William Arthur · A Língua de Fogo · Prefácios e capítulos I e II

A promessa de um batismo de fogo e a espera pelo cumprimento

Os prefácios do autor, a promessa de João Batista e a vida de Cristo (capítulo I), e a espera dos discípulos depois da ascensão, nos dez dias até o Pentecostes (capítulo II).

Prefácio

As páginas seguintes são o fruto de meditações empreendidas com o desejo de diminuir a distância, dolorosamente sentida, entre a minha própria vida e o meu ministério e os dos cristãos primitivos. Esse fato pode, em certa medida, explicar o plano da obra. Muitos assuntos que teriam sido discutidos por extenso num tratado sobre a obra do Espírito Santo, ou sobre o caráter e os costumes dos cristãos primitivos, são deixados de lado ou apenas tocados de leve, ao passo que alguns outros recebem mais destaque do que teriam recebido numa obra desse tipo.

Quanto ao modo de conceber os acontecimentos e as características, nada foi adotado sem deliberação. Em vários casos, eu teria tido interesse em discutir outros modos de concebê-los; mas isso me teria desviado do propósito prático e direto com que comecei.

A obra foi interrompida por viagens e por doença e, em certo momento, pareceu que seria cortada pela morte. Poupado para concluí-la, embora sinta quanto ela fica aquém até mesmo do meu próprio ideal, confio humildemente que não será inútil.

Kensington, 24 de abril de 1856.

Prefácio à décima oitava edição

Os dois últimos anos foram anos marcantes nas igrejas de Cristo. Tanto na América como no Reino Unido, aprouve ao Senhor derramar o seu Espírito de tal maneira que a opinião pública foi sensivelmente afetada. Essas visitações produziram tal mudança que muito do que este volume contém parece mais apropriado ao momento presente do que àquele em que foi escrito. Quando ele apareceu, há três anos e meio, muitas coisas nele teriam sido consideradas extravagantes por alguns que hoje declarariam de bom grado tê-las visto com os próprios olhos. Não poucos compartilham conosco a firme esperança de que veremos coisas maiores do que as que já aconteceram. O grande avivamento do século dezenove começou de fato, mas apenas começou: o mundo jaz no Maligno, a maior parte da igreja nominal continua fria e sem poder, e, mesmo entre as populações mais favorecidas, os cristãos cheios de vida são a minoria.

Esta nova edição, barata, é lançada com a oração fervorosa de que alguns dos servos de Deus que trabalham pelo avivamento geral e pela difusão da verdadeira religião encontrem nela um humilde auxiliar.

Notting Hill, 1º de dezembro de 1859.

Prefácio à edição uniforme das obras do autor

Nos anos que se passaram desde que escrevi pela última vez um prefácio para este volume, fui muitas vezes levado a dar graças a Deus por notícias que me chegaram, mostrando que lhe aprouvera torná-lo útil, ora de um modo, ora de outro. Essas notícias vieram algumas vezes de lugares do nosso próprio país, não apenas inesperados, mas, para mim, surpreendentes, e outras vezes de outros países, em formas que me tocaram profundamente. Talvez em nenhuma forma tenham sido mais gratificantes do que quando assumiram a de traduções para línguas que eu mesmo não sabia ler, fossem as de povos para quem os livros eram novidade, fossem as de povos cuja literatura era mais antiga do que a nossa.

Considero uma das mais importantes portas abertas para uma utilidade ainda maior a adoção do livro, na América, pela grande Associação de Escolas Dominicais daquele país, e o consequente lugar que ele ocupa na lista de estudos de Chautauqua, lugar que facilitará o seu acesso ao vasto corpo de professores de escola dominical daquele continente. Que ele seja feito uma bênção para eles e, por meio deles, para os alunos e as igrejas, quando eu já tiver partido!

O último incidente a que me referirei, e não o menos comovente, ocorreu quando, muito recentemente, meu velho amigo, o sr. John Napier, de Manchester, chamou a minha atenção para certas cartas que acabavam de ser publicadas no relatório anual da Comissão das Missões Urbanas daquela cidade. Eram cartas dirigidas a um de seus missionários pelo general Gordon, em duas das quais ele mencionava A Língua de Fogo, e numa delas dizia que o livro devia ser lido com frequência.

A presente edição foi revista, e fizeram-se alguns rearranjos na divisão dos capítulos. Acrescentou-se também um sumário analítico, para facilitar a consulta.

Cannes, 11 de maio de 1885.

Capítulo I

A promessa de um batismo de fogo

I. A palavra de João Batista

Quando João Batista percorria a Judeia, sacudindo o coração do povo com um chamado ao arrependimento, as pessoas diziam: “Certamente este deve ser o Messias por quem esperamos tanto tempo.” “Não”, respondeu aquele homem de palavra forte, “eu não sou o Cristo (Jo 1.20); mas vem aquele que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de desamarrar as correias das suas sandálias; ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo” (Lc 3.16).

Esta última expressão poderia ter sugerido a ideia de um fogo material a qualquer povo, menos aos judeus; na mente deles, porém, ela despertaria outros pensamentos. Faria lembrar a cena em que o pai Abraão perguntou àquele que lhe prometera que herdaria a terra em que era estrangeiro: “Senhor Deus, como saberei que vou herdar essa terra?” (Gn 15.8). A resposta veio assim: ele estava sob o céu aberto, à noite, vigiando os animais partidos do sacrifício, quando “eis que um fogareiro fumegante e uma tocha de fogo passaram entre aqueles pedaços” das vítimas (Gn 15.17). Faria lembrar o fogo que Moisés viu na sarça, que brilhava, infundia temor e santificava até o deserto, mas não consumia; o fogo que veio no dia da libertação de Israel, como luz no seu caminho, e permaneceu com eles durante toda a jornada no deserto; o fogo que desceu sobre o tabernáculo no dia em que foi levantado e repousou sobre ele continuamente; que brilhou na Shekinah; que tocou os lábios de Isaías; que flamejou nas visões de Ezequiel; e que foi mais uma vez prometido a Sião, não apenas nos seus santuários públicos, mas também nos domésticos, quando “o Senhor criará, sobre toda morada do monte Sião e sobre todas as suas assembleias, uma nuvem e fumaça durante o dia e um clarão de fogo aceso durante a noite” (Is 4.5). [N. do T.: o autor segue a versão inglesa, “every dwelling-place”, palavra que ele grifa; a NAA traz “sobre todos os lugares do monte Sião”.]

Na promessa de um batismo de fogo, eles reconheceriam imediatamente a aproximação de novas manifestações do poder e da presença de Deus, pois esse foi sempre o significado de tal aparição nos “dias da destra do Altíssimo” (Sl 77.10). [N. do T.: a versão inglesa traz “the years of the right hand of the most High”; a NAA, “o poder do Altíssimo não é mais o mesmo”.]

II. A vida do Filho unigênito de Deus

Entre a multidão que acorria a João veio um Homem singular, a quem ele não conhecia bem; sabia, contudo, que ele era cheio de graça e de sabedoria, e que tinha graça diante de Deus e dos homens. João sentia que ele mesmo é que precisava ser batizado por alguém tão puro, em vez de batizá-lo; mas pôs de lado o que sentia e cumpriu o seu ministério. Quando voltavam da beira da água, os céus se abriram: uma forma corpórea, como de pomba, desceu e pousou sobre o desconhecido. Ao mesmo tempo, uma voz vinda da magnífica glória disse: “Este é o meu Filho amado, em quem me agrado; escutem o que ele diz!” (Mt 3.17; 17.5).

João disse: “Eu não o conhecia; aquele, porém, que me enviou a batizar com água me disse: ‘Aquele sobre quem você vir descer e pousar o Espírito, esse é o que batiza com o Espírito Santo'” (Jo 1.33). Por isso, quando o viu andando, apontou-o aos seus próprios discípulos e disse que era ele. Eles ouviram a palavra e ficaram pensando nela. No dia seguinte, outra vez, João, vendo-o de longe, disse: “Eis o Cordeiro de Deus!” (Jo 1.36). Então dois dos seus seguidores foram atrás do desconhecido, para buscar das mãos dele o batismo que João não podia dar: o batismo de fogo. A eles juntaram-se outros. Durante meses, durante anos, andaram com ele. Viram a sua vida: uma vida como a do Filho unigênito de Deus. Ouviram as suas palavras: palavras como “jamais alguém falou” (Jo 7.46). Viram as suas obras: sinais, prodígios e grandes milagres, diante de todo o povo. E, no entanto, não receberam o batismo de fogo!

Ele começou a falar com frequência da sua partida; mas o modo como a descrevia era estranho. Ele os deixaria, e contudo não os abandonaria; iria embora, e contudo estaria com eles; iria, e contudo viria a eles. Seriam privados dele, sua Cabeça, e contudo órfãos não ficariam. Outro havia de vir, e contudo não outro: um Consolador da parte do Pai, da parte dele mesmo; a quem, diferentemente do que se dera com ele, o mundo não poderia conhecer nem ver, mas a quem eles conheceriam, embora não pudessem vê-lo (Jo 14.17). A sua própria presença com eles era um privilégio que nenhuma língua poderia descrever dignamente. Bem-aventurados os seus olhos pelo que viam, e os seus ouvidos pelo que ouviam. Melhor ainda do que isso, porém, haveria de ser a presença do Espírito Santo, que viria depois dele, como ele viera depois de João.

“Eu lhes digo a verdade”, disse ele, quando estava para pronunciar algo difícil de crer; “eu lhes digo a verdade: é melhor para vocês que eu vá” (Jo 16.7). Como poderia ser melhor? Não sairiam eles perdendo numa medida que ninguém poderia calcular? A luz do seu rosto, a bênção das suas palavras, a pureza da sua presença, a influência do seu exemplo, tudo isso seria retirado; e isso seria melhor para eles! “É melhor para vocês que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vocês” (Jo 16.7). Bem, mas não estariam eles melhor com ele mesmo do que com o Consolador? Não; exatamente o contrário. Estariam melhor com o Consolador: ele os guiaria em toda a verdade, ao passo que agora viviam aplicando mal as palavras claras de Cristo. Ele os faria lembrar de todas as coisas, ao passo que agora muitas vezes esqueciam, em um ou dois dias, o ensino mais notável ou os milagres mais assombrosos. Ele tomaria as coisas de Cristo, as coisas do Pai, e as anunciaria a eles, ao passo que agora entendiam mal, o tempo todo, a relação dele com o Pai e a do Pai com ele, e entendiam mal a sua pessoa, a sua missão e o seu reino. Além disso, ele convenceria o mundo do pecado, da justiça e do juízo vindouro; e isso não como um mestre limitado por uma personalidade localizada, mas como um Espírito difundido por toda a terra. E ele permaneceria com eles para sempre, e não apenas por “um pouco” (Jo 13.33). Portanto, o que quer que a presença pessoal e o ensino de Cristo tivessem sido para eles, a presença do Espírito seria mais.

Tendo assim ocupado de antemão a mente deles com a esperança de uma alegria maior até do que a do seu próprio rosto, o Mestre entregou a sua vida. Atordoados, dispersos e desolados, eles se sentiram órfãos de verdade. O seu Mestre executado de forma ignominiosa, e nem a palavra de João nem a palavra dele mesmo cumpridas: nenhum Consolador, nenhum batismo de fogo!

Logo ele reapareceu e, quando estavam reunidos pela primeira vez desde a sua morte, mais uma vez se pôs no meio deles. Soprou sobre eles e disse: “Recebam o Espírito Santo” (Jo 20.22). Com essa palavra, sem dúvida, foram dados paz e poder; mas ainda não era o batismo de fogo. Durante quarenta dias ele conversou com eles sobre as coisas concernentes ao Reino de Deus, confiando-lhes a obra de proclamar e estabelecer esse reino até os confins da terra. Uma ordem, porém, ele lhes deu, que parecia adiar o efeito das outras. Eles deviam ir por todo o mundo, mas não imediatamente, nem sem condição. “Permaneçam na cidade, até que vocês sejam revestidos do poder que vem do alto” (Lc 24.49). Mais dispostos, ao que parece, a interpretar “poder” como referência às esperanças da sua nação do que ao reino da graça, perguntaram: “Será este o tempo em que o Senhor irá restaurar o reino a Israel?” (At 1.6).

Ele nada dissera de um reino para Israel, ou em Israel. A sua fala fora sobre um tema mais elevado, e de campo mais amplo, a saber: “que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando em Jerusalém. Vocês são testemunhas destas coisas” (Lc 24.47-48). Tais são, de várias formas, as palavras que o encontramos proferindo a respeito do seu reino durante aqueles quarenta dias. Quando, pois, eles perguntaram se ele iria naquele tempo restaurar o reino a Israel, ele desviou prontamente a curiosidade deles. Quais fossem os desígnios do Pai quanto a Israel como nação, quais os tempos em que poderiam voltar a ser um reino, eram questões que não lhes cabiam. Tinham um trabalho melhor, e mais à mão. “Não cabe a vocês conhecer tempos ou épocas que o Pai fixou pela sua própria autoridade” (At 1.7). “Mas”, continuou ele, passando de imediato das perguntas curiosas sobre o futuro de Israel e sobre profecias não cumpridas para o seu próprio e grandioso reino, “mas vocês receberão poder, ao descer sobre vocês o Espírito Santo.” Que poder? De príncipes ou de magistrados? Não; um poder totalmente diferente, para uma obra que não é deste mundo: “e serão minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até os confins da terra” (At 1.8).

Nessas palavras ele traça os círculos em que a simpatia e a atividade cristãs devem sempre correr: primeiro Jerusalém, a sua cidade principal; depois a Judeia, a sua terra natal; em seguida Samaria, um país vizinho, habitado por um povo detestado, como nação, pelos seus compatriotas; e, finalmente, “os confins da terra” (At 1.8). Não deviam buscar primeiro os campos distantes, nem confinar-se sempre em casa, mas levar o evangelho a todo o mundo, à medida que cada país pudesse ser alcançado. Era isso o que ele já lhes pusera diante dos olhos: encher toda a terra com a notícia da graça, a notícia de que o arrependimento e o perdão estavam abertos aos homens pelo poder da sua expiação. Não temos indício algum de que, durante os quarenta dias, ele tenha falado de outro reino, realeza ou reinado. Não governar cidades; não especular sobre os desígnios do Pai e os destinos dos judeus; mas ir por todo o mundo e contar a toda criatura a história de Cristo: essa seria a sua obra principesca. Fundar um reino, não sobre a pessoa dos homens, mas “dentro” da alma deles (Lc 17.21) [N. do T.: o autor segue a versão inglesa, “within you”; a NAA traz “o Reino de Deus está entre vocês”]; um reino não de províncias, mas de “justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17); um reino a ser expandido não pelas armas de um segundo Josué, mas pelo “testemunho” da voz humana; um reino cujo poder não estaria na força, nem na política, nem em sinais observados no céu, mas num poder espiritual concedido pelo Espírito Santo e atuante na proclamação sobre-humana da verdade celestial: essa era a embaixada deles. Para isso deviam ser revestidos do poder que vem do alto. Mas quando viria esse poder, de que tanto se falara? A palavra de João se cumpriria algum dia? O Mestre não a esqueceu. “João, na verdade, batizou com água, mas vocês serão batizados com o Espírito Santo, dentro de poucos dias” (At 1.5). Enfim a promessa chega a um ponto definido, e o seu cumprimento está próximo.

Ele já se havia proclamado Rei e determinado os ministros e o exército, a arma, a extensão, o distintivo da cidadania, a lei estatutária, a glória real e a duração do seu reino. Com os discípulos ao seu redor, de pé no alto de um monte, com o céu acima e a terra abaixo, assim proclamou o seu reino: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra”: eis o Rei. “Vão”: eis os ministros e o exército, uma embaixada de paz. “Ensinem”: eis a arma, a Palavra de Deus. “Todas as nações”: eis a extensão. “Batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”: eis o distintivo da cidadania. “Ensinando-os a guardar todas as coisas que tenho ordenado a vocês”: eis a lei estatutária. “E eis que estou com vocês”: eis a presença real e a glória do reino. “Todos os dias até o fim dos tempos”: eis a sua duração (Mt 28.18-20). [N. do T.: o autor se apoia no “teach” (ensinem) da versão inglesa; a NAA traz “façam discípulos”.] Agora, outra vez, ele sobe um monte, conversando com os que tinham ouvido essa proclamação sobre a parte que lhes cabia no estabelecimento do reino. Prometeu claramente que, dentro de poucos dias, viria o batismo de fogo, tão longamente esperado. Isso implica que, dentro de poucos dias, ele partirá, pois sempre disse que primeiro precisava subir. Respondeu, ou antes repreendeu, a pergunta curiosa deles sobre Israel; voltou-lhes de novo o pensamento para a descida do Espírito; e está justamente lhes dizendo que, revestidos desse novo poder, darão testemunho da sua glória, não apenas em casa, mas fora. “Até os confins da terra” é a última palavra nos seus lábios (At 1.8): palavra espantosa para os seus ouvintes camponeses, acostumados a limitar o alcance do seu pensamento à Terra Santa. Mas ele já dissera que toda a autoridade lhe fora dada “no céu e na terra” (Mt 28.18). Não terá vacilado a fé de algum discípulo sob o peso dessas palavras? “Em Jerusalém, e em toda a Judeia e Samaria, e ATÉ OS CONFINS DA TERRA!” (At 1.8).

Essa palavra está nos seus lábios; eles o observam fixamente: ele ergue as mãos, pronuncia a sua bênção; e, nesse ato (Lc 24.50), eis que o seu corpo, que eles sabem ter “carne e ossos” (Lc 24.39) como o deles, começa a subir! Nenhuma asa, nenhuma mão, nenhum carro de fogo! Ele sobe pelo seu próprio poder; e, nesse único ato, impõe a homenagem da terra, pois o nosso globo não tem lei tão universal e irreversível como aquela pela qual prende à sua superfície todos os corpos pesados. Aqui essa lei cede, e com isso toda a massa do globo se rende ao poder de Cristo. O movimento sereno daquele corpo, subindo da superfície da terra às alturas do céu, é um ato manifesto de soberania sobre a mais alta lei física, pelo qual Cristo “manifestou a sua glória” (Jo 2.11) como Senhor e Criador de todas as leis físicas. Assim a sua proclamação de realeza é reconhecida pela terra com a sua mais alta homenagem. Agora o céu acrescenta a sua homenagem, inclina-se numa nuvem luminosa e o reveste para a sua entronização. Os portais eternos levantam as suas cabeças. O Rei da glória entra. O Primogênito dos mortos, o Soberano dos reis da terra, assenta-se com o Pai no seu trono, e dele recebe a palavra: “O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre; cetro de justiça é o cetro do teu reino!” (Hb 1.8). E ainda: “E todos os anjos de Deus o adorem” (Hb 1.6). Dentro do véu, eles adoram o Cordeiro; e descem depressa até os seus seguidores para lhes dizer que não precisam ficar olhando para o alto. Assim como o viram ir, assim o verão vir, sim, nas nuvens, para julgar aquele mundo de que ele é Rei, e dos seus príncipes. Assim, de modo tríplice, a sua realeza é reconhecida. A terra permite que ele suba, o céu se inclina, os anjos acrescentam o seu testemunho. Todas as coisas o reconhecem. A incredulidade agora é impossível. A dúvida se desvanece. A sua palavra não deixará de se cumprir. O batismo de fogo está próximo.

Capítulo II

A espera pelo cumprimento

I. A hora depois da volta do monte das Oliveiras

É numa quinta-feira, provavelmente ao anoitecer, que os discípulos voltam a Jerusalém. O seu Mestre já não está à frente deles; na verdade, já não está na terra; e a sua grande promessa ainda não se cumpriu. Mas a cena da ascensão está diante dos seus olhos; a voz dos anjos, nos seus ouvidos. Jesus é Rei dos reis e Senhor dos senhores. O Consolador vem “dentro de poucos dias” (At 1.5). Não é duvidando nem chorando que entram na cidade, mas “cheios de alegria” (Lc 24.52): a alegria de um triunfo já selado e de uma esperança que antevê triunfos por vir. Muito provavelmente essa alegria leva os seus primeiros passos ao templo (Lc 24.53). Muitas vezes haviam entrado ali com ele, mas nunca tão triunfantes como agora. Lá estão eles, não lamentando a ausência do seu Mestre, mas “louvando a Deus” (Lc 24.53). Dali vão para o “cenáculo” (At 1.13). Não sabemos em que rua nem em que lugar; mas ali “se reuniam” alguns homens cujos nomes ainda não eram grandes, mas cujos nomes nunca mais passarão da memória da humanidade. Com eles estavam também algumas mulheres que haviam amado o seu Senhor; e, pela última vez, “Maria, mãe de Jesus” (At 1.14), é mencionada como membro do pequeno grupo. Homens e mulheres começaram então a orar, e “perseveravam unânimes em oração” (At 1.14) pelo batismo de fogo.

Esperavam recebê-lo naquela mesma noite? Isso não sabemos; mas sabemos que então se abriu uma nova era no relacionamento do homem com o céu. Quando começaram a orar, como achariam mudadas todas as suas concepções da Majestade nas alturas! Ela já não se estendia diante e além do alcance da vista da alma como uma infinidade uniforme de glória incompreensível. A glória estava mais brilhante, a incompreensibilidade permanecia; mas a infinidade recebera agora um centro. Cada raio da glória convergia para a pessoa daquele que fora “manifestado na carne” (1Tm 3.16), agora “recebido no céu” (Mc 16.19): a glória sem dissolver a pessoa na sua torrente, a pessoa sem escurecer a glória com sombra alguma, embora aparecendo através dela como o disco do sol através da luz. Talvez, de fato, a mudança tenha sido, aos olhos deles, semelhante à que teria impressionado a vista de um observador comum da natureza, se alguém vivesse no nosso planeta no tempo em que o sol foi posto pela primeira vez no firmamento. A luz, que antes fora um mistério amplo e uniforme, agora tinha, aos olhos dele, uma lei, um centro e uma fonte. A visão indistinta de uma forma material em meio à glória aparentemente espiritual dava a sensação de que algum corpo semelhante ao nosso globo estava no centro da iluminação. Esse corpo não era a causa da luz, nem sequer da mesma natureza; mas em torno dele parecia pairar o “peso de glória” incomparável (2Co 4.17).

Ah, sentir o que sentiu aquele coração que primeiro discerniu a natureza humana na pessoa daquele que fora tão “desfigurado” (Is 52.14), agora “assentado à direita da Majestade, nas alturas” (Hb 1.3)! A glória do Pai envolvendo uma forma humana e irradiando de uma fronte humana! “Se vocês me amassem, ficariam alegres com a minha ida para o Pai, porque o Pai é maior do que eu” (Jo 14.28): essa fora a palavra de Jesus. Agora que o tinham visto passar para dentro do véu, que tinham visto os anjos acompanhá-lo na sua entrada e ouvido a música das suas vozes, eles não sentiriam que os tinha abandonado, mas o que muitas vezes haviam sentido quando o sumo sacerdote desaparecia da sua vista, entrando no santíssimo com o sangue da expiação, para comparecer diante da PRESENÇA: “Ele está fora da nossa vista, mas está lá, diante do Senhor.” O primeiro pensamento seria de alegria por ele. Pedro! Como arfou o teu peito quando pela primeira vez contemplaste, pela fé clara como a vista, aquele rosto que se voltara para te olhar no tribunal e que agora te olhava do alto e sublime trono! Maria Madalena, que estavas curvada sob o poder sétuplo do diabo quando aquele rosto brilhou pela primeira vez sobre ti, que caíste aos pés dele quando, recém-ressuscitado dos mortos, ele te apareceu primeiro! Como correram as tuas lágrimas, que perfume teve a tua alegria, quando irrompeu diante da tua vista a plena verdade de que ele “venceu e se sentou com o Pai no seu trono” (Ap 3.21)! E tu, João! O que sentiu o teu peito quando aquele em cujo peito a tua cabeça se reclinara já não aparecia à tua mente como alguém igual a ti, mas como aquele que estava “no princípio com Deus” (Jo 1.2)? E tu também, Maria, a bendita, cuja alma a espada atravessara! Como a tua “alma engrandeceu ao Senhor” (Lc 1.46)! Como o teu “espírito se alegrou em Deus”, teu “Salvador” (Lc 1.47), quando o teu olhar manso viu o cumprimento infinito da palavra de Gabriel: “Este será grande” (Lc 1.32)!

Misturando-se com essa primeira alegria pela exaltação do Mestre, e logo subindo à superfície e cobrindo todas as suas emoções, viria o sentimento: “Ele entrou por nós para dentro do véu! Ele leva os nossos nomes sobre o seu coração como memorial diante do Senhor! Ele vive sempre para interceder por nós!” Silêncio! Qual dos doze é aquele que se levanta como se um espírito tivesse entrado nele e, apontando para o alto, diz aos irmãos: “Peçamos ao Pai em seu NOME! Ele nos disse: ‘Se pedirem ao Pai alguma coisa em meu nome, ele lhes concederá. Até agora vocês não pediram nada em meu nome; peçam e receberão, para que a alegria de vocês seja completa'” (Jo 16.23-24)?

Os anjos muitas vezes haviam cantado juntos quando a oração de pecadores arrependidos era ouvida no alto. Agora, pela primeira vez, ouvem orações subindo de lábios humanos ao trono, autorizadas e abonadas pelo NOME do Unigênito do Pai. Esse nome acaba de ser posto “acima de todo nome” (Fp 2.9); e, enquanto ecoa pelas hostes do alto com a solene alegria de cem vozes crentes, as coisas “nos céus” (Fp 2.10) se dobram. Por mais indigno que seja o homem, “digno é o Cordeiro” (Ap 5.12); e o seu nome cobre com justiça cada pedido a que é aposto pela autoridade dele. O que terá sido aquele momento para os santos no paraíso, que tinham visto o Salvador de longe, mas nunca haviam conhecido a alegria de orar diretamente em seu nome! O pai Abraão “alegrou-se por ver” o dia dele, “e ele viu esse dia e ficou alegre” (Jo 8.56). Qual não seria agora a sua alegria, vendo a terra e o céu se alegrarem no nome dele! Davi, para quem ele era ao mesmo tempo Senhor e Filho: que “belas palavras” a sua língua diria naquele momento maravilhoso, “ao rei” (Sl 45.1)?

Desde a hora em que o pecado entrou no mundo, o Justo nunca havia concedido audiência ao homem em termos próprios apenas para os inocentes. Um inferior íntegro pode aproximar-se da Majestade, não sem reverência, mas sem vergonha nem expiação. Admitir um criminoso nas mesmas condições seria errado. O direito nos nossos governos é o reflexo imperfeito de um direito perfeito. Se o favor do Todo-Poderoso tivesse cruzado a linha que separa a inocência da culpa e sorrido para esta, aquele sorriso teria sido um clarão abrasador, no qual toda a moral teria enegrecido. O homem pecador não fora banido sem esperança da presença de Deus; mas sempre lhe fora ensinado que viesse exibindo um sinal da ira, da morte, que é o salário do pecado, declarando assim ao universo que apelava, não a uma justiça que nunca fora ofendida, mas a uma justiça que fora satisfeita.

O altar fora o lugar de oração do patriarca. O templo, onde estava a oferta perpétua, fora o centro para o qual todo israelita que orava se voltava. Aproximar-se da Divindade eterna como se nenhum mal tivesse sido feito e nenhum castigo merecido nunca foi privilégio de uma criatura que tivesse feito o mal. Era maravilhoso, sim, misterioso, que alguém assim pudesse ter permissão para se aproximar; mas o Senhor sempre justificava a sua permissão exigindo uma referência clara e expressa àquela propiciação que ele apresentou para manifestar a sua própria justiça, no ato maravilhoso de elevar os culpados às moradas dos bons.

Quão grande a passagem desses símbolos da expiação para a visão plena da sua realidade! Durante os QUARENTA DIAS, Jesus lhes abrira o entendimento, mostrara-lhes as Escrituras que diziam respeito à sua morte e lhes revelara a ligação dela com a remissão dos pecados da humanidade. Agora eles já não olhavam para o templo nem para o altar. Tinham diante de si o verdadeiro sacrifício consumado. Ele fizera “a purificação dos pecados” deles (Hb 1.3) e, no mesmo corpo em que o fizera, estava diante do Pai.

Ele lhes dera autoridade para usar o seu nome. Com esse nome, as suas petições levavam consigo o assentimento de toda a criação racional e moral. O Pai eterno, ao manter comunhão com seres que tinham feito o mal, não expunha nenhum ser sem pecado a dúvidas sobre se o certo e o errado eram iguais. Ele havia “feito a paz pelo sangue” de Cristo; havia assim reconciliado “consigo mesmo todas as coisas” (Cl 1.20), consigo mesmo, no novo e misterioso procedimento de governo pelo qual os que praticaram o mal eram poupados dos efeitos do mal praticado. “Porque Deus achou por bem que, nele, residisse toda a plenitude e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus” (Cl 1.19-20). De modo que as criaturas “nos céus”, cuja alegria toda dependia de nunca fazerem o mal, não tinham queixa a levantar nem tentação a sofrer quando viam criaturas “sobre a terra”, que haviam seguido caminhos capazes de entristecer qualquer mundo, recebidas nos braços da Misericórdia eterna. Os culpados ele reconciliou perdoando o seu pecado e reconquistando o seu coração; e os inocentes ele reconciliou com a visão de ofensores exaltados ao apresentar, de forma tão notória que todos os anjos desejaram contemplá-la, uma “propiciação” que plenamente “manifestou a sua justiça” (Rm 3.25), o seu zelo rigoroso pelo direito; que engrandeceu a lei, engrandeceu a santidade, engrandeceu a obediência e, no ato de salvar os culpados, engrandeceu acima de toda concepção anterior a hediondez da culpa. Que senso da distinção entre o certo e o errado se poderia ter mantido entre criaturas inocentes, se tivessem visto transgressores elevados ao favor e à honra sem expiação?

Ah, a alegria daquela primeira hora de oração em nome de Cristo! Não estava Marta ali? Quando foi ao encontro do Mestre naquele dia triste, em que Lázaro jazia no túmulo, ela, embora sem esperança, disse: “Mas também sei que, mesmo agora, tudo o que o senhor pedir a Deus, ele concederá” (Jo 11.22). Se tal era a sua confiança então, qual não seria a sua confiança agora, ele pedindo por ela, e ela pedindo em seu nome! Como a alma dos discípulos, seguindo-o para além do céu, alçaria voo, com uma nova asa, um novo olhar e um novo cântico! Que coletas simples e ardentes não seriam as que se pronunciaram então! Que palavras de alegria e de súplica não derramaria aquele que primeiro pensou em lembrar ao Senhor as suas próprias promessas! Que petições curtas e ardentes não subiriam dos lábios que primeiro citaram: “Se pedirem ao Pai alguma coisa em meu nome, ele lhes concederá” (Jo 16.23)! Como suplicaria aquele que primeiro se lembrou: “Pedirão o que quiserem, e lhes será feito” (Jo 15.7)! Como se misturariam tons de desejo e de triunfo na primeira repetição de “tudo o que pedirem em oração, crendo, vocês receberão” (Mt 21.22)! Nenhuma das suas orações está registrada. Temos coletas antigas, e belas elas são; mas nenhuma dessas mais antigas foi preservada. O Espírito não achou bom transmitir as coletas fortes e ternas daqueles dez dias, nem dos dias seguintes. Então, certamente, é ilícito impor boas fórmulas de oração a todos os homens porque santos antigos as escreveram.

Quem nunca quer usar uma fórmula na oração pública lança fora a sabedoria do passado. Quem quer usar apenas fórmulas lança fora a esperança de uma expressão a ser dada pelo Espírito no presente, e chega a encerrar o futuro na mão rígida do passado. Qualquer igreja que proíba uma congregação cristã, sejam quais forem os seus temores, aflições, alegrias ou necessidades especiais e urgentes, de jamais elevar uma oração a Deus a não ser com palavras compostas por outros homens em outras épocas, usa uma autoridade que nunca lhe foi delegada. Objetar a toda fórmula é estreiteza. Condenar um templo cristão a ser um lugar onde nunca possa subir ao céu um clamor simples e espontâneo é superstição.

Haverá algum dos cento e vinte que, mesmo no paraíso, até este momento, tenha esquecido a hora de oração daquela quinta-feira à noite, depois de terem voltado do monte das Oliveiras?

II. Os dez dias de espera

Amanhece a sexta-feira. Fora numa sexta-feira que o Senhor morrera. Não enviaria ele hoje o substituto prometido? Ah, como a sua cruz estaria o dia inteiro diante dos olhos de cada discípulo! Agora voltavam todas as suas palavras sobre a morte “que ele estava para cumprir” (Lc 9.31): desde a noite em que disse a Nicodemos que, assim como a serpente fora levantada, assim também ele devia ser, até a noite em que disse: “É chegada a hora” (Jo 17.1), palavras obscuras naquele tempo, mas hoje pontiagudas como o aço das flechas. O que fora mistério já não era mistério. Agora o único mistério era: “Que grande amor!” (1Jo 3.1). Terá sido naquele dia que o coração ardente de João (o coração que repreendera o homem que não os seguia, que quisera queimar os aldeões inospitaleiros e ser, com o irmão, o cabeça de todos), terá sido então que esse coração abraçou plenamente o sentido da agonia que ele presenciara tão de perto, em comparação com os outros, e que ficara gravada nele para sempre? Terá sido então que ele viu pela primeira vez todo o alcance das palavras: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16), e que o “filho do trovão” (Mc 3.17) se transformou no filho do amor?

Nunca antes o pensamento humano alternara entre duas cenas como as que dividiam o olhar de cada alma naquele grupo em oração: uma cruz, uma cabeça pendida, mãos sangrando, pés sangrando, o céu negro, ladrões de cada lado, zombarias embaixo, e uma tristeza sobrenatural na alma do sofredor, que lançava sobre tudo um horror infinito. Para isso os olhos se voltam por um momento, e choram. Depois, um trono alto e sublime; a glória do Senhor; anjos se inclinando; anjos cantando; santos aclamando com palmas, harpas e vozes; e, no centro de todo poder, majestade e domínio, o corpo crucificado, vivo, mas com as suas feridas, como um Cordeiro “que parecia que tinha sido morto” (Ap 5.6). Para isso os mesmos olhos se voltam, e choram outra vez. Ah, sentir o que se sentiu naquele dia!

E, no entanto, a sexta-feira passa, e nenhum “batismo de fogo”! Começa o sábado; as suas horas são preenchidas como antes, com oração; mas nenhuma resposta. E agora amanhece o primeiro dia da semana, o dia em que ele ressuscitou, o primeiro dia do Senhor que ele passara no seu trono de glória. Como passaram eles aquele dia? Certamente esperariam de todo o coração que a bênção que buscavam não tardasse mais. Ele dissera: “Dentro de poucos dias” (At 1.5); este era o quarto dia; tinha de vir hoje! Mas a noite vai chegando, e todas as suas orações poderiam ter subido a um céu que não pudesse ouvir. Segunda, terça, quarta-feira passam. A fé deles não desfalece; ainda no templo, “louvando a Deus” (Lc 24.53), ou no cenáculo, perseverando “em oração” (At 1.14), continuam unânimes. Ainda que ele demore, eles o esperarão.

Isso é esperar. Alguns falam de esperar pela salvação como se isso significasse ficar à vontade e dispensar tanto o esforço como a ansiedade. Quem espera assim por alguma pessoa ou por algum acontecimento? Quando você espera, a sua mente está fixa num ponto certo; você não consegue se dedicar a mais nada. Você está olhando para a frente e se preparando; cada momento de demora aumenta a sensibilidade da sua mente para aquela única coisa. Um servo esperando o seu senhor, uma esposa esperando os passos do marido, uma mãe esperando o filho que deve chegar, um comerciante esperando o seu navio carregado de riquezas, um marinheiro esperando avistar terra, um monarca esperando notícias da batalha: todos esses são casos em que a mente está fixa num único objeto e não consegue facilmente dar atenção a outro.

“Amanhã será quinta-feira, uma semana inteira desde a ascensão: esse será o dia; o prazo da promessa não irá além disso. Amanhã o Consolador virá; amanhã seremos batizados com fogo e capacitados a fazer as obras que o nosso Mestre fez, ‘e outras maiores’ (Jo 14.12).” Assim, provavelmente, eles o fixariam em sua mente. A quinta-feira os encontra, como antes, “todos reunidos no mesmo lugar” (At 2.1); nenhum Tomé ausente por incredulidade. Como a cena daquele dia, uma semana antes, voltaria à sua vista! Como repetiriam em pensamento, vezes sem conta, a caminhada de Jerusalém ao monte das Oliveiras, cada um lembrando o que dissera ao Mestre e o que o Mestre lhe dissera, cada um achando que recebera dele um olhar como nunca recebera antes e que não esqueceria enquanto vivesse! Como repetiriam as últimas palavras! “Vocês receberão poder, ao descer sobre vocês o Espírito Santo” (At 1.8). Na repetição, uma nova fé se acenderia. “Sim, receberemos; continuemos esperando; seremos ‘revestidos do poder que vem do alto’ (Lc 24.49).” Então outro repetiria: “E serão minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até os confins da terra” (At 1.8). Era uma linguagem vasta para eles, cujos pensamentos costumavam mover-se apenas na esfera da Palestina. Provavelmente não pesavam tanto o alcance dos termos quanto olhavam para a promessa principal. Seriam revestidos do poder do Espírito Santo, aquele poder que fizera salmistas e profetas; que tornara as palavras de Elias mais fortes do que os decretos de Acabe, as palavras de Eliseu mais fortes do que os exércitos da Síria, as palavras de Isaías como brasas do altar, e as palavras de Daniel mais poderosas do que o espírito de um rei e de “mil homens importantes do seu reino” (Dn 5.1). Batizados com o mesmo Espírito, eles deviam proclamar o que aqueles predisseram, mas nunca viram: o Menino nascido, o Filho dado, o Príncipe eliminado por causa do pecado (mas não do seu), o Cordeiro sobre quem caíram as iniquidades de todos. Tudo isso eles tinham visto cumprir-se na pessoa do seu glorioso Senhor. Tudo isso tinham ouvido explicado pelos lábios dele, antes e depois da sua morte. Deviam ir e provar a outros, como ele lhes provara, que “assim está escrito que o Cristo tinha de sofrer, ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia, e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando em Jerusalém” (Lc 24.46-47).

Aqui de novo encontravam a indicação de que a sua mensagem era para todos e de que o seu testemunho devia ser levado até os confins da terra. Ainda assim, parece que não era a esfera, mas o conteúdo da sua comissão o que agora lhes ocupava a mente. Deviam ir e, como ele pregara, assim pregariam eles, por toda parte, nas cidades e nos povoados. Em que tom diriam ao povo que, assim como ele costumava dizer aos que vinham a ele: “Coragem, filho; os seus pecados estão perdoados” (Mt 9.2), assim ele diria agora, do céu, a todos os que agora erguessem os olhos para ele!

Mas os dias vão passando, e nenhuma bênção. Não é longa a demora? “Dentro de poucos dias!” (At 1.5). A promessa continua de pé? Devem ter-se sentido decepcionados quando a noite caiu, sem nenhum sinal de resposta à sua oração tantas vezes repetida. Agora é a hora da prova. A fé deles desfalecerá? Alguns começarão a abandonar as reuniões que não trazem o batismo que buscam? Alguns ficarão em casa, ou irão “pescar” (Jo 21.3), dizendo que vão esperar o tempo do Senhor e não ficar ansiosos sem razão por algo que, afinal, não depende deles, mas do Senhor? Ninguém dirá: “Cumprimos o nosso dever e precisamos deixar os resultados. Não podemos ordenar o cumprimento da promessa. Pedimos por ela, pedimos com sinceridade, com fervor, repetidas vezes: não podemos fazer mais nada!”?

Ou, o que é igualmente provável, começarão a descobrir que a causa por que continuam sem bênção, e ainda “órfãos” (Jo 14.18), está na infidelidade dos seus companheiros? Felizmente, o espírito de fé e de amor permanece sobre eles. João não se volta contra Pedro para dizer: “A culpa é sua, pois você negou o Mestre.” Filipe não se volta para João para dizer: “A culpa é sua, pois você e Tiago queriam dominar sobre todos nós.” André não se volta para Tomé para dizer: “A culpa é sua, pois você não quis crer, mesmo quando nós lhe tínhamos contado.” Os setenta não dizem: “A culpa é dos doze, pois, depois que o Senhor os elevou acima de todos nós, um deles o vendeu, outro o negou e um terceiro não creu.” As Marias não dizem: “A culpa é do grupo inteiro, um grupo frio e infiel, que professava amar o Mestre diante dele, mas, no momento em que ele caiu nas mãos dos seus inimigos, todos vocês o deixaram e fugiram!”

Bem sabiam eles que tinham sido tardos de coração, indignos de tal Mestre; que muitas vezes o tinham entristecido e o tinham levado a perguntar: “Até quando estarei com vocês?” (Mt 17.17). João jamais esqueceria a repreensão: “Vocês não sabem de que espírito são” (Lc 9.55). [N. do T.: palavras da versão inglesa; a NAA traz apenas “Mas Jesus, voltando-se, os repreendeu”.] Pedro jamais esqueceria a terceira vez: “Você me ama?” (Jo 21.17). Filipe jamais esqueceria: “Há tanto tempo estou com vocês, Filipe, e você ainda não me conhece?” (Jo 14.9). E certamente Tomé jamais esqueceria: “Não seja incrédulo, mas crente” (Jo 20.27).

Sabiam, porém, que ele não viera chamar justos, e sim pecadores ao arrependimento. Os seus próprios lábios haviam dito: “Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes” (Mt 9.12). Não tinha ele tomado ao seu peito a própria cabeça cujos ardores de ambição e de vingança ele repreendera? Não dissera ele a Pedro: “Apascente os meus cordeiros” (Jo 21.15)? Não dissera ele a Tomé: “Estenda também a sua mão” (Jo 20.27)? A sua promessa não fora feita porque eles fossem uma igreja sem mancha nem ruga, mas porque eram fracos e, privados da sua presença, seriam de fato órfãos se nenhum outro poder os cobrisse. Ele conhecia cada falta de que qualquer um deles pudesse acusar os outros; contudo, a promessa saíra dos seus lábios, e o fogo cairia até sobre eles, indignos como eram. Felizes eles, que nenhum imaginou poder lançar sobre os outros a causa das suas orações não respondidas!

A quinta-feira passou: oito dias! A sexta e o sábado vêm em seguida, marcados pela mesma perseverança na união, no louvor, na oração, e pela mesma ausência de encorajamento. Dez dias passados! A promessa “dentro de poucos dias” (At 1.5) está quase rompida.

Pedro sempre foi caloroso e zeloso. Um pensamento dele mal tinha tempo de se tornar pensamento antes de se transformar em palavra ou em ação. Uma vez que a sua mente abraçou a ideia gloriosa de se levantar diante do mundo como testemunha do seu Mestre que subira ao céu, era como se o plano inteiro tivesse de ser executado num só dia. Não se pode deixar de imaginar como ele suportou a restrição dos DEZ DIAS, os dias de oração, de fé, de espera, em que não lhes era permitido começar a sua obra.

“Estranho!”, quase o ouvimos dizer, “estranho! O Senhor morreu para que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações. Ele consumou a obra, ressuscitou dentre os mortos e levou cativo o cativeiro. Os céus o receberam. Os anjos o proclamam. A nós ele tirou das nossas casas; como nos ensinou, e nos treinou, e nos exercitou; tudo, como agora vemos, para esta obra de proclamar o seu amor e o perdão que ele traz a toda a humanidade! Aqui estamos, inaptos para qualquer outra vocação. A sua comissão é para nós como o chamado de um profeta, como a unção de um rei. Ele disse: ‘Vão por todo o mundo e preguem o evangelho a toda criatura’ (Mc 16.15). Queremos ir. Os homens estão em necessidade: estão morrendo todos os dias; morrendo na incredulidade. Por que ele não nos permite ir? Por que a primeira ordem fica tanto tempo suspensa pela outra? ‘Permaneçam na cidade, até que vocês sejam revestidos do poder que vem do alto’ (Lc 24.49). Já permanecemos dez dias. Por que o nosso Mestre demora? O mundo precisa ouvir o som do seu evangelho; nós estamos esperando para levá-lo. Ele está exaltado à direita de Deus, e toda a autoridade lhe foi dada no céu e na terra; e, no entanto, olha do alto para o mundo que dorme um sono de morte, e para nós, que esperamos para tocar a trombeta! Não bastam as suas instruções, a sua comissão? Fomos ordenados, depois de muito ensino; não podemos ir? Não; temos de ficar firmes na sua palavra: ‘Permaneçam, até que vocês sejam revestidos do poder que vem do alto’ (Lc 24.49).”

A prova final de que Pedro estava realmente esperando, fazendo todos os preparativos para o acontecimento, foi chamar os irmãos para completar o número dos apóstolos. Um deles havia caído. O seu lugar estava vago, e outro devia tomar o seu “encargo” (At 1.20). Pedro concluiu que deviam preencher essa vaga e chamou o grupo a escolher dois homens. Ninguém objetou que ainda restava ver se seriam ou não revestidos de poder. Todos agiam como quem sente a certeza de que o Espírito Santo estava para vir e de que a comissão apostólica estava para se cumprir até os confins da terra.

Tradução para o português a partir de William Arthur, The Tongue of Fire; or, The True Power of Christianity (1856), na edição de Londres (C. H. Kelly, c. 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.