William Arthur · A Língua de Fogo · Capítulo VII

Efeitos do batismo de fogo sobre o mundo (seções I a IV)

O Espírito cumprindo a sua grande função, o Criador como único restaurador do homem caído, os três mil pecadores convertidos e a renovação dos corações à imagem de Deus.

Capítulo VII

Efeitos do batismo de fogo sobre o mundo

I. O Espírito cumprindo a sua grande função

Quando a promessa do Espírito foi feita, o nosso Senhor deu a entender expressamente que a influência dele não ficaria restrita à igreja, mas que ele “convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo” (Jo 16.8). Só assim a igreja poderia estender-se além do número dos discípulos originais. Por meio dos dons concedidos a Pedro, o Espírito se moveu para cumprir a sua grande função no coração dos homens do mundo. Tanto os dons miraculosos quanto os ministeriais foram postos a serviço desse fim. O primeiro foi uma maravilha que despertou a curiosidade e depois o assombro, que reuniu uma multidão, primeiro agitada e por fim tomada de temor. Isso, porém, foi tudo o que ele fez. Se os acontecimentos do dia tivessem terminado com o simples efeito do milagre, talvez nenhum judeu se tivesse tornado cristão, e certamente nenhum pecador se teria tornado santo. O milagre preparou um auditório para o pregador; mas não o converteu, nem sequer o instruiu: ninguém ali conhecia a doutrina da encarnação e as suas gloriosas consequências quando Pedro se levantou para pregar. Tudo o que o dom de línguas fez foi produzir a impressão de que aqueles homens eram mensageiros de Deus. E nem isso ele produziu em todos; pois alguns zombaram, provavelmente gente do lugar, sobre quem o efeito das línguas estrangeiras se perdeu.

Toda a vantagem que Pedro, como pregador do cristianismo, tirou das evidências da sua religião, quando se levantou no dia de Pentecostes, resumia-se nisto: um grande número de homens estava reunido em estado de grande agitação, sob a impressão recente de um prodígio antes inimaginável e com uma forte suspeita de que o pregador e os seus companheiros eram provavelmente mestres vindos de Deus. A sua vantagem, em comparação com um pregador moderno, estava no frescor desse sentimento, no estado de abertura da mente logo depois que uma maravilha incontestável abrira passagem através de todos os preconceitos. As suas desvantagens estavam na relativa ignorância dos seus ouvintes, na descrença deles quanto à maioria dos pontos que ele queria lhes incutir, na quantidade de preconceito religioso e nacional que fortalecia essa descrença, no conjunto de interesses temporais que se levantava contra o seu apelo, no descrédito ligado à sua posição, na obscuridade da sua pessoa e no sotaque rústico da sua fala.

Pondo a sua única vantagem de um lado e as suas muitas desvantagens do outro, surge naturalmente a pergunta: teve ele mais vantagem com o milagre das línguas do que o pregador moderno tem com as evidências cristãs em geral? Seria difícil exagerar o valor daquele frescor de impressão em que ele encontrou os seus ouvintes; contudo, considerando todo o curso da natureza humana, o milagre, quer nas mãos de Moisés, quer nas dos profetas, quer nas do próprio Senhor, por mais poderoso que fosse como instrumento de impressão e como credencial de uma missão divina, nunca se mostrou um instrumento de regeneração moral para o povo.

Dos milagres de Pentecostes e de outros, de todo o conjunto das evidências cristãs, o pregador moderno tira a vantagem de um auditório que crê que as doutrinas que ele expõe são verdadeiramente a Palavra de Deus. Na consciência deles, ele tem muito mais a seu favor do que Pedro tinha na consciência dos seus ouvintes. Pedro tinha a vantagem de um sentimento novo e agitado; o pregador moderno tem a de falar mais de perto à consciência. Este muitas vezes pensa quanto se poderia realizar se ele tivesse ao menos algum sinal sobrenatural como o que deteve a multidão no dia de Pentecostes. O que Pedro teria pensado das suas perspectivas se, em vez de um auditório como o que teve, lhe tivesse sido oferecido um em que todos cressem que o seu Mestre era o Filho de Deus e que “debaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At 4.12)?

O efeito do milagre foi uma impressão geral favorável à origem divina da mensagem. Nesse ponto, o dom ministerial entrou em ação. Por uma capacidade de expor e argumentar a verdade com clareza, Pedro foi capacitado a pôr o entendimento dos seus ouvintes de posse da grande revelação de que Deus enviara o seu Filho para redimi-los. Por uma emoção sagrada, foi capacitado a conquistar a simpatia deles em favor de cada verdade, à medida que a apresentava. Uma exposição clara e sentida do evangelho era o seu dom ministerial; entendimento e impressão eram os seus efeitos.

O efeito conjunto do dom miraculoso e do ministerial resultou em atenção favorável, entendimento da verdade e inclinação para abraçá-la. Mas, se nenhum poder além do testemunho do milagre e do apelo do sermão tivesse tocado a alma dos ouvintes, que indivíduo, um só que fosse, teria abraçado uma verdade tão perigosa para a sua reputação e o seu conforto, por mais convencido que estivesse de que ela era de origem celestial e cheia de vantagens eternas? A inclinação para tal passo, despertada pelo ardor de Pedro, teria sido contrariada por muitas e poderosas inclinações do interesse e da natureza. Nada é mais comum do que a mente humana dar as costas a uma verdade firmemente crida como vinda de Deus, profundamente sentida como portadora de esperanças eternas, mas que exige o sacrifício dos prazeres presentes ou da amizade do mundo. A mera convicção nunca decide uma questão de conduta moral prática.

Mais fundo que o juízo, mais fundo que os sentimentos, está a sede do caráter humano, naquilo que é o mistério de todos os seres e de todas as coisas, naquilo que chamamos de sua “natureza”, sem saber onde ela está, o que é ou como exerce o seu poder. Tudo o que sabemos é que ela de fato exerce poder sobre as circunstâncias externas, dobrando-as todas na sua própria direção, ou quebrando os seus instrumentos contra aquilo que não pode dobrar. A natureza de uma bolota transforma orvalhos, ares, solos e raios de sol em carvalho; e, embora as circunstâncias possam destruir o seu poder, não podem desviá-lo enquanto ela sobrevive. Ela desafia homem, animal, terra e céu a fazê-la produzir olmo. O cultivo pode afetar a sua qualidade, e a poda, a sua forma; mas se ela produzirá carvalho, freixo ou olmo é uma questão em que nenhuma força externa pode entrar, uma questão não de circunstâncias, mas puramente de natureza. Mudar a natureza cabe ao Poder que originalmente a fixou.

No homem, os sentimentos e o intelecto estão para a natureza como, numa planta, os tecidos e as seivas: tiram dela o seu caráter e manifestam a sua inclinação, mas não são a natureza, embora sejam os meios pelos quais ela age sobre o mundo exterior e sofre a reação dele. A natureza não decide a excelência relativa do caráter entre os diferentes membros da mesma espécie: um carvalho pode ser muito mais forte que outro, uma rosa muito mais perfumada; um homem muito mais sábio ou mais generoso. A natureza do homem é essencialmente moral; e, quando o intelecto se eleva a alturas notáveis, depende da natureza moral que ele seja uma bênção ou uma maldição para a espécie, uma alegria ou um tormento para o indivíduo. É segundo a natureza moral que as faculdades intelectuais são dirigidas; e, no homem, muitas vezes de modo esbanjador, muitas vezes de modo nocivo, e, na grande maioria, por caminhos muito abaixo da sua capacidade. Assim como em todos os outros seres, também no homem a natureza escapa à nossa análise, fica fora da vista e desafia a nossa influência direta. Aproximamo-nos dela pelo intelecto ou pelos sentimentos; mas sempre com incerteza, sem nunca saber que poder invisível pode frustrar os nossos esforços mais cuidadosos.

II. Somente o Criador da natureza é capaz de restaurar o homem caído

É da natureza do homem caído preferir o prazer presente à perspectiva da felicidade eterna, o favor do mundo ao favor do Todo-Poderoso; amar a si mesmo e esquecer o seu Criador. Nos adultos, essa natureza está fortalecida pelos seus próprios desenvolvimentos, por hábitos e relações que tendem todos na sua própria direção. Quando a natureza de um homem produziu na meninice frutos de vício e de desgraça, quando os seus anos de maturidade responderam constantemente ao impulso dessa mesma natureza, e as suas relações atuais se baseiam todas num afastamento dos laços celestiais, levá-lo a uma conformidade imediata e permanente com um ideal divino de vida exige o Poder supremo do universo, o Poder que governa a natureza e, por meio dela, as circunstâncias. Ponham diante de todos os sábios e bons do mundo um único homem de trinta anos, ou mais, cuja vida tenha sido perversa ou mundana; mandem-nos, por uma palavra, uma advertência ou um apelo, transformá-lo infalivelmente, ali mesmo e naquele instante, num homem puro ou num homem piedoso; e cada um deles estará pronto a exclamar: “Por acaso sou Deus, para fazer isso?”

Dizer que o homem é criatura das circunstâncias é o mesmo que dizer que ele não tem natureza; pois onde há uma natureza há um poder, um poder do qual as circunstâncias muitas vezes são mero efeito, mas nunca senhoras. Que todas as circunstâncias debaixo do céu conspirem contra a força da natureza tal como está contida numa semente de espinheiro, e jamais poderão vencê-la: todos os jardineiros, adubos, calores e regas possíveis não conseguiriam fazê-la produzir abeto. Acumulem sobre ela todas as vantagens que a arte e a criação podem dar, e ela transformará tudo, constantemente, em espinheiro, irremediavelmente incapaz de se elevar acima da sua natureza.

Mudem o tratamento e procurem degradá-la, e a mesma superioridade da natureza sobre as circunstâncias continua a se manifestar. Vocês podem matá-la de fome, podem atrofiá-la ou crestá-la, mas nenhuma adversidade a fará degenerar em sarça; espinheiro apesar de todos os estímulos para cima, espinheiro apesar de todos os golpes para baixo; assim como nunca pode elevar-se acima da sua natureza, também nunca pode descer abaixo dela. As circunstâncias são criaturas das naturezas, e não as naturezas das circunstâncias.

Muitos dizem que a natureza humana é boa; se é assim, de onde vieram os males sociais? Pois a natureza humana é a única natureza moral naquela coisa corruptora chamada “sociedade”. Todo mau exemplo posto diante da criança de hoje é fruto da natureza humana. Ela foi plantada em todos os campos possíveis: entre as neves que nunca derretem; nas regiões temperadas e debaixo do equador; nas cidades populosas, nas florestas solitárias; nas antigas sedes da civilização, nas novas colônias; e em todos esses campos ela produziu, sem falhar uma única vez, uma colheita de pecados e de desgraças. Essa é a prova absoluta e irrefutável de que a natureza humana, no seu conjunto, é uma semente que produz pecados e desgraças.

Mas há uma prova mais perto do peito de cada um. Quando vocês pretendiam fazer o mal e já se tinham decidido por ele, algum instinto lhes disse que eram incapazes e que deviam buscar auxílio sobrenatural para levar a cabo a sua intenção? Nunca. Vocês sentiram que avançar era não apenas fácil, mas quase irresistível; era, na verdade, ceder à natureza.

Quando vocês se decidiram a vencer as más inclinações e a fazer o bem, e somente o bem, não lhes ensinou um instinto, tão infalível quanto aquele pelo qual o bebê procura o seio da mãe, a buscar ajuda, ajuda interior, ajuda contra vocês mesmos? A decisão de fazer o mal encontra vocês fortes na sua própria força; a decisão de vencer o mal e fazer o bem os põe de joelhos, ou os faz clamar: “Deus, ajuda-me!” Se é assim, vocês não precisam consultar os livros de ninguém para saber para que lado a sua natureza se inclina.

O homem é o único ser ao alcance do nosso conhecimento que tem uma natureza claramente antinatural. Essa linguagem não é paradoxal pelo gosto do paradoxo, mas para descrever com rigor um fato doloroso. É natural uma natureza que pode ser mudada sem destruir a identidade? A do homem pode ser mudada, e não apenas deixar intacta a sua identidade, mas restabelecer o curso de uma natureza mais alta, e evidentemente mais antiga, do que a que reinara antes. É natural uma natureza que impele a caminhos que arruínam e destroem? A natureza humana, quando menos afetada pela cultura, nas ilhas mais solitárias e mais belas de mares pouco navegados, impele a caminhos de ruína e destruição precipitadas. Nas mais altas sedes da civilização, ela impele os homens a desprezar o Deus de todos, embora creiam que a ele devem o ser, a razão e a alegria, e que dele dependem para continuar existindo; impele-os a desprezar objetivos que eles creem ser verdadeiramente nobres e de utilidade eterna, em troca de prazeres que não podem deixar de desprezar e de ganhos que sabem não ser nem honrosos nem duradouros. Como prova disso, as simples palavras Londres, Paris, Roma dizem mais do que o suficiente. Contudo, enquanto a sua natureza assim atropela a sua verdadeira dignidade, a sua verdadeira felicidade e o seu verdadeiro interesse, uma voz interior, como de um amigo que sobreviveu de dias melhores, está sempre protestando contra esse estado monstruoso de coisas e afirmando que essa natureza não é natureza.

Não há animal do campo que não possa confiar na sua natureza e segui-la, certo de que ela o levará ao melhor de que ele é capaz. Mas, quanto a nós, o nosso único inimigo invencível é a nossa natureza: se ela fosse sã, poderíamos tratar as circunstâncias com a mesma leveza com que Sansão tratou as cordas de arco; mas ela está sempre nos traindo. Muitas vezes, quando sinceramente pretendíamos ser bons e nobres, a nossa miserável natureza, na primeira conjuntura favorável das circunstâncias, nos traiu de novo, e nos vimos caindo pelas nossas próprias mãos e sentimos amargamente que éramos os nossos próprios inimigos. Curem-nos no coração, e então venha o mundo! estamos prontos para o combate. Tornem-nos sãos por dentro, e permaneceremos firmes no dia mau. Podemos desafiar as circunstâncias e resistir ao diabo, contanto que o nosso próprio peito não se torne um covil de traidores; contanto que inclinações silenciosas, sutis e fortes como a natureza não se levantem para nos seduzir ao cativeiro do mal.

Vocês nos dizem que resistamos a essas inclinações, que não cedamos aos nossos impulsos, mas os submetamos à razão; isto é, que não sigamos a natureza, que é interior e impulsiva, mas nos deixemos guiar por indicadores externos que a Observação registra, a Razão interpreta e a Vontade pode aplicar ao controle da natureza. Isso, na verdade, é dizer: “Não vivam pela sua natureza, mas resistam à sua natureza”. Que mundo de verdades assustadoras entra com essa única advertência! A minha natureza não é natureza pela qual se possa viver! O amor a mim mesmo me põe de vigia contra a natureza! Uma natureza, e a mais alta natureza deste sistema terrestre, que fere a si mesma! Esta não é obra das tuas mãos, ó Pai Eterno, Autor da ordem, da beleza e do amor; Criador das naturezas, cada uma das quais está em acordo consigo mesma e em harmonia com todas as tuas outras criaturas! O que aconteceu desde que o homem saiu das tuas mãos?

Iii. Três mil pecadores convertidos em santos

Foi estranho ver três mil homens, depois de uma única pregação de uma religião nova e não experimentada, aceitá-la como sua fé e alistar-se publicamente como seus discípulos. Foi especialmente estranho, visto que os homens de cujas mãos eles receberam docilmente o penhor sacramental da sua conversão eram homens sem reputação, que eles mesmos antes desprezavam. Mas só depois de passadas algumas semanas é que a maior maravilha desse fenômeno se revela a nós.

A natureza humana está sujeita a ilusões inexplicáveis, e as multidões, a impulsos incontroláveis. Pode ser que, dentro de uma ou duas semanas, encontremos aqueles milhares com mil opiniões diferentes sobre o que tinham ouvido de Pedro no dia de Pentecostes e sobre o perdão e a graça que ele afirmara anunciar-lhes. Mas, à medida que, dia após dia, observamos aquela multidão, maravilhas morais vão continuamente aparecendo. Aquilo que era tão raro na natureza humana é agora comum: um homem santo. Pessoas que eram tão vulgares de caráter quanto se pode imaginar vivem agora diante de nós como santos. Os vis se tornaram nobres, o avarento abnegado, o amargo manso, o sensual maravilhosamente puro. Uma comunidade tirada de judeus do padrão comum, de pessoas de toda variedade de caráter e de pecaminosidade, é uma comunidade tão pura, tão acima de tudo o que olhos humanos jamais haviam visto, que parece um começo do céu na terra. Elevados de repente à santidade, eles mantêm com firmeza a sua elevação moral; primeiro surpreendendo e cativando os que os observam, e depois resistindo a toda a oposição que o preconceito e o poder podem levantar para esmagá-los.

Dia após dia, mês após mês, ano após ano, essa vida nova e gloriosa continua. Esses homens, erguidos do nível comum dos pecadores, perseveram “na comunhão dos apóstolos, no partir do pão e nas orações” (At 2.42), “cheios do Espírito Santo” (At 4.31), ricos na fé, transbordando de consolação interior; sem ver com os olhos o seu Redentor glorificado, mas, mais do que vendo, sentindo-o e abraçando-o com o coração, eles “exultam com uma alegria indescritível e cheia de glória” (1Pe 1.8). A sua perspectiva próxima é a imortalidade, a sua pátria está nos céus, a sua riqueza está onde a mudança nunca poderá diminuí-la, nem as traças corroê-la, nem os ladrões roubá-la. Felizes na terra e herdeiros do céu, nada lhes importa que toda a humanidade os olhe com desagrado; eles sabem que “são de Deus e que o mundo inteiro jaz no Maligno” (1Jo 5.19). A sua santidade espalha a sua fama até os confins da terra, uma fama que nunca morreu até os nossos dias; e ainda agora descem sobre os nossos lares e os nossos corações as influências suaves e santas da primeira comunidade chamada à existência pela língua de fogo.

Três mil homens erguidos de modo permanente da morte no pecado para uma vida de santidade! Três mil pecadores convertidos em santos! Três mil santos recém-formados capacitados, dia após dia, a andar no temor de Deus e no consolo do Espírito Santo! Três mil irmãos nossos, fracos, pecadores por natureza, expostos às tentações de Satanás tanto quanto nós, mantendo no corpo uma vida que quase ultrapassa a crença, tão marcada ela é pela bondade e pela pureza!

De todos os espetáculos do Pentecostes, este é o que fala ao coração no tom mais profundo. Contemplamos aqueles três mil, e nossa alma irrompe em adoração. Glória, honra, salvação! Pois agora a palavra “salvação” pode ser pronunciada com ousadia por lábios humanos: a salvação chegou, chegou à raça de Adão! Aqui a vemos, não em palavra, não em promessa, mas em demonstração prática: em seres humanos redimidos; em nossa natureza recuperada do pecado, e isso não num convertido solitário, não num jovem ardoroso ou num mundano esgotado, mas em centenas e milhares de homens com corações, necessidades e ocupações comuns, para os quais a vida humana se tornou comunhão com Deus e caminho reto para a alegria eterna.

IV. A renovação dos corações maus à imagem de Deus

Já dissemos que podemos falar de um milagre físico e de um milagre mental; e a estes podemos acrescentar um milagre moral. A mente, dissemos, é maior que a matéria, e por isso uma obra realizada na mente é maior que uma realizada na matéria; ela revela não apenas um poder, mas um espírito. Assim como o intelecto governa a matéria, também aquilo para o qual é difícil achar um nome (a natureza moral, o eu e a substância de um homem, o CORAÇÃO) governa o intelecto. Usaremos a palavra “coração” não para indicar a natureza emocional, representada na Escritura pelas “entranhas”, mas a natureza moral; isto é, no que diz respeito ao homem, a NATUREZA. O coração comanda o homem. Deem-me um coração, e vocês me darão um homem; ele leva consigo tanto uma mente quanto um corpo. O coração é a maior coisa que há debaixo do céu; a mais próxima do governo lá do alto, aquela que governa o intelecto e governa todas as coisas humanas. Uma obra realizada no coração é, portanto, a mais elevada ordem de operação para a qual a natureza humana pode oferecer campo. O cristianismo professa ser um sistema voltado para aquilo que jamais foi professado de outro modo: a renovação dos corações maus à imagem do Deus do céu. Para isso se dirigem todos os seus poderes; e, enquanto isso não for feito, o cristianismo não passa de uma teoria. Tudo o que vem antes disso não é mais que a explicação verbal de princípios por um filósofo da natureza, a quem falta a demonstração ocular. O problema da nossa natureza é como tornar bom o mau; isto é, como mudar a natureza, o que, por poder natural, é absolutamente impossível.

No milagre físico vemos o Deus da natureza dando credencial à revelação; no milagre mental vemos o Deus da mente dando credencial à revelação. Em ambos, a natureza é contrariada, e um poder acima da natureza se manifesta. É coisa grandiosa e memorável ver o mar secar, ou ver a mente humana iluminada com as luzes da profecia ou com o dom de línguas; mas a mais alta manifestação de um poder acima da natureza, de um poder que age contra a natureza e em sentido contrário a ela, é quando o mau de repente se torna bom; o impuro, puro; quando de uma coisa imunda se tira uma coisa pura; quando o terreno se torna celestial; o sensual, espiritual; o diabólico, semelhante a Deus; quando o etíope muda a sua pele e o leopardo, as suas manchas; quando, em lugar do espinheiro, cresce o cipreste, e em lugar da sarça cresce a murta. Aqui está o Governante, não do universo físico, dominando a natureza física, nem do universo mental, dominando a natureza mental, mas o Governante do universo moral, dominando a natureza moral, em testemunho do evangelho da sua própria graça.

Isto, embora não seja milagre na linguagem técnica da teologia, o é no senso comum. Será natureza? Poderá reduzir-se a uma lei natural? É verdade que é aquilo que se deve esperar normalmente no cristianismo; mas esperar como quê? Como fruto de um agente natural? Ou de um poder sobrenatural que acompanha esse agente e o atesta como vindo de Deus? Algum sistema religioso jamais encarnou tal concepção como prova de que Deus estava nele e agia por meio dele, prova que admitisse aplicação constante e, ao mesmo tempo, penetrasse mais fundo na alma humana do que qualquer outra demonstração imaginável? Esta é a glória singular do evangelho. A recuperação da natureza de sua terrível queda, a nova criação do homem à imagem de Deus, o surgimento do cipreste em lugar do espinheiro e da murta em lugar da sarça, é o “SINAL ETERNO, QUE NUNCA SE APAGARÁ” (Is 55.13).

Outros modos pelos quais o Senhor atesta e sela os seus mensageiros, pelos quais a sua operação dá credencial à sua palavra, tiveram o seu campo ocasional e glorioso; mas este sinal se adapta igualmente a todos os tempos, reivindica como sua esfera a humanidade inteira e se dirige não só ao juízo, mas à consciência do homem, proclamando-lhe a presença, na terra, de um Poder que cura a natureza humana e restaura os seus semelhantes à imagem de Deus.

Cada pecador transformado em santo é um novo sinal de um poder redentor entre os homens. Esse sinal declara aos que observam não que há um Rei no céu, não que há um “Pai das luzes” (Tg 1.17), mas que há um Salvador. E este é o testemunho de que o mundo mais precisa. Há poucas coisas na religião de que os homens duvidem mais do que da possibilidade de eles, como indivíduos, escaparem de seus pecados. Nenhuma declaração dessa possibilidade vai tão longe para convencê-los quanto ver pessoas que eles conheceram tão fracas quanto eles mesmos, tão dadas ao mal quanto eles mesmos, subitamente mudadas e capacitadas a andar a vida inteira “como quem vê aquele que é invisível” (Hb 11.27). Isso lhes diz de imediato: “Há Alguém que tem poder na terra para salvar do pecado”; e, quando sabem que o vizinho atribui tudo à cruz de Cristo, sentem que naquela cruz deve haver uma eficácia da qual, se algum dia hão de achar a salvação, essa salvação há de vir.

A regeneração de um pecador é prova de um poder que atua na mais alta esfera, a natureza moral; com a mais alta prerrogativa, a de mudar a natureza; e que opera para o mais alto resultado: não criar originalmente, o que é grande, mas criar de novo, o que é maior. Pois, quando a natureza uma vez se tornou má, quão infinita é a glória do ato pelo qual ela volta a ocupar o seu lugar, aos olhos do universo, como “muito boa” (Gn 1.31)! A criação de santos a partir de pecadores é a demonstração pela qual a divindade do evangelho se mostra do modo mais breve e mais convincente. De todas as provas cristãs, só ela demonstra que a nossa religião salva de fato do pecado.

Tradução para o português a partir de William Arthur, The Tongue of Fire; or, The True Power of Christianity (1856), na edição de Londres (C. H. Kelly, c. 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.