Orígenes, Sobre os Princípios · Livro I
Os seres corpóreos e incorpóreos, o sol, a lua e as estrelas; os anjos e as suas funções.
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1. Os assuntos examinados no capítulo anterior foram tratados em termos gerais, e a natureza dos seres racionais foi discutida mais por via de inferência inteligente do que por definição dogmática estrita, com exceção do trecho em que tratamos, na medida das nossas forças, das pessoas do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Agora temos de verificar quais são as matérias que convém tratar nas páginas seguintes de acordo com a nossa crença dogmática, isto é, em concordância com o credo da Igreja. Todas as almas e todas as naturezas racionais, sejam santas, sejam más, foram formadas ou criadas, e todas elas, segundo a sua natureza própria, são incorpóreas; mas, embora incorpóreas, nem por isso deixaram de ser criadas, porque todas as coisas foram feitas por Deus por meio de Cristo, como João ensina de modo geral no seu Evangelho, ao dizer: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez” (Jo 1.1-3). O apóstolo Paulo, além disso, descrevendo as coisas criadas por espécies, números e ordens, fala assim, ao mostrar que todas as coisas foram feitas por meio de Cristo: “E nele foram criadas todas as coisas que estão nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades; todas as coisas foram criadas por ele e nele; e ele é antes de todas as coisas, e ele é a cabeça” (Cl 1.16-18). Ele declara, portanto, claramente, que em Cristo e por meio de Cristo foram feitas e criadas todas as coisas, tanto as visíveis, que são corpóreas, como as invisíveis, que eu não considero outra coisa senão poderes incorpóreos e espirituais. E, das coisas que ele havia denominado de modo geral corpóreas ou incorpóreas, parece-me que nas palavras seguintes enumera as diversas espécies, a saber: tronos, soberanias, principados, potestades, influências.
Mencionamos antes estas matérias porque desejamos chegar de modo ordenado, por via de inferência lógica, ao exame do sol, da lua e das estrelas, e verificar se também eles devem com propriedade ser contados entre os principados, por se dizer que foram criados em archas, isto é, para o governo do dia e da noite; ou se devem ser considerados como tendo apenas aquele governo do dia e da noite que exercem ao cumprir o ofício de iluminá-los, sem serem, na realidade, os chefes daquela ordem de principados.
2. Ora, quando se diz que todas as coisas foram feitas por ele e que nele foram criadas todas as coisas, tanto as do céu como as da terra, não pode haver dúvida de que também aquelas que estão no firmamento, que se chama céu, e no qual se diz que esses luzeiros foram colocados, se incluem no número das coisas celestes. E, em segundo lugar, visto que o curso da discussão descobriu claramente que todas as coisas foram feitas ou criadas, e que entre as coisas criadas não há nenhuma que não admita o bem e o mal e não seja capaz de um ou de outro, que devemos pensar da seguinte opinião que alguns dos nossos sustentam a respeito do sol, da lua e das estrelas, a saber, que são imutáveis e incapazes de se tornar o contrário do que são? Não poucos defenderam essa opinião até a respeito dos santos anjos, e certos hereges também a respeito das almas, às quais chamam naturezas espirituais.
Em primeiro lugar, então, vejamos o que a própria razão pode descobrir a respeito do sol, da lua e das estrelas, se é correta a opinião, que alguns sustentam, de que são imutáveis; e aduzam-se primeiro, tanto quanto possível, as declarações da santa Escritura. Pois Jó parece afirmar não só que as estrelas podem estar sujeitas ao pecado, mas até que de fato não estão limpas do seu contágio. Estas são as suas palavras: “Também as estrelas não são puras aos teus olhos” (Jó 25.5). E isso não deve ser entendido do esplendor da sua substância física, como se alguém dissesse, por exemplo, de uma veste, que ela não está limpa; pois, se tal fosse o sentido, a acusação de falta de pureza no esplendor da sua substância corporal implicaria uma censura injuriosa ao seu Criador. Porque, se elas não podem, por seu próprio esforço diligente, adquirir para si um corpo mais brilhante, nem, por sua preguiça, tornar menos puro o que têm, como mereceriam censura por serem estrelas que não são puras, se não recebem louvor por serem puras?
3. Mas, para chegar a uma compreensão mais clara dessas matérias, devemos primeiro investigar este ponto: se é permitido supor que são seres vivos e racionais; depois, se as suas almas vieram a existir ao mesmo tempo que os seus corpos ou parecem ser anteriores a eles; e também se, depois do fim do mundo, devemos entender que serão libertadas dos seus corpos; e se, assim como nós deixamos de viver, também elas deixarão de iluminar o mundo. Embora esta investigação possa parecer um tanto ousada, como somos movidos pelo desejo de verificar a verdade tanto quanto possível, não parece absurdo tentar examinar o assunto segundo a graça do Espírito Santo.
Pensamos, então, que podem ser chamadas seres vivos pela razão de que se diz que recebem mandamentos de Deus, o que ordinariamente só acontece com os seres racionais. “Dei ordens a todas as estrelas” (Is 45.12), diz o Senhor. Quais são, então, esses mandamentos? Estes, a saber: que cada estrela, na sua ordem e no seu curso, conceda ao mundo a quantidade de esplendor que lhe foi confiada. Pois as que se chamam “planetas” movem-se em órbitas de um tipo, e as que se denominam aplaneis [N. do T.: “fixas”, isto é, as estrelas que não vagueiam.] são diferentes. Ora, daqui se segue claramente que nem o movimento daquele corpo pode dar-se sem uma alma, nem os seres vivos podem estar em algum tempo sem movimento. E, visto que as estrelas se movem com tal ordem e regularidade que os seus movimentos nunca parecem sujeitos a qualquer desarranjo, não seria o cúmulo da insensatez dizer que uma observância tão ordenada de método e de plano pudesse ser executada ou realizada por seres irracionais? Nos escritos de Jeremias, aliás, a lua é chamada rainha do céu (Jr 7.18). Contudo, se as estrelas são seres vivos e racionais, aparecerá sem dúvida entre elas tanto progresso como retrocesso. Pois a linguagem de Jó, “as estrelas não são puras aos olhos dele” (Jó 25.5), parece-me transmitir alguma ideia desse tipo.
4. E agora temos de verificar se aqueles seres que, no curso da discussão, descobrimos possuírem vida e razão foram dotados de uma alma juntamente com os seus corpos no tempo mencionado na Escritura, quando “Deus fez os dois grandes luzeiros: o maior para governar o dia, e o menor para governar a noite; e fez também as estrelas” (Gn 1.16), ou se o seu espírito lhes foi implantado, não na criação dos seus corpos, mas de fora, depois de já terem sido feitos. Eu, de minha parte, suspeito que o espírito lhes foi implantado de fora; mas valerá a pena prová-lo pela Escritura, pois parecerá fácil fazer a afirmação com base em conjecturas, ao passo que é mais difícil estabelecê-la pelo testemunho da Escritura. Pode-se estabelecê-lo por conjectura da seguinte maneira. Se a alma do homem, que certamente é inferior enquanto permanece alma de homem, não foi formada juntamente com o seu corpo, mas se prova ter sido implantada propriamente de fora, muito mais deve ser esse o caso com aqueles seres vivos que se chamam celestes. Pois, quanto ao homem, como poderia a alma daquele, isto é, de Jacó, que suplantou o irmão no ventre, parecer formada juntamente com o seu corpo? Ou como poderia a alma, ou as suas imagens, ser formada juntamente com o corpo daquele que, estando ainda no ventre da mãe, foi cheio do Espírito Santo? Refiro-me a João, que saltou no ventre da mãe e exultou porque a voz da saudação de Maria chegara aos ouvidos de sua mãe, Isabel. Como poderiam a alma e as suas imagens ser formadas juntamente com o corpo daquele que, antes de ser criado no ventre, se diz ser conhecido de Deus e foi por ele santificado antes do nascimento? Alguns talvez pensem que Deus enche certas pessoas do seu Espírito Santo e lhes concede a santificação não por razões de justiça e segundo os seus merecimentos, mas imerecidamente. E como escaparemos então daquela declaração: “Que Deus é injusto? De modo nenhum!” (Rm 9.14), ou desta: “Há acepção de pessoas da parte de Deus?” (Rm 2.11). Pois tal é a defesa dos que sustentam que as almas vêm a existir com os corpos. Até onde, portanto, podemos formar uma opinião pela comparação com a condição do homem, penso que se segue que devemos considerar válido para os seres celestes o mesmo que a própria razão e a autoridade da Escritura nos mostram ser o caso dos homens.
5. Mas vejamos se conseguimos encontrar na santa Escritura algumas indicações que se apliquem propriamente a essas existências celestes. Esta é a afirmação do apóstolo Paulo: “A criação foi sujeita à vaidade, não por sua própria vontade, mas por causa daquele que a sujeitou na esperança, porque também a própria criação será libertada do cativeiro da corrupção para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus” (cf. Rm 8.20-21). A que vaidade, pergunto, foi sujeita a criação, ou de que criação se fala, ou em que sentido se diz “não por sua própria vontade”, ou “na esperança de quê”? E de que modo a própria criação há de ser libertada do cativeiro da corrupção? Em outro lugar o mesmo apóstolo diz também: “A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus” (Rm 8.19). E ainda em outra passagem: “E não somente nós, mas também a própria criação geme junto e sofre dores até agora” (Rm 8.22; cf. 8.23). Por isso temos de investigar quais são os gemidos e quais são as dores. Vejamos, então, em primeiro lugar, qual é a vaidade à qual a criação está sujeita. Entendo que não é outra coisa senão o corpo; pois, embora o corpo das estrelas seja etéreo, é ainda assim material. Por isso também Salomão parece caracterizar toda a natureza corpórea como uma espécie de fardo que enfraquece o vigor da alma, com estas palavras: “Vaidade de vaidades, diz o Pregador; tudo é vaidade. Olhei e vi todas as obras que se fazem debaixo do sol, e eis que tudo é vaidade” (Ec 1.2, 14). A essa vaidade, então, está sujeita a criação, sobretudo aquela criação que, sendo certamente a maior deste mundo, detém também um distinto principado de trabalho, isto é, o sol, a lua e as estrelas, dos quais se diz que estão sujeitos à vaidade porque estão revestidos de corpos e destinados ao ofício de dar luz ao gênero humano. “E essa criação”, observa ele, “foi sujeita à vaidade não por sua própria vontade.” Pois não assumiu um serviço voluntário à vaidade, mas o fez porque essa era a vontade daquele que a sujeitou, e por causa da promessa feita por aquele que sujeitou aos que foram reduzidos a essa obediência involuntária: a de que, cumprido o ministério da sua grande obra, seriam libertados desse cativeiro da corrupção e da vaidade, quando chegasse o tempo da gloriosa redenção dos filhos de Deus. E toda a criação, tendo recebido essa esperança e aguardando agora o cumprimento dessa promessa, entretanto, como quem tem afeição por aqueles a quem serve, geme com eles e sofre pacientemente com eles, esperando o cumprimento das promessas. Veja também se as seguintes palavras de Paulo podem aplicar-se aos que, embora não por sua vontade, mas segundo a vontade daquele que os sujeitou e na esperança das promessas, foram sujeitos à vaidade, quando ele diz: “Pois eu desejaria ser desatado”, ou “voltar e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor” (Fp 1.23). Pois penso que o sol poderia dizer do mesmo modo: “Eu desejaria ser desatado”, ou “voltar e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor”. Paulo, de fato, acrescenta: “Mas permanecer na carne é mais necessário por causa de vocês” (Fp 1.24); ao passo que o sol pode dizer: “Permanecer neste corpo luminoso e celeste é mais necessário, por causa da revelação dos filhos de Deus”. O mesmo se deve crer e dizer a respeito da lua e das estrelas.
Vejamos agora o que é a liberdade da criação, ou o término do seu cativeiro. Quando Cristo tiver entregado o reino a Deus, o Pai, então também esses seres vivos, depois de terem sido feitos primeiro reino de Cristo, serão entregues, juntamente com todo esse reino, ao governo do Pai, para que, quando Deus for tudo em todos, também eles, visto que são parte de todas as coisas, tenham Deus em si mesmos, como ele está em todas as coisas.
1. Método semelhante deve ser seguido ao tratar dos anjos; e não devemos supor que seja fruto do acaso que um determinado ofício seja atribuído a um determinado anjo: a Rafael, por exemplo, a obra de curar e sarar; a Gabriel, a condução das guerras; a Miguel, o encargo de atender às orações e súplicas dos mortais. Pois não devemos imaginar que obtiveram esses ofícios de outro modo senão pelos seus próprios méritos, e pelo zelo e pelas excelentes qualidades que cada um deles manifestou antes que este mundo fosse formado; de modo que depois, na ordem dos arcanjos, este ou aquele ofício foi atribuído a cada um, enquanto outros mereceram ser inscritos na ordem dos anjos e agir sob este ou aquele arcanjo, ou sob este ou aquele chefe ou cabeça de uma ordem. Todas essas coisas foram dispostas, como eu disse, não de modo indiscriminado e fortuito, mas por uma decisão de Deus sumamente adequada e justa, que as ordenou segundo os merecimentos, de acordo com a sua própria aprovação e o seu juízo: de modo que a um anjo fosse confiada a igreja dos efésios; a outro, a dos esmirnenses; um anjo seria de Pedro, outro de Paulo; e assim por diante, por todos os pequeninos que estão na Igreja, pois a cada um deles devem ser atribuídos tais e tais anjos, que até diariamente contemplam a face de Deus (Mt 18.10); e deve haver também algum anjo que se acampa ao redor dos que temem a Deus (Sl 34.7).1 Todas essas coisas, sem dúvida, devemos crer que não acontecem por acidente ou acaso, nem porque eles (os anjos) foram criados assim, para que, segundo essa opinião, o Criador não seja acusado de parcialidade; mas devemos crer que foram conferidas por Deus, o justo e imparcial Governante de todas as coisas, segundo os méritos, as boas qualidades e o vigor mental de cada espírito individualmente.
2. E agora digamos algo a respeito dos que sustentam a existência de uma diversidade de naturezas espirituais, para que evitemos cair nas fábulas tolas e ímpias dos que pretendem que há uma diversidade de naturezas espirituais tanto entre as existências celestes como entre as almas humanas, e por essa razão alegam que foram chamadas à existência por criadores diferentes; pois, embora pareça absurdo, e de fato seja, atribuir a um só e mesmo Criador a criação de naturezas diferentes de seres racionais, eles ignoram, no entanto, a causa dessa diversidade. Dizem que parece incoerente que um só e mesmo Criador, sem que exista nenhum fundamento de mérito, confira a alguns seres o poder de domínio e sujeite outros à autoridade; conceda a alguns um principado e torne outros subordinados a governantes. Essas opiniões, a meu juízo, ficam inteiramente rejeitadas quando se segue o raciocínio exposto acima, pelo qual se mostrou que a causa da diversidade e da variedade entre esses seres se deve à sua conduta, marcada por maior empenho ou por maior indiferença, conforme a bondade ou a maldade da sua natureza, e não a alguma parcialidade da parte daquele que os dispõe. Mas, para que se possa mostrar com mais facilidade que esse é o caso dos seres celestes, tomemos emprestado um exemplo do que foi feito ou se faz entre os homens, a fim de que, a partir das coisas visíveis, possamos contemplar, por consequência, também as invisíveis.
Paulo e Pedro, sem dúvida, demonstram ter sido homens de natureza espiritual. Quando, então, se verifica que Paulo agiu contra a religião, ao perseguir a Igreja de Deus, e que Pedro cometeu pecado tão grave como o de afirmar com juramento, quando interrogado pela criada, que não sabia quem era Cristo, como é possível que estes, que segundo essas pessoas de quem falamos eram seres espirituais, caíssem em pecados de tal natureza, sobretudo quando elas costumam dizer com frequência que uma árvore boa não pode produzir frutos maus? E, se uma árvore boa não pode produzir fruto mau, e se, segundo elas, Pedro e Paulo brotaram da raiz de uma árvore boa, como se poderia julgar que produziram frutos tão maus? E, se derem a resposta que costumam inventar, de que não foi Paulo quem perseguiu, mas alguma outra pessoa, não sei quem, que estava em Paulo; e que não foi Pedro quem negou, mas algum outro indivíduo nele; como diria Paulo, se não tivesse pecado: “Não sou digno de ser chamado apóstolo, pois persegui a igreja de Deus” (1Co 15.9)? Ou por que chorou Pedro tão amargamente, se foi outro e não ele quem pecou? Por tudo isso, todas as suas afirmações tolas se mostrarão sem fundamento.
3. Segundo o nosso modo de ver, não há criatura racional que não seja capaz tanto do bem como do mal. Mas não se segue que, por dizermos que não há natureza que não possa admitir o mal, sustentemos por isso que toda natureza admitiu o mal, isto é, tornou-se má. Assim como podemos dizer que a natureza de todo homem admite que ele seja marinheiro, mas daí não se segue que todo homem se tornará marinheiro; ou ainda, é possível a todos aprender gramática ou medicina, mas nem por isso fica provado que todo homem seja médico ou gramático; assim também, se dizemos que não há natureza que não possa admitir o mal, não se indica necessariamente que ela o tenha admitido. Pois, a nosso ver, nem mesmo o próprio diabo era incapaz do bem; mas, embora capaz de admitir o bem, nem por isso também o desejou nem fez esforço algum em busca da virtude. Pois, como nos ensinam aquelas citações que aduzimos dos profetas, houve um tempo em que ele era bom, quando andava no paraíso de Deus entre os querubins. Assim, pois, como ele possuía o poder de receber o bem ou o mal, mas se desviou do caminho da virtude e se voltou para o mal com todas as forças da sua mente, assim também outras criaturas, tendo capacidade para uma ou outra condição, no exercício da liberdade da sua vontade fogem do mal e se apegam ao bem. Não há natureza, portanto, que não possa admitir o bem ou o mal, exceto a natureza de Deus, fonte de todos os bens, e a de Cristo; pois essa natureza é a sabedoria, e a sabedoria certamente não pode admitir a insensatez; e é a justiça, e a justiça certamente nunca admitirá a injustiça; e é o Verbo, ou a Razão, que certamente não pode tornar-se irracional; mais ainda, é também a luz, e é certo que as trevas não recebem a luz. Do mesmo modo, também a natureza do Espírito Santo, sendo santa, não admite contaminação; pois é santa por natureza, ou por seu ser essencial. Se há alguma outra natureza que seja santa, possui essa propriedade de ser santificada pela recepção ou pela inspiração do Espírito Santo, não a tendo por natureza, mas como qualidade acidental, razão pela qual pode perdê-la, justamente por ser acidental. Assim também um homem pode possuir uma justiça acidental, da qual lhe é possível decair. Até a sabedoria que um homem tem é ainda acidental, embora esteja em nosso poder tornar-nos sábios, se nos dedicarmos à sabedoria com o zelo e o esforço da nossa vida; e, se sempre prosseguirmos no seu estudo, poderemos sempre participar da sabedoria; e esse resultado se dará em grau maior ou menor, conforme o merecimento da nossa vida ou a medida do nosso zelo. Pois a bondade de Deus, como é digno dele, incita e atrai todos para aquele fim bem-aventurado onde toda dor, tristeza e pesar se desvanecem e desaparecem.
4. Sou de opinião, então, até onde me parece, que a discussão precedente provou suficientemente que não é por falta de discernimento nem por alguma causa acidental que os “principados” detêm o seu domínio, ou que as outras ordens de espíritos obtiveram os seus respectivos ofícios; mas que receberam os degraus da sua posição em razão dos seus méritos, embora não nos seja dado conhecer ou investigar quais foram aqueles atos deles pelos quais conquistaram lugar nesta ou naquela ordem. Basta apenas saber isto, para demonstrar a imparcialidade e a justiça de Deus: que, conforme a declaração do apóstolo Paulo, “nele não há acepção de pessoas” (cf. Rm 2.11), mas ele dispõe tudo segundo os merecimentos e o progresso moral de cada um. Assim, pois, o ofício angélico só existe como consequência do seu merecimento; nem as “potestades” exercem poder senão em virtude do seu progresso moral; nem aquelas que se chamam “sedes”, isto é, os poderes de julgar e de governar, administram os seus poderes senão por mérito; nem as “soberanias” governam imerecidamente, pois aquela grande e distinta ordem de criaturas racionais entre as existências celestes está disposta numa gloriosa variedade de ofícios. E o mesmo se deve pensar daquelas influências adversas que se entregaram a tais lugares e ofícios: a propriedade pela qual se tornam “principados”, ou “potestades”, ou dominadores das trevas do mundo, ou espíritos da maldade, ou espíritos malignos, ou demônios imundos, não a derivam da sua natureza essencial, nem do fato de terem sido criadas assim, mas obtiveram esses graus no mal em proporção à sua conduta e ao progresso que fizeram na maldade. E essa é uma segunda ordem de criaturas racionais, que se entregaram à maldade num curso tão precipitado que mais não querem do que não podem voltar atrás; pois a sede do mal já é nelas uma paixão e lhes dá prazer. Mas a terceira ordem de criaturas racionais é a daqueles que Deus julga aptos para preencher o gênero humano, isto é, as almas dos homens, assumidas, em consequência do seu progresso moral, na ordem dos anjos; dos quais vemos alguns assumidos nesse número: a saber, os que foram feitos filhos de Deus, ou filhos da ressurreição, ou os que abandonaram as trevas, amaram a luz e foram feitos filhos da luz; ou os que, saindo vitoriosos de toda luta e tornando-se homens de paz, foram filhos da paz e filhos de Deus; ou os que, fazendo morrer os seus membros que estão sobre a terra e elevando-se acima não só da sua natureza corpórea, mas até dos movimentos incertos e frágeis da própria alma, se uniram ao Senhor, tornando-se inteiramente espirituais, para serem para sempre um só espírito com ele, discernindo juntamente com ele cada coisa em particular, até chegarem a uma condição de perfeita espiritualidade e discernirem todas as coisas pela sua perfeita iluminação, em toda santidade, por meio do Verbo e da sabedoria de Deus, sem que eles mesmos possam de modo algum ser discernidos por ninguém.
Pensamos que de modo nenhum se devem admitir aquelas opiniões que alguns costumam propor e sustentar sem necessidade, a saber, que as almas descem a tal grau de rebaixamento que esquecem a sua natureza e dignidade racionais e afundam na condição de animais irracionais, grandes ou pequenos; e, em apoio dessas afirmações, costumam citar certas pretensas declarações da Escritura, como a de que um animal com o qual uma mulher se prostituiu contra a natureza será considerado tão culpado quanto a mulher e mandado apedrejar; ou a de que um touro que fere com o chifre será morto da mesma maneira; ou ainda a fala da jumenta de Balaão, quando Deus lhe abriu a boca, e o animal de carga mudo, respondendo com voz humana, repreendeu a loucura do profeta. Todas essas afirmações nós não só não recebemos, mas, por serem contrárias à nossa fé, as refutamos e rejeitamos. Depois de refutar e rejeitar opiniões tão perversas, mostraremos, no tempo e no lugar próprios, como se devem entender as passagens que eles citam das sagradas Escrituras.
Traduzido por Jerônimo em sua Carta a Ávito.
“É sinal de grande negligência e preguiça que alguém caia a tal ponto (de degradação) e fique tão esvaziado que, chegando ao mal, venha a ser preso ao corpo grosseiro de animais de carga irracionais.”
Traduzido na mesma Carta a Ávito.
“No fim e consumação do mundo, quando as almas e as criaturas racionais tiverem sido soltas como de trancas e barreiras,2 algumas delas caminham devagar por causa dos seus hábitos preguiçosos, outras voam em voo rápido por causa da sua diligência. E, como todas possuem livre-arbítrio e podem por sua própria vontade admitir o bem ou o mal, aquelas estarão em pior condição do que estão no presente, ao passo que estas avançarão para um estado melhor; porque a conduta diferente e as vontades variáveis admitirão uma condição diferente numa ou noutra direção, isto é, anjos podem tornar-se homens ou demônios, e, por outro lado, destes podem elevar-se a ser homens ou anjos.”
1. Tum demum per singulos minimorum, qui sunt in ecclesiâ, qui vel qui adscribi singulis debeant angeli, qui etiam quotidie videant faciem Dei; sed et quis debeat esse angelus, qui circumdet in circuitu timentium Deum.
2. De quibusdam repagulis atque carceribus. Há aqui uma alusão ao hipódromo e ao modo de dar a largada aos carros.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Frederick Crombie (Ante-Nicene Fathers, vol. 4, Buffalo, 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução, feita do latim de Rufino e, nos capítulos III.1 e IV.1, do grego conservado. As notas são do tradutor inglês; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Orígenes cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.