William Arthur · A Língua de Fogo · Capítulos III e IV

O cumprimento da promessa e os efeitos espirituais do batismo de fogo

O cumprimento da promessa no dia de Pentecostes, o som do céu e o fogo celestial (capítulo III), e os efeitos espirituais do batismo de fogo: cheios do Espírito, o espírito humano restaurado e a natureza humana vivificada (capítulo IV).

Capítulo III

O cumprimento da promessa

I. Pentecostes, cinquenta dias depois da Páscoa

Houve um dia em que a morte desferira um golpe terrível e levantara o lamento de uma nação. “Houve grande clamor no Egito, pois não havia casa em que não houvesse um morto” (Êx 12.30). Naquele mesmo dia, o Senhor, pela aspersão do sangue de um cordeiro puro, desviou a morte das portas de Israel e então os conduziu para longe do jugo e dos feitores, rumo à boa terra. Cinquenta dias depois, chegaram ao monte de Deus, onde ele se manifestou no trovão do seu poder, com chama e trombeta, e com uma VOZ diante da qual todas as tribos tremeram. Então a nova dispensação foi formalmente inaugurada, com a voz e a chama; a sua aliança foi selada pela aspersão do sangue, e os seus privilégios foram abertos aos aspergidos pela visão da glória, quando os anciãos “viram o Deus de Israel, sob cujos pés havia como que uma pavimentação de pedra de safira, que se parecia com o céu na sua claridade” (Êx 24.10).

Chegara esse tempo memorável; tinham-se passado os cinquenta dias desde o tempo em que o Cordeiro fora morto e o cativeiro, quebrado. Quarenta dias ele estivera com eles depois da sua ressurreição; o restante passara dentro do véu. E não era possível que, ao dizer “dentro de poucos dias” (At 1.5), ele os estivesse apontando para o dia que comemorava a abertura da nova dispensação de Deus a Israel pela mão do seu servo Moisés? Não era provável que a gloriosa dispensação do seu Filho fosse aberta nessa ocasião? A incredulidade teria deixado de esperar havia muito tempo; mas a fé provavelmente renovaria as suas expectativas e olharia para esse dia.1

Na manhã da ressurreição, alguns, as mulheres, foram cedo ao túmulo; mas os outros andavam a esmo pelo campo, ou por aqui e por ali, sem nada pelo que esperar, segundo pensavam, embora em parte aguardassem que alguma notícia lhes chegasse aos ouvidos. Mesmo no fim do dia, quando se reuniram para ouvir o que alguns tinham visto e ouvido, Tomé estava ausente. Agora, porém, depois de passados dez dias, a paciência deles não se esgotou. Eles de fato esperam, e por isso não deixarão de aguardar. Não têm atenção para nada mais. O Reino de Deus está próximo. Não disse ele: “Dentro de poucos dias” (At 1.5)? Dez já se passaram; e a conclusão não é a de servos preguiçosos demais para esperar: “Meu senhor demora para vir; é melhor ficarmos quietos. Ele virá no tempo que lhe parecer bom.” Isso não é esperar: é vadiar. Eles diziam, no seu coração crente: “Dez dias se passaram; portanto, o dia do nosso Senhor se aproxima. Este é o dia de Pentecostes; e, assim como o fogo apareceu no Sinai, na presença dos nossos pais, quando Deus fez a sua aliança por meio de Moisés, pode ser que hoje ele sele a sua aliança pela mão do Profeta que Moisés anteviu, batizando-nos com fogo, segundo a palavra pela qual fez os seus servos esperar.”

Nenhum Tomé está ausente agora! Nem um só coração desfaleceu! “Estavam todos reunidos no mesmo lugar” (At 2.1). Não deixaram surgir discórdia nem dúvida: estavam todos unânimes “no mesmo lugar” (At 2.1). Também não são lentos nem tardios. Não nos é dito a que hora se reuniram, mas deve ter sido muito cedo, pois, depois de terem recebido o batismo e enchido toda Jerusalém com o rumor dos seus novos poderes, Pedro lembrou à multidão que se ajuntou que era apenas a terceira hora do dia, nove horas da manhã.

II. O som do céu e o fogo celestial

Cedo, pois, no segundo dia do Senhor depois da ascensão, o grupo inteiro está reunido, com um só coração, para renovar a sua oração tantas vezes repetida. Não podemos ir à casa onde ficava aquele cenáculo, nem ao lugar onde ela se erguia. Esses pormenores são deixados sem menção, segundo o modo do cristianismo, que em nada é uma religião de circunstâncias e em tudo é uma religião de princípios. Não sabemos por quanto tempo eles tinham insistido na sua oração naquela manhã, nem de quem era a voz que então clamava àquele que fizera a promessa, nem que palavra do Mestre ela alegava, nem que sentimentos de expectativa mais intensa e de fé mais viva aqueciam o peito dos discípulos. Mas “de repente, veio do céu um som, como de um vento impetuoso” (At 2.2). Não, notem bem, um vento; nenhuma rajada varrendo a cidade bateu nas paredes da casa e assobiou ao seu redor. Mas “do céu”, diretamente para baixo, caiu “um som”, sem forma, nem passo, nem movimento que o explicasse: um som como se um vento poderoso estivesse soprando, não ao longo do chão, mas diretamente do alto, como aguaceiros numa calmaria completa. E, no entanto, nenhum vento se movia. Quanto ao movimento, o ar do aposento estava parado como a morte; quanto ao som, era temível como um furacão.

Som misterioso, de onde vens? É o Senhor soprando de novo sobre eles, mas desta vez do seu trono? É o vento de Ezequiel preparando-se para soprar? Abalados por esse sinal sobrenatural, podemos ver cada cabeça curvar-se profundamente. Então, erguendo os olhos timidamente, João vê a cabeça de Pedro coroada de fogo; Pedro vê Tiago coroado de fogo; Tiago vê Natanael coroado de fogo; Natanael vê Maria coroada de fogo; e, em toda a volta, o fogo pousa “sobre cada um deles” (At 2.3). O Senhor se lembrou da sua promessa. A palavra do Senhor está provada. João foi uma testemunha fiel. Jesus foi um Redentor fiel. Agora ele está glorificado, pois o Espírito Santo foi dado. Jesus, “exaltado, pois, à direita de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto” (At 2.33).

O efeito imediato da descida do Espírito sobre os primeiros convertidos gentios, na casa de Cornélio, foi que eles começaram a “engrandecer a Deus” (At 10.46).2 O efeito seria o mesmo neste primeiro caso. Ainda não aprendeu o que é o sentimento da sublimidade moral o peito que nunca se elevou de repente com uma emoção de adoração incontida a Deus e ao Cordeiro, uma emoção que, embora nenhuma voz dissesse de onde vinha, pelo seu movimento nas profundezas da alma, mais fundo do que alcançam os sentimentos comuns, indicava de algum modo que nela se podia reconhecer o toque do Criador. Só os que sentiram tal alegria, que não é deste mundo, precisam tentar conceber a explosão daquele momento ardente. Corpo, alma e espírito, ardendo num só fogo celestial, se fundiriam e derramariam as suas forças num arrebatado “Glória a Deus!” ou “Bendito seja o Senhor Deus!” Os crentes de hoje (não os que nunca se unem em súplicas simples e fervorosas diante do trono da graça, mas os que se reúnem e insistem junto a Deus com os seus pedidos, numa súplica longamente repetida) podem lembrar ocasiões que os ajudam a imaginar o que deve ter sido o brado de louvor que irrompeu do coração dos cento e vinte quando o batismo caiu sobre a alma deles; ocasiões em que eles e os seus amigos sentiram como se o lugar onde estavam reunidos estivesse cheio da glória do Senhor.

Uma palavra quanto ao modo desse batismo. Neste caso temos o único relato perfeitamente claro, contido na Escritura, do modo como o elemento batismal foi aplicado à pessoa dos batizados. O elemento aqui é o fogo; o modo é o derramamento: “derramou isto” (At 2.33). O fogo “pousou sobre cada um deles” (At 2.3). Se batismo significasse imersão, eles teriam sido mergulhados no fogo, e não o fogo derramado sobre eles. O único outro caso em que se indica o modo de contato entre o elemento batismal e as pessoas batizadas é este: “todos, em Moisés, foram batizados, tanto na nuvem como no mar” (1Co 10.2). Não foram mergulhados na nuvem, mas a nuvem desceu sobre eles; não foram imersos no mar, mas o mar os aspergiu enquanto passavam. O Espírito, significado pela água, nunca é prometido nem uma vez sob a ideia de mergulho. Uma expressão como “Eu os imergirei no meu Espírito”, “Eu os mergulharei no meu Espírito” ou “Eu os mergulharei em água pura” é desconhecida da Escritura. Mas “derramarei o meu espírito sobre vocês” (Pv 1.23), “aspergirei água pura sobre vocês” (Ez 36.25) é linguagem e pensamento familiares a todos os leitores da Bíblia. A palavra “molhar” ou “molhado” não ocorre com frequência no Novo Testamento; mas, quando ocorre, o original nunca é “batizar” ou “batizado”.3

Iii. O cristianismo, uma língua de fogo

O fogo não é uma chama sem forma. Não é a tocha de Abrão, nem a coluna do deserto, nem a brasa de Isaías, nem a chama envolvente de Ezequiel. É uma língua; sim, línguas repartidas. Sobre cada fronte arde um lençol de chama, dividido em muitas línguas. Ali estava o símbolo da nova dispensação. O cristianismo haveria de ser uma língua de fogo. Era um símbolo do “poder” deles, o poder pelo qual o novo reino seria edificado; o poder pelo qual tinham de esperar tanto tempo e orar com tanto ardor, quando todas as outras coisas estavam preparadas; o poder por causa do qual se ordenou que todo o plano da conversão do mundo ficasse parado. O aparecimento desse único símbolo era o sinal de que os anteriores tinham envelhecido e estavam prestes a desaparecer. Altar e querubins, sacrifício e incenso, estola sacerdotal e peitoral, Urim e Tumim: a sua obra estava terminada. Até sobre o mais sagrado emblema de todos, aquele que era a figura “das coisas que estão nos céus” (Hb 9.23), a própria arca, fora predito: “nunca mais se exclamará: ‘A arca da aliança do Senhor!’ Ela não lhes virá à mente, não se lembrarão dela nem dela sentirão falta; e não se fará outra” (Jr 3.16). Do próprio templo o Mestre dissera que não ficaria pedra sobre pedra.

Todos os emblemas da antiga dispensação estavam superados para sempre. No lugar deles, o Senhor estabelecera apenas dois, escolhidos com singular acerto para, ao mesmo tempo, sugerir ideias e evitar a representação por imagens: a água, na qual a mente podia ver um símbolo do Espírito que purifica, mas os olhos nenhuma tentativa de semelhança; o pão e o vinho, pelos quais o corpo e o sangue são trazidos vivamente à mente, mas nenhuma semelhança pessoal é posta diante dos olhos. Somente esses dois foram os emblemas sem arte que Cristo ordenou para a sua igreja. A dele havia de ser uma religião do entendimento e do coração, apoiada inteiramente nas convicções e nos princípios, sem edificar nada sobre os sentidos e sem conceder nada à fantasia.

Em perfeita harmonia com esse caráter espiritual do cristianismo estava o símbolo que, de uma vez por todas, anunciou à igreja a chegada do seu poder conquistador: o poder pelo qual ela haveria de comparecer diante de reis, confundir sinagogas, silenciar concílios, acalmar multidões, enfrentar os sábios, iluminar os insensatos e inflamar os frios; o poder pelo qual, começando em Jerusalém, onde o nome de Jesus era motivo de escárnio, ela haveria de proclamar a glória dele por toda a Judeia, por toda a Samaria e até os confins da terra. O símbolo é uma LÍNGUA, o único instrumento da maior guerra jamais travada: uma língua, a fala do homem ao seu semelhante; uma mensagem em palavras humanas às faculdades humanas, do entendimento para o entendimento, do coração para o coração. Uma língua de fogo: a voz de um homem, a verdade de Deus; a fala do homem, a inspiração do Espírito Santo; um órgão humano, um poder sobre-humano! Não uma língua, mas línguas repartidas; como a fala dos homens é variada, aqui vemos o Criador tomando para si a língua da mãe de cada homem, para que, nas mesmas palavras com que a ouviu dizer “Eu te amo”, ele pudesse ouvir também o Pai de todos dizer “Eu te amo”.

Como esse símbolo de fogo, brilhando sobre a fronte da igreja primitiva, repreende o sistema que quer forçar todos os homens a adorar a Deus numa só língua, e essa não uma língua de fogo, mas uma língua morta, na qual nenhum homem hoje na terra pode ouvir a voz da sua mãe! Línguas repartidas pousaram sobre cada um deles, de modo que cada um tinha não só o impulso de fogo para ir e anunciar em alta voz a mensagem da reconciliação, mas também o sinal de fogo de que toda a humanidade, de qualquer nação, tribo, povo ou língua, era igualmente herdeira da salvação do evangelho e da palavra pela qual essa salvação é proclamada.

Bendita seja a hora em que aquela LÍNGUA DE FOGO desceu do Doador da fala a um mundo frio! Se ela nunca tivesse vindo, minha mãe poderia ter-me levado, quando criança, a ver a matança como culto, e eu teria ensinado aos meus pequeninos que as pedras eram deuses. “Bendito seja o Senhor Deus, o Deus de Israel, o único que faz maravilhas! Bendito para sempre o seu glorioso nome, e da sua glória se encha toda a terra. Amém e amém!” (Sl 72.18-19).

Capítulo IV

Efeitos espirituais do batismo de fogo

I. “Cheios do Espírito Santo.”

O primeiro efeito que se seguiu a esse batismo de fogo é assim descrito: “Todos ficaram cheios do Espírito Santo” (At 2.4). Essa expressão está tão estreitamente ligada ao registro do milagre que facilmente supomos que ela mesma pretende exprimir uma inspiração miraculosa; mas esse não é o seu uso constante, nem sequer o mais frequente, no Novo Testamento. Às vezes é empregada para descrever uma inspiração que antecede uma manifestação miraculosa, e às vezes uma que antecede uma manifestação puramente moral. Exemplos desta última ocorrem em vários casos em que se anunciou “a palavra de Deus com ousadia” (At 4.31), quando as circunstâncias eram tais que a natureza humana, sem auxílio, teria recuado diante do perigo.

João Batista não fez milagre algum; contudo, dele se disse que seria “cheio do Espírito Santo, já desde o ventre materno” (Lc 1.15). Aqui a expressão indica alguma operação interior e espiritual, que pode ocorrer no silêncio do coração de uma criança e mostrar o seu fruto nos caminhos tranquilos da infância. Se ele tivesse sido cheio do Espírito Santo imediatamente antes de começar a pregar, teríamos ligado uma coisa à outra, como uma qualificação para o ofício, e não como uma qualificação interior e moral. Quando foram necessários homens para ocupar o ofício de diáconos (não para fazer milagres, não para falar em línguas, mas para promover a fraternidade e a boa disposição da igreja, por uma melhor organização da sua assistência diária aos pobres), a qualificação exigida foi que fossem homens “cheios do Espírito e de sabedoria” (At 6.3). Também de Barnabé se diz que “era homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé” (At 11.24). Isso é dito dele não para explicar milagres ou línguas, mas em relação ao fato de que, quando viu os convertidos em Antioquia, “ficou muito alegre. E exortava todos a que, com firmeza de coração, permanecessem no Senhor” (At 11.23). Também, quando os apóstolos foram chamados pela primeira vez a dar testemunho de Cristo diante das autoridades, “Pedro, cheio do Espírito Santo, lhes disse”, etc. (At 4.8). Aqui não temos realização de milagres nem fala em línguas estrangeiras; mas encontramos o homem que, deixado às suas próprias forças, negara o seu Mestre, agora cheio de um poder moral que o torna ousado para confessar o nome desse Mestre diante das autoridades do seu povo, e de uma sabedoria para falar de acordo, ao mesmo tempo, com os oráculos de Deus e com a exigência do momento.

Quando essa primeira perseguição foi relatada aos discípulos em geral, eles, comovidos e angustiados, recorreram ao Senhor em oração, clamando: “Agora, Senhor, olha para as ameaças deles e concede aos teus servos que anunciem a tua palavra com toda a ousadia” (At 4.29). A resposta a essa oração é registrada em termos mais impressionantes do que em qualquer outro caso, exceto o de Pentecostes: “Tendo eles orado, tremeu o lugar onde estavam reunidos. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e, com ousadia, anunciavam a palavra de Deus” (At 4.31). Aqui, ficar “cheio do Espírito Santo” não foi seguido de nenhum efeito miraculoso, qualquer que fosse, mas foi uma inspiração cujo resultado é uma força moral especial: força para enfrentar o perigo e a vergonha; força para anunciar todo o evangelho, embora, ao fazê-lo, arriscassem todos os interesses que lhes eram caros.

O nosso Senhor prometera aos discípulos luz e poder miraculosos pelo Espírito; mas não fora principalmente como poder operador de milagres que ele predissera a sua vinda. Fora como um poder espiritual, um consolador, um guia em toda a verdade, um revelador das coisas de Deus, alguém que faria lembrar as palavras de Cristo; alguém que convenceria o mundo do pecado, da justiça e do juízo; alguém que encorajaria os servos do Senhor a dar testemunho diante dos adversários mais terríveis e guiaria os seus lábios a uma fala sábia e convincente. Se fosse intenção dele que esperassem o Espírito Santo principalmente como um poder miraculoso, as promessas principais teriam tido esse aspecto.

Quando anuncia claramente, pela primeira vez, que o Consolador viria como substituto da sua própria presença, ele distingue as classes dos que o conhecerão e dos que não o conhecerão. A distinção entre elas não está no apostolado nem no ministério, não está nos dons nem nos poderes, mas em ser do mundo e em “não ser do mundo” (Jo 17.16). “O Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece. Vocês o conhecem, porque ele habita com vocês e estará em vocês” (Jo 14.17). Não: “Porque ele fará milagres por meio de vocês.” Isso não foi prometido a todos. Não: “Ele profetizará por meio de vocês.” Isso ele não prometeu a todos. Mas prometeu, sim, a todos os que “não são do mundo” que ele habitaria com eles e estaria neles. Nem essa promessa se limita à era apostólica ou aos tempos imediatamente seguintes. “A fim de que esteja com vocês para sempre” (Jo 14.16) dá aos discípulos de todas as épocas, tanto quanto aos dos primeiros dias, parte nas influências pessoais do Consolador.

Esse substituto prometido da presença pessoal de Cristo era alguém que o mundo não haveria de ver; que seria invisível ao olho natural, indiscernível à mente natural; e, contudo, conhecido e discernido pelos crentes, embora não visto; conhecido, não por um sinal exterior, mas por uma consciência interior. A expressão do nosso Senhor deve ser observada com rigor: “o mundo não o vê, nem o conhece. Vocês o conhecem” (Jo 14.17); e não: “Vocês o veem e o conhecem.” Num aspecto, os discípulos e o mundo seriam iguais: nenhum deles o veria. Contudo, os discípulos o “conheceriam”, pois “ele habita com vocês e estará em vocês” (Jo 14.17). O conhecimento que teriam dele viria, não pelos sentidos, mas pela consciência. Esse “estar neles” seria uma graça comum dos crentes, ou estaria ligado apenas ao ofício ou a dotes sobrenaturais? A falta dele é apresentada por são Paulo como decisiva contra a pretensão de qualquer homem de ser considerado sequer membro de Cristo: “Vocês, porém, não estão na carne, mas no Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vocês. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8.9). Essa passagem, porém, como muitas outras, exprime apenas uma participação no Espírito em algum grau, sem indicar qual seria esse grau; e deixaria em dúvida, se não houvesse outras passagens sobre o assunto, se alguns não poderiam ser abençoados com a habitação do Espírito e, ainda assim, ficar excluídos do privilégio mais pleno expresso nas palavras fortes “cheios do Espírito Santo”.

Os próprios apóstolos, sem dúvida, já haviam recebido o Espírito em alguma medida antes do dia de Pentecostes, pois o nosso Senhor soprara sobre eles logo depois da sua ressurreição e dissera: “Recebam o Espírito Santo” (Jo 20.22). Contudo, no tempo que se passou entre aquele momento e o Pentecostes, qualquer que tenha sido o progresso da sua condição espiritual em relação ao que era antes, ela ficava muito atrás daquela que se seguiu imediatamente ao batismo de fogo. Só então eles ficaram “cheios do Espírito Santo”. Verificamos, porém, que até a expressão “encher-se” é aplicada amplamente aos crentes comuns; e isso não apenas para descrever as experiências efetivas de alguns indivíduos, mas como um preceito aplicável a todos: “E não se embriaguem com vinho, pois isso leva à devassidão, mas deixem-se encher do Espírito” (Ef 5.18). Seja o que for que se queira dizer com ficar “cheio do Espírito Santo”, essas palavras claras o impõem a nós como dever. Olhando-o sob o aspecto de dever, e pensando na altura moral que a expressão indica acima da nossa vida comum, recuamos. Pode uma obrigação assim pesar sobre nós? Não é ordenar ao meio cego que fite o sol? E, no entanto, o que quer que seja dever do homem tem de ser vontade de Deus. Vista assim, então, a ordem parece trazer um encorajamento ainda mais forte do que a promessa; parece, na verdade, resumir muitas promessas num único apelo decisivo, que diz: “Tudo já está preparado. O Senhor proveu; a fonte está aberta; o rio puro da água da vida, brilhante como cristal, sai do trono de Deus e do Cordeiro; vocês são chamados às suas margens, e de vocês depende beber e encher-se do Espírito.”

Quem não recebeu o Espírito Santo ainda não entrou na verdadeira vida cristã, não conhece a “paz de Deus, que excede todo entendimento” (Fp 4.7), não tem em si, em sentido algum, “Cristo”, “a esperança da glória” (Cl 1.27). Ainda está “na carne” (Rm 8.9), no seu estado natural e carnal, pois o Espírito de Deus não habita nele. A diferença entre receber o Espírito e ser cheio do Espírito não é de natureza, mas de grau. No primeiro caso, a luz do céu chegou ao quarto escuro, perturbando a noite, mas deixando alguma obscuridade e algumas sombras profundas. No outro, essa luz encheu o quarto inteiro e tornou claro cada canto. Esse estado da alma, ser “cheio do Espírito Santo”, é o antecedente normal do verdadeiro poder profético ou miraculoso, mas pode existir sem ele: sem ele, em indivíduos que nunca são dotados do dom da profecia nem do de milagres; sem ele, em indivíduos que têm tais poderes, mas nos quais eles não estão em ação, como em João Batista, antes de começar o seu ministério.

A visão é a base necessária do que se chama olhar de pintor ou de poeta; o sentido da audição, a base necessária do que se chama ouvido musical; contudo, pode haver visão onde não há olhar de poeta ou de pintor, e audição onde não há ouvido musical. Assim também a alma humana pode estar “cheia do Espírito Santo”, com todas as faculdades iluminadas e todas as afeições purificadas, sem nenhum dom miraculoso. Por outro lado, o poder miraculoso não implica necessariamente a plenitude espiritual, pois Paulo supõe o caso de alguém falar em línguas, profetizar, transportar montes e, ainda assim, não ter caridade, aquele amor que tem de ser derramado em todo coração cheio do Espírito Santo.

“Cheios do Espírito Santo!” Palavra três vezes bendita! Graças a Deus que um dia as línguas dos homens a aprenderam! Ela declara não só que o Senhor voltou ao seu templo na alma humana, mas que encheu a casa com a sua glória, penetrando cada aposento, cada átrio, com a sua presença manifesta.

“Para que vocês fiquem cheios de toda a plenitude de Deus” (Ef 3.19) é uma oração diante da qual vacilamos. Não é pedir demais? Não é um voo sublime atrás do impossível? Lembremo-nos de que não se diz: “Para que vocês contenham toda a plenitude de Deus.” Isso seria mais impossível do que o seu quarto conter toda a luz do sol. Mas ele pode ser cheio da luz do sol, tão cheio que não reste dentro dele uma só partícula de ar sem iluminação. Quando, pois, a mão do apóstolo os conduz para o alto, em direção ao rosto do seu Pai; quando vocês se aproximam para ver a luz que supera todas as luzes, “a glória de Deus na face de Jesus Cristo” (2Co 4.6), afastem todo pensamento de conter o que os céus não podem conter; mas, abrindo humildemente o coração, digam: “Luz infinita, enche este pequeno quarto!”

A razão diz: “Pode ser”; a Escritura diz: “Pode ser”; mas um encolhimento do coração diz: “Não pode ser; nunca poderemos ‘ficar cheios de toda a plenitude de Deus’.” Quando Paulo fez essa oração, talvez esse mesmo encolhimento do coração quase o tenha dominado: como ele o enfrenta? Olhando para baixo, para a sua petição maravilhosa, e para o alto, para o seu Rei todo-poderoso, ele irrompe: “Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo o que pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!” (Ef 3.20-21). Sim, amém, dez mil milhares de vezes. As palavras dessa doxologia seriam santas e benditas em qualquer contexto; mas são duplamente benditas por seguirem de perto, como seguem, a oração “para que vocês fiquem cheios de toda a plenitude de Deus”. Nem devemos esquecer que o poder que Paulo aqui adora não é algum poder abstrato e imóvel da Divindade, mas “o seu poder que opera em nós” (Ef 3.20). Que poder é esse? O Espírito Santo: “fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito, no íntimo de cada um” (Ef 3.16).

Que esforço de expressão encontramos em 2Co 9.8, quando Paulo quer transmitir a sua própria ideia do poder da graça como aquilo que capacita na prática os homens a fazer a vontade de Deus! “E Deus é poderoso para fazer abundar em vocês toda graça, a fim de que, tendo sempre toda suficiência em todas as coisas, vocês abundem em toda boa obra.” Aqui temos “abundar” duas vezes e “todo” quatro vezes, numa só frase curta.4 [N. do T.: o autor cita e conta as palavras da versão inglesa; a NAA traz “Deus pode tornar abundante em vocês toda graça, a fim de que, tendo sempre, em tudo, ampla suficiência, vocês sejam abundantes em toda boa obra”.] “Abundar” significa não só encher, mas transbordar. O duplo transbordamento, primeiro da graça de Deus para nós, depois da mesma graça de nós para “toda boa obra”, é um glorioso comentário da palavra do nosso Senhor: “Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva. Isso ele disse a respeito do Espírito que os que nele cressem haviam de receber; pois o Espírito até aquele momento não tinha sido dado, porque Jesus ainda não havia sido glorificado” (Jo 7.38-39). O coração do crente, por si mesmo incapaz de uma vida santa, como uma cisterna de mármore é incapaz de produzir uma corrente constante, é posto, como a cisterna, em comunicação com uma fonte invisível; a fonte transborda continuamente na cisterna, e esta, por sua vez, transborda. Feliz o coração assim cheio, assim transbordando do Espírito Santo! Onde está a fonte dessas águas vivas, para que levemos até lá o nosso coração? “Então o anjo me mostrou o rio da água da vida, brilhante como cristal, que sai do trono de Deus e do Cordeiro” (Ap 22.1). Ali está a fonte, ali a corrente: o Espírito que procede do Pai e do Filho. Ao trono da graça! Ao propiciatório! E vocês estarão na fonte de toda a vida. Nunca busquem naquela fonte uma provisão escassa. “Deixem-se encher do Espírito” (Ef 5.18) ressoa nos seus ouvidos; e, se vocês crerem, não apenas uma fonte “a jorrar” (Jo 4.14) estará dentro de vocês, mas rios fluirão de vocês.

O Espírito, como Aquele que enche o crente de virtudes efetivas e de santidade prática, é mantido sempre diante dos nossos olhos nos escritos apostólicos. “Dessa maneira, poderão viver de modo digno do Senhor, para o seu inteiro agrado, frutificando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus. Assim, vocês serão fortalecidos com todo o poder, segundo a força da sua glória, em toda a perseverança e paciência, com alegria” (Cl 1.10-11).

Juntando essas várias expressões, que visão elas nos dão das riquezas da graça! “Toda suficiência”, “em todas as coisas”, “sempre”, “abundem em toda boa obra”, “frutificando em toda boa obra”, “fortalecidos com todo o poder”, “segundo a força da sua glória”, “conforme o seu poder que opera em nós”, “cheios de toda a plenitude de Deus”. Espírito eterno, que procedes do Pai e do Filho, responde à nossa incredulidade e dissipa-a toda, enchendo o nosso coração de ti mesmo!

II. O espírito humano restaurado à sua comunhão original e mais elevada

A expressão “cheios do Espírito Santo” põe diante de nós o espírito humano restaurado à sua comunhão original e mais elevada. Em muitos aspectos, esse espírito está sozinho neste mundo. Não encontra aqui nada que lhe seja igual. Tudo aquilo para que pode olhar lhe é inferior, tanto em natureza como em capacidades. A terra e o céu, os animais e as aves, são instrumentos do seu conforto ou objetos dos seus pensamentos; mas nunca podem compartilhar os seus cuidados ou afetos. Os campos nunca dizem: “Desfrutamos a tua presença”; nem as estrelas: “Retribuímos a tua admiração.” Os animais inferiores não podem tomar parte nos seus profundos movimentos de esperança e de medo; não podem lançar luz sobre os seus problemas de justiça, de perdão e do mundo vindouro. Só no espírito do seu semelhante ele pode encontrar um igual; e a comunhão com este, embora muitas vezes o console, muitas vezes também o fere e o contamina. Contudo, é da natureza do homem buscar um objeto que lhe seja semelhante, mas superior. Provavelmente isso é necessário a todas as naturezas que são, ao mesmo tempo, racionais e finitas. Mas onde pode o homem encontrar um ser semelhante a si e, contudo, superior a ele? Abaixo do céu, ele é a cabeça; mas os seus instintos se voltam para o alto, para alguém mais brilhante ou maior do que ele mesmo.

O que pode corresponder a essas aspirações da alma para o alto? O seu Criador. Depois de anos gastos em busca da felicidade, o espírito humano volta arrependido ao seu Deus e, confiando na expiação do seu Filho, encontra perdão para o passado. Então o grande Consolador, a Testemunha do amor do Pai, o Espírito de adoção, dá a manifestação do favor divino que Davi gostava de chamar de “a luz do teu rosto” (Sl 4.6). Essa manifestação pode ser suave ou pode ser arrebatadora; mas, em qualquer caso, é consoladora. Quando é mais suave, toca cordas de satisfação mais delicadas do que jamais foram alcançadas pela mais sutil alegria do intelecto; quando é mais arrebatadora, traz consigo um assentimento de todo o juízo como nenhum gozo anterior, por mais tranquilo, jamais obteve. A sede da alma não tem morada mais profunda do que a que agora é alcançada. A sabedoria não tem objeção, a expectativa não tem decepção, o medo não tem advertência. Pode ser numa calma profunda, pode ser numa alegria indizível; mas é com uma consciência que vai até o âmago que a alma sente que agora tocou, sim, provou, o seu bem supremo, e que, para o tempo ou para a eternidade, não precisa de mais nada senão permanecer nessa bem-aventurança e aprofundar essa comunhão. No quarto sombrio de que falamos há pouco, os raios do sol entraram sem ruído e de modo impalpável; nenhuma mão podia senti-los, nenhum ouvido podia ouvi-los quando vieram; nada senão um olho dentro daquele quarto podia discernir a grande mudança. Continua a ser o mesmo quarto, com o mesmo conteúdo; contudo, tudo está mudado, até o próprio ar. Assim acontece com a alma do homem quando o Senhor diz: “O meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada” (Jo 14.23). Isso não é apenas a presença de Deus com o espírito do homem, mas uma presença especial e manifesta.

Como pode ser especial aquilo que é universal? Deus não está longe de cada um de nós; todo homem que se move sobre a terra se move nele. Como, então, pode ele estar presente de modo especial com um homem mais do que com outro? A rigor, talvez seja mais uma questão de manifestação do que de presença. A força elétrica pode estar presente em toda parte; mas raramente se torna visível num relâmpago. O calor pode estar presente em toda parte; mas não se manifesta em toda parte pelo fogo. Judas disse: “Por que razão o Senhor se manifestará a nós e não ao mundo?” (Jo 14.22). Deus está com todos, mas não é visto por olho algum e, infelizmente, não é discernido por muitos espíritos. Ele não retira a sua presença de nenhuma parte do seu universo, nem o seu cuidado de nenhuma das suas criaturas; mas, assim como um corpo humano pode estar se movendo em meio à luz do sol sem ver luz alguma, assim uma alma pode estar se movendo num universo que está mais cheio de Deus do que a atmosfera ao meio-dia está cheia de raios de sol, e, contudo, não discernir Deus algum.

Todos os objetos exigem uma faculdade adequada, ou não são percebidos: o som não existe para o olho; a luz não existe para o ouvido; o sabor não existe para o tato. De nada adianta que um objeto exista, se a nossa natureza não tem a faculdade especial pela qual podemos perceber a sua presença. Uma forte força magnética pode estar agindo sobre a bússola em que o timoneiro concentra a sua atenção; mas o olho, o ouvido, a mão, o olfato e o paladar não dão à mente notícia alguma da sua presença; e ele só fica sabendo que ela estava ali pelo choque do navio contra uma costa que ele julgava estar muito longe.

O nosso Senhor disse, em resposta a Judas: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra; e o meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada” (Jo 14.23). Isso é mais do que mera presença. A presença pode não ser sentida e, por isso, ser esquecida; pode ser acompanhada de desagrado e, por isso, não trazer alegria. Mas esta é uma presença manifesta: “viremos para ele”; graciosa: a vinda procede do “amor”; habitual e envolvendo amizade: ambas as ideias estão em “faremos nele morada”.

Dois homens caminham pela mesma planície, e cada um volta o rosto para o céu. A luz do sol brilha sobre ambos; mas um não vê sol algum, enquanto o outro vê não apenas a luz, mas o disco do sol, e o seu olho é ofuscado pela sua glória. O que faz a diferença entre os dois? Não que um esteja nas trevas e o outro na luz; não que um esteja perto do sol e o outro longe; não que um tenha um olho constituído de modo diferente do outro; mas simplesmente que há uma nuvem fina entre o céu e um deles, e nenhuma nuvem entre o céu e o outro. Este não só pode encontrar indícios de que há um sol e de que ele já nasceu, mas tem a presença desse sol diante do rosto e a sua glória enchendo-lhe os olhos. Assim estão dois homens em relação ao Deus universal e onipresente. Um crê, deduz, sabe intelectualmente que ele existe; sim, que ele está presente; contudo, não o discerne; é uma questão de dedução, não de consciência; e, embora creia que Deus existe e que está presente, peca. Outro o discerne espiritualmente, sente a sua presença; e aprende a “tremer de medo e não pecar” (Sl 4.4).

Imaginem o caso de um aleijado que passou a vida num quarto onde nunca se via o sol. Ouviu falar da sua existência, crê nele e, de fato, viu o bastante da sua luz para ter uma ideia elevada da sua glória. Desejando ver o sol, é levado à noite para as ruas de uma cidade iluminada. A princípio fica encantado, deslumbrado; mas, depois de ter tido tempo para refletir, percebe a escuridão espalhada entre as luzes e pergunta: “É este o sol?” É levado para fora, sob o céu estrelado, e fica extasiado; mas, refletindo, percebe que a noite cobre a terra e pergunta outra vez: “É este o sol?” É levado para fora num dia claro, ao meio-dia, e, mal o seu olho se abre para o céu, toda pergunta acaba. Só existe um sol. O seu olho está satisfeito: viu o seu objeto mais elevado e sente que não há nada mais brilhante. Assim é com a alma: ela desfruta todas as luzes; contudo, em meio às da arte e da natureza, continua procurando algo maior. Mas, quando é conduzida pelo Cristo que reconcilia à presença do Pai, e ele levanta sobre ela a luz do seu rosto, desaparece todo pensamento de algo maior. Assim como só existe um sol, só existe um Deus. A alma que uma vez o discerne e o conhece sente que não há ninguém maior nem mais brilhante, e que a única possibilidade de contemplar algum dia mais glória é chegar mais perto.

Iii. A natureza do homem vivificada por uma comunicação da natureza divina

A operação do Espírito Santo implica uma vivificação da natureza do homem por uma comunicação da natureza divina, e cada aumento dela implica uma comunhão mais plena do Pai eterno com o seu filho adotivo. Quando a alma do homem está “cheia do Espírito Santo”, então Deus tem aquilo em que de fato se alegra: um templo “não feito por mãos humanas” (Mc 14.58), não erguido pela arte humana com material inconsciente e insensível; um templo criado pela sua própria palavra e que vive pelo seu próprio sopro. Nesse templo vivo, ele exibe algo da sua glória. Na Shekinah do santuário, ele só podia manifestar majestade. Neste templo vivo, pode manifestar verdade, pureza, ternura, perdão, justiça: todo o conjunto dos atributos que os seus filhos debaixo do céu são capazes de compreender. Assim habitada, não só a alma do homem é indizivelmente bem-aventurada, mas o seu corpo alcança uma dignidade cujo pensamento poderia fazer cantar até a carne. “O corpo de vocês é santuário do Espírito Santo, que está em vocês e que vocês receberam de Deus, e vocês não pertencem a vocês mesmos” (1Co 6.19). Não pertencem a si mesmos, porque foi feita uma compra: “vocês foram comprados por preço” (1Co 6.20); não pertencem a si mesmos, porque se tomou posse: “Vocês não sabem que são santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vocês?” (1Co 3.16). Um homem santo, cuja presença exala ao seu redor um ar que não é deste mundo, cujo nome se identifica com uma constância de ações piedosas, é um monumento visível e um lembrete de Deus. Cada membro do seu corpo é como um utensílio do templo. Por meio dele se fazem obras santas, e a vontade do Espírito em questões morais é expressa por instrumentos materiais. O seu “corpo mortal” é vivificado pelo Espírito “que habita” nele (Rm 8.11). Ele não só “vive no Espírito”, mas “anda no Espírito” (Gl 5.25), sendo os seus atos visíveis, tanto quanto as suas emoções ocultas, “segundo o Espírito” (Rm 8.4). O homem natural desapareceu da sua vida e das suas ações. Outra criatura vive. Pensamentos, propósitos, obras que a sua natureza nunca inspirou, e que, quando inspirados pela revelação, a sua natureza não poderia alcançar, agora abundam como uvas doces numa boa videira. Este preceito está encarnado na sua vida: “Também não ofereçam os membros do corpo ao pecado, como instrumentos de injustiça, mas, como pessoas que passaram da morte para a vida, ofereçam a si mesmos a Deus e ofereçam os seus membros a Deus, como instrumentos de justiça” (Rm 6.13).

Nisso o poder do Espírito Santo se manifesta na prática, por uma inversão das relações entre o espírito humano e a carne. A pessoas que ainda estão no corpo, o apóstolo diz: “Vocês, porém, não estão na carne, mas no Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vocês” (Rm 8.9). Não na carne, e contudo no corpo! O homem não convertido tem um espírito, mas ele está carnalizado; o jogo das suas faculdades (os estudos do intelecto, os voos da imaginação, os impulsos do coração) é ditado por motivos que se movem todos abaixo do céu e param deste lado do túmulo. O espírito é servo da carne; e o homem difere dos animais que perecem principalmente nisto: para fins e prazeres carnais, ele dispõe do serviço de um agente espiritual, a sua própria alma.

O Espírito Santo, como regenerador do homem, inverte esse estado de coisas. Ele vivifica o espírito e, por meio dele, vivifica o corpo, de modo que, em vez de os poderes espirituais se tornarem carnais, um corpo mortal se torna espiritual; em vez de a alma e o espírito ficarem sujeitos à carne, a carne e o sangue se tornam instrumentos do Espírito. Os membros se movem em obras de origem e propósito celestiais. Assim se estabelece uma ligação direta entre a vontade do Espírito Supremo e os órgãos materiais do homem. Um propósito nasce na mente de Deus; pelo seu Espírito, ele é transmitido, silenciosa e rapidamente, ao espírito do seu filho; e, por este, ao “corpo mortal” (Rm 8.11). Então, assim como um fio de ferro, na costa da Crimeia, exprime a vontade da nossa rainha em Londres, os membros terrenos de um mortal exprimem, no mundo exterior e físico, o propósito do Santo. Isto é a redenção realizada; isto é a adoção nos seus frutos; isto é a nova vida; isto é a natureza humana restaurada, o homem andando na luz: “Deus permanece nele, e ele permanece em Deus” (1Jo 4.15). Então a sua vida é uma luz, e uma luz tão pura que dá àqueles sobre quem brilha não a ideia de “boa índole”, mas de algo celestial. Eles veem as suas boas obras e “glorificam o Pai dele, que está nos céus” (Mt 5.16); não exaltam o caráter dele, mas sentem que ele foi elevado acima do seu próprio caráter e é “feitura dele, criado em Cristo Jesus para boas obras” (Ef 2.10).

Um pedaço de ferro é escuro e frio; impregnado de certo grau de calor, torna-se quase ardente, sem nenhuma mudança de aparência; impregnado de um grau ainda maior, a sua própria aparência muda para a de fogo sólido, e ele incendeia tudo o que toca. Um pedaço de água sem calor é sólido e quebradiço; aquecido de leve, flui; aquecido ainda mais, sobe ao céu. Um órgão cheio do ar comum que existe em toda parte é mudo; o toque do organista não tira dele mais que um estalar de teclas. Lance-se nele não outro ar, mas uma corrente instável do mesmo ar, e logo notas doces, porém imperfeitas e incertas, respondem ao toque do organista; aumente-se a corrente até o suprimento pleno, e cada tubo se enche de música. Assim é a alma sem o Espírito Santo; e assim são as mudanças que se operam nela quando recebe o Espírito Santo e quando fica “cheia do Espírito Santo” (At 2.4). Só neste último estado ela está plenamente impregnada da natureza divina, trazendo em todas as suas manifestações alguma semelhança clara com o seu Deus, transmitindo a todos sobre quem age alguma impressão dele, subindo para o céu em todos os seus movimentos e derramando harmoniosamente, de todas as suas faculdades, os louvores do Senhor.

IV. Exemplos da “feitura” moral de Deus

A mudança moral operada nos discípulos pelo novo batismo do Espírito se manifesta de modo impressionante no caso de um homem. Havia um serviço difícil a ser feito em Jerusalém naquele dia. Se, algumas semanas depois da decapitação de Carlos I, se quisesse achar em Londres um homem que fosse até Whitehall e, dirigindo-se aos soldados de Cromwell, procurasse convencê-los de que aquele a quem eles haviam executado não era apenas um rei, e um bom rei, mas um profeta de Deus, e de que, portanto, eles eram culpados de mais do que regicídio, de sacrilégio, pode-se duvidar de que fosse possível achar alguém para levar tal mensagem àquele auditório, embora a Inglaterra tivesse então homens valentes.

O serviço que precisou ser feito certa vez em Jerusalém era semelhante a esse. Era necessário que alguém se levantasse à sombra do templo e, desafiando ao mesmo tempo os principais sacerdotes e a turba, afirmasse que aquele a quem eles haviam executado de modo vergonhoso sete semanas antes era o Messias por tanto tempo esperado por Israel; que eles eram culpados de um pecado que não tinha nome; que haviam levantado as mãos contra “Deus manifestado na carne” (1Tm 3.16) [N. do T.: assim na King James (“God manifest in the flesh”); a NAA traz “Aquele que foi manifestado na carne”]; que, em palavras estranhas a ouvidos humanos, haviam “matado o Autor da vida” (At 3.15). Quem haveria de enfrentar assim a fúria da turba e a malícia dos sacerdotes? Vemos levantar-se um homem cheio de um fogo santo, a ponto de se esquecer totalmente do perigo e de parecer nem mesmo perceber que está praticando um ato heroico. Ele devolve aos zombadores a acusação deles e passa a expor e a fazer penetrar a sua tremenda acusação, como se fosse um rei sobre o trono e cada homem diante dele um réu solitário e indefeso. Quem é este homem? Não o vimos antes? Será possível que seja Pedro? Nós o conhecemos de longa data: tem bastante zelo, mas pouca firmeza; tem boas intenções e, quando as coisas vão bem, sabe servir bem; mas, quando as dificuldades e os adversários se levantam diante dele, a sua coragem moral fraqueja. Quão pouco tempo faz que o vimos ser provado! Ele vinha decidindo que, acontecesse o que acontecesse, ficaria ao lado do seu Mestre até o fim. Outros poderiam recuar; ele ficaria firme. Logo o Mestre estava nas mãos dos inimigos. Mas a causa dele ainda não estava de modo algum perdida. O governador estava do seu lado; muitos do povo estavam secretamente a favor dele; nada se podia provar contra ele; e, acima de tudo, aquele que havia salvado os outros podia salvar a si mesmo. Contudo, quando Pedro viu rostos carrancudos, a coragem lhe faltou. Uma criada o olhou nos olhos, e os olhos dele baixaram. Ela disse que achava que ele pertencia a Jesus de Nazaré; o coração dele afundou, e ele disse: “Não”. Então outro o olhou no rosto e repetiu a mesma suspeita. Agora, naturalmente, ele estava mais covarde e repetiu o seu “Não”. Um terceiro o encarou e insistiu que ele pertencia ao Profeta acusado. Agora o seu pobre coração estava todo agitado e, para deixar claro que nada tinha a ver com Jesus de Nazaré, ele começou a praguejar e a jurar.

Será dentro do mesmo peito em que tremeu esse coração pálido e trêmulo que vemos arder um coração valente, que não teme nem o poder das autoridades nem a violência do povo; que enfrenta todo preconceito e todo vício de Jerusalém, todo fariseu amargo e todo arruaceiro de rua, como se não passassem de ovelhas desgarradas e incômodas? O Pedro do pátio de Pilatos é o Pedro de Pentecostes, com os mesmos poderes naturais, a mesma força natural de caráter, a mesma formação e as mesmas resoluções? Se é assim, que diferença faz num homem o simples acréscimo de estar cheio do Espírito Santo!

Ah, quem dera houvesse altos exemplos da “feitura” moral de Deus! Quem dera houvesse homens animados pelo Espírito: o semblante brilhando como uma transparência com uma lâmpada por trás; os olhos brilhando com uma luz mais pura e mais verdadeira do que qualquer luz que o gênio ou a boa índole já tenham lançado; os membros ágeis para todo ato de oração, de louvor, de zelo, para toda missão de compaixão! e uma língua de fogo! Quem dera houvesse homens sobre os quais o veredito silencioso de quem os observa fosse: “É homem bom, cheio do Espírito Santo!” (At 11.24).

Talvez nunca olhos terrenos tenham visto com mais frequência do que nós vemos em nossos dias homens com as virtudes cristãs comuns: homens na vida particular cujo andar é irrepreensível; homens no ministério que são admiráveis, dignos e úteis. Mas os homens “cheios do Espírito Santo” (At 7.55) não são uma raça rara e diminuída? Aqueles cujo espírito inteiro revela uma vida de oração como a que atribuiríamos a Enoque ou a João; cujas palavras caem com uma demonstração do Espírito e um poder como os que imaginamos acompanhar Paulo ou Apolo; que dão aos crentes a impressão de serem instrumentos imediatos e poderosos de Deus, e aos incrédulos a impressão de que é perigoso aproximar-se deles, para não acabarem convertidos, são homens desses encontrados com frequência?

Não falam até os bons, muitas vezes, como se não devêssemos esperar luzes assim, que ardem e iluminam? como se tivéssemos de nos contentar, na nossa época culta e inteligente, com um estilo de santidade mais nivelado e menos surpreendente. Não decidem muitos que nunca mais verão homens como os que os seus pais viram, homens a cuja oração um poder maravilhoso de Deus estava sempre pronto a descer, quer sobre dois ou três ajoelhados numa choupana, admirados de como os indoutos podiam achar tal sabedoria, quer sobre a grande multidão, admirada de como os doutos podiam achar tal simplicidade? Nunca mais ver homens assim! O Senhor não o permita! Volta, ó Poder de Pentecostes, volta para o teu povo! Derrama a tua chama sobre muitas cabeças! A nós, como aos nossos pais e aos que vieram antes deles nos tempos antigos, dá plenitude de graça! Sem ti nada podemos fazer; mas, cheios do Espírito Santo, a excelência do poder provirá de ti, ó Deus! e não de nós.

Notas

1. Entre os muitos autores que trataram da relação cronológica entre o Pentecostes e a Páscoa, nenhum é mais completo ou mais claro do que Kuinoel.

2. Veja-se Baumgarten.

3. É sempre βάπτω [mergulhar, molhar], nunca βαπτίζω [batizar].

4. No grego, πᾶς ocorre cinco vezes, sendo a última πᾶν ἔργον ἀγαθόν, traduzido por “toda boa obra”.

Tradução para o português a partir de William Arthur, The Tongue of Fire; or, The True Power of Christianity (1856), na edição de Londres (C. H. Kelly, c. 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.