Antes de dizer qualquer coisa sobre o pecado, a Bíblia diz de onde viemos e o quanto valemos.
“Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gn 1.27). Nenhuma outra criatura recebe essa descrição. E a frase vem antes da queda, antes da lei, antes de qualquer mérito ou desempenho.
Ser imagem de Deus não é ter um pedaço de divindade dentro. É ser feito para representá-lo e para relacionar-se com ele: com consciência, com responsabilidade moral, com capacidade de amar e de criar. O Salmo 8 faz a pergunta na forma de espanto: que é o homem, para que dele te lembres? E responde com uma coroa, não com um encolher de ombros.
Uma consequência que a Igreja nunca deve deixar barata: se a dignidade humana vem da imagem de Deus, então ela não depende de idade, de saúde, de utilidade, de cor, de conta bancária nem de comportamento. Ninguém a conquista, e por isso ninguém pode retirá-la de outro.
É daqui que nascem os nossos posicionamentos sobre a vida, a justiça e o tratamento do próximo. Não de opinião política, mas do primeiro capítulo da Bíblia.
O realismo
O que se quebrou
A Escritura é generosa na dignidade e implacável no diagnóstico. As duas coisas, e nessa ordem.
O Manual não suaviza: “Pelo pecado de Adão, os seres humanos, como descendentes dele, são corrompidos em sua natureza e desde o nascimento, inclinados a pecar. São incapazes, pela sua própria força, de se libertar dessa condição” (§111). Paulo diz o mesmo em uma frase: “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23).
A distinção que muda tudo
A imagem foi desfigurada, não apagada
Se a imagem tivesse sido destruída, não sobraria a quem apelar, e o ser humano seria apenas mais um animal danificado. Se estivesse intacta, não faria falta salvação nenhuma, e bastaria educação. A Bíblia diz outra coisa: depois do dilúvio, Deus proíbe o derramamento de sangue humano exatamente porque o homem continua sendo feito à imagem de Deus (Gn 9.6). A imagem permanece, e permanece ferida.
Gênesis 9.6
É por isso que a fé cristã não é otimista nem pessimista sobre o ser humano. Ela é realista das duas pontas: você vale mais do que imagina e está pior do que admite.
A nossa marca
A graça que chega antes
Aqui está o coração da herança wesleyana, e a razão de a nossa igreja se chamar livre.
Se o ser humano é incapaz por sua própria força, como pode alguém responder ao evangelho? A resposta wesleyana não é que o pecador se ajeite sozinho, nem que Deus decida por ele sem ele. É que Deus age primeiro, em todos, para tornar possível a resposta.
A isso chamamos graça preveniente, a graça que previne no sentido antigo da palavra, o de vir antes. Ela alcança quem ainda não se converteu: desperta o primeiro incômodo com o próprio pecado, acende a primeira vontade de agradar a Deus, ilumina a consciência. “A verdadeira luz, que ilumina todo homem, estava vindo ao mundo” (Jo 1.9). “Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os seres humanos” (Tt 2.11).
A salvação começa com aquilo que geralmente, e de maneira muito apropriada, é chamado de graça preveniente. Ela inclui o primeiro desejo de agradar a Deus, o primeiro amanhecer da luz a respeito de sua vontade e a primeira convicção leve e passageira de que pecamos contra ele.John Wesley, Sermão 85, Sobre desenvolver a nossa própria salvação
Duas coisas se seguem daí, e é preciso segurar as duas. Ninguém se salva a si mesmo, porque a iniciativa é sempre de Deus. E ninguém pode alegar que não teve chance, porque a graça chegou antes e continua chegando.
A consequência
Livres e responsáveis
A liberdade de que a Bíblia fala não é um poder natural que sobrou da queda. É um dom da graça, e é real.
O Manual afirma que Deus criou o ser humano “moralmente livre e responsável para escolher entre o bem e o mal, o certo e o errado” (§111). E a Escritura trata as pessoas exatamente assim, do começo ao fim. “Ponho diante de você a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolha, pois, a vida” (Dt 30.19). “Escolham hoje a quem servirão” (Js 24.15). “Jerusalém, Jerusalém… quantas vezes quis eu reunir os seus filhos, e você não quis!” (Mt 23.37).
Por que isso importa na pregação
Um convite só é honesto se puder ser aceito. Quando chamamos alguém a crer, não estamos encenando: estamos oferecendo o que Deus de fato tornou possível pela graça que já opera naquela pessoa.
Por que isso importa na consciência
Responsabilidade é o outro lado da liberdade. Se posso responder, respondo por não ter respondido. É por isso que o Novo Testamento fala em juízo sem nunca insinuar que alguém foi vítima de um destino que não podia evitar.
Wesley chamava isso de graça responsável: Deus faz o que só ele pode fazer, e nós fazemos o que ele nos capacita a fazer. Paulo põe as duas metades no mesmo fôlego: “desenvolvam a salvação de vocês com temor e tremor, porque é Deus quem efetua em vocês tanto o querer como o realizar” (Fp 2.12-13). Repare no “porque”. Não trabalhamos apesar de Deus operar, mas porque ele opera.
Deus não deixou em aberto o que espera de uma criatura feita à sua imagem.
O Manual resume a lei divina para toda a vida humana, pessoal e social, em dois mandamentos: amar a Deus de todo o coração e amar o próximo como a si mesmo (§112). Jesus disse que deles dependem toda a Lei e os Profetas (Mt 22.37-40), e os dois vêm do Antigo Testamento (Dt 6.5; Lv 19.18).
O Manual acrescenta uma frase que costuma passar despercebida e que é bem nossa: esses mandamentos “revelam o que é melhor para as pessoas”. A lei de Deus não é um pedágio arbitrário cobrado à entrada do céu. É a descrição de como a vida funciona quando é vivida do jeito para o qual foi feita. Quem a despreza não fica livre; fica avariado.
E note o alcance: pessoal e social. Uma leitura que reduz a lei do amor à esfera privada deixa de fora metade do que o Manual afirma, e quase tudo o que os profetas gritaram.
O lugar certo
As boas obras
Elas importam muito. Só não fazem o que ninguém pode pedir a elas que façam.
1
Não compram nada
“As boas obras são fruto da fé em Jesus Cristo, mas não podem nos salvar dos nossos pecados nem do juízo de Deus… não nos adquirem a graça de Deus” (§113). Paulo é categórico: pela graça, mediante a fé, e isso não vem de nós, é dom de Deus, para que ninguém se glorie (Ef 2.8-9).
2
São o fruto esperado
O mesmo Paulo continua no versículo seguinte: fomos criados em Cristo Jesus para boas obras, que Deus preparou de antemão (Ef 2.10). O fruto não sustenta a árvore, mas uma árvore viva dá fruto.
3
São agradáveis a Deus
Feitas com reverência e humildade, elas são aceitáveis e agradáveis a ele (§113). Não são um extra tolerado: são o que ele espera de um filho.
Tiago fecha a questão do lado prático: a fé sem obras é morta em si mesma (Tg 2.17). Não é outra doutrina, é a mesma vista pelo avesso. Paulo diz de onde a salvação vem; Tiago diz como se reconhece que ela chegou.
Cuidado
Quatro atalhos que não funcionam
Dois deles erram na dignidade, dois na condição. Todos são bem-intencionados, e todos custam caro.
1“O ser humano é basicamente bom e só precisa de informação e oportunidade”+
É o otimismo que ignora o diagnóstico. Se o problema fosse só de informação, o mundo teria melhorado na proporção em que se instruiu, e a história não permite dizer isso.
Onde quebra: em Romanos 3.23 e no §111, que falam de uma natureza inclinada ao pecado desde o nascimento, e não de um simples déficit de esclarecimento. Também quebra na experiência de qualquer pessoa honesta consigo mesma, que já soube o que era certo e fez o contrário.
2“O ser humano é incapaz de qualquer resposta; Deus decide tudo sem ele”+
É o erro oposto, e ele parte de uma verdade: ninguém se salva por força própria. O engano está em concluir daí que a pessoa nada pode responder, nem mesmo pela graça que Deus lhe dá.
Onde quebra: na graça preveniente. Deus não deixa o pecador entregue à própria incapacidade; ele age primeiro, em todos, para tornar a resposta possível (Jo 1.9; Tt 2.11). E quebra no modo como a Escritura fala: Deus manda escolher (Dt 30.19), lamenta que não se queira (Mt 23.37) e responsabiliza quem recusa.
Soa espiritual e não é bíblico. Foi Deus quem fez o corpo, foi ele quem o chamou de muito bom, e foi nele que o Filho veio habitar.
Onde quebra: na encarnação, na ressurreição do corpo (1Co 15.42-44) e em Paulo chamando o corpo de templo do Espírito Santo (1Co 6.19-20). Na prática, esse atalho produz uma fé que se desinteressa da fome, da doença e do trabalho, exatamente aquilo de que os profetas e Jesus mais falaram.
4“Se sou salvo pela graça, a minha conduta não faz diferença”+
É o mau uso de uma verdade boa. Paulo previu a objeção e a respondeu com espanto: “Permaneceremos no pecado, para que seja maior a graça? De modo nenhum!” (Rm 6.1-2).
Onde quebra: no §113, que chama as boas obras de fruto da fé, e em Tiago 2.17. Entre nós, isso tem nome: a graça que perdoa é a mesma que santifica. Quem fica com a primeira e recusa a segunda não recebeu metade do evangelho; recebeu uma versão que não existe.
Aplicação
O que muda na prática
Uma doutrina do ser humano se prova pelo modo como olhamos para as pessoas, inclusive para nós mesmos.
No modo de ver o outro
A pessoa mais difícil da sua igreja, do seu trabalho ou da sua família é feita à imagem de Deus. Isso não a torna simpática, mas torna impossível descartá-la. A mesma verdade sustenta o cuidado com o idoso, o doente, o preso e o não nascido.
No modo de ver a si mesmo
Nem inflado, nem esmagado. Você não é o seu melhor dia nem o seu pior. É alguém feito à imagem de Deus, ferido pelo pecado e alcançado pela graça, e as três coisas são verdadeiras ao mesmo tempo.
No modo de evangelizar
Se a graça chega antes de nós, então nunca somos os primeiros a falar com alguém sobre Deus. Chegamos depois. Isso muda o tom da conversa: não vamos convencer do zero, vamos ajudar a pessoa a reconhecer o que já está acontecendo com ela.
No modo de esperar mudança
Ninguém é caso perdido, porque a imagem não foi apagada e a graça continua chegando. E ninguém muda por esforço próprio, porque a natureza ferida não se conserta sozinha. As duas coisas juntas produzem paciência com o processo e insistência na oração.
Uma frase para levar: você vale mais do que imagina, está pior do que admite e é mais amado do que ousa esperar. Perder qualquer uma das três desequilibra as outras duas.
Fixação
Cartões de memorização
Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Teste o que você aprendeu
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, porque errar aqui também ensina.
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Para pensar e conversar
Perguntas para reflexão
De quem você tem dificuldade de lembrar que é imagem de Deus?Ver resposta sugerida
Todos temos alguém assim, e raramente é um desconhecido. Costuma ser uma pessoa próxima que nos feriu, ou alguém cujo comportamento nos causa repulsa, ou um grupo inteiro que aprendemos a desprezar sem examinar.
A doutrina não pede que você goste dessa pessoa nem que aprove o que ela faz. Pede que reconheça que a dignidade dela não depende de nada disso. Foi por isso que Deus, depois do dilúvio, proibiu o derramamento de sangue humano apelando à imagem, e não ao mérito de quem quer que fosse (Gn 9.6).
Uma prática concreta: ore pelo nome dessa pessoa durante sete dias. Não peça que ela mude. Peça a Deus que ele lhe mostre nela o que ele mesmo vê. É desconfortável, e funciona.
Alguém lhe pergunta: “se ninguém pode se salvar sozinho, então quem não crê tinha alguma chance?”Ver resposta sugerida
A pergunta é séria e merece resposta reta, sem rodeio. Sim, tinha. E a razão é a graça preveniente.
Explique as duas metades, porque separadas elas enganam. Primeira: ninguém se salva por força própria, e nisso o Manual é direto ao dizer que somos incapazes de nos libertar dessa condição (§111). Segunda: Deus não deixa ninguém entregue a essa incapacidade. Ele age antes, em todos, despertando o primeiro desejo de agradá-lo e iluminando a consciência. “A verdadeira luz, que ilumina todo homem, estava vindo ao mundo” (Jo 1.9); “a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os seres humanos” (Tt 2.11).
Se for útil, mostre como a Escritura fala com as pessoas: manda escolher (Dt 30.19), lamenta quando não se quer (Mt 23.37) e responsabiliza quem recusa. Nenhuma dessas coisas faria sentido se a resposta fosse impossível.
E o tom importa aqui mais do que em qualquer outro assunto. Quem faz essa pergunta muitas vezes está pensando em alguém que morreu, e não numa tese. Responda a doutrina e cuide da pessoa.
Para casa
Tarefas
Ler Gênesis 1.26-31, Gênesis 3.1-13 e Filipenses 2.12-13 (NAA), anotando o que cada texto diz sobre a dignidade, sobre a queda e sobre a parte que cabe a Deus e a parte que cabe a nós. Depois, escrever em meia página o que você responderia a alguém que diz que as pessoas são basicamente boas.