Orígenes, Sobre os Princípios · Livro II
O Deus da lei e dos profetas é o mesmo Pai de nosso Senhor Jesus Cristo; justiça e bondade não se opõem em Deus.
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1. Tendo agora disposto em ordem, brevemente e do melhor modo que pudemos, esses pontos, segue-se que, conforme a nossa intenção desde o princípio, refutemos aqueles que pensam que o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo é um Deus diferente daquele que deu a Moisés os oráculos da lei, ou que comissionou os profetas, e que é o Deus de nossos pais, Abraão, Isaque e Jacó. Pois neste artigo de fé, antes de tudo, precisamos estar firmemente fundamentados. Devemos considerar, então, a expressão que se repete com frequência nos Evangelhos e vem acrescentada a todos os atos de nosso Senhor e Salvador: “para que se cumprisse o que foi dito por este ou aquele profeta”, sendo manifesto que os profetas são profetas daquele Deus que fez o mundo. Disso, portanto, tiramos a conclusão de que aquele que enviou os profetas predisse ele mesmo o que havia de ser anunciado a respeito de Cristo. E não há dúvida de que o próprio Pai, e não outro diferente dele, pronunciou essas predições. Além disso, o costume do Salvador ou dos seus apóstolos, de citar frequentemente exemplos do Antigo Testamento, mostra que eles atribuem autoridade aos antigos. Também o mandamento do Salvador, quando exortava os seus discípulos à prática da bondade: “Sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês, que está no céu; pois ele manda o seu sol nascer sobre maus e bons e faz vir chuvas sobre justos e injustos” (Mt 5.48, 45), sugere com toda a evidência, até a uma pessoa de entendimento fraco, que ele não propõe à imitação dos seus discípulos outro Deus senão o criador do céu e aquele que dá a chuva. Ainda: o que mais parece indicar a expressão que devem usar os que oram, “Pai nosso, que estás nos céus” (Mt 6.9), senão que Deus deve ser buscado nas partes melhores do mundo, isto é, da sua criação? Além disso, aqueles admiráveis princípios que ele estabelece a respeito dos juramentos, dizendo que não devemos jurar “nem pelo céu, por ser o trono de Deus; nem pela terra, por ser estrado de seus pés” (Mt 5.34-35), não concordam com toda a clareza com as palavras do profeta: “O céu é o meu trono, e a terra é o estrado dos meus pés” (Is 66.1)? E também quando expulsou do templo os que vendiam ovelhas, bois e pombas, derramando as mesas dos cambistas e dizendo: “Tirem estas coisas daqui! Não façam da casa de meu Pai uma casa de negócio!” (Jo 2.16), sem dúvida chamou de seu Pai aquele em cujo nome Salomão havia erguido um templo magnífico. Além disso, as palavras “Vocês não leram o que foi dito por Deus a Moisés: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó? Ele não é Deus de mortos, e sim de vivos” (Mt 22.31-32; cf. Êx 3.6) nos ensinam com toda a clareza que ele chamou o Deus dos patriarcas (porque eles eram santos e estavam vivos) de Deus dos vivos, o mesmo, a saber, que havia dito nos profetas: “Eu sou Deus, e além de mim não há Deus” (Is 45.5-6). Pois se o Salvador, sabendo que aquele que está escrito na lei é o Deus de Abraão, e que é o mesmo que diz “Eu sou Deus, e além de mim não há Deus”, reconhece como seu Pai justamente aquele que ignora a existência de qualquer outro Deus acima de si, como supõem os hereges, então absurdamente declara ser seu Pai aquele que não conhece um Deus maior. Mas, se não é por ignorância, e sim por engano, que ele diz não haver outro Deus além de si, então é um absurdo muito maior confessar que o seu Pai é culpado de falsidade. De tudo isso se chega a esta conclusão: ele não conhece outro Pai senão Deus, o Fundador e Criador de todas as coisas.
2. Seria cansativo recolher de todas as passagens dos Evangelhos as provas pelas quais se mostra que o Deus da lei e o dos Evangelhos é um e o mesmo. Toquemos brevemente nos Atos dos Apóstolos (At 7), onde Estêvão e os outros apóstolos dirigem as suas orações àquele Deus que fez o céu e a terra e que falou pela boca dos seus santos profetas, chamando-o de “Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó”, o Deus que “tirou o seu povo da terra do Egito”. Essas expressões, sem dúvida, dirigem claramente o nosso entendimento à fé no Criador e implantam afeição por ele naqueles que aprenderam a pensar assim a seu respeito, com piedade e fidelidade; conforme as palavras do próprio Salvador, que, quando lhe perguntaram qual era o maior mandamento da lei, respondeu: “Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento. E o segundo, semelhante a este, é: Ame o seu próximo como você ama a si mesmo.” E a estes acrescentou: “Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22.37, 39-40). Como é, então, que ele recomenda àquele a quem instruía, e a quem conduzia a assumir o ofício de discípulo, este mandamento acima de todos os outros, pelo qual sem dúvida se acenderia nele o amor ao Deus daquela lei, visto que assim o havia declarado a lei com estas mesmas palavras? Mas admitamos, apesar de todas essas provas tão evidentes, que é de algum outro Deus desconhecido que o Salvador diz: “Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração” etc. Nesse caso, se a lei e os profetas procedem, como eles dizem, do Criador, isto é, de outro Deus que não aquele que ele chama de bom, como parecerá dito com lógica o que ele acrescenta, a saber, que “destes dois mandamentos dependem a Lei e os Profetas”? Pois como dependerá de Deus aquilo que lhe é estranho e alheio? E quando Paulo diz: “Dou graças ao meu Deus, a quem sirvo em meu espírito desde os meus antepassados, com consciência pura” (2Tm 1.3), mostra claramente que não chegou a algum Deus novo, mas a Cristo. Pois que outros antepassados de Paulo se podem entender, senão aqueles de quem ele diz: “São hebreus? Eu também! São israelitas? Eu também!” (2Co 11.22)? Mais ainda: o próprio início da sua Epístola aos Romanos não mostrará claramente a mesma coisa, a quem sabe entender as cartas de Paulo, isto é, qual Deus ele prega? Pois as suas palavras são: “Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus, que ele havia prometido antes por meio dos seus profetas nas Sagradas Escrituras, a respeito de seu Filho, que, segundo a carne, veio da descendência de Davi e foi declarado Filho de Deus com poder, segundo o espírito de santidade, pela ressurreição dentre os mortos, Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 1.1-4) etc. E também o seguinte: “Não amarre a boca do boi que pisa o trigo. Por acaso Deus está preocupado com bois? Ou não o diz inteiramente por nossa causa? É claro que é por nossa causa que isso está escrito, pois quem lavra deve lavrar com esperança, e quem debulha, com esperança de participar dos frutos” (1Co 9.9-10; cf. Dt 25.4). Com isso ele mostra manifestamente que Deus, que deu a lei por nossa causa, isto é, por causa dos apóstolos, diz: “Não amarre a boca do boi que pisa o trigo”; e o seu cuidado não era com os bois, mas com os apóstolos, que pregavam o evangelho de Cristo. Também em outras passagens, Paulo, abraçando as promessas da lei, diz: “Honre o seu pai e a sua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa, para que tudo corra bem com você e você tenha uma longa vida sobre a terra, a boa terra que o Senhor, seu Deus, lhe dará” (Ef 6.2-3; cf. Êx 20.12). Com isso, sem dúvida, ele dá a conhecer que a lei, o Deus da lei e as suas promessas lhe são agradáveis.
3. Mas, como os que sustentam essa heresia costumam às vezes enganar o coração dos simples com certos sofismas enganosos, não considero impróprio apresentar as afirmações que eles têm o hábito de fazer e refutar o seu engano e a sua falsidade. Eis, então, o que eles declaram. Está escrito: “Ninguém jamais viu Deus” (Jo 1.18). Mas aquele Deus que Moisés prega foi visto tanto pelo próprio Moisés como pelos seus pais antes dele, ao passo que aquele que é anunciado pelo Salvador nunca foi visto por ninguém. Perguntemos, pois, a eles e a nós mesmos se sustentam que aquele que reconhecem como Deus, e que alegam ser um Deus diferente do Criador, é visível ou invisível. E, se disserem que é visível, além de se provar que contrariam a declaração da Escritura, que diz do Salvador: “Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” (Cl 1.15), cairão também no absurdo de afirmar que Deus é corpóreo. Pois nada pode ser visto senão por meio da forma, do tamanho e da cor, que são propriedades específicas dos corpos. E, se se declara que Deus é corpo, então se verá também que é material, visto que todo corpo se compõe de matéria. Mas, se ele se compõe de matéria, e a matéria é sem dúvida corruptível, então, segundo eles, Deus está sujeito à corrupção! Faremos a eles uma segunda pergunta: a matéria é feita ou é incriada, isto é, não feita? E, se responderem que não é feita, isto é, que é incriada, perguntaremos se uma porção da matéria é Deus e a outra parte é o mundo. Mas, se disserem da matéria que é feita, seguirá sem dúvida que confessam ter sido feito aquele que declaram ser Deus! Resultado que certamente nem a razão deles nem a nossa pode admitir. Mas dirão: Deus é invisível. E então, que fará você? Se você disser que ele é invisível por natureza, então nem para o Salvador ele deveria ser visível. Ora, ao contrário, diz-se que Deus, o Pai de Cristo, é visto, porque “quem vê o Filho”, diz ele, “vê também o Pai” (Jo 14.9). Isso certamente nos apertaria muito, se a expressão não fosse entendida por nós, mais corretamente, do entender e não do ver. Pois quem entendeu o Filho entenderá também o Pai. Desse modo, então, também se deve supor que Moisés viu Deus, não contemplando-o com os olhos do corpo, mas entendendo-o com a visão do coração e a percepção da mente, e isso apenas em certa medida. Pois é manifesto que aquele, isto é, o que dava respostas a Moisés, disse: “Você não verá a minha face, mas as minhas costas” (Êx 33.20; cf. 33.23). Essas palavras, naturalmente, devem ser entendidas no sentido místico que convém às palavras divinas, rejeitando-se e desprezando-se aquelas fábulas de velhas que pessoas ignorantes inventam a respeito das partes anteriores e posteriores de Deus. Ninguém suponha, aliás, que nos entregamos a algum sentimento de impiedade ao dizer que nem mesmo para o Salvador o Pai é visível. Considere a distinção que empregamos ao tratar com os hereges. Pois explicamos que uma coisa é ver e ser visto, e outra é conhecer e ser conhecido, ou entender e ser entendido.1 Ver, então, e ser visto é propriedade dos corpos, a qual certamente não se aplicará com propriedade nem ao Pai, nem ao Filho, nem ao Espírito Santo, nas suas relações mútuas. Pois a natureza da Trindade ultrapassa a medida da visão, concedendo aos que estão no corpo, isto é, a todas as demais criaturas, a propriedade de verem uns aos outros. Mas a uma natureza incorpórea e, na maior parte, intelectual, nenhum outro atributo convém senão o de conhecer ou ser conhecida, como o próprio Salvador declara ao dizer: “Ninguém conhece o Filho, a não ser o Pai; e ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11.27). É claro, então, que ele não disse: “Ninguém viu o Pai, a não ser o Filho”, mas: “Ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho”.
4. E agora, se, por causa daquelas expressões que ocorrem no Antigo Testamento, como quando se diz que Deus se irou ou se arrependeu, ou quando se descreve qualquer outro afeto ou paixão humana, (os nossos adversários) pensam estar munidos de argumentos para nos refutar, a nós que sustentamos que Deus é totalmente impassível e deve ser considerado inteiramente livre de todos os afetos dessa espécie, temos de lhes mostrar que afirmações semelhantes se encontram até nas parábolas do evangelho; como quando se diz que aquele que plantou uma vinha e a arrendou a lavradores, os quais mataram os servos que lhes foram enviados e por fim mataram até o filho, tirou-lhes a vinha em sua ira, entregou à destruição os lavradores maus e passou a vinha a outros, que lhe dariam o fruto no tempo certo. E o mesmo se dá com aqueles cidadãos que, quando o senhor da casa partiu para receber para si um reino, enviaram mensageiros após ele, dizendo: “Não queremos que este reine sobre nós” (Lc 19.14); pois o senhor da casa, tendo obtido o reino, voltou e em sua ira mandou que fossem mortos na sua presença e queimou a cidade deles. Mas, quando lemos, seja no Antigo Testamento, seja no Novo, sobre a ira de Deus, não tomamos tais expressões ao pé da letra, mas buscamos nelas um sentido espiritual, para pensarmos de Deus como ele merece que se pense. E sobre esses pontos, ao expor o versículo do segundo salmo, “Então lhes falará na sua ira e no seu furor os perturbará” (Sl 2.5), mostramos, segundo a nossa pobre capacidade, como se deve entender tal expressão.
1. Ora, uma vez que pesa para alguns esta consideração, a de que os líderes daquela heresia (da qual temos falado) pensam ter estabelecido uma espécie de divisão, segundo a qual declararam que a justiça é uma coisa e a bondade outra, e aplicaram essa divisão até às coisas divinas, sustentando que o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo é de fato um Deus bom, mas não justo, ao passo que o Deus da lei e dos profetas é justo, mas não bom, julgo necessário dar uma resposta a essas afirmações, com a maior brevidade possível. Essas pessoas, então, consideram a bondade um afeto tal que quer que se façam benefícios a todos, ainda que quem os recebe seja indigno e não mereça bondade alguma; mas aqui, a meu ver, não aplicaram corretamente a sua definição, visto que pensam que nenhum benefício se faz àquele que é visitado por algum sofrimento ou calamidade. A justiça, por outro lado, eles a veem como aquela qualidade que retribui a cada um segundo os seus méritos. Mas aqui, novamente, não interpretam corretamente o sentido da sua própria definição. Pois pensam que é justo enviar males aos maus e benefícios aos bons; isto é, de modo que, na opinião deles, o Deus justo não parece querer o bem dos maus, mas estar animado de uma espécie de ódio contra eles. E reúnem exemplos disso onde quer que encontrem nas Escrituras do Antigo Testamento uma narrativa que relate, por exemplo, o castigo do dilúvio, ou a sorte dos que são descritos como tendo perecido nele, ou a destruição de Sodoma e Gomorra por uma chuva de fogo e enxofre, ou a queda de todo o povo no deserto por causa dos seus pecados, de modo que nenhum dos que haviam saído do Egito chegou a entrar na terra prometida, com exceção de Josué e Calebe. Do Novo Testamento, ao contrário, reúnem palavras de compaixão e de piedade, pelas quais os discípulos são instruídos pelo Salvador e pelas quais parece declarar-se que ninguém é bom senão somente Deus Pai; e por esse meio ousaram chamar o Pai do Salvador Jesus Cristo de Deus bom, mas dizer que o Deus do mundo é outro, a quem lhes agrada chamar de justo, mas não também de bom.
2. Penso, pois, que em primeiro lugar se deve exigir deles que mostrem, se puderem, de acordo com a sua própria definição, que o Criador é justo ao punir segundo os seus méritos os que pereceram no tempo do dilúvio, ou os habitantes de Sodoma, ou os que haviam saído do Egito, visto que às vezes vemos cometidos crimes mais perversos e detestáveis do que aqueles pelos quais as pessoas acima mencionadas foram destruídas, sem que ainda vejamos cada pecador pagar a pena dos seus delitos. Dirão eles que aquele que antes era justo se tornou bom? Ou serão antes de opinião que ele ainda agora é justo, mas suporta com paciência as ofensas humanas, ao passo que naquele tempo nem sequer era justo, visto que exterminou crianças inocentes e de peito juntamente com gigantes cruéis e ímpios? Ora, essas são as suas opiniões, porque não sabem entender coisa alguma além da letra; do contrário, mostrariam como é justiça, segundo a letra, que os pecados sejam visitados sobre a cabeça dos filhos até a terceira e a quarta geração, e sobre os filhos dos filhos depois deles. Por nós, porém, tais coisas não são entendidas ao pé da letra; mas, como Ezequiel ensinou (Ez 18.3) ao relatar a parábola, investigamos qual é o sentido interior contido na própria parábola. Além disso, eles deveriam explicar também isto: como é justo e retribui a cada um segundo os seus méritos aquele que pune os de mentalidade terrena e o diabo, visto que não fizeram nada digno de castigo. Pois não poderiam fazer bem algum se, segundo eles, fossem de natureza má e perdida. Pois, como o chamam de juiz, ele parece ser juiz não tanto das ações quanto das naturezas; e, se uma natureza má não pode fazer o bem, tampouco uma natureza boa pode fazer o mal. Depois, em seguida, se aquele a quem chamam de bom é bom para todos, ele é sem dúvida bom também para aqueles que estão destinados a perecer. E por que não os salva? Se não quer fazê-lo, já não será bom; se quer e não consegue, não será onipotente. Por que não ouvem antes o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo nos Evangelhos preparando o fogo para o diabo e os seus anjos? E como esse procedimento, tão penal quanto triste, parecerá ser, na opinião deles, obra do Deus bom? O próprio Salvador, o Filho do Deus bom, protesta nos Evangelhos e declara que, “se em Tiro e em Sidom se tivessem operado sinais e prodígios, há muito que elas teriam se arrependido,2 assentadas em pano de saco e cinza” (Mt 11.21; Lc 10.13). E, quando chegou perto dessas mesmas cidades e entrou no seu território, por que, pergunto, ele evita entrar nelas e mostrar-lhes abundância de sinais e prodígios, se era certo que, uma vez realizados, elas teriam se arrependido em pano de saco e cinza? Mas, como não o faz, sem dúvida abandona à destruição aqueles que a linguagem do evangelho mostra não terem sido de natureza má ou perdida, visto que declara que eram capazes de arrependimento. Além disso, numa certa parábola do evangelho, em que o rei entra para ver os convidados reclinados no banquete, ele viu certo indivíduo que não estava vestido com traje de núpcias e lhe disse: “Amigo, como você entrou aqui sem veste nupcial?”, e então ordenou aos seus servos: “Amarrem os pés e as mãos dele e atirem-no para fora, nas trevas; ali haverá choro e ranger de dentes” (Mt 22.12-13). Digam-nos eles quem é aquele rei que entrou para ver os convidados e, encontrando entre eles um com vestes impuras, mandou que os seus servos o amarrassem e o lançassem nas trevas exteriores. É ele o mesmo a quem chamam de justo? Como, então, havia mandado convidar bons e maus indistintamente, sem ordenar aos seus servos que examinassem os méritos deles? Por tal procedimento se indicaria não o caráter de um Deus justo que retribui segundo os méritos dos homens, como eles afirmam, mas o de alguém que mostra uma bondade indiscriminada para com todos. Ora, se isso deve necessariamente ser entendido do Deus bom, isto é, de Cristo ou do Pai de Cristo, que outra objeção podem eles levantar contra a justiça do juízo de Deus? Mais ainda: que outra coisa tão injusta atribuem eles ao Deus da lei como mandar que aquele que tinha sido convidado pelos seus servos, a quem enviara para chamar bons e maus indistintamente, fosse amarrado de pés e mãos e lançado nas trevas exteriores, porque trazia vestes impuras?
3. E agora, o que tiramos da autoridade da Escritura deveria bastar para refutar os argumentos dos hereges. Não parecerá impróprio, porém, discutir a questão com eles brevemente, com base na própria razão. Perguntamos-lhes, então, se sabem o que entre os homens se considera fundamento da virtude e da maldade, e se parece seguir-se que podemos falar de virtudes em Deus, ou, como eles pensam, nesses dois Deuses. Respondam também à pergunta se consideram a bondade uma virtude; e, como sem dúvida admitirão que sim, que dirão da justiça? Certamente nunca serão tão insensatos, a meu ver, a ponto de negar que a justiça é uma virtude. Por conseguinte, se a virtude é um bem, e a justiça é uma virtude, então sem dúvida a justiça é bondade. Mas, se disserem que a justiça não é um bem, ela terá de ser ou um mal ou uma coisa indiferente. Ora, julgo loucura dar qualquer resposta aos que dizem que a justiça é um mal, pois pareceria estar respondendo a palavras sem sentido ou a homens fora de si. Como pode parecer um mal aquilo que é capaz de recompensar os bons com bênçãos, como eles mesmos também admitem? Mas, se disserem que é coisa indiferente, segue-se que, sendo a justiça assim, também a sobriedade, a prudência e todas as outras virtudes são coisas indiferentes. E que resposta daremos a Paulo, quando diz: “Se alguma virtude há e se algum louvor existe, pensem nessas coisas que vocês aprenderam, receberam e ouviram, e que viram em mim” (Fp 4.8-9)? Aprendam, portanto, examinando as santas Escrituras, quais são as virtudes particulares, e não se enganem dizendo que aquele Deus que retribui a cada um segundo os seus méritos paga o mal aos maus por ódio ao mal, e não porque os que pecaram precisam ser tratados com remédios mais severos, e porque ele lhes aplica aquelas medidas que, tendo em vista a melhora, parecem contudo, no presente, produzir um sentimento de dor. Eles não leem o que está escrito a respeito da esperança daqueles que foram destruídos no dilúvio, esperança da qual o próprio Pedro fala assim na sua primeira Epístola: “Cristo, de fato, foi morto na carne, mas vivificado pelo Espírito, no qual foi e pregou aos espíritos que estavam guardados em prisão, os quais outrora foram incrédulos, quando aguardavam a longanimidade de Deus nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca, na qual poucos, isto é, oito almas, foram salvos pela água. A isso corresponde também o batismo, que agora, por semelhante figura, salva vocês” (1Pe 3.18-21). E, quanto a Sodoma e Gomorra, digam-nos se creem que as palavras proféticas são do Deus Criador, daquele, a saber, de quem se relata que fez chover sobre elas uma chuva de fogo e enxofre. Que diz delas o profeta Ezequiel? “Sodoma”, diz ele, “voltará ao seu primeiro estado” (Ez 16.55; cf. 16.53). Mas por que, ao afligir os que merecem castigo, ele não os afligiria para o bem deles? Ele que também diz à Caldeia: “Você tem brasas de fogo; sente-se sobre elas; elas lhe serão de auxílio” (Is 47.14-15).3 E daqueles também que caíram no deserto, ouçam o que se relata no salmo 78, que traz o título de Asafe; pois ele diz: “Quando os fazia morrer, eles o buscavam” (Sl 78.34). Não diz que alguns o buscaram depois que outros foram mortos, mas diz que a destruição dos que foram mortos foi de tal natureza que, ao serem mortos, buscaram a Deus. Por tudo isso fica estabelecido que o Deus da lei e dos Evangelhos é um e o mesmo, um Deus justo e bom, e que ele concede benefícios com justiça e pune com bondade; visto que nem a bondade sem a justiça, nem a justiça sem a bondade, pode exibir a (verdadeira) dignidade da natureza divina.
Acrescentaremos as observações seguintes, às quais as sutilezas deles nos levam. Se a justiça é coisa diferente da bondade, então, uma vez que o mal é o oposto do bem e a injustiça o oposto da justiça, a injustiça será sem dúvida algo diferente de um mal; e, assim como, na opinião de vocês, o justo não é bom, também o injusto não será mau; e, por outro lado, assim como o bom não é justo, também o mau não será injusto. Mas quem não vê o absurdo de que a um Deus bom se oponha um que é mau, ao passo que a um Deus justo, que eles alegam ser inferior ao bom, ninguém se oponha? Pois não há ninguém que possa ser chamado injusto, assim como há um Satanás que é chamado mau. Que faremos, então? Abandonemos a posição que defendemos, pois eles não poderão sustentar que um homem mau não seja também injusto, e um homem injusto, mau. E, se essas qualidades são inseparavelmente inerentes a esses opostos, isto é, a injustiça à maldade, ou a maldade à injustiça, então sem dúvida o homem bom será inseparável do homem justo, e o justo do bom; de modo que, assim como falamos de uma e mesma maldade na malícia e na injustiça, possamos também considerar que a virtude da bondade e a da justiça são uma e a mesma.
4. Eles, porém, nos chamam de volta às palavras da Escritura, apresentando aquela sua célebre questão e afirmando que está escrito: “A árvore má não pode produzir frutos bons; pois pelo fruto se conhece a árvore” (Mt 7.18; cf. 12.33). Qual é, então, a posição deles? Que espécie de árvore é a lei, mostram-no os seus frutos, isto é, a linguagem dos seus preceitos. Pois, se a lei se mostrar boa, então sem dúvida se crê que aquele que a deu é um Deus bom. Mas, se for justa antes que boa, então também Deus será considerado um legislador justo. O apóstolo Paulo não usa rodeios quando diz: “A lei é boa, e o mandamento é santo, justo e bom” (Rm 7.12). Daí fica claro que Paulo não havia aprendido a linguagem dos que separam a justiça da bondade, mas havia sido instruído por aquele Deus, e iluminado pelo seu Espírito, que é ao mesmo tempo santo, bom e justo; e, falando pelo Espírito dele, declarou que o mandamento da lei era santo, justo e bom. E, para mostrar mais claramente que a bondade estava no mandamento em grau maior que a justiça e a santidade, ao repetir as suas palavras usou, em lugar desses três epítetos, só o da bondade, dizendo: “Então, aquilo que é bom se tornou morte para mim? De modo nenhum!” (Rm 7.13). Como sabia que a bondade era o gênero das virtudes, e que a justiça e a santidade eram espécies pertencentes ao gênero, tendo nos versículos anteriores nomeado juntos o gênero e as espécies, ao repetir as suas palavras recorreu só ao gênero. Mas, nos que se seguem, diz: “O pecado, por meio do que é bom, causou-me a morte” (Rm 7.13), em que resume em termos de gênero o que antes havia explicado em termos de espécie. E desse modo também se deve entender a declaração: “O homem bom, do bom tesouro do seu coração, tira coisas boas; e o homem mau, do mau tesouro, tira coisas más” (Mt 12.35). Pois também aqui ele supôs que havia um gênero no bom ou no mau, indicando sem dúvida que no homem bom havia justiça, temperança, prudência, piedade e tudo o que pode ser chamado ou entendido como bom. Do mesmo modo, disse também que é mau o homem que sem dúvida alguma é injusto, impuro, ímpio e tudo aquilo que, um por um, faz um homem mau. Pois, assim como ninguém considera mau um homem sem essas marcas de maldade (nem, de fato, ele pode sê-lo), assim também é certo que sem essas virtudes ninguém será tido por bom. Resta-lhes, porém, aquela palavra do Senhor no evangelho, que eles pensam lhes ter sido dada de modo especial como escudo, a saber: “Ninguém é bom senão um, Deus Pai” (Mt 19.17). Essa palavra, declaram, é própria do Pai de Cristo, o qual, porém, é diferente do Deus que é Criador de todas as coisas, Criador a quem ele não deu nenhum título de bondade. Vejamos agora se, no Antigo Testamento, o Deus dos profetas, Criador e Legislador do mundo, não é chamado bom. Que expressões ocorrem nos Salmos? “Como Deus é bom para com Israel, para com os retos de coração!” (Sl 73.1); e: “Diga agora Israel que ele é bom, que a sua misericórdia dura para sempre” (Sl 118.2); e a linguagem das Lamentações de Jeremias: “O Senhor é bom para os que esperam nele, para a alma que o busca” (Lm 3.25). Assim, pois, como Deus é frequentemente chamado bom no Antigo Testamento, também o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo é chamado justo nos Evangelhos. Enfim, no Evangelho segundo João, o próprio Senhor, orando ao Pai, diz: “Pai justo, o mundo não te conheceu” (Jo 17.25).4 E, para que não digam talvez que foi por ter assumido a carne humana que ele chamou o Criador do mundo de “Pai” e o qualificou de “Justo”, eles são excluídos desse refúgio pelas palavras que se seguem imediatamente: “O mundo não te conheceu”. Ora, segundo eles, o mundo ignora apenas o Deus bom. Pois o mundo sem dúvida reconhece o seu Criador, como diz o próprio Senhor, que o mundo ama o que é seu. Claramente, então, aquele que eles consideram o Deus bom é chamado justo nos Evangelhos. Qualquer um pode, com tempo, reunir um número maior de provas, das passagens em que, no Novo Testamento, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo é chamado justo, e também no Antigo, em que o Criador do céu e da terra é chamado bom; de modo que os hereges, convencidos por numerosos testemunhos, talvez algum dia se envergonhem.
1. Aliud sit videre et videri, et aliud nôsse et nosci, vel cognoscere atque cognosci.
2. Poenitentiam egissent.
3. A Septuaginta difere aqui do hebraico: echeis anthrakas puros, kathisai ep’ autous, houtoi esontai soi boetheia.
4. Juste Pater.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Frederick Crombie (Ante-Nicene Fathers, vol. 4, Buffalo, 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução, feita do latim de Rufino e, nos capítulos III.1 e IV.1, do grego conservado. As notas são do tradutor inglês; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Orígenes cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.