Irineu de Lião · Demonstração da Pregação Apostólica

Seções 1 a 34: Deus, a criação, a queda e a história da salvação até Moisés

A regra da fé e o batismo, o Deus único e a Trindade, a criação do homem, a queda, o dilúvio, Abraão e Moisés.

A demonstração da pregação apostólica

1. Sabendo, meu amado Marciano, do seu desejo de andar na piedade, a única que conduz o homem à vida eterna, alegro-me com você e faço a minha oração para que você conserve íntegra a sua fé e assim agrade a Deus, que o criou. Quem dera fosse possível estarmos sempre juntos, para nos ajudarmos um ao outro e aliviarmos o trabalho da nossa vida terrena com uma conversa contínua sobre as coisas proveitosas.1 Mas, já que no tempo presente estamos separados um do outro no corpo, ainda assim, na medida das nossas forças, não deixaremos de falar um pouco com você por escrito e de expor em resumo a pregação da verdade, para a confirmação da sua fé.2 Enviamos a você como que um manual do essencial,3 para que pelo pouco você alcance o muito, aprendendo em breve espaço todos os membros do corpo da verdade4 e recebendo em resumo a demonstração das coisas de Deus. Assim isto dará fruto para a sua própria salvação, e você envergonhará todos os que ensinam a mentira e levará com toda a confiança a nossa doutrina sã e pura a todo aquele que deseje compreendê-la. Porque um só é o caminho que conduz para o alto para todos os que veem, iluminado pela luz celeste; mas muitos, escuros e contrários são os caminhos dos que não veem. Este caminho conduz ao reino dos céus, unindo o homem a Deus; mas aqueles caminhos levam para baixo, à morte, separando o homem de Deus. Por isso é necessário que você, e todos os que se importam com a própria salvação, tornem o seu percurso inabalável, firme e seguro por meio da fé, para que não vacilem, nem sejam retardados e retidos nos desejos materiais, nem se desviem e se extraviem do caminho reto.

2. Ora, já que o homem é um ser vivo composto de alma e carne,5 ele precisa existir por meio de ambas; e, como de ambas vêm as quedas, a pureza da carne é a abstinência que se refreia de todas as coisas vergonhosas e de todas as obras injustas, e a pureza da alma é guardar íntegra a fé em Deus, sem lhe acrescentar nem lhe diminuir coisa alguma. Pois a piedade se obscurece e se embota com a sujeira e a mancha da carne, e se quebra, se contamina e deixa de ser íntegra se a mentira entra na alma; mas ela se conservará em sua beleza e em sua medida quando a verdade permanecer constante na alma6 e a pureza na carne. Pois de que adianta conhecer a verdade em palavras e contaminar a carne e praticar as obras do mal? Ou que proveito pode trazer a pureza da carne, se a verdade não está na alma? Porque estas se alegram uma com a outra, e se unem e se aliam para levar o homem à presença de Deus, face a face. Por isso o Espírito Santo diz por meio de Davi: “Bem-aventurado o homem que não andou no conselho dos ímpios” (Sl 1.1), isto é, no conselho das nações que não conhecem a Deus; pois são ímpios os que não adoram o Deus que verdadeiramente é. E por isso o Verbo diz a Moisés: “Eu sou Aquele que é” (Êx 3.14);7 mas os que não adoram o Deus que é, esses são os ímpios. “E não se deteve no caminho dos pecadores”: ora, pecadores são os que têm o conhecimento de Deus e não guardam os seus mandamentos, isto é, os zombadores desdenhosos. “E não se assentou na cadeira dos pestilentos”:8 ora, os pestilentos são os que, com doutrinas más e perversas, corrompem não só a si mesmos, mas também aos outros. Porque a cadeira é símbolo do ensino. Assim são, pois, todos os hereges: assentam-se nas cadeiras dos pestilentos, e corrompem-se os que recebem o veneno da sua doutrina.

3. Ora, para que não soframos nada desse tipo, precisamos manter sem desvio a regra da fé9 e cumprir os mandamentos de Deus, crendo em Deus e temendo-o como Senhor e amando-o como Pai. Ora, esse agir é produzido pela fé, pois Isaías diz: “Se vocês não crerem, também não entenderão” (Is 7.9). E a fé é produzida pela verdade, pois a fé repousa sobre as coisas que verdadeiramente são. Porque cremos nas coisas que são, tais como são; e, crendo nas coisas que são, tais como sempre são, mantemos firme a nossa confiança nelas. Já que a fé é, portanto, a perpetuação da nossa salvação, precisamos empenhar muito esforço na sua conservação, a fim de termos uma verdadeira compreensão das coisas que são. Ora, a fé nos proporciona isto, assim como os anciãos, discípulos dos apóstolos,10 nos transmitiram. Antes de tudo, ela nos manda ter em mente que recebemos o batismo para a remissão dos pecados, em nome de Deus Pai, e em nome de Jesus Cristo, o Filho de Deus, que se encarnou, morreu e ressuscitou, e no Espírito Santo de Deus. E que este batismo é o selo da vida eterna e é o novo nascimento para Deus, para que não sejamos mais filhos de homens mortais, mas do Deus eterno e perpétuo; e que aquilo que é eterno e permanente é feito Deus;11 e está acima de todas as coisas que foram feitas, e todas as coisas lhe estão sujeitas; e todas as coisas que lhe estão sujeitas são feitas suas; pois Deus não é governante e Senhor sobre o que é de outro, mas sobre o que é seu;12 e todas as coisas são de Deus; e por isso Deus é Todo-Poderoso, e todas as coisas procedem de Deus.

4. Pois é necessário que as coisas que são feitas tenham o princípio da sua feitura em alguma grande causa; e o princípio de todas as coisas é Deus. Porque ele mesmo não foi feito por ninguém, e por ele todas as coisas foram feitas. E por isso é justo crer, antes de tudo, que há um só Deus, o Pai, que fez e modelou todas as coisas, e fez existir o que não existia, e que, contendo todas as coisas, é o único que não é contido.13 Ora, entre todas as coisas está este nosso mundo,14 e no mundo está o homem; portanto, também este mundo foi formado por Deus.

5. Assim, pois, se demonstra15 um só Deus, o Pai, não feito, invisível, criador de todas as coisas, acima do qual não há outro Deus e depois do qual não há outro Deus. E, como Deus é racional, por isso criou pelo Verbo as coisas que foram feitas;16 e Deus é Espírito, e pelo Espírito ornou todas as coisas, como também diz o profeta: “Pela palavra do Senhor foram firmados os céus, e pelo seu espírito todo o poder deles” (Sl 33.6). Já que o Verbo firma, isto é, dá corpo17 e concede a realidade do ser, e o Espírito dá ordem e forma à diversidade das potências, com razão e propriedade o Verbo é chamado Filho, e o Espírito, Sabedoria de Deus.18 Bem diz também Paulo, seu apóstolo: “Um só Deus, o Pai, que está sobre todos, por meio de todos e em todos nós” (Ef 4.6). Pois sobre todos está o Pai; e por meio de todos está o Filho, pois por meio dele todas as coisas foram feitas pelo Pai; e em todos nós está o Espírito, que clama “Aba, Pai” (Gl 4.6) e modela o homem à semelhança de Deus.19 Ora, o Espírito manifesta o Verbo, e por isso os profetas anunciaram o Filho de Deus; e o Verbo profere o Espírito, e por isso é ele mesmo o anunciador dos profetas, e conduz e atrai o homem ao Pai.

6. Esta é, pois, a ordem da regra da nossa fé, o fundamento do edifício e a firmeza da nossa conduta: Deus, o Pai, não feito, não material, invisível; um só Deus, o criador de todas as coisas; este é o primeiro artigo20 da nossa fé. O segundo artigo é: o Verbo de Deus, Filho de Deus, Cristo Jesus, nosso Senhor, que se manifestou aos profetas segundo a forma da sua profecia e segundo o modo da dispensação do Pai;21 por meio de quem todas as coisas foram feitas; que também, no fim dos tempos, para consumar e recapitular22 todas as coisas, se fez homem entre os homens, visível e palpável,23 a fim de abolir a morte, manifestar a vida e produzir a comunhão e união24 entre Deus e o homem. E o terceiro artigo é: o Espírito Santo, por meio de quem os profetas profetizaram, os pais aprenderam as coisas de Deus e os justos foram conduzidos pelo caminho da justiça; e que, no fim dos tempos, foi derramado de modo novo25 sobre a humanidade em toda a terra, renovando o homem para Deus.

7. E por esta razão o batismo da nossa regeneração se realiza por meio destes três artigos: Deus Pai nos concede a regeneração por meio do seu Filho, pelo Espírito Santo. Pois todos os que trazem (em si) o Espírito de Deus26 são conduzidos ao Verbo, isto é, ao Filho; e o Filho os leva ao Pai; e o Pai os faz possuir a incorruptibilidade.27 Sem o Espírito não é possível contemplar o Verbo de Deus, nem sem o Filho alguém pode se aproximar do Pai; pois o conhecimento do Pai é o Filho,28 e o conhecimento do Filho de Deus se dá por meio do Espírito Santo; e, segundo o beneplácito do Pai, o Filho ministra e distribui29 o Espírito a quem o Pai quer e como ele quer.

8. E pelo Espírito o Pai é chamado Altíssimo, Todo-Poderoso e Senhor dos Exércitos, para que aprendamos a respeito de Deus que é ele o criador do céu, da terra e de todo o mundo, e o autor dos anjos e dos homens, e o Senhor de todos, por meio de quem todas as coisas existem e por quem todas as coisas são sustentadas; misericordioso, compassivo e muito terno, bom, justo, o Deus de todos, tanto dos judeus como dos gentios, e dos que creem. Para os que creem ele é como Pai, porque no fim dos tempos abriu a aliança30 da adoção; mas para os judeus é como Senhor e Legislador, porque nos tempos intermediários, quando o homem se esqueceu de Deus, se afastou dele e se rebelou contra ele, ele os sujeitou pela Lei, para que aprendessem que tinham como Senhor o autor e criador, que também dá o fôlego de vida e a quem devemos adorar dia e noite; para os gentios, como autor, criador e Todo-Poderoso; e para todos igualmente, como sustentador, nutridor, rei e juiz; pois ninguém escapará nem será livrado do seu juízo, nem judeu, nem gentio, nem crente que pecou, nem anjo; mas os que agora rejeitam a sua bondade conhecerão o seu poder no juízo, segundo o que diz o bem-aventurado apóstolo: “Ignorando que a bondade de Deus o leva ao arrependimento; mas, segundo a sua dureza e o seu coração impenitente, você acumula contra si mesmo ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus, que retribuirá a cada um segundo as suas obras” (Rm 2.4-6). Este é aquele que na Lei é chamado o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, o Deus dos vivos; ainda que a sublimidade e a grandeza deste Deus sejam inefáveis.

9. Ora, este mundo é envolvido por sete céus,31 nos quais habitam potências, anjos e arcanjos, que prestam serviço a Deus, o Todo-Poderoso e Criador de todas as coisas; não como se ele tivesse necessidade, mas para que eles não fiquem ociosos, inúteis e ineficazes.32 Por isso também o Espírito de Deus é múltiplo na (sua) habitação,33 e em sete formas de serviço34 o profeta Isaías o enumera, repousando sobre o Filho de Deus, isto é, o Verbo, na sua vinda como homem. “O Espírito de Deus”, diz ele, “repousará sobre ele, o Espírito de sabedoria e de entendimento, o Espírito de conselho e de fortaleza, (o Espírito de conhecimento)35 e de piedade; o Espírito do temor de Deus o encherá” (Is 11.2-3). Ora, o céu que é o primeiro a partir do alto36 e envolve os demais é (o da) sabedoria; o segundo a partir dele, o do entendimento; o terceiro, o do conselho; o quarto, contado a partir do alto, (é o) da fortaleza; o quinto, o do conhecimento; o sexto, o da piedade; e o sétimo, este nosso firmamento, está cheio do temor daquele Espírito que ilumina os céus. Pois, como modelo (disso), Moisés recebeu o candelabro de sete braços,37 que brilhava continuamente no santuário; porque recebeu este serviço como modelo dos céus, segundo o que o Verbo lhe disse: “Você fará (isto) segundo todo o modelo das coisas que viu no monte” (Êx 25.40).38

10. Ora, este Deus é glorificado pelo seu Verbo, que é continuamente o seu Filho,39 e pelo Espírito Santo, que é a Sabedoria do Pai de todos; e as potências destes, (a saber,) do Verbo e da Sabedoria, que são chamadas Querubins e Serafins,40 glorificam a Deus com vozes incessantes; e toda coisa criada que está nos céus rende glória a Deus, o Pai de todos. Ele, pelo seu Verbo, criou o mundo inteiro, e no mundo estão os anjos; e a todo o mundo deu leis, nas quais cada coisa deve permanecer e, segundo o que foi determinado por Deus, não ultrapassar os seus limites, cada uma cumprindo a tarefa que lhe foi designada.

11. Mas o homem ele o modelou com as suas próprias mãos,41 tomando da terra o que era mais puro e mais fino e misturando com medida o seu próprio poder com a terra. Pois traçou a sua própria forma sobre a obra modelada,42 para que aquilo que se visse fosse de forma divina; porque (como) imagem de Deus o homem foi modelado e posto sobre a terra. E, para que se tornasse vivente, soprou-lhe no rosto o fôlego de vida, para que, tanto pelo sopro como pela obra modelada, o homem fosse semelhante a Deus. Além disso, ele era livre e senhor de si, tendo sido feito por Deus para este fim: dominar todas as coisas que havia sobre a terra. E este grande mundo criado, preparado por Deus antes da formação do homem, foi dado ao homem como o seu lugar, contendo em si todas as coisas.43 E havia também neste lugar, com (as suas) tarefas, os servos daquele Deus que formou todas as coisas; e o administrador, que fora posto sobre todos os seus conservos, recebeu este lugar. Ora, os servos eram anjos, e o administrador era o arcanjo.44

12. Ora, tendo feito o homem senhor da terra e de todas as coisas que nela há, secretamente o constituiu também senhor dos que eram servos nela. Eles, porém, estavam na sua perfeição; mas o senhor, isto é, o homem, era (ainda) pequeno, pois era uma criança;45 e era necessário que crescesse e assim chegasse à (sua) perfeição. E, para que tivesse o seu sustento e o seu crescimento com iguarias festivas e delicadas, preparou-lhe um lugar melhor que este mundo,46 superior em ar, beleza, luz, alimento, plantas, frutos, água e todas as demais coisas necessárias à vida; e o seu nome é Paraíso. E tão belo e bom era este Paraíso que o Verbo de Deus constantemente ia até lá e andava e conversava com o homem, prefigurando as coisas que haveriam de acontecer no futuro, (a saber,) que ele habitaria com ele e conversaria com ele, e estaria com os homens, ensinando-lhes a justiça. Mas o homem era uma criança, sem ter ainda o seu entendimento aperfeiçoado; por isso também foi facilmente desencaminhado pelo enganador.

13. E, enquanto o homem habitava no Paraíso, Deus trouxe diante dele todos os seres vivos e ordenou-lhe que desse nome a todos eles; “e o nome que Adão dava a cada alma vivente, esse era o seu nome” (Gn 2.19). E determinou também fazer uma auxiliadora para o homem, pois Deus disse assim: “Não é bom que o homem esteja só; façamos para ele uma auxiliadora que lhe corresponda” (Gn 2.18).47 Pois entre todos os outros seres vivos não se achou auxiliadora igual, comparável e semelhante a Adão. Mas o próprio Deus “fez cair um torpor sobre Adão e o fez dormir”; e, para que uma obra se realizasse a partir de outra obra, já que não havia sono no Paraíso, isto foi trazido sobre Adão pela vontade de Deus; e Deus “tomou uma das costelas de Adão e encheu de carne o seu lugar; e a costela que tomou, ele a edificou em mulher” (Gn 2.21-22);48 e assim a trouxe a Adão; e ele, vendo-a, disse: “Esta agora é osso dos meus ossos e carne da minha carne; ela será chamada mulher, porque do seu marido foi tirada” (Gn 2.23).

14. E Adão e Eva (pois este é o nome da mulher) “estavam nus e não se envergonhavam” (Gn 2.25);49 pois havia neles uma mente inocente e infantil, e não lhes era possível conceber nem entender nada daquilo que, pela maldade, nasce na alma por meio das paixões e dos desejos vergonhosos. Porque naquele tempo eram íntegros, conservando a sua própria natureza, já que tinham o fôlego de vida que fora soprado na sua criação; e, enquanto esse fôlego permanece no seu lugar e no seu vigor, não tem compreensão nem entendimento das coisas que são vis. E por isso não se envergonhavam, beijando-se e abraçando-se em pureza, à maneira das crianças.

15. Mas, para que o homem não concebesse pensamentos elevados demais e não se exaltasse e ensoberbecesse, como se não tivesse senhor, por causa da autoridade e da liberdade que lhe foram concedidas, e assim transgredisse contra Deus, o seu criador, ultrapassando a sua medida, e acalentasse imaginações egoístas de orgulho em oposição a Deus, foi-lhe dada por Deus uma lei, para que percebesse que tinha como senhor o Senhor de todos. E impôs-lhe certos limites, de modo que, se guardasse o mandamento de Deus, permaneceria sempre tal como era, isto é, imortal; mas, se não o guardasse, se tornaria mortal e se dissolveria na terra de onde fora tirada a sua formação. Ora, o mandamento era este: “De toda árvore que há no Paraíso você comerá livremente; mas daquela árvore somente, da qual vem o conhecimento do bem e do mal, dela você não comerá; pois no dia em que dela comer, certamente morrerá” (Gn 2.16-17).

16. Este mandamento o homem não guardou, mas foi desobediente a Deus, desencaminhado pelo anjo que, por causa dos grandes dons que Deus havia dado ao homem, teve inveja e ciúme dele,50 e tanto arruinou a si mesmo como tornou o homem pecador, persuadindo-o a desobedecer ao mandamento de Deus. Assim o anjo, tendo-se tornado pela sua mentira o autor e originador do pecado, foi ele mesmo abatido, por ter ofendido a Deus, e fez o homem ser expulso do Paraíso. E, porque pela inclinação da sua disposição apostatou e se afastou de Deus, foi chamado Satanás, segundo a palavra hebraica, isto é, Apóstata;51 mas é chamado também Caluniador. Ora, Deus amaldiçoou a serpente que carregava e conduzia o Caluniador; e esta maldição recaiu sobre o próprio animal e sobre o anjo oculto e escondido nele, isto é, sobre Satanás; e o homem ele o afastou da sua presença, removendo-o e fazendo-o habitar naquele tempo no caminho para o Paraíso,52 porque o Paraíso não recebe os pecadores.

17. E, quando foram postos fora do Paraíso, Adão e sua mulher Eva caíram em muitas aflições de dor e ansiedade, andando com tristeza, fadiga e lamento neste mundo. Pois sob os raios deste sol o homem cultivava a terra, e ela produzia espinhos e abrolhos, o castigo do pecado. Cumpriu-se então o que estava escrito: “Adão conheceu a sua mulher, e ela concebeu e deu à luz Caim” (Gn 4.1); e depois dele deu à luz Abel. Ora, o anjo apóstata, que levou o homem à desobediência, o tornou pecador e causou a sua expulsão do Paraíso, não contente com o primeiro mal, praticou um segundo contra os irmãos; pois, enchendo Caim do seu espírito, fez dele um fratricida. E assim Abel morreu, morto pelo seu irmão, significando desde então que alguns seriam perseguidos, oprimidos e mortos, os injustos matando e perseguindo os justos. E diante disso Deus se irou ainda mais e amaldiçoou Caim; e aconteceu que todos daquela raça, nas gerações sucessivas, se tornaram semelhantes ao seu progenitor. E Deus suscitou a Adão outro filho, em lugar de Abel, que fora morto.

18. E por muito tempo a maldade se estendeu e se espalhou, e alcançou e dominou toda a raça humana, até que restou entre eles uma semente muito pequena de justiça, e houve uniões ilícitas sobre a terra, pois anjos se uniram com as filhas da raça humana; e elas lhes geraram filhos que, pela sua extraordinária grandeza, foram chamados gigantes. E os anjos trouxeram às suas mulheres, como presentes, ensinamentos de maldade,53 pois lhes trouxeram as virtudes das raízes e das ervas, as tinturas de cores e os cosméticos, a descoberta de substâncias raras, os filtros de amor, as aversões, os amores, a concupiscência, as coações do amor, os feitiços de encantamento e toda feitiçaria e idolatria odiosa a Deus; e, pela entrada destas coisas no mundo, o mal se estendeu e se espalhou, enquanto a justiça diminuía e se enfraquecia.

19. Até que veio sobre o mundo o juízo de Deus por meio de um dilúvio, na décima geração a partir do primeiro (homem) modelado, sendo Noé o único achado justo. E ele, pela sua justiça, foi livrado, juntamente com sua mulher, seus três filhos e as três mulheres dos seus filhos, encerrados na arca. E, quando a destruição veio sobre todos, tanto homens como animais que havia sobre a terra, escapou o que estava preservado na arca. Ora, os três filhos de Noé eram Sem, Cam e Jafé, dos quais a raça de novo se multiplicou; pois estes foram o princípio da humanidade depois do dilúvio.

20. Ora, destes, um caiu sob maldição, e os (outros) dois herdaram uma bênção por causa das suas obras. Pois o mais novo deles,54 que se chamava Cam, tendo zombado de seu pai e tendo sido condenado pelo pecado de impiedade por causa do seu ultraje e da sua injustiça contra o pai, recebeu uma maldição; e envolveu na maldição toda a descendência que veio dele; daí resultou que toda a sua raça depois dele foi amaldiçoada, e eles cresceram e se multiplicaram em pecados. Mas Sem e Jafé, seus irmãos, por causa da sua piedade para com o pai, obtiveram uma bênção. Ora, a maldição de Cam, com que seu pai Noé o amaldiçoou, é esta: “Maldito seja Cam, o menino;55 servo será de seus irmãos” (Gn 9.25). Tendo isto vindo sobre a sua raça, ele gerou muitos descendentes sobre a terra, (até) por catorze gerações, crescendo em estado selvagem; e então a sua raça foi exterminada por Deus, entregue ao juízo. Pois os cananeus, os heteus, os ferezeus, os heveus, os amorreus, os jebuseus, os girgaseus e os sodomitas, e também os árabes e os habitantes da Fenícia, todos os egípcios e os líbios,56 são da descendência de Cam, que caíram sob a maldição; pois a maldição é de longa duração sobre os ímpios.

21. E, assim como a maldição passou adiante, também a bênção passou à raça daquele que foi abençoado, a cada um na sua ordem. Pois, primeiro deles, Sem foi abençoado com estas palavras: “Bendito seja o Senhor, o Deus de Sem; e Cam57 será seu servo” (Gn 9.26). A força da bênção está nisto: que o Deus e Senhor de todos fosse para Sem uma possessão peculiar de culto. E a bênção se estendeu e alcançou Abraão, que era contado como descendente, na décima geração, da raça de Sem; e por isso o Pai e Deus de todos se agradou de ser chamado o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, porque a bênção de Sem se estendeu e se ligou a Abraão. Ora, a bênção de Jafé é desta maneira: “Deus dilatará Jafé, e ele habitará na casa de Sem, e Cam58 será seu servo” (Gn 9.27). Isto é: no fim dos séculos ele floresceu, na manifestação do Senhor, por meio do chamamento dos gentios, quando Deus dilatou para eles o chamamento; e “a voz deles se espalhou por toda a terra, e as palavras deles alcançaram os confins do mundo” (Sl 19.4; Rm 10.18). A dilatação, então, é o chamamento dentre os gentios, isto é, a Igreja.59 E ele habita na casa de Sem, isto é, na herança dos pais, recebendo em Cristo Jesus o direito de primogenitura. Assim, na posição em que cada um foi abençoado, nessa mesma ordem, por meio da sua descendência, recebeu o fruto da bênção.60

22. Ora, depois do Dilúvio, Deus fez uma aliança com todo o mundo, com todo ser vivo, animais e homens, de que não destruiria mais com um dilúvio tudo o que crescia sobre a terra. E pôs-lhes um sinal, (dizendo): “Quando o céu se cobrir de nuvem, o arco será visto na nuvem; e eu me lembrarei da minha aliança e não destruirei mais pela água todo ser que se move sobre a terra” (Gn 9.14-15). E mudou o alimento dos homens, dando-lhes permissão para comer carne; pois desde Adão, o primeiro modelado, até o Dilúvio, os homens comiam somente sementes e frutos das árvores, e comer carne não lhes era permitido. Mas, como os três filhos de Noé eram o princípio de uma raça de homens, Deus os abençoou para que se multiplicassem e crescessem, dizendo: “Cresçam e multipliquem-se, encham a terra e dominem-na; e o temor e o pavor de vocês estarão sobre todo ser vivo dentre os animais e sobre todas as aves do céu; e eles servirão de alimento para vocês, assim como a erva verde; mas a carne com o sangue da vida vocês não comerão; pois também o sangue de vocês eu requererei da mão de todos os animais e da mão do homem. Quem derramar o sangue de um homem, em troca do seu sangue o seu será derramado” (Gn 9.1-6).61 Pois ele fez o homem imagem de Deus; e a imagem de Deus é o Filho, segundo cuja imagem o homem foi feito; e por esta causa ele apareceu no fim dos tempos, para mostrar que a imagem é semelhante a ele mesmo.62 Segundo esta aliança a raça humana se multiplicou, brotando da semente dos três. E “sobre a terra havia um só lábio” (Gn 11.1), isto é, uma só língua.

23. E eles se levantaram e vieram da terra do oriente; e, ao atravessarem a terra, deram com a terra de Sinar, que era extremamente vasta, onde empreenderam construir uma torre. Buscavam com isso um meio de subir ao céu e de poder deixar a sua obra como memorial para os homens que viessem depois deles. E a construção foi feita com tijolos cozidos e betume; e a ousadia da sua audácia avançava, pois todos eram de um só pensamento e consentimento, e por meio de uma só fala serviam ao propósito dos seus desejos. Mas, para que a obra não avançasse mais, Deus dividiu as suas línguas, para que não pudessem mais entender uns aos outros. E assim foram dispersos e espalhados, tomaram posse do mundo e habitaram em grupos e companhias, cada um segundo a sua língua; daí vieram as diversas tribos e as várias línguas sobre a terra. Assim, pois, como três raças de homens tomaram posse da terra, e uma delas estava sob a maldição e duas sob a bênção, a bênção veio antes de tudo a Sem, cuja raça habitou no oriente e ocupou a terra dos caldeus.

24. Com o passar do tempo, isto é, na décima geração depois do Dilúvio, apareceu Abraão,63 buscando o Deus que, pela bênção do seu antepassado, lhe era devido e próprio.64 E, quando, impelido pelo ardor do seu espírito, percorreu todo o mundo procurando onde Deus está, e não conseguiu descobrir, Deus teve compaixão daquele que, sozinho, o buscava em silêncio; e apareceu a Abraão, dando-se a conhecer pelo Verbo, como por um raio de luz. Pois falou com ele do céu e lhe disse: “Saia da sua terra, da sua parentela e da casa do seu pai e vá para a terra que eu lhe mostrarei” (Gn 12.1; At 7.3), e habite ali. E ele creu na voz celestial, estando então em idade madura, com setenta65 anos, e tendo mulher; e com ela saiu da Mesopotâmia, levando consigo Ló, filho de seu irmão, que havia morrido. E, quando chegou à terra que agora se chama Judeia, na qual naquele tempo habitavam sete tribos descendentes de Cam, Deus lhe apareceu numa visão e disse: “A você darei esta terra, e à sua descendência depois de você, como possessão perpétua” (Gn 17.8); e (disse) que a sua descendência seria estrangeira em terra que não era sua, e ali seria maltratada, afligida e escravizada durante quatrocentos anos, e na quarta geração voltaria ao lugar que fora prometido a Abraão; e que Deus julgaria aquela raça que tivesse escravizado a sua descendência (Gn 15.13-16). E, para que Abraão conhecesse tanto a multidão como a glória da sua descendência, Deus o levou para fora, de noite, e disse: “Olhe para o céu e veja as estrelas do céu, se for capaz de contá-las: assim será a sua descendência” (Gn 15.5). E, quando Deus viu a certeza sem dúvida e sem vacilação do seu espírito, deu testemunho dele pelo Espírito Santo, dizendo na Escritura: “E Abraão creu, e isso lhe foi atribuído para justiça” (Gn 15.6; Rm 4.3). E ele era incircunciso quando este testemunho foi dado; e, para que a excelência da sua fé fosse dada a conhecer por um sinal, deu-lhe a circuncisão, “selo da justiça66 da fé que teve quando ainda não havia sido circuncidado” (Rm 4.11). E depois disto nasceu-lhe um filho, Isaque, de Sara, que era estéril, segundo a promessa de Deus; e ele o circuncidou, segundo o que Deus havia pactuado com ele. E de Isaque nasceu Jacó; e desta maneira a bênção original de Sem chegou a Abraão, e de Abraão a Isaque, e de Isaque a Jacó, sendo-lhes transmitida a herança do Espírito; pois ele era chamado o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó. E Jacó gerou doze filhos, dos quais tomaram nome as doze tribos de Israel.

25. E, quando a fome veio sobre toda a terra, aconteceu que somente no Egito havia alimento; e Jacó, com toda a sua descendência, mudou-se e habitou no Egito; e o número de todos os que migraram era de “setenta e cinco pessoas” (At 7.14); e em quatrocentos anos, como o oráculo havia declarado de antemão, tornaram-se seiscentos e sessenta mil. E, porque eram duramente afligidos e oprimidos por uma servidão cruel e suspiravam e gemiam a Deus, o Deus de seus pais Abraão, Isaque e Jacó, ele os tirou do Egito pela mão de Moisés e Arão, ferindo os egípcios com dez pragas, e na última praga enviando um anjo destruidor e matando os seus primogênitos, tanto de homens como de animais; disso salvou os filhos de Israel, revelando em mistério os sofrimentos de Cristo pelo sacrifício de um cordeiro sem mancha e dando o seu sangue para ser passado nas casas dos hebreus como proteção segura. E o nome deste mistério é Paixão,67 fonte de libertação. E, dividindo o mar Vermelho, conduziu os filhos de Israel com toda a segurança ao deserto; e quanto aos egípcios que os perseguiam, que os seguiram e entraram no mar, todos foram submersos, vindo este juízo de Deus sobre os que haviam oprimido iniquamente a descendência de Abraão.

26. E no deserto Moisés recebeu de Deus a Lei, “as Dez Palavras em tábuas de pedra, escritas pelo dedo de Deus” (Êx 31.18) (ora, o dedo de Deus é aquilo que se estende do Pai no Espírito Santo),68 e os mandamentos e ordenanças que ele entregou aos filhos de Israel para que os observassem. E construiu, por ordem de Deus, o tabernáculo do testemunho, forma visível na terra das coisas que são espirituais e invisíveis nos céus, figura da forma da Igreja e profecia das coisas futuras; no qual estavam também os utensílios, os altares de sacrifício e a arca em que colocou as tábuas (da Lei). E constituiu sacerdotes Arão e seus filhos, atribuindo o sacerdócio a toda a sua tribo; e eram da descendência de Levi. Além disso, convocou toda esta tribo, pela palavra de Deus, para realizar a obra do serviço no templo de Deus, e deu-lhes a lei levítica, (para mostrar) o que e de que tipo devem ser os homens que estão continuamente ocupados em realizar o serviço do templo de Deus.

27. E, quando estavam perto da terra que Deus havia prometido a Abraão e à sua descendência, Moisés escolheu um homem de cada tribo e os enviou para explorar a terra, as suas cidades e os habitantes das cidades. Naquele tempo Deus lhe revelou o Nome, o único que é capaz de salvar os que nele creem; e Moisés mudou o nome de Oseias, filho de Num, um dos que foram enviados, e chamou-o Jesus;69 e assim os enviou com o poder do Nome, crendo que os receberia de volta sãos e salvos pela guia do Nome, o que de fato aconteceu.70 Ora, quando foram, exploraram e investigaram, voltaram trazendo consigo um cacho de uvas; e alguns dos doze que foram enviados lançaram toda a multidão no medo e no desânimo, dizendo que as cidades eram muito grandes e muradas, e que os filhos dos gigantes habitavam nelas, de modo que (não) lhes era possível tomar a terra. E em seguida aconteceu que toda a multidão chorou, deixando de crer que era Deus quem lhes daria poder e lhes sujeitaria tudo. E falaram mal também da terra, como se não fosse boa e como se não valesse a pena enfrentar o perigo por uma terra como aquela. Mas dois dos doze, Jesus, filho de Num, e Calebe, filho de Jefoné, rasgaram as suas vestes pelo mal que fora feito e rogaram ao povo que não desanimasse nem perdesse a coragem, pois Deus havia entregado tudo nas suas mãos, e a terra era muito boa. E, como não creram, mas o povo continuou na mesma incredulidade, Deus mudou e alterou o seu caminho, para que andassem errantes, desolados e duramente feridos no deserto. E, segundo os dias que levaram para ir e voltar os que tinham espiado a terra (e estes foram quarenta em número), contando um ano por dia, ele os manteve no deserto pelo espaço de quarenta anos; e de todos os que eram adultos e tinham entendimento não considerou nenhum digno de entrar na terra por causa da sua incredulidade, exceto somente os dois que haviam testemunhado a favor da herança, Jesus, filho de Num, e Calebe, filho de Jefoné, e os que eram bem novos e não sabiam distinguir a mão direita da esquerda. Assim toda a multidão incrédula pereceu e se consumiu no deserto, recebendo um por um a justa recompensa da sua falta de fé; mas as crianças, crescendo no decurso de quarenta anos, preencheram o número dos mortos.

28. Cumpridos os quarenta anos, o povo se aproximou do Jordão e foi reunido e posto em ordem defronte de Jericó. Ali Moisés reuniu o povo e recapitulou tudo de novo, proclamando os grandes feitos de Deus até aquele dia, formando e preparando os que haviam crescido no deserto para temer a Deus e guardar os seus mandamentos, impondo-lhes como que uma nova legislação, acrescentada à que fora feita antes. E isto foi chamado Deuteronômio;71 e nele foram escritas muitas profecias a respeito de nosso Senhor Jesus Cristo e a respeito do povo, e também a respeito do chamamento dos gentios e a respeito do reino.

29. E, quando Moisés terminou a sua carreira, foi-lhe dito por Deus: “Suba ao monte e morra, pois você não fará o meu povo entrar na terra” (Dt 32.49-52). Assim, ele “morreu segundo a palavra do Senhor” (Dt 34.5); e Jesus, filho de Num, o sucedeu. Ele dividiu o Jordão e fez o povo passar para a terra; e, depois de derrotar e destruir as sete raças que nela habitavam, atribuiu ao povo a Jerusalém temporal,72 na qual Davi foi rei, e Salomão, seu filho, que edificou o templo ao nome de Deus, à semelhança do tabernáculo que fora feito por Moisés segundo o modelo das coisas celestiais e espirituais.

30. Para ali foram enviados os profetas por Deus, por meio do Espírito Santo; e eles instruíram o povo e o converteram ao Deus de seus pais, o Todo-Poderoso; e tornaram-se arautos da revelação de nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, declarando que da descendência de Davi floresceria a sua carne; para que, segundo a carne, ele fosse filho de Davi, que era filho de Abraão por uma longa sucessão; mas, segundo o espírito, Filho de Deus, preexistente73 junto ao Pai, gerado antes de toda a criação do mundo, e que no fim dos tempos apareceria a todo o mundo como homem, o Verbo de Deus “recapitulando em si todas as coisas que estão no céu e que estão na terra” (Ef 1.10).

31. Assim, pois, ele uniu o homem a Deus e estabeleceu a comunhão e união74 entre Deus e o homem; pois de nenhum outro modo75 poderíamos participar da incorruptibilidade, senão pela sua vinda entre nós. Pois, enquanto a incorruptibilidade era invisível e não revelada, de nada nos ajudava; por isso ela se tornou visível,76 para que em todos os aspectos participássemos da recepção da incorruptibilidade. E, porque na modelagem original77 de Adão todos nós fomos atados e presos à morte pela sua desobediência, era justo que, pela obediência daquele que se fez homem por nós, fôssemos libertados da morte; e, porque a morte reinava sobre a carne, era justo que por meio da carne ela perdesse a sua força e deixasse o homem livre da sua opressão. Assim, “o Verbo se fez carne” (Jo 1.14), para que, por meio daquela mesma carne que o pecado havia governado e dominado, ele perdesse a sua força e não estivesse mais em nós. E por isso nosso Senhor tomou aquela mesma modelagem original como (sua) entrada na carne, para que pudesse aproximar-se e combater em favor dos pais,78 e vencer por meio de Adão aquilo que por meio de Adão nos havia abatido.

32. De onde, então, vem a substância do primeiro (homem) modelado? Da Vontade e da Sabedoria de Deus, e da terra virgem.79 “Pois Deus não tinha feito chover”, diz a Escritura, “sobre a terra”, antes de o homem ser feito, “e não havia homem para cultivar a terra” (Gn 2.5). Desta terra, pois, enquanto ainda era virgem, Deus tomou o pó da terra e modelou o homem, o princípio da humanidade. Assim, pois, o Senhor, recapitulando este homem, tomou a mesma dispensação de entrada na carne, nascendo da Virgem pela Vontade e pela Sabedoria de Deus, para que também ele mostrasse a semelhança da entrada de Adão na carne80 e se cumprisse o que foi escrito no princípio:81 o homem segundo a imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26).

33. E, assim como por meio de uma virgem desobediente o homem foi abatido e caiu na morte, assim por meio da Virgem que foi obediente à Palavra de Deus o homem foi reanimado e recebeu a vida.82 Pois o Senhor veio buscar de novo a ovelha que estava perdida;83 e o homem era o que estava perdido; e por esta causa não foi feita outra obra modelada,84 mas naquela mesma que descendia de Adão ele conservou a semelhança da (primeira) modelagem.85 Pois era necessário que Adão fosse recapitulado em Cristo, para que a mortalidade fosse tragada e submersa pela imortalidade; e Eva recapitulada em Maria, para que uma virgem se tornasse advogada de uma virgem86 e, pela obediência de uma virgem, desfizesse e removesse a desobediência de uma virgem.

34. E a transgressão que veio pela árvore foi desfeita pela árvore da obediência,87 quando, obedecendo a Deus, o Filho do homem foi pregado no madeiro, removendo assim o conhecimento do mal e introduzindo e estabelecendo o conhecimento do bem; ora, mal é desobedecer a Deus, assim como obedecer a Deus é bem. E por esta causa o Verbo falou por meio do profeta Isaías, anunciando de antemão o que haveria de vir (pois são profetas justamente porque proclamam o que há de vir);88 por meio dele, pois, o Verbo falou assim: “Eu não recuso nem contradigo: dei as minhas costas aos açoites e as minhas faces às bofetadas;89 e não desviei o meu rosto da vergonha dos escarros” (Is 50.5-6). Assim, pois, pela obediência com que obedeceu “até a morte” (Fp 2.8), pendendo do madeiro, ele removeu a antiga desobediência que fora praticada na árvore. Ora, visto que ele é o Verbo de Deus Todo-Poderoso, que de modo invisível, em nosso meio, se estende universalmente por todo o mundo e abarca o seu comprimento, a sua largura, a sua altura e a sua profundidade90 (pois pelo Verbo de Deus todo o universo é ordenado e disposto), nele é crucificado o Filho de Deus, inscrito em forma de cruz sobre o todo;91 pois é justo que ele, tornando-se visível, imprimisse sobre todas as coisas visíveis a participação na sua cruz, para mostrar a sua ação sobre as coisas visíveis por meio de uma forma visível. Pois é ele quem ilumina a altura, isto é, os céus; e abarca o abismo que está debaixo da terra; e estende e estira o comprimento do oriente ao ocidente; e governa a largura do norte ao sul, chamando todos os que estão dispersos em todas as partes ao conhecimento do Pai.

Notas

1. Esta seção de abertura segue o estilo das introduções de cada um dos cinco livros de Contra as Heresias: no primeiro deles, cujo grego se conservou, há paralelos com a linguagem usada aqui: kathos dunamis hemin e epi polu karpophoreseis ta di oligon huph’ hemon eiremena.

2. “Expor a pregação.” Isto corresponde ao enunciado do título: a epideixis, ostensio ou “demonstração” da Pregação Apostólica.

3. Lit. “um lembrete mais essencial”.

4. Cf. Contra as Heresias I.1.20: hen hekaston de ton eiremenon te idia taxei, kai prosarmosas to tes aletheias somatio.

5. Cf. Contra as Heresias IV, prefácio, 3: “Homo est autem temperatio animæ et carnis”; V.6.1; V.8.1; V.9.1.

6. Ou “espírito”. A palavra armênia para “espírito” (pneuma) às vezes é usada também para “alma” (psuche); o contexto mostra que é assim usada aqui.

7. Lit. “Eu sou o Existente”, como na LXX: Ego eimi ho on. Em Contra as Heresias III.6.2 as palavras são citadas como ditas pelo Pai.

8. Aqui, como de costume, segue-se a LXX (loimon, “dos pestilentos”).

9. Cf. Contra as Heresias I.1.20: ho ton kanona tes aletheias akline en heauto katechon, hon dia tou baptismatos eilephe. O armênio adotou a palavra grega kanon.

10. Cf. Contra as Heresias V.36.1: “presbyteri apostolorum discipuli”.

11. Esta passagem é obscura, e não posso ter nenhuma confiança na minha tradução dela. O tradutor armênio provavelmente entendeu mal a construção do grego: os seus verbos estão todos no infinitivo, o que sugere que Irineu está registrando aquilo que a fé ensina. As palavras “feito Deus” representam theopoieisthai. Essa palavra, embora não se encontre em outro lugar de Irineu, aparece em outros escritores antigos, por exemplo, Hipólito, Philos. x. 34: gegonas gar theos . . . etheopoiethes athanatos gennetheis; ou gar ptocheuei theos kai se theon poiesas eis doxan autou. É frequente em Atanásio, por exemplo, De Incarn. 54: autos gar enenthropesen, hina hemeis theopoiethomen. Em Irineu o pensamento se expressa de várias formas: ver Contra as Heresias IV.63.3: “quoniam non ab initio dii facti sumus, sed primo quidem homines, tunc demum dii”; também III.6.1.

12. Esta é uma reminiscência da controvérsia com os hereges que negavam que o Deus Bom do Novo Testamento fosse o Deus Criador do Antigo Testamento: ver Contra as Heresias IV.34.2: “non enim aliena sed sua tradidit ei” (sobre o Pai entregar todas as coisas ao Filho); V.2.1: “vani autem qui in aliena dicunt Dominum venisse, velut aliena concupiscentem” (onde o armênio nos permite corrigir o latim, que traz “Deum”).

13. Em Contra as Heresias IV.34.2 ele cita como “Escritura” o Pastor de Hermas, Mand.: Proton panton pisteuson hoti heis estin ho theos, ho ta panta ktisas kai katartisas, kai poiesas ek tou me ontos eis to einai ta panta, kai panta choron, monos de achoretos on. Cf. também I.15.1.

14. Contra as Heresias IV.34.1: “in omnibus autem et nos, et hunc mundum qui est secundum nos”; I.15.1: “etenim mundus ex omnibus”; III.11.7: “in omnibus ergo est et hæc quæ secundum nos est conditio”.

15. Ou “se mostra ser”: cf. Contra as Heresias V.18.1: “Et sic unus Deus Pater ostenditur (= deiknutai)”.

16. Deus é logikos (racional); por isso criou o mundo pelo logos (Verbo). O armênio conserva o jogo de palavras, que a tradução inglesa não consegue reproduzir.

17. “Dá corpo”: aparentemente representa somatopoiei; cf. Contra as Heresias I.1.9, sobre o Demiurgo de Valentino: ex asomaton somatopoiesanta.

18. Contra as Heresias III.38.2: “Verbo suo confirmans et Sapientia compingens omnia”; IV.34.2: “qui omnia Verbo fecit et Sapientia adornavit”; IV.34.4: “qui Verbo et Sapientia fecit et adaptavit omnia”.

19. Contra as Heresias V.18.1: “Super omnia quidem Pater, et ipse est caput Christi; per omnia autem Verbum, et ipse est caput ecclesiæ; in omnibus autem nobis Spiritus, et ipse est aqua viva quam præstat Dominus” etc. Cf. Hipólito, Contra Noeto 14: ho on pater epi panton, ho de huios dia panton, to de hagion pneuma en pasin.

20. Lit. “cabeça”: cf. §§ 7 e 100.

21. Isto é plenamente desenvolvido em Contra as Heresias IV.55.1-6: os profetas eram “membros de Cristo”, e assim cada um, segundo o “membro” que era, declarou a sua parte da profecia, e todos juntos anunciaram o todo.

22. A mesma dupla tradução de anakephalaiosasthai (Ef 1.10) se encontra na versão armênia de Contra as Heresias V.1.2.

23. Contra as Heresias IV.11.4: “visibilem et palpabilem”; cf. IV.13.1, onde o armênio mostra que o latim “passibilis” deve ser corrigido para “palpabilis”.

24. Esta dupla tradução ocorre no armênio de Contra as Heresias IV.34.4 e V.1.1, onde o latim traz simplesmente “communio”. Com toda esta passagem compare-se IV.34.4: “qui novissimis temporibus homo in hominibus factus est, ut finem conjungeret principio, id est, hominem Deo”.

25. Temos as mesmas palavras em Contra as Heresias IV.55.6: “in novissimis temporibus nove effusus est in nos”.

26. Contra as Heresias IV.25.2: “assuescens hominem portare ejus Spiritum”; IV.34.6: “qui portant Spiritum ejus”.

27. Contra as Heresias IV.34.5: “Spiritu quidem præparante hominem in Filium Dei, Filio autem adducente ad Patrem, Patre autem incorruptelam donante”; V.36.2: “per Spiritum quidem ad Filium, per Filium autem ascendere ad Patrem”.

28. Contra as Heresias IV.11.5: “Agnitio enim Patris Filius”.

29. Lit. “distribui ministerialmente”. Cf. Contra as Heresias V.18.1: “Verbum . . . præstat Spiritum omnibus quemadmodum vult Pater”.

30. Cf. § 91; e Contra as Heresias III.11.5: “testamentum hominibus aperiens”; V.9.4: “testamentum evangelii apertum et universo mundo lectum”; V.33.1: “apertionem hæreditatis”; cf. III.18.1.

31. Um relato do ensino judaico tardio sobre os Sete Céus encontra-se no valioso livro de H. St John Thackeray, St Paul and Contemporary Jewish Thought, pp. 172-179, onde se acham três tabelas paralelas das suas descrições. As referências a eles na literatura apócrifa cristã foram reunidas pelo Dr. Charles em The Book of the Secrets of Enoch (do eslavo), pp. xliv-xlvii. Hipólito, no seu Comentário sobre Daniel (ed. Achelis, p. 96), referindo-se ao eulogeite ouranoi do Benedicite, diz: tous hepta ouranous . . . proskaloumenoi. Clemente de Alexandria (Strom. iv. 25) diz: eite hepta ouranoi, hous tines arithmousin kat’ epanabasin. Orígenes (Contra Celso vi. 21) também menciona os Sete Céus, mas sem se comprometer com o número exato. Irineu, em Contra as Heresias I.1.9, refere-se ao ensino valentiniano que identificava os Sete Céus com anjos de diversos graus de poder. Na nossa passagem ele liga, de modo singular, os Sete Céus aos Sete Dons do Espírito. Observamos duas peculiaridades na sua descrição. Primeiro, contando de cima para baixo, ele considera o mais alto como o Primeiro Céu; segundo, o seu Sétimo, ou o mais baixo, é o firmamento. O mal está inteiramente excluído destes céus; assim também na Ascensão de Isaías, onde, porém, ele se encontra no firmamento, que não é contado como um dos céus. A crença nos Sete Céus logo caiu em descrédito; e é curioso encontrar uma sobrevivência dela, devida aparentemente a influências irlandesas, na invocação dos septem cælos num livro de orações do século VII ou VIII (Brit. Mus. Reg. 2. A. xx, f. 47 v.).

32. Compare-se a razão dada por Justino Mártir (Diálogo 22) para o culto no Templo: ouch hos endees on . . . all’ hopos kan kata touto prosechontes auto me eidololatrete.

33. Talvez o texto deva ser emendado de modo a dar “operação” (energeia).

34. Ou “ministérios” (= diakonion na versão armênia de 1Co 12.5).

35. Omitido por descuido: cf. § 59 e Contra as Heresias III.10.1; III.18.2, onde as palavras são dadas corretamente.

36. Os céus são enumerados de cima para baixo para corresponder às palavras do profeta e pôr a Sabedoria em primeiro lugar e o Temor de Deus em último.

37. Contra as Heresias V.20.2: “ecclesia . . . heptamuchos lucerna”.

38. Contra as Heresias IV.25.3: “Quoniam facies omnia juxta typum eorum quæ vidisti in monte”; a LXX traz ton dedeigmenon soi (“que lhe foi mostrado”); a variação pode dever-se a uma reminiscência de At 7.44, hon eorakei (“que tinha visto”).

39. O sentido é incerto: a palavra significa “diário, contínuo, perpétuo”, mas também é usada como advérbio. As traduções alemãs a tomam no sentido de “eterno” (sein ewiger Sohn, “seu Filho eterno”). Ela traduz dia pantos em Lv 24.2, e esse pode ter sido o grego original nesta passagem. Mas, mesmo assim, não está claro se deve ser ligada a “que é o seu Filho” ou a “é glorificado”. Para a filiação eterna podemos comparar Contra as Heresias III.19.1: “existens semper apud Patrem”; e IV.34.3: “semper cum Patre erat”.

40. Orígenes, no seu Comentário sobre Romanos (III, § 8), interpreta os dois Querubins sobre o propiciatório como o Filho e o Espírito Santo. No De Principiis (I, iii. 4; IV, iii. 26) dá a mesma interpretação dos dois Serafins de Is 6.3, dizendo que a recebeu do seu mestre hebreu; e acrescenta que o mesmo se aplica aos dois seres viventes de Hc 3.2 (LXX). Fílon (Vida de Moisés iii. 8) havia interpretado os dois Querubins como tas presbutatas kai anotato duo tou ontos dunameis, ten te poietiken kai basiliken (“as duas potências mais antigas e mais elevadas do Ser, a criadora e a régia”); a primeira se chama theos (“Deus”), a segunda kurios (“Senhor”). Isto provavelmente preparou o caminho para a interpretação de Orígenes.

41. Em outros lugares Irineu fala constantemente do Filho e do Espírito como as Mãos de Deus.

42. Equivalente a plasma ou plasmatio.

43. Assim as duas traduções alemãs; mas elas deslocam as palavras de modo a ligá-las a “este grande mundo criado”. O que parece ser preciso é “para ter tudo como seu”, se as palavras admitirem esse sentido.

44. Sobre esta função dos anjos cf. Papias, citado por André, In Apocal. c. 34, serm. 12: Eniois de auton (delade ton palai theion angelon) kai tes peri ten gen diakosmeseos edoken archein, kai kalos archein parenguese (“A alguns deles, isto é, dos anjos outrora divinos, deu também o governo da ordem relativa à terra, e lhes ordenou governar bem”).

45. Contra as Heresias IV.62.1: nepios gar en (“pois era criança”).

46. Que o Paraíso ficava numa região fora deste mundo não é afirmado aqui com toda a clareza, mas as palavras iniciais do § 17 parecem apoiar esta opinião. A opinião de Irineu, porém, é claramente dada em Contra as Heresias V.5.1: Pou oun etethe ho protos anthropos; en to paradeiso delonoti, kathos gegraptai (Gn 2.8) . . . kai ekeithen exeblethe eis tonde ton kosmon parakousas (“Onde, então, foi posto o primeiro homem? No paraíso, evidentemente, como está escrito… e dali foi lançado a este mundo, por ter desobedecido”). Ele passa a falar dele como o Paraíso ao qual são Paulo foi arrebatado (2Co 12.4). Além disso, identifica-o com o lugar de repouso dos justos, como Enoque e Elias. Assim, no Apocalipse de Pedro, os justos habitam num megiston choron ektos toutou tou kosmou (“um lugar imenso fora deste mundo”). Irineu se cala sobre se o Paraíso está no terceiro céu. Mas os Segredos de Enoque eslavos, acima mencionados, o colocam ali. Na recensão mais breve e, ao que parece, mais original lemos o seguinte (c. 8): “E os homens me tiraram daquele lugar e me levaram ao terceiro céu, e me puseram no meio de um jardim, um lugar como nunca se viu, pela formosura do seu aspecto. E toda árvore é bela, e todo fruto maduro; toda espécie de alimento agradável brota com toda espécie de fragrância. E (há) quatro rios que correm em curso suave; e toda espécie de coisa boa, que cresce para alimento” etc. Os valentinianos, segundo Irineu (I.1.9), punham o Paraíso huper triton ouranon (“acima do terceiro céu”). Compare-se a anáfora da Liturgia de São Basílio (Swainson, p. 80): exorisas auton en te dikaiokrisia sou, ho theos, ek tou paradeisou eis tonde ton kosmon (“tu o exilaste, ó Deus, no teu justo juízo, do paraíso para este mundo”).

47. Como na LXX, kat’ auton (“semelhante a ele”).

48. Como na LXX, okodomesen . . . eis gunaika (“edificou… em mulher”).

49. Cf. Contra as Heresias III.32.1.

50. Contra as Heresias IV.66.2: ektote gar apostates ho angelos houtos kai echthros, aph’ hote ezelose to plasma tou theou (“pois desde então este anjo é apóstata e inimigo, desde que invejou a obra modelada por Deus”); V.24.4: “Invidens homini, apostata a divina factus est lege: invidia enim aliena est a Deo”. Cf. Sabedoria 2.24: phthono de diabolou thanatos eiselthen eis ton kosmon (“por inveja do diabo a morte entrou no mundo”).

51. Contra as Heresias V.21.2: “Satana enim verbum Hebraicum apostatam significat”. Cf. Justino Mártir, Diálogo 103.

52. Cf. Gn 3.24: katokisen auton apenanti tou paradeisou tes truphes (“fê-lo habitar defronte do paraíso das delícias”). Talvez “o caminho” venha de “o caminho da árvore da vida”, no mesmo versículo.

53. Isto vem do Livro de Enoque, ao qual Irineu também se refere em Contra as Heresias IV.27.2. Enoque 7.1: kai edidaxan autas pharmakeias kai epaoidas kai rhizotomias, kai tas botanas edelosan autais (“e ensinaram-lhes feitiçarias, encantamentos e o corte de raízes, e mostraram-lhes as ervas”); 8.1: pselia kai kosmous kai stibeis kai to kalliblepharon kai pantoious lithous eklektous kai ta baphika (“braceletes, adornos, antimônio, a pintura das pálpebras, toda espécie de pedras escolhidas e as tinturas”). Tertuliano usa a mesma passagem: De cultu feminarum i. 2; ii. 10 (ut Enoch refert).

54. O armênio corresponde ao grego ho neoteros (“o mais novo”, Gn 9.24). Como Noé tinha três filhos, o comparativo causa dificuldade. Orígenes o tomou como superlativo, pois no grego tardio (como no francês) o comparativo com artigo é usado como superlativo. Ele passou a argumentar que, como Cam não era o filho mais novo de Noé, a palavra “filho” foi usada no sentido de neto, e que “Noé soube o que seu neto (Canaã) lhe havia feito”; por isso a maldição cai sobre Canaã. Isto concordava com uma tradição que lhe fora transmitida pelo seu mestre hebreu (Comm. in Gen. ix. 18; Lommatzsch viii, p. 65). A dificuldade nasceu do fato de que “a maldição de Cam” não foi pronunciada sobre Cam, mas sobre seu filho Canaã. Justino Mártir (Diálogo 139) diz que Noé amaldiçoou o filho de seu filho, “pois o Espírito profético não amaldiçoaria seu filho, que havia sido abençoado por Deus juntamente com os outros filhos”.

55. Irineu não vê dificuldade em falar da “maldição de Cam”. É claro que ele tinha um texto da LXX que lhe permitia fazê-lo. O hebraico de Gn 9.25 nos dá: “Maldito seja Canaã; servo dos servos será de seus irmãos”. A LXX traz: Epikataratos Chanaan; pais oiketes estai tois adelphois autou. Mas alguns manuscritos (E e alguns minúsculos) leem Cham em vez de Chanaan. Quando pais era tomado com a palavra anterior, Cham pais sem dúvida pretendia significar “o filho de Cam”, isto é, Canaã; mas podia também ser entendido como “Cam, o menino”. Assim, aqui o tradutor armênio não dá o genitivo de Cam, mas o nominativo; e parece que interpreta corretamente o sentido de Irineu.

56. Irineu parece ter recorrido a At 2.9-11 para ampliar a sua lista.

57. A LXX traz Canaã, mas um minúsculo traz Cam.

58. Aqui também a LXX traz Canaã, embora E e outros manuscritos tragam Cam. O armênio traz aqui “ele abençoará” em vez de “ele habitará”; mas isso é um lapso, como se vê pelo que vem abaixo.

59. “O chamamento dos gentios”, ou, como também temos aqui, “o chamamento dentre os gentios”, reaparece nos §§ 28, 41 (duas vezes), 42, 89 e 91. Notei-o na versão armênia de Contra as Heresias IV.34.12, onde, porém, encontramos no grego he ex ethnon ekklesia (“a igreja dentre os gentios”) e no latim ea quæ ex gentibus est ecclesia. Não me lembro de tê-lo encontrado em outra parte dos escritos de Irineu, nem em nenhum escritor anterior. Nos fragmentos de Hipólito sobre Gn 49 (ed. Achelis, p. 59 ss.), he ex ethnon klesis (“o chamamento dentre os gentios”) aparece várias vezes, e mais de uma vez ekklesia ocorre como variante. Não se encontra, porém, nos comentários correspondentes de As Bênçãos de Jacó (Texte u. Unters. xxxviii. 1).

60. Com tudo o que precede, cf. Justino Mártir, Diálogo 139.

61. Estas últimas palavras são assim citadas em Contra as Heresias V.14.1. A LXX continua: hoti en eikoni theou epoiesa ton anthropon (“porque à imagem de Deus fiz o homem”). Irineu parafraseia isto; cf. § 11: “porque (como) imagem de Deus o homem foi modelado e posto sobre a terra”. Que “a imagem de Deus é o Filho” pode ser uma reminiscência de Cl 1.15.

62. Contra as Heresias V.16.1: ten eikona edeixen alethos, autos touto genomenos hoper en he eikon autou (“mostrou verdadeiramente a imagem, tornando-se ele mesmo aquilo que era a sua imagem”); ver ali o contexto.

63. Lit. “foi achado” (= heurethe).

64. Isto se explica pelo comentário acima (§ 21) sobre a bênção de Sem, que não dizia “Bendito seja Sem”, mas “Bendito seja o Senhor, o Deus de Sem”, significando que Deus “fosse para Sem uma possessão peculiar de culto”.

65. O hebraico e a LXX trazem “setenta e cinco”.

66. O armênio traz “incircuncisão” em vez de “justiça”, por descuido.

67. A mesma interpretação de Pascha (Páscoa), como se viesse de paschein (“sofrer”), encontra-se em Contra as Heresias IV.20.1: “cujus et diem passionis non ignoravit, sed figuratim prænuntiavit eum, Pascha nominans”.

68. “O dedo de Deus” (Lc 11.20) aparece como “o Espírito de Deus” em Mt 12.28. Cf. Barnabé 14.3; e Homilias Clementinas xi. 22; xvi. 12.

69. Nm 13.16: kai eponomasen Mouses ton Hause huion Naue Iesoun (“e Moisés deu a Oseias, filho de Num, o nome de Jesus”). Justino Mártir (Diálogo 75; 113) fala longamente desta mudança de nome. Cf. Barnabé 12.8 s. [N. do T.: “Jesus” é a forma grega do nome hebraico Josué.]

70. Provavelmente isto representa ho egeneto (“o que aconteceu”). Compare-se as breves orações “e isto aconteceu” (§ 67) e “como de fato se tornaram” (§ 72); Contra as Heresias III.6.4: “quod et erat”. Mas poderia ser traduzido, em conjunto com o Nome, por “que foi (dado a eles)”; assim o tomam as traduções alemãs.

71. Cf. o fragmento grego atribuído a Irineu, Harvey II, p. 487, onde temos anakephalaioumenos (“recapitulando”); este fragmento, porém, foi agora demonstrado como sendo de Hipólito, Sobre as Bênçãos de Moisés (Texte u. Unters. N. F. XI, 1a, p. 49). Cf. também Contra as Heresias IV.2.1: “Moyses igitur recapitulationem universæ legis . . . in Deuteronomio faciens”.

72. Ou “esta Jerusalém presente”: talvez represente ten nun Ierousalem (“a Jerusalém atual”, Gl 4.25).

73. Cf. § 51.

74. Sobre esta dupla tradução, ver acima, § 6.

75. Contra as Heresias III.20.1: “Quemadmodum autem adunari possemus incorruptelæ et immortalitati, nisi prius incorruptela et immortalitas facta fuisset id quod et nos?” Cf. III.19.6: kai ei me sunenothe ho anthropos to theo, ouk an edunethe metaschein tes aphtharsias (“e, se o homem não tivesse sido unido a Deus, não poderia participar da incorruptibilidade”).

76. Cf. 2Tm 1.10: photisantos zoen kai aphtharsian dia tou euangeliou (“que trouxe à luz a vida e a imortalidade mediante o evangelho”).

77. Contra as Heresias V.1.2: ten archaian plasin tou Adam eis heauton anekephalaiosato (“recapitulou em si a antiga modelagem de Adão”).

78. Contra as Heresias III.19.5: “erat enim homo pro patribus certans”; V.21.1: “Omnia ergo recapitulans, recapitulatus est et adversus inimicum nostrum bellum, provocans et elidens eum qui in initio in Adam captivos duxerat nos” (a versão armênia desta passagem sugere a pontuação correta). Com “pro patribus” compare-se Barnabé 5.7: hina kai tois patrasin ten epangelian apodo (“para cumprir também aos pais a promessa”).

79. Quase as mesmas palavras são usadas aqui como em Contra as Heresias III.30.1: “Et quemadmodum protoplastus ille Adam de rudi terra et de adhuc virgine (nondum enim pluerat Deus, et homo non erat operatus terram) habuit substantiam et plasmatus est manu Dei, id est, Verbo Dei (omnia enim per ipsum facta sunt), et sumpsit Dominus limum a terra et plasmavit hominem: ita recapitulans in se Adam ipse Verbum existens ex Maria, quæ adhuc erat virgo, recte accipiebat generationem Adæ recapitulationis”. Cf. III.19.6; também o Comentário sobre o Diatessaron de Efrém (Moesinger, p. 21): “In Virginis conceptione disce quod qui sine conjugio Adamum ex virginea terra protulit, is etiam Adamum secundum in utero virginis formaverit”. Cf. também Tertuliano, De carne Christi 17; Fírmico Materno, De errore profanarum religionum 25.

80. Contra as Heresias III.31.1: ten auten ekeino tes genneseos echein homoioteta (“ter a mesma semelhança de geração que ele”).

81. Contra as Heresias V.2.1: “restaurans suo plasmati quod dictum est in principio, factum esse hominem secundum imaginem et similitudinem Dei”; e abaixo, § 97.

82. O mesmo paralelo é desenvolvido em Contra as Heresias III.32.1 e V.19.1. Encontra-se antes em Justino Mártir (Diálogo 100) e depois em Tertuliano (De carne Christi 17).

83. Irineu gosta de se referir à ovelha que estava perdida: ver Contra as Heresias III.20.3; III.32.2; III.37.1; V.12.3; V.15.2.

84. Contra as Heresias V.14.2: “Nunc autem quod fuit qui perierat homo, hoc salutare factum est Verbum . . . non alteram quandam, sed illam principalem Patris plasmationem in se recapitulans, exquirens id quod perierat”.

85. Ver acima, § 32.

86. Contra as Heresias III.32.1: “eam quæ est a Maria in Evam recirculationem significans”; V.19.1: “uti virginis Evæ virgo Maria fieret advocata”. Cf. Justino Mártir, Diálogo 100.

87. Contra as Heresias V.16.2: “Dissolvens enim eam quæ in initio in ligno facta fuerat hominis inobedientiam, obediens factus est usque ad mortem, mortem autem crucis, eam quæ ligno facta fuerat inobedientiam per eam quæ in ligno fuerat obedientiam sanans”.

88. Contra as Heresias IV.34.5: “Nam prophetia est prædicatio futurorum”.

89. Cf. § 68.

90. Contra as Heresias V.17.4: Epei gar dia xulou apebalomen auton (sc. ton logon Kuriou), dia xulou palin phaneros tois pasin egeneto, epideiknuon to hupsos kai mekos kai platos en heauto; kai, hos ephe tis ton probebekoton presbuteron, dia tes ektaseos ton cheiron tous duo laous eis hena theon sunagon (“Pois, como o perdemos [o Verbo do Senhor] por meio de um madeiro, por meio de um madeiro de novo ele se tornou manifesto a todos, mostrando em si a altura, o comprimento e a largura; e, como disse um dos presbíteros mais antigos, pela extensão das mãos reunindo os dois povos para um só Deus”). O grego, conservado numa catena, é aqui emendado a partir das versões latina e armênia, que ambas omitem kai bathos (“e a profundidade”).

91. Contra as Heresias V.18.2: “in hoc mundo existens, et secundum invisibilitatem continet quæ facta sunt omnia, et in universa conditione infixus (armênio: ‘e em todo este mundo crucificado’), quoniam Verbum Dei gubernans et disponens omnia”. O pensamento é tomado de Justino (1 Apologia 60), que atribui a Platão as palavras: Echiasen auton en to panti (“dispôs-o em forma de X no universo”; cf. Timeu 36 B-C). Justino diz que Platão, entendendo mal a história da serpente de bronze, mede noesas tupon einai staurou, alla chiasma noesas, ten meta ton proton theon dunamin kechiasthai en to panti eipe (“não percebendo que era figura da cruz, mas tomando-a por um X, disse que a potência que vem depois do primeiro Deus estava disposta em forma de X no universo”).

Tradução para o português a partir das versões inglesas de J. Armitage Robinson (The Demonstration of the Apostolic Preaching, Londres, SPCK, 1920, traduzida do armênio) e de Alexander Roberts e W. H. Rambaut (Against Heresies, Livro V, Ante-Nicene Fathers, vol. 1, Buffalo, 1885), conferidas com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são dos tradutores ingleses; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Irineu cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.