As Apologias de Justino Mártir · O Martírio de Justino
O relato do interrogatório de Justino e dos seus companheiros pelo prefeito Rústico e da sua morte por Cristo.
Capítulo I. Interrogatório de Justino pelo prefeito
No tempo dos partidários sem lei da idolatria, decretos perversos foram promulgados contra os piedosos cristãos, na cidade e no campo, para forçá-los a oferecer libações aos ídolos vãos; e assim os santos homens, depois de presos, foram levados diante do prefeito de Roma, chamado Rústico. E, quando foram levados diante do seu tribunal, o prefeito Rústico disse a Justino: “Obedeça imediatamente aos deuses e submeta-se aos reis.”1 Justino disse: “Obedecer aos mandamentos de nosso Salvador Jesus Cristo não merece censura nem condenação.” O prefeito Rústico disse: “Que espécie de doutrinas você professa?” Justino disse: “Procurei aprender todas as doutrinas; mas por fim aderi às doutrinas verdadeiras, isto é, às dos cristãos, ainda que não agradem aos que têm opiniões falsas.” O prefeito Rústico disse: “São essas as doutrinas que lhe agradam, homem inteiramente miserável?” Justino disse: “Sim, pois as sigo com reto dogma.”2 O prefeito Rústico disse: “Que dogma é esse?” Justino disse: “Aquele segundo o qual adoramos o Deus dos cristãos, que consideramos o único desde o princípio, o autor e artífice de toda a criação, visível e invisível; e o Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, que também fora anunciado de antemão pelos profetas como aquele que havia de estar presente com o gênero humano, arauto da salvação e mestre de bons discípulos. E eu, sendo homem, penso que é insignificante o que posso dizer diante da sua divindade sem limites, reconhecendo certo poder profético,3 visto que foi profetizado acerca daquele de quem agora digo que é o Filho de Deus. Pois sei que desde a antiguidade os profetas predisseram a sua vinda entre os homens.”
O prefeito Rústico disse: “Onde vocês se reúnem?” Justino disse: “Onde cada um escolhe e pode; pois você imagina que todos nós nos reunimos exatamente no mesmo lugar? Não é assim, porque o Deus dos cristãos não está circunscrito a um lugar, mas, sendo invisível, enche o céu e a terra e em toda parte é adorado e glorificado pelos fiéis.” O prefeito Rústico disse: “Diga-me onde vocês se reúnem, ou em que lugar você junta os seus seguidores.” Justino disse: “Moro acima de um certo Martino, junto ao Banho Timiotino; e durante todo esse tempo (e estou agora vivendo em Roma pela segunda vez) não conheço nenhum outro lugar de reunião senão o dele. E, se alguém queria vir a mim, eu lhe comunicava as doutrinas da verdade.” Rústico disse: “Então você não é cristão?” Justino disse: “Sim, sou cristão.”
Então o prefeito Rústico disse a Cáriton: “Diga-me ainda, Cáriton, você também é cristão?” Cáriton disse: “Sou cristão por ordem de Deus.” O prefeito Rústico perguntou à mulher Cárito: “Que diz você, Cárito?” Cárito disse: “Sou cristã pela graça de Deus.” Rústico disse a Evelpisto: “E você, quem é?” Evelpisto, servo de César, respondeu: “Também eu sou cristão, libertado por Cristo; e pela graça de Cristo participo da mesma esperança.” O prefeito Rústico disse a Hiérax: “E você, é cristão?” Hiérax disse: “Sim, sou cristão, pois reverencio e adoro o mesmo Deus.” O prefeito Rústico disse: “Foi Justino que fez de vocês cristãos?” Hiérax disse: “Eu era cristão e serei cristão.” E Péon levantou-se e disse: “Também eu sou cristão.” O prefeito Rústico disse: “Quem o ensinou?” Péon disse: “De nossos pais recebemos esta boa confissão.” Evelpisto disse: “Ouvi de bom grado as palavras de Justino. Mas também de meus pais aprendi a ser cristão.” O prefeito Rústico disse: “Onde estão os seus pais?” Evelpisto disse: “Na Capadócia.” Rústico diz a Hiérax: “Onde estão os seus pais?” E ele respondeu: “Cristo é o nosso verdadeiro pai, e a fé nele é a nossa mãe; meus pais terrenos morreram; e eu, depois de ser expulso de Icônio, na Frígia, vim para cá.” O prefeito Rústico disse a Liberiano: “E você, que diz? É cristão e não quer adorar [os deuses]?” Liberiano disse: “Também eu sou cristão, pois adoro e reverencio o único Deus verdadeiro.”
O prefeito diz a Justino: “Escute, você que é chamado erudito e pensa conhecer as doutrinas verdadeiras: se for açoitado e decapitado, crê que subirá ao céu?” Justino disse: “Espero que, se suportar estas coisas, terei os seus dons.4 Pois sei que, para todos os que assim viveram, permanece o favor divino até a consumação do mundo inteiro.” O prefeito Rústico disse: “Você supõe, então, que subirá ao céu para receber alguma recompensa?” Justino disse: “Não o suponho, mas sei e estou plenamente persuadido disso.” O prefeito Rústico disse: “Vamos, então, ao assunto que temos em mãos e que urge. Reúnam-se e ofereçam sacrifício, de comum acordo, aos deuses.” Justino disse: “Nenhuma pessoa de reto pensamento abandona a piedade pela impiedade.” O prefeito Rústico disse: “Se não obedecerem, serão castigados sem misericórdia.” Justino disse: “Pela oração podemos ser salvos por causa de nosso Senhor Jesus Cristo, mesmo depois de termos sido castigados,5 porque isso se tornará para nós salvação e confiança diante do tribunal, mais terrível e universal, de nosso Senhor e Salvador.” Assim disseram também os outros mártires: “Faça o que quiser, pois somos cristãos e não sacrificamos aos ídolos.”
O prefeito Rústico pronunciou a sentença, dizendo: “Os que se recusaram a sacrificar aos deuses e a ceder à ordem do imperador sejam açoitados e levados a sofrer a pena de decapitação, segundo as leis.” Os santos mártires, glorificando a Deus, saíram para o lugar costumeiro, foram decapitados e consumaram o seu testemunho na confissão do Salvador. E alguns dos fiéis, tendo retirado secretamente os seus corpos, depositaram-nos em lugar conveniente, cooperando com eles a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, a quem seja a glória para todo o sempre. Amém.
1. Isto é, aos imperadores.
2. Meta dogmatos orthou, ortodoxia.
3. Isto é, que é necessária uma inspiração profética para falar dignamente de Cristo.
4. Outra leitura é dogmata, que pode ser traduzida assim: “terei o que ele ensina [que esperemos]”.
5. Esta passagem admite outra tradução. Lorde Hailes, seguindo a versão latina comum, traduz assim: “Era o nosso principal desejo suportar torturas por amor de nosso Senhor Jesus Cristo, e assim ser salvos.”
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Marcus Dods e George Reith na coleção Ante-Nicene Fathers, vol. 1 (Buffalo, 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. Os originais são gregos: esta é, portanto, tradução de tradução. As notas são dos tradutores ingleses; as do editor americano foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Justino cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.