Irineu de Lião · Demonstração (conclusão)

Seções 70 a 100: a paixão, a ressurreição, a nova aliança e a regra da fé

As profecias da paixão e da ressurreição, a nova aliança, o chamado dos gentios e os três artigos do nosso selo (Pai, Filho e Espírito), contra os erros.

70. Depois ele diz: “Quem declarará a sua geração?” (Is 53.8). Isso foi dito para nos advertir, a fim de que, por causa dos seus inimigos e da afronta dos seus sofrimentos, não o desprezássemos como um homem vil e desprezível. Pois aquele que suportou tudo isso tem uma geração que não se pode declarar;1 por geração ele quer dizer a sua origem; (pois) aquele que é seu Pai não pode ser declarado nem expresso em palavras. Saiba, portanto, que tal era a origem daquele que suportou esses sofrimentos; e não o despreze por causa dos sofrimentos que, por amor a você, ele suportou de propósito, mas tema-o por causa da sua origem.

71. E em outro lugar Jeremias diz: “O Espírito da nossa face, o Senhor Cristo;2 e como foi preso nas armadilhas deles, ele de quem dizíamos: Debaixo da sua sombra viveremos entre as nações” (Lm 4.20). Que, sendo (o) Espírito de Deus, Cristo havia de se tornar um homem sofredor, a Escritura o declara; e ela fica como que pasma e atônita diante dos seus sofrimentos, de que daquela maneira havia de suportar sofrimentos aquele “debaixo de cuja sombra dissemos que viveríamos”. E por sombra ele quer dizer o seu corpo.3 Pois, assim como a sombra é produzida por um corpo, assim também o corpo de Cristo foi produzido pelo seu Espírito.4 Mas, além disso, pela sombra ele indica a humilhação e o desprezo do seu corpo. Pois, assim como a sombra dos corpos que estão de pé fica sobre o chão e é pisada, assim também o corpo de Cristo caiu por terra pelos seus sofrimentos e foi de fato pisado. E ele chamou o corpo de Cristo de sombra, porque o Espírito o cobriu com a sua sombra, por assim dizer, com glória, e o envolveu.5 Além disso, muitas vezes, quando o Senhor passava, punham no caminho os que eram acometidos de diversas doenças, e todos aqueles sobre os quais caía a sua sombra eram curados.6

72. E outra vez o mesmo profeta (diz) assim acerca dos sofrimentos de Cristo: “Vejam como perece o justo, e ninguém o leva a sério; e os homens justos são levados, e ninguém entende. Pois da face da iniquidade é que o justo é levado; a paz será o seu sepultamento; ele foi tirado do meio” (Is 57.1-2). E quem mais é perfeitamente justo, senão o Filho de Deus, que torna justos e aperfeiçoa os que creem nele, os quais, à semelhança dele, são perseguidos e mortos?7 Mas, ao dizer: “A paz será o seu sepultamento”, ele declara como ele morreu por causa da nossa redenção: pois está na paz da redenção; e (declara também) que pela sua morte aqueles que antes eram inimigos e opostos uns aos outros, crendo nele de comum acordo, teriam paz uns com os outros, tornando-se amigos e amados por causa da fé comum nele; como de fato se tornaram. Mas, ao dizer: “Ele foi tirado do meio”, ele indica a sua ressurreição dentre os mortos. Além disso, porque ele não apareceu mais depois da sua morte e sepultamento, o profeta declara que, depois de morrer e ressuscitar, ele havia de permanecer imortal, (dizendo) assim: “Ele te pediu vida, e tu lhe deste; sim, longevidade para todo o sempre” (Sl 21.4). Ora, o que significa isto que ele diz, “Ele pediu vida”, uma vez que estava para morrer? Ele proclama a sua ressurreição dentre os mortos, e que, ressuscitado dentre os mortos, ele é imortal. Pois recebeu tanto a vida, para ressuscitar, como a longevidade para todo o sempre, para ser incorruptível.

73. E outra vez Davi diz assim acerca da morte e da ressurreição de Cristo: “Eu me deitei e dormi; acordei, porque o Senhor me recebeu” (Sl 3.5).8 Davi não disse isso de si mesmo, pois ele não foi ressuscitado depois da morte; mas o Espírito de Cristo, que (falou) também em outros profetas a respeito dele, diz aqui por meio de Davi: “Eu me deitei e dormi; acordei, porque o Senhor me recebeu.” Por sono ele quer dizer a morte; pois ele ressuscitou.

74. E outra vez Davi (diz) assim acerca dos sofrimentos de Cristo: “Por que se enfureceram as nações e os povos imaginaram coisas vãs? Os reis da terra se levantaram, e os príncipes se reuniram contra o Senhor e contra o seu Ungido” (Sl 2.1-2; cf. At 4.25-27). Pois Herodes, rei dos judeus, e Pôncio Pilatos, governador de Cláudio César,9 se reuniram e o condenaram a ser crucificado. Pois Herodes temia, como se ele fosse ser um rei terreno, que viesse a ser expulso do reino por ele. Mas Pilatos foi constrangido por Herodes e pelos judeus que estavam com ele a entregá-lo à morte contra a sua vontade: (pois o ameaçaram) caso não preferisse fazer isso10 a agir contra César, soltando um homem que era chamado rei.

75. E ainda acerca dos sofrimentos de Cristo diz o mesmo profeta: “Tu nos repeliste e desprezaste, e rejeitaste o teu Ungido. Quebraste a aliança do meu11 servo; lançaste por terra a sua santidade. Derrubaste todas as suas cercas; fizeste tremer as suas fortalezas.12 Os que passam pelo caminho o saquearam; ele se tornou objeto de opróbrio para os seus vizinhos. Exaltaste a mão direita dos seus opressores; fizeste os seus inimigos se alegrarem sobre ele. Desviaste o socorro da sua espada e não lhe deste mão forte na batalha. Tu o removeste e o derrubaste da purificação; deitaste por terra o seu trono. Abreviaste os dias do seu tempo e derramaste vergonha sobre ele” (Sl 89.38-45). Que ele havia de suportar essas coisas, e isso pela vontade do Pai, ele o declarou manifestamente: pois pela vontade do Pai ele havia de suportar sofrimentos.

76. E Zacarias diz assim: “Desperta, ó espada, contra o meu pastor e contra o homem (que é) meu companheiro. Fere13 o pastor, e as ovelhas do rebanho serão dispersas” (Zc 13.7). E isso aconteceu quando ele foi preso pelos judeus: pois todos os discípulos o abandonaram, temendo morrer com ele. Pois ainda não criam nele com firmeza, até que o viram ressuscitado dentre os mortos.

77. Outra vez ele diz nos Doze Profetas:14 “E o amarraram e o levaram como presente ao rei” (Os 10.6). Pois Pôncio Pilatos era governador da Judeia, e naquele tempo tinha ressentida inimizade contra Herodes, rei dos judeus.15 Mas então, quando Cristo lhe foi trazido amarrado, Pilatos o enviou a Herodes, mandando interrogá-lo, para que soubesse com certeza o que este desejava a respeito dele; fazendo de Cristo ocasião oportuna de reconciliação com o rei.

78. E em Jeremias ele declara assim a sua morte e a descida à mansão dos mortos, dizendo: “E o Senhor, o Santo de Israel, lembrou-se dos seus mortos, que outrora adormeceram no pó da terra; e desceu até eles, para lhes levar as boas-novas da sua salvação, para libertá-los.”16 Neste lugar ele dá também a causa da sua morte: pois a sua descida à mansão dos mortos foi a salvação dos que haviam partido.

79. E outra vez, acerca da sua cruz, Isaías diz assim: “Estendi as minhas mãos o dia todo a um povo desobediente e rebelde” (Is 65.2). Pois isso é um sinal da cruz.17 E ainda mais claramente diz Davi: “Cães de caça me cercaram;18 a assembleia dos malfeitores me rodeou. Traspassaram as minhas mãos e os meus pés” (Sl 22.16). E outra vez ele diz: “O meu coração tornou-se como cera que se derrete no meio do meu corpo;19 e separaram20 os meus ossos” (Sl 22.14,17); e outra vez ele diz: “Poupa a minha alma da espada e prega a minha carne: pois a assembleia dos malfeitores se levantou contra mim” (Sl 22.20; 119.120; 22.16).21 Com essas palavras ele indica com manifesta clareza que ele havia de ser crucificado. E Moisés diz essa mesma coisa ao povo, assim: “E a tua vida estará pendurada diante dos teus olhos, e temerás de dia e de noite, e não crerás na tua vida” (Dt 28.66).

80. E outra vez Davi diz: “Olharam para mim; repartiram entre si as minhas roupas e sobre a minha túnica lançaram sortes” (Sl 22.17-18). Pois na sua crucificação os soldados repartiram as suas roupas, como era costume; e as roupas eles as repartiram rasgando-as; mas, quanto à túnica, porque era tecida desde o alto e não tinha costura, lançaram sortes, para que ficasse com ela aquele a quem coubesse (cf. Jo 19.23-24).

81. E outra vez diz o profeta Jeremias: “E tomaram as trinta moedas de prata, o preço daquele que foi vendido, a quem compraram dos filhos de Israel; e as deram pelo campo do oleiro, como o Senhor me ordenou” (Mt 27.9-10; cf. Zc 11.13). Pois Judas, sendo um dos discípulos de Cristo, entrou em acordo com os judeus e fez trato com eles, quando viu que desejavam matá-lo, porque havia sido repreendido por ele; e tomou os trinta estáteres22 da província e lhes entregou Cristo; e então, arrependido do que fizera, devolveu a prata aos chefes dos judeus e se enforcou. Mas eles, julgando que não era lícito lançá-la no tesouro, porque era preço de sangue, compraram com ela o terreno de certo oleiro para sepultura de estrangeiros.

82. E na sua crucificação, quando ele pediu de beber, deram-lhe a beber vinagre misturado com fel (cf. Mt 27.34; Jo 19.29). E isso foi declarado por meio de Davi: “Por alimento me deram fel e na minha sede me deram a beber vinagre” (Sl 69.21).23

83. E que, ressuscitado dentre os mortos, ele havia de subir ao céu, Davi o diz assim: “O carro de Deus (é) de dezenas de milhares, milhares são os condutores;24 o Senhor (está) entre eles no Sinai, no (seu) santuário. Ele subiu ao alto, levou cativo o cativeiro; recebeu, deu dons aos homens” (Sl 68.17-18; Ef 4.8). E por cativeiro ele quer dizer a destruição do domínio dos anjos apóstatas.25 Ele declara também o lugar de onde ele havia de subir da terra ao céu. Pois “o Senhor”, diz ele, “subiu de Sião ao alto”.26 Pois diante de Jerusalém, no monte chamado (monte) das Oliveiras, depois que ressuscitou dentre os mortos, ele reuniu os seus discípulos e lhes expôs as coisas concernentes ao reino dos céus; e eles viram que ele subiu, e viram como os céus se abriram e o receberam.

84. E o mesmo Davi diz outra vez: “Levantem as suas portas, ó príncipes; e levantem-se, ó portais eternos, e entrará o Rei da glória” (Sl 24.7). Pois os portais eternos são os céus. Mas, porque o Verbo desceu invisível às coisas criadas, ele não foi conhecido por elas na sua descida. Porque o Verbo se fez carne, ele foi visível na sua ascensão; e, quando as potestades o viram, os anjos de baixo clamaram aos que estavam no firmamento: “Levantem as suas portas, e levantem-se, ó portais eternos, para que entre o Rei da glória.” E quando eles se maravilharam e disseram: “Quem é este?”, os que já o tinham visto testemunharam pela segunda vez: “O Senhor, forte e poderoso, ele é o Rei da glória” (Sl 24.8-10).27

85. E, ressuscitado dentre os mortos e exaltado à direita do Pai, ele aguarda o tempo determinado pelo Pai para o juízo, quando todos os inimigos lhe forem sujeitos. Ora, os inimigos são todos os que foram achados em apostasia, anjos e arcanjos e potestades e tronos, que desprezaram a verdade. E o próprio profeta Davi diz assim: “Disse o Senhor ao meu senhor: ‘Sente-se à minha direita, até que eu ponha os seus inimigos por estrado dos seus pés'” (Sl 110.1). E que ele subiu para lá, de onde havia descido, Davi o diz: “Desde a extremidade do céu é a sua saída, e o seu repouso até a extremidade do céu.” Depois ele indica o seu juízo: “E não há quem se esconda do seu calor” (Sl 19.6).28

86. Se, pois, os profetas profetizaram que o Filho de Deus havia de aparecer na terra, e profetizaram também onde na terra, e como, e de que maneira ele havia de manifestar a sua vinda, e o Senhor assumiu sobre si todas essas profecias, a nossa fé nele estava bem fundada, e a tradição da pregação (é) verdadeira: isto é, o testemunho dos apóstolos, que, enviados pelo Senhor, pregaram em todo o mundo o Filho de Deus, que veio para sofrer e suportou o sofrimento para a destruição da morte e a vivificação da carne, a fim de que, afastada a inimizade para com Deus, que é a injustiça, obtivéssemos paz com ele, fazendo o que lhe agrada. E isso foi declarado pelos profetas nestas palavras: “Quão formosos são os pés dos que anunciam a paz, e dos que anunciam coisas boas” (Rm 10.15; Is 52.7).29 E que estes haviam de sair da Judeia e de Jerusalém para nos anunciar a palavra de Deus, que é a lei30 para nós, Isaías o diz assim: “Porque de Sião sairá a lei, e a palavra do Senhor, de Jerusalém” (Is 2.3). E que haviam de pregar em toda a terra, Davi o diz: “Por toda a terra saiu a sua voz, e as suas palavras até os confins do mundo” (Sl 19.4).

87. E que os homens haviam de ser salvos, não pelo muito falar da lei, mas pela brevidade da fé e do amor (cf. Mt 6.7), Isaías o diz assim: “Uma palavra breve e concisa em justiça; pois uma palavra concisa Deus fará em todo o mundo” (Rm 9.28; cf. Is 10.22-23). E por isso o apóstolo Paulo diz: “O cumprimento da lei é o amor” (Rm 13.10); pois quem ama a Deus cumpriu a lei. Além disso, o Senhor, quando lhe perguntaram qual é o primeiro mandamento, disse: “Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração e de todas as suas forças.31 E o segundo é semelhante a este: Ame o seu próximo como você ama a si mesmo. Destes dois mandamentos”, diz ele, “dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22.37-40; Mc 12.30-31). Assim, pela nossa fé nele, ele fez crescer o nosso amor a Deus e ao próximo, tornando-nos piedosos, justos e bons. E por isso Deus fez uma palavra concisa sobre a terra, no mundo.

88. E que, depois da sua ascensão, ele havia de ser exaltado acima de todos, e que não haverá ninguém que se compare e se iguale a ele, Isaías o diz assim:32 “Quem é que entra em juízo (comigo)? Que se levante contra (mim). E quem é que é justificado? Que se aproxime do Filho do Senhor. Ai de vocês, pois envelhecerão como uma roupa, e a traça os devorará. E toda carne será humilhada e abatida, e só o Senhor será exaltado nas alturas” (Is 50.8-9; 2.17). E que no fim seriam salvos pelo seu nome os que serviram a Deus, Isaías o diz: “E sobre os que me servem será invocado um nome novo, que será bendito sobre a terra; e eles bendirão o Deus verdadeiro” (Is 65.15-16). E que ele mesmo havia de realizar essa bênção, e ele mesmo havia de nos redimir pelo seu próprio sangue, Isaías o declarou, dizendo: “Nenhum mediador, nenhum anjo, mas o próprio Senhor os salvou; porque os amou e os poupou; ele mesmo os redimiu” (Is 63.9).33

89. Que ele não haveria de mandar os redimidos de volta à legislação de Moisés (pois a lei foi cumprida em Cristo), mas queria que eles vivessem34 na novidade pelo Verbo, mediante a fé no Filho de Deus e o amor, Isaías o declarou, dizendo: “Não se lembrem das coisas passadas, nem tragam à memória as coisas que foram no princípio. Eis que faço (coisas) novas, que agora brotarão, e vocês as conhecerão. E porei no deserto um caminho, e no lugar sem água rios, para dar de beber à minha raça escolhida e ao meu povo que adquiri para anunciar as minhas virtudes” (Is 43.18-21).35 Ora, deserto e lugar sem água era, a princípio, a vocação dos gentios: pois o Verbo não havia passado por eles,36 nem lhes dera a beber o Espírito Santo;37 ele que formou o novo caminho da piedade e da justiça e fez brotar rios abundantes, espalhando sobre a terra o Espírito Santo, como fora prometido por meio dos profetas, que nos últimos dias ele derramaria o Espírito sobre a face da terra.

90. Portanto, a nossa vocação é “na novidade do espírito, e não na velhice da letra” (cf. Rm 7.6);38 como Jeremias profetizou: “Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que cumprirei para a casa de Israel e para a casa de Judá a aliança do testamento,39 que fiz com os seus pais no dia em que os tomei pela mão para os tirar da terra do Egito; porque eles não permaneceram na aliança, e eu não atentei para eles, diz o Senhor. Porque esta é a aliança do testamento que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o Senhor: porei as minhas leis40 na mente deles e as escreverei no seu coração; e eu serei o Deus deles, e eles serão o meu povo; e não ensinará mais cada um ao seu próximo, e cada um ao seu irmão, dizendo: Conheça o Senhor; porque todos me conhecerão, desde o menor até o maior deles. Pois perdoarei e serei misericordioso para com os pecados das suas iniquidades, e dos seus pecados não me lembrarei mais” (Jr 31.31-34; Hb 8.8-12).

91. E que a vocação dentre os gentios, à qual também foi aberto o novo testamento,41 havia de herdar essas promessas, Isaías o diz assim: “Isto diz o Deus de Israel: Naquele dia o homem confiará42 no seu Criador, e os seus olhos olharão para o Santo de Israel; e não confiarão nos altares, nem na obra das suas próprias mãos, que os seus dedos fizeram” (Is 17.7-8). Pois muito claramente isso foi dito daqueles que abandonaram os ídolos e creram em Deus, nosso Criador, por meio do Santo de Israel. E o Santo de Israel é Cristo; e ele se tornou visível aos homens, e para ele olhamos com anseio e o contemplamos; e não confiamos nos altares, nem nas obras das nossas mãos.

92. E que ele havia de se tornar visível43 entre nós (pois o Filho de Deus se tornou Filho do homem) e de ser achado por nós, que antes não tínhamos conhecimento (dele), o próprio Verbo o diz assim em Isaías: “Tornei-me manifesto aos que não me buscavam; fui achado pelos que não perguntavam por mim. Eu disse: Eis-me aqui, a uma raça que não invocava o meu nome” (Is 65.1).

93. E que essa raça havia de se tornar um povo santo, foi declarado nos Doze Profetas44 por Oseias, assim: “Chamarei meu povo ao que não era (meu) povo; e amada à que não era amada. E acontecerá que, no lugar onde se dizia: Não é o meu povo, ali serão chamados filhos do Deus vivo” (Os 2.23; 1.10; cf. Rm 9.25-26). Isso também é o que foi dito por João Batista: “Deus pode fazer com que destas pedras surjam filhos a Abraão” (Mt 3.9). Pois os nossos corações, retirados e afastados do culto às pedras45 por meio da fé, contemplam a Deus e se tornam filhos de Abraão, que foi justificado pela fé. E por isso Deus diz por meio do profeta Ezequiel: “E lhes darei outro coração, e um espírito novo lhes darei; e retirarei e tirarei da carne deles o coração de pedra, e lhes darei outro coração de carne, para que andem nos meus preceitos, e guardem as minhas ordenanças, e as cumpram. E eles me serão por povo, e eu lhes serei por Deus” (Ez 11.19-20).

94. Assim, pois, pela nova vocação, operou-se nos gentios uma mudança de corações por meio do Verbo de Deus, quando ele se fez carne e armou a sua tenda entre os homens; como também diz o seu discípulo João: “E o seu Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1.14). Por isso a Igreja dá muito fruto de redimidos: porque já não é Moisés (como) mediador, nem Elias (como) mensageiro,46 mas o próprio Senhor quem nos redimiu, concedendo à Igreja muito mais filhos do que à primeira Sinagoga;47 como Isaías declarou, dizendo: “Alegre-se, ó estéril, você que não dava à luz.” A estéril é a Igreja, que nos tempos antigos jamais apresentou filhos a Deus. “Brade e clame, você que não teve dores de parto; porque os filhos da desamparada são mais numerosos do que os daquela que tem marido” (Is 54.1; Gl 4.27). Ora, a primeira Sinagoga tinha por marido a Lei.

95. Além disso, Moisés diz no Deuteronômio que os gentios seriam a cabeça, e o povo incrédulo, a cauda (cf. Dt 28.44). E outra vez ele diz: “Vocês me provocaram a ciúmes com os que não são deuses e me irritaram com os seus ídolos; e eu os provocarei a ciúmes com o que não é nação, e com uma nação insensata os irritarei” (Dt 32.21; Rm 10.19). Porque abandonaram o Deus que é, e adoraram e serviram os deuses que não são; e mataram os profetas de Deus, e profetizaram por Baal (cf. Jr 2.8), que era o ídolo dos cananeus. E o Filho de Deus, que é,48 eles o desprezaram e condenaram, mas escolheram Barrabás, o salteador que fora preso por homicídio; e renegaram o Rei eterno,49 e reconheceram como seu rei o César temporal. (Assim) aprouve a Deus conceder a herança deles aos gentios insensatos, àqueles que não pertenciam à cidadania de Deus e não sabiam o que é Deus. Uma vez, pois, que por esta vocação a vida (nos) foi dada, e Deus recapitulou para si em nós a fé de Abraão, não devemos mais voltar atrás, quero dizer, à primeira legislação. Pois recebemos o Senhor da Lei, o Filho de Deus; e pela fé nele aprendemos a amar a Deus de todo o nosso coração, e ao próximo como a nós mesmos. Ora, o amor a Deus está longe de todo pecado,50 e o amor ao próximo não pratica o mal contra o próximo (cf. Rm 13.10).

96. Por isso também não precisamos da Lei como tutor. Eis que falamos com o Pai e estamos na sua presença, sendo “crianças quanto à maldade”51 (1Co 14.20) e fortalecidos em toda justiça e sobriedade. Pois a Lei já não dirá “Não cometa adultério” àquele que não tem nenhum desejo pela mulher de outro; nem “Não mate” (Êx 20.13-14) àquele que afastou de si toda ira e inimizade; (nem) “Não cobice o campo do seu próximo, nem o boi, nem o jumento” (cf. Êx 20.17; Dt 5.21) àqueles que não têm nenhuma preocupação com as coisas terrenas, mas acumulam os frutos celestiais; nem “olho por olho, dente por dente” (Êx 21.24) àquele que não considera ninguém seu inimigo, mas todos os homens seus próximos, e por isso não pode estender a mão de modo algum para a vingança. Não exigirá dízimos daquele que consagra a Deus todos os seus bens,52 deixando pai, mãe e todos os seus parentes e seguindo o Verbo de Deus. E não haverá mandamento de ficar ocioso num dia de descanso para aquele que guarda o sábado perpetuamente,53 isto é, que no templo de Deus, que é o corpo do homem, presta culto a Deus e a toda hora pratica a justiça. “Pois quero misericórdia”, diz ele, “e não sacrifício; conhecimento de Deus, mais do que holocaustos” (Os 6.6). “Mas o ímpio que me sacrifica um bezerro é como se matasse um cão; e o que oferece flor de farinha, como se (oferecesse) sangue de porco” (Is 66.3). “Mas todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Jl 2.32). E não há outro nome do Senhor dado debaixo do céu pelo qual os homens sejam salvos (cf. At 4.12), senão o de Deus, que é Jesus Cristo, o Filho de Deus, ao qual estão sujeitos também os demônios, os espíritos malignos e todas as potências apóstatas.

97. Pela invocação do nome de Jesus Cristo, crucificado sob Pôncio Pilatos,54 há separação e divisão entre os homens; e onde quer que algum dos que creem nele o invoque e o chame e faça a sua vontade, ele está perto e presente, atendendo aos pedidos dos que o invocam com coração puro. Recebendo por meio disso a salvação, damos graças continuamente a Deus, que pela sua grande, inescrutável e insondável sabedoria nos libertou e proclamou a salvação do céu, a saber, a vinda visível de nosso Senhor, isto é, a sua vida como homem,55 à qual por nós mesmos não podíamos chegar; pois “o que é impossível para o ser humano é possível para Deus” (Lc 18.27).56 Por isso também Jeremias diz a respeito dela (isto é, da sabedoria): “Quem subiu ao céu, e a tomou, e a trouxe das nuvens? Quem atravessou o mar, a achou e a trará por ouro escolhido? Não há quem tenha achado o seu caminho, nem quem compreenda a sua vereda. Mas aquele que sabe todas as coisas a conhece pelo seu entendimento; aquele que preparou a terra para sempre a encheu de quadrúpedes;57 aquele que envia a luz, e ela vai; ele a chamou, e ela lhe obedeceu com temor; e as estrelas brilharam nas suas vigílias e se alegraram; ele as chamou, e elas disseram: Eis-nos aqui; brilharam com alegria para aquele que as fez. Este é o nosso Deus; nenhum outro será comparado a ele. Ele descobriu todo caminho do conhecimento e o deu a Jacó, seu servo, e a Israel, seu amado. Depois disso ele apareceu na terra e conviveu com os homens. Este é o livro dos mandamentos de Deus e da lei que permanece para sempre. Todos os que a retêm (estão destinados) à vida; mas os que a abandonam morrerão” (Br 3.29-4.1). Ora, por Jacó e Israel ele quer dizer o Filho de Deus, que recebeu do Pai poder sobre a nossa vida e, depois de recebê-lo, o trouxe até nós, que estávamos longe dele, quando apareceu na terra e conviveu com os homens, mesclando e misturando58 o Espírito de Deus Pai com a criatura formada por Deus,59 para que o homem fosse segundo a imagem e semelhança de Deus.60

98. Esta, amado, é a pregação da verdade, e este é o modo da nossa redenção, e este é o caminho da vida, que os profetas proclamaram, e Cristo estabeleceu, e os apóstolos transmitiram, e a Igreja em todo o mundo entrega aos seus filhos.61 Isto devemos guardar com toda a firmeza, com vontade sã e agradável a Deus, com boas obras e disposição reta.

99. Para que ninguém imagine que Deus Pai seja outro que não o nosso Criador, como imaginam os hereges; (pois) eles desprezam o Deus que é e fazem deuses daquilo que não é; e inventam um Pai próprio acima do nosso Criador, e imaginam ter descoberto por si mesmos algo maior do que a verdade. Pois todos esses são ímpios e blasfemos contra o seu Criador e contra o Pai, como mostramos na Exposição e Refutação do Conhecimento falsamente assim chamado. E outros, por sua vez, rejeitam a vinda do Filho de Deus e a dispensação da sua encarnação, que os apóstolos transmitiram e os profetas anunciaram de antemão, a qual havia de ser a recapitulação da humanidade, como lhe mostramos em resumo; e também esses são contados entre os que carecem de fé. E outros não recebem os dons do Espírito Santo e lançam fora de si a graça profética,62 regado pela qual o homem produz o fruto da vida para Deus; e estes são aqueles de quem Isaías fala: “Pois serão”, diz ele, “como um carvalho despojado de folhas e como um jardim que não tem água” (Is 1.30). E tais pessoas de modo nenhum são úteis a Deus, visto que não podem dar fruto algum.

100. Assim, pois, quanto aos três pontos63 do nosso selo, o erro se desviou muito da verdade. Pois ou rejeitam o Pai, ou não aceitam o Filho e falam contra a dispensação da sua encarnação, ou então não recebem o Espírito, isto é, rejeitam a profecia. E de todos esses devemos nos guardar e evitar os seus caminhos, se de fato desejamos ser agradáveis a Deus e alcançar a redenção que vem dele.

Notas

1. Contra as Heresias IV.55.2: “et inenarrabile habet genus.” Cf. Justino Mártir, Apologia I, 51: ho tauta paschon anekdiegeton echei to genos; Diálogo 43 e 76.

2. Contra as Heresias III.11.2: “Spiritus enim inquit faciei nostrae Christus Dominus.”

3. Ou “carne”, como em outros lugares.

4. Cf. § 59, no fim.

5. As palavras parecem significar literalmente: “o Espírito tornando-se como que uma sombra com glória e cobrindo-o”.

6. Isso é dito de São Pedro em At 5.15.

7. O mesmo argumento sobre “o Justo” e “os homens justos” aparece em Justino (Apologia I, 48; Diálogo 110).

8. Cf. Contra as Heresias IV.48.2; IV.55.4.

9. Pilatos foi procurador da Judeia por dez anos (27-37). Cláudio só se tornou imperador em 42 d.C. A afirmação feita aqui é, portanto, incompatível com a cronologia da história; mas concorda com a opinião, expressa em Contra as Heresias II.33.2 ss., de que nosso Senhor chegou à aetatem seniorem, isto é, a uma idade entre 40 e 50 anos, opinião que se baseia em grande parte em Jo 8.57: “Você não tem nem cinquenta anos e viu Abraão?” Pois essas palavras pareceram a Irineu mostrar que ele não podia ter muito menos de cinquenta anos quando foram ditas. Veja-se o artigo “Chronology”, de C. H. Turner, no Dictionary of the Bible de Hastings.

10. O armênio é incerto neste ponto.

11. Cf. § 64, onde há um descuido semelhante.

12. Literalmente: “para tremor”.

13. “Fere” está no singular, como no códice A da Septuaginta, que aqui é seguido.

14. Cf. § 93, e Contra as Heresias IV.29.5: “in duodecim prophetis Malachias”. Frequente em Justino.

15. A mesma interpretação é dada por Justino (Diálogo 103).

16. Esta é uma das profecias que, segundo Justino, os judeus haviam apagado das suas Escrituras (Diálogo 72). É citada várias vezes por Irineu: Contra as Heresias III.22.1 (como de Isaías); IV.36.1 (como de Jeremias, a quem Justino a atribuíra); IV.50.1 (apenas uma alusão); IV.55.3 (“alii autem dicentes: Rememoratus . . . causam reddiderunt propter quam passus est haec omnia”); V.31.1 (com variações e sem nome de autor).

17. Cf. § 46; Barnabé XII, 4; Justino Mártir, Apologia I, 35.

18. Justino (Diálogo 104) cita a passagem com kunes polloi (como a Septuaginta), mas no seu comentário diz: ous kai kunas kalei kai kunegous. Jerônimo, no seu Saltério traduzido do hebraico, tem “venatores”, aparentemente seguindo Símaco ou Teodocião (veja-se Field, Origenis Hexapla, no lugar). O armênio é literalmente “cães caçador”; mas “caçador” é usado como adjetivo, e as duas palavras significam “cães de caça”. Por que polloi teria desaparecido e “caçador” tomado o seu lugar, esses curiosos paralelos não parecem explicar.

19. Literalmente koilias (“ventre”).

20. Ou “enviaram para longe”: aparentemente em lugar de exerithmesan (“contaram”) de Sl 22.17.

21. “Prega a minha carne” vem da Septuaginta de Sl 119.120, onde a versão inglesa Autorizada tem “a minha carne treme de temor de ti”. Cf. Barnabé V, 13: Pheisai mou tes psuches apo rhomphaias kai katheloson mou tas sarkas, hoti ponereuomenon sunagogai epanestesan moi.

22. Em Mt 26.15 o Códice de Beza e algumas outras autoridades trazem stateras em lugar de arguria.

23. O armênio provavelmente representa En de to staurothenai auton (“e quando ele foi crucificado”). O oxos meta choles memigmenon (“vinagre misturado com fel”) de Mt 27.34 (oxos no códice A etc.; oinon, “vinho”, nos códices Aleph, B, D etc.) foi antes da crucificação, quando “ele não quis beber”. “Quando ele pediu de beber” na cruz (Jo 19.29), deram-lhe oxos; mas alguns manuscritos acrescentam meta choles. Cf. Barnabé VII, 3, 5; Evangelho de Pedro 5.

24. Como se lesse euthunonton (“os que conduzem”), como alguns manuscritos da Septuaginta, em vez de euthenounton (“os que prosperam”); assim também no Saltério armênio, que no versículo seguinte tem, depois de “cativo”: “Recebeu despojos, distribuiu dons e deu aos filhos dos homens.” É possível, portanto, que aqui “recebeu, deu” seja uma reminiscência do seu próprio Saltério por parte do tradutor.

25. Justino Mártir, Diálogo 39: proepheteuthe aichmaloteusai auton hemas apo tes planes kai dounai hemin domata (“foi profetizado que ele nos levaria cativos do erro e nos daria dons”).

26. Esta não é uma nova citação, mas parte do comentário à passagem citada antes: “O Senhor . . . no Sinai, no seu santuário; ele subiu ao alto.” Irineu parece tê-la entendido como se dissesse “em Sião, no seu santuário”.

27. A interpretação de Justino (Diálogo 36) faz da forma humilde da humanidade de nosso Senhor (aeides kai atimos, “sem beleza e sem honra”) a razão por que ele não é reconhecido de imediato. A interpretação dada por Irineu corresponde à da Ascensão de Isaías.

28. A mesma interpretação em Contra as Heresias IV.55.4: “quoniam illuc assumptus est unde et descendit, et non est qui justum judicium ejus effugiat.”

29. Citado com uma pequena diferença em Contra as Heresias III.13.1.

30. Veja-se o comentário ao mesmo texto em Contra as Heresias IV.56.3 s.: “Si autem libertatis lex, id est, verbum Dei ab apostolis qui ab Hierusalem exierunt annuntiatum” etc.

31. Sobre a abreviação do “Primeiro Mandamento”, cf. Justino Mártir, Diálogo 93.

32. Quase o mesmo comentário se encontra em Contra as Heresias IV.55.4, onde se faz a mesma combinação de textos: “Quisquis judicatur, ex adverso adstet; et quisquis justificatur, appropinquet puero Dei (armênio: Domini); et vae vobis . . . in altissimis.”

33. Cf. § 94. Em Contra as Heresias III.22.1 temos: “Neque senior (presbus na Septuaginta) neque angelus.”

34. A palavra significa mais especialmente “viver em liberdade”.

35. Citado em Contra as Heresias IV.55.5, com um breve comentário.

36. Contra as Heresias IV.25.2: “per omnes illos transiens Verbum”, em conexão com “a voz de muitas águas”.

37. O grego sem dúvida era: oude pneuma hagion epotisen autous; e o contexto mostra que pneuma deve ser tomado como acusativo. Para o pensamento geral da passagem, cf. Contra as Heresias III.18.1 s.

38. Segui a emenda simples sugerida pelos editores: o texto impresso tem “não na nossa velhice”.

39. Depois de diatheken, as palavras kainen, ou kata ten diatheken (“nova, não segundo a aliança”) devem ter sido omitidas pelo copista ou pelo tradutor. “A aliança do testamento” é apenas uma dupla tradução de diatheken; tais duplas traduções ocorrem várias vezes nesta citação, mas não as mantive em todos os casos.

40. Literalmente: “dando as minhas leis”; cf. Hb 8.10.

41. Cf. § 8 e a nota ali.

42. Ou “esperará”; e assim duas vezes mais abaixo.

43. Ou “manifesto”, como na citação abaixo.

44. Cf. § 77. Sobre a citação, cf. Contra as Heresias I.4.1; IV.34.12.

45. Contra as Heresias IV.13.1: “a lapidum religione extrahens nos.”

46. Traduzindo o grego angelos. Cf. § 88.

47. Ambas as traduções alemãs entendem a passagem assim: “concedendo muitos filhos à Igreja, a assembleia dos primogênitos”. Mas é difícil tirar isso do texto armênio, que tem “primeira” e não “primogênitos”. Parece certo que há um contraste entre “a Igreja” e “a primeira Sinagoga” (cujo marido era a Lei, como se diz abaixo). O texto pode ser facilmente emendado de modo a dar o sentido exigido. Cf. Contra as Heresias IV.48.1 s.: “duae synagogae . . . fructificantes . . . filios vivos vivo Deo”; III.6.1: “Ecclesia, haec enim est synagoga Dei.” Sobre a citação e a sua interpretação, cf. Justino Mártir, Apologia I, 53.

48. No armênio, “que é” refere-se a “o Filho”.

49. Cf. §§ 36, 56, 66.

50. O Dr. Rendel Harris (Testimonies I, 66) observou que isto é uma reminiscência de Policarpo, Epístola aos Filipenses 3: Ho gar echon agapen makran estin pases hamartias (“pois quem tem amor está longe de todo pecado”).

51. Cf. § 46.

52. Contra as Heresias IV.31.1: “illi quidem decimas suorum habebant consecratas: qui autem perceperunt libertatem, omnia quae sunt ipsorum ad dominicos decernunt usus.”

53. Justino Mártir, Diálogo 12: sabbatizein humas ho kainos nomos dia pantos ethelei, kai humeis mian argountes hemeran eusebein dokeite (“a nova lei quer que vocês guardem o sábado continuamente, e vocês, ficando ociosos um só dia, julgam ser piedosos”).

54. Contra as Heresias II.49.3: En to onomati Iesou Christou, tou staurothentos epi Pontiou Peilatou (“em nome de Jesus Cristo, crucificado sob Pôncio Pilatos”). Cf. Justino Mártir, Apologia II, 6; Diálogo 30, 76, 85. Estas palavras devem ser tomadas com o § 96, como explica a nota adicional de Robinson: Apareceu agora um novo fascículo da Patrologia Orientalis (XII, 5: Paris, 1919), contendo uma reimpressão do texto armênio, com uma tradução inglesa feita pelo descobridor, Ter-Mekerttschian, e pelo Dr. S. G. Wilson. Segue-se uma tradução francesa muito mais exata, do falecido padre Barthoulout, S.J., antigo missionário na Armênia. Entre outras notas valiosas, ele observa que as palavras iniciais do cap. 97 foram erroneamente separadas do capítulo anterior. A frase seguinte pareceria então significar: “Ele está separado e retirado do meio dos homens, e (contudo) onde quer que” etc.

55. Sugerindo o grego ten anthropinen autou politeian.

56. Assim citado em Contra as Heresias IV.34.5.

57. O armênio, em lugar de “quadrúpedes” (ktenon), tem aqui “(coisas) gordas”.

58. Compare-se com toda esta passagem Contra as Heresias IV.34.4 ss., especialmente as palavras “praedicaverunt ejus secundum carnem adventum, per quem commixtio et communio Dei et hominis secundum placitum Patris facta est; ab initio praenuntiante Verbo Dei quoniam videbitur Deus ab hominibus et conversabitur cum eis super terram et colloqueretur et adfuturus esset suo plasmati”; e “praesignificabant igitur prophetae quoniam videbitur Deus ab hominibus”, palavras que voltam um pouco mais adiante.

59. Literalmente: “com a formação (plasma) de Deus”.

60. Cf. § 32; Contra as Heresias V.1.3; V.2.1; V.36.1, e em outros lugares.

61. A mesma linguagem se encontra no prefácio ao Livro V de Contra as Heresias: “quod prophetae quidem praeconaverunt . . . perfecit autem Christus, apostoli vero tradiderunt, a quibus ecclesia accipiens, per universum mundum sola bene custodiens, tradidit filiis suis”; e linguagem semelhante em II.47.2.

62. Contra as Heresias III.11.12: “propheticam vero gratiam repellunt ab ecclesia.”

63. Literalmente: “cabeças”; cf. §§ 6 s.

Tradução para o português a partir das versões inglesas de J. Armitage Robinson (The Demonstration of the Apostolic Preaching, Londres, SPCK, 1920, traduzida do armênio) e de Alexander Roberts e W. H. Rambaut (Against Heresies, Livro V, Ante-Nicene Fathers, vol. 1, Buffalo, 1885), conferidas com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são dos tradutores ingleses; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Irineu cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.