Orígenes, Sobre os Princípios · Livro II
A encarnação de Cristo e a sua alma humana; o Espírito Santo, que é um só nos profetas e nos apóstolos.
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1. É tempo agora, depois desta breve menção desses pontos, de retomarmos a nossa investigação sobre a encarnação de nosso Senhor e Salvador, isto é, como ou por que ele se fez homem. Tendo, pois, segundo a nossa fraca capacidade, considerado a sua natureza divina pela contemplação das suas próprias obras, mais do que pelos nossos próprios sentimentos, e tendo, não obstante, contemplado (com os olhos) a sua criação visível, enquanto a criação invisível é vista pela fé, porque a fragilidade humana não pode nem ver todas as coisas com os olhos do corpo nem compreendê-las pela razão, visto que nós, homens, somos mais fracos e mais frágeis do que quaisquer outros seres racionais (pois os que estão no céu, ou que se supõe existirem acima do céu, são superiores), resta que busquemos um ser intermediário entre todas as coisas criadas e Deus, isto é, um Mediador, a quem o apóstolo Paulo chama “o primogênito de toda a criação” (Cl 1.15). Vendo, além disso, aquelas declarações a respeito da sua majestade que estão contidas na Sagrada Escritura, de que ele é chamado “a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação”, e de que “nele foram criadas todas as coisas, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades; todas as coisas foram criadas por ele e nele; e ele é antes de todas as coisas, e nele tudo subsiste” (Cl 1.16-17); ele, que é a cabeça de todas as coisas, tendo somente a Deus Pai por cabeça, pois está escrito: “Deus é o cabeça de Cristo” (1Co 11.3); vendo também claramente que está escrito: “Ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho, nem ninguém conhece o Filho, a não ser o Pai” (Mt 11.27) (pois quem pode saber o que é a sabedoria, senão aquele que a chamou à existência? Ou quem pode entender claramente o que é a verdade, senão o Pai da verdade? Quem pode investigar com certeza a natureza universal do seu Verbo, e do próprio Deus, natureza que procede de Deus, senão somente Deus, junto de quem estava o Verbo?), devemos ter como certo que este Verbo, ou Razão (se assim se deve chamá-lo), esta Sabedoria, esta Verdade, não é conhecido por nenhum outro senão somente pelo Pai; e dele está escrito: “penso que nem no mundo inteiro caberiam os livros que seriam escritos” (Jo 21.25), a saber, a respeito da glória e da majestade do Filho de Deus. Pois é impossível pôr por escrito (todos) os pormenores que pertencem à glória do Salvador. Depois de considerarmos questões de tamanha importância sobre o ser do Filho de Deus, ficamos perdidos no mais profundo assombro de que uma tal natureza, sobranceira a todas as outras, se tenha despojado da sua condição de majestade, se tenha feito homem e tenha habitado como em tenda entre os homens, como o atesta a graça que foi derramada em seus lábios, como seu Pai celeste lhe deu testemunho e como o confessam os diversos sinais, prodígios e milagres1 que por ele foram realizados; ele que também, antes daquela sua manifestação que se deu no corpo, enviou os profetas como seus precursores e mensageiros da sua vinda; e, depois da sua ascensão ao céu, fez que os seus santos apóstolos, homens ignorantes e iletrados, tirados das fileiras dos cobradores de impostos ou dos pescadores, mas cheios do poder da sua divindade, percorressem o mundo inteiro, para reunirem de toda raça e de toda nação uma multidão de fiéis piedosos que cressem nele.
2. Mas, de todos os atos maravilhosos e poderosos que dele se relatam, este ultrapassa inteiramente a admiração humana e está além do que a fragilidade mortal pode entender ou sentir: como se pode crer que aquele grande poder da majestade divina, aquele mesmo Verbo do Pai e aquela mesma sabedoria de Deus, na qual foram criadas todas as coisas, visíveis e invisíveis, tenha existido dentro dos limites daquele homem que apareceu na Judeia; mais ainda, que a Sabedoria de Deus tenha entrado no ventre de uma mulher, tenha nascido criança e tenha soltado vagidos como o choro das criancinhas! E que depois se conte que ele ficou muito perturbado diante da morte, dizendo, como ele mesmo declarou: “A minha alma está profundamente triste até a morte” (Mt 26.38); e que, por fim, foi levado àquela morte que é tida como a mais vergonhosa entre os homens, embora tenha ressuscitado ao terceiro dia. Visto, então, que vemos nele algumas coisas tão humanas que parecem não diferir em nada da fragilidade comum dos mortais, e algumas coisas tão divinas que não podem pertencer propriamente a nenhuma outra coisa senão à natureza primeira e inefável da Divindade, a estreiteza do entendimento humano não encontra saída; mas, vencida pelo assombro de uma grande admiração, não sabe para onde se retirar, nem a que se apegar, nem para onde se voltar. Se pensa num Deus, vê um mortal; se pensa num homem, contempla-o voltando do sepulcro, depois de derrubar o império da morte, carregado com os seus despojos. E, por isso, o espetáculo deve ser contemplado com todo temor e reverência, para que se mostre claramente que a verdade de ambas as naturezas existe num só e mesmo Ser, de modo que nada de indigno ou inconveniente se perceba naquela substância divina e inefável, nem tampouco se suponha que as coisas que foram feitas sejam ilusões de aparências imaginárias. Dizer essas coisas a ouvidos humanos e explicá-las em palavras ultrapassa em muito as forças, quer da nossa condição, quer do nosso intelecto e da nossa linguagem. Penso que ultrapassa até a capacidade dos santos apóstolos; mais ainda, a explicação desse mistério talvez esteja além do alcance de toda a criação dos poderes celestiais. A respeito dele, então, exporemos, no menor número possível de palavras, o conteúdo da nossa fé, mais do que as afirmações que a razão humana costuma apresentar; e isso não por espírito de temeridade, mas conforme o exige a natureza da nossa exposição, apresentando a vocês antes (o que se pode chamar) as nossas suposições do que quaisquer afirmações claras.
3. O Unigênito de Deus, portanto, por meio de quem, como mostrou o curso anterior da discussão, foram feitas todas as coisas, visíveis e invisíveis, segundo o ensino da Escritura, não só fez todas as coisas como também ama o que fez. Pois, sendo ele mesmo a imagem invisível do Deus invisível, comunicou invisivelmente uma participação em si mesmo a todas as suas criaturas racionais, de modo que cada uma obteve uma parte dele na exata proporção do afeto com que o considerava. Mas, visto que, conforme a faculdade do livre-arbítrio, a variedade e a diversidade caracterizavam as almas individuais, de modo que uma estava ligada com amor mais ardente ao Autor do seu ser, e outra com estima mais fraca e mais débil, aquela alma (anima) a respeito da qual Jesus disse: “Ninguém me tirará a vida (animam)” (Jo 10.18)2, aderindo a ele desde o princípio da criação, e depois, de modo inseparável e indissolúvel, por ser ele a Sabedoria e o Verbo de Deus, a Verdade e a verdadeira Luz, recebendo-o inteiramente e passando para a sua luz e o seu esplendor, tornou-se com ele, em grau eminente3, um só espírito, segundo a promessa do apóstolo àqueles que devem imitá-la: “aquele que se une ao Senhor é um só espírito” (1Co 6.17). Sendo, então, esta substância de uma alma intermediária entre Deus e a carne (pois era impossível que a natureza de Deus se misturasse com um corpo sem um instrumento intermediário), nasce, como dissemos, o Deus-homem, sendo intermediária aquela substância a cuja natureza não era contrário assumir um corpo. Mas tampouco, por outro lado, era contrário à natureza daquela alma, como existência racional, receber Deus, no qual, como se disse acima, como no Verbo, na Sabedoria e na Verdade, ela já havia entrado inteiramente. E, por isso, com razão ela também é chamada, juntamente com a carne que havia assumido, Filho de Deus, Poder de Deus, Cristo e Sabedoria de Deus, seja porque estava inteiramente no Filho de Deus, seja porque recebeu inteiramente em si mesma o Filho de Deus. E, por sua vez, o Filho de Deus, por meio de quem todas as coisas foram criadas, é chamado Jesus Cristo e Filho do homem. Pois também se diz que o Filho de Deus morreu, a saber, com referência àquela natureza que podia admitir a morte; e é chamado Filho do homem aquele que é anunciado como quem há de vir na glória de Deus Pai, com os santos anjos. E, por essa razão, em toda a Escritura, não só se fala da natureza divina em palavras humanas, como também a natureza humana é adornada com nomes de dignidade divina. Com mais verdade, de fato, do que de qualquer outro, se pode afirmar disto: “tornando-se os dois uma só carne. De modo que já não são mais dois, porém uma só carne” (Gn 2.24; cf. Mc 10.8). Pois se deve considerar que o Verbo de Deus está numa só carne com a alma mais do que o homem com a sua mulher. Mas a quem convém mais ser também um só espírito com Deus do que a esta alma, que de tal modo se uniu a Deus pelo amor que com justiça se pode dizer que é um só espírito com ele?
4. Que a perfeição do seu amor e a sinceridade do seu merecido afeto4 formaram para ela esta união inseparável com Deus, de modo que a assunção daquela alma não foi acidental nem fruto de uma preferência pessoal, mas lhe foi concedida como recompensa das suas virtudes, ouça o profeta, que se dirige a ela assim: “Amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de alegria acima dos teus companheiros” (Sl 45.7). Como recompensa do seu amor, então, ela é ungida com o óleo de alegria; isto é, a alma de Cristo, juntamente com o Verbo de Deus, é feita Cristo. Porque ser ungido com o óleo de alegria não significa outra coisa senão ser cheio do Espírito Santo. E, quando se diz “acima dos teus companheiros”, quer-se dizer que a graça do Espírito não lhe foi dada como aos profetas, mas que nela estava a plenitude essencial do próprio Verbo de Deus, segundo o dito do apóstolo: “em quem habitava corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2.9). Por fim, por essa razão ele não disse apenas: “Amaste a justiça”, mas acrescenta: “e odiaste a iniquidade”. Pois ter odiado a iniquidade é o que a Escritura diz dele, que “não cometeu pecado, nem engano algum foi encontrado em sua boca” (Is 53.9), e que “foi tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado” (Hb 4.15). Mais ainda, o próprio Senhor também disse: “Quem de vocês me convence de pecado?” (Jo 8.46). E de novo diz a respeito de si mesmo: “Eis que vem o príncipe deste mundo e nada encontra em mim” (Jo 14.30). Todas essas (passagens) mostram que nele não havia nenhum sentimento de pecado; e, para mostrar mais claramente que nenhum sentimento de pecado jamais havia entrado nele, o profeta diz: “Antes que o menino pudesse ter conhecimento para chamar pai ou mãe, ele se desviou da iniquidade.”5
5. Ora, se o fato de termos mostrado acima que Cristo possuía uma alma racional causar dificuldade a alguém, visto que temos provado com frequência ao longo de todas as nossas discussões que a natureza das almas é capaz tanto do bem como do mal, a dificuldade se explicará da seguinte maneira. Não se pode duvidar de que a natureza da sua alma era, de fato, a mesma que a de todas as outras; do contrário, não poderia ser chamada alma, se não fosse verdadeiramente uma alma. Mas, visto que o poder de escolher o bem e o mal está ao alcance de todos, esta alma que pertencia a Cristo escolheu amar a justiça, de modo que, na proporção da imensidão do seu amor, se apegou a ela imutável e inseparavelmente, de tal sorte que a firmeza do propósito, a imensidão do afeto e um ardor inextinguível de amor destruíram toda suscetibilidade (sensum) à alteração e à mudança; e aquilo que antes dependia da vontade foi transformado em natureza pela força de um longo costume; e assim devemos crer que existiu em Cristo uma alma humana e racional, sem supor que ela tivesse qualquer sentimento ou possibilidade de pecado.
6. Para explicar a questão mais plenamente, não parecerá absurdo servir-nos de uma ilustração, embora, num assunto de tamanha dificuldade, não seja fácil obter ilustrações adequadas. Contudo, se nos é permitido falar sem ofensa, o metal ferro é capaz de frio e de calor. Se, então, uma massa de ferro for mantida constantemente no fogo, recebendo o calor por todos os seus poros e veios, e, sendo o fogo contínuo e o ferro nunca retirado dele, ela se converter inteiramente nele, poderíamos de algum modo dizer desta, que por natureza é uma massa de ferro, que, posta no fogo e ardendo sem cessar, fosse em algum momento capaz de admitir o frio? Ao contrário, por ser mais conforme à verdade, não diríamos antes, como vemos acontecer muitas vezes nas fornalhas, que ela se tornou inteiramente fogo, visto que nada além do fogo se vê nela? E, se alguém tentasse tocá-la ou manuseá-la, sentiria a ação não do ferro, mas do fogo. Deste modo, então, aquela alma que, como um ferro no fogo, foi posta perpetuamente no Verbo, perpetuamente na Sabedoria e perpetuamente em Deus6, é Deus em tudo o que faz, sente e entende, e por isso não pode ser chamada nem convertível nem mutável, visto que, sendo aquecida sem cessar, possuía a imutabilidade pela sua união com o Verbo de Deus. Por fim, deve-se supor que a todos os santos passou algum calor do Verbo de Deus; e deve-se crer que nesta alma repousou o próprio fogo divino, do qual algum calor pode ter passado aos outros. Por último, a expressão “Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de alegria acima dos teus companheiros” (Sl 45.7) mostra que aquela alma é ungida de um modo com o óleo de alegria, isto é, com o Verbo de Deus e a sabedoria, e os seus companheiros, isto é, os santos profetas e apóstolos, de outro. Pois deles se diz que “correram no odor dos seus unguentos”7; e aquela alma era o vaso que continha aquele mesmo unguento de cuja fragrância todos os profetas e apóstolos dignos se tornaram participantes. Assim, então, como a substância de um unguento é uma coisa e o seu odor é outra, assim também Cristo é uma coisa e os seus companheiros são outra. E, assim como o próprio vaso que contém a substância do unguento de modo nenhum pode admitir mau cheiro, ao passo que aqueles que desfrutam do seu odor podem, se se afastarem um pouco da sua fragrância, receber qualquer mau odor que lhes sobrevenha, assim, do mesmo modo, era impossível que Cristo, sendo como que o próprio vaso em que estava a substância do unguento, recebesse um odor de espécie contrária, ao passo que aqueles que são os seus “companheiros” serão participantes e recebedores do seu odor na proporção da sua proximidade do vaso.
7. Penso, de fato, que também o profeta Jeremias, entendendo qual era a natureza da sabedoria de Deus nele, que era a mesma que ele havia assumido para a salvação do mundo, disse: “O sopro do nosso rosto é Cristo, o Senhor, de quem dissemos que debaixo da sua sombra viveremos entre as nações” (Lm 4.20). E, visto que a sombra do nosso corpo é inseparável do corpo e executa e repete inevitavelmente os seus movimentos e gestos, penso que ele, querendo indicar a obra da alma de Cristo e os movimentos que lhe pertencem inseparavelmente, e que realizavam tudo segundo os movimentos e a vontade dele, chamou a isto a sombra de Cristo, o Senhor, sob a qual sombra havíamos de viver entre as nações. Pois no mistério desta assunção vivem as nações, que, imitando-a pela fé, chegam à salvação. Também Davi, quando diz: “Lembra-te, Senhor, do meu opróbrio, com que me afrontaram em troca do teu Cristo” (Sl 89.50-51), parece-me indicar o mesmo. E que outra coisa quer dizer Paulo quando diz: “a vida de vocês está oculta juntamente com Cristo, em Deus” (Cl 3.3); e de novo, em outra passagem: “Vocês buscam provas de Cristo, que fala em mim?” (2Co 13.3). E agora diz que Cristo estava oculto em Deus. O sentido dessa expressão, a menos que se mostre ser algo tal como o que indicamos acima como pretendido pelo profeta nas palavras “sombra de Cristo”, ultrapassa talvez a compreensão da mente humana. Mas vemos também muitíssimas outras declarações na Sagrada Escritura a respeito do sentido da palavra “sombra”, como aquela bem conhecida no Evangelho segundo Lucas, em que Gabriel diz a Maria: “O Espírito do Senhor virá sobre você, e o poder do Altíssimo a envolverá com a sua sombra” (Lc 1.35). E o apóstolo diz, com referência à lei, que os que têm a circuncisão na carne “ministram em figura e sombra das coisas celestiais” (Hb 8.5). E em outro lugar: “Não é a nossa vida sobre a terra uma sombra?” (Jó 8.9). Se, então, não só a lei que está sobre a terra é uma sombra, mas também toda a nossa vida que está sobre a terra é o mesmo, e vivemos entre as nações sob a sombra de Cristo, devemos ver se a verdade de todas essas sombras não virá a ser conhecida naquela revelação, quando, já não por espelho e em enigma, mas face a face, todos os santos merecerem contemplar a glória de Deus e as causas e a verdade das coisas. E, tendo já recebido o penhor desta verdade por meio do Espírito Santo, o apóstolo disse: “se antes conhecemos Cristo segundo a carne, já agora não o conhecemos deste modo” (2Co 5.16).
Estes são, por ora, os pensamentos que nos ocorreram ao tratarmos de assuntos de tamanha dificuldade como a encarnação e a divindade de Cristo. Se houver alguém, de fato, que possa descobrir algo melhor e que possa firmar as suas afirmações com provas mais claras tiradas das Sagradas Escrituras, que a opinião dele seja recebida de preferência à minha.
1. Assim, então, como depois daquelas primeiras discussões que, conforme as exigências do caso, mantivemos no princípio a respeito do Pai, do Filho e do Espírito Santo, pareceu-nos justo retroceder e mostrar que o mesmo Deus era o criador e fundador do mundo e o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, isto é, que o Deus da lei, dos profetas e do Evangelho era um só e o mesmo; e como, em seguida, se devia mostrar, com respeito a Cristo, de que maneira aquele que antes fora demonstrado ser o Verbo e a Sabedoria de Deus se fez homem, resta que voltemos agora, com toda a brevidade possível, ao tema do Espírito Santo.
É tempo, então, de dizermos algumas palavras, segundo a nossa capacidade, a respeito do Espírito Santo, a quem nosso Senhor e Salvador, no Evangelho segundo João, chamou o Paráclito. Pois, assim como é o mesmo Deus e o mesmo Cristo, assim também é o mesmo Espírito Santo que esteve nos profetas e nos apóstolos, isto é, quer naqueles que creram em Deus antes da vinda de Cristo, quer naqueles que, por meio de Cristo, buscaram refúgio em Deus. Ouvimos, de fato, que certos hereges ousaram dizer que há dois Deuses e dois Cristos, mas nunca soubemos que alguém tenha pregado a doutrina de dois Espíritos Santos.8 Pois como poderiam sustentá-lo com base na Escritura, ou que distinção poderiam estabelecer entre Espírito Santo e Espírito Santo, se é que se pode descobrir alguma definição ou descrição do Espírito Santo? Pois, ainda que concedêssemos a Marcião ou a Valentino que é possível traçar distinções na questão da Divindade e descrever a natureza do Deus bom como uma e a do Deus justo como outra, que inventará ele, ou que descobrirá, que lhe permita introduzir uma distinção no Espírito Santo? Considero, então, que não são capazes de descobrir nada que indique uma distinção de qualquer espécie que seja.
2. Ora, somos de opinião que toda criatura racional, sem nenhuma distinção, recebe participação nele do mesmo modo que na Sabedoria e no Verbo de Deus. Observo, contudo, que a principal vinda do Espírito Santo é declarada aos homens depois da ascensão de Cristo ao céu, mais do que antes da sua vinda ao mundo. Pois, antes disso, era somente sobre os profetas e sobre uns poucos indivíduos (se acaso havia alguns no povo que o merecessem) que se conferia o dom do Espírito Santo; mas, depois da vinda do Salvador, está escrito que se cumpriu a predição do profeta Joel: “Nos últimos dias acontecerá que derramarei o meu Espírito sobre toda carne, e profetizarão” (Jl 2.28), o que é semelhante à conhecida declaração: “Todas as nações o servirão” (Sl 72.11). Pela graça, então, do Espírito Santo, juntamente com numerosos outros resultados, demonstra-se claramente esta gloriosíssima consequência: no que diz respeito às coisas que estavam escritas nos profetas ou na lei de Moisés, eram somente poucas pessoas naquele tempo, a saber, os próprios profetas, e quase nenhum outro indivíduo de toda a nação, que conseguiam olhar além do mero sentido corporal e descobrir algo maior, isto é, algo espiritual, na lei ou nos profetas; mas agora há multidões incontáveis de fiéis que, embora não sejam capazes de expor com método e clareza os resultados do seu entendimento espiritual9, estão, não obstante, firmissimamente persuadidos de que não se deve entender literalmente nem a circuncisão, nem o descanso do sábado, nem o derramamento do sangue de um animal, nem que Deus tenha dado respostas a Moisés sobre esses pontos. E esse modo de compreender é, sem dúvida, sugerido à mente de todos pelo poder do Espírito Santo.
3. E, assim como há muitos modos de compreender Cristo, que, embora seja a sabedoria, não age como sabedoria nem exerce o poder da sabedoria em todos os homens, mas somente naqueles que se dedicam ao estudo da sabedoria nele; e que, embora chamado médico, não age como tal para com todos, mas somente para com aqueles que entendem a sua condição fraca e enferma e se refugiam na sua compaixão para obter a saúde; assim também penso que acontece com o Espírito Santo, em quem está contido todo gênero de dons. Pois a uns é concedida pelo Espírito a palavra de sabedoria, a outros a palavra de conhecimento, a outros a fé; e assim, para cada um daqueles que são capazes de recebê-lo, o próprio Espírito se torna essa qualidade, ou é entendido como aquilo de que necessita o indivíduo que mereceu participar dele.10 Não percebendo essas divisões e diferenças, aqueles que o ouvem chamado Paráclito no Evangelho, e não considerando devidamente em consequência de que obra ou ato ele é chamado Paráclito, compararam-no a quaisquer espíritos comuns e, por esse meio, tentaram perturbar as Igrejas de Cristo e assim suscitar dissensões de não pequena extensão entre os irmãos; ao passo que o Evangelho o mostra de tal poder e majestade que diz que os apóstolos ainda não podiam receber as coisas que o Salvador desejava ensinar-lhes até a vinda do Espírito Santo, que, derramando-se nas suas almas, havia de iluminá-los sobre a natureza e a fé da Trindade. Mas essas pessoas, por causa da ignorância do seu entendimento, não só são incapazes de expor logicamente a verdade, como nem sequer conseguem dar atenção ao que é apresentado por nós; e, tendo ideias indignas da sua divindade, entregaram-se a erros e enganos, depravadas por um espírito de erro, em vez de instruídas pelo ensino do Espírito Santo, segundo a declaração do apóstolo: “Seguindo a doutrina de demônios, proibindo o casamento, para destruição e ruína de muitos, e mandando abster-se de alimentos, para que, por uma exibição ostentosa de observância mais rigorosa, seduzam as almas dos inocentes” (1Tm 4.1-3).
4. Devemos, portanto, saber que o Paráclito é o Espírito Santo, que ensina verdades que não podem ser expressas em palavras e que são, por assim dizer, inexprimíveis, e “que não é lícito ao homem referir” (2Co 12.4), isto é, que não podem ser indicadas pela linguagem humana. A expressão “não é lícito” é usada pelo apóstolo, a nosso ver, em lugar de “não é possível”, como também acontece na passagem em que ele diz: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm; todas as coisas me são lícitas, mas nem todas edificam” (1Co 10.23). Pois as coisas que estão em nosso poder, porque podemos tê-las, ele diz que nos são lícitas. Mas o Paráclito, que é chamado Espírito Santo, é assim chamado por sua obra de consolação, pois paraclesis se diz em latim consolatio. Pois, se alguém mereceu participar do Espírito Santo pelo conhecimento dos seus mistérios inefáveis, sem dúvida obtém conforto e alegria de coração. Porque, chegando pelo ensino do Espírito ao conhecimento das razões de todas as coisas que acontecem (como ou por que ocorrem), a sua alma não pode de modo algum ser perturbada nem admitir sentimento algum de tristeza; nem se assusta com coisa alguma, visto que, apegando-se ao Verbo de Deus e à sua sabedoria, chama Jesus de Senhor por meio do Espírito Santo. E, uma vez que fizemos menção do Paráclito e explicamos, como pudemos, que sentimentos se devem ter a respeito dele; e uma vez que também o nosso Salvador é chamado Paráclito na Epístola de João, quando diz: “Se algum de nós pecar, temos um Paráclito junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo, e ele é a propiciação pelos nossos pecados” (1Jo 2.1-2), consideremos se acaso este termo Paráclito terá um sentido quando aplicado ao Salvador e outro quando aplicado ao Espírito Santo. Ora, Paráclito, quando dito do Salvador, parece significar intercessor. Pois em grego Paráclito tem ambos os significados, o de intercessor e o de consolador. Por causa, então, da frase que se segue, quando diz: “E ele é a propiciação pelos nossos pecados”, o nome Paráclito parece ser entendido, no caso de nosso Salvador, no sentido de intercessor; pois se diz que ele intercede junto ao Pai por causa dos nossos pecados. No caso do Espírito Santo, o Paráclito deve ser entendido no sentido de consolador, visto que ele concede consolação às almas às quais revela abertamente a compreensão do conhecimento espiritual.
1. Virtutibus, provavelmente por dynamesin.
2. “Nenhuma outra alma que desceu a um corpo humano imprimiu em si mesma uma semelhança pura e sem mancha da sua marca anterior, a não ser aquela de que o Salvador diz: ‘Ninguém tirará de mim a minha alma, mas eu a dou por mim mesmo’.” Jerônimo, Carta a Ávito, p. 763.
3. Principaliter.
4. Meriti affectus.
5. Esta citação é composta de duas partes diferentes de Isaías: Is 8.4, “antes que o menino saiba dizer ‘papai’ ou ‘mamãe'”; e Is 7.16, “antes que este menino saiba desprezar o mal e escolher o bem”.
6. Semper in verbo, semper in sapientia, semper in Deo.
7. Illi enim in odore unguentorum ejus circumire dicuntur; talvez uma alusão a Ct 1.3 ou a Sl 45.8.
8. Segundo Pânfilo, na sua Apologia, Orígenes, numa nota sobre Tt 3.10, fez uma afirmação contrária a esta. Suas palavras são: “Mas há também alguns que dizem que um foi o Espírito Santo que esteve nos profetas e outro o que esteve nos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo.” Ruæus.
9. Qui licet non omnes possint per ordinem atque ad liquidum spiritualis intelligentiæ explanare consequentiam.
10. Ita per singulos, qui eum capere possunt, hoc efficitur, vel hoc intelligitur ipse Spiritus, quo indiget ille, qui eum participare meruerit. Schnitzer traduz: “E assim, em cada um que é suscetível deles, o Espírito é exatamente aquilo de que o recebedor mais necessita.”
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Frederick Crombie (Ante-Nicene Fathers, vol. 4, Buffalo, 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução, feita do latim de Rufino e, nos capítulos III.1 e IV.1, do grego conservado. As notas são do tradutor inglês; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Orígenes cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.