Estudos do Bispo Ildo · Antigo e Novo Testamentos · Antigo Testamento
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Deus chama gente fraca, é paciente com a fé que treme e guarda o coração de quem vence
Abra aí a sua Bíblia em Juízes, capítulo 6. É bastante texto, então eu não vou ler tudo. Vou começar lendo e depois a gente vai tratar de alguns pontos específicos dessa história tão interessante, que é a história de Gideão.
O texto começa assim: “Os filhos de Israel fizeram o que era mau aos olhos do Senhor e por isso o Senhor os entregou nas mãos dos midianitas durante sete anos” (Jz 6.1). Pisaram na bola. Pecaram, se desviaram do Senhor, praticaram idolatria, se afastaram de Deus. E os midianitas deitaram e rolaram.
Os midianitas, aqui, são os inimigos do povo de Deus, e os inimigos do povo de Deus estavam triunfando sobre o povo de Deus porque o povo de Deus deixava de ser povo de Deus. Se afastava de Deus, pecava, se rebelava contra Deus, se esquecia de Deus (Jz 2.11-15).
Irmãos, de Deus não se zomba: “aquilo que a pessoa semear, isso também colherá” (Gl 6.7). A nossa bênção está em Deus. Nós podemos, como povo de Deus, experimentar as bênçãos de Deus durante um longo período. Podemos experimentar libertação, como Israel experimentou ao sair do cativeiro egípcio (Êx 12.40-42). Podemos ver o mar Vermelho se abrindo diante de nós (Êx 14.21-22). Podemos ver o maná caindo do céu (Êx 16.14-15), receber as tábuas da lei (Êx 31.18), ver a água saindo da rocha (Êx 17.6). Podemos receber esse maná a cada dia, essa provisão divina (Êx 16.21).
Mas, se nós formos ingratos, se nos desviarmos, se nos afastarmos de Deus, estaremos automaticamente nos afastando da proteção divina e da bênção divina, porque a bênção está no Doador (Tg 1.17). Muitas vezes nós recebemos a bênção, nos apegamos a ela e nos esquecemos do Doador (Dt 8.11-14).
E aqui esse povo está pagando caro. Não é porque cometeu um erro. É porque persistentemente se rebelava contra Deus e estava adorando outros deuses, estava adorando Baal (Jz 6.10, 25). Por isso a mão de Deus pesou sobre eles.
Antes de seguir, preciso fazer uma ressalva. Muitas vezes nós sofremos injustamente na vida. Sofremos por conta dos pecados dos outros. Sofremos, digamos assim, as intempéries da própria existência. Então a gente precisa de muito discernimento para saber por que estamos passando por isso ou por aquilo, e não devemos ser precipitados em dizer que o que estamos sofrendo decorre disso ou daquilo. É preciso muito discernimento, muita oração, e ouvir de Deus o que está acontecendo na nossa vida (Tg 1.5).
Porque os justos, como no caso de Jó, também sofrem, também padecem (Jó 1.1, 8; 2.3). E eles podem estar examinando o próprio coração, como Jó fez, e perguntando: “Senhor, por que estou padecendo tanto? Por que estou passando por isso e por aquilo? Por que estou sofrendo?” (Jó 3.11, 20; 7.20). E a resposta não é “porque você pecou, porque você está colhendo o que plantou”. No caso de Jó, nós sabemos muito bem que não foi esse o caso. Mas aqui, no caso dos israelitas, dos hebreus, é o caso. Eles estão sofrendo porque se desviaram de Deus e se afastaram do Senhor (Jz 6.1, 10).
Digo isso só para mostrar que as coisas são muito mais complexas, e que não é para a gente fazer como os amigos de Jó fizeram com ele: “Ah, você está sofrendo tanto assim? É porque você pisou na bola, é porque você pecou” (Jó 4.7-8; 22.4-5). Não era o caso de Jó, e os amigos de Jó foram repreendidos por Deus (Jó 42.7-8). É muito perigoso olharmos para a vida de outras pessoas e julgarmos de fora, dizendo: “Essa pessoa está passando por isso porque deve ter aprontado alguma, está sofrendo as consequências dos próprios pecados” (Jo 9.1-3). Todos os seres humanos sofremos, sim, as consequências dos nossos próprios pecados, mas também sofremos as consequências dos pecados dos outros. Sofremos injustamente.
Está explicado isso? Só para dizer que aqui é o caso, e que esse caso não se aplica a todas as circunstâncias, a toda situação.
Mas é muito comum pessoas de Deus, ou pessoas que foram de Deus, que carregaram o nome de Deus e já experimentaram as bênçãos de Deus, estarem sofrendo porque se afastaram de Deus e estão sendo disciplinadas. Porque “o Senhor corrige a quem ama e castiga todo filho a quem aceita” (Hb 12.6), assim como o pai disciplina o filho a quem quer bem (Pv 3.11-12).
Então, esse infortúnio, isso de os inimigos estarem roubando o que era deles: eles plantavam o trigo, e os inimigos, os midianitas, junto com os amalequitas, vinham e arrasavam tudo (Jz 6.3-4). Eram milhares, tinham exércitos poderosos, e Israel ficou numa penúria danada. Isso aconteceu durante sete anos (Jz 6.1).
Diz o versículo 5 que eles vinham “como uma nuvem de gafanhotos” e “entravam na terra para a destruir” (Jz 6.5). E o versículo 6: “Assim, Israel ficou muito debilitado com a presença dos midianitas. Então os filhos de Israel clamaram ao Senhor” (Jz 6.6).
Lembraram que tinham Deus. Disseram: “Vamos voltar desses nossos deuses atuais para aquele nosso Deus antigo. Vamos voltar para ele, vamos clamar ao Senhor”.
E olha, Deus é tão misericordioso que ouviu a voz deles e enviou um profeta (Jz 6.7-8). A primeira ação de Deus foi enviar um profeta. Veja a ação no versículo 7 em diante. Ele envia o profeta, e esse profeta vem anunciando a razão, vem anunciando o porquê: vocês estão passando por essa penúria porque se desviaram de mim, porque pecaram.
Esse foi o anúncio. Deus, em resumo, disse: “Eu tirei vocês do Egito, fiz isso e aquilo por vocês, e o que vocês fizeram? Vocês se desviaram de mim. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês, e disse: não adorem os deuses dos amorreus, em cuja terra vocês estão morando. Mas vocês não me deram ouvidos” (Jz 6.8-10). E eles adoraram Baal, adoraram outros deuses.
Deus fala primeiro pela sua Palavra. Antes do livramento vem o diagnóstico, e o diagnóstico vem da boca do profeta (Am 3.7; Hb 1.1).
Então, depois desse anúncio do profeta, o Anjo do Senhor veio, e aí deu-se a chamada de Gideão (Jz 6.11). E aí levantam-se algumas perguntas. Deus chamou Gideão porque Gideão era melhor que os outros? Porque era mais corajoso que outras pessoas? Porque tinha mais fé que os seus contemporâneos?
Não, não foi esse o caso. É surpreendente esse chamado de Gideão. Gideão era covarde. Gideão era incrédulo. Ele é muito parecido, entre os apóstolos de Jesus, com aquele que manifestou incredulidade: Tomé, que disse que só creria se visse e tocasse as feridas do Ressuscitado (Jo 20.24-25). Ou seja, somente se tivesse esse sinal, essa prova. Por quê? Porque Tomé manifestava incredulidade. E Gideão não era diferente de Tomé.
Gideão era covarde, e é curioso demais. Deus vai buscar a pessoa no esconderijo: Gideão estava no lagar, escondido, e mesmo assim Deus o chamou de homem valente. O mais curioso é que o Anjo do Senhor chega para Gideão e diz assim: “homem valente”. Mas ele não era valente. E ele estava fazendo o quê? Estava malhando o trigo no lagar, o lugar onde se pisa a uva (Jz 6.11). Um lugar baixo, escondido. Normalmente as pessoas malhavam o trigo num lugar alto, onde venta bastante, para que o vento levasse embora aquilo que não presta, a palha (Sl 1.4). Mas eles estavam no lugar escondido, e assim faziam todos os hebreus. Ficavam no lugar escondido porque tinham muito medo dos midianitas e dos amalequitas (Jz 6.2).
Então, qual era a situação em que se encontrava o nosso amigo Gideão? Ele estava malhando o trigo no lagar, escondido, morrendo de medo de que os midianitas viessem. Está entendendo?
Mas veja o que o texto diz no versículo 11: o Anjo do Senhor veio e sentou-se debaixo do carvalho que está em Ofra, que pertencia a Joás, da família de Abiezer. E Gideão, filho de Joás, estava malhando o trigo no lagar, para escondê-lo dos midianitas (Jz 6.11). Veja, aqui diz exatamente o motivo: ele está no lagar para se esconder, para escapar do ataque dos midianitas, para não ser visto.
“Então o Anjo do Senhor lhe apareceu e lhe disse: O Senhor está com você, homem valente” (Jz 6.12).
Esse “homem valente”, aqui, é mais profético do que uma descrição da realidade. É mais aquilo que ele se tornará pela ação de Deus, e por uma ação de Deus muito persistente, muito contínua, porque Gideão ainda vai vacilar muitas vezes. Deus vê o que nós seremos pela atuação da sua graça (Rm 4.17; Fp 1.6).
O Anjo aparece para ele, fala com ele, chama-o de valente, mas ele diz, no versículo 13: “Ah! Meu senhor! Se o Senhor Deus está conosco, por que nos aconteceu tudo isto?” (Jz 6.13). O Anjo aparece para você, chama você de valente, e você já dá uma de covarde na sequência: “Ah, meu senhor”.
E eu pergunto: por que ele está perguntando “por que nos aconteceu tudo isto”, se o profeta já tinha aparecido e declarado o motivo? Parece que ele também não deu ouvidos à profecia, à palavra de Deus. Muitas vezes a resposta está na palavra de Deus. A palavra de Deus está diante de nós, mas a gente não dá ouvidos a ela (Sl 119.105; Tg 1.22). “Ah, meu Senhor, o Senhor está conosco? Então por que a gente está passando por esse aperto? Por que esses inimigos estão triunfando sobre nós? Por que estamos passando tantas privações? Por que esses gafanhotos devoradores estão nos atacando?” (Jz 6.4-5).
O profeta já havia anunciado o motivo: vocês se voltaram para outros deuses (Jz 6.10). Mas Gideão continua: “E onde estão todas as suas maravilhas que os nossos pais nos contaram?” (Jz 6.13). Cadê aqueles milagres do passado? Por que a gente não está vendo o Senhor atuando em nossa defesa diante dos nossos inimigos? O profeta já tinha declarado: é por causa da pecaminosidade, é porque vocês se afastaram de Deus, é porque vocês estão colhendo o que plantaram (Gl 6.7). Mas ele questionou: “O Senhor nos tirou do Egito! Porém, agora, o Senhor nos abandonou e nos entregou nas mãos dos midianitas” (Jz 6.13).
“Então o Senhor se virou para Gideão e disse: Vá nessa força que você tem e livre Israel das mãos dos midianitas. Não é verdade que eu estou enviando você?” (Jz 6.14).
Deus não explicou mais nada para ele aqui. O que Deus tinha para dizer já tinha sido anunciado. E aí Deus diz para ele: pare de murmurar, pare de se queixar, pare de se vitimizar, tome uma atitude. Vá nessa força que você tem.
Mas que força ele tem? Ele está lá no lagar, escondido, malhando o trigo. Que força é essa? É a força que ele tem agora, porque agora ele recebeu o chamado de Deus. A força do chamado de Deus, a força de receber a notícia: o Senhor está com você. Vá nessa força que você tem agora, porque agora você tem o chamado de Deus, porque agora você tem a voz de Deus, porque agora você está sob o comando de Deus, porque agora você sabe que Deus está com você, e Deus é a sua força. Gideão fez perguntas honestas: onde estão as maravilhas? E Deus não respondeu com teoria, mas com missão. Às vezes a resposta é um chamado. A força vem de quem envia.
E é interessante que Deus chame assim, e isso a gente encontra bastante no Novo Testamento também. “Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra”, disse Jesus, “porque escondeste estas coisas dos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11.25).
A gente vai encontrar o apóstolo Paulo aprendendo com Deus, num diálogo, quando ele estava enfermo. Orou três vezes para ser curado e não foi curado (2Co 12.7-8), mas recebeu a voz de Deus dizendo para ele: “A minha graça é o que basta para você, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2Co 12.9). E o apóstolo Paulo vai dizer assim: “quando sou fraco, então é que sou forte” (2Co 12.10).
E Deus está pegando um homem fraco e dando para ele a força, para que a glória nunca seja do homem, mas sempre de Deus (1Co 1.27-29). Isso é muito importante, meus irmãos. Eu sei que sou fraco, mas Cristo é forte. A força é dele (Fp 4.13).
Gideão era pequeno, e sabia disso. Ele respondeu: “Ah! Meu Senhor! Como livrarei Israel? Eis que a minha família é a mais pobre em Manassés, e eu sou o menor na casa de meu pai” (Jz 6.15). Em outras palavras: “Mas, Deus, o Senhor escolheu a pessoa errada. Eu sou de uma das menores tribos de Israel e, dentro dela, da menor família, a mais desprezível de todas. E, da minha família, eu sou o mais desprezível de todos. Então o Senhor procure outro. Quem está pisando na bola agora é o Senhor. O Senhor não sabe escolher, escolheu errado”.
Veja o versículo 16: “Já que eu estou ao seu lado, você derrotará os midianitas como se fossem um só homem” (Jz 6.16). Agora ele ouviu que Deus está com ele. Pronto, agora não tem para ninguém! Vamos para cima!
Foi isso que a gente ouviu? Gideão respondeu: “Se de fato encontrei favor aos teus olhos, dá-me um sinal de que és tu, Senhor, que estás falando comigo” (Jz 6.17). Não bastou o que ele ouviu: ele quer um sinal. Por quê? Porque se trata de uma pessoa incrédula, de uma pessoa medrosa. Depois de ouvir o Anjo, depois de ouvir tudo isso, ele ainda diz: dá-me um sinal.
Meus irmãos, quem pede sinal, normalmente, é gente fraca na fé (Mt 12.38-39). E ele está pedindo mais um sinal. Não bastou o sinal do profeta, e agora, na sequência, o Anjo se manifestando a ele, e ele ouvindo a voz de Deus na boca do Anjo. Ele quer mais um sinal, porque é incrédulo. E pede: “Peço que não te afastes daqui, até que eu volte, traga a minha oferta e a coloque diante de ti” (Jz 6.18).
O Anjo esperou. Gideão preparou um cabrito e pães sem fermento e apresentou a oferta (Jz 6.19-20). O Anjo tocou a carne e os pães com a ponta do cajado, e saiu fogo da rocha e consumiu a carne e os pães (Jz 6.21). Que baita sinal, hein? Saiu um fogo do nada. Só estavam ali ele e o Anjo, e de repente o fogo consumiu toda aquela oferta. Que baita sinal: fogo celestial!
Gideão se assustou, porque tinha visto o Anjo do Senhor face a face (Jz 6.22). “Mas o Senhor lhe disse: Que a paz esteja com você! Não tenha medo! Você não morrerá!” (Jz 6.23).
Aquele valentão era valentão apenas profeticamente. Mas, na mão de Deus, com a ajuda de Deus e com a intervenção divina, ele poderia sair da condição de covarde, de incrédulo, e passar a ser uma pessoa de fé, cheia de coragem. As pessoas não nascem com coragem, mas podem adquirir coragem na mão de Deus, com a ação de Deus. O medo é muito comum. Mas as pessoas podem crescer na fé (2Ts 1.3).
Eu vejo assim aquele episódio em que Jesus diz que tudo é possível ao que crê, e a pessoa responde: “Eu creio! Ajude-me na minha falta de fé!” (Mc 9.23-24). Porque às vezes a nossa fé é bamba. Eu creio, mas nem tanto assim. Estou crendo, Senhor, mas me dá o sinal. E o sinal vem. O fogo desce. É mais um sinal! E aí você acha que agora está resolvido: “Gente, o sinal veio, agora está resolvido, não é?”
É interessante que Deus diga a ele: a paz seja com você, não tenha medo, você não morrerá. Essa é a palavra de Deus: não tenha medo, você não vai morrer. Então Gideão edificou ali um altar e lhe deu o nome de “O Senhor É Paz” (Jz 6.24). Ainda que o Senhor o estivesse chamando para a guerra, ele é paz. Ele é paz.
Naquela mesma noite, o Senhor disse a Gideão que pegasse o touro de seu pai, o segundo touro, e derrubasse o altar de Baal que pertencia a seu pai e cortasse o poste da deusa Aserá que estava junto dele (Jz 6.25-26). Porque na casa dele, na casa do seu pai, havia um altar a Baal, um altar a outro deus.
Isso aqui é parte do povo de Deus. É a casa de uma família do povo de Deus que estava adorando outros deuses, a razão pela qual o povo estava sofrendo. E Deus diz assim: agora que eu dei o sinal a você, vá lá e derrube o altar de Baal da casa do seu pai.
E ele fez isso, só que com muito cuidado. Você acha que ele foi com tudo, que foi para cima? Ele foi com muito medo. Foi na calada da noite, levou dez dos seus servos e cumpriu a ordem, derrubou o altar da casa do pai. Fez de noite porque tinha medo da família do pai e dos homens da cidade (Jz 6.27).
Deus mandou derrubar o altar, e Gideão obedeceu. Embora com medo, obedeceu, e obedecer com medo ainda é obedecer. Isso foi muito bom, foi um bom sinal ele ter obedecido aqui. Já é um crédito para Gideão. Mas ele ainda está perdendo, viu? Tem bastante descrédito aqui.
E o desfecho daquela noite mostra que obedecer valeu a pena: quando os homens da cidade quiseram matar Gideão, o próprio pai, Joás, o defendeu, dizendo que, se Baal fosse deus, que defendesse a si mesmo. Desde então Gideão passou a ser chamado de Jerubaal (Jz 6.28-32). E, quando os inimigos se reuniram outra vez, o texto registra algo decisivo: “Então o Espírito do Senhor revestiu Gideão” (Jz 6.34). A força prometida não era de Gideão. Vinha do alto.
E agora ele pede mais um sinal: “Senhor, isso de enfrentar os midianitas é uma tarefa impossível. Nós somos tão pequenos, tão fracos, tão despreparados. Eu não estou botando fé em mim. O Senhor está botando fé? Está dizendo que eu vou poder liderar, ser uma espécie de general de guerra? Eu acho que o Senhor escolheu errado. Então me dê mais um sinal” (Jz 6.36).
“O sinal que eu vou pedir é o seguinte. Tem uma lã, não tem? Eu vou colocar a lã na eira, e quero que o orvalho caia apenas sobre a lã, de madrugada, e que a terra ao redor fique seca” (Jz 6.37). E isso aconteceu. A lã ficou úmida, encharcada. Deu para torcer e espremer dela uma taça cheia de água (Jz 6.38). Que incrível!
Aí ele falou assim: “Ah, Senhor, faz o contrário agora”. Esse homem era danado! Mais um sinalzinho. Ele mesmo pede, com medo: “Não se acenda contra mim a tua ira, se eu falar somente mais esta vez. Peço-te que me deixes fazer mais uma prova com a lã: que desta vez só a lã esteja seca, e que haja orvalho na terra ao redor dela” (Jz 6.39). É quase como dizer: “O Senhor não vai ficar incomodado, não vai me destruir, por acaso, se eu pedir uma coisinha a mais?”. Que paciência, Senhor! E Deus foi lá e atendeu. Atendeu, e se cumpriu (Jz 6.40).
E aí Gideão falou assim: “Então, pelo jeito… vamos nós! Vamos lá!”
Aí ele juntou milhares e milhares de homens. Eram trinta e dois mil (Jz 7.3). Mas Deus achou que era muita gente: vamos diminuir esse grupo. “É demais o povo que está com você, para eu entregar os midianitas nas suas mãos. Israel poderia se gloriar contra mim, dizendo: A minha própria mão me livrou” (Jz 7.2). Ou seja: senão, se vocês vencerem, vão pensar que são fortes porque eram muitos.
E foi diminuindo. Primeiro, quem estava com medo voltou para casa: vinte e dois mil homens voltaram, e dez mil ficaram (Jz 7.3). Depois, de dez mil desceu para trezentos (Jz 7.4-7). Tem gente que pensa: com trezentos não é possível, não é? Deus diminuiu o exército para que a glória fosse dele.
E ele ainda vai precisar de mais um sinal, e Deus vai conceder esse sinal. Bendita seja a paciência de Deus com a gente! Obrigado, Senhor, porque nos ajudas na nossa incredulidade. Obrigado porque não nos descartas assim, tão rapidamente. Obrigado porque foste paciente com aquele Simão e o transformaste num apóstolo, numa coluna da igreja de Deus (Gl 2.9). Ele virou o apóstolo Pedro (Jo 1.42). Obrigado pela tua paciência, Senhor. Isso realmente é do que a gente precisa. Obrigado pela paciência com Gideão.
Às vezes eu me olho aqui e falo assim: “Puxa, acho que eu tenho mais fé que Gideão, porque esse aqui é danado na incredulidade”. Mas Deus usou Tomé (Jo 20.27-28), e vai usar Gideão.
Dê uma olhada só nisto: antes da batalha, Deus confirmou Gideão, e o sonho ouvido no acampamento inimigo fortaleceu a sua fé. Deus falou para Gideão, em outras palavras: “Gideão, você ainda está com medo, mas eu vou dar a você o último sinal” (Jz 7.9-10). E esse vai ser o derradeiro, para arrebentar a boca do balão. Depois disso ele vai ter coragem.
“Desça na surdina até o acampamento dos midianitas.” É claro que ele foi disfarçado. “Desça lá, e lá você vai escutar algo que vai aumentar a sua fé” (Jz 7.11). Ele desceu com Purá, o seu servo (Jz 7.11), e ficou próximo a uma das tendas dos midianitas. E lá ouviu um midianita contando para outro um sonho que tinha tido durante a noite: um pão de cevada rolava para dentro do acampamento e derrubava a tenda (Jz 7.13). E a interpretação do sonho, dada por eles mesmos, era que Gideão, o líder dos hebreus, conduziria os hebreus numa batalha contra os midianitas e os amalequitas, e os derrotaria por completo (Jz 7.14).
Os midianitas contaram esse sonho e essa interpretação e demonstraram um pavor enorme de Gideão e dos hebreus. E Gideão pensou: “Eles estão morrendo de medo da gente! Eu é que estava morrendo de medo deles. Mas agora eu vejo que Deus está atuando lá no acampamento deles. Eles já estão apavorados. Deus está conosco, finalmente me convenci disso”. É duro na queda, mas agora ele se convenceu. E ali mesmo Gideão adorou a Deus (Jz 7.15).
E aí Deus diz: vocês vão batalhar, mas de um jeito diferente. Gideão dividiu os trezentos homens em três grupos (Jz 7.16). Numa das mãos eles iam ter a trombeta. Na outra mão iam ter cântaros, e esses cântaros teriam tochas acesas dentro. Cântaros de barro, cântaros frágeis, mas com uma tocha acesa dentro.
Lembre-se do que o apóstolo Paulo falou: “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que se veja que a excelência do poder provém de Deus, não de nós” (2Co 4.7). A excelência do poder de Deus em vasos frágeis, como nós somos, para que a glória seja sempre de Deus. Cântaros de barro, frágeis. Tocha acesa, representando o poder e a glória de Deus. E a trombeta, porque chegou o momento, a hora da guerra, da batalha.
Os trezentos cercaram o acampamento no vale. Por volta da meia-noite (Jz 7.19), tocaram as trombetas e quebraram os cântaros. “Seguravam a tocha na mão esquerda e a trombeta na mão direita. E gritavam: Uma espada pelo Senhor e por Gideão!” (Jz 7.20). E a luz das tochas brilhou ao redor, naquela calada da noite.
Os midianitas acordaram com aquele barulho das trombetas e com aquelas luzes cercando todo o acampamento. Eram apenas trezentos homens, mas eles ficaram confusos, já amedrontados por todos aqueles sonhos e por toda aquela expectativa de derrota diante dos hebreus. Confusos durante a noite, com aquelas luzes e aquele barulho, começaram a lutar uns contra os outros e praticamente se dizimaram, se destruindo mutuamente (Jz 7.22). Bateram em retirada, e depois os homens de Israel foram atrás e conseguiram alcançar e prender aqueles que estavam fugindo (Jz 7.23-25).
Que grande vitória, que coisa maravilhosa! Poderia ter terminado aqui. A gente diria: “Puxa, finalmente houve fé, houve coragem, houve obediência e houve vitória”. E Gideão, então, seria o nosso herói. Um herói improvável, mas que se tornou um herói da fé (Hb 11.32).
Mas, infelizmente, meus irmãos, a Bíblia não esconde. Esse relato poderia ser uma epopeia de Gideão, mas a gente vê que Gideão não é tudo isso. E agora vamos ver que, depois da vitória, meus irmãos, o que a gente percebe é triste demais.
Começa bem. Os homens de Israel quiseram fazer de Gideão o seu rei, e ele recusou: “Não dominarei sobre vocês, nem tampouco meu filho dominará sobre vocês. O Senhor Deus dominará sobre vocês” (Jz 8.22-23). Mas, logo em seguida, ele pega o despojo, recolhe o ouro (Jz 8.24-26) e faz com ele uma estola sacerdotal de ouro. “Disso Gideão fez uma estola sacerdotal e a pôs na sua cidade, em Ofra. E todo o Israel se prostituiu ali, adorando essa estola. E isso veio a ser um tropeço para Gideão e toda a sua casa” (Jz 8.27).
Eita, homem idólatra! Quebrou o altar de Baal, destruiu o altar de Baal (Jz 6.27-28), não adora mais outros deuses, mas agora está adorando algo de dentro do próprio contexto da religiosidade do povo de Deus: uma estola sacerdotal, como a de um sacerdote levita (Êx 28.6). Algo assim. Mas ela se tornou objeto de culto, de adoração.
Houve paz: os midianitas não fizeram mais guerra, e a terra ficou em paz durante quarenta anos (Jz 8.28). Gideão ficou numa boa, teve uma família enorme, setenta filhos (Jz 8.30), e foi tratado como um grande juiz em Israel. Mas, ainda assim, incorreu nesse erro.
Mesmo depois de grandes vitórias com Deus, a gente ainda está sujeito a tentações (1Co 10.12). Tentações do ouro, do ouro da conquista, do despojo. Tentação de os nossos olhos se desviarem de Deus, o Doador, o grande Vitorioso, o grande Senhor e Libertador, e se voltarem para o ouro, para a bênção, para aquilo que amealhamos, para aquilo que construímos (Dt 8.17-18). Complicado demais, meus irmãos. O perigo mora mesmo é depois da vitória.
A gente vê isso com Pedro. Pedro, certa vez, disse: “O senhor é o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16.16). E Jesus respondeu que não foi carne e sangue que revelaram isso a ele, mas o Pai, que está nos céus (Mt 16.17). Era o Pai revelando isso a Pedro. Que revelação, que vitória! Aí Jesus passa a falar para Pedro e para os discípulos sobre a necessidade da cruz, que ele seria morto (Mt 16.21). E Pedro o chama à parte e o repreende (Mt 16.22). É como se dissesse: “Jesus, vira essa boca para lá! Bate três vezes na madeira! Está amarrado esse espírito de morte, de derrota na sua vida, está repreendido!”. E Jesus diz para ele: “Saia da minha frente, Satanás! Você é para mim uma pedra de tropeço, porque não leva em consideração as coisas de Deus, e sim as dos homens” (Mt 16.23). Depois de uma baita declaração, depois de um baita elogio, de uma baita vitória, de um baita destaque, de repente vêm a tentação e a reprovação.
Com Elias não foi diferente. Depois de ter vencido os profetas de Baal no monte Carmelo (1Rs 18.36-40), ele talvez pensasse: agora vem o avivamento. Mas o avivamento não veio. Ele passou a ser perseguido de novo por Jezabel, a rainha, e por Acabe, o rei (1Rs 19.1-2). Fugiu, e tinha mesmo de fugir (1Rs 19.3). Ficou sozinho, fugindo. Ficou deprimido, com vontade de morrer (1Rs 19.4). Estava escondido dentro de uma caverna, e Deus o visitou nessa caverna (1Rs 19.9). Mesmo depois de uma grande batalha e de uma grande vitória, a gente pode experimentar as tentações do depois da vitória. Cuidado.
E, no caso de Gideão, infelizmente, ele pisou na bola e fez tropeçar o povo de Israel (Jz 8.27). Fez tropeçar o povo de Israel.
Então, meus irmãos, é preciso começar bem, continuar bem e terminar bem. Corremos o risco de começar bem e terminar mal (Gl 3.3; 5.7). A gente precisa permanecer sempre firme, constante: “sejam firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor” (1Co 15.58). E perseverar até o fim, porque “aquele, porém, que ficar firme até o fim, esse será salvo” (Mt 24.13).
Em qual dessas lições Deus está falando com você hoje?
Meus irmãos, para quem se sente pequeno: Deus vai ao seu encontro no esconderijo (Jz 6.11-12). A força vem de quem envia (Jz 6.14). Deus é paciente com a fé que treme (Jz 6.17, 36-40).
E para quem já venceu: a glória da vitória não é nossa (Jz 7.2). O ouro do despojo pode virar ídolo (Jz 8.27). É preciso guardar o coração até o fim (Pv 4.23).
“Da fraqueza tiraram força”, disse o autor de Hebreus, falando da grande lista de heróis da fé, na qual Gideão está incluído (Hb 11.32-34). A força vem de Deus, vem da fé, e Deus ajuda a gente na nossa fraqueza.
Senhor, tu nos falas de múltiplas formas (Hb 1.1-2). Tu nos falas principalmente por meio da tua Palavra. A profecia foi dada, a Palavra foi registrada. Temos, da tua parte, a palavra de Cristo, temos o evangelho, temos a palavra dos teus apóstolos e profetas (Ef 2.20). Ajuda-nos a dar ouvidos à tua voz, à voz do teu Espírito Santo, e a ser sensíveis aos sinais que nos dás.
Obrigado pela tua ajuda. Tu nos ajudas na nossa pequenez, na nossa fraqueza. Aumenta a nossa fé, Senhor (Lc 17.5). Fortalece-nos, ajuda-nos a ter uma fé mais robusta, a não andar pelo que vemos, mas pela fé (2Co 5.7), porque “o justo viverá por fé” (Rm 1.17), e não pelo que vê.
Obrigado pela paciência que tiveste com Gideão e que tens conosco. Abençoa, Senhor, nós te pedimos, cada um aqui. Fortalece a nossa fé, aumenta a nossa coragem. Que a nossa confiança esteja totalmente depositada em ti. Fortalece os nossos corações. Ajuda-nos a ser obedientes, a derrubar o altar de Baal, os altares de Mamom (Mt 6.24), tudo aquilo que pode ser um ídolo ou que tenha se tornado um ídolo na nossa vida (1Jo 5.21). Ajuda-nos a adorar-te de maneira adequada (Jo 4.23-24), a permanecer obedientes e também a ser quebrantados, como um vaso, como um cântaro que se quebra (Jz 7.19-20; Sl 51.17). Que se quebre o orgulho, a prepotência, a arrogância, a presunção, para que a tua glória se manifeste em nós, porque “Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” (Tg 4.6).
Ó Senhor, opera nas nossas vidas, opera na nossa congregação, no nosso testemunho neste mundo. A ti sejam sempre a honra e a glória, porque és tu quem nos dá a vitória (1Co 15.57). A nossa vitória vem de ti, porque és tu quem nos sustenta. A nossa garantia não está naquilo que amealhamos, nem naquilo que temos como segurança material (1Tm 6.17). A nossa garantia, a nossa segurança, está em ti, Senhor. És tu quem nos dá todas as coisas. A ti sejam a honra e a glória, hoje e para todo o sempre. Amém.
Nota: as citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Recomendo ler Juízes 6 a 8 por inteiro, no seu contexto, durante o estudo.
Bispo Ildo Mello