Orígenes, Sobre os Princípios · Livro I

Capítulos 3 e 4: o Espírito Santo e a queda

O Espírito Santo, a sua obra nos santos e a graça que vem do Pai, do Filho e do Espírito; a queda das criaturas racionais.

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Capítulo III. O Espírito Santo

1. O próximo ponto é investigar, tão brevemente quanto possível, o tema do Espírito Santo. Todos os que percebem, de algum modo, a existência da Providência confessam que Deus, que criou e dispôs todas as coisas, é não gerado, e o reconhecem como pai do universo. Ora, que a ele pertence um Filho é afirmação que não fazemos só nós; embora possa parecer asserção bastante espantosa e incrível àqueles que têm reputação de filósofos entre gregos e bárbaros, alguns dos quais, no entanto, parecem ter tido certa ideia da sua existência, ao reconhecerem que todas as coisas foram criadas pelo verbo, ou razão, de Deus. Nós, porém, conforme a nossa fé nessa doutrina, que seguramente consideramos divinamente inspirada, cremos que não há outro modo de explicar e de trazer ao alcance do conhecimento humano essa razão mais alta e mais divina como Filho de Deus senão por meio daquelas Escrituras, e só delas, que foram inspiradas pelo Espírito Santo, isto é, os Evangelhos e as Epístolas, a Lei e os Profetas, segundo a declaração do próprio Cristo. Da existência do Espírito Santo, de fato, ninguém poderia ter a menor suspeita, exceto os que estavam familiarizados com a Lei e os Profetas ou os que professam a fé em Cristo. Porque, embora ninguém seja capaz de falar com certeza de Deus Pai, ainda assim é possível obter algum conhecimento dele por meio da criação visível e dos sentimentos naturais da mente humana; e é possível, além disso, que esse conhecimento seja confirmado pelas Sagradas Escrituras. Mas, quanto ao Filho de Deus, embora ninguém conheça o Filho senão o Pai, é também pela Sagrada Escritura que a mente humana aprende como pensar a respeito do Filho; e isso não só pelo Novo, mas também pelo Antigo Testamento, por meio daquelas coisas que, embora praticadas pelos santos, se referem figuradamente a Cristo, e nas quais se podem descobrir tanto a sua natureza divina como a natureza humana que ele assumiu.

2. Ora, o que é o Espírito Santo, nós o aprendemos em muitas passagens da Escritura: por Davi, no Salmo cinquenta e um, quando diz: “nem me retires o teu Santo Espírito” (Sl 51.11); e por Daniel, onde se diz: “O Espírito Santo que está em você” (Dn 4.8). E no Novo Testamento temos testemunhos abundantes, como quando se descreve o Espírito Santo descendo sobre Cristo, e quando o Senhor soprou sobre os seus apóstolos depois da ressurreição, dizendo: “Recebam o Espírito Santo” (Jo 20.22); e a palavra do anjo a Maria: “O Espírito Santo virá sobre você” (Lc 1.35); a declaração de Paulo de que ninguém pode chamar Jesus de Senhor senão pelo Espírito Santo. Nos Atos dos Apóstolos, o Espírito Santo era dado pela imposição das mãos dos apóstolos no batismo. De tudo isso aprendemos que a pessoa do Espírito Santo era de tal autoridade e dignidade que o batismo salvador não se completava senão pela autoridade da excelentíssima Trindade toda, isto é, pela invocação do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e pela junção, ao Deus Pai não gerado e ao seu Filho unigênito, também do nome do Espírito Santo. Quem, então, não se espanta diante da majestade imensa do Espírito Santo, ao ouvir que quem disser uma palavra contra o Filho do Homem pode esperar perdão, mas quem for culpado de blasfêmia contra o Espírito Santo não tem perdão, nem no mundo presente nem no que há de vir!

3. Que todas as coisas foram criadas por Deus, e que não existe criatura alguma que não tenha recebido dele o seu ser, é algo estabelecido por muitas declarações da Escritura; ficam refutadas e rejeitadas as afirmações que alguns falsamente apresentam sobre a existência, seja de uma matéria coeterna com Deus, seja de almas não geradas, nas quais pretendem que Deus implantou não tanto o poder de existir quanto a igualdade e a ordem. Pois até naquele pequeno tratado chamado O Pastor ou Anjo do Arrependimento, composto por Hermas, temos o seguinte: “Antes de tudo, crê que há um só Deus, que criou e ordenou todas as coisas; que, quando antes nada existia, fez que todas as coisas existissem; que ele mesmo contém todas as coisas, mas ele mesmo não é contido por nenhuma.”1 E também no livro de Enoque temos descrições semelhantes. Mas até o presente não pudemos encontrar na Santa Escritura nenhuma afirmação em que se pudesse dizer que o Espírito Santo foi feito ou criado,2 nem mesmo do modo como mostramos acima que Salomão fala da sabedoria divina, ou como se devem entender, a respeito da vida, ou do verbo, ou dos outros títulos do Filho de Deus, aquelas expressões que discutimos. Portanto, o Espírito de Deus, que pairava sobre as águas, como está escrito no princípio da criação do mundo, não é, a meu ver, outro senão o Espírito Santo, até onde posso entender; como de fato mostramos na nossa exposição dessas mesmas passagens, não segundo o método histórico, mas segundo o método espiritual de interpretação.

4. Alguns dos nossos predecessores, de fato, observaram que no Novo Testamento, sempre que o Espírito é nomeado sem aquele acréscimo que denota qualidade, deve-se entender o Espírito Santo; como, por exemplo, na expressão: “Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz” (Gl 5.22); e: “Tendo começado no Espírito, vocês agora se aperfeiçoam na carne?” (Gl 3.3). Somos de opinião que essa distinção pode ser observada também no Antigo Testamento, como quando se diz: “Aquele que dá o seu Espírito ao povo que está sobre a terra, e Espírito aos que andam nela” (Is 42.5). Pois, sem dúvida, todo aquele que anda sobre a terra (isto é, os seres terrenos e corpóreos) é também participante do Espírito Santo, recebendo-o de Deus. O meu mestre hebreu também costumava dizer que aqueles dois serafins de Isaías, descritos com seis asas cada um, clamando um para o outro e dizendo: “Santo, santo, santo é o Senhor Deus dos Exércitos” (Is 6.3), deviam ser entendidos como o Filho unigênito de Deus e o Espírito Santo. E pensamos que também aquela expressão que ocorre no cântico de Habacuque: “No meio, seja dos dois seres viventes, seja das duas vidas, tu serás conhecido” (Hc 3.2), deve ser entendida de Cristo e do Espírito Santo. Pois todo conhecimento do Pai se obtém pela revelação do Filho por meio do Espírito Santo, de modo que ambos esses seres, que segundo o profeta são chamados “seres viventes” ou “vidas”, existem como fundamento do conhecimento de Deus Pai. Porque, assim como se diz do Filho que “ninguém sabe quem é o Pai, a não ser o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Lc 10.22), o mesmo também diz o apóstolo a respeito do Espírito Santo, quando declara: “Deus revelou isso a nós por meio do seu Espírito Santo; porque o Espírito sonda todas as coisas, até mesmo as profundezas de Deus” (1Co 2.10); e outra vez no Evangelho, quando o Salvador, falando das partes divinas e mais profundas do seu ensino, que os seus discípulos ainda não eram capazes de receber, assim se dirige a eles: “Tenho ainda muito para lhes dizer, mas vocês não o podem suportar agora; mas, quando vier o Espírito Santo, o Consolador, ele ensinará a vocês todas as coisas e fará com que se lembrem de tudo o que eu lhes disse” (Jo 16.12-13; 14.26). Devemos entender, portanto, que, assim como o Filho, o único que conhece o Pai, o revela a quem quer, assim também o Espírito Santo, o único que sonda as profundezas de Deus, revela Deus a quem quer: “Porque o Espírito sopra onde quer” (Jo 3.8). Não devemos, contudo, supor que o Espírito obtenha o seu conhecimento por revelação do Filho. Porque, se o Espírito Santo conhece o Pai pela revelação do Filho, ele passa de um estado de ignorância para um de conhecimento; mas é igualmente ímpio e insensato confessar o Espírito Santo e, ao mesmo tempo, atribuir-lhe ignorância. Pois, mesmo que alguma outra coisa existisse antes do Espírito Santo, não foi por progresso gradual que ele veio a ser o Espírito Santo; como se alguém ousasse dizer que, no tempo em que ainda não era o Espírito Santo, ele ignorava o Pai, mas que, depois de receber o conhecimento, foi feito Espírito Santo. Porque, se assim fosse, o Espírito Santo jamais seria contado na Unidade da Trindade, isto é, junto com o Pai imutável e o seu Filho, a menos que tivesse sido sempre o Espírito Santo. Quando usamos, de fato, termos como “sempre” ou “era”, ou qualquer outra designação de tempo, eles não devem ser tomados em sentido absoluto, mas com a devida ressalva; pois, embora o significado dessas palavras se refira ao tempo, e aqueles assuntos de que falamos sejam descritos, por extensão da linguagem, como existindo no tempo, eles, contudo, ultrapassam em sua natureza real toda concepção do entendimento finito.

5. Ainda assim, parece conveniente indagar qual é a razão por que aquele que é regenerado por Deus para a salvação tem relação tanto com o Pai como com o Filho e com o Espírito Santo, e não obtém a salvação senão com a cooperação da Trindade inteira; e por que é impossível tornar-se participante do Pai ou do Filho sem o Espírito Santo. E, ao discutir esses assuntos, será sem dúvida necessário descrever a ação própria do Espírito Santo, e a do Pai e do Filho. Sou de opinião, então, que a ação do Pai e do Filho se dá tanto nos santos como nos pecadores, nos seres racionais e nos animais irracionais; e até mesmo nas coisas sem vida, e em todas as coisas que existem, universalmente; mas que a operação do Espírito Santo não se dá de modo algum nas coisas sem vida, nem nas que, embora vivas, são irracionais; e nem mesmo se encontra naqueles que, embora dotados de razão, andam em maus caminhos e não estão de modo algum convertidos a uma vida melhor. Somente naquelas pessoas, penso eu, se dá a operação do Espírito Santo, que já estão se voltando para uma vida melhor e andando pelo caminho que conduz a Jesus Cristo, isto é, que se dedicam à prática de boas obras e que permanecem em Deus.

6. Que a ação do Pai e do Filho opera tanto nos santos como nos pecadores fica manifesto pelo fato de que todos os que são seres racionais são participantes do verbo, isto é, da razão, e por esse meio trazem, implantadas dentro de si, certas sementes de sabedoria e de justiça, que é Cristo. Ora, daquele que verdadeiramente existe, e que disse por meio de Moisés: “Eu Sou o Que Sou” (Êx 3.14), participam todas as coisas, sejam quais forem; e essa participação em Deus Pai é partilhada tanto pelos justos como pelos pecadores, pelos seres racionais e irracionais, e por todas as coisas que existem, universalmente. Também o apóstolo Paulo mostra com verdade que todos têm parte em Cristo, quando diz: “Não diga em seu coração: Quem subirá ao céu? (isto é, para trazer Cristo lá do alto); ou: Quem descerá ao abismo? (isto é, para levantar Cristo dentre os mortos). Mas o que diz a Escritura? A palavra está perto de você, na sua boca e no seu coração” (Rm 10.6-8). Com isso ele quer dizer que Cristo está no coração de todos, enquanto é o verbo, ou razão, por cuja participação eles são seres racionais. Também aquela declaração do Evangelho: “Se eu não tivesse vindo e lhes falado, eles não teriam nenhum pecado; mas, agora, não têm desculpa do seu pecado” (Jo 15.22), torna claro e patente a todos os que têm conhecimento racional de quanto tempo o homem permanece sem pecado e a partir de que momento está sujeito a ele, como, pela participação no verbo, ou razão, se diz que os homens pecaram; a saber, desde o tempo em que se tornam capazes de entendimento e de conhecimento, quando a razão implantada dentro deles lhes sugeriu a diferença entre o bem e o mal; e, depois que já começaram a conhecer o que é o mal, ficam sujeitos ao pecado, se o cometerem. E este é o sentido da expressão de que os homens “não têm desculpa do seu pecado”: a saber, que, desde o momento em que o verbo divino, ou razão, começou a mostrar-lhes interiormente a diferença entre o bem e o mal, eles devem evitar aquilo que é perverso e guardar-se dele: “Pois aquele que sabe fazer o bem e não o faz, para esse isso é pecado” (Tg 4.17). Além disso, que nenhum homem está sem comunhão com Deus é ensinado no Evangelho, assim, pelas palavras do Salvador: “O Reino de Deus não vem com visível aparência. Nem dirão: Ele está aqui! Ou: Lá está ele! Porque o Reino de Deus está dentro de vocês” (Lc 17.20-21). Mas aqui devemos ver se isso não tem o mesmo sentido que a expressão do Gênesis: “E soprou-lhe no rosto o fôlego de vida, e o homem se tornou alma vivente” (Gn 2.7). Porque, se isso for entendido como aplicado em geral a todos os homens, então todos os homens têm parte em Deus.

7. Mas, se isso deve ser entendido como dito do Espírito de Deus, visto que também Adão se mostra ter profetizado sobre algumas coisas, pode-se tomá-lo não como de aplicação geral, mas como restrito aos que são santos. Por fim, também no tempo do dilúvio, quando toda carne havia corrompido o seu caminho diante de Deus, está registrado que Deus falou assim, como a respeito de homens indignos e pecadores: “O meu Espírito não permanecerá com esses homens para sempre, porque são carne” (Gn 6.3). Com isso se mostra claramente que o Espírito de Deus é retirado de todos os que são indignos. Também nos Salmos está escrito: “Tu lhes tirarás o espírito, e eles morrerão e voltarão à sua terra. Enviarás o teu Espírito, e eles serão criados, e renovarás a face da terra” (Sl 104.29-30); o que manifestamente se refere ao Espírito Santo, que, depois que os pecadores e os indignos foram removidos e destruídos, cria para si um povo novo e renova a face da terra, quando, despojando-se, pela graça do Espírito, do velho homem com os seus feitos, eles começam a andar em novidade de vida. E por isso a expressão se aplica com propriedade ao Espírito Santo, porque ele fará a sua morada não em todos os homens, nem nos que são carne, mas naqueles cuja terra3 foi renovada. Enfim, por essa razão a graça e a revelação do Espírito Santo eram concedidas pela imposição das mãos dos apóstolos depois do batismo. Também o nosso Salvador, depois da ressurreição, quando as coisas antigas já haviam passado e todas as coisas se haviam feito novas, sendo ele mesmo um homem novo e o primogênito dentre os mortos, e estando também os seus apóstolos renovados pela fé na sua ressurreição, diz: “Recebam o Espírito Santo” (Jo 20.22). É isso, sem dúvida, o que o Senhor, o Salvador, quis transmitir no Evangelho quando disse que não se pode pôr vinho novo em odres velhos, mas mandou que os odres fossem feitos novos, isto é, que os homens andassem em novidade de vida, para que recebessem o vinho novo, isto é, a novidade da graça do Espírito Santo. Desse modo, então, a ação do poder de Deus Pai e do Filho se estende sem distinção a toda criatura; mas uma parte no Espírito Santo, nós a encontramos possuída somente pelos santos. E por isso se diz: “ninguém pode dizer: ‘Senhor Jesus!’, senão pelo Espírito Santo” (1Co 12.3). E numa ocasião, mal os próprios apóstolos são considerados dignos de ouvir as palavras: “vocês receberão poder, ao descer sobre vocês o Espírito Santo” (At 1.8). Por essa razão também, penso eu, segue-se que quem cometeu pecado contra o Filho do Homem é digno de perdão; porque, se aquele que é participante do verbo, ou razão, de Deus deixa de viver conforme a razão, parece ter caído num estado de ignorância ou de insensatez, e por isso merecer perdão; ao passo que aquele que foi considerado digno de ter uma parte do Espírito Santo, e recaiu, é, por esse mesmo ato e obra, declarado culpado de blasfêmia contra o Espírito Santo. Ninguém, de fato, suponha que nós, por termos dito que o Espírito Santo é conferido somente aos santos, mas que os benefícios ou operações do Pai e do Filho se estendem aos bons e aos maus, aos justos e aos injustos, damos com isso preferência ao Espírito Santo sobre o Pai e o Filho, ou afirmamos que a sua dignidade é maior, o que certamente seria uma conclusão muito ilógica. Porque o que estivemos descrevendo é o caráter próprio da sua graça e das suas operações. Além disso, nada na Trindade pode ser chamado maior ou menor, visto que a fonte única da divindade contém todas as coisas pelo seu verbo e razão, e pelo Espírito da sua boca santifica todas as coisas que são dignas de santificação, como está escrito no Salmo: “Pela palavra do Senhor foram firmados os céus, e todo o seu poder pelo Espírito da sua boca” (Sl 33.6). Há também uma ação especial de Deus Pai, além daquela pela qual concedeu a todas as coisas o dom da vida natural. Há também um ministério especial do Senhor Jesus Cristo para com aqueles a quem confere por natureza o dom da razão, por meio da qual são capazes de ser retamente o que são. Há também outra graça do Espírito Santo, que é concedida aos que a merecem, por meio do ministério de Cristo e da ação do Pai, na proporção dos méritos daqueles que se tornam capazes de recebê-la. Isso é indicado com toda a clareza pelo apóstolo Paulo, quando demonstra que o poder da Trindade é um só e o mesmo, nas palavras: “Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo. E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos. A manifestação do Espírito é concedida a cada um visando um fim proveitoso” (1Co 12.4-7). Do que se segue com toda a clareza que não há diferença na Trindade, mas que aquilo que se chama dom do Espírito é dado a conhecer por meio do Filho e operado por Deus Pai. “Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas essas coisas, distribuindo-as a cada um, individualmente, conforme ele quer” (1Co 12.11).

8. Feitas essas declarações a respeito da Unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo, voltemos à ordem em que começamos a discussão. Deus Pai concede a todos a existência; e a participação em Cristo, enquanto ele é o verbo da razão, os torna seres racionais. Daí se segue que são dignos de louvor ou de censura, porque capazes de virtude e de vício. Por essa razão, portanto, está presente a graça do Espírito Santo, para que os seres que não são santos em sua essência se tornem santos participando dela. Visto, então, que recebem, primeiro, a existência de Deus Pai; segundo, a natureza racional do Verbo; terceiro, a santidade do Espírito Santo, os que foram previamente santificados pelo Espírito Santo tornam-se de novo capazes de receber Cristo, enquanto ele é a justiça de Deus; e os que mereceram avançar a esse grau pela santificação do Espírito Santo obterão, ainda assim, o dom da sabedoria segundo o poder e a ação do Espírito de Deus. E é isso, a meu ver, o que Paulo quer dizer quando afirma que “a um é dada, mediante o Espírito, a palavra da sabedoria; a outro, segundo o mesmo Espírito, a palavra do conhecimento” (1Co 12.8). E, ao apontar a distinção particular dos dons, ele refere todos eles à fonte de todas as coisas, nas palavras: “há diversidade nas realizações, mas um só Deus, que opera tudo em todos” (1Co 12.6). Por isso também a ação do Pai, que confere a existência a todas as coisas, se mostra mais gloriosa e magnífica, enquanto cada um, pela participação em Cristo, que é sabedoria, conhecimento e santificação, faz progresso e avança a graus mais altos de perfeição; e, visto que é participando do Espírito Santo que alguém se torna mais puro e mais santo, ele obtém, quando é feito digno, a graça da sabedoria e do conhecimento, a fim de que, depois de purificadas e removidas todas as manchas de corrupção e de ignorância, faça tão grande avanço em santidade e pureza que a natureza que recebeu de Deus se torne tal qual é digna daquele que a deu para ser pura e perfeita, de modo que o ser que existe seja tão digno quanto aquele que o chamou à existência. Pois, desse modo, aquele que é tal como o seu Criador quis que fosse receberá de Deus o poder de existir sempre e de permanecer para sempre. Para que assim seja, e para que aqueles que ele criou estejam incessante e inseparavelmente presentes junto daquele que É, cabe à sabedoria instruí-los e formá-los, e levá-los à perfeição pela confirmação do seu Espírito Santo e pela santificação incessante, a única pela qual são capazes de receber Deus. Desse modo, então, pela renovação da ação incessante do Pai, do Filho e do Espírito Santo em nós, em suas várias etapas de progresso, poderemos em algum tempo futuro, talvez, embora com dificuldade, contemplar a vida santa e bem-aventurada, na qual (visto que só depois de muitas lutas conseguimos alcançá-la) devemos de tal modo permanecer que nenhuma saciedade dessa bem-aventurança jamais se apodere de nós; mas, quanto mais percebermos a sua bem-aventurança, tanto mais se deve aumentar e intensificar dentro de nós o anseio por ela, enquanto cada vez mais avidamente e livremente recebemos e retemos o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Mas, se a saciedade alguma vez se apoderar de algum daqueles que estão no cume mais alto e perfeito da realização, não penso que tal pessoa seria repentinamente deposta da sua posição e cairia, mas que deve declinar gradualmente e pouco a pouco, de modo que às vezes pode acontecer que, se ocorrer um breve lapsus, e o indivíduo logo se arrepender e voltar a si, ele não caia por completo, mas possa refazer os seus passos e voltar ao seu lugar anterior, e recuperar de novo aquilo que se havia perdido pela sua negligência.

Capítulo IV. A defecção, ou queda

1. Para expor a natureza da defecção, ou queda, da parte daqueles que se conduzem com descuido, não parecerá fora de propósito empregar uma comparação à guisa de ilustração. Suponha-se, então, o caso de alguém que foi adquirindo gradualmente o domínio de uma arte ou ciência, digamos a geometria ou a medicina, até alcançar a perfeição, tendo-se exercitado longamente em seus princípios e em sua prática, de modo a obter completo domínio da arte: a tal pessoa jamais poderia acontecer que, deitando-se para dormir de posse da sua habilidade, despertasse em estado de ignorância. Não é nosso propósito aduzir ou mencionar aqui aqueles acidentes que são ocasionados por alguma lesão ou fraqueza, pois não se aplicam à presente ilustração. Segundo o nosso ponto de vista, então, enquanto aquele geômetra ou médico continuar a exercitar-se no estudo da sua arte e na prática dos seus princípios, o conhecimento da sua profissão permanece com ele; mas, se ele se afastar da sua prática e deixar de lado os seus hábitos de diligência, então, pela sua negligência, a princípio algumas poucas coisas lhe escaparão gradualmente, depois, pouco a pouco, mais e mais, até que, com o passar do tempo, tudo seja esquecido e completamente apagado da memória. É possível, de fato, que, quando ele começar a decair e a ceder à influência corruptora de uma negligência ainda pequena, ele possa, se for despertado e voltar depressa a si, reparar aquelas perdas que até então são apenas recentes, e recuperar aquele conhecimento que até ali só ligeiramente se havia apagado da sua mente. Apliquemos isso agora ao caso daqueles que se dedicaram ao conhecimento e à sabedoria de Deus, cujo saber e diligência superam incomparavelmente toda outra formação; e contemplemos, segundo a forma da comparação empregada, o que é a aquisição do conhecimento, ou o que é o seu desaparecimento, sobretudo quando ouvimos do apóstolo o que se diz dos que são perfeitos, que eles contemplarão face a face a glória do Senhor na revelação dos seus mistérios.

2. Mas, no nosso desejo de mostrar os benefícios divinos concedidos a nós pelo Pai, pelo Filho e pelo Espírito Santo, Trindade que é a fonte de toda santidade, caímos, no que dissemos, numa digressão, por termos considerado que o tema da alma, que casualmente se apresentou a nós, devia ser tocado, ainda que de passagem, visto que discutíamos um assunto afim, relativo à nossa natureza racional. Contudo, com a permissão de Deus, por Jesus Cristo e pelo Espírito Santo, consideraremos mais convenientemente, no lugar apropriado, o tema de todos os seres racionais, que se distinguem em três gêneros e espécies.

Notas

1. Cf. Hermæ Past., Vision v. Mandat. 1.

2. Per quem Spiritus Sanctus factura esse vel creatura diceretur.

3. Terra.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Frederick Crombie (Ante-Nicene Fathers, vol. 4, Buffalo, 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução, feita do latim de Rufino e, nos capítulos III.1 e IV.1, do grego conservado. As notas são do tradutor inglês; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Orígenes cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.