William Arthur · A Língua de Fogo · Capítulo VII (conclusão)
Os convertidos do Pentecostes, a aplicação do cristianismo aos males sociais, a oração e a pregação, a comunhão e a fraternidade.
Mais uma vez olhamos para aqueles três mil, e nos gloriamos ao vê-los. A nossa natureza não está perdida sem esperança. A redenção está consumada. A humanidade pode ser santificada. Podem formar-se comunidades de homens que habitem em paz e amor, e a terra pode tornar-se um espelho do céu. Nunca, debaixo dos céus, nunca, até que termine a trágica história dos filhos de Adão, poderemos escapar da morte que o pecado trouxe sobre nós e das aflições que a acompanham. Mas o próprio pecado encontrou um vencedor; não o pecado em abstrato, não o pecado em alguma personificação filosófica, não o pecado no grande príncipe das potestades das trevas; mas o pecado nos corações humanos, o pecado na minha natureza, o pecado revestido de carne da minha carne e osso dos meus ossos, correndo em veias como as minhas e atiçado por tentações da mente e do corpo exatamente iguais às minhas. O pecado, no homem vivo, foi vencido; o seu Vencedor reina, o seu poder redentor está perto; e naqueles convertidos de Jerusalém vejo um penhor da minha própria libertação, e posso exclamar: “Eu também serei livre da lei do pecado e da morte” (Rm 8.2).
Vemos um penhor da libertação, não só de indivíduos, mas de multidões; não só de famílias, mas de milhares e dezenas de milhares. Tem sido demasiado comum entre os cristãos considerar a religião pura e elevada como aplicável apenas a poucos. Numa época em que o cristianismo e a santidade se tornaram coisas diferentes, e a verdadeira religião passou a ser vista como algo não para a vida, mas para uma condição afastada da vida, o que equivalia, para fins práticos, a um sepultamento antes do tempo, introduziu-se um modo de pensar que nunca desapareceu até hoje. Na Igreja de Roma ainda encontramos a afirmação de que a santidade profunda acha o seu melhor lugar longe da vida humana, no retiro e no celibato. Entre os protestantes esse erro é rejeitado; contudo, a religião prática é vista como algo de que não se deve esperar que conquiste milhares de uma vez e renove comunidades por seu poder sagrado, mas antes como uma bênção seleta para poucos, espalhados aqui e ali e em toda parte pouco notados.
Olhem para o Pentecostes. Vejam o cristianismo, no seu primeiro passo, levantando o seu exército aos milhares. Ele não busca o deserto; não busca os poucos; não prefere grupos pequenos, dispersos e escondidos. À vista de Jerusalém, à vista do mundo, ele começa como a religião da multidão: a religião de pais e mães, de comerciantes, proprietários de terras, viúvas, pessoas de todas as classes e de todas as ocupações. Toma na mão, logo no primeiro momento, as primícias de toda nação, tribo, povo e língua, de toda condição e idade, como para alargar para sempre as expectativas dos seus discípulos e imprimir em nós a fé alegre de que a sua redenção prática era para as multidões dos homens.
No caso dos convertidos do Pentecostes, impressiona-nos primeiro a rapidez da sua convicção, depois a sua intensidade e, por fim, a permanência do resultado.
Quando o humilde pescador começou a pregar, muitos dos que haviam presenciado o milagre zombavam; nenhum se tornara santo; talvez nenhum homem da multidão cresse na mediação de Cristo ou em qualquer outra das grandes doutrinas do evangelho. Eram adversários, para não dizer inimigos obstinados e sistemáticos. As palavras dele tinham um fio estranho: uma espada atravessou a própria alma daqueles homens, uma espada que dizia à consciência que Aquele que a manejava era o Invisível e o Todo-Poderoso. Como se a vida inteira fosse trazida de volta à memória, como se a eternidade se tivesse comprimido com todo o seu peso num só momento, processos de pensamento que teriam exigido longa, longa meditação, e descrição ainda mais longa, relampejavam e tornavam a relampejar pela alma; e o homem se via pecador no meio dos seus próprios pecados, acusado pelo passado, ameaçado pelo futuro, esmagado, confundido, descoberto, e incapaz de lutar contra o pensamento: “Que devo fazer para que seja salvo?” (At 16.30)
A intensidade dessa convicção é tão espantosa quanto a sua rapidez. Por que aqueles homens não conseguiam se controlar? Por que não iam para casa pensar? Por que não tomavam tempo para deliberar? Por que não evitavam expor-se aos olhos do público? Por que, senão porque, feridos no mais vivo, esqueceram todas as outras considerações e só queriam ser curados? Viram-se, sentiram-se caídos nas mãos de Deus; e, naquele momento, o olhar, a voz, a opinião dos homens foram excluídos dos seus pensamentos.
Se um homem realmente visse um anjo, ou alguém que “ressuscitasse dentre os mortos” (Lc 16.31), esperaríamos que toda consideração pelos que estão em volta o abandonasse no assombro do momento. Do mesmo modo, se num instante um poder sobrenatural abre à alma o mundo invisível, com a sua única Luz eterna, o seu céu e o seu inferno, ainda que essa visão seja necessariamente imperfeita e confusa, se ela é uma visão, uma visão súbita, há de atravessar a alma de lado a lado com medo, admiração, temor, até que o homem e a opinião do homem pesem tão pouco quanto a moda para uma mulher que caiu na esteira espumante de um vapor.
Encontramos os que foram atingidos por essas impressões súbitas prosseguindo sempre, mês após mês, sustentando nos caminhos comuns da vida a profissão de santos, andando de modo digno não só de si mesmos, não só dos seus mestres, mas até do Senhor, levando uma vida tal que “tanto o que santifica como os que são santificados, todos vêm de um só. É por isso que Jesus não se envergonha de chamá-los de irmãos” (Hb 2.11).
Essa perseverança na pureza e na piedade, “na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações” (At 2.42), numa generosidade como nenhuma comunidade jamais havia praticado, “com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo” (At 2.46-47), mostra que as fontes da vida haviam sido adoçadas, as profundezas da alma alcançadas; que, numa palavra, a natureza havia sido tocada, mudada, renovada.
A permanência da mudança mostra que ela é uma mudança de natureza; a sua rapidez, que é efetuada por meios sobrenaturais. De fato, os meios naturais nunca podem mudar uma natureza, embora possam modificar muito as suas manifestações. Quando queremos produzir na natureza humana alguma impressão moral que seja permanente, confiamos num treinamento lento e prolongado. Desviar um homem dos seus caminhos, voltá-lo contra o seu próprio interesse, levá-lo a pôr em contínuo risco tudo o que lhe é caro, puramente por amor da bondade aqui e da felicidade no além, é o que, em qualquer esquema natural, teríamos de tentar começando cedo e trabalhando por muito tempo. Mas, se havemos de depender não de processos naturais, mas do poder de Deus, então o tempo deixa de entrar na conta; o Infinito declara a sua presença realizando num momento aquilo em que teríamos de bom grado gasto uma vida. Sejam quais forem as razões que se possam apresentar em favor de despertamentos graduais em vez de súbitos, pelo menos isto fica do outro lado: a conversão súbita transmite a todos os que a presenciam uma impressão muito mais forte de um poder acima do humano. O que é gradual pode facilmente ser atribuído, pelos ignorantes ou pelos incrédulos, aos resultados naturais de processos humanos. Podem dizer: “O espantoso seria se, com tanto ensino, com tantas homilias dirigidas ao único fim de levar o homem a pensar na sua alma, ele não fosse levado a isso aos poucos.” Mas quando, por uma única mensagem, talvez simples, a obra da conversão se faz num instante, isso se parece com a ressurreição dos mortos. Nos pecadores que a presenciam, ela primeiro desperta a admiração, depois toca a consciência; e, se veem tais casos se multiplicarem, cai sobre eles o sentimento: “É o grande poder de Deus!”
O cristianismo foi estabelecido pela criação de cristãos.
Nas palavras “perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações” (At 2.42), vemos o efeito da regeneração dos indivíduos sobre o caráter de uma comunidade. De um número de homens bons surgiu de imediato uma sociedade unida e fraterna. Estadistas e filantropos, ocupados com a ideia de formar nações felizes, frequentemente olham para as boas instituições como o meio de fazê-lo; mas descobrem que, quando as instituições estão adiante do povo além de certa distância, em vez de serem uma bênção, tornam-se um laço e uma confusão. A razão disso é óbvia: as boas instituições pressupõem, até certo ponto, um bom povo. Onde o grau de bondade existente no povo não corresponde, em alguma medida, ao que as instituições pressupõem, estas jamais se podem sustentar. Como órgão, encarnação e guardiãs da bondade individual, o valor das boas instituições é incalculável; e é um dos maiores benfeitores da humanidade quem introduz qualquer melhoria nas juntas e nos mancais da máquina social; mas, como meio de regeneração, as instituições políticas são impotentes. Boas instituições dadas a um povo depravado e sem princípios acabam desacreditando o que é bom. Na verdade, seria mais correto dizer que instituições boas para um povo de bons princípios são más para um povo destituído de princípios. O único caminho para a regeneração efetiva da sociedade é a regeneração dos indivíduos: façam a árvore boa, e o fruto será bom; façam homens bons, e vocês facilmente fundarão e sustentarão boas instituições. Aqui está a falha dos estadistas: esquecem o coração do indivíduo. Por outro lado, aqueles que veem e sentem a importância de buscar primeiro a regeneração dos indivíduos não terão, com demasiada frequência, estudado de modo insuficiente a aplicação do cristianismo aos males sociais? Quando o resultado do ensino cristão longamente dirigido a um povo elevou o tom da consciência, quando um grande número de pessoas que encarnam o verdadeiro cristianismo em sua própria vida está espalhado por todas as camadas, lança-se um fundamento para o progresso social; mas não se segue que, por desenvolvimento espontâneo, os princípios implantados na mente do povo criem para si a encarnação mais adequada e cristã. Males sociais terríveis podem coexistir com um estado da sociedade em que muitos são santos e todos têm grande medida de luz cristã. O mais repugnante sistema escravista, costumes vis que fomentam a intemperança, a separação de classe contra classe no sentimento e no interesse, fraudes sistemáticas no comércio, o descaso dos patrões para com os operários, o descaso dos pais para com os próprios filhos, classes inteiras vivendo do pecado, costumes que dificultam o casamento e estimulam a libertinagem, moradias humanas que tornam odiosa a ideia de lar e impossível a existência do pudor: tudo isso não passa de amostras dos males que podem permanecer, geração após geração, amaldiçoando um povo entre o qual o cristianismo é o padrão reconhecido da sociedade. Ser indiferente a essas coisas é tão infiel à moral cristã, de um lado, quanto esperar remediá-las sem difundir a santidade prática entre os indivíduos é desviar-se da verdade, do outro.
A mais perigosa perversão do evangelho, considerado em seu efeito sobre os indivíduos, é quando ele é visto como uma salvação para a alma depois que ela deixa o corpo, mas nenhuma salvação do pecado enquanto se está aqui. A mais perigosa perversão dele, considerado em seu efeito sobre a comunidade, é quando é visto como meio de formar uma comunidade santa no mundo vindouro, mas nunca neste. Nada menos que a renovação geral da sociedade deve satisfazer qualquer soldado de Cristo; e todos os que almejam esse triunfo devem buscar muita inspiração nas palavras do próprio Rei: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28.18). Se Satanás se gloria tanto do seu poder sobre um indivíduo, quanto maior deve ser a sua glória sobre uma nação que encarna em suas leis e costumes a desobediência a Deus, o mal ao homem e a contaminação da moral! Destruir todos os redutos nacionais do mal, arrancar o pecado das instituições, erguer à vista de todos o ideal evangélico de uma nação justa, opor a todos os costumes públicos nocivos a defesa branda, cordial e ardente do que é mais puro, é um dos primeiros deveres daqueles cuja posição ou modo de pensar lhes dá influência nas questões gerais. Ao fazê-lo, estão ao mesmo tempo glorificando o Redentor, ao mostrar a benignidade da sua influência sobre a sociedade humana, e removendo obstáculos à conversão individual, alguns dos quais agem como incentivo direto ao vício, outros por sustentar um estado de coisas cuja base reconhecida é: “Esquecer Deus.”
Satanás poderia contentar-se em deixar o cristianismo revolver o subsolo, se lhe fosse dado semear para sempre a superfície com espinhos e abrolhos; mas o evangelho veio renovar a face da terra. No meio do trigo, o joio, que mal se distingue dele, pode ter permissão de crescer até o fim; mas o campo há de ser trigo, não joio; trigo, não abrolhos; um campo belo, cercado, arado, semeado e fértil, ainda que nele se espalhem ervas daninhas parecidas com a seara.
As mesmas palavras, “a doutrina dos apóstolos e a comunhão, o partir do pão e as orações”, indicam os diversos exercícios da religião nos quais todas as igrejas e cada cristão devem “perseverar” (At 2.42). Não era uma “igreja que prega” nem uma “igreja que ora”, uma em oposição à outra: tinham tanto a “doutrina”, o ensino, quanto as “orações”. A ideia de separar essas duas coisas, ou de pôr uma acima da outra, é estranha à religião do Novo Testamento. Não são ministros enviados por Deus aqueles que não têm o dom de ser “aptos para ensinar” (1Tm 3.2). Podem ser homens bons e úteis; mas a prova de que alguém nunca foi destinado pelo Cabeça de tudo para certa posição é que ele nunca o capacitou para ela. Todas as autoridades do universo não podem fazer embaixador de Cristo aquele a quem o próprio Cristo não deu poder para rogar aos homens que se reconciliem com Deus, nenhum poder para advertir a todos e ensinar a cada um, a fim de apresentar cada pessoa perfeita. A pretensão de um cristianismo sem ministros, servido por um sacerdócio capaz de manipular, ler orações que outros escreveram, organizar solenidades e guardar tempos e estações, mas incapaz de “manejar bem a palavra da verdade” (2Tm 2.15), incapaz de pregar o evangelho “em demonstração do Espírito e de poder” (1Co 2.4), incapaz de fazer qualquer coisa além do que o mais insensato ou o mais perverso dos homens poderia fazer se fosse adestrado para isso, é uma dessas imposturas espantosas diante das quais ficamos ao mesmo tempo envergonhados e indignados: indignados porque, estando ainda vivo o Novo Testamento, os homens ousam impingir-nos isso como cristianismo; e envergonhados porque a natureza humana está pronta a aceitar tal caricatura.
Por outro lado, o dom de ensinar não era exercido com exclusão, nem mesmo com repressão, do dom de orar. Os discípulos não se reuniam somente quando alguém estava preparado com um discurso profundo e de peso sobre pontos de doutrina essencial. A oração era um dos seus exercícios habituais; não apenas ouvir a oração solitária de um pregador dotado na grande congregação, antes ou depois do seu sermão, mas orações em comunhão frequente e familiar, orações inspiradas ali mesmo, sem livro e sem estudo; orações de discípulos comuns que não tinham dom mais elevado, mas sabiam derramar diante de Deus os seus pedidos; orações de homens de fala provinciana e com todas as marcas de serem “iletrados e incultos” (At 4.13), mas também com sinais claros de que o Espírito os ajudava em sua fraqueza e lhes ensinava a orar como convém.
Suponhamos que Pedro, um dia, se levantasse e dissesse: “Irmãos, tudo deve ser feito com ordem. O uso de tons vulgares e de linguagem inculta é inconveniente. De agora em diante ninguém orará em nossas assembleias senão aqueles que possam fazê-lo sem nos expor ao ridículo diante das pessoas respeitáveis. Aliás, para garantir o decoro, preparamos formas apropriadas, e todas as nossas orações futuras serão tiradas destas litanias e coletas aqui escritas, cuja linguagem é a mais bela das composições humanas e pode, de fato, ser chamada de impecável.”
Não teria isso alterado a história da igreja primitiva? Não eram as orações simples, espontâneas, unidas; as orações do apóstolo bem instruído; as orações do erudito culto; as orações do camponês rude mas fervoroso; as orações do convertido novo mas zeloso; as orações que importunavam e lutavam com urgência imediata e irreprimível; não eram elas parte essencial daquela religião que o fogo santo havia acendido e que só as súplicas diárias podiam avivar?
Certamente nenhuma igreja tem o direito de se chamar igreja que ora porque, por meio de um sacerdócio treinado, lê com frequência formas de oração antigas e admiráveis. Contra tais formas, adequadamente combinadas com os cultos públicos da igreja, não pretendemos dizer palavra alguma; nós as usamos, admiramos e apreciamos; mas, com o livro de Atos dos Apóstolos aberto, é impossível conter o espanto de que alguém imagine que a leitura frequente e formal das melhores formas já escritas, sem que se misture a ela sequer uma explosão de súplica espontânea do ministro ou do povo, tenha alguma pretensão de ser vista como a graça intercessora, o dom de súplica concedido à igreja primitiva. Que nesses moldes corações santos e dados à oração podem derramar-se diante de Deus, e de fato o fazem, não só o concedemos, como o sustentaríamos contra todos os que o questionassem. Que tais orações são, em muitos aspectos, preferíveis à única oração fixa de um único homem seco, longa, rígida e pobre, com que as congregações muitas vezes são visitadas, é claro demais para precisar ser reconhecido.
Mas os dons de oração fazem parte da obra e da prerrogativa do Espírito Santo; pertencem à própria essência de uma igreja; e fechar-lhes deliberadamente a porta, ou organizar a estrutura eclesiástica de tal modo que eles fiquem praticamente enterrados, a não ser quando os possuem o ministro, os instruídos ou os influentes, é um claro afastamento do cristianismo apostólico. Em nenhuma forma a língua de fogo é mais impressionante, mais capaz de convencer os homens de que um poder acima da natureza está agindo, do que quando homens pobres, que não poderiam pregar assim como não poderiam voar, e que não saberiam redigir adequadamente um parágrafo sobre qualquer assunto secular, erguem uma voz reverente no meio de alguns irmãos em Cristo e, em tons de confiança fervorosa, talvez de emoção gloriosa, e até de concepção sublime sobre as coisas divinas, suplicam em oração ao seu Redentor. O cristianismo do Pentecostes não foi moldado segundo o ideal de um círculo refinado, mas segundo o de uma igreja, uma igreja que inclui sábios e iletrados, o refinado e o rústico, o honrado evangelista, profeta ou apóstolo, e o membro humilde sem dons públicos; mas todos alegrando-se como membros de uma só irmandade, e cada um, no tempo e no modo próprios, tomando a sua parte, segundo os seus dons, na obra ativa da edificação mútua. Uma igreja, para ser apostólica, precisa ter ministros poderosos na pregação e membros poderosos na oração.
Eles perseveravam “no partir do pão” (At 2.42); daí se vê claramente que não era um sistema de culto puramente espiritual, espiritual demais para se rebaixar aos símbolos ordenados por nosso Senhor ou para anunciar a sua morte pelo partir do pão.
Além do partir do pão, da doutrina e das orações, menciona-se expressamente a “comunhão”. Não era, então, uma igreja em que o “ensino” do ministro era tomado como a sua comunhão com o povo, e o “partir do pão” deles como a comunhão de uns com os outros; mas uma igreja em que, além do ensino público, dos sacramentos e das orações, havia outra beleza do cristianismo primitivo: a “comunhão”. A comunhão é a vida de família, que forma um círculo, menor ou maior, para cujos membros alegrias, tristezas, interesses e empreendimentos são preocupação comum e assunto de conversa comum. Entre a vida do homem como indivíduo e como membro de uma grande comunidade, estende-se uma vasta região de afetos, que só pode ser preenchida pelas relações de família. Em público, o indivíduo não dá vazão aos seus afetos: quanto maior a multidão, mais o coração se recolhe. O cidadão que goza de boa reputação diante do público, mas não tem esposa, filho ou amigo que participe da sua vida, é solitário: o seu lugar na câmara municipal ou no parlamento nacional pode ser preenchido, e todas as relações aí envolvidas bem mantidas para com ele por outros; mas ele vive sem comunhão. Se isso acontece por perda, os homens se compadecem dele; se por escolha, sentem frio só de pensar nele.
Teria sido estranho que uma igreja destinada ao homem em todos os seus aspectos, individual, doméstico, nacional, deixasse desocupado o espaço entre o indivíduo e o público; de modo que a vida cristã tivesse de dividir-se entre o trato secreto e solitário com Deus e as solenidades públicas, nas quais cada um era estranho para os outros; sem vida de família, sem círculos de corações entrelaçados, sem desabafo de alegrias, tristezas e preocupações, sem nenhuma conversa “uns com os outros” sobre a saúde ou o progresso da alma. Se uma omissão tão capital pudesse ser encontrada no cristianismo, isso poderia ter levantado muitas perguntas sobre como os elementos mais ternos da nossa natureza, os elementos sociais, teriam sido desprezados na formação de um vínculo destinado a unir todos os homens numa só irmandade amorosa.
Mas a vida espiritual da igreja primitiva exala sentimento de família. Ali não se encontra o homem solene e solitário, que tem coisas acontecendo entre ele e o seu Criador das quais nunca diz uma palavra, embora ocupe o seu lugar nas assembleias públicas, onde o seu próprio coração fica tão eficazmente oculto como se estivesse num deserto; que considera qualquer aproximação para a comunhão de espírito uma invasão da sua privacidade; qualquer pergunta sobre a saúde da sua alma, intromissão de estranho; qualquer abertura de coração, fraqueza; que consegue viver sozinho a sua vida religiosa, e gosta de fazê-lo, exceto quando aparece em público; que não quer amigos, companheiros de trabalho nem um círculo íntimo; e que, na verdade, duvida com altivez de que a sociabilidade na vida religiosa seja uma coisa muito boa. O homem que consegue achar concidadãos entre os filhos de Deus, mas não amigos de família, pode ser um cristão muito bom, mas não do molde primitivo.
Que calor de afeição familiar percorre o Novo Testamento! Em vez de almas rígidas, sempre vestidas para os olhos do público ou fechadas na solidão, vocês encontram irmãos, irmãs, amigos, pessoas que se amam, que se apegam umas às outras por atração mútua, e entre as quais a conversa comum muitas vezes gira em torno da sua conversão, dos seus conflitos e do seu glorioso antegozo da alegria eterna. Ao escrever-lhes, os apóstolos estão claramente se dirigindo a pessoas com quem se deu um grande acontecimento, cujo interesse supremo o mantém em contínua lembrança. Antes eram insensatos, obscurecidos, perversos; arrastados por paixões más, sem Deus e sem esperança. Mas uma mudança maravilhosa se operou neles: uma libertação do poder das trevas e uma transferência para o Reino do Filho amado de Deus; uma mudança como de estrangeiros para membros da família de Deus; como das trevas para a luz, como da vida para a morte [N. do T.: assim nas edições de Londres e na americana; o paralelo com “das trevas para a luz” faz esperar “da morte para a vida” (1Jo 3.14)]. A essa grande salvação, realizada em favor deles e neles, as alusões feitas pelos seus mestres apostólicos são tão livres, ocasionais e frequentes que mostram claramente que ela era tema de ações de graças e admiração, alegres e sem reservas, na comunicação de uns com os outros. A dignidade do ofício apostólico não impede alusões francas e comoventes à conversão pessoal e ao caráter anterior, nem às conquistas presentes; e, por outro lado, até o recém-nascido em Cristo é alguém cuja feliz experiência é motivo de congratulação aberta: “Filhinhos, escrevo a vocês, porque os seus pecados são perdoados por causa do nome de Jesus” (1Jo 2.12).
As provas ocasionais do espírito que animava os primeiros cristãos quanto à comunhão uns com os outros seriam perfeitamente conclusivas, mesmo que estivessem sozinhas; mas algumas passagens importantes das cartas apostólicas têm o propósito evidente de preservar esse espírito para sempre na igreja. “Que a palavra de Cristo habite ricamente em vocês. Instruam e aconselhem-se mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus com salmos, hinos e cânticos espirituais, com gratidão no coração.” (Cl 3.16) Eis uma ordem, não ao ministério, mas aos cristãos comuns, para que conheçam bem a palavra de Deus, com vistas à edificação uns dos outros, por meio de instrução e conselho; mas instrução e conselho que, longe de ter a regularidade da pregação, podem até ser, e muitas vezes devem ser, em “salmos, hinos e cânticos espirituais”. Tal conselho jamais poderia ser dado se se tivesse adotado um sistema em que toda palavra de instrução ou conselho tivesse de sair dos lábios do ministro. Em todo o Novo Testamento, supõe-se que o sistema da igreja seja tal que faça surgir o dom de cada membro, seja qual for a sua ordem; e ordena-se a cooperação ativa de cada um para promover a edificação de todos. “De quem [Cristo] todo o corpo, bem-ajustado e consolidado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio crescimento para a edificação de si mesmo em amor.” (Ef 4.16) Aqui “todas as juntas” devem fornecer alguma coisa, “cada parte” deve exercer a sua “justa cooperação”; e por esse meio o corpo deve crescer, “para a edificação de si mesmo” em amor. Nenhum sistema pode ser posto de acordo com essa passagem, nem com o espírito geral do Novo Testamento, se nele o púlpito é a única provisão para instrução, admoestação e exortação, sendo a grande massa dos membros da igreja meros receptores, cada um vivendo como estranho às preocupações espirituais dos outros, e não se esperando nenhuma “justa cooperação” de cada junta e de cada parte para o fortalecimento mútuo. Não basta que as providências para promover a edificação mútua sejam permitidas, a critério de cada pastor ou oficial: meios de graça em que os irmãos em Cristo, com propósito deliberado, tenham “comunhão” uns com os outros, “falem uns aos outros” (Ml 3.16), “animem uns aos outros” (Hb 3.13), “confessem os seus pecados uns aos outros” e “orem uns pelos outros” (Tg 5.16), “instruam e aconselhem-se mutuamente com salmos, hinos e cânticos espirituais” (Cl 3.16), não são apêndices dispensáveis, mas pertencem à essência de uma igreja de Cristo.
Alguns desprezam todo “ensino” que se possa obter pelo exercício mútuo dos dons dos membros comuns da igreja (nem sempre instruídos ou sábios) e pensam que só os discursos bem preparados do púlpito são instrutivos. O ministério regular da palavra é, sem dúvida, a fonte principal de ensino, e do seu vigor e clareza dependerá sempre a vida de toda ação auxiliar; mas os que rejeitam o ensino prático e caseiro da “comunhão” de coração aberto pouco consideram que, para as pessoas de mente simples ou de coração lento (isto é, para a maioria da humanidade), os grandes problemas: “Que devo fazer para que seja salvo (At 16.30)? O que é crer? Como saberei que herdarei a glória? Estou ou não estou enganando a mim mesmo? Como posso vencer esta tentação, a mais dura que jamais assaltou um homem? Como posso crescer na graça?”, e outros semelhantes, muitas vezes recebem mais luz do relato simples de uma pessoa sobre como a Misericórdia divina os resolveu no seu próprio caso do que de qualquer explicação geral. Na religião prática, como em todas as coisas práticas, a instrução é lamentavelmente incompleta, ainda que correta até onde vai, se não põe diante do aluno ou do inquiridor exemplos reais dos processos que ele ouve descrever. Um ministro cercado de grupos de membros cheios de vida, que, com alegria e singeleza de coração, dizem como o salmista: “Venham e escutem, todos vocês que temem a Deus, e eu contarei o que ele tem feito por minha alma” (Sl 66.16), tem à mão “cartas vivas” (cf. 2Co 3.2-3) que pode mandar qualquer inquiridor ler, tem demonstrações práticas das doutrinas do seu púlpito, com as quais pode ao mesmo tempo convencer e esclarecer quem duvida. Aquele que não busca tais auxiliares, que permite ou estimula o hábito frio de cada um andar com o peito selado, apoia toda a sua esperança de êxito nas palavras dos próprios lábios, e isso sem apoio da Escritura.
Alguns defendem um claro afastamento da religião bíblica questionando abertamente a utilidade da comunhão cristã. Um escritor de renome chega a ousar dizer que é “melhor nunca falar” da experiência espiritual dos crentes. Embora esse sentimento seja completamente alheio ao espírito da piedade tanto do Antigo como do Novo Testamento, é o fruto natural da constituição de muitas das nossas igrejas protestantes. Nelas o elemento social da religião foi lamentavelmente desprezado. Há provisão para a doutrina, para as orações, para o partir do pão; mas nenhuma para a comunhão. Um cristão pode ser membro de uma igreja e, no entanto, fazer todo o seu caminho sozinho, sem que ninguém saiba ou queira saber dos seus conflitos ou das suas alegrias. Se é tentado, pode ficar de pé; se é vencido, pode ser restaurado; se está feliz, pode esconder a sua paz entre os seus segredos e não pedir a ninguém que se alegre com ele; se perdeu a sua pérola e a encontrou de novo, pode ficar calado, pois os vizinhos não costumam ser chamados para tomar parte nas preocupações e alegrias alheias. Há algo terrivelmente gelado num estado de coisas do qual esta é uma descrição demasiado exata. A religião é uma vida para ser vivida em comunhão; um combate para ser sustentado não isoladamente, mas em grupos; uma redenção cuja alegria devemos comunicar; uma esperança, uma antecipação, cujos consolos devem ser contados com alegria aos que “temem o Senhor” (Ml 3.16). Certa vez ouvimos um inquiridor contrito, que buscava consolo espiritual, dizer: “Faz dez anos que fui recebido como membro de tal igreja, e em todo esse tempo ninguém jamais me disse uma palavra sobre a minha alma.” E esse é o caso de dezenas de milhares que são membros de igrejas que só providenciam instrução e ordenanças públicas, e não a comunhão social dos santos. É um exemplo triste do efeito de desprezar qualquer um dos traços essenciais do cristianismo vital, e um comentário justo sobre a noção pouco cordial de que é melhor nunca falar da experiência religiosa.
Como ficariam alterados os Salmos, se pudéssemos reconstruí-los segundo o princípio de que tudo o que se refere ao estado da alma, às suas alegrias, tristezas, tentações, desvios e livramentos, é melhor guardar com prudente reserva longe do conhecimento dos nossos irmãos! Quanto as cartas apostólicas perderiam em dignidade, ternura e poder, como também em instrução, se essa lei gelada do isolamento chegasse a enrijecê-las!
Se passarmos da Religião em sua própria pessoa, tal como a vemos na Sagrada Escritura, para olhar o seu reflexo num dos melhores espelhos, O Peregrino, como Bunyan teria tratado peregrinos que fechassem o peito por rigidez ou por prudência? Um Cristão, um Fiel, um Esperançoso que nada tivessem a dizer “uns aos outros”, enquanto viajavam, sobre o começo da obra de Deus em seu coração, sobre os seus escapes, consolos, tentações e quedas; uma Cristã, uma Misericórdia, um Grande-Coração, um Honesto, um Pronto-a-Parar que não trocassem nenhuma experiência; donzelas santas e Gaios hospitaleiros que não tivessem perguntas a fazer sobre esses assuntos: esse seria um grupo de pessoas que Bunyan não reconheceria e que, suspeitamos, ele castigaria de bom grado. Na verdade, ele já deu a gente assim algumas chicotadas cortantes, na pessoa do Sr. Tagarela, que, embora fluente sobre doutrinas e pontos desse tipo, era muito reservado quanto à religião experimental. Fiel, querendo saber como levá-lo ao ponto, disse a Cristão: “Que você quer que eu faça?”
“Ora, vá até ele e entre em alguma conversa séria sobre o poder da religião; e pergunte-lhe francamente, depois que ele a tiver aprovado (pois isso ele fará), se essa coisa está estabelecida em seu coração, em sua casa ou em seu procedimento.”
Fiel, depois de descrever como uma obra da graça “se manifesta quando está no coração de um homem”, faz a pergunta direta: “Você tem experiência desta primeira parte da descrição?”
Tagarela, a princípio, começou a corar, mas, recompondo-se, respondeu assim: “Agora você vem com experiência, com consciência e com Deus, e com apelar a ele para justificar o que se diz. Eu não esperava esse tipo de conversa; nem estou disposto a responder a tais perguntas, porque não me considero obrigado a isso, a menos que você se arvore em catequista; e, ainda que o faça, posso recusar-me a fazer de você o meu juiz.” Quantos homens que professam religião, que se julgam pessoas muito diferentes do Sr. Tagarela, e em muitos aspectos o são, sentiriam, no entanto, mais ou menos o que ele sentiu, se algum Fiel chegasse tão abruptamente ao íntimo deles com a questão da experiência pessoal!
Tirem de O Peregrino o elemento social, a comunhão dos corações, o relato livre do trato do Senhor com cada peregrino, e vocês esfriarão o seu interesse até um ponto que, sem dúvida, pareceria decoroso aos olhos de alguns, mas nunca tocaria a muitos.
“Mas o que vocês chamam de ‘comunhão’, a reunião de membros leigos da igreja para oração, louvor e relato de experiências, não está sujeito a abusos?” Certamente que sim, e de várias maneiras. Mas a pregação do evangelho não está sujeita a abusos, a ponto de ser apenas um meio de exibir o talento de um homem ou de difundir o erro? E o batismo, a ponto de ser posto no lugar da “renovação do Espírito Santo” (Tt 3.5)? E a Ceia do Senhor, a ponto de ser posta no lugar da vida santa? Quando queremos saber o que é cristão, nunca perguntamos o que é incapaz de abuso, pois não acharíamos resposta; perguntamos o que está de acordo com a palavra de Deus.
E está de acordo com a palavra de Deus, no espírito e na letra, que “os que temem o Senhor” falem “uns aos outros” (Ml 3.16); que o pecador perdoado e feliz tenha companheiros à sua volta, diante dos quais possa celebrar as misericórdias do seu Redentor; que o fraco não definhe sem que ninguém saiba, nem aqueles cujo amor está esfriando sejam deixados a esfriar sem advertência. Somente uma igreja na qual, desde o ministro no púlpito para baixo, cada um em sua própria ordem, “segundo a graça que” lhe “foi dada” (Rm 12.6), é chamado a exercer o seu dom, e cada membro a contribuir com a sua “justa cooperação” (Ef 4.16) para a vida e a força geral; na qual os corações estão abertos e a comunhão é livre, pode corresponder ao ideal neotestamentário de uma igreja. Quanto do fracasso das diversas igrejas protestantes em manter a religião num alto grau de vitalidade por um período longo e contínuo, ou em difundi-la amplamente entre as nações que ficaram sob o seu cuidado espiritual, deve ser atribuído ao descaso delas para com o elemento social da piedade espiritual, não pretendemos determinar. Mas que as igrejas que, quanto a este ponto, aprenderam a buscar o espírito e o costume primitivos guardem fiel e inabalavelmente o tesouro inestimável que lhes foi confiado.
Tradução para o português a partir de William Arthur, The Tongue of Fire; or, The True Power of Christianity (1856), na edição de Londres (C. H. Kelly, c. 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.