João Crisóstomo, Sobre o Sacerdócio · Livro VI

A responsabilidade do sacerdote no último dia

A conta que o sacerdote dará das almas no último dia; por que é mais difícil governar a Igreja do que viver como monge; o temor de João e o pedido final ao amigo.

Livro VI

1. Nossa condição aqui, de fato, é tal como você ouviu. Mas a nossa condição no além, como a suportaremos, quando formos obrigados a prestar contas de cada um dos que nos foram confiados? Pois o nosso castigo não se limita à vergonha: espera-nos também o castigo eterno. Quanto à passagem: “Obedeçam aos seus líderes e sejam submissos a eles, pois zelam pela alma de vocês, como quem deve prestar contas” (Hb 13.17), embora eu já a tenha mencionado uma vez, não me calarei sobre ela agora, porque o temor da sua advertência agita continuamente a minha alma. Pois se, para aquele que faz tropeçar um só, e esse o menor, seria melhor que “uma grande pedra de moinho fosse pendurada ao seu pescoço e fosse afogado na profundeza do mar” (Mt 18.6); e se os que ferem a consciência dos irmãos pecam contra o próprio Cristo, que sofrerão um dia, que espécie de castigo pagarão os que destroem não um só, nem dois, nem três, mas multidões tão numerosas? Pois não é possível alegar a inexperiência como desculpa, nem refugiar-se na ignorância, nem apresentar o pretexto da necessidade ou da força. Sim, se isso fosse possível, qualquer dos que estão sob o seu cuidado poderia valer-se desse refúgio para os próprios pecados com mais facilidade do que os bispos no caso dos pecados alheios. Você pergunta por quê? Porque aquele que foi constituído para corrigir a ignorância dos outros, e para adverti-los de antemão do combate com o diabo que está vindo sobre eles, não poderá apresentar a ignorância como desculpa, nem dizer: “Nunca ouvi soar a trombeta, não previ o combate”. Pois ele foi posto exatamente para isso, diz Ezequiel: para tocar a trombeta para os outros e adverti-los dos perigos iminentes. E por isso o seu castigo é inevitável, ainda que aquele que se perde seja apenas um. “Pois, se, quando vier a espada, o atalaia não tocar a trombeta para o povo, nem lhe der sinal, e a espada vier e levar alguém, este de fato é levado por causa da sua iniquidade, mas o seu sangue eu o requererei das mãos do atalaia” (Ez 33.6).

2. Deixe, pois, de nos impelir para um castigo tão inevitável; pois o nosso discurso não é sobre um exército nem sobre um reino, mas sobre um ofício que requer as virtudes de um anjo. Pois a alma do sacerdote deve ser mais pura que os próprios raios do sol, para que o Espírito Santo não o deixe desamparado, para que ele possa dizer: “Agora vivo, mas já não eu: é Cristo que vive em mim” (Gl 2.20). Pois se os que habitam o deserto, afastados para longe da cidade, da praça e do seu tumulto, e que gozam o tempo todo de um porto de descanso e de paz, não se dispõem a confiar na segurança daquele modo de vida, mas lhe acrescentam inúmeras outras salvaguardas, cercando-se por todos os lados e esforçando-se por falar e agir com grande circunspecção, para que, até o limite extremo do poder humano, possam aproximar-se de Deus com confiança e com pureza sem mancha, que poder e que força, você imagina, necessita o sacerdote ordenado para conseguir arrancar a sua alma de toda contaminação e guardar intacta a sua beleza espiritual? Pois ele precisa de pureza muito maior que a deles; e quem precisa de maior pureza está também sujeito a tentações mais prementes que eles, capazes de contaminá-lo, a menos que, por meio de constante renúncia de si mesmo e de muito trabalho, torne a sua alma inacessível a elas. Pois a beleza do rosto, a elegância dos movimentos, o andar afetado e a voz melíflua, as sobrancelhas pintadas e as faces esmaltadas de pintura, os penteados elaborados e os cabelos tingidos, o luxo das vestes, a variedade dos ornamentos de ouro, o brilho das pedras preciosas, a fragrância dos perfumes e todas as demais coisas a que as mulheres se dedicam bastam para perturbar a mente, a menos que ela esteja endurecida contra elas por muita austeridade de domínio próprio. Ora, ser perturbado por tais coisas não é de admirar. Mas que, por outro lado, o diabo seja capaz de atingir e abater as almas dos homens pelo oposto disso, eis o que nos enche de espanto e perplexidade.

3. Pois já houve homens que escaparam destas armadilhas e foram apanhados por outras muito diferentes delas. Pois até uma aparência descuidada, o cabelo desgrenhado, a roupa sórdida e o rosto sem pintura, o comportamento simples e a linguagem singela, o andar sem estudo e a voz sem afetação, uma vida de pobreza, uma condição desprezada, sem protetores e solitária, primeiro levaram quem as contemplava à compaixão e, em seguida, à ruína completa; e muitos que escaparam das primeiras redes, isto é, dos ornamentos de ouro, dos perfumes, das vestes e de todo o resto que mencionei como ligado a elas, caíram facilmente nestas, tão diferentes daquelas, e pereceram. Quando, então, tanto pela pobreza como pela riqueza, tanto pelo adorno como pelo descuido da aparência, tanto pelas maneiras estudadas como pelas espontâneas, em suma, por todos os meios que enumerei, acende-se a guerra na alma de quem contempla, e os seus artifícios o cercam por todos os lados, como poderá ele respirar livremente, cercado por tantas armadilhas? E que esconderijo poderá encontrar, não digo para evitar ser agarrado à força por elas (pois isso não é de todo difícil), mas para manter a própria alma livre da perturbação dos pensamentos impuros?

E deixo de lado as honras, que são causa de incontáveis males. Pois as que vêm das mãos de mulheres arruínam o vigor do domínio próprio e muitas vezes o derrubam, quando o homem não sabe vigiar constantemente contra tais desígnios; quanto às que vêm das mãos de homens, a menos que alguém as receba com muita nobreza de espírito, é tomado por duas paixões contrárias: a bajulação servil e o orgulho insensato. Diante dos que o protegem, é obrigado a rebaixar-se; e diante dos inferiores incha-se, por causa das honras que os outros lhe conferem, e é arrastado ao abismo da arrogância. Mencionamos essas coisas, de fato, mas quão nocivas elas realmente são, ninguém poderia bem aprender sem a experiência. Pois não só essas armadilhas, mas outras maiores e mais enganosas, há de enfrentar quem tem o seu trato no mundo. Mas quem se contenta com a solidão está livre de tudo isso; e se alguma vez um pensamento estranho forma uma imagem desse tipo, a imagem é fraca e pode ser vencida depressa, porque não se acrescenta de fora nenhum combustível à chama, vindo da vista real. Pois o solitário só tem de temer por si mesmo; ou, se for obrigado a cuidar de outros, estes são facilmente contados; e, se forem muitos, ainda assim são menos que os das nossas igrejas, e dão a quem os preside preocupação muito mais leve, não só por serem poucos, mas porque todos estão livres dos cuidados do mundo e não têm mulher, nem filhos, nem coisa alguma desse gênero com que se preocupar; e isso os torna muito deferentes para com os seus superiores e lhes permite partilhar a mesma morada com eles, de modo que estes são capazes de perceber com exatidão, num relance, as suas faltas e corrigi-las, visto que a supervisão constante de um mestre é não pequena ajuda para o progresso na virtude.

4. Mas, dos que estão sujeitos ao sacerdote, a maioria está tolhida pelos cuidados desta vida, e isso os torna mais lentos no cumprimento dos deveres espirituais. Por isso é necessário que o mestre semeie todos os dias (por assim dizer), para que, ao menos pela frequência, a palavra da doutrina possa ser apreendida pelos que ouvem. Pois a riqueza excessiva, a abundância de poder, a preguiça filha do luxo e muitas outras coisas além destas sufocam as sementes que foram lançadas. Muitas vezes, também, o espesso crescimento dos espinhos não deixa a semente cair sequer na superfície do solo. Por outro lado, o excesso de aflições, o aperto da pobreza, os insultos constantes e outras coisas semelhantes, o reverso das anteriores, desviam a mente da preocupação com as coisas divinas; e dos pecados do seu povo nem a menor parte pode tornar-se visível; pois como poderia, no caso daqueles que em sua maioria eles nem sequer conhecem de vista?

Tanta dificuldade envolvem as relações do sacerdote com o seu povo. Mas, se alguém indagar sobre as suas relações com Deus, verá que as outras não são nada, pois estas exigem um empenho maior e mais completo. Pois aquele que age como embaixador em favor de toda a cidade (mas por que digo a cidade? em favor do mundo inteiro, na verdade) ora para que Deus seja misericordioso com os pecados de todos, não só dos vivos, mas também dos que partiram.1 Que espécie de homem deve ele ser? De minha parte, penso que a ousadia no falar de Moisés e de Elias é insuficiente para tal súplica. Pois, como se lhe tivesse sido confiado o mundo inteiro e ele próprio fosse o pai de todos os homens, aproxima-se de Deus suplicando que as guerras se extingam em toda parte, que os tumultos se aplaquem; pedindo paz e fartura, e pronta libertação de todos os males que afligem cada um, pública e particularmente; e deve superar em tudo todos aqueles por quem ora tanto quanto os governantes devem superar os seus súditos.

E quando ele invoca o Espírito Santo, oferece o tremendíssimo sacrifício e toca constantemente o Senhor comum de todos, diga-me, que posição lhe daremos? Que grande pureza e que piedade verdadeira devemos exigir dele? Pois considere como devem ser as mãos que servem nessas coisas, e como deve ser a língua que pronuncia tais palavras;2 e não deveria a alma que recebe um espírito tão grande ser mais pura e mais santa que qualquer coisa no mundo? Nesse momento, os anjos estão ao lado do sacerdote; e todo o santuário, e o espaço em volta do altar, enche-se das potestades celestes, em honra daquele que ali jaz. Pois isso, de fato, pode ser provado pelos próprios ritos que então se celebram. Eu mesmo, além disso, ouvi certa vez alguém contar que um ancião venerável, acostumado a ter revelações, lhe dizia que, tendo sido julgado digno de uma visão desse tipo, em tal momento viu de repente, tanto quanto lhe era possível, uma multidão de anjos vestidos de túnicas resplandecentes, rodeando o altar e inclinando-se, como se veriam soldados na presença do seu rei; e eu, de minha parte, o creio. Além disso, outro me contou, não por tê-lo aprendido de alguém, mas por ter sido ele mesmo julgado digno de ser testemunha de ouvido e de vista, que, no caso dos que estão para partir daqui, se acontece serem participantes dos mistérios com consciência pura, quando estão para dar o último suspiro, os anjos os guardam por causa daquilo que receberam e os levam daqui. E você ainda não treme de introduzir num mistério tão sagrado como este uma alma, e de elevar à dignidade do sacerdócio alguém vestido de trajes imundos, a quem Cristo excluiu do restante do grupo dos convidados (Mt 22.13)? A alma do sacerdote deve brilhar como uma luz que resplandece sobre o mundo inteiro. Mas a minha tem sobre si trevas tão grandes, por causa da minha má consciência, que está sempre abatida e nunca é capaz de erguer os olhos com confiança para o seu Senhor. Os sacerdotes são o sal da terra (Mt 5.13). Mas quem suportaria com facilidade a minha falta de entendimento e a minha inexperiência em todas as coisas, senão você, que costuma amar-me sem medida? Pois o sacerdote não deve apenas ser assim puro, como quem foi honrado com um ministério tão elevado, mas muito discreto e hábil em muitas coisas, tão versado nos negócios desta vida quanto os que estão envolvidos no mundo e, ainda assim, mais livre de todos eles do que os solitários que ocupam os montes. Pois, visto que deve conviver com homens que têm mulher e criam filhos, que possuem servos e estão cercados de riquezas, que ocupam cargos públicos e são pessoas de influência, também ele deve ser um homem de muitas faces; digo de muitas faces, não falso, nem bajulador e hipócrita, mas cheio de muita liberdade e segurança, e sabendo adaptar-se proveitosamente onde as circunstâncias o exigirem, e ser ao mesmo tempo bondoso e severo. Pois não é possível tratar todos os que estão sob o próprio cuidado segundo um único plano, assim como não convém aos médicos aplicar um só tratamento a todos os seus doentes, nem ao piloto conhecer um só modo de lutar contra os ventos. Pois, na verdade, tempestades contínuas assaltam este nosso navio, e essas tempestades não atacam só de fora, mas nascem de dentro; e há necessidade de muita condescendência e circunspecção, e todas essas diferentes coisas têm em vista um único fim: a glória de Deus e a edificação da Igreja.

5. Grande é o combate que os solitários enfrentam, e muito o seu trabalho.3 Mas, se alguém comparar os esforços deles com os que o reto exercício do sacerdócio envolve, encontrará uma diferença tão grande quanto a distância entre um rei e um homem do povo. Pois lá, se o trabalho é de fato grande, o combate é comum ao corpo e à alma, ou melhor, a maior parte dele se realiza pela condição do corpo; e, se este não for forte, a disposição permanece sem desenvolver-se e é incapaz de passar à ação. Pois o hábito do jejum rigoroso, de dormir no chão, de vigiar, de abster-se do banho, o grande esforço e todos os outros meios que usam para afligir o corpo são abandonados quando o corpo que deve ser assim disciplinado não é forte. Mas, neste caso, o que está em jogo é a pureza da alma, e nenhum vigor corporal é exigido para mostrar a sua excelência. Pois em que contribui a força do corpo para que não sejamos obstinados, nem orgulhosos, nem teimosos, mas sóbrios, prudentes e ordeiros, e tudo o mais com que São Paulo completou o retrato do sacerdote perfeito? Mas ninguém poderia dizer isso das virtudes do solitário.

6. Mas, assim como os prestidigitadores precisam de grande aparato, rodas, cordas e punhais, enquanto o filósofo tem toda a sua arte guardada na mente, sem precisar de nenhum instrumento exterior, assim também no caso presente. O solitário precisa tanto de boa condição física como de um lugar apropriado ao seu modo de vida, para que não fique estabelecido longe demais do convívio com os semelhantes, e tenha a tranquilidade própria dos lugares desertos, e além disso não deixe de gozar do clima mais favorável. Pois nada é tão insuportável para um corpo gasto pelos jejuns como um clima instável. E não preciso falar agora do trabalho que são obrigados a ter no preparo das roupas e do alimento diário, pois eles mesmos fazem questão de fazer tudo com as próprias mãos. Mas o sacerdote não precisará de nada disso para suprir as suas necessidades: não se preocupa com essas coisas e participa de todas as que são inofensivas, enquanto tem toda a sua perícia guardada no tesouro da mente. Mas, se alguém admira a vida solitária e o afastamento da convivência com a multidão, eu mesmo diria que tal vida é sinal de paciência, mas não prova suficiente de completa fortaleza de alma. Pois o homem que se senta ao leme no porto ainda não dá prova segura da sua arte. Mas, se alguém é capaz de conduzir o seu navio em segurança no meio do mar, ninguém lhe negaria ser um excelente timoneiro.

7. Não seria, portanto, de modo algum excessivamente surpreendente para nós que o solitário, vivendo como vive consigo mesmo, fique sem perturbação e não cometa muitos e grandes pecados. Pois não encontra coisas que irritem e excitem a sua mente. Mas, se alguém que se dedicou a multidões inteiras e foi obrigado a suportar os pecados de muitos permaneceu constante e firme, governando a alma no meio da tempestade como se estivesse na calmaria, este é o homem que merece com justiça ser aplaudido e admirado por todos, pois deu prova suficiente da sua coragem pessoal. Não se admire, portanto, você, se eu, que evito a praça e os lugares frequentados pela multidão, não tenho muitos que me acusem. Pois eu não deveria admirar-me se não pequei enquanto dormia, nem caí quando não lutei, nem fui ferido quando não combati. Pois quem, diga-me, quem poderá falar contra mim e revelar a minha depravação? Este teto ou esta cela? Não, eles não poderiam soltar a língua. A minha mãe, que melhor que ninguém conhece os meus assuntos? Ora, certamente com ela não estou em contato, nem jamais chegamos a uma briga; e, se isso tivesse acontecido, nenhuma mãe é tão sem coração e tão falta de afeto pelo filho que vá injuriar e acusar diante de todos aquele que gerou com dores, deu à luz e criou, se não houvesse motivo que a obrigasse nem pessoa que a incitasse a tal ato. Contudo, se alguém quiser fazer um exame cuidadoso da minha mente, descobrirá ali muita coisa corrompida. Nem você ignora isso, você que costuma de modo especial exaltar-me com louvores diante de todos. E, para mostrar que não digo isso por mera modéstia, lembre-se de quantas vezes eu lhe disse, quando discutíamos esse assunto entre nós: “Se alguém me desse a escolher entre distinguir-me na supervisão da Igreja ou na vida do solitário, eu votaria mil vezes por aceitar a primeira. Pois nunca deixei de felicitar os que puderam desempenhar bem esse ofício, e ninguém negará que aquilo que eu considerava bem-aventurado eu não teria evitado, se fosse capaz de tomar parte nele dignamente. Mas que hei de fazer? Nada há tão prejudicial à supervisão da Igreja quanto esta minha inatividade e negligência, que outros julgam ser uma espécie de disciplina de si mesmo, mas que eu tenho por um véu, por assim dizer, da minha fraqueza pessoal, que cobre a maior parte dos meus defeitos e não os deixa aparecer. Pois quem está acostumado a gozar de tão grande liberdade de afazeres e a passar o tempo em muito repouso, ainda que seja de natureza nobre, fica confuso pela inexperiência e perturba-se, e a sua inatividade o priva de não pequena parte da sua capacidade natural. Mas quando, além disso, é de inteligência lenta e também desconhece essas duras provas, o que, a meu ver, é o meu caso, exercerá o ministério que recebeu não melhor que uma estátua. Por isso, dos que daquela escola chegaram a provas tão grandes, poucos brilham; a maior parte se trai, cai e passa por muitas durezas e sofrimentos; e não é de admirar. Pois as provas e o treinamento não dizem respeito às mesmas coisas. Quem está na luta em nada difere dos que não têm treino. Quem entra assim nesta arena deve desprezar a glória, estar acima da ira e ser cheio de grande discrição. Mas, para o exercício dessas qualidades, não há espaço no caso de quem adota uma vida retirada. Pois ele não tem muitos que o provoquem para que possa exercitar-se em castigar a força da sua ira, nem admiradores e aplaudidores para que seja treinado a desprezar os louvores das multidões. E da discrição exigida na Igreja não se faz conta nenhuma no caso deles. Quando, portanto, chegam às provas de que nunca tiveram experiência prática, ficam desnorteados, perdem a cabeça, caem num estado de impotência e, além de nada acrescentarem à sua excelência, muitas vezes perdem até aquela que trouxeram consigo.

8. Basílio: E então? Poremos à frente da administração da Igreja os que se movem na sociedade, que cuidam dos interesses deste mundo, que são peritos em disputas e injúrias, cheios de incontáveis artifícios e versados nos costumes do luxo?

Crisóstomo: Silêncio, querido amigo! Você nunca deveria ter em mente homens como esses quando se discute o sacerdócio, mas somente os que são capazes, depois de se misturarem e conviverem com todos, de guardar sem mancha a sua pureza, e inabaláveis o seu desprendimento do mundo, a sua santidade, constância e sobriedade, e de possuir todas as outras virtudes próprias dos solitários em grau maior que eles. Quem tem muitos defeitos, mas é capaz de escondê-los por meio do seu retiro e de torná-los inoperantes por não conviver com ninguém, quando entra na sociedade nada ganhará senão a posição de objeto de riso, e correrá riscos ainda maiores, coisa que eu mesmo por pouco não experimentei, se a providência de Deus não tivesse afastado depressa tal fogo da minha cabeça. Pois não é possível a alguém nessa posição passar despercebido, estando colocado em lugar tão visível; tudo então é descoberto, e, assim como o fogo prova o material dos metais, assim também a prova do ofício clerical examina as almas dos homens mortais; e, se alguém é irascível ou mesquinho, ou ambicioso de fama, se é jactancioso, ou qualquer outra coisa desse gênero, ela desvenda tudo, e depressa põe a nu os seus defeitos, e não só os põe a nu, mas aumenta-lhes o tormento e a força. Pois as feridas do corpo, quando esfoladas, tornam-se mais difíceis de curar, e as paixões da mente, quando atritadas e irritadas, naturalmente se exasperam mais, e os que as têm são levados a cometer pecados maiores. Pois elas incitam quem não as refreia ao amor da glória, à jactância e ao desejo dos bens deste mundo, e o arrastam para baixo, tanto ao luxo e ao relaxamento da vida como à preguiça e, pouco a pouco, a males piores que esses, que deles resultam. Pois muitas são as circunstâncias da sociedade que têm o poder de desequilibrar a mente e de impedir o seu curso reto;4 e a primeira de todas é o trato social com as mulheres. Pois não é possível ao bispo, que é responsável por todo o rebanho, cuidar da parte masculina dele e passar por alto a feminina, que precisa de previdência mais particular por causa da sua inclinação aos pecados. Mas o homem constituído para a administração de um bispado deve cuidar da saúde moral destas, se não em grau maior, ao menos em grau não menor que a dos outros. Pois é necessário visitá-las quando estão doentes, consolá-las quando estão tristes, repreendê-las quando estão ociosas e socorrê-las quando estão aflitas; e, nesses casos, o maligno encontraria muitas ocasiões de aproximação, se o homem não se fortificasse com uma guarda muito rigorosa. Pois o olhar, não só da mulher impudica, mas também da recatada, penetra e perturba a mente. As lisonjas a enfraquecem, os favores a escravizam, e o amor fervoroso, fonte, pode-se dizer, de todo bem, torna-se causa de incontáveis males para os que não fazem dele o uso correto. Também os cuidados constantes já embotaram o fio do entendimento e tornaram mais pesado que o chumbo o que era leve, enquanto a ira irrompeu como fumaça e tomou posse de todo o homem interior.

9. Para que falar dos danos que resultam da tristeza,5 dos insultos, das ofensas, das censuras dos superiores, dos inferiores, dos sábios e dos tolos? Pois a gente a quem falta o reto juízo gosta especialmente de censurar e nunca aceita de bom grado nenhuma desculpa. Mas o bispo verdadeiramente excelente não deve fazer pouco caso dessas coisas; deve, antes, justificar-se diante de todos das acusações que lhe fazem, com grande paciência e mansidão, perdoando-lhes as críticas sem razão, em vez de se indignar e se irritar com elas. Porque, se São Paulo temeu incorrer, entre os seus discípulos, na suspeita de furto, e por isso confiou a outros a administração do dinheiro, para que, diz ele, “ninguém nos acuse por causa desta generosa dádiva administrada por nós” (2Co 8.20), como não devemos nós fazer de tudo para afastar as suspeitas maldosas, ainda que sejam falsas, totalmente sem razão e muito alheias ao nosso pensamento? Pois não estamos tão completamente distantes de qualquer pecado quanto São Paulo estava do furto; e, no entanto, apesar de tão longe dessa má prática, nem por isso ele desprezou a suspeita do mundo, embora fosse muito absurda e até insensata. Era loucura, de fato, ter qualquer suspeita desse tipo a respeito daquele homem bem-aventurado e admirável. Ainda assim, ele afasta para bem longe as causas dessa suspeita, por mais sem razão que fosse, e tal que ninguém em seu juízo perfeito a nutriria; e não desdenhou a insensatez das multidões, nem disse: “A quem já passou pela cabeça suspeitar tais coisas de nós, depois dos sinais que realizei e da paciência que marcou a minha vida, e quando todos vocês nos reverenciavam e admiravam?” Muito pelo contrário: ele previu e esperou essa suspeita vil e a arrancou pela raiz, ou melhor, nem sequer a deixou crescer. Por quê? “Porque”, diz ele, “cuidamos para fazer o que é correto, não só diante do Senhor, mas também diante das pessoas” (2Co 8.21; Rm 12.17). Tanto zelo, e até muito maior, devemos empregar para arrancar e impedir os boatos que não são bons, para ver de longe, com antecedência, de onde vêm e para remover de antemão as causas que os produzem, sem esperar que se firmem e passem a ser o assunto comum na boca de todos. Pois então já não será fácil destruí-los no futuro, mas muito difícil, talvez impossível, e não sem prejuízo, porque isso se faz depois que muitos já foram prejudicados. Mas até onde vou continuar perseguindo o inalcançável? Enumerar todas as dificuldades desse lado não é nem mais nem menos que medir o oceano. Mesmo que alguém se livrasse de toda paixão (o que é impossível), para corrigir as falhas dos outros é obrigado a passar por inúmeras provações; e, quando se juntam a isso as suas próprias fraquezas, eis aí um abismo de trabalho e de cuidado, e tudo o que precisa sofrer quem deseja vencer os males em si mesmo e nos que o cercam.

10. Basílio: E agora, você está livre de trabalhos? Não tem preocupações enquanto vive sozinho?

Crisóstomo: Tenho, sim, mesmo agora. Pois como é possível a quem é homem, e vive esta nossa vida trabalhosa, estar livre de preocupações e de combates? Mas não é exatamente a mesma coisa um homem lançar-se num oceano sem limites e atravessar um rio, tão grande é a diferença entre estas preocupações e aquelas. Agora, de fato, se eu fosse capaz de me tornar útil aos outros, eu mesmo o desejaria, e isso seria objeto das minhas orações. Mas, se não é possível ajudar outra pessoa, contanto que seja possível salvar a mim mesmo e livrar-me das ondas, ficarei contente.

Basílio: Você acha, então, que isso é grande coisa? E imagina que será salvo sem ser útil a nenhum outro?

Crisóstomo: Você falou bem e com nobreza, pois eu mesmo não consigo crer que seja possível ser salvo quem não trabalhou pela salvação do seu próximo; e de nada adiantou ao miserável do Evangelho não ter diminuído o seu talento; ele pereceu por não o ter aumentado e devolvido em dobro ao seu senhor. Ainda assim, penso que o meu castigo será mais brando, quando me pedirem contas, por não ter salvado os outros, do que seria se eu destruísse a mim mesmo e também aos outros, tornando-me muito pior depois de tão grande honra. Pois agora confio que o meu castigo será proporcional à medida dos meus pecados; mas, depois de receber este ofício, temo que seria não o dobro, nem o triplo, mas muitas vezes maior, porque eu teria feito tropeçar a muitíssimos e, depois de uma honra acrescida, teria ofendido o Deus que me honrou.

11. Por essa mesma razão Deus acusa os israelitas com mais veemência e mostra que eram dignos de castigo maior, porque pecaram depois de terem recebido dele tantas honras, dizendo num lugar: “De todas as famílias da terra, somente a vocês eu escolhi; portanto, eu os punirei por todas as suas iniquidades” (Am 3.2); e ainda: “Escolhi alguns dos seus filhos para serem profetas e alguns dos seus jovens para serem nazireus” (Am 2.11). E antes do tempo dos profetas, querendo mostrar que os pecados recebem castigo muito mais severo quando ocorrem no caso do sacerdote do que no caso dos leigos, ele ordena que se ofereça pelo sacerdote um sacrifício tão grande quanto o que se oferece por todo o povo (Lv 4.3, 14). Isso equivale a uma prova, da parte dele, de que as feridas do sacerdócio precisam de mais socorro, isto é, de tanto quanto as de todo o povo junto; e não precisariam de um socorro maior se não fossem piores; e não são piores por natureza, mas se agravam por causa da dignidade do sacerdote que ousa cometê-las. E por que falo dos homens que exercem este ministério? As filhas dos sacerdotes (Lv 21.9), que não têm parte no ofício sacerdotal, ainda assim, por causa da dignidade do pai, sofrem castigo muito mais amargo pelos mesmos pecados que as outras; e a falta é a mesma no caso delas e no das filhas dos leigos, a saber, a fornicação em ambos os casos; contudo, a pena é muito mais severa para as primeiras. Você vê com que abundância de provas Deus lhe mostra que exige castigo muito maior de quem governa do que dos governados? Pois, sem dúvida, quem castiga a filha de certo homem mais severamente que as outras por causa desse homem não cobrará do homem que é a causa do castigo adicional dela a mesma pena que dos outros, mas uma muito mais pesada; e com toda a razão, porque o mal não o atinge só a ele, mas destrói as almas dos irmãos mais fracos e dos que olham para ele. E Ezequiel, escrevendo para mostrar isso, distingue entre si o julgamento dos carneiros e o das ovelhas (Ez 34.17).

12. Parece-lhe, então, que o nosso temor é razoável? Pois, além do que já foi dito, embora eu precise de muito esforço para não ser completamente dominado pelas paixões da minha alma, ainda assim suporto o esforço e não fujo do combate. Mesmo agora sou feito cativo pela vanglória, mas muitas vezes me recupero, percebo de relance que fui apanhado, e há momentos em que repreendo a minha alma escravizada. Desejos desenfreados me assaltam mesmo agora, mas acendem só uma chama fraca, pois os olhos do meu corpo não conseguem se prender a nenhum combustível que alimente o fogo. De falar mal de alguém, ou de ouvir falar mal de alguém, estou inteiramente afastado, pois não tenho com quem conversar; certamente estas paredes nunca haveriam de ganhar língua. Já evitar a ira, porém, não é possível da mesma maneira, embora não haja ninguém que a provoque. Pois muitas vezes, quando me vem a lembrança de homens insolentes e do que fizeram, o meu coração se inflama. Mas não por muito tempo, porque logo domino o seu ardor e o convenço a ficar quieto, dizendo-lhe que é muito inconveniente e extremamente desprezível deixar de lado as próprias faltas e ocupar-se das faltas do próximo. Mas, se eu fosse para o meio da multidão e me envolvesse em inúmeras agitações, não poderia tirar proveito dessa advertência, nem ter as reflexões que agora me chamam assim à responsabilidade. Assim como os que são arrastados por uma torrente para um precipício, ou de algum outro modo, conseguem prever a destruição para a qual afinal caminham, mas não conseguem pensar em nenhum meio de socorro, assim também eu, caído no grande tumulto das minhas paixões, poderei ver de relance o meu castigo crescer dia após dia. Mas ser senhor de mim mesmo como sou agora, e repreender doenças desse tipo que se enfurecem por todos os lados, não me seria tão fácil como antes. Pois a minha alma é fraca e mesquinha, e facilmente dominada, não só por essas paixões, mas pela inveja, que é mais amarga que todas elas. Também não sabe suportar com moderação nem as ofensas nem as honras: estas a exaltam em excesso, aquelas a abatem. Assim como as feras selvagens, quando estão bem nutridas e em pleno vigor, vencem os que lutam contra elas, sobretudo se estes forem fracos e inexperientes, mas, se alguém as enfraquecer pela fome, adormecerá a sua fúria e extinguirá a maior parte da sua força, de modo que alguém não muito valente poderá enfrentá-las e travar combate com elas, assim também acontece com as paixões da alma. Quem as enfraquece submete-as à reta razão; mas quem as nutre com cuidado torna mais difícil o combate contra elas e as faz tão temíveis que passa todo o seu tempo na servidão e no medo.

E qual é o alimento dessas feras? Da vanglória, as honras e os aplausos; do orgulho, a abundância de autoridade e de poder; da inveja, a boa fama do próximo; da avareza, a liberalidade dos generosos; da incontinência, o luxo e a companhia constante de mulheres; e as outras paixões não têm, cada uma, o seu alimento próprio? E todas essas coisas me atacarão duramente se eu sair para o mundo, despedaçarão a minha alma, ficarão mais temíveis e tornarão mais difícil o meu combate contra elas. Ao passo que, enquanto eu estiver estabelecido aqui, serão subjugadas; e isso, de fato, só com grande esforço; mas, ao mesmo tempo, pela graça de Deus, serão subjugadas, e então não haverá nada pior do que os seus latidos. Por essas razões fico nesta cela, inacessível, recolhido em mim mesmo e pouco sociável, e suporto ouvir inúmeras queixas desse tipo, embora de bom grado as apagasse, e me tenha aborrecido e entristecido por não poder fazê-lo; pois não me é fácil tornar-me sociável e, ao mesmo tempo, permanecer na segurança em que agora estou. Por isso peço também a você que tenha pena, em vez de censurar, de quem está cercado de tão grande dificuldade.

Mas ainda não conseguimos convencer você. Chegou, portanto, o momento de lhe dizer a única coisa que deixei por dizer. Talvez a muitos pareça incrível, mas nem assim terei vergonha de trazê-la a público; pois, embora o que se diz seja prova de uma consciência má e de muitos pecados, ainda assim, já que Deus, que há de nos julgar, sabe tudo com exatidão, que ganho nos virá da ignorância dos homens? Que é, então, isso que ainda não foi dito? Desde o dia em que você me comunicou a suspeita do episcopado, todo o meu ser esteve muitas vezes a ponto de se desmantelar por completo, tal foi o medo, tal o desânimo que se apoderou da minha alma. Pois, ao considerar a glória da Noiva de Cristo, a sua santidade, a sua beleza espiritual, a sua sabedoria e a sua formosura, e depois fazer a conta das minhas próprias faltas, eu não parava de chorar por ela e por mim mesmo; e, no meio de uma angústia e perplexidade contínuas, eu repetia: Quem, afinal, fez uma sugestão como esta? Por que a Igreja de Deus cometeu um erro tão grande? Por que provocou tanto o seu Senhor, a ponto de ser entregue a mim, o mais indigno de todos os homens, e de sofrer tamanha desonra? Considerando muitas vezes sozinho essas coisas, e sem conseguir suportar o pensamento de algo tão monstruoso, eu ficava como os atingidos por um raio, sem fala, incapaz de ver ou de ouvir. E, quando esse estado de grande impotência me deixava (pois havia momentos em que passava), sucediam-lhe as lágrimas e o desânimo; e, depois da torrente de lágrimas, o medo entrava de novo em seu lugar, perturbando, confundindo e agitando a minha mente. Numa tempestade assim passei o tempo que se foi; mas você não sabia disso e pensava que eu passava o tempo em perfeita tranquilidade. Agora, porém, tentarei desvendar a você a tempestade da minha alma, pois talvez daqui em diante você me perdoe, abandonando as suas acusações. Como, então, vou desvendá-la a você? Se quisesse vê-la com clareza, não haveria outro modo senão pôr a nu o meu próprio coração; mas, como isso é impossível, tentarei mostrar a você, como puder, por meio de uma pálida imagem, a escuridão do meu desânimo; e, a partir dessa imagem, peço que deduza o meu estado.

Suponhamos que a filha do Rei de toda a terra que está debaixo do sol seja a noiva prometida de certo homem; que essa donzela tenha uma beleza sem igual, que ultrapassa a natureza humana, e que nisso supere de longe toda a raça das mulheres; também que tenha virtudes da alma tão grandes que deixem muito para trás toda a geração dos homens que existiram ou que hão de existir; que a graça das suas maneiras ultrapasse todos os padrões da arte e que a formosura do seu corpo seja eclipsada pela beleza do seu rosto; e que o seu noivo não só se apaixone pela donzela por causa dessas coisas, mas, independentemente delas, lhe tenha afeição, e com o seu ardor deixe na sombra os mais apaixonados amantes que já existiram. Suponhamos então que, enquanto arde de amor, ele ouça de alguma parte que um homem vil e abjeto, de baixa origem e aleijado no corpo, em suma, um sujeito inteiramente mau, estava para se casar com essa donzela maravilhosa e tão amada. Será que lhe apresentamos alguma pequena parte da nossa dor? E basta parar a minha comparação neste ponto? Quanto ao meu desânimo, penso que basta, pois foi só com esse propósito que introduzi a comparação; mas, para mostrar a você a medida do meu medo e do meu terror, permita-me passar a outra descrição.

Imaginemos um exército composto de infantaria, cavalaria e fuzileiros; que um grande número de trirremes cubra o mar, e que falanges de infantes e cavaleiros cubram a maior parte das planícies e os cumes dos montes; que o metal das armaduras reflita a luz do sol, e que o brilho dos elmos e dos escudos seja refletido pelos raios que deles saem; que o entrechoque das lanças e o relinchar dos cavalos subam até o próprio céu, e que não se veja nem mar nem terra, mas só bronze e ferro por toda parte. Que o inimigo esteja formado em ordem de batalha diante deles, homens ferozes e selvagens, e que a hora do combate já esteja próxima. Então, que alguém agarre de repente um rapazinho, um desses criados no campo, que não conhece nada além do uso da flauta e do cajado de pastor; que o vista com uma armadura de bronze, o leve por todo o acampamento e lhe mostre os esquadrões e os seus oficiais, os arqueiros, os fundibulários, os capitães, os generais, os infantes e os cavaleiros, os lanceiros, as trirremes e os seus comandantes, a massa compacta de soldados nos navios e a multidão de máquinas de guerra prontas a bordo. Que lhe mostre, além disso, toda a formação do inimigo, o seu aspecto repulsivo, a variedade de provisões e a quantidade incomum de armas; também as ravinas e os precipícios dos montes, profundos e difíceis. Que lhe mostre ainda, do lado dos inimigos, cavalos que voam por algum encantamento, infantes levados pelos ares, e feitiçaria de todo poder e forma; e que ele considere as calamidades da guerra: a nuvem de lanças, a chuva de granizo das flechas, aquela grande névoa e escuridão, aquela noite sombria que a multidão das armas produz, eclipsando com a sua nuvem os raios do sol, e a poeira, não menos que a escuridão, cegando a vista. As torrentes de sangue, os gemidos dos que caem, os gritos dos que sobrevivem, os montes de mortos, as rodas banhadas em sangue, os cavalos lançados de cabeça para baixo com os seus cavaleiros por causa do número de cadáveres, o chão feito um cenário de confusão geral, sangue, arcos e flechas, cascos de cavalos e cabeças de homens jogados juntos, um braço humano, uma roda de carro e um elmo, um peito trespassado, miolos grudados nas espadas, a ponta de um dardo quebrada com um olho espetado nela. Depois, que ele faça a conta dos sofrimentos da força naval: as trirremes ardendo no meio das ondas e afundando com as suas tripulações armadas, o bramido do mar, o tumulto dos marinheiros, o grito dos soldados, a espuma das ondas misturada com sangue e lançando-se sobre todos os navios; os cadáveres nos conveses, uns afundando, outros boiando, outros lançados à praia, cobertos pelas ondas e obstruindo a passagem dos navios. E, quando ele tiver sido cuidadosamente instruído em toda a tragédia da guerra, que se lhe acrescentem os horrores do cativeiro e da escravidão, piores que qualquer tipo de morte; e, depois de lhe contar tudo isso, mande-o montar imediatamente o seu cavalo e assumir o comando de todo aquele exército.

Você acha mesmo que esse rapaz estaria à altura de mais que a simples descrição, e que não perderia o ânimo logo ao primeiro olhar?

13. Não pense que exagerei a questão no meu relato, nem suponha, pelo fato de estarmos encerrados neste corpo como numa prisão e sermos incapazes de ver qualquer coisa do mundo invisível, que o que foi dito é exagerado. Pois você veria um combate muito maior e mais temível que este, se pudesse algum dia contemplar, com esses seus olhos, a sombriíssima ordem de batalha do diabo e o seu ataque furioso. Ali não há bronze nem ferro. Nem cavalos, nem carros, nem rodas, nem fogo e dardos. Essas são coisas visíveis. Mas há outras máquinas muito mais terríveis que essas. Contra esses inimigos não se precisa de couraça nem de escudo, de espada nem de lança; e, no entanto, só a visão dessa formação maldita basta para paralisar a alma, a não ser que ela seja muito nobre e goze em alto grau, como proteção da própria coragem, do cuidado providente de Deus. E, se fosse possível, despindo-se deste corpo ou mesmo conservando-o, ver com clareza e sem medo, a olho nu, toda a ordem de batalha dele e a guerra que ele nos move, você não veria torrentes de sangue nem cadáveres, mas tantas almas caídas e feridas tão desastrosas que toda aquela descrição de guerra que acabei de lhe fazer lhe pareceria mera brincadeira e passatempo de criança, mais do que guerra: tantos são os que são atingidos todos os dias. E as feridas, nos dois casos, não produzem a mesma morte; antes, tão grande quanto a diferença entre a alma e o corpo é a diferença entre aquela morte e esta. Pois, quando a alma recebe uma ferida e cai, não jaz como um corpo sem vida, mas daí em diante é atormentada, roída por uma consciência má; e, depois de partir daqui, no tempo do juízo, é entregue ao castigo eterno. E, se alguém não sente dor pelas feridas causadas pelo diabo, o seu perigo se torna maior pela sua insensibilidade. Pois quem não sente dor com a primeira ferida facilmente receberá uma segunda, e depois dela uma terceira. O espírito imundo não deixará de atacar até o último suspiro, sempre que encontra uma alma descuidada e indiferente às primeiras feridas. E, se você investigasse o método de ataque, o acharia muito mais duro e variado. Pois ninguém jamais conheceu tantas formas de astúcia e de engano como aquele espírito imundo. Por meio disso, de fato, ele adquiriu a maior parte do seu poder; e ninguém pode ter um ódio tão implacável contra os seus piores inimigos quanto o maligno contra o gênero humano. E, se alguém investigar a veemência com que ele combate, também aqui seria ridículo comparar os homens com ele. Mas, se alguém escolher as mais ferozes e selvagens das feras e quiser opor a fúria delas à dele, verá que, em comparação, eram mansas e tranquilas, tal é a raiva que ele exala quando ataca as nossas almas. E o período da guerra, no primeiro caso, é breve, e nesse breve espaço há tréguas; pois a chegada da noite e o cansaço da matança, as horas das refeições e muitas outras coisas dão trégua ao soldado, de modo que ele pode tirar a armadura e respirar um pouco, refazer-se com comida e bebida e, de muitos outros modos, recuperar a força de antes. Mas, no caso do maligno, não é possível jamais depor a armadura, nem sequer é possível dormir, para quem quer permanecer sempre ileso. Pois uma de duas coisas há de ser: ou cair e perecer desarmado, ou permanecer equipado e sempre vigilante. Pois ele está sempre de pé com a sua ordem de batalha, espreitando a nossa negligência e trabalhando com mais zelo pela nossa destruição do que nós pela nossa salvação.

E o fato de ele não ser visto por nós e de nos assaltar de repente, coisas que são fonte de inúmeros males para os que não estão sempre de guarda, prova que este tipo de guerra é mais duro que o outro. Você quereria, então, que numa situação assim eu comandasse os soldados de Cristo? Sim, isso seria comandá-los a serviço do diabo; pois, sempre que aquele que deve dispor e ordenar os outros é o mais inexperiente e fraco de todos os homens, ao trair, por essa inexperiência, os que foram confiados ao seu cuidado, ele os comanda mais em favor do diabo do que de Cristo.

Mas por que você suspira? Por que chora? A minha situação agora não pede lamentos, mas alegria e contentamento.

Basílio: Mas não a minha; esta, sim, pede inúmeros lamentos. Pois mal consigo ainda compreender a que grau de mal você me trouxe. Vim até você querendo saber que defesa eu devia apresentar em seu favor aos que o criticam; mas você me manda de volta depois de pôr outro caso no lugar do que eu tinha. Já não me preocupa a defesa que vou dar a eles em seu favor, mas a defesa que vou apresentar a Deus por mim mesmo e pelas minhas próprias faltas. Mas eu lhe peço e lhe suplico, se o meu bem lhe importa de algum modo, “se há alguma consolação em Cristo, se algum conforto de amor, se algumas entranhas e misericórdias” (Fp 2.1), pois você sabe que foi você, mais que ninguém, quem me lançou neste perigo: estenda a mão, dizendo e fazendo o que possa me restaurar; não tenha coragem de me deixar nem pelo mais breve instante, mas, agora mais do que antes, deixe-me passar a vida com você.

Crisóstomo: Mas eu sorri e disse: Como poderei ajudá-lo, como lhe ser útil sob tão grande peso de ofício? Mas, já que isso lhe agrada, tenha ânimo, alma querida; pois, sempre que for possível você ter descanso no meio das suas preocupações, eu irei e o consolarei, e não faltará nada do que estiver ao meu alcance.

Diante disso, ele, chorando ainda mais, levantou-se. Mas eu, depois de abraçá-lo e beijar-lhe a cabeça, levei-o para fora, exortando-o a suportar com coragem a sua sorte. Pois creio, disse eu, que, por meio de Cristo, que o chamou e o pôs sobre as suas próprias ovelhas, você alcançará deste ministério tanta confiança que poderá receber também a mim, se eu estiver em perigo no último dia, no seu tabernáculo eterno.

Notas

1. Todas as liturgias antigas continham orações pelos que partiram. São Cirilo de Jerusalém (Catequeses mistagógicas, v, n. vi), falando da oração depois da consagração, diz: “e então oramos pelos nossos santos pais e bispos, e por todos os que adormeceram antes de nós, crendo que será grandíssimo benefício para as suas almas que se ofereça súplica por eles enquanto o santo e tremendíssimo sacrifício jaz sobre o altar”; mas a prática não se baseava em nada semelhante à doutrina romana posterior do purgatório. Era a expressão natural de uma crença piedosa na “comunhão dos santos”. Veja Bingham, Antiquities, livro xv.

2. “E nós te rogamos e suplicamos: envia o teu Espírito Santo sobre nós e sobre estes dons aqui apresentados, e faze deste pão o precioso corpo do teu Cristo, e do que está no cálice o precioso sangue de Cristo, transformando-os pelo teu Espírito Santo, para que, a nós que deles participamos, sejam para purificação das nossas almas, remissão dos pecados, comunhão do Espírito Santo.” (Liturgia de São Crisóstomo.)

3. As descrições seguintes da vida monástica foram sem dúvida tiradas dos costumes dos monges das vizinhanças de Antioquia, que habitavam as alturas montanhosas do Sílpio e do Cássio, ao sul da cidade. Viviam em choças ou cabanas separadas, mas estavam sujeitos a um abade e a uma regra comum, provavelmente muito semelhante à que Pacômio havia pouco estabelecera no Egito e que veio a ser adotada de modo muito geral no Oriente. Há frequentes alusões aos costumes desses monges nas homilias de Crisóstomo. Veja especialmente Homilias sobre São Mateus, LXVIII, c. 3, e LXIX, c. 3; também Life of St. Chrysostom, do tradutor, pp. 59-68, 3ª ed.

4. Outra leitura dá: o seu “curso em direção a Deus”.

5. Segundo outra leitura, tas loipas blabas, “os danos que restam”.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de W. R. W. Stephens (Nicene and Post-Nicene Fathers, 1ª série, vol. 9, Nova York, 1889), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Crisóstomo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.