As Apologias de Justino Mártir · Primeira Apologia (conclusão)

Capítulos 54 a 68: o batismo, a eucaristia, o domingo e os documentos anexos

As imitações demoníacas, a descrição do batismo, da eucaristia e da reunião do domingo, e as cartas imperiais anexadas à apologia.

Capítulo LIV. A origem da mitologia pagã

Mas os que transmitem os mitos criados pelos poetas não apresentam prova alguma aos jovens que os aprendem; e nós passamos a demonstrar que eles foram proferidos por influência dos demônios perversos, para enganar e desencaminhar o gênero humano. Pois, tendo ouvido proclamar pelos profetas que o Cristo havia de vir e que os ímpios dentre os homens seriam castigados pelo fogo, apresentaram muitos para serem chamados filhos de Júpiter, julgando que conseguiriam fazer os homens pensar que as coisas ditas a respeito de Cristo eram meros contos maravilhosos, como as coisas ditas pelos poetas. E essas coisas foram ditas tanto entre os gregos como entre todas as nações em que eles [os demônios] ouviram os profetas predizerem que Cristo seria especialmente crido; mas que, ao ouvir o que era dito pelos profetas, não o entenderam com exatidão, e imitaram o que se dizia do nosso Cristo como homens que estão em erro, nós o deixaremos claro. O profeta Moisés, pois, era, como já dissemos, mais antigo do que todos os escritores; e por meio dele, como também dissemos antes, foi predito assim: “Não faltará príncipe de Judá, nem legislador de entre os seus pés, até que venha aquele a quem está reservado; e ele será o desejado das nações, amarrando o seu jumentinho à videira, lavando a sua veste no sangue da uva.”1 Os demônios, assim, quando ouviram essas palavras proféticas, disseram que Baco era filho de Júpiter, divulgaram que ele foi o descobridor da videira, incluem o vinho2 [ou: o jumento] entre os seus mistérios e ensinaram que, depois de ter sido despedaçado, ele subiu ao céu. E, como na profecia de Moisés não estava expressamente indicado se aquele que havia de vir era o Filho de Deus, nem se ele, montado no jumentinho, permaneceria na terra ou subiria ao céu, e como o nome “potro” podia significar tanto o filhote de jumenta como o de égua, eles, não sabendo se aquele que fora predito traria como sinal da sua vinda o filhote de jumenta ou o de égua, nem se era Filho de Deus, como dissemos acima, ou de homem, divulgaram que Belerofonte, homem nascido de homem, subiu ele mesmo ao céu no seu cavalo Pégaso. E, quando ouviram o outro profeta, Isaías, dizer que ele nasceria de uma virgem e por seus próprios meios subiria ao céu, alegaram que se falava de Perseu. E, quando conheceram o que foi dito, como se citou acima, nas profecias escritas outrora, “Forte como um gigante a percorrer o seu caminho”,3 disseram que Hércules era forte e tinha percorrido a terra inteira. E, quando souberam ainda que fora predito que ele curaria toda doença e ressuscitaria os mortos, apresentaram Esculápio.

Capítulo LV. Símbolos da cruz

Mas em nenhum caso, nem mesmo em nenhum dos chamados filhos de Júpiter, imitaram a crucificação; pois ela não foi entendida por eles, já que tudo o que se disse a respeito dela foi posto em linguagem simbólica. E isso, como o profeta predisse, é o maior símbolo do seu poder e do seu domínio, como também se prova pelas coisas que caem sob a nossa observação. Pois considerem todas as coisas do mundo, se sem esta forma poderiam ser administradas ou ter qualquer comunicação. Pois o mar não é atravessado se aquele troféu que se chama vela não estiver firme no navio; e a terra não é arada sem ela; os cavadores e os artesãos não fazem o seu trabalho senão com ferramentas que têm essa forma. E a forma humana não difere da dos animais irracionais em nada mais do que em ser ereta e ter as mãos estendidas, e ter no rosto, estendendo-se a partir da testa, o que se chama nariz, pelo qual se dá a respiração do ser vivo; e isso não mostra outra forma senão a da cruz. E assim foi dito pelo profeta: “O sopro diante do nosso rosto é o Senhor Cristo.”4 E o poder desta forma se mostra pelos símbolos de vocês mesmos, nos chamados “vexilla” [estandartes] e nos troféus, com os quais se fazem todos os bens do Estado de vocês, usando-os como insígnias do seu poder e governo, ainda que o façam sem perceber. E com esta forma vocês consagram as imagens dos seus imperadores quando morrem, e os chamam deuses por meio de inscrições. Visto, pois, que os exortamos tanto pela razão como por uma forma evidente, e na medida máxima da nossa capacidade, sabemos que agora estamos sem culpa, ainda que vocês não creiam; pois a nossa parte está feita e concluída.

Capítulo LVI. Os demônios ainda enganam os homens

Mas os espíritos maus não se contentaram em dizer, antes da manifestação de Cristo, que os que eram chamados filhos de Júpiter tinham nascido dele; mas, depois que ele apareceu e nasceu entre os homens, e quando souberam como fora predito pelos profetas, e reconheceram que ele seria crido e esperado por todas as nações, de novo, como se disse acima, apresentaram outros homens, os samaritanos Simão e Menandro, que fizeram muitas obras poderosas por magia, enganaram a muitos e ainda os mantêm enganados. Pois até entre vocês, como dissemos antes, Simão esteve na cidade imperial de Roma, no reinado de Cláudio César, e de tal modo assombrou o sacro senado e o povo dos romanos que foi tido por deus e honrado com uma estátua, como os outros que vocês honram como deuses. Por isso pedimos que o sacro senado e o povo de vocês, juntamente com vocês mesmos, sejam juízes deste nosso memorial, para que, se alguém estiver enredado nas doutrinas daquele homem, aprenda a verdade e assim possa escapar do erro; e, quanto à estátua, se quiserem, destruam-na.

Capítulo LVII. E causam perseguição

Nem podem os demônios persuadir os homens de que não haverá conflagração para castigo dos ímpios, assim como não conseguiram que Cristo ficasse oculto depois que veio. Mas só isto conseguem: que os que vivem irracionalmente, foram criados de modo licencioso em costumes perversos e estão presos às próprias opiniões nos matem e nos odeiem; a eles nós não só não odiamos, mas, como se comprova, nos compadecemos deles e procuramos levá-los ao arrependimento. Pois não tememos a morte, já que se reconhece que certamente havemos de morrer; e nada há de novo, mas todas as coisas continuam as mesmas nesta ordem das coisas; e, se a saciedade alcança os que desfrutam delas ainda que por um só ano, deveriam dar atenção às nossas doutrinas, para que vivam eternamente livres tanto do sofrimento como da necessidade. Mas, se creem que nada há depois da morte e declaram que os que morrem passam à insensibilidade, então se tornam nossos benfeitores quando nos livram dos sofrimentos e das necessidades desta vida, e mostram ser eles mesmos perversos, desumanos e intolerantes. Pois nos matam sem a intenção de nos libertar, mas nos eliminam para que sejamos privados da vida e do prazer.

Capítulo LVIII. E suscitam hereges

E, como dissemos antes, os demônios apresentaram Marcião do Ponto, que ainda agora ensina os homens a negar que Deus é o criador de todas as coisas no céu e na terra, e que o Cristo predito pelos profetas é seu Filho, e prega outro deus além do Criador de todos, e igualmente outro filho. E muitos creram nesse homem, como se só ele conhecesse a verdade, e riem de nós, embora não tenham prova alguma do que dizem, mas são arrastados irracionalmente como cordeiros por um lobo e se tornam presa de doutrinas ateias e dos demônios. Pois os que são chamados demônios não tentam outra coisa senão afastar os homens de Deus, que os criou, e de Cristo, seu primogênito; e os que não conseguem elevar-se acima da terra, eles os prenderam e ainda prendem às coisas terrenas e às obras das suas próprias mãos; mas os que se dedicam à contemplação das coisas divinas, eles os repelem secretamente; e, se estes não têm uma sábia sobriedade e uma vida pura e livre de paixões, eles os lançam na impiedade.

Capítulo LIX. A dívida de Platão para com Moisés

E, para que vocês saibam que foi dos nossos mestres (queremos dizer, do relato dado por meio dos profetas) que Platão tomou a sua afirmação de que Deus, tendo transformado a matéria informe, fez o mundo, ouçam as próprias palavras ditas por meio de Moisés, que, como mostramos acima, foi o primeiro profeta e mais antigo do que os escritores gregos; e por meio de quem o Espírito profético, indicando como e de que materiais Deus formou no princípio o mundo, falou assim: “No princípio, Deus criou o céu e a terra. A terra era invisível e desguarnecida, havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus se movia sobre as águas. E Deus disse: Haja luz! E assim foi” (Gn 1.1-3). De modo que tanto Platão e os que concordam com ele, como nós mesmos, aprendemos, e vocês também podem convencer-se, que pela palavra de Deus o mundo inteiro foi feito da substância mencionada antes por Moisés. E o que os poetas chamam Érebo, sabemos que foi mencionado antes por Moisés.5

Capítulo LX. A doutrina de Platão sobre a cruz

E a discussão de filosofia natural6 a respeito do Filho de Deus, no Timeu de Platão, onde ele diz: “Colocou-o em forma de cruz7 no universo”, ele a tomou igualmente de Moisés; pois nos escritos de Moisés se relata como naquele tempo, quando os israelitas saíram do Egito e estavam no deserto, depararam com animais venenosos, víboras, áspides e toda espécie de serpentes, que matavam o povo; e que Moisés, por inspiração e influência de Deus, tomou bronze, deu-lhe a figura de uma cruz, colocou-a no santo tabernáculo e disse ao povo: “Se olharem para esta figura e crerem, serão salvos por ela.”8 E, quando isso foi feito, registra-se que as serpentes morreram, e conta a tradição que o povo assim escapou da morte. Platão, lendo essas coisas e não as entendendo com exatidão, nem percebendo que era a figura da cruz, mas tomando-a por uma disposição em forma de X, disse que o poder que vem depois do primeiro Deus foi colocado em forma de X no universo. E, quanto a falar de um terceiro, ele o fez porque leu, como dissemos acima, o que foi dito por Moisés, “que o Espírito de Deus se movia sobre as águas” (Gn 1.2). Pois ele dá o segundo lugar ao Logos que está com Deus, o qual, disse ele, foi colocado em forma de X no universo; e o terceiro lugar ao Espírito, que se disse mover-se sobre a água, dizendo: “E o terceiro em torno do terceiro.”9 E ouçam como o Espírito profético indicou, por meio de Moisés, que haveria uma conflagração. Falou assim: “Descerá fogo eterno e devorará até o abismo lá embaixo.”10 Não é, pois, que nós tenhamos as mesmas opiniões que os outros, mas todos falam imitando as nossas. Entre nós essas coisas podem ser ouvidas e aprendidas de pessoas que nem sequer conhecem as formas das letras, que são incultas e bárbaras no falar, mas sábias e crentes no espírito; algumas, de fato, até aleijadas e privadas da vista; para que vocês compreendam que essas coisas não são efeito da sabedoria humana, mas são proferidas pelo poder de Deus.

Capítulo LXI. O batismo cristão

Vou relatar também a maneira como nos consagramos a Deus quando fomos renovados por meio de Cristo, para que, omitindo isso, não pareçamos desonestos na exposição que estamos fazendo. Todos os que se persuadem e creem que é verdade o que ensinamos e dizemos, e se comprometem a ser capazes de viver de acordo com isso, são instruídos a orar e a suplicar a Deus, com jejum, a remissão dos seus pecados passados, enquanto nós oramos e jejuamos com eles. Depois são levados por nós a um lugar onde há água, e são regenerados da mesma maneira como nós mesmos fomos regenerados. Pois em nome de Deus, o Pai e Senhor do universo, e do nosso Salvador Jesus Cristo, e do Espírito Santo, recebem então o banho na água. Pois Cristo também disse: “Se vocês não nascerem de novo, não entrarão no reino dos céus.”11 Ora, que é impossível aos que já nasceram uma vez entrar no ventre de suas mães, é evidente para todos. E como os que pecaram e se arrependem escaparão dos seus pecados é declarado pelo profeta Isaías, como escrevi acima;12 ele fala assim: “Lavem-se e purifiquem-se; tirem das suas almas a maldade dos seus atos; aprendam a fazer o bem; garantam o direito do órfão e defendam a causa da viúva; e venham, e vamos discutir a questão, diz o Senhor. E, ainda que os pecados de vocês sejam como o escarlate, eu os tornarei brancos como a lã; e, ainda que sejam como o carmesim, eu os tornarei brancos como a neve. Mas, se recusarem e forem rebeldes, a espada os devorará, porque a boca do Senhor o disse.”13

E para este [rito] aprendemos dos apóstolos a seguinte razão. Visto que, no nosso nascimento, nascemos sem o nosso conhecimento nem a nossa escolha, pela união dos nossos pais, e fomos criados em maus hábitos e numa educação perversa, para que não permaneçamos filhos da necessidade e da ignorância, mas nos tornemos filhos da escolha e do conhecimento, e obtenhamos na água a remissão dos pecados antes cometidos, pronuncia-se sobre aquele que escolhe nascer de novo e se arrependeu dos seus pecados o nome de Deus, o Pai e Senhor do universo; aquele que conduz ao banho a pessoa que vai ser lavada a chama somente por esse nome. Pois ninguém pode pronunciar o nome do Deus inefável; e, se alguém ousar dizer que há um nome, delira com uma loucura sem remédio. E esse banho se chama iluminação, porque os que aprendem essas coisas são iluminados no entendimento. E é em nome de Jesus Cristo, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, e em nome do Espírito Santo, que por meio dos profetas predisse todas as coisas a respeito de Jesus, que aquele que é iluminado é lavado.

Capítulo LXII. A sua imitação pelos demônios

E os demônios, de fato, tendo ouvido esse banho anunciado pelo profeta, instigaram os que entram nos seus templos e estão para se aproximar deles com libações e holocaustos a também se aspergirem; e fazem-nos também lavar-se inteiramente, quando se retiram [do sacrifício], antes de entrarem nos santuários em que estão colocadas as suas imagens. E também a ordem dada pelos sacerdotes aos que entram e adoram nos templos, de tirarem os calçados, os demônios a deram por imitação, sabendo o que aconteceu ao profeta Moisés acima mencionado. Pois naquela ocasião, quando Moisés recebeu ordem de descer ao Egito e tirar de lá o povo dos israelitas que ali estava, e enquanto apascentava os rebanhos do seu tio materno14 na terra da Arábia, o nosso Cristo conversou com ele sob a aparência de fogo, de dentro de uma sarça, e disse: “Tire as sandálias, aproxime-se e ouça” (Êx 3.5). E ele, tendo tirado as sandálias e se aproximado, ouviu que devia descer ao Egito e tirar dali o povo dos israelitas; e recebeu grande poder de Cristo, que lhe falou na aparência de fogo, e desceu e tirou o povo, tendo feito coisas grandes e maravilhosas; as quais, se vocês desejarem conhecer, aprenderão com exatidão nos seus escritos.

Capítulo LXIII. Como Deus apareceu a Moisés

E todos os judeus ainda hoje ensinam que foi o Deus sem nome que falou a Moisés; por isso o Espírito profético, acusando-os por meio do profeta Isaías acima mencionado, disse: “O boi conhece o seu dono, e o jumento, a manjedoura do seu senhor; mas Israel não me conhece, e o meu povo não entende.”15 E Jesus, o Cristo, porque os judeus não sabiam o que era o Pai e o que era o Filho, igualmente os acusou; e ele mesmo disse: “Ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho; nem o Filho, a não ser o Pai e aqueles a quem o Filho o revela.”16 Ora, o Verbo de Deus é o seu Filho, como dissemos antes. E ele é chamado Anjo e Apóstolo; pois anuncia tudo o que devemos saber, e é enviado para declarar tudo o que é revelado; como o próprio Senhor nosso diz: “Quem me ouve ouve aquele que me enviou.”17 Também pelos escritos de Moisés isso ficará evidente; pois neles está escrito assim: “E o Anjo de Deus falou a Moisés numa chama de fogo, do meio da sarça, e disse: Eu sou o que sou, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, o Deus de Jacó, o Deus dos seus pais; desça ao Egito e tire de lá o meu povo.”18 E, se vocês quiserem saber o que vem depois, podem sabê-lo pelos mesmos escritos; pois é impossível relatar aqui tudo. Mas isto foi escrito para provar que Jesus, o Cristo, é o Filho de Deus e seu Apóstolo, sendo desde a antiguidade o Verbo, e aparecendo ora na forma de fogo, ora na semelhança de anjos; mas agora, pela vontade de Deus, tendo-se feito homem pelo gênero humano, suportou todos os sofrimentos que os demônios instigaram os judeus insensatos a infligir-lhe; os quais, embora tenham nos escritos de Moisés a afirmação expressa: “E o anjo de Deus falou a Moisés numa chama de fogo numa sarça, e disse: Eu sou o que sou, o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó” (Êx 3.2, 6, 14), ainda assim sustentam que aquele que disse isso era o Pai e Criador do universo. Por isso também o Espírito profético os repreende e diz: “Israel não me conhece, o meu povo não me entendeu.”19 E de novo Jesus, como já mostramos, quando estava com eles, disse: “Ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho; nem o Filho, a não ser o Pai e aqueles a quem o Filho o quiser revelar.”20 Os judeus, portanto, sendo sempre de opinião que foi o Pai do universo quem falou a Moisés, quando aquele que lhe falou era de fato o Filho de Deus, que é chamado tanto Anjo como Apóstolo, são com justiça acusados, tanto pelo Espírito profético como pelo próprio Cristo, de não conhecerem nem o Pai nem o Filho. Pois os que afirmam que o Filho é o Pai mostram que nem conheceram o Pai, nem sabem que o Pai do universo tem um Filho; o qual, sendo também o Verbo primogênito de Deus, é também Deus. E outrora ele apareceu na forma de fogo e na semelhança de um anjo a Moisés e aos outros profetas; mas agora, nos tempos do reinado de vocês, tendo-se feito homem por meio de uma virgem, como dissemos antes, segundo o desígnio do Pai, para a salvação dos que creem nele, suportou ser desprezado e sofrer, para que, morrendo e ressuscitando, vencesse a morte. E o que foi dito a Moisés de dentro da sarça, “Eu sou o que sou, o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó, e o Deus dos pais de vocês”,21 significava que eles, embora mortos, ainda existem e são homens que pertencem ao próprio Cristo. Pois foram os primeiros de todos os homens a se ocupar da busca de Deus; Abraão sendo o pai de Isaque, e Isaque, de Jacó, como Moisés escreveu.

Capítulo LXIV. Outras deturpações da verdade

Pelo que já foi dito, vocês podem entender como os demônios, imitando o que foi dito por Moisés, afirmaram que Prosérpina era filha de Júpiter, e instigaram o povo a erigir uma imagem dela, sob o nome de Core [Cora, isto é, a donzela ou filha], junto às nascentes. Pois, como escrevemos acima,22 Moisés disse: “No princípio, Deus fez o céu e a terra. A terra era sem forma e desguarnecida, e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas” (Gn 1.1-2). Por imitação, portanto, do que aqui se diz do Espírito de Deus movendo-se sobre as águas, disseram que Prosérpina [ou Cora] era filha de Júpiter.23 E do mesmo modo também fingiram astutamente que Minerva era filha de Júpiter, não por união sexual, mas, sabendo que Deus concebeu e fez o mundo pelo Verbo, dizem que Minerva é o primeiro pensamento [ennoia]; o que consideramos muito absurdo, apresentar a forma do pensamento numa figura feminina. E do mesmo modo as ações dos outros que são chamados filhos de Júpiter bastam para condená-los.

Capítulo LXV. A administração dos sacramentos

Mas nós, depois de assim termos lavado aquele que se convenceu e deu o seu assentimento ao nosso ensino, o levamos ao lugar onde estão reunidos os que se chamam irmãos, para fazermos em comum orações fervorosas por nós mesmos, pela pessoa batizada [iluminada] e por todos os outros em toda parte, para que, tendo aprendido a verdade, sejamos considerados dignos de ser achados, também pelas nossas obras, bons cidadãos e guardiães dos mandamentos, de modo que sejamos salvos com a salvação eterna. Terminadas as orações, saudamo-nos uns aos outros com um beijo.24 Traz-se então ao presidente dos irmãos25 pão e um cálice de vinho misturado com água; e ele, tomando-os, dá louvor e glória ao Pai do universo, pelo nome do Filho e do Espírito Santo, e oferece longamente ações de graças por termos sido considerados dignos de receber essas coisas das suas mãos. E, quando ele termina as orações e ações de graças, todo o povo presente expressa o seu assentimento dizendo: Amém. Esta palavra, Amém, corresponde na língua hebraica a genoito [assim seja]. E, depois que o presidente deu graças e todo o povo expressou o seu assentimento, os que entre nós se chamam diáconos dão a cada um dos presentes para participar do pão e do vinho misturado com água sobre os quais foi pronunciada a ação de graças, e aos ausentes levam uma porção.

Capítulo LXVI. Da eucaristia

E este alimento se chama entre nós Eucharistia26 [a Eucaristia], do qual a ninguém é permitido participar senão àquele que crê que são verdadeiras as coisas que ensinamos, que foi lavado com o banho que é para a remissão dos pecados e para a regeneração, e que vive assim como Cristo ordenou. Pois não os recebemos como pão comum nem como bebida comum; mas, do mesmo modo como Jesus Cristo, nosso Salvador, tendo-se feito carne pelo Verbo de Deus, teve carne e sangue para a nossa salvação, assim também fomos ensinados que o alimento abençoado pela oração da sua palavra, e do qual o nosso sangue e a nossa carne são nutridos por transformação, é a carne e o sangue daquele Jesus que se fez carne.27 Pois os apóstolos, nas memórias compostas por eles, que se chamam Evangelhos, assim nos transmitiram o que lhes foi ordenado: que Jesus tomou o pão e, tendo dado graças, disse: “Façam isto em memória de mim;28 isto é o meu corpo”; e que, do mesmo modo, tendo tomado o cálice e dado graças, disse: “Isto é o meu sangue” (Mt 26.28); e o deu somente a eles. O que os demônios perversos imitaram nos mistérios de Mitra, ordenando que se fizesse a mesma coisa. Pois vocês sabem, ou podem saber, que o pão e um cálice de água são colocados, com certas fórmulas mágicas, nos ritos místicos de quem está sendo iniciado.

Capítulo LXVII. O culto semanal dos cristãos

E depois disso continuamente lembramos uns aos outros essas coisas. E os ricos entre nós ajudam os necessitados; e estamos sempre juntos; e por todas as coisas com que somos supridos bendizemos o Criador de todas as coisas por meio do seu Filho Jesus Cristo e do Espírito Santo. E no dia chamado domingo,29 todos os que vivem nas cidades ou no campo se reúnem num mesmo lugar, e leem-se as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas, enquanto o tempo permite; depois, quando o leitor termina, o presidente instrui de viva voz e exorta à imitação dessas coisas boas. Então todos nos levantamos juntos e oramos e, como dissemos antes, terminada a nossa oração, trazem-se pão, vinho e água, e o presidente igualmente oferece orações e ações de graças, segundo a sua capacidade,30 e o povo dá o seu assentimento, dizendo: Amém; e há uma distribuição a cada um, e uma participação daquilo sobre o que se deram graças,31 e aos ausentes se envia uma porção pelos diáconos. E os que têm recursos e querem dão o que cada um julga conveniente; e o que se recolhe é depositado junto ao presidente, que socorre os órfãos e as viúvas, e os que por doença ou qualquer outra causa estão em necessidade, e os que estão presos, e os estrangeiros que residem entre nós; e, numa palavra, cuida de todos os que estão em necessidade. Mas o domingo é o dia em que todos fazemos a nossa reunião comum, porque é o primeiro dia, aquele em que Deus, tendo transformado as trevas e a matéria, fez o mundo; e Jesus Cristo, nosso Salvador, no mesmo dia ressuscitou dentre os mortos. Pois foi crucificado no dia anterior ao de Saturno (sábado); e no dia seguinte ao de Saturno, que é o dia do Sol, tendo aparecido aos seus apóstolos e discípulos, ensinou-lhes estas coisas, que também submetemos à consideração de vocês.

Capítulo LXVIII. Conclusão

E, se estas coisas lhes parecem razoáveis e verdadeiras, honrem-nas; mas, se parecem tolices, desprezem-nas como tolices, e não decretem a morte contra os que não fizeram mal algum, como fariam contra inimigos. Pois nós os prevenimos de que vocês não escaparão do juízo vindouro de Deus, se continuarem na sua injustiça; e nós mesmos os convidaremos a fazer o que é agradável a Deus. E, embora pela carta do grandíssimo e ilustríssimo imperador Adriano, pai de vocês, pudéssemos exigir que mandassem julgar como pedimos, não fizemos este apelo e esta exposição com base na decisão de Adriano, mas porque sabemos que o que pedimos é justo. E anexamos a cópia da epístola de Adriano, para que saibam que falamos a verdade sobre isso. E a cópia é a seguinte:

Epístola de adriano32 em favor dos cristãos

Recebi a carta que me foi dirigida pelo seu predecessor, Serênio Graniano, homem ilustríssimo; e não quero passar em silêncio esta comunicação, para que pessoas inocentes não sejam perturbadas, nem se dê aos delatores ocasião de praticar vilanias. Portanto, se os habitantes da sua província quiserem sustentar esta petição a ponto de acusar os cristãos em algum tribunal, não os proíbo de fazê-lo. Mas não permitirei que se sirvam de meras súplicas e clamores. Pois é muito mais justo, se alguém deseja fazer uma acusação, que você julgue o caso. Se, portanto, alguém fizer a acusação e apresentar provas de que os referidos homens fazem algo contrário às leis, você determinará as penas em proporção aos delitos. E a isto, por Hércules, você dará especial atenção: se alguém, por mera calúnia, apresentar acusação contra qualquer dessas pessoas, você lhe aplicará penas mais severas, em proporção à sua perversidade.

Epístola de Antonino à assembleia comum da Ásia

O imperador César Tito Élio Adriano Antonino Augusto Pio, Sumo Pontífice, no décimo quinto ano do seu poder tribunício, cônsul pela terceira vez, Pai da pátria, à Assembleia Comum da Ásia, saudações. Eu pensaria que os próprios deuses cuidariam de que tais culpados não escapassem. Pois, se tivessem poder, eles mesmos castigariam muito mais os que se recusam a adorá-los; mas são vocês que trazem aflição a essas pessoas e acusam como opinião de ateus aquilo que elas sustentam, e lhes imputam certas outras coisas que não podemos provar. Mas seria vantajoso para elas que se pensasse que morrem por aquilo de que são acusadas, e elas os vencem sendo pródigas da própria vida, em vez de prestar a obediência que vocês lhes exigem. E, quanto aos terremotos que já aconteceram e estão acontecendo agora, não é conveniente que vocês nos lembrem deles, desanimando sempre que acontecem, e assim ponham a conduta de vocês em contraste com a desses homens; pois eles têm muito maior confiança em Deus do que vocês mesmos. E vocês, de fato, parecem nessas ocasiões ignorar os deuses, descuidam dos templos e não reconhecem o culto de Deus. E por isso têm inveja dos que o servem e os perseguem até a morte. A respeito de tais pessoas, também alguns outros governadores de províncias escreveram ao meu diviníssimo pai; e ele lhes respondeu que de modo algum perturbassem tais pessoas, a não ser que se descobrisse que tentavam algo contra o governo romano. E a mim mesmo muitos enviaram informações a respeito de tais pessoas, e também eu lhes respondi seguindo o parecer de meu pai. Mas, se alguém tiver alguma questão a apresentar contra qualquer pessoa dessa classe, simplesmente por ser tal pessoa,33 que o acusado seja absolvido da acusação, ainda que se descubra que é tal pessoa; mas que o acusador responda perante a justiça.

Epístola de Marco Aurélio ao senado, na qual ele testemunha que os cristãos foram a causa da sua vitória

O imperador César Marco Aurélio Antonino, Germânico, Pártico, Sarmático, ao Povo de Roma e ao sacro Senado, saudações. Expliquei a vocês o meu grande plano e as vantagens que obtive nas fronteiras da Germânia, com muito trabalho e sofrimento, por ter ficado cercado pelo inimigo, estando eu mesmo encurralado em Carnunto por setenta e quatro coortes, a nove milhas de distância. E, estando o inimigo perto, os batedores nos indicaram, e o nosso general Pompeiano nos mostrou, que havia junto de nós uma massa de multidão mista de 977.000 homens, a qual de fato vimos; e eu estava encurralado por essa enorme hoste, tendo comigo apenas um batalhão composto da primeira, da décima, da dupla e da legião naval. Tendo então examinado a minha própria posição e a minha tropa em relação à enorme massa de bárbaros e de inimigos, recorri prontamente à oração aos deuses da minha pátria. Mas, sendo desatendido por eles, convoquei os que entre nós têm o nome de cristãos. E, tendo feito investigação, descobri um grande número e uma vasta multidão deles, e enfureci-me contra eles, o que de modo algum era conveniente; pois depois conheci o poder deles. Por isso começaram a batalha não preparando armas, nem armaduras, nem trombetas; pois tal preparação lhes é odiosa, por causa do Deus que levam na consciência. Por isso é provável que aqueles que supomos ser ateus tenham Deus como poder soberano entrincheirado na sua consciência. Pois, lançando-se ao chão, oraram não só por mim, mas também por todo o exército tal como estava, para que fossem livrados da sede e da fome presentes. Pois durante cinco dias não tínhamos conseguido água, porque não havia; estávamos no coração da Germânia e em território inimigo. E, ao mesmo tempo que eles se lançavam ao chão e oravam a Deus (um Deus que eu desconheço), caiu água do céu, sobre nós refrescantemente fria, mas sobre os inimigos de Roma um granizo devastador.34 E imediatamente reconhecemos a presença de Deus, que se seguiu à oração, um Deus invencível e indestrutível. Fundamentados nisso, portanto, perdoemos os que são cristãos, para que não peçam e obtenham uma arma assim contra nós mesmos. E aconselho que nenhuma pessoa assim seja acusada pelo fato de ser cristã. Mas, se for achado alguém imputando a um cristão que ele é cristão, desejo que fique manifesto que aquele que é acusado como cristão, e reconhece que o é, não é acusado de nada mais senão apenas disto, de que é cristão; mas que aquele que o denuncia seja queimado vivo. E desejo ainda que aquele a quem está confiado o governo da província não obrigue o cristão que confessa e atesta tal coisa a retratar-se, nem o mande para a prisão. E desejo que estas coisas sejam confirmadas por um decreto do Senado. E ordeno que este meu édito seja publicado no Fórum de Trajano, para que possa ser lido. O prefeito Vitrásio Polião cuidará de que seja transmitido a todas as províncias ao redor, e de que ninguém que deseje usá-lo ou possuí-lo seja impedido de obter uma cópia do documento que agora publico.

Notas

1. Gn 49.10-11.

2. No manuscrito a leitura é oinon (vinho); mas, como o argumento de Justino parece exigir onon (jumento), Sylburg inseriu esta última palavra na sua edição; e essa leitura é aprovada por Grabe e Thirlby, e adotada por Otto e Trollope. Pode-se acrescentar que anagraphousi convém muito mais a onon do que a oinon.

3. Sl 19.5.

4. De Lm 4.20 (Septuaginta).

5. Comparar Dt 32.22.

6. Literalmente: “aquilo que é tratado fisiologicamente”.

7. Ele o imprimiu como um chiasma, isto é, na forma da letra chi, sobre o universo. Platão está falando da alma do universo.

8. Nm 21.8.

9. Ta de trita peri ton triton.

10. Dt 32.22.

11. Jo 3.3, 5.

12. Capítulo XLIV.

13. Is 1.16-20.

14. Thirlby conjectura que Justino aqui confundiu em sua mente as histórias de Moisés e de Jacó.

15. Is 1.3.

16. Mt 11.27.

17. Lc 10.16.

18. Êx 3.2, 6, 10, 14-15.

19. Is 1.3.

20. Mt 11.27.

21. Êx 3.6, 14-15.

22. Capítulo LIX.

23. E por isso a fizeram presidir sobre as águas, como acima.

24. O ósculo da caridade, o ósculo da paz, ou “a paz” (he eirene), foi recomendado pelo apóstolo Paulo nas suas epístolas aos coríntios, aos tessalonicenses e aos romanos, e daí passou a uso cristão comum. Continuou na Igreja ocidental, com regras para evitar abusos, até o século XIII. Stanley observa, em Corinthians, i. 414: “Ele continua ainda no culto da Igreja copta.”

25. to proestoti ton adelphon. Esta expressão pode ser traduzida com toda legitimidade por “àquele dentre os irmãos que presidia”.

26. Literalmente, ação de graças. Ver Mt 26.27.

27. Esta passagem é reivindicada igualmente por calvinistas, luteranos e católicos romanos; e, de fato, a linguagem é tão imprecisa que cada partido pode sustentar de modo plausível que ela defende a sua própria opinião. A expressão “a oração da sua palavra”, ou da palavra que recebemos dele, parece significar a oração pronunciada sobre os elementos, à imitação da ação de graças do nosso Senhor antes de partir o pão.

28. Lc 22.19.

29. te tou Eliou legomene hemera.

30. hose dunamis auto, expressão sobre a qual tem havido muita controvérsia, mas que parece não admitir outro sentido além do que foi dado acima.

31. Ou: dos elementos eucarísticos.

32. Dirigida a Minúcio Fundano.

33. Isto é, se alguém acusar um cristão simplesmente por ele ser cristão.

34. Literalmente, “ígneo”.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Marcus Dods e George Reith na coleção Ante-Nicene Fathers, vol. 1 (Buffalo, 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. Os originais são gregos: esta é, portanto, tradução de tradução. As notas são dos tradutores ingleses; as do editor americano foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Justino cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.