Orígenes, Sobre os Princípios · Livro I

Capítulos 5 e 6: as naturezas racionais e o fim

As naturezas racionais, santas ou caídas pela própria vontade; o fim e a consumação, quando Deus será tudo em todos.

#P04

Capítulo V. Sobre as naturezas racionais

1. Depois da exposição que fizemos brevemente, na medida da nossa capacidade, a respeito do Pai, do Filho e do Espírito Santo, segue-se que façamos algumas observações sobre o tema das naturezas racionais, suas espécies e ordens, ou sobre os ofícios tanto dos poderes santos como dos malignos, e também sobre aqueles que ocupam uma posição intermediária entre esses poderes bons e maus e que ainda se encontram num estado de luta e de provação. Pois encontramos na santa Escritura numerosos nomes de certas ordens e ofícios, não só de seres santos, mas também de seres de natureza oposta, os quais apresentaremos em primeiro lugar; e em segundo lugar procuraremos, na medida da nossa capacidade, determinar o seu significado. Há certos santos anjos de Deus a quem Paulo chama “espíritos ministradores, enviados para serviço a favor dos que hão de herdar a salvação” (Hb 1.14). Também nos escritos do próprio são Paulo o encontramos designando-os, tirando-os não se sabe de que fonte, como tronos, dominações, principados e potestades; e, depois dessa enumeração, como quem sabe que havia ainda outros ofícios racionais1 e outras ordens além das que havia nomeado, ele diz do Salvador: “acima de todo principado, potestade, poder, domínio e de todo nome que se possa mencionar, não só no presente século, mas também no vindouro” (Ef 1.21). Com isso ele mostra que havia certos seres, além dos que tinha mencionado, que de fato podem ser nomeados neste mundo, mas que não foram então enumerados por ele e que talvez não fossem conhecidos de nenhuma outra pessoa; e que havia outros que não podem ser nomeados neste mundo, mas que serão nomeados no mundo vindouro.

2. Em seguida, precisamos saber que todo ser dotado de razão que transgride os seus estatutos e limites fica sem dúvida envolvido no pecado, por se desviar da retidão e da justiça. Toda criatura racional, portanto, é capaz de merecer louvor e censura: louvor, se, em conformidade com a razão que possui, avança para coisas melhores; censura, se se afasta do plano e do caminho da retidão, razão pela qual fica justamente sujeita a dores e castigos. E isso também se deve entender como aplicável ao próprio diabo e aos que estão com ele e são chamados seus anjos. Ora, é preciso explicar os títulos desses seres, para que saibamos quem são aqueles de quem temos de falar. O nome de Diabo, de Satanás e de Maligno, que também é descrito como Inimigo de Deus, aparece em muitas passagens da Escritura. Além disso, mencionam-se certos anjos do diabo e também um príncipe deste mundo, o qual, se é o próprio diabo ou outro qualquer, ainda não está claramente manifesto. Fala-se também de certos príncipes deste mundo que possuem uma espécie de sabedoria que será reduzida a nada; mas se esses são os mesmos príncipes que são também os principados contra os quais temos de lutar, ou se são outros seres, parece-me ser uma questão sobre a qual não é fácil a ninguém pronunciar-se. Depois dos principados, nomeiam-se também certas potestades contra as quais temos de lutar, e travamos combate até contra os príncipes deste mundo e os dominadores destas trevas. O próprio Paulo fala também de certas forças espirituais do mal nas regiões celestes. E que diremos, além disso, dos espíritos malignos e imundos mencionados no Evangelho? Temos ainda certos seres celestiais designados por um nome semelhante, mas dos quais se diz que dobram o joelho, ou que hão de dobrar o joelho, ao nome de Jesus; e até mesmo as coisas na terra e as debaixo da terra, que Paulo enumera em ordem. E, certamente, num lugar em que tratamos do tema das naturezas racionais, não convém calar a nosso próprio respeito, nós que somos seres humanos e somos chamados animais racionais; nem se deve deixar passar levianamente este ponto: que até entre nós, seres humanos, se mencionam certas ordens diferentes, nas palavras: “A porção do Senhor é o seu povo Jacó; Israel é o cordel da sua herança” (Dt 32.9). Outras nações, além disso, são chamadas porção dos anjos, visto que, “quando o Altíssimo dividia as nações e dispersava os filhos de Adão, fixou as fronteiras das nações segundo o número dos anjos de Deus” (Dt 32.8).2 Por isso, junto com as outras naturezas racionais, devemos examinar a fundo também a razão da alma humana.

3. Depois de enumerar, pois, tantos e tão importantes nomes de ordens e ofícios, sob os quais é certo que há existências pessoais, investiguemos se Deus, criador e fundador de todas as coisas, criou alguns deles santos e felizes, de modo que não pudessem admitir absolutamente nenhum elemento contrário, e outros de tal modo que fossem feitos capazes tanto da virtude como do vício; ou se devemos supor que ele criou alguns inteiramente incapazes de virtude, outros, por sua vez, inteiramente incapazes de maldade, mas com o poder de permanecer apenas num estado de felicidade, e outros ainda capazes de uma e de outra condição. Para que a nossa primeira investigação comece pelos próprios nomes, consideremos se os santos anjos, desde o período da sua primeira existência, sempre foram santos, ainda são santos e serão santos, e nunca admitiram nem tiveram o poder de admitir qualquer ocasião de pecado. Em seguida, consideremos se aqueles que são chamados santos principados começaram, desde o momento em que foram criados por Deus, a exercer poder sobre alguns que lhes foram submetidos, e se estes últimos foram criados com tal natureza e formados com o propósito mesmo de serem súditos e subordinados. Do mesmo modo, se aqueles que são chamados potestades foram criados com tal natureza e com o propósito expresso de exercer poder, ou se o terem chegado a esse poder e dignidade é recompensa e mérito da sua virtude. E ainda, se aqueles que são chamados tronos ou assentos obtiveram aquela estabilidade de felicidade ao mesmo tempo que vieram a existir,3 de modo que tenham essa posse só pela vontade do Criador; ou se aqueles que são chamados dominações receberam o seu domínio, não como recompensa pelo seu progresso, mas como privilégio peculiar da sua criação,4 de modo que seja algo em certo grau inseparável deles e natural. Ora, se adotarmos a opinião de que os santos anjos, as santas potestades, os assentos bem-aventurados, as virtudes gloriosas e as magníficas dominações devem ser considerados como possuidores desses poderes, dignidades e glórias em virtude da sua natureza,5 parecerá sem dúvida seguir-se que os seres mencionados como detentores de ofícios de espécie contrária devem ser considerados da mesma maneira; de modo que os principados contra os quais temos de lutar devem ser vistos, não como tendo recebido mais tarde aquele espírito de oposição e de resistência a todo bem, nem como tendo se afastado do bem pela liberdade da vontade, mas como tendo-o tido em si como essência do seu ser desde o começo da sua existência. Do mesmo modo será com as potestades e as virtudes, em nenhuma das quais a maldade teria sido subsequente ou posterior à sua primeira existência. Também aqueles a quem o apóstolo chamou dominadores e príncipes das trevas deste mundo, quanto ao seu domínio e à sua ocupação das trevas, dir-se-ia que caem nelas não por perversidade de intenção, mas pela necessidade da sua criação. O raciocínio lógico nos obrigará a adotar a mesma opinião acerca dos espíritos perversos e malignos e dos demônios imundos. Mas, se sustentar essa opinião acerca dos poderes malignos e adversos parece absurdo, como certamente é absurdo que a causa da sua maldade seja retirada do propósito da sua própria vontade e atribuída necessariamente ao seu Criador, por que não seríamos também obrigados a fazer uma confissão semelhante acerca dos poderes bons e santos, a saber, que o bem que neles há não lhes pertence por ser essencial, o que mostramos claramente ser o caso só de Cristo e do Espírito Santo, como sem dúvida também do Pai? Pois ficou provado que não havia nada de composto na natureza da Trindade, de modo que essas qualidades parecessem pertencer-lhe como consequências acidentais. Daí se segue que, no caso de toda criatura, é resultado das suas próprias obras e movimentos que aqueles poderes que parecem ter domínio sobre outros, ou exercer poder ou senhorio, tenham sido preferidos e postos acima daqueles que se diz que governam ou sobre os quais exercem poder, e isso não em consequência de um privilégio peculiar inerente à sua constituição, mas por causa do mérito.

4. Mas, para que não pareça que fundamos as nossas afirmações, em assuntos de tanta importância e dificuldade, apenas sobre a inferência, ou que exigimos o assentimento dos nossos ouvintes ao que é só conjectura, vejamos se podemos obter da santa Escritura algumas declarações por cuja autoridade essas posições possam ser sustentadas de maneira mais digna de crédito. Em primeiro lugar, apresentaremos o que a santa Escritura contém a respeito dos poderes perversos; depois continuaremos a nossa investigação acerca dos outros, conforme aprouver ao Senhor nos iluminar, para que, em matérias de tanta dificuldade, possamos determinar o que está mais perto da verdade, ou quais devem ser as nossas opiniões de acordo com a norma da religião. Ora, encontramos no profeta Ezequiel duas profecias escritas ao príncipe de Tiro, a primeira das quais poderia parecer a qualquer um, antes de ouvir também a segunda, dita a respeito de algum homem que fosse príncipe dos tírios. Por enquanto, portanto, nada tomaremos daquela primeira profecia; mas, como a segunda é manifestamente de tal espécie que de modo algum pode ser entendida de um homem, mas sim de algum poder superior que caíra de uma posição mais elevada e fora reduzido a uma condição inferior e pior, dela tiraremos uma ilustração pela qual se pode demonstrar com toda a clareza que aqueles poderes adversos e malignos não foram formados nem criados assim por natureza, mas caíram de uma posição melhor para uma pior e foram convertidos em seres perversos; e que também aqueles poderes bem-aventurados não eram de natureza tal que fossem incapazes de admitir o que lhes era contrário, caso se inclinassem a isso, se tornassem negligentes e não guardassem com todo o cuidado a bem-aventurança da sua condição. Pois, se se narra que aquele que é chamado príncipe de Tiro estava entre os santos, era sem mancha, foi posto no paraíso de Deus e adornado também com uma coroa de graça e de beleza, deve-se supor que tal ser pudesse ser em algum grau inferior a qualquer dos santos? Pois ele é descrito como tendo sido adornado com uma coroa de graça e de beleza e como tendo andado sem mancha no paraíso de Deus: e como pode alguém supor que tal ser não fosse um daqueles poderes santos e bem-aventurados que, por estarem postos num estado de felicidade, devemos crer que não são dotados de outra honra senão essa? Mas vejamos o que nos ensinam as próprias palavras da profecia. “Veio a mim a palavra do Senhor”, diz o profeta, “dizendo: Filho do homem, levanta uma lamentação sobre o príncipe de Tiro e dize-lhe: Assim diz o Senhor Deus: Tu foste o selo de uma semelhança e uma coroa de graça entre as delícias do paraíso; estavas adornado de toda boa pedra ou gema e vestido de sardônica, topázio, esmeralda, carbúnculo, safira e jaspe, engastados em ouro e prata, e de ágata, ametista, crisólito, berilo e ônix; com ouro também encheste os teus tesouros e os teus depósitos dentro de ti. Desde o dia em que foste criado junto com os querubins, eu te pus no santo monte de Deus. Estavas no meio das pedras de fogo; foste sem mancha nos teus dias, desde o dia em que foste criado até que se acharam iniquidades em ti; pela grandeza do teu comércio, encheste de iniquidade os teus depósitos, e pecaste, e foste ferido desde o monte de Deus. E um querubim te expulsou do meio das pedras ardentes; e o teu coração se exaltou por causa da tua graça, a tua disciplina se corrompeu junto com a tua beleza; por causa da multidão dos teus pecados, eu te lancei à terra diante dos reis; eu te entreguei como espetáculo e escárnio por causa da multidão dos teus pecados e das tuas iniquidades; por causa do teu comércio profanaste os teus lugares santos. E farei sair fogo do meio de ti, e ele te devorará, e te entregarei como cinza e brasas sobre a terra aos olhos de todos os que te veem; e todos os que te conhecem entre as nações chorarão por ti. Tu te tornaste destruição e não existirás mais para sempre” (Ez 28.11-19). Sendo estas, pois, as palavras do profeta, quem há que, ao ouvir “Tu foste o selo de uma semelhança e uma coroa de graça entre as delícias do paraíso”, ou “Desde o dia em que foste criado com os querubins, eu te pus no santo monte de Deus”, possa enfraquecer de tal modo o sentido a ponto de supor que essa linguagem é usada a respeito de algum homem ou santo, para não dizer do príncipe de Tiro? Ou que pedras de fogo pode ele imaginar, no meio das quais algum homem pudesse viver? Ou quem se poderia supor que fosse sem mancha desde o próprio dia da sua criação e, descobrindo-se depois maldade nele, dissesse-se dele então que foi lançado à terra? Pois o sentido disso é que aquele que ainda não estava na terra é dito lançado sobre ela; e dele se diz também que os seus lugares santos foram profanados. Mostramos, portanto, que o que citamos do profeta Ezequiel a respeito do príncipe de Tiro se refere a um poder adverso, e por isso se prova com toda a clareza que esse poder era antes santo e feliz; desse estado de felicidade ele caiu desde o momento em que se achou nele iniquidade, e foi precipitado na terra, e não era assim por natureza e criação. Somos de opinião, portanto, que essas palavras são ditas a respeito de certo anjo que recebera o ofício de governar a nação dos tírios e a quem também tinham sido confiadas as suas almas para que delas cuidasse. Mas que Tiro, ou que almas de tírios, devemos entender, se aquela Tiro situada dentro das fronteiras da província da Fenícia ou alguma outra, da qual esta que conhecemos na terra é o modelo; e se as almas dos tírios são as daquela primeira ou as que pertencem àquela Tiro entendida espiritualmente, não parece ser assunto que exija exame neste lugar; para que talvez não pareça que investigamos de modo apressado assuntos de tanto mistério e importância, quando eles exigem um trabalho e uma obra próprios.

5. Além disso, o profeta Isaías nos ensina o seguinte a respeito de outro poder adverso. Diz o profeta: “Como caiu do céu Lúcifer, que costumava levantar-se pela manhã! Aquele que atacava todas as nações está quebrado e abatido por terra. Tu dizias no teu coração: Subirei ao céu; acima das estrelas do céu porei o meu trono; assentar-me-ei sobre um monte elevado, acima dos montes elevados que estão para o norte; subirei acima das nuvens; serei semelhante ao Altíssimo. Agora serás precipitado ao mundo inferior e aos fundamentos da terra. Os que te virem se espantarão de ti e dirão: Este é o homem que perturbava a terra inteira, que abalava os reis, que fez do mundo inteiro um deserto, que destruiu as cidades e não soltou os que estavam presos. Todos os reis das nações dormiram com honra, cada um na sua casa; mas tu serás lançado fora sobre os montes, maldito, com os muitos mortos que foram traspassados à espada e desceram ao mundo inferior. Como uma veste coberta de sangue coagulado e manchada não ficará limpa, assim também tu não serás limpo, porque destruíste a minha terra e mataste o meu povo; não permanecerás para sempre, semente perversíssima. Prepara os teus filhos para a morte por causa dos pecados de teu pai, para que não se levantem de novo, herdem a terra e a encham de guerras. E eu me levantarei contra eles, diz o Senhor dos Exércitos, e farei perecer o seu nome, os seus restos e a sua descendência” (Is 14.12-22). Por essas palavras fica evidentíssimo que caiu do céu aquele que antes era Lúcifer e que costumava levantar-se pela manhã. Pois, se, como alguns pensam, ele era uma natureza de trevas, como se diz que antes era Lúcifer? Ou como poderia levantar-se pela manhã aquele que nada tinha em si da luz? Mais ainda, o próprio Salvador nos ensina, dizendo a respeito do diabo: “Eis que vejo Satanás caído do céu como um relâmpago” (Lc 10.18). Pois em outro tempo ele era luz. Além disso, nosso Senhor, que é a verdade, comparou o poder da sua própria vinda gloriosa ao relâmpago, com as palavras: “Pois assim como o relâmpago brilha da altura do céu até a sua outra altura, assim será a vinda do Filho do Homem” (Mt 24.27). E, no entanto, ele o compara ao relâmpago e diz que caiu do céu, para mostrar com isso que ele estivera em outro tempo no céu, tivera lugar entre os santos e gozara de uma parte daquela luz da qual todos os santos participam, pela qual são feitos anjos de luz e pela qual os apóstolos são chamados pelo Senhor de luz do mundo. Desse modo, pois, aquele ser existiu outrora como luz, antes de se extraviar e cair a este lugar e de ter a sua glória convertida em pó, o que é a marca própria dos ímpios, como também diz o profeta; donde também foi chamado príncipe deste mundo, isto é, de uma habitação terrena; pois exercia poder sobre os que obedeciam à sua maldade, visto que “o mundo inteiro” (pois chamo mundo a este lugar da terra) “jaz no Maligno” (1Jo 5.19) e neste apóstata. Que ele é apóstata, isto é, fugitivo, o próprio Senhor o diz no livro de Jó: “Tomarás com um anzol o dragão apóstata”, isto é, fugitivo (Jó 41.1). Ora, é certo que pelo dragão se entende o próprio diabo. Se, então, são chamados poderes adversos e se diz que outrora foram sem mancha, ao passo que a pureza imaculada não existe no ser essencial de ninguém senão do Pai, do Filho e do Espírito Santo, mas é uma qualidade acidental em toda coisa criada; e, visto que aquilo que é acidental também pode desaparecer, e visto que aqueles poderes adversos outrora foram imaculados e estiveram outrora entre os que ainda permanecem sem mancha, fica evidente por tudo isso que ninguém é puro por essência ou por natureza, e que ninguém foi impuro por natureza. E a consequência disso é que está em nós e nas nossas próprias ações possuir a felicidade ou a santidade; ou, por preguiça e negligência, cair da felicidade na maldade e na ruína, a tal ponto que, por um progresso excessivo, por assim dizer, na maldade (se alguém for culpado de tão grande negligência), pode descer até aquele estado em que será transformado no que se chama “poder adverso”.

Capítulo VI. Sobre o fim ou consumação

1. O fim ou consumação parece ser indício da perfeição e do acabamento das coisas. E isso nos lembra aqui que, se houver alguém imbuído do desejo de ler e compreender assuntos de tanta dificuldade e importância, deve trazer para esse esforço um entendimento perfeito e instruído, para que talvez, se não tiver experiência em questões desse tipo, elas não lhe pareçam vãs e supérfluas; ou, se a sua mente estiver cheia de preconceitos e prevenções sobre outros pontos, não as julgue heréticas e contrárias à fé da Igreja, cedendo, ao fazê-lo, não tanto às convicções da razão quanto ao dogmatismo do preconceito. Esses assuntos, na verdade, são tratados por nós com grande solicitude e cautela, mais à maneira de uma investigação e discussão do que de uma decisão fixa e certa. Pois indicamos nas páginas anteriores as questões que devem ser expostas em proposições dogmáticas claras, como penso ter feito na medida da minha capacidade ao falar da Trindade. Mas, na presente ocasião, o nosso exercício deve ser conduzido, como melhor pudermos, no estilo de uma disputa, mais do que de uma definição rigorosa.

O fim do mundo, portanto, e a consumação final se darão quando cada um for submetido à punição pelos seus pecados; tempo que só Deus conhece, quando ele dará a cada um o que merece. Pensamos, de fato, que a bondade de Deus, por meio do seu Cristo, pode reconduzir todas as suas criaturas a um só fim, sendo vencidos e subjugados até os seus inimigos. Pois assim diz a santa Escritura: “Disse o Senhor ao meu senhor: Sente-se à minha direita, até que eu ponha os seus inimigos por estrado dos seus pés” (Sl 110.1). E, se o sentido da linguagem do profeta aqui é menos claro, podemos determiná-lo pelo apóstolo Paulo, que fala mais abertamente, assim: “Porque é necessário que ele reine até que tenha posto todos os inimigos debaixo dos seus pés” (1Co 15.25). Mas, se nem mesmo essa declaração franca do apóstolo nos informa suficientemente o que significa “os inimigos postos debaixo dos seus pés”, ouçamos o que ele diz nas palavras seguintes: “Pois todas as coisas devem ser sujeitas a ele” (1Co 15.27). Que é, então, esse “sujeitar” pelo qual todas as coisas devem ser sujeitas a Cristo? Sou de opinião que é essa mesma sujeição pela qual também nós desejamos estar sujeitos a ele, pela qual também os apóstolos estiveram sujeitos, e todos os santos que foram seguidores de Cristo. Pois o nome “sujeição”, pelo qual estamos sujeitos a Cristo, indica que a salvação que procede dele pertence aos seus súditos, conforme a declaração de Davi: “Não estará a minha alma sujeita a Deus? Dele vem a minha salvação” (Sl 62.1).

2. Sendo esse, pois, o fim, quando todos os inimigos forem sujeitos a Cristo, quando a morte, o último inimigo, for destruída e quando o reino for entregue por Cristo (a quem todas as coisas estão sujeitas) a Deus Pai, contemplemos, digo, a partir de tal fim, os começos das coisas. Pois o fim é sempre semelhante ao começo; e, portanto, assim como há um só fim para todas as coisas, assim devemos entender que houve um só começo; e, assim como há um só fim para muitas coisas, assim também de um só começo brotam muitas diferenças e variedades, que, por sua vez, pela bondade de Deus, pela sujeição a Cristo e pela unidade do Espírito Santo, são reconduzidas a um só fim, que é semelhante ao começo: a saber, todos aqueles que, dobrando o joelho ao nome de Jesus, dão a conhecer com isso a sua sujeição a ele; e estes são os que estão no céu, na terra e debaixo da terra, três classes pelas quais se designa o universo inteiro das coisas, isto é, aqueles que, a partir daquele único começo, foram dispostos, cada um segundo a diversidade da sua conduta, entre as diferentes ordens, de acordo com o seu merecimento; pois não havia neles bondade por ser essencial, como em Deus e no seu Cristo e no Espírito Santo. Pois só na Trindade, que é autora de todas as coisas, a bondade existe em virtude do ser essencial; ao passo que os outros a possuem como qualidade acidental e perecível, e só gozam da bem-aventurança quando participam da santidade e da sabedoria e da própria divindade. Mas, se negligenciam e desprezam essa participação, então cada um, por culpa da sua própria preguiça, se torna, um mais depressa, outro mais devagar, um em maior, outro em menor grau, a causa da sua própria queda. E, visto que, como observamos, o lapso pelo qual um indivíduo cai da sua posição se caracteriza por grande diversidade, segundo os movimentos da mente e da vontade, caindo um com mais facilidade, outro com mais dificuldade, para uma condição inferior, nisso se deve ver o justo juízo da providência de Deus, para que a cada um suceda segundo a diversidade da sua conduta, em proporção ao merecimento do seu declínio e da sua defecção. Certos daqueles, de fato, que permaneceram naquele começo que descrevemos como semelhante ao fim que há de vir, obtiveram, na ordenação e disposição do mundo, a categoria de anjos; outros, a de influências; outros, a de principados; outros, a de potestades, para que exerçam poder sobre aqueles que precisam ter um poder sobre a cabeça. Outros, ainda, receberam a categoria de tronos, tendo o ofício de julgar ou governar os que necessitam disso; outros, a de dominação, sem dúvida sobre servos; todas essas coisas são conferidas pela Providência divina em juízo justo e imparcial, segundo os seus méritos e o progresso que tinham feito na participação e na imitação de Deus. Mas aqueles que foram removidos do seu estado primitivo de bem-aventurança não foram removidos de modo irrecuperável, mas foram postos sob o governo daquelas ordens santas e bem-aventuradas que descrevemos; e, valendo-se do auxílio delas e sendo remodelados por princípios e disciplina salutares, podem recuperar-se e ser restituídos à sua condição de felicidade. De tudo isso sou de opinião, até onde posso ver, que esta ordem do gênero humano foi estabelecida para que, no mundo futuro, ou nos séculos vindouros, quando houver os novos céus e a nova terra de que fala Isaías, seja restituída àquela unidade prometida pelo Senhor Jesus na sua oração a Deus Pai em favor dos seus discípulos: “Não peço somente por estes, mas por todos os que crerem em mim por meio da palavra deles: que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que também eles sejam um em nós” (Jo 17.20-21); e de novo, quando ele diz: “para que sejam um, como nós o somos; eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade” (Jo 17.22-23). E isso é confirmado ainda pela linguagem do apóstolo Paulo: “Até que todos cheguemos à unidade da fé, ao homem perfeito, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4.13). E em harmonia com isso está a declaração do mesmo apóstolo quando exorta a nós, que já na vida presente estamos postos na Igreja, na qual está a forma daquele reino que há de vir, a essa mesma semelhança de unidade: “que todos estejam de acordo naquilo que falam e que não haja divisões entre vocês; pelo contrário, que vocês sejam unidos no mesmo modo de pensar e num mesmo propósito” (1Co 1.10).

3. Deve-se ter em mente, porém, que certos seres que caíram daquele único começo de que falamos afundaram em tal profundidade de indignidade e de maldade que foram julgados inteiramente indignos daquela formação e instrução pelas quais o gênero humano, enquanto está na carne, é formado e instruído com a assistência dos poderes celestiais; e, ao contrário, permanecem num estado de inimizade e oposição aos que estão recebendo essa instrução e esse ensino. E daí vem que toda esta vida mortal está cheia de lutas e provações, causadas pela oposição e inimizade daqueles que caíram de uma condição melhor sem de modo algum olhar para trás, e que são chamados o diabo e os seus anjos, e as demais ordens do mal, que o apóstolo classificou entre os poderes adversos. Mas se alguma dessas ordens que agem sob o governo do diabo e obedecem às suas ordens perversas será, num mundo futuro, convertida à justiça por possuir a faculdade da liberdade da vontade, ou se a maldade persistente e inveterada pode ser transformada em natureza pela força do hábito, é um resultado que você mesmo, leitor, pode aprovar, se nem nestes mundos presentes, que são visíveis e temporais, nem naqueles que são invisíveis e eternos, essa porção há de diferir inteiramente da unidade final e da harmonia das coisas. Mas, entretanto, tanto nos mundos temporais que são visíveis como nos mundos eternos que são invisíveis, todos esses seres estão dispostos, segundo um plano regular, na ordem e no grau dos seus méritos; de modo que alguns deles nos primeiros tempos, outros nos segundos, alguns até nos últimos tempos, depois de terem sofrido castigos mais pesados e mais severos, suportados por um período prolongado e por muitos séculos, por assim dizer, melhorados por esse austero método de formação e restaurados primeiro pela instrução dos anjos e depois pelos poderes de grau mais elevado, e avançando assim por cada etapa para uma condição melhor, chegam até aquilo que é invisível e eterno, tendo percorrido, por uma espécie de formação, cada um dos ofícios dos poderes celestiais. Daí, penso eu, parecerá seguir-se como inferência que toda natureza racional pode, passando de uma ordem a outra, ir de cada uma a todas e avançar de todas a cada uma, enquanto é sujeita a diversos graus de progresso e de fracasso segundo as suas próprias ações e esforços, exercidos no gozo do seu poder de liberdade da vontade.

4. Mas, visto que Paulo diz que certas coisas são visíveis e temporais, e outras, além destas, invisíveis e eternas, passamos a investigar como as coisas que se veem são temporais: se é porque não haverá absolutamente nada depois delas em todos aqueles períodos do mundo vindouro, nos quais aquela dispersão e separação do único começo está passando por um processo de restauração a um só e mesmo fim e semelhança; ou se é porque, enquanto passa a forma das coisas que se veem, a sua natureza essencial não está sujeita a nenhuma corrupção. E Paulo parece confirmar esta última opinião quando diz: “Porque a aparência deste mundo passa” (1Co 7.31). Davi também parece afirmar o mesmo nestas palavras: “Os céus perecerão, mas tu permaneces; todos eles envelhecerão como veste, como roupa os mudarás, e serão mudados” (Sl 102.26). Pois, se os céus hão de ser mudados, certamente o que é mudado não perece; e, se a aparência do mundo passa, de modo algum se mostra que ocorra uma aniquilação ou destruição da sua substância material, mas uma espécie de mudança de qualidade e transformação de aparência. Também Isaías, ao declarar profeticamente que haverá um novo céu e uma nova terra, sem dúvida sugere uma opinião semelhante. Pois essa renovação do céu e da terra, essa transmutação da forma do mundo presente e essa mudança dos céus serão sem dúvida preparadas para aqueles que andam pelo caminho que indicamos acima e tendem para aquela meta de felicidade à qual, segundo se diz, até os próprios inimigos hão de ser sujeitos, e na qual se diz que Deus será “tudo em todos” (1Co 15.28). E, se alguém imagina que no fim a natureza material, isto é, corpórea, será inteiramente destruída, não pode de modo algum responder à minha questão: como seres tão numerosos e poderosos podem viver e existir sem corpos, visto que é atributo só da natureza divina, isto é, do Pai, do Filho e do Espírito Santo, existir sem nenhuma substância material e sem participar em grau algum de um acréscimo corpóreo. Outro talvez diga que no fim toda substância corpórea será tão pura e refinada que será como o éter, de uma pureza e claridade celestes. Como as coisas serão, porém, só Deus sabe com certeza, e aqueles que são seus amigos por meio de Cristo e do Espírito Santo.

Notas

1. Officia.

2. Aqui a Septuaginta difere do texto massorético.

3. Simul cum substantiæ suæ prolatione, isto é, ao mesmo tempo que a emanação da sua substância.

4. Conditionis prærogativa.

5. Substantialiter.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Frederick Crombie (Ante-Nicene Fathers, vol. 4, Buffalo, 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução, feita do latim de Rufino e, nos capítulos III.1 e IV.1, do grego conservado. As notas são do tradutor inglês; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Orígenes cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.