William Arthur · A Língua de Fogo · Capítulo VI

Efeitos ministeriais do batismo de fogo

O dom de profecia, isto é, a pregação, e o cristianismo com a sua língua de fogo.

Capítulo VI

Efeitos ministeriais do batismo de fogo

I. O dom de profecia: a pregação

Em ligação imediata com o dom de línguas houve um dom menos surpreendente como fenômeno, porém mais influente como instrumento para a recuperação da humanidade. Pedro logo foi chamado a anunciar publicamente a grande mensagem do Senhor. Então, sem dúvida, ele não falou em nenhuma língua estrangeira, mas no seu dialeto nativo. Ele já falara muitas vezes antes, mas nada de notável se registra da sua pregação ou dos seus efeitos. Agora ele é o mesmo homem, com o mesmo intelecto natural e os mesmos poderes naturais de fala; e, no entanto, é-lhe dada uma nova expressão, cujos efeitos se tornam imediatamente visíveis.

Nunca se reuniu um auditório como aquele diante do qual esse pobre pescador apareceu: judeus, com todos os preconceitos da sua raça; moradores de Jerusalém, com a lembrança do papel que haviam desempenhado pouco antes na crucificação de Jesus de Nazaré, reunidos na cidade das suas solenidades, zelosos da honra do seu templo e da sua lei; homens de diferentes nações, falando depressa e com veemência nas suas diferentes línguas; um em hebraico, zombando e dizendo: “Estão bêbados!” (At 2.13); outro perguntando em latim; outro discutindo em grego; outro maravilhando-se em árabe; e, além disso, uma Babel sem fim, expressando toda espécie de surpresa, dúvida e curiosidade. No meio de tal cena, o pescador se levanta; a sua voz atravessa o burburinho que domina toda a rua. Ele não tem língua de prata, pois dizem dele que é homem “iletrado e inculto” (At 4.13). A rudeza da sua fala galileia ainda o acompanha; contudo, embora fosse “iletrado e inculto” no sentido deles, quanto à cultura refinada, num sentido mais alto ele era um escriba bem instruído. Quanto à palavra de Deus, ele estivera durante três anos sob o ensino constante do Profeta de Nazaré, ouvindo dos seus lábios instrução na lei, nos Profetas e em todas as “profundezas de Deus” (1Co 2.10). Quaisquer que fossem, portanto, os outros pontos em que os doutos de Jerusalém pudessem achar Pedro em falta, nas Sagradas Escrituras ele estava mais bem preparado do que eles; pois, embora Cristo tenha escolhido os seus apóstolos entre os pobres, não nos deixou nenhum exemplo para que tentem ensinar a Bíblia aqueles que não a aprenderam bem.

Contudo, Pedro não tinha língua de prata, nem língua de mel, nem fala macia e lisonjeira para acalmar os preconceitos e cativar as paixões da multidão. Nem tinha língua de trovão; nenhuma explosão de eloquência natural distinguia o seu discurso. Na verdade, alguns, se tivessem ouvido aquele discurso de lábios comuns, não teriam hesitado em chamá-lo de árido; alguns de uma classe numerosa demais, que não gosta de pregadores que lhes dão o trabalho de pensar, mas só aprecia os que deleitam a sua imaginação ou mexem com os seus sentimentos sem exigir nenhum esforço de pensamento. O sermão de Pedro não passa de citar passagens da Palavra de Deus e raciocinar sobre elas; contudo, à medida que ele avança nesse tom, a língua de fogo vai abrindo caminho, aos poucos, até os sentimentos da multidão. O murmúrio vai diminuindo; a turba se torna uma congregação; a voz do pescador percorre aquela multidão de ponta a ponta, sem ser interrompida por um único som; e, à medida que as palavras se precipitam, agem como uma torrente de fogo. Ora uma camada de preconceito que cobria os sentimentos é queimada e se desprende; ora outra, e mais outra; ora o fogo toca a camada mais íntima de preconceito, que estava colada ao coração, e também ela se desprende. Agora toca o vivo e queima a própria alma do homem! Logo se poderia pensar que naquela multidão havia uma só mente, a do pregador, que se multiplicara, se apoderara de milhares de corações e de milhares de corpos e derramava os seus próprios pensamentos através de todos eles. Por fim, vergonha, lágrimas e soluços se espalham por toda aquela assembleia. Aqui uma cabeça se curva; ali irrompe um gemido; mais adiante sobe um suspiro profundo; aqui caem lágrimas; e algum velho judeu severo, que não quer nem se curvar nem chorar, treme com o esforço para se manter imóvel. Por fim, das profundezas da multidão, a voz do pregador é cortada por um grito, como de quem “pranteia por um filho único”; e a ele responde outro grito, como de quem “chora amargamente pelo primogênito” (Zc 12.10). Diante desse grito, toda a multidão é arrebatada e, esquecida de tudo, exceto do sentimento avassalador do momento, exclama: “Que faremos, irmãos?” (At 2.37).

Nenhuma parte dos acontecimentos daquele dia nos causa impressão mais profunda ou mais duradoura do que a espantosa mudança em Pedro que aqui se manifesta. Estamos sempre inclinados a considerar o poder de um ministro como um poder natural, simplesmente intelectual. Aqui estava um homem que, com toda a probabilidade, já passara da fase da vida em que a eloquência tem mais força, sem ter se distinguido por nenhum poder desse tipo. Ele se apresenta com uma mensagem extremamente indesejada, para falar a um auditório desfavorável, ele mesmo sem prática nas artes da oratória; e, contudo, tal é o poder de expressão que lhe é dado que ele produz um efeito como nunca se vira antes na história da humanidade. Nunca se registrou nenhum outro caso em que três mil homens tenham sido persuadidos, numa hora, por alguém da sua própria nação, de origem obscura e posição sem influência, a abrir mão dos preconceitos da sua juventude, do favor do seu povo e da religião dos seus pais. “Eu serei com a sua boca” (Êx 4.12) se cumpre aqui, nesses efeitos extraordinários da fala de um homem comum, de modo mais impressionante do que em qualquer outra forma em que o poder de Deus pudesse manifestar-se por meio de uma língua humana. Não há parte de toda essa série de acontecimentos que tenha relação mais direta com a obra permanente da igreja cristã.

Este é o primeiro exemplo de profecia no sentido do Novo Testamento; não no sentido restrito de predizer, mas no sentido mais amplo de anunciar uma mensagem de Deus, sob o impulso do Espírito de Deus e com o seu auxílio. Nisso, quem fala tem a dupla vantagem de uma verdade comprovada a anunciar, verdade que o seu próprio entendimento recebeu e que ele pode reforçar citando a Palavra de Deus, e de um auxílio direto do Espírito ao proferi-la. Esse dom é colocado por Paulo, de modo destacado, acima do de línguas: “Quem profetiza é superior ao que fala em línguas” (1Co 14.5). O dom de línguas era “um sinal para os que não creem” (1Co 14.22); e, mesmo para estes, apenas em certas circunstâncias: quando lhes falavam numa língua que eles entendiam, e isso por alguém de quem tinham prova, ou algo que equivalia a forte probabilidade, de que não a aprendera de modo natural. Para a união desses dois requisitos, nada era tão favorável quanto o encontro de muitos estrangeiros numa só cidade, ouvindo naturais do país falar todas as suas diferentes línguas. Um estrangeiro que aparecesse numa cidade e afirmasse falar a língua dela por milagre ficaria sob a suspeita de tê-la aprendido antes de chegar; e pessoas que falassem línguas estrangeiras na presença dos seus próprios conterrâneos sem instrução pareceriam proferir algaravia. Paulo expõe isso com força aos coríntios: “Assim, se toda a igreja se reunir no mesmo lugar e todos se puserem a falar em línguas, no caso de entrarem pessoas não instruídas ou não crentes, será que não vão dizer que vocês estão loucos?” (1Co 14.23).

Se algumas pessoas em Corinto tivessem um dom em hebraico ou em latim, e os seus concidadãos, que só sabiam grego, viessem e ouvissem uma torrente de sons sem sentido, e lhes dissessem que aquilo era um milagre, poderia até ser, mas para eles não era milagre. Se vissem um camponês africano falando grego fluentemente, então, sim, ficariam espantados; e, uma vez assegurados por qualquer meio de que ele não o aprendera, reconheceriam um milagre.

Mas o efeito de pessoas residentes num lugar usarem o dom de línguas só poderia ser convencer os eruditos de um milagre. Para os indoutos, seria simplesmente desconcertante. Suponhamos que, na cidade de Oxford, os pedreiros, marceneiros e sapateiros ouvissem alguns dos seus companheiros proferindo algo em latim: ficariam apenas com a impressão de que eles tinham enlouquecido ou se divertiam com algaravia. Mas, se os eruditos da Universidade encontrassem esses grupos discorrendo sobre as doutrinas do evangelho na língua antiga da Roma antiga, que eles haviam passado a vida estudando e trabalhando para dominar perfeitamente, ficariam tomados pelo sentimento do prodígio. Em todo o capítulo catorze da Primeira Epístola aos Coríntios, Paulo admite que o dom de línguas causaria impressão nos eruditos; mas que os indoutos, se fossem crentes, não seriam edificados e, se fossem incrédulos, seriam levados a zombar.

Ao dom superior de profecia ele atribui duas funções que o de línguas jamais poderia cumprir. Uma é a edificação dos crentes; e, por isso, ele insiste muito com os coríntios para que busquem esse dom. A outra é o seu efeito sobre o incrédulo sem instrução: “Se todos profetizarem, e entrar ali um não crente ou não instruído, ele será convencido por todos e julgado por todos. Os segredos que ele tem no coração se tornarão manifestos, e, assim, prostrando-se com o rosto em terra, adorará a Deus, testemunhando que Deus está, de fato, no meio de vocês” (1Co 14.24-25). Aqui está um homem que não conhece senão uma língua e que não tem fé na missão divina dos cristãos; contudo, ele entra numa assembleia onde se fala na sua própria língua. Essa língua, quanto às palavras, lhe é familiar desde a infância; mas agora as suas palavras transmitem ideias novas, e essas ideias vêm acompanhadas de um poder estranho, que penetra, desnuda e sonda o seu coração. Parece-lhe que Deus o descobriu e contou a outro homem tudo a respeito dele: os seus pecados ocultos, as impurezas do seu íntimo e atos encobertos que até já tinham sido esquecidos, mas que agora são trazidos estranhamente de novo diante dos seus olhos. Uma impressão inexplicável da presença de Deus, de uma mensagem, de uma advertência, de um chamado de Deus, desce ao fundo da sua alma. Ele sente, como nunca sentira antes: “O Senhor está neste lugar” (Gn 28.16); e, prostrando-se com o rosto em terra, esquecido das aparências e indiferente às consequências, arriscando a sua paz temporal e expondo-se a todo tipo de comentário, adora, na amargura do arrependimento, um Deus ofendido, mas que perdoa, e sai para contar àqueles com quem tem contato que as pessoas cujas palavras sondaram o seu coração e tornaram manifestos os seus segredos devem ter Deus no meio delas. Esse era o dom de profecia, no sentido em que o termo é geralmente empregado no Novo Testamento. Ele difere da profecia no sentido comum porque o dom não transmite nenhuma “revelação”, nem de verdades até então não reveladas, nem de acontecimentos futuros. Difere do dom de línguas porque o intelecto e os órgãos agem segundo leis naturais, embora sob uma influência sobrenatural. É o dom pelo qual toda a natureza do homem opera em cooperação com o Espírito Santo: o intelecto iluminado pela luz divina, as faculdades morais vivificadas pelo sentimento divino e os órgãos físicos falando com poder divino. O apóstolo o coloca como o dom mais alto, aquele em que o homem está em comunhão mais estreita com Deus como seu instrumento inteligente para a sua obra mais santa: a obra de chamar os filhos pródigos de volta aos seus braços e de formar os filhos fracos até a força e a firmeza. Esse dom era o de utilidade mais direta, capaz da aplicação mais universal e destinado a ser permanente; igualmente necessário para a conversão dos pecadores e para a edificação da igreja; e, por isso, deveria ser sempre mantido em vista pela igreja como objeto especial de oração. Pois, se ele cessar, o cristianismo se reduz a um agente natural de melhoria social, favorecido com doutrinas sobre-humanas, mas desprovido de um poder sobre-humano.

Se a pregação do evangelho há de exercer grande poder sobre a humanidade, isso tem de se dar ou pelo alistamento de homens extraordinários, ou pela concessão de um poder extraordinário a homens comuns. Acontece muitas vezes que homens cuja eloquência comoveria e dominaria os ouvintes, qualquer que fosse o seu tema, dedicam todos os seus talentos ao evangelho; contudo, nesses casos, sempre se comprova que a impressão religiosa produzida na humanidade nunca se mede pelo brilho ou pela força natural da eloquência, mas sempre pelo grau em que o pregador está impregnado daquele algo indescritível que se costuma chamar de “unção”, isto é, a operação e o poder do Espírito. Por outro lado, acontece muitas vezes que um homem em cujos dons naturais não se descobre nada de extraordinário produz efeitos morais que, pela profundidade no momento e pela permanência, são totalmente desproporcionais aos seus poderes naturais. Ao ouvirem um homem assim e depois descobrirem os efeitos da sua pregação, as pessoas muitas vezes perguntam: “O que há no senhor Fulano que explique tais efeitos? Ouvimos muitos que são mais capazes, mais profundos, melhores teólogos, mais eloquentes, mais persuasivos; contudo, a pregação deste homem leva as pessoas ao arrependimento e a Deus.” Elas não conseguem descobrir a fonte do seu poder; e é precisamente esse fato que indica que ele é espiritual.

II. O cristianismo e a sua língua de fogo

No dia de Pentecostes, o cristianismo enfrentou o mundo como uma religião nova, e pobre, sem história, sem sacerdócio, sem escola, sem povo e sem patrono. Tinha apenas os seus dois sacramentos e a sua língua de fogo. Esta última era o seu único instrumento de ataque.

Tudo o que era antigo e venerável se levantou diante dele numa oposição compacta. Nenhuma paixão da turba, nenhuma teoria dos eruditos, nenhum interesse dos políticos o favorecia; nem ele bajulava ou procurava agradar a nenhum deles. Com a sua língua de fogo, atacou todo sistema existente e todo mau costume; e, por essa língua de fogo, abriu caminho, queimando, através de inúmeras formas de oposição. Quando perguntamos qual era o seu poder, não achamos outra resposta senão esta: “A língua de fogo”.

A respeito de um dos seus diáconos, Estêvão, diz-se que os seus inimigos não podiam resistir à sabedoria e ao poder com que ele falava. Nem todo discípulo tinha, como ele, o dom de profecia para derramar, numa expressão clara e abundante, o testemunho capaz de prender a atenção de conselhos nacionais e de confundir os sofismas de uma escola de debatedores; mas, cada um na sua esfera e no seu estilo, os cristãos daquele dia feliz se distinguiam entre os seus semelhantes por um estranho poder de anunciar as profundezas de Deus. Muitos deles iam, como André, que foi primeiro ao “seu próprio irmão, Simão” (Jo 1.41), e falavam aos seus parentes de Jesus, do perdão, da ressurreição dos mortos e do mundo vindouro, em termos que, por algum poder inexplicável, prendiam a atenção e entravam no coração. Outros iam, como os irmãos fizeram com Natanael, contando aos vizinhos e amigos que encontravam as grandes coisas da redenção, de modo que os preconceitos, até os mais fortes, muitas vezes se derretiam no fogo da sua fala. É verdade que nem sempre tinham êxito; mas quão maravilhoso foi, apesar disso, o seu êxito! Se os cristãos de hoje, ao falarem a pessoas cuja consciência, cujo credo e cujas primeiras impressões favorecem todas as palavras que eles dizem, tivessem ao menos aquela estranha influência que vencia a aversão mais arraigada, quão rápida e quão gloriosa seria a difusão da religião viva no país!

Esse poder de expressão é mencionado em todo o Novo Testamento, ao mesmo tempo, como dom de Deus e como a grande arma da igreja. Já observamos como, quando a oposição os ameaçou pela primeira vez, eles foram a Deus em oração fervorosa e pediram poder para anunciar a sua palavra com ousadia. Assim também, quando algum deles, em circunstâncias críticas, é capacitado de modo especial a anunciar e engrandecer a verdade, somos informados de que o faz “cheio do Espírito Santo” (At 4.8); e Paulo, que, embora não estivesse presente no dia de Pentecostes, recebeu a língua de fogo em grau muito notável, não considerava esse dom algo próprio da sua constituição, como os talentos naturais e a facilidade de falar. Entre os assuntos pelos quais pede as orações dos seus irmãos cristãos, ele menciona especialmente a “palavra”: “Orem em todo tempo no Espírito, com todo tipo de oração e súplica, e para isto vigiem com toda perseverança e súplica por todos os santos. E orem também por mim, para que, no abrir da minha boca, me seja dada a palavra, para com ousadia tornar conhecido o mistério do evangelho” (Ef 6.18-19). Repetidas vezes se põe diante de nós o fato de que essa expressão é dom direto de Deus; e não nos faltam vestígios do mesmo fato em tempos anteriores aos do cristianismo. Nos casos de Maria e de Isabel, nós as ouvimos, sob a influência do Espírito divino, proferir coisas grandes e gloriosas. Nos casos de Jeremias e de Isaías, vemos o Senhor fazer-se a força deles quanto à mensagem que lhes confiava; e, no caso de Moisés, o dom da fala lhe foi especialmente prometido, mas a sua fé falhou, e, por isso, outro teve de exercer aquele poder que, se ele tivesse crido, ele mesmo teria possuído plenamente.

Em toda a história dos cristãos primitivos, achamos vestígios do efeito produzido sobre os outros pelo testemunho que davam, mesmo quando o davam sob a pressão da perseguição pública e diante de perigo iminente. Sem imprensa, sem literatura, sem nenhum dos nossos meios modernos de influenciar as massas; entregues unicamente ao instrumento da língua, e nisso desprovidos da sabedoria do grego e da habilidade do escriba; raramente favorecidos com a oportunidade de falar repetidas vezes a numerosas assembleias das mesmas pessoas; sem prestígio, desprezíveis em número, rústicos nas maneiras e contrariados pelas circunstâncias; fortes apenas naquele atributo singular, o fogo invisível que os enchia, eles seguiram adiante, sempre adiante, convertendo o coração dos seus inimigos e promovendo o louvor do Senhor. A religião nunca, em época alguma, se sustentou senão por meio da língua de fogo. Somente onde alguns homens, mais ou menos impregnados desse poder primitivo, falaram as palavras do Senhor, “não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas ensinadas pelo Espírito” (1Co 2.13), os pecadores foram convertidos e os santos impelidos a uma vida mais santa. Em muitos períodos da história da igreja, à medida que esse dom se enfraqueceu, todas as vantagens naturais vieram substituí-lo: mais erudição, mais sistema, mais serenidade, mais profundidade de reflexão, tudo, enfim, o que, segundo as regras comuns do pensamento humano, garantiria à igreja cristã maior domínio sobre o intelecto da humanidade e daria aos seus argumentos em favor de uma vida santa uma eficácia mais poderosa. Contudo, sempre se comprovou que o ganho de tudo isso, quando acompanhado de uma diminuição do “fogo”, deixou a igreja menos eficiente; e as suas lições elaboradas e pesadas transformaram poucos em santos, ao passo que a sua simples língua de fogo havia continuamente erguido monumentos de maravilha. Isso não tem sido menos verdadeiro nos tempos modernos do que nos antigos.

Se o espantoso avivamento que caracterizou o século passado for visto apenas como um progresso natural de influências mentais, nenhuma análise conseguirá achar nele elementos de poder maiores do que os que muitas vezes existiram numa igreja corrompida e decadente, ou do que os que se encontram em muitas épocas em que nenhum efeito abençoado se produz. Homens igualmente eruditos, eloquentes, ortodoxos e instrutivos podem ser encontrados em muitas épocas do cristianismo. É totalmente impossível apontar uma razão natural pela qual Whitefield tenha sido o meio de converter tantos pecadores a mais do que outros homens. Sem nenhum traço de lógica, de filosofia ou de qualquer coisa digna de ser chamada de teologia sistemática, os seus sermões, vistos do ponto de vista intelectual, ocupam um lugar modesto entre esforços modestos. Voltando-nos, por outro lado, para o seu amigo Wesley, encontramos serenidade, clareza, lógica, teologia, discussão, definição, precisão, apelo, mas nada daquele poder prodigioso e inexplicável que o intelecto humano naturalmente associaria a movimentos tão espantosos como os que ocorreram sob a sua palavra. Nem a lógica de um nem a declamação do outro nos revelam o segredo do seu êxito. Há o bastante para explicar que os homens tenham sido comovidos, agitados ou convencidos; mas isso não explica que tenham vivido vidas santas dali em diante. Milhares de oradores de púlpito dominaram o seu auditório como o vento domina o trigo em pé; mas, no fim, os que mais se comoveram em nada diferiram do que eram antes. Um efeito de eloquência basta para explicar uma enorme quantidade de emoção no momento; mas atribuir a isso um poder moral pelo qual um homem, por toda a vida, vence os pecados que o assediam e adorna o seu nome com virtudes cristãs é zombar da natureza humana.

Por que esses homens teriam feito o que muitos outros, igualmente eruditos e capazes como teólogos e oradores, nunca fizeram? Deve ter havido neles um elemento de poder que a crítica não consegue descobrir. Que poder era esse? Deve ser julgado pela sua esfera e pelos seus efeitos. Onde ele agia? e o que produzia? Todo poder tem a sua própria esfera. O braço mais forte jamais convencerá o entendimento, o raciocínio mais vigoroso jamais levantará um peso, o raio de sol mais brilhante jamais atravessará uma chapa de ferro, nem o ímã mais poderoso moverá uma vidraça. A alma do homem tem regiões distintas, e aquilo que apenas convence o intelecto pode deixar as emoções intocadas; aquilo que apenas atua sobre as emoções pode deixar o entendimento insatisfeito; e aquilo que afeta a ambos pode ainda deixar as faculdades morais sem inspiração. O poder supremo do mensageiro de Deus é o poder sobre o homem moral; um poder que, quer se aproxime da alma pela via do intelecto, quer pela do afeto, de fato alcança o interior da alma. A esfera do verdadeiro poder cristão é o coração, o homem moral; e o resultado da sua ação não se distingue com segurança do da mera eloquência pela emoção instantânea, mas pelo fruto moral posterior. O poder que purifica o coração e produz uma vida santa é o poder do Espírito Santo. Pode vir por meio da lógica de Wesley, da declamação de Whitefield, ou do simples bom senso de uma criada humilde ou de um trabalhador braçal; mas, sempre que esse poder está em ação, ele penetra mais fundo na natureza humana do que qualquer simples raciocínio ou emoção. Talvez não traga tão depressa uma lágrima aos olhos, nem leve tão depressa o juízo a uma atitude de concordância; mas desperta no peito pensamentos sobre Deus, a eternidade, o pecado, a morte, o céu e o inferno; e os desperta não como meras ideias, opiniões ou artigos de fé, mas como imagens e ecos de coisas reais.

Podemos descobrir, em muitas partes do país onde muito se fez para dissipar as trevas e difundir a verdadeira religião, que alguns dos primeiros triunfos da graça se deveram inteiramente aos efeitos maravilhosos produzidos pelas conversas particulares, junto à lareira, de alguns cristãos humildes que haviam ido eles mesmos ao trono da graça e esperado ali até receberem o batismo de fogo. Na medida em que o poder desse único instrumento é desprezado e se confia em outros meios para ocupar o seu lugar, declina a verdadeira força da ação cristã; e pode-se dizer sem hesitação que, quando homens que exercem o ministério cristão manifestam de modo habitual e constante a sua desconfiança no poder do Espírito Santo para lhes dar expressão, eles renegam publicamente a verdadeira teoria da pregação cristã. Ela é, segundo a autoridade do seu Autor, a entrega de uma mensagem de Deus; uma mensagem por meio do homem, é verdade, mas entregue não com a ostentação da linguagem humana, nem sob a direção da sabedoria natural do homem; uma mensagem cujo efeito não depende do arranjo artístico, da escolha e da ordem das palavras, mas do grau em que a sua expressão está impregnada do Espírito Santo.

Tradução para o português a partir de William Arthur, The Tongue of Fire; or, The True Power of Christianity (1856), na edição de Londres (C. H. Kelly, c. 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.