Irineu de Lião · Demonstração (continuação)
Cristo, o Filho de Deus, que existia antes de todas as coisas, e as profecias sobre o seu nascimento, a sua obra e o seu reino.
35. Além disso, ele cumpriu a promessa feita a Abraão, aquilo que Deus lhe havia prometido: tornar a sua descendência como as estrelas do céu. Isso Cristo realizou, ele que nasceu da Virgem, que era da descendência de Abraão, e constituiu os que têm fé nele luzeiros no mundo (Fp 2.15),1 e pela mesma fé que Abraão justificou os gentios. Pois “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi atribuído para justiça” (Gn 15.6; Rm 4.3). Do mesmo modo também nós somos justificados pela fé em Deus, porque “o justo viverá por fé” (Rm 1.17). Ora, não é pela lei que veio a promessa a Abraão, mas pela fé (Rm 4.13); pois Abraão foi justificado pela fé, e para o justo não se promulga lei (1Tm 1.9). Do mesmo modo também nós somos justificados, não pela lei, mas pela fé, que é testemunhada pela Lei e pelos Profetas, os quais o Verbo de Deus nos apresenta.
36. E cumpriu a promessa feita a Davi; pois a ele Deus havia prometido que do fruto do seu ventre suscitaria um Rei eterno,2 cujo reino não teria fim (Sl 132.11). E esse Rei é Cristo, o Filho de Deus, que se tornou Filho do Homem; isto é, que se tornou o fruto daquela Virgem que descendia de Davi. E por essa razão a promessa dizia: “Do fruto do teu ventre”,3 para declarar a singularidade própria daquele que era o fruto do ventre virginal que era de Davi, (isto é, daquele) que era Rei sobre a casa de Davi, (e) cujo reino não terá fim.
37. Assim, pois, ele realizou gloriosamente a nossa redenção, cumpriu a promessa feita aos pais e aboliu a antiga desobediência. O Filho de Deus se tornou Filho de Davi e Filho de Abraão, aperfeiçoando e recapitulando isso em si mesmo, para nos fazer possuir a vida. O Verbo de Deus se fez carne pela dispensação da Virgem, para abolir a morte e fazer o homem viver. Pois estávamos aprisionados pelo pecado, nascidos em estado de pecado e vivendo sob a morte.
38. Mas Deus Pai foi muito misericordioso: enviou o seu Verbo criador,4 que, vindo para nos libertar, veio ao próprio lugar e ponto em que havíamos perdido a vida, e rompeu as cadeias dos nossos grilhões. E a sua luz apareceu e fez desaparecer as trevas da prisão, santificou o nosso nascimento e destruiu a morte, soltando aqueles mesmos grilhões em que estávamos acorrentados. E manifestou a ressurreição,5 tornando-se ele mesmo o primogênito dos mortos (Ap 1.5), e em si mesmo levantou o homem caído, elevando-o muito acima do céu, à direita da glória do Pai, assim como Deus prometeu pelo profeta, dizendo: “Levantarei o tabernáculo caído de Davi” (Am 9.11), isto é, a carne6 que provinha de Davi. E isso o nosso Senhor Jesus Cristo cumpriu verdadeiramente, quando realizou gloriosamente a nossa redenção, para verdadeiramente nos levantar, libertando-nos para o Pai. E se alguém não aceita o seu nascimento de uma virgem, como aceitará a sua ressurreição dentre os mortos? Pois não seria nada de maravilhoso, espantoso e extraordinário se alguém que não nasceu ressuscitasse dos mortos; na verdade, nem se pode falar de ressurreição daquele que veio a existir sem nascimento. Pois quem não nasceu e é imortal, e não passou pelo nascimento, também não passará pela morte. Pois aquele que não recebeu o começo do homem, como poderia receber o seu fim?
39. Ora, se ele não nasceu, também não morreu; e, se não morreu, também não ressuscitou dos mortos; e, se não ressuscitou dos mortos, também não venceu a morte nem aniquilou o seu domínio; e, se a morte não foi vencida, como poderemos subir à vida, nós que desde o princípio caímos sob a morte? Assim, aqueles que tiram do homem a redenção e não creem em Deus, que ele os ressuscitará dos mortos, esses também desprezam o nascimento do nosso Senhor,7 ao qual ele se submeteu por nós, para que o Verbo de Deus se fizesse carne a fim de manifestar a ressurreição da carne e ter a primazia sobre todas as coisas nos céus, como primogênito e prole mais antiga do pensamento do Pai, o Verbo, que tudo plenifica e que ele mesmo guia e governa sobre a terra. Pois ele foi o primogênito da Virgem, homem justo e santo,8 temente a Deus, bom, agradável a Deus, perfeito em todos os aspectos, e que livra do inferno todos os que o seguem; pois ele mesmo foi o primogênito dos mortos (Ap 1.5), o Príncipe e Autor da vida para Deus.
40. Assim, pois, o Verbo de Deus tem a primazia em todas as coisas (Cl 1.18);9 porque ele é verdadeiro homem e Maravilhoso Conselheiro e Deus Forte (Is 9.6);10 ele chama os homens de novo à comunhão com Deus, para que, pela comunhão com ele, participemos da incorruptibilidade. Assim, pois, aquele que foi anunciado pela lei por meio de Moisés, e pelos profetas do Deus Altíssimo e Todo-Poderoso, como Filho do Pai de todas as coisas; aquele de quem procedem todas as coisas, aquele que falou com Moisés, esse veio à Judeia, gerado de Deus pelo Espírito Santo,11 e nascido da Virgem Maria, daquela que era da descendência de Davi e de Abraão: Jesus, o Ungido de Deus, mostrando ser ele aquele que fora anunciado de antemão pelos profetas.
41. E o seu precursor foi João Batista, que preparou e dispôs de antemão o povo para receber o Verbo da vida, declarando que ele era o Cristo, sobre quem repousou o Espírito de Deus, unindo-se à sua carne.12 Os seus discípulos, testemunhas de todas as suas boas obras, dos seus ensinos, dos seus sofrimentos, da sua morte e ressurreição, e da sua ascensão ao céu depois da sua ressurreição corporal,13 esses foram os apóstolos, que, depois de (receberem) o poder do Espírito Santo, foram enviados por ele a todo o mundo e realizaram o chamado dos gentios, mostrando à humanidade o caminho da vida, para desviá-los dos ídolos, da fornicação e da cobiça, purificando-lhes a alma e o corpo pelo batismo da água e do Espírito Santo; o qual Espírito Santo eles haviam recebido do Senhor e o distribuíram e comunicaram aos que creram; e assim ordenaram e estabeleceram as igrejas. Pela fé, pelo amor e pela esperança, estabeleceram aquilo que fora predito pelos profetas, o chamado dos gentios, segundo a misericórdia de Deus que lhes foi estendida, trazendo-o à luz pelo ministério do seu serviço e admitindo-os à promessa feita aos pais: a saber, que aos que assim cressem no Senhor e o amassem, e perseverassem em santidade, justiça e paciente perseverança, o Deus de todas as coisas havia prometido conceder a vida eterna pela ressurreição dos mortos, por meio daquele que morreu e ressuscitou, Jesus Cristo, a quem ele entregou o reino de todas as coisas existentes, o domínio sobre vivos e mortos, e também o juízo. E os exortaram, pela palavra da verdade, a conservar a carne sem mancha até a ressurreição e a alma sem mácula.
42. Pois tal é a condição14 dos que creram, visto que neles permanece continuamente o Espírito Santo, que foi dado por ele no batismo e é conservado por quem o recebe, se andar na verdade, na santidade, na justiça e na paciente perseverança. Pois esta alma tem uma ressurreição nos que creem: o corpo recebe de novo a alma e, juntamente com ela, pelo poder do Espírito Santo, é ressuscitado e entra no reino de Deus. Este é o fruto da bênção de Jafé, no chamado dos gentios, manifestado por meio da Igreja, que está pronta15 para receber a sua habitação na casa de Sem, segundo a promessa de Deus. Que todas essas coisas haveriam de acontecer assim, o Espírito de Deus o declarou de antemão pelos profetas, para que, a respeito delas, se confirmasse a fé dos que adoram a Deus em verdade. Pois aquilo que era impossível à nossa natureza, e por isso capaz de provocar incredulidade na humanidade, Deus o fez conhecer de antemão pelos profetas, a fim de que, tendo sido predito em tempos muito anteriores e cumprindo-se por fim desse modo, tal como fora predito, soubéssemos que foi Deus quem (assim) nos anunciou de antemão a nossa redenção.
43. Portanto, devemos crer em Deus em todas as coisas, porque em todas as coisas Deus é verdadeiro. Ora, que havia um Filho de Deus, e que ele existia não somente antes de aparecer no mundo, mas também antes de o mundo ser feito, Moisés, que foi o primeiro a profetizar,16 o diz em hebraico: Baresith bara Elowin basan benuam samenthares. E isso, traduzido para a nossa língua,17 é: “O Filho no princípio: Deus estabeleceu então o céu e a terra”.18 Isso também testemunhou o profeta Jeremias, dizendo assim: “Antes da estrela da manhã eu te gerei, e antes do sol (está) o teu nome”;19 isto é, antes da criação do mundo, pois as estrelas foram feitas juntamente com o mundo. E de novo o mesmo diz: “Bem-aventurado aquele que existia antes de se fazer homem”. Porque, para Deus, o Filho era (como) o princípio antes da criação do mundo;20 mas para nós (ele o foi) somente quando apareceu; e antes disso ele não existia para nós, que não o conhecíamos.21 Por isso também o seu discípulo João, ao nos ensinar quem é o Filho de Deus, que estava com o Pai antes de o mundo ser feito, e que todas as coisas que foram feitas foram feitas por ele, diz assim: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez” (Jo 1.1-3); mostrando com certeza que o Verbo, que estava no princípio com o Pai e por quem todas as coisas foram feitas, é o seu Filho.
44. E de novo Moisés conta como o Filho de Deus se aproximou para conversar com Abraão: “E Deus lhe apareceu junto ao carvalho de Manre, no meio do dia. E, levantando os olhos, viu, e eis que três homens estavam de pé diante dele. E ele se prostrou em terra e disse: Senhor, se de fato achei favor diante de ti” (Gn 18.1-3). E em tudo o que se segue ele falou com o Senhor, e o Senhor falou com ele. Ora, dois dos três eram anjos; mas um era o Filho de Deus, com quem também Abraão falou, intercedendo pelos homens de Sodoma, para que não perecessem se ao menos dez justos fossem encontrados ali. E, enquanto estes conversavam, os dois anjos entraram em Sodoma, e Ló os recebeu. E então a Escritura diz: “E o Senhor fez chover sobre Sodoma e Gomorra enxofre e fogo da parte do Senhor, desde o céu” (Gn 19.24); isto é, o Filho, que falou com Abraão, sendo Senhor, recebeu poder para punir os homens de Sodoma da parte do Senhor, desde o céu, isto é, do Pai, que governa sobre todas as coisas.22 Assim Abraão era profeta e viu as coisas futuras que haveriam de acontecer em forma humana, a saber, o Filho de Deus: que ele falaria com os homens e comeria com eles, e depois traria o juízo da parte do Pai, tendo recebido daquele que governa sobre todas as coisas o poder de punir os homens de Sodoma.
45. E Jacó, quando foi para a Mesopotâmia, viu-o em sonho, de pé sobre a escada (Gn 28.12-13), isto é, o madeiro que foi erguido da terra ao céu;23 pois por meio dele os que creem nele sobem aos céus. Pois os seus sofrimentos são a nossa ascensão às alturas. E todas essas visões apontam para o Filho de Deus, que fala com os homens e está no meio deles. Pois não foi o Pai de todas as coisas, que não é visto pelo mundo, o Criador de todas as coisas, que disse: “O céu é o meu trono, e a terra é o estrado dos meus pés. Que casa vocês edificarão para mim, ou qual é o lugar do meu repouso?” (Is 66.1; At 7.49), e que “contém a terra na sua mão e o céu no seu palmo” (Is 40.12),24 não foi ele que veio e se pôs num espaço muito pequeno e falou com Abraão; mas o Verbo de Deus, que estava sempre com a humanidade, e dava a conhecer de antemão o que haveria de acontecer no futuro, e ensinava aos homens as coisas de Deus.
46. É ele que falou com Moisés na sarça e disse: “Certamente vi a aflição do meu povo, que está no Egito, e desci a fim de livrá-lo” (Êx 3.7-8). É ele que saiu e desceu para a libertação dos oprimidos, tirando-nos do poder dos egípcios, isto é, de toda idolatria e impiedade; e livrando-nos do mar Vermelho, isto é, livrando-nos da confusão mortal dos gentios e do penoso tormento da sua blasfêmia. Pois neles o Verbo de Deus preparou e ensaiou de antemão as coisas que nos dizem respeito. Então ele apresentou de antemão, em figuras, aquilo que haveria de ser; agora, em plena verdade, ele nos tirou do cruel serviço dos gentios, e fez brotar em abundância de uma rocha uma corrente de água no deserto; e essa rocha é ele mesmo (1Co 10.4); e deu doze fontes (Êx 15.27), isto é, o ensino dos doze apóstolos. E os incrédulos obstinados ele os fez perecer e os consumiu no deserto; mas os que creram nele e na malícia foram crianças (1Co 14.20),25 ele os fez entrar na herança dos pais; e quem os põe de posse da herança não é Moisés, mas Jesus,26 que também nos livra de Amaleque pela extensão das suas mãos27 e nos conduz ao reino do Pai.
47. Assim, pois, o Pai é Senhor e o Filho é Senhor,28 e o Pai é Deus e o Filho é Deus; pois o que é gerado de Deus é Deus.29 E assim, na substância e no poder do seu ser, mostra-se um só Deus; mas há também, segundo a economia da nossa redenção, o Filho e o Pai. Porque, para as coisas criadas, o Pai de todas as coisas é invisível e inacessível,30 os que hão de se aproximar de Deus precisam ter acesso ao Pai por meio do Filho. E de modo ainda mais claro e evidente fala Davi a respeito do Pai e do Filho, assim: “O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre; amaste a justiça e odiaste a injustiça;31 por isso Deus te ungiu com o óleo de alegria acima dos teus companheiros” (Sl 45.6-7; Hb 1.8-9). Pois o Filho, sendo Deus, recebe do Pai, isto é, de Deus,32 o trono do reino eterno e o óleo da unção acima dos seus companheiros. O óleo da unção é o Espírito,33 com o qual ele foi ungido; e os seus companheiros são os profetas, os justos, os apóstolos e todos os que recebem a comunhão do seu reino, isto é, os seus discípulos.
48. E de novo diz Davi: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés. O cetro do teu poder o Senhor enviará de Sião; e domina no meio dos teus inimigos. Contigo no princípio,34 no dia do teu poder, no esplendor dos santos: do ventre, antes da estrela da manhã, eu te gerei. O Senhor jurou e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque. E o Senhor, à tua direita, despedaçou reis no dia da ira; julgará entre os gentios, encherá as ruínas e despedaçará as cabeças de muitos sobre a terra.35 Beberá da torrente no caminho; por isso levantará a cabeça” (Sl 110.1-7). Ora, com isso ele proclamou que ele veio a existir antes de todas as coisas, e que governa os gentios e julga toda a humanidade e os reis que agora o odeiam e perseguem o seu nome, pois estes são os seus inimigos; e, chamando-o sacerdote de Deus para sempre, declarou a sua imortalidade. E por isso disse: “Beberá da torrente no caminho; por isso levantará a cabeça”, proclamando a exaltação com glória que se seguiu à sua humanidade, à sua humilhação e à sua falta de glória.36
49. E de novo diz o profeta Isaías: “Assim diz o Senhor Deus ao meu Ungido, o Senhor,37 cuja mão direita tomei, para que os gentios o ouçam” (Is 45.1). E como o Cristo é chamado Filho de Deus e Rei dos gentios, isto é, de toda a humanidade, e que ele não somente é chamado, mas é Filho de Deus e Rei de todos, Davi o declara assim: “O Senhor me disse: Tu és meu Filho, hoje eu te gerei. Pede-me, e eu te darei as nações por herança e as extremidades da terra por tua possessão” (Sl 2.7-8). Essas coisas não foram ditas a respeito de Davi, pois ele não reinou nem sobre os gentios nem sobre as extremidades da terra, mas somente sobre os judeus. Assim, é claro que a promessa feita ao Ungido de reinar sobre as extremidades da terra se refere ao Filho de Deus, a quem o próprio Davi reconhece como seu Senhor, dizendo assim: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha direita” (Sl 110.1), e assim por diante, como dissemos acima. Pois ele quer dizer que o Pai fala com o Filho, como mostramos pouco antes a respeito de Isaías, que disse assim: “Deus diz ao meu Ungido, o Senhor, que os gentios o ouçam” (Is 45.1). Pois a promessa é a mesma nos dois profetas, que ele seria Rei; de modo que a palavra de Deus é dirigida a um só e mesmo, isto é, a Cristo, o Filho de Deus. Visto que Davi diz: “O Senhor me disse” (Sl 2.7), é necessário dizer que não é Davi quem fala, nem algum dos profetas, em seu próprio nome; pois não é um homem quem pronuncia as profecias, mas o Espírito de Deus, assimilando-se e assemelhando-se às pessoas representadas, fala nos profetas e pronuncia as palavras, às vezes da parte de Cristo e às vezes da parte do Pai.38
50. Assim, pois, com toda a propriedade, Cristo diz por meio de Davi que conversa com o Pai; e com toda a dignidade diz as outras coisas a respeito de si mesmo por meio dos profetas; como em outros casos, assim também, desta maneira, por Isaías: “E agora assim diz o Senhor, que me formou desde o ventre como seu servo, para reunir Jacó e reunir Israel a ele: e serei glorificado diante do Senhor, e o meu Deus será a minha força. E ele disse: Grande coisa será para ti seres chamado meu servo, para estabelecer e firmar a tribo de Jacó e fazer voltar a dispersão de Israel; e eu te pus como luz dos gentios,39 para que sejas salvação até os confins da terra” (Is 49.5-6).
51. Aqui se vê, antes de tudo, que o Filho de Deus preexistia, pelo fato de que o Pai falava com ele40 e, antes de ele nascer, o revelou aos homens; e, em seguida, que ele precisava nascer homem entre os homens; e que o mesmo Deus o forma desde o ventre, isto é, que ele nasceria do Espírito de Deus; e que ele é Senhor de todos os homens e Salvador dos que creem nele, tanto judeus como outros. Pois o povo dos judeus é chamado Israel na língua hebraica, por causa de Jacó, seu pai, que foi o primeiro a ser chamado Israel; e “gentios” ele chama a humanidade inteira. E que o Filho do Pai chame a si mesmo de servo, (isso é) por causa da sua sujeição ao Pai; pois também entre os homens todo filho é servo do seu pai.
52. Que Cristo, pois, sendo Filho de Deus antes de todo o mundo, está com o Pai; e que, estando com o Pai,41 está também perto, junto e unido à humanidade; e que é Rei de todos, porque o Pai lhe sujeitou todas as coisas; e Salvador dos que creem nele: tais coisas as Escrituras declaram. Pois não é viável nem possível enumerar em ordem cada passagem da Escritura; e, a partir destas, você pode entender também as outras que foram ditas de modo semelhante, crendo em Cristo e buscando de Deus entendimento e compreensão, para entender o que foi dito pelos profetas.
53. E que este Cristo, que estava com o Pai, sendo o Verbo do Pai, haveria depois de se fazer carne e tornar-se homem, passar pelo processo do nascimento, nascer de uma virgem e habitar entre os homens, realizando o Pai de todas as coisas a sua encarnação,42 Isaías o diz assim: “Portanto, o Senhor mesmo lhes dará um sinal: eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e vocês o chamarão Emanuel; manteiga e mel comerá; antes que conheça ou escolha o mal, ele escolhe o bem; pois, antes que o menino conheça o bem ou o mal, ele rejeita a maldade para escolher o bem” (Is 7.14-16). Assim ele proclamou o seu nascimento de uma virgem; e que ele era verdadeiramente homem, declarou-o de antemão pelo fato de comer; e também porque o chamou de menino; e ainda por lhe dar um nome, pois este é também o costume para quem nasce. E o seu nome é duplo: na língua hebraica, Messias Jesus, e na nossa, Cristo Salvador. E os dois nomes são nomes de obras efetivamente realizadas. Pois ele foi chamado Cristo porque por meio dele o Pai ungiu e adornou todas as coisas; e porque, na sua vinda como homem, foi ungido com o Espírito de Deus e seu Pai. Como também por Isaías ele diz de si mesmo: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas-novas aos pobres” (Is 61.1). E (foi chamado) Salvador por isto: porque se tornou causa de salvação para os que naquele tempo foram livrados por ele de todas as doenças e da morte,43 e, para os que depois creram nele, autor da salvação no futuro e para sempre.
54. Por essa razão, pois, ele é Salvador. Ora, Emanuel, traduzido, é “Convosco Deus”;44 ou, como um clamor de anseio45 proferido pelo profeta, algo como: “Conosco estará Deus”; segundo o qual é a explicação e a manifestação das boas-novas anunciadas. Pois “eis”, diz ele, “que a virgem conceberá e dará à luz um filho” (Is 7.14); e ele, sendo Deus, haveria de estar conosco. E, como que inteiramente maravilhado46 diante dessas coisas, proclama, a respeito desses acontecimentos futuros, que “conosco estará Deus”. E ainda de novo, a respeito do seu nascimento, o mesmo profeta diz em outro lugar: “Antes que a que estava em trabalho de parto desse à luz, e antes que lhe viessem as dores do parto, ela escapou e deu à luz um menino” (Is 66.7). Assim ele mostrou que o seu nascimento da virgem foi imprevisto e inesperado.47 E de novo o mesmo profeta diz: “Um filho nos nasceu, e um menino se nos deu;48 e o seu nome se chama Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte” (Is 9.6).49
55. Ele o chama Maravilhoso Conselheiro, isto é, do Pai; com isso se declara que o Pai realiza todas as coisas juntamente com ele, como se lê no primeiro livro de Moisés, que se intitula Gênesis: “E Deus disse: Façamos o ser humano à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1.26). Pois se vê nesse lugar o Pai falando ao Filho,50 o Maravilhoso Conselheiro do Pai. Além disso, ele é também o nosso Conselheiro, que dá conselho; não forçando, como Deus,51 ainda que seja Deus Forte, (como) ele diz; mas aconselhando-nos a abandonar a ignorância e adquirir o conhecimento, a afastar-nos do erro e chegar à verdade, a despojar-nos da corrupção e receber a incorruptibilidade.
56. E de novo diz Isaías: “E desejarão ter sido queimados no fogo; porque um menino nos nasceu, e um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros, e o seu nome se chama Anjo do grande conselho. Pois trarei paz sobre os príncipes, e de novo paz e saúde a ele. Grande é o seu domínio, e da sua paz não há limite, sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, para fazê-lo prosperar e completá-lo, para socorrê-lo e sustentá-lo,52 em justiça e juízo, desde agora e para sempre” (Is 9.5-7). Pois com isso o Filho de Deus é proclamado tanto como alguém que nasce quanto como Rei eterno.53 Mas “desejarão ter sido queimados no fogo” (é dito) dos que não creem nele e que lhe fizeram tudo o que fizeram; pois dirão no juízo: “Quanto melhor teria sido sermos queimados no fogo antes de nascer o Filho de Deus do que, depois de ele nascer, não termos crido nele!” Porque, para os que morreram antes do aparecimento de Cristo, há esperança de que, no juízo dos ressuscitados,54 obtenham a salvação, a saber, os que temeram a Deus, morreram na justiça e tiveram em si o Espírito de Deus, como os patriarcas, os profetas e os justos. Mas para os que, depois do aparecimento de Cristo, não creram nele, há uma vingança sem perdão no juízo. Ora, nisto, “o governo está sobre os seus ombros”, declara-se em figura a cruz, na qual ele foi pregado pelas costas.55 Pois aquilo que foi e é um opróbrio para ele, e por causa dele para nós,56 a saber, a cruz, isso mesmo, diz ele, é o seu governo, por ser sinal do seu reino. E “Anjo do grande conselho”, diz ele, isto é, do Pai,57 a quem ele nos revelou.
57. Que o Filho de Deus haveria de nascer, e de que modo haveria de nascer, e que seria mostrado como o Cristo, pelo que foi dito fica claro como isso foi dado a conhecer de antemão pelos profetas. E, além disso, em que terra e entre que povo da humanidade ele haveria de nascer58 e aparecer, também isso foi anunciado de antemão com palavras como estas. Moisés, no Gênesis, diz assim: “Não faltará príncipe de Judá, nem chefe dos seus lombos, até que venha aquele para quem está reservado;59 e ele será a expectativa dos gentios; lavará a sua veste no vinho e a sua roupa no sangue da uva” (Gn 49.10-11). Ora, Judá, filho de Jacó, foi o antepassado dos judeus; dele também receberam o nome.60 E não lhes faltou príncipe nem chefe até a vinda de Cristo. Mas, desde o tempo da sua vinda, a força da aljava foi capturada,61 a terra dos judeus foi entregue em sujeição aos romanos, e eles já não tiveram príncipe nem rei próprio. Pois ele havia chegado, aquele para quem está reservado no céu o reino;62 que também lavou a sua veste no vinho e a sua roupa no sangue da uva. A sua veste, como também a sua roupa, são os que creem nele,63 aos quais ele também purificou, redimindo-nos pelo seu sangue. E o seu sangue é chamado sangue da uva; pois, assim como o sangue da uva nenhum homem o faz, mas Deus o produz, e ele alegra os que o bebem (Sl 104.15), assim também a sua carne e o seu sangue nenhum homem os fez, mas Deus os fez. O próprio Senhor deu o sinal da virgem (Is 7.14), isto é, aquele Emanuel que nasceu da virgem; que também alegra os que bebem dele, isto é, os que recebem o seu Espírito, (a saber,) uma alegria eterna (Is 35.10). Por isso também ele é a expectativa dos gentios, dos que esperam nele (Is 11.10); porque esperamos dele que restabeleça o reino.
58. E de novo diz Moisés: “Uma estrela surgirá de Jacó, e um chefe64 se levantará de Israel” (Nm 24.17); mostrando ainda mais claramente que a dispensação da sua vinda na carne se daria entre os judeus. E aquele que nasceu de Jacó e da tribo de Judá, descendo do céu, assumiu essa economia da dispensação; pois a estrela apareceu no céu. E por “chefe” ele quer dizer rei, porque ele é o Rei de todos os redimidos. E, no seu nascimento, a estrela apareceu aos magos que habitavam no Oriente; e por ela souberam que o Cristo havia nascido; e vieram à Judeia, guiados pela estrela, até que a estrela chegou a Belém, onde o Cristo nasceu, e entrou na casa em que estava deitado o menino, envolto em panos; e parou sobre a sua cabeça,65 mostrando aos magos o Filho de Deus, o Cristo.
59. Além disso, o próprio Isaías diz ainda: “E sairá uma vara das raízes de Jessé, e uma flor brotará da sua raiz. E o Espírito de Deus repousará sobre ele: o Espírito de sabedoria e de entendimento, o Espírito de conselho e de fortaleza, o Espírito de conhecimento e de piedade; o Espírito do temor de Deus o encherá.66 Não julgará segundo a opinião, nem repreenderá segundo o que se fala; mas fará justiça aos humildes e terá misericórdia67 dos humildes da terra. E ferirá a terra com a palavra da sua boca, e com o sopro dos seus lábios68 matará o ímpio. E terá os lombos cingidos de justiça, e os rins envoltos de verdade. E o lobo pastará com o cordeiro, e o leopardo69 com o cabrito, e o bezerro e o leão pastarão juntos. E a criança de peito porá a mão na toca das áspides e no covil da cria das áspides, e elas não lhe farão mal. E naquele dia haverá uma raiz de Jessé, aquele que se levanta para governar os gentios; nele os gentios esperarão; e o seu levantar-se70 será honra” (Is 11.1-10). Com essas palavras ele afirma que ele nasceu daquela que era da linhagem de Davi e de Abraão. Pois Jessé era descendente de Abraão e pai de Davi; (e) descendente (de Davi) era a virgem que concebeu Cristo. Ora, (quanto) à vara: por esse motivo também Moisés, com71 uma vara, mostrou os grandes prodígios ao faraó; e também entre outros homens a vara é sinal de governo. E por “flor” ele quer dizer a sua carne;72 pois ela brotou do Espírito, como dissemos antes.
60. Ora, “não julgará segundo a opinião, nem repreenderá segundo o que se fala; mas fará justiça aos humildes e terá misericórdia dos humildes da terra”: (com isso) ele estabelece e declara ainda mais a sua divindade.73 Pois julgar sem acepção de pessoas e sem parcialidade, não favorecendo os ilustres, mas concedendo aos humildes um tratamento digno, semelhante e igual, condiz com a altura e o cume da justiça de Deus; pois Deus não é influenciado nem movido por ninguém, a não ser somente pelo justo. E ter misericórdia é atributo próprio de Deus, que pela misericórdia é capaz de salvar. E “ferirá a terra com a palavra” e matará o ímpio só com a palavra: isso pertence a Deus, que faz todas as coisas pela palavra. E, ao dizer: “Terá os lombos cingidos de justiça, e os rins envoltos de verdade”, declara a sua forma e aspecto humanos e a sua própria justiça, que a tudo supera.
61. Ora, quanto à união, à concórdia e à paz dos animais de espécies diferentes,74 que por natureza são opostos e hostis entre si, os anciãos dizem que assim será de fato na vinda de Cristo, quando ele houver de reinar sobre todas as coisas. Pois já em símbolo ele anuncia o ajuntamento em paz e concórdia, por meio do nome de Cristo, de homens de raças diferentes e (no entanto) de disposições semelhantes. Pois, uma vez assim unidos, aos justos, que são comparados a bezerros, cordeiros, cabritos e crianças de peito, não fazem mal algum aqueles que no tempo anterior eram, por sua rapacidade, como feras nos costumes e na disposição, tanto homens como mulheres; a tal ponto que alguns deles eram como lobos e leões, devastando os mais fracos e guerreando contra os seus iguais; enquanto as mulheres (eram como) leopardos ou áspides, que matavam, por vezes, até os seus entes queridos com venenos mortais, ou por causa de desejo lascivo. (Mas agora,) reunindo-se num só nome,75 adquiriram hábitos justos pela graça de Deus, transformando a sua natureza feroz e indomada. E isso já aconteceu. Pois os que antes eram extremamente perversos, a ponto de não deixarem por fazer nenhuma obra de impiedade, aprendendo de Cristo e crendo nele, imediatamente creram e foram transformados, a ponto de não deixarem por fazer nenhuma excelência de justiça; tão grande é a transformação que a fé em Cristo, o Filho de Deus, opera nos que creem nele. E ele diz: “aquele que se levanta para governar os gentios”, porque ele haveria de morrer e ressuscitar, e ser confessado e crido como Filho de Deus (e) Rei. Por isso ele diz: “E o seu levantar-se será honra”, isto é, glória; pois foi então que ele foi glorificado como Deus, quando ressuscitou.
62. Por isso de novo diz o profeta:76 “Naquele dia, levantarei o tabernáculo caído de Davi” (Am 9.11): aquele corpo77 de Cristo que, como dissemos antes, nasceu de Davi, ele declara claramente que, depois da morte, ressuscitaria dos mortos. Pois o corpo é chamado tabernáculo.78 Pois com essas palavras ele diz que aquele que, segundo a carne, é da linhagem de Davi será o Cristo, o Filho de Deus; e que morrerá e ressuscitará; e que é homem no aspecto, mas Deus no poder; e que ele mesmo será o juiz de todo o mundo e o único que opera a justiça e redime: tudo isso a Escritura declarou.
63. E de novo o profeta Miqueias fala do lugar onde o Cristo haveria de nascer, que seria em Belém da Judeia, dizendo assim: “E você, Belém da Judeia, porventura é a menor entre os príncipes de Judá? Porque de você sairá um príncipe que apascentará o meu povo, Israel” (Mq 5.2; Mt 2.6).79 Ora, Belém é a terra natal80 de Davi; de modo que não somente quanto à Virgem que o deu à luz ele é da linhagem de Davi, mas também quanto ao seu nascimento em Belém, a terra natal de Davi.
64. E de novo Davi diz que da sua linhagem haveria de nascer o Cristo, (falando) desta maneira: “Por amor de Davi, meu81 servo, não desvies o rosto do teu Cristo. O Senhor jurou a Davi em verdade, e não o decepcionará: Do fruto do teu ventre porei sobre o teu trono. Se os teus filhos guardarem a minha aliança e os meus testemunhos, que eu estabeleci com eles, os filhos deles para sempre (se assentarão sobre o teu trono)” (Sl 132.10-12).82 Mas nenhum dos filhos de Davi reinou para sempre, nem o seu reino durou para sempre, pois foi aniquilado. Mas o rei que nasceu de Davi, esse é o Cristo. Todos esses testemunhos declaram em termos claros a sua descendência segundo a carne, e a linhagem e o lugar onde ele haveria de nascer; de modo que ninguém procure entre os gentios ou em outro lugar o nascimento do Filho de Deus, mas em Belém da Judeia, de Abraão e da linhagem de Davi.
65. E o modo da sua entrada em Jerusalém, que era a capital da Judeia, onde estava também a sua sede real e o templo de Deus, o profeta Isaías o declara: “Digam à filha de Sião: Eis que o rei vem até você, manso e montado num jumento, num jumentinho, cria de jumenta” (Is 62.11; Zc 9.9; Mt 21.5).83 Pois, montado num jumentinho, assim ele entrou em Jerusalém, enquanto as multidões estendiam e lançavam diante dele as suas vestes. E por “filha de Sião” ele quer dizer Jerusalém.
66. Assim, pois, que o Filho de Deus haveria de nascer, e de que modo nasceria, e onde haveria de nascer, e que o Cristo é o único Rei eterno,84 os profetas assim o declararam. E de novo predisseram a respeito dele como, nascido da humanidade, curaria aqueles que ele curou, ressuscitaria os mortos que ele ressuscitou, seria odiado e desprezado, sofreria, seria morto e crucificado, assim como foi odiado, desprezado e morto.
67. Neste ponto falemos das suas curas. Isaías diz assim: “Ele mesmo tomou as nossas enfermidades e carregou as nossas doenças” (Mt 8.17; Is 53.4); isto é, ele tomará e carregará. Pois há passagens em que o Espírito de Deus, por meio dos profetas, narra as coisas que hão de acontecer como se já tivessem acontecido.85 Pois aquilo que, junto de Deus, é intentado e concebido como determinado a acontecer é considerado como já acontecido; e o Espírito, contemplando e vendo o tempo em que se cumprem os desfechos da profecia, pronuncia as palavras (de acordo com isso). E, a respeito do tipo de cura, assim ele fará menção, dizendo: “Naquele dia, os surdos ouvirão as palavras do livro, e nas trevas e na névoa os olhos dos cegos verão” (Is 29.18). E o mesmo diz de novo: “Fortalecei-vos, mãos fracas e joelhos débeis e trêmulos; consolai-vos, vós que sois de ânimo medroso. Sede fortes, não temais. Eis que o nosso Deus retribuirá com juízo; ele virá e nos salvará. Então se abrirão os olhos dos cegos, e os ouvidos dos surdos ouvirão; então o coxo saltará como um cervo, e a língua dos gagos falará claramente” (Is 35.3-6). E, a respeito dos mortos, que serão ressuscitados, ele diz assim: “Os mortos serão ressuscitados, e os que estão nos sepulcros serão ressuscitados” (Is 26.19). E, ao realizar essas coisas, ele será crido como o Filho de Deus.
68. E que ele seria desprezado e atormentado e, por fim, morto, Isaías o diz assim: “Eis que o meu filho entenderá,86 e será exaltado e grandemente glorificado. Assim como muitos se espantarão de ti, assim sem glória será a tua forma diante dos homens. E muitas raças se espantarão, e os reis fecharão a boca; pois aqueles a quem nada foi anunciado a respeito dele verão, e os que não ouviram considerarão. Senhor, quem creu na nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor? Anunciamos diante dele como uma criança, como uma raiz em terra seca; e não há nele forma nem glória; e nós o vimos, e não tinha forma nem beleza; e a sua forma era sem honra, inferior à dos outros homens; homem em castigo e familiarizado com o suportar a dor; pois o seu rosto estava desviado, foi desonrado e tido por nada. Ele leva os nossos pecados e por nossa causa suporta a dor; e nós o considerávamos em dor, em castigo e em aflição. Mas ele foi ferido por causa das nossas iniquidades e atormentado por causa dos nossos pecados. A disciplina da nossa paz (estava) sobre ele; pelas suas feridas fomos sarados” (Is 52.13-53.5). Com essas palavras se declara que ele foi atormentado; como também Davi diz: “E eu fui atormentado”.87 Ora, Davi nunca foi atormentado, mas Cristo (o foi), quando se deu a ordem de que fosse crucificado. E de novo, por Isaías, o seu Verbo diz: “Dei as minhas costas aos açoites e as minhas faces às bofetadas; e não desviei o rosto da vergonha das cusparadas” (Is 50.6).88 E o profeta Jeremias diz o mesmo, assim: “Dará a face a quem o fere; será saciado de afrontas” (Lm 3.30). Todas essas coisas Cristo sofreu.
69. Ora, o que se segue em Isaías é isto: “Pelas suas feridas fomos sarados. Todos nós, como ovelhas, nos desgarramos; cada homem se desgarrou pelo seu caminho; e o Senhor o entregou pelos nossos pecados” (Is 53.5-6). É manifesto, portanto, que foi pela vontade do Pai que essas coisas lhe aconteceram, por causa da nossa salvação. Depois diz: “E ele, por causa do seu sofrimento, não abriu (a) boca; como ovelha foi levado ao matadouro, como cordeiro89 mudo diante do tosquiador” (Is 53.7). Veja como ele declara a sua ida voluntária à morte. E, quando o profeta diz: “Na humilhação o seu juízo foi tirado” (Is 53.8), ele indica a aparência da sua humilhação: segundo a forma do rebaixamento foi a remoção do juízo. E a remoção do juízo é, para alguns, para salvação, e, para outros, para os tormentos da perdição. Pois há um tirar para alguém e também um tirar de alguém. Assim também com o juízo: aqueles para quem ele é tirado o têm para os tormentos da sua perdição; mas aqueles de quem ele é tirado são salvos por isso. Ora, tomaram para si o juízo os que o crucificaram e, tendo-lhe feito isso, não creram nele; pois por aquele juízo que tomaram para si serão destruídos com tormentos. E dos que creem nele o juízo é tirado, e eles já não estão debaixo dele. E o juízo é aquele que, pelo fogo, será a destruição dos incrédulos no fim do mundo.
1. Contra as Heresias IV.10.1: hoti poiesei to sperma hos ta astra tou ouranou. toutesti to hupo Paulou eiremenon; Hos phosteres en kosmo. Cf. IV.13.1.
2. Contra as Heresias III.26.1: ek karpou tes koilias autou aionion anastesein basilea; III.11.4, III.17.1, III.29.1. Em todos esses lugares a expressão “Rei eterno” é usada em ligação com esta promessa em particular. A expressão também ocorre em III.20.2, e abaixo, nos caps. 56, 66 e 95. Justino a usa várias vezes (Diálogo 34, 36, 118, 135), mas não nessa ligação.
3. Aqui e acima usei “body” (corpo), como a versão autorizada inglesa, para koilia; mas assim o argumento, um tanto estranho, fica de certo modo obscurecido. As palavras que se seguem imediatamente no texto armênio podem ser vertidas mais facilmente em latim: “de fructu ventris tui, quod est proprium feminæ prægnantis: non de fructu lumborum, nec de fructu renum, quod est proprium viri generantis: ut declararet”, etc. [isto é: “do fruto do teu ventre, o que é próprio da mulher grávida; não do fruto dos lombos, nem do fruto dos rins, o que é próprio do varão que gera; para declarar”]. Quase as mesmas palavras se encontram em Contra as Heresias III.26.1; cf. também III.9.2: “ex fructu ventris David, id est, ex David virgine” [“do fruto do ventre de Davi, isto é, da virgem descendente de Davi”]. O argumento é usado por Tertuliano, Contra Marcião, III, 20.
4. A mesma palavra corresponde a “artifex” (artífice) na versão armênia de Contra as Heresias V.15.2 e V.24.4; cf. III.11.11: ho ton hapanton technites Logos (“o Verbo, artífice de todas as coisas”).
5. Cf. cap. 39; Barnabé V. 6: hina katargese ton thanaton kai ten ek nekron anastasin deixe (“para abolir a morte e mostrar a ressurreição dentre os mortos”); e Hipólito, Tradição Apostólica, na oração eucarística: “ut resurrectionem manifestet” (“para manifestar a ressurreição”); e Philosophumena x. 33 (Connolly, Texts and Studies, VIII, 4. 166).
6. Ou “corpo”; cf. cap. 62.
7. Contra as Heresias V.19.2: “Alii autem manifestum adventum Domini contemnunt, incarnationem ejus non recipientes” (“Outros, porém, desprezam a vinda manifesta do Senhor, não aceitando a sua encarnação”).
8. Contra as Heresias IV.34.2: “homo justus” (“homem justo”); todo o contexto é paralelo à nossa passagem; cf. também III.17.6.
9. Contra as Heresias IV.34.2, IV.63.2.
10. Cf. caps. 54 s.
11. O armênio parece ser uma tradução de ek theou spareis dia pneumatos hagiou (“semeado por Deus mediante o Espírito Santo”). Cf. Contra as Heresias III.17.6: “unitus et consparsus suo plasmati secundum placitum Patris, et caro factus” (“unido e misturado à sua criatura, segundo o beneplácito do Pai, e feito carne”).
12. Cf. cap. 97 (onde, porém, se trata da encarnação) e as referências ali indicadas.
13. Ou “carnal”; cf. Contra as Heresias I.2.1: kai ten egersin ek nekron kai ten ensarkon eis tous ouranous analepsin (“e a ressurreição dentre os mortos e a assunção na carne aos céus”).
14. O armênio é uma tradução literal de houtos echein (“estar assim”), como na versão armênia de Contra as Heresias IV.11.2 (“sic se habere”).
15. Cf. cap. 21. O armênio é obscuro, talvez corrompido.
16. Cf. Justino Mártir, Apologia I. 32: Mouses . . . protos ton propheton genomenos (“Moisés, que foi o primeiro dos profetas”).
17. Literalmente, “a língua armênia”.
18. O texto hebraico se corrompeu na transmissão, mas é claro que Irineu interpretou as duas primeiras palavras (“No princípio criou”) como “No princípio o Filho”. Santo Hilário, comentando o Sl 2, § 2, diz que bresith tem três sentidos, “in principio, in capite, in filio” (“no princípio, na cabeça, no filho”), mas prefere o primeiro, por ser a interpretação dada pela Septuaginta. Veja a nota do erudito Dom Coustant, editor beneditino de Santo Hilário. Veja também as notas do Dr. Harnack em Texte und Untersuchungen, I, 1. 117 ss. e xxxi, 1. 60. Em Clemente de Alexandria, Eclogae Propheticae 4, encontramos, como comentário a Gn 1.1, hoti arche ho huios (“que o princípio é o Filho”).
19. Citação composta dos Salmos (Sl 110.3 e 72.17, na Septuaginta), aqui atribuída a Jeremias.
20. Provavelmente é uma referência a Pv 8.22: ho kurios ektise me archen ton hodon autou (“o Senhor me criou como princípio dos seus caminhos”).
21. Justino (Diálogo 88) cita a voz no batismo na forma “Tu és meu Filho, hoje eu te gerei” (Sl 2.7, e Lc 3.22 no Códice de Beza, etc.). Depois diz: tote genesin autou legon ginesthai tois anthropois, ex hotou he gnosis autou emelle ginesthai (“dizendo que o seu nascimento se dava então para os homens, a partir do momento em que o conhecimento dele haveria de surgir”).
22. Contra as Heresias III.6.1: “Filium enim hic significat, qui et Abrahæ collocutus sit, a Patre accepisse potestatem judicandi Sodomitas propter iniquitatem eorum” (“Pois aqui significa que o Filho, que também falou com Abraão, recebeu do Pai o poder de julgar os sodomitas por causa da iniquidade deles”). Neste capítulo e no seguinte, Irineu é devedor de Justino.
23. O texto armênio traz, por descuido, “do céu ao céu”. Que a escada de Jacó significava a cruz foi dito por Justino (Diálogo 86).
24. Contra as Heresias IV.33.1: “Audistis mensos esse cælos in palma . . . qui comprehendit terram pugillo” (“Ouvistes que os céus foram medidos com o palmo […] aquele que contém a terra no punho”).
25. Contra as Heresias IV.44.3: “Malitia parvuli” (“pequeninos na malícia”); cf. cap. 95.
26. Contra as Heresias IV.47.1: “ecclesiæ . . . quam non Moyses quidem famulus Dei, sed Jesus filius Dei in hæreditatem dabit” (“a Igreja […] que não Moisés, servo de Deus, mas Jesus, Filho de Deus, dará em herança”). [N. do T.: em grego, “Jesus” é também o nome de Josué.]
27. Contra as Heresias V.17.4: dia tes ektaseos ton cheiron (“pela extensão das mãos”; ali nem o latim nem o armênio apoiam o acréscimo de theias, “divinas”); cf. cap. 79. Sobre essa ektasis, cf. Barnabé XII. 2; Justino Mártir, Diálogo 91, 112, 131.
28. Contra as Heresias III.6.1: “Vere igitur cum Pater sit Dominus et Filius vere sit Dominus, merito Spiritus Sanctus Domini appellatione signavit eos” (“Verdadeiramente, pois, sendo o Pai Senhor e o Filho verdadeiramente Senhor, com razão o Espírito Santo os designou com o nome de Senhor”).
29. Contra as Heresias I.1.18: to gar ek theou gennethen theos estin (“pois o que é gerado de Deus é Deus”).
30. Cf. Atanásio, Orationes i. 64: kai estin ho theos aoratos kai aprositos tois gennetois (“e Deus é invisível e inacessível aos seres gerados”).
31. Aparentemente lendo adikian (“injustiça”). A omissão de “o teu Deus” depois de “Deus” talvez seja um descuido.
32. Contra as Heresias III.6.1: “Utrosque enim Dei appellatione signavit Spiritus: et eum qui ungitur Filium, et eum qui ungit, id est, Patrem” (“Pois o Espírito designou a ambos com o nome de Deus: tanto o que é ungido, o Filho, quanto o que unge, isto é, o Pai”).
33. Contra as Heresias III.19.3: “Et unxit quidem Pater, unctus est vero Filius, in Spiritu qui est unctio” (“E o Pai ungiu, e o Filho foi ungido, no Espírito, que é a unção”), etc.
34. Como se lesse en arche em vez de arche.
35. Como se lesse plerosei ptomata e epi ges pollon, com alguns manuscritos da Septuaginta.
36. Esta é a interpretação de Justino para essas palavras; veja Diálogo 33: kai hoti tapeinos estai proton anthropos, eita hupsothesetai (“e que primeiro seria homem humilde, e depois seria exaltado”).
37. Lendo kurio (“ao Senhor”) em vez de Kuro (“a Ciro”); cf. Barnabé XII. 11; assim também muitos escritores posteriores.
38. O assunto é tratado amplamente por Justino (Apologia I, 36 ss.); cf. especialmente: pote de hos apo prosopou tou despotou panton kai patros theou phthengetai, pote de hos apo prosopou tou christou (“às vezes fala como da parte do Senhor de todas as coisas e Pai, Deus; às vezes como da parte do Cristo”).
39. Aqui a citação corresponde a At 13.47, como em Justino Mártir, Diálogo 121.
40. Cf. cap. 30. Justino diz (Diálogo 62): Alla touto to to onti apo tou patros problethen gennema pro panton ton poiematon sunen to patri, kai touto ho pater prosomilei (“Mas este rebento, realmente emitido pelo Pai, estava com o Pai antes de todas as criaturas, e com ele o Pai conversa”).
41. A construção do armênio é incerta, mas o sentido geral é claro. A preposição “com” parece representar, no primeiro caso, sun, e no segundo, pros.
42. Contra as Heresias V.1.3: “Patris omnium, qui operatus est incarnationem ejus” (“do Pai de todas as coisas, que operou a sua encarnação”).
43. Depois da palavra “morte”, o armênio traz de novo “naquele tempo”.
44. O tradutor leu meth’ humon (“convosco”) em vez de meth’ hemon (“conosco”); não há distinção de som na pronúncia grega tardia.
45. Ou talvez “um clamor de augúrio”.
46. Cf. cap. 71; e Justino Mártir, Apologia I, 47: thaumazonton ta gegenemena (“maravilhando-se com o que acontecera”); Diálogo 118: touto thaumazon Esaias ephe (“maravilhando-se disso, Isaías disse”).
47. Contra as Heresias III.26.2: “In eo autem quod dixerit: Ipse Dominus dabit signum, id quod erat inopinatum generationis ejus significavit. . . . Sed quoniam inopinata salus hominibus inciperet fieri, Deo adjuvante, inopinatus et partus virginis fiebat” (“Ao dizer: O próprio Senhor dará um sinal, indicou o que havia de inesperado no seu nascimento […] Mas, visto que uma salvação inesperada começava a realizar-se para os homens, com o auxílio de Deus, inesperado também era o parto da virgem”), etc.
48. A inversão de “filho” e “menino” parece ser um descuido; veja, porém, Justino Mártir, Apologia I, 35 (paidion . . . neaniskos, “criança […] jovem”); e note-se que a passagem inteira é citada de modo diferente no cap. 56, abaixo.
49. Assim em Contra as Heresias IV.55.2; cf. III.20.2. Assim também acima, cap. 40. Mas no cap. 56 temos “Anjo do grande conselho”, como em III.17.3; cf. Justino Mártir, Diálogo 76.
50. Contra as Heresias V.15.4: “Cum quo et loquebatur Pater: Faciamus” (“Com quem também o Pai falava: Façamos”), etc.; cf. IV.34.1. Cf. Barnabé V, 5.
51. Contra as Heresias V.1.1: “non cum vi . . . sed secundum suadelam . . . suadentem, non vim inferentem” (“não com violência […] mas por persuasão […] persuadindo, não fazendo violência”); cf. IV.59.1: Bia theo ou prosestin; agathe de gnome pantote sumparestin auto (“A violência não está em Deus; mas a boa vontade está sempre com ele”); IV.60.1: alla me biazomenou (“mas sem forçar”). Compare-se a Epístola a Diogneto 7: hos peithon, ou biazomenos; bia gar ou prosesti to theo (“como quem persuade, não como quem força; pois a violência não está em Deus”).
52. O armênio oferece duas traduções tanto de katorthosai (“fazer prosperar”) quanto de antilabesthai (“socorrer”).
53. Cf. caps. 36, 66, 95.
54. O armênio parece significar “do Ressuscitado”; mas o texto talvez esteja corrompido.
55. Esta é a interpretação de Justino em Apologia I, 35: hou he arche epi ton omon; menutikon tes dunameos tou staurou, ho prosetheke tous omous staurotheis (“cujo governo está sobre os ombros: indicação do poder da cruz, à qual ele aplicou os ombros ao ser crucificado”).
56. Cf. Justino Mártir, Diálogo 101: Oneidos men gar hemin tois eis auton pisteuousin anthropois pantachou estin (“Pois somos opróbrio em toda parte, nós, os que cremos nele”). Justino está interpretando oneidos anthropon (“opróbrio dos homens”, Sl 22.6).
57. Contra as Heresias III.17.3: “magni consilii patris nuntius” (“mensageiro do grande conselho do Pai”); veja a nota ao cap. 54.
58. Cf. Justino Mártir, Apologia I, 34: Hopou de kai tes ges gennasthai emellen (“E em que lugar da terra haveria de nascer”), etc., citando Mq 5.2, que Irineu cita abaixo, no cap. 63.
59. Assim em Contra as Heresias IV.20.2: “cui repositum est” (“para quem está reservado”), correspondendo a ho apokeitai, a leitura que Justino defende no Diálogo 120.
60. Cf. Justino Mártir, Apologia I, 32: Ioudas gar propator Ioudaion, aph’ hou kai to Ioudaioi kaleisthai eschekasi (“Pois Judá é o antepassado dos judeus, e dele receberam também o nome de judeus”).
61. A tradução é incerta. Cf. Justino, ibidem: meth’ hon euthus dorialotos humin he ge Ioudaion paredothe (“depois do qual a terra dos judeus vos foi logo entregue como presa de guerra”).
62. Cf. Justino, ibidem: ho apokeitai to basileion (“para quem está reservado o reino”).
63. Cf. Justino, ibidem: he gar keklemene . . . stole hoi pisteuontes auto eisin anthropoi (“pois a chamada […] veste são os homens que creem nele”). E, para o que se segue: hon tropon gar to tes ampelou haima ouk anthropos pepoieken all’ ho theos (“pois assim como o sangue da videira não o fez o homem, mas Deus”), etc.; e a passagem semelhante no Diálogo 54.
64. Assim em Contra as Heresias III.9.2 (“dux”, “chefe”). O único outro testemunho disso parece ser Justino Mártir, Diálogo 106 (hegoumenos, “chefe”); a Septuaginta traz anthropos (“homem”).
65. Cf. Protoevangelho de Tiago (códice D): heos hou eiselthen . . . kai este epi ten kephalen tou paidiou (“até que entrou […] e parou sobre a cabeça do menino”); Opus Imperfectum in Matthaeum, p. 30: “venit et stetit super caput pueri” (“veio e parou sobre a cabeça do menino”). O Códice de Beza traz epano tou paidiou e supra puerum (“sobre o menino”), com a antiga versão latina.
66. Esta passagem foi citada no cap. 9.
67. Como se lesse eleesei (“terá misericórdia”) em vez de elenxei (“repreenderá”). Mas em Contra as Heresias III.10.1 encontramos “arguet gloriosos terrae” (“repreenderá os gloriosos da terra”). A confusão entre elenchein e eleein se encontra no texto de Jd 22.
68. Literalmente, “com espírito por meio dos lábios”, como na Septuaginta.
69. Omitindo “se deitará”; mas isso se encontra em Contra as Heresias V.33.4 (no latim e no armênio), e assim também as outras palavras que faltam no que se segue aqui.
70. Como se lesse anastasis (“levantar-se”) em vez de anapausis (“repouso”).
71. O armênio significa “com”, não “por meio de”. Cf. Justino Mártir, Diálogo 86: Mouses meta rhabdou epi ten tou laou apolutrosin epemphthe (“Moisés foi enviado com uma vara para a redenção do povo”); ali se diz que a vara da raiz de Jessé é Cristo.
72. Ou “corpo”.
73. Contra as Heresias III.10.1: “secundum autem quod Deus erat non secundum gloriam judicabat neque secundum loquelam arguebat” (“enquanto Deus, não julgava segundo a glória nem repreendia segundo a palavra”).
74. Em Contra as Heresias V.33.4 ele discute a mesma questão e, embora reconheça que algumas pessoas dão uma interpretação simbólica, inclina-se a esperar um cumprimento literal. Aqui também ele dá lugar a ambas as interpretações. A passagem de Papias ali citada, sobre a maravilhosa fecundidade do período milenar, termina com a afirmação de que os animais viverão em paz e concórdia e em sujeição ao homem. Isso explica a referência aos anciãos no nosso texto.
75. O texto armênio, tal como impresso, traz “em meu nome”; mas, por uma divisão diferente das letras, obtemos “num só nome”.
76. Cf. cap. 38.
77. Ou “carne”; e assim em toda a passagem.
78. Cf. Sabedoria 9.15 (versão inglesa revisada): “Pois um corpo corruptível pesa sobre a alma, e a morada terrena (to geodes skenos) oprime a mente cheia de cuidados”; 2Co 5.1: he epigeios hemon oikia tou skenous (“a nossa casa terrestre deste tabernáculo”); e cf. skenoma em 2Pe 1.13-14. Sobre o uso de skenos no sentido de “corpo” na literatura grega, veja Field, Notes on N.T. Translation, p. 183; e Stephanus, Thesaurus Graecae Linguae, no verbete.
79. Irineu cita a profecia na forma de Mateus, que difere muito da tradução da Septuaginta. Além disso, concorda com o Códice de Beza ao ler tes Ioudaias (“da Judeia”) em vez de ge Iouda (“terra de Judá”), e me (partícula interrogativa) em vez de oudamos (“de modo nenhum”). Justino cita as palavras duas vezes na forma de Mateus, mas com os habituais ge Iouda e oudamos (Apologia I, 34; Diálogo 78).
80. A palavra armênia traduz patris (“pátria”) em Mt 13.54, 57.
81. “Meu” em vez de “teu” (Septuaginta, sou), por descuido. Parte do texto é citada em Contra as Heresias III.9.2. Veja também acima, cap. 36.
82. O armênio traz “e o filho deles para sempre”, e nada mais.
83. A passagem é citada na forma de Mateus e atribuída a Isaías, de quem vêm as primeiras palavras. No Evangelho de São Mateus é atribuída “ao profeta”, embora alguns códices acrescentem “Zacarias”. Justino a cita de modo diferente, Apologia I, 35; Diálogo 53.
84. Cf. caps. 36, 56, 95.
85. Cf. Justino Mártir, Diálogo 114: esth’ hote gar to hagion pneuma . . . logous ephthenxato peri ton apobainein mellonton, phthengomenon autous hos tote ginomenon e kai gegenemenon (“pois às vezes o Espírito Santo […] pronunciou palavras sobre o que haveria de acontecer, pronunciando-as como se então estivessem acontecendo ou já tivessem acontecido”). É interessante ver que em Contra as Heresias IV.55.2 Irineu havia de fato dado o futuro nesta passagem: “Ipse infirmitates nostras accipiet et languores portabit” (“Ele mesmo tomará as nossas enfermidades e carregará as nossas doenças”).
86. O texto armênio dá a passiva (“será entendido”); mas sem dúvida se lia sunesei da Septuaginta; a diferença está apenas na última letra.
87. A repetição, no armênio, da palavra aqui traduzida por “atormentado” sugere que o mesmo verbo grego estaria por trás das palavras do profeta (“atormentado por causa dos nossos pecados”) e das do salmista (“E eu fui atormentado”). Mas no primeiro caso encontramos memalakistai, e esse verbo não ocorre na Septuaginta dos Salmos. Provavelmente a referência é ao Sl 38.8 (9), ekakothen, retomando en kakosei e kekakosthai de Is 53.4, 7. Quanto ao argumento, cf. Justino Mártir, Apologia I, 35: ho men Daueid . . . ouden touton epathen (“Davi […] nada disso sofreu”), etc.
88. Cf. cap. 34.
89. A palavra armênia para “cordeiro” neste lugar (amaru) parece ser um empréstimo do siríaco; veja a nota na tradução do Dr. Weber.
Tradução para o português a partir das versões inglesas de J. Armitage Robinson (The Demonstration of the Apostolic Preaching, Londres, SPCK, 1920, traduzida do armênio) e de Alexander Roberts e W. H. Rambaut (Against Heresies, Livro V, Ante-Nicene Fathers, vol. 1, Buffalo, 1885), conferidas com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são dos tradutores ingleses; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Irineu cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.