar em segredo para você, você não devia tê-la escondido, mas devia tê-la comunicado a nós, e não nos faltaria algum plano para capturá-lo. Mas sinto vergonha e constrangimento demais para lhes dizer que eu não sabia que você vinha tramando havia muito esse ardil, para que não digam que a nossa amizade era puro fingimento. Pois, ainda que seja assim, como de fato é (nem você mesmo o negaria depois do que me fez), é bom esconder a nossa desgraça do mundo de fora e das pessoas que têm de nós uma opinião apenas moderada. Hesito em lhes dizer a verdade e como as coisas realmente estão entre nós, e sou obrigado, daqui em diante, a ficar calado, olhar para o chão e desviar-me para evitar os que encontro. Pois, se escapo da condenação pela primeira acusação, sou forçado a sofrer julgamento por mentir. Pois nunca acreditarão em mim quando eu disser que você colocou Basílio entre os que não têm permissão de conhecer os seus assuntos secretos. Disso, porém, não farei muito caso, já que assim lhe pareceu bem; mas como suportaremos a vergonha que virá? Pois uns acusam você de arrogância, outros de vanglória, enquanto os nossos acusadores mais misericordiosos nos atribuem essas duas faltas e acrescentam que insultamos os que nos honraram, embora, se eles tivessem sofrido uma afronta ainda maior, isso não passaria do que mereciam por terem preterido tantos homens, e tão ilustres, para promover meros jovens,8 que ainda ontem estavam mergulhados nos interesses deste mundo, a uma dignidade que eles jamais sonharam alcançar, a fim de que, por breve tempo, franzam as sobrancelhas, usem vestes escuras e assumam um ar grave. Os que, desde a aurora da idade adulta até a extrema velhice, praticaram com diligência a disciplina de si mesmos serão agora postos sob o governo de jovens que nem sequer ouviram falar das leis que deveriam regular a sua administração deste ofício. Sou perpetuamente assaltado por pessoas que dizem essas coisas e coisas piores, e não sei como lhes responder. Mas, eu lhe peço, diga-me, pois não suponho que você tenha fugido e incorrido em tamanho ódio de homens tão ilustres sem motivo ou sem reflexão, mas que a sua decisão foi tomada com raciocínio e prudência; por isso também conjecturo que você tenha algum argumento pronto para a sua defesa. Diga-me, então, se há alguma desculpa razoável que eu possa dar aos que nos acusam.

Pois não lhe peço contas das ofensas que sofri de suas mãos, nem do engano ou da traição que você praticou, nem da vantagem que você tirou de mim no passado. Pois eu pus, por assim dizer, a minha própria vida nas suas mãos, e você me tratou com tanta astúcia como se a sua tarefa fosse guardar-se de um inimigo. Contudo, se você sabia que esta nossa decisão era proveitosa, não devia ter evitado o lucro; se, ao contrário, era prejudicial, devia ter livrado também a mim do prejuízo, já que sempre dizia que me estimava acima de todos. Mas você fez de tudo para que eu caísse na armadilha; e não havia necessidade de astúcia e hipocrisia ao tratar com alguém que costumava mostrar a você a maior sinceridade e franqueza em palavras e em atos. Ainda assim, como eu disse, não o acuso agora de nenhuma dessas coisas, nem o censuro pela solidão em que você me deixou, rompendo aquelas conversas das quais muitas vezes tirávamos não pequeno prazer e proveito; mas todas essas coisas eu deixo passar e suporto em silêncio e mansidão, não porque você tenha agido com mansidão ao me ofender, mas porque, desde o dia em que passei a estimar a sua amizade, estabeleci para mim mesmo esta regra: qualquer tristeza que você me causasse, eu nunca o forçaria à necessidade de se desculpar. Pois você mesmo sabe que me causou um prejuízo não pequeno, se ao menos se lembra do que sempre dizíamos nós mesmos, e do que também o mundo de fora dizia a nosso respeito: que era um grande ganho para nós termos um só pensamento e sermos guardados pela amizade um do outro. Todos diziam, de fato, que a nossa concórdia traria não pequeno proveito a muitos além de nós; eu, porém, de minha parte, nunca percebi como ela poderia ser proveitosa a outros, mas dizia que ao menos tiraríamos dela este benefício: os que quisessem lutar contra nós nos achariam difíceis de vencer. E nunca deixei de lembrar a você essas coisas, dizendo: a época é cruel, e os homens de más intenções são muitos; o amor genuíno já não existe, e a peste mortal da inveja se insinuou no lugar dele; andamos no meio de laços e à beira das ameias;9 os que estão prontos a se alegrar com as nossas desgraças, se alguma nos sobrevier, são muitos e nos cercam de muitos lados, ao passo que não há ninguém para se condoer de nós, ou pelo menos o número desses se conta facilmente. Cuidado para que, com a separação, não incorramos em muito ridículo e num dano pior que o ridículo. “O irmão ajudado pelo irmão é como uma cidade forte e um reino bem fortificado” (Pv 18.19).10 Não desfaça esta intimidade genuína, nem derrube a fortaleza. Essas coisas e outras mais eu dizia continuamente, não porque alguma vez suspeitasse de algo assim, mas, supondo que você estivesse inteiramente são em relação a mim, eu o fazia como precaução supérflua, desejando conservar com saúde quem já estava são; mas, sem saber, ao que parece, eu ministrava remédios a um doente. E nem assim tive a sorte de fazer algum bem, e nada ganhei com o meu excesso de previdência. Pois, tendo lançado fora por completo todas essas considerações, sem lhes dar um só pensamento, você me deixou à deriva como um navio sem lastro num oceano desconhecido, sem se importar com as ondas furiosas que terei de enfrentar. Pois, se algum dia me couber sofrer calúnia, ou zombaria, ou qualquer outro tipo de insulto ou ameaça (e tais coisas hão de acontecer com frequência), a quem recorrerei como refúgio? A quem confiarei a minha aflição? Quem estará disposto a me socorrer, repelir os meus agressores e pôr fim aos seus ataques? Quem me consolará e me preparará para suportar as grosserias que ainda me possam estar reservadas? Não há ninguém, já que você se mantém afastado desta terrível luta e nem sequer pode ouvir o meu clamor. Vê, então, o mal que você causou? Agora que desferiu o golpe, percebe que ferida mortal me infligiu? Mas deixemos tudo isso de lado, pois é impossível desfazer o passado ou encontrar caminho em dificuldades sem caminho. Que direi ao mundo de fora? Que defesa apresentarei às suas acusações?

8. Crisóstomo: Tenha bom ânimo, respondi; pois não só estou pronto a responder por mim nessas questões, como também me esforçarei, o quanto puder, por dar conta daquelas pelas quais você não me pediu contas. Aliás, se você quiser, farei delas o ponto de partida da minha defesa. Pois seria uma estranha tolice da minha parte se, pensando apenas no louvor do público de fora e fazendo o possível para silenciar as suas acusações, eu não conseguisse convencer o mais querido de todos os meus amigos de que não o estou ofendendo, e o tratasse com uma indiferença maior do que o zelo que ele mostrou em meu favor, ele que me trata com tamanha paciência que se abstém até de me acusar das ofensas que diz ter sofrido de mim, e põe de lado os próprios interesses em consideração aos meus.

Que mal lhe fiz eu, já que resolvi lançar-me, a partir deste ponto, ao mar da defesa? Foi tê-lo enganado e escondido o meu propósito? Mas fiz isso para o bem de você mesmo, que foi enganado, e daqueles a quem o entreguei por meio desse engano. Pois, se o mal do engano é absoluto e nunca é lícito fazer uso dele, estou pronto a pagar a pena que você quiser; ou melhor, como você nunca suportará infligir-me um castigo, eu mesmo me sujeitarei à mesma condenação que os juízes pronunciam contra os malfeitores quando os seus acusadores os convencem de culpa. Mas, se a coisa não é sempre nociva, e se torna boa ou má conforme a intenção dos que a praticam, você deve deixar de se queixar do engano e provar que ele foi tramado contra você com um mau propósito; e, enquanto faltar essa prova, seria justo que os que desejam portar-se com prudência não só se abstivessem de censuras e acusações, mas até dessem acolhida amistosa ao enganador. Pois um engano oportuno, empreendido com reta intenção, traz tais vantagens que muitas pessoas tiveram muitas vezes de sofrer castigo por se absterem da fraude. E, se você investigar a história dos generais que gozaram da mais alta reputação desde as eras mais antigas, verá que a maior parte dos seus triunfos foi alcançada por estratagema, e que estes são mais louvados do que os que vencem em combate aberto. Pois estes últimos conduzem as suas campanhas com maior gasto de dinheiro e de homens, de modo que nada ganham com a vitória, mas sofrem tanta aflição quanto os que foram derrotados, tanto no sacrifício das tropas quanto no esgotamento dos recursos. Além disso, nem sequer lhes é permitido gozar de toda a glória que pertence à vitória, pois uma parte não pequena dela é colhida pelos que caíram, porque em espírito foram vitoriosos e a sua derrota foi apenas do corpo; de modo que, se lhes tivesse sido possível não cair quando foram feridos, e a morte não tivesse vindo pôr termo às suas fadigas, não haveria fim para a sua bravura. Mas quem consegue alcançar a vitória por estratagema envolve o inimigo tanto no ridículo quanto no desastre. Além disso, no outro caso, ambos os lados levam igualmente as honras concedidas ao valor, ao passo que, neste caso, não obtêm igualmente as que se concedem à sabedoria, mas o prêmio cabe inteiramente aos vencedores; e outro ponto não menos importante é que eles preservam para o Estado a alegria da vitória sem mistura, pois a abundância de recursos e as multidões de homens não são como as faculdades da mente: aqueles, se usados continuamente na guerra, necessariamente se esgotam e faltam aos que os possuem, ao passo que é da natureza da sabedoria crescer quanto mais é exercitada. E não só na guerra, mas também na paz se pode encontrar a necessidade do engano, não somente no que se refere aos negócios do Estado, mas também na vida privada, nas relações do marido com a mulher e da mulher com o marido, do filho com o pai, do amigo com o amigo, e também dos filhos com o pai ou a mãe. Pois a filha de Saul não teria conseguido livrar o marido das mãos de Saul (1Sm 19.12-18) senão enganando o pai. E o irmão dela, querendo salvar aquele que ela havia livrado, quando ele estava de novo em perigo, usou a mesma arma que a esposa (1Sm 20.11).

Basílio: Mas nenhum desses casos se aplica a mim, pois não sou inimigo, nem um dos que se esforçam para prejudicá-lo, mas exatamente o contrário. Pois confiei todos os meus interesses ao seu juízo e sempre o segui quando você mandava.

Crisóstomo: Mas, meu admirável e excelente amigo, é justamente por isso que tomei a precaução de dizer que era bom empregar essa espécie de engano não só na guerra e no trato com os inimigos, mas também na paz e no trato com os nossos amigos mais queridos. Pois, como prova de que ele é proveitoso não só aos que enganam, mas também aos que são enganados, se você for a qualquer médico e lhe perguntar como livra os pacientes da doença, ele lhe dirá que não depende apenas da sua habilidade profissional, mas às vezes conduz os doentes à saúde valendo-se do engano e misturando à sua arte o auxílio que dele obtém. Pois, quando a teimosia do paciente e a obstinação do mal frustram os conselhos dos médicos, então é necessário pôr a máscara do engano para que, como no palco, possam esconder o que de fato acontece. Mas, se você quiser, eu lhe contarei um exemplo de estratagema, entre muitos que ouvi terem sido engendrados pelos filhos da arte de curar.11 Um homem foi certa vez acometido de repente por uma febre muito violenta; o calor ardente aumentava, e o paciente rejeitava os remédios que poderiam abrandá-la e ansiava por um gole de vinho puro, suplicando apaixonadamente a todos os que se aproximavam que lho dessem e lhe permitissem saciar esse desejo mortal. Digo mortal porque, se alguém lhe tivesse atendido o pedido, não só teria exacerbado a febre, mas também teria levado o infeliz à loucura. Então, estando a habilidade profissional frustrada, no fim dos seus recursos e de todo inútil, o estratagema entrou em cena e mostrou o seu poder do modo que agora vou contar. O médico tomou um vaso de barro recém-saído do forno e, depois de embebê-lo em vinho, retirou-o vazio, encheu-o de água e, tendo mandado escurecer com cortinas o quarto onde jazia o doente, para que a luz não revelasse o truque, deu-lho a beber, fingindo que estava cheio de vinho puro. E o homem, antes mesmo de tomá-lo nas mãos, enganado pelo cheiro, não esperou para examinar o que lhe davam, mas, convencido pelo odor e enganado pela escuridão, engoliu com avidez a bebida e, saciado, logo se livrou da sensação de sufocação e escapou do perigo iminente.12 Vê a vantagem do engano? E, se alguém quisesse enumerar todos os artifícios dos médicos, a lista se estenderia indefinidamente. E não só os que curam o corpo, mas também os que tratam das doenças da alma podem ser vistos fazendo uso contínuo desse remédio. Assim o bem-aventurado Paulo atraiu aquelas multidões de judeus (At 21.26); com esse propósito circuncidou Timóteo (At 16.3), embora tivesse advertido os gálatas, na sua carta (Gl 5.2), de que Cristo de nada aproveitaria aos que se circuncidassem. Por essa causa sujeitou-se à lei, embora considerasse perda a justiça que vem da lei depois de ter recebido a fé em Cristo (Fp 3.7). Pois grande é o valor do engano, contanto que não seja introduzido com intenção maliciosa. Na verdade, uma ação desse tipo não deveria ser chamada engano, mas antes uma espécie de boa administração, de engenho e de habilidade, capaz de achar caminhos onde os recursos faltam e de suprir as deficiências da mente. Pois eu não chamaria Fineias de assassino, embora tenha matado dois seres humanos com um só golpe (Nm 25.7); nem tampouco Elias, depois da matança dos cem soldados e do capitão (2Rs 1.9-12) e das torrentes de sangue que fez derramar com a destruição dos que sacrificavam aos demônios (1Rs 18.40). Pois, se concedêssemos isso e examinássemos os atos nus em si mesmos, à parte da intenção dos que os praticaram, poder-se-ia, querendo, julgar Abraão culpado de infanticídio (Gn 22.3) e acusar o seu neto (Gn 27.19) e o seu descendente (Êx 11.2) de perversidade e de astúcia. Pois o primeiro se apoderou do direito de primogenitura, e o outro transferiu as riquezas dos egípcios para o exército dos israelitas. Mas não é assim: longe de nós esse pensamento audacioso! Pois não só os absolvemos de culpa, como também os admiramos por essas coisas, visto que o próprio Deus os louvou por elas. Pois mereceria com justiça o nome de enganador aquele que fizesse uso injusto dessa prática, e não aquele que o fizesse com um propósito salutar. E muitas vezes é necessário enganar e, por meio desse recurso, fazer os maiores benefícios, ao passo que aquele que seguiu um caminho reto causou grande mal à pessoa a quem não enganou.

Notas

1. Androgácio na filosofia, Libânio na retórica.

2. Expressão frequentemente empregada por São Crisóstomo no sentido de uma vida de contemplação e estudo religiosos.

3. Para um relato do modo opressivo como se cobravam os impostos públicos, ver Gibbon, History (edição de Milman), vol. iii, 78.

4. A fornalha de ferro era uma expressão proverbial hebraica que significava “uma fornalha quente o bastante para derreter o ferro” e, por isso, uma condição de provação especial.

5. Isto deve ser entendido como uma espécie de expressão retórica, pois sabemos pela “Carta a uma jovem viúva”, de Crisóstomo, que sua mãe não tinha muito mais de 40 anos nessa época.

6. episkopes é a leitura da maioria dos manuscritos, mas quatro trazem ierosunes, “o sacerdócio”, que Bengel adota, julgando que nem Basílio nem Crisóstomo poderiam ter sido eleitos para a ordem superior numa idade tão precoce.

7. As ordenações forçadas não eram raras na Igreja nessa época. Santo Agostinho foi arrastado chorando pelo povo diante do bispo, e a sua ordenação foi exigida. São Martinho de Tours foi arrancado da sua cela e conduzido à ordenação sob escolta. Possídio, Vita Aug. 4; Sulpício Severo, Vit. St. Martin, i. 224. A simulação de relutância em ser consagrado tornou-se moda na Igreja copta. O patriarca eleito de Alexandria ainda é levado ao Cairo carregado de correntes, como se para impedir a sua fuga. Stanley, Eastern Church, vii, p. 226.

8. Crisóstomo tinha cerca de 28 anos nessa época. O Concílio de Neocesareia (por volta de 320) fixou 30 anos como a idade em que os homens podiam ser admitidos ao sacerdócio, e pelo menos a mesma idade deve ter sido exigida para um bispo; no entanto, Remígio foi consagrado para a sé de Reims aos 22 anos, em 457 d.C.; e há muitos outros casos de bispos abaixo da idade prescrita.

9. Expressão metafórica para indicar uma posição perigosa, já que os que andavam à beira das muralhas ficavam expostos aos projéteis do inimigo.

10. Versão da LXX.

11. Literalmente, “filhos de médicos”. Compare-se a expressão “filhos dos profetas” no Antigo Testamento.

12. Clemente de Alexandria (Stromata vii) ilustra a mesma doutrina do engano permitido para um fim útil com uma referência semelhante à prática dos médicos.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de W. R. W. Stephens (Nicene and Post-Nicene Fathers, 1ª série, vol. 9, Nova York, 1889), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Crisóstomo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.