Walker, História da Igreja Cristã · Período I
III. Jesus e os discípulos; IV. As comunidades cristãs palestinenses; V. Paulo e o cristianismo gentílico; VI. O fim da era apostólica.
O caminho de Jesus foi preparado por João Batista, no pensamento dos primeiros cristãos o “precursor” do Messias. Asceta no modo de viver, ele pregava na região do Jordão que o dia do juízo sobre Israel estava próximo e que o Messias estava para vir; e, desprezando todo formalismo na religião e toda confiança na descendência de Abraão, proclamava, no espírito dos antigos profetas, a mensagem deles: “arrependam-se, pratiquem a justiça”. Suas orientações às várias classes de ouvintes eram simples e inteiramente alheias ao legalismo (Lc 3.2-14; Mt 3.1-12). Batizava seus discípulos como sinal da lavagem dos seus pecados; ensinou-lhes uma oração especial. Jesus o classificou como o último e um dos maiores profetas. Embora muitos de seus seguidores tenham passado a seguir Jesus, alguns persistiram de modo independente e ainda podiam ser encontrados no tempo do ministério de Paulo em Éfeso (At 19.1-4).
Embora faltem materiais para uma biografia completa de Jesus, como a que se poderia ter no caso de alguém que vivesse nos tempos modernos, eles são inteiramente suficientes para determinar o seu modo de vida, o seu caráter e o seu ensino, ainda que muitos pontos sobre os quais se desejaria mais luz permaneçam na obscuridade. Ele se destaca com clareza em todas as suas qualidades essenciais. Foi criado em Nazaré da Galileia, no ambiente simples da casa de um carpinteiro. A região, embora desprezada pelos habitantes de linhagem judaica mais pura da Judeia por causa de uma considerável mistura de raças, era fiel à religião e às tradições hebraicas, terra de uma população robusta e cheia de dignidade, e particularmente impregnada da esperança messiânica. Ali Jesus cresceu até a idade adulta, ao longo de anos de experiência não registrada, que, a julgar pelo seu ministério posterior, devem ter sido também de profunda percepção espiritual e de “graça, diante de Deus e dos homens” (Lc 2.52).
Dessa vida tranquila ele foi tirado pela pregação de João Batista. Foi até ele e por ele foi batizado no Jordão. Em ligação com esse batismo veio-lhe a convicção de que ele era o Messias da esperança judaica, o escolhido de Deus, o fundador designado do reino divino. Uma luta contra tentações de interpretar esse messiado nos termos da expectativa judaica comum resultou em sua rejeição, como indignos, de todos os métodos políticos ou interesseiros para realizá-lo, e na convicção inabalável de que a sua liderança messiânica era puramente espiritual e o reino era unicamente um reino de Deus. Começou imediatamente a pregar o reino e a curar os aflitos na Galileia, e logo teve grande seguimento popular. Reuniu à sua volta um grupo de companheiros íntimos, os apóstolos, e um grupo maior de discípulos ligados a ele de modo menos estreito. Quanto tempo durou o seu ministério é incerto; de um a três anos cobrirão sua duração possível. Levantou-se oposição à medida que a natureza espiritual da sua mensagem se tornava evidente e que se reconhecia a sua hostilidade ao farisaísmo corrente. Muitos de seus primeiros seguidores se afastaram. Ele viajou para o norte, em direção a Tiro e Sidom, e depois para a região de Cesareia de Filipe, onde obteve de seus discípulos o reconhecimento da sua missão messiânica. Sentiu, porém, que, a qualquer risco, precisava dar testemunho em Jerusalém, e para lá foi com coragem heroica, diante de uma hostilidade crescente, para ali ser preso e crucificado, certamente sob Pôncio Pilatos (26-36 d.C.) e provavelmente no ano 30. Seus discípulos se dispersaram, mas logo se reuniram outra vez, com coragem renovada, na alegre convicção de que ele ainda vivia, tendo ressuscitado dentre os mortos. Tal é, no mais simples esboço, a história da vida mais influente que jamais se viveu. A marca tremenda da sua personalidade se fazia sentir em toda parte.
Ao tratar, ainda que brevemente, do ensino e da obra de Jesus, é preciso reconhecer, como Harnack observou, que temos desde o início um Evangelho duplo: um Evangelho de Jesus, isto é, os seus ensinos; e um Evangelho sobre Jesus, isto é, a impressão que ele causou em seus discípulos quanto ao que ele era. Ele começou com o que eram os melhores bens do judaísmo contemporâneo, o reino de Deus e a esperança messiânica. Estes haviam sido o centro da mensagem de João. O que há de misterioso na experiência de Jesus é que ele se sentia o Messias e, até onde se pode julgar, essa convicção não era fruto de dedução. Era uma consciência clara. Ele se sabia o fundador messiânico do reino de Deus. Contudo, esse reino não era terreno, macabeu. Foi sempre espiritual. Mas a sua concepção dele se ampliou. A princípio parece tê-lo considerado apenas para os judeus (Mc 7.27; Mt 10.5-7; 15.24). Com o tempo, a sua concepção da abrangência do reino cresceu, e ele ensinou não só que muitos “virão do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul” (Lc 13.29), mas que o próprio reino seria tirado dos judeus incrédulos (Mc 12.1-12). Jesus se considerava, em grau singular, amigo dos filhos e filhas do reino que o farisaísmo havia deserdado: os marginalizados, os publicanos, as prostitutas e os pobres. O arrependimento deles tinha valor aos olhos de Deus.
O reino de Deus, no ensino de Jesus, implica o reconhecimento da soberania e da paternidade de Deus. Somos seus filhos. Por isso devemos amá-lo e amar o próximo (Mc 12.28-34). Todos a quem podemos ajudar são nosso próximo (Lc 10.25-37). Não amamos assim agora. Por isso precisamos nos arrepender, com tristeza pelo pecado, e voltar-nos para Deus; e a essa atitude de tristeza e confiança (arrependimento e fé) segue-se o perdão divino (Lc 15.11-32). O padrão ético do reino é o mais elevado que se pode conceber: “Portanto, sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês, que está no céu” (Mt 5.48). Ele exige o máximo rigor para consigo mesmo (Mc 9.43-50) e perdão ilimitado para com os outros (Mt 18.21-22). Perdoar os outros é condição necessária para que Deus nos perdoe (Mc 11.25-26). Há dois caminhos na vida: um largo e fácil, o outro estreito e difícil. Uma vida futura bem-aventurada ou a destruição são os seus fins (Mt 7.13-14). Jesus, como a sua época, tinha uma perspectiva fortemente escatológica. Embora sentisse que o reino já começou agora (Mc 4.1-32; Lc 17.21), ele haveria de se manifestar com muito mais poder num futuro próximo. O fim da era presente não parecia distante (Mt 10.23; 19.28; 24.34; Mc 13.30).
A maior parte dessas ideias e dessas palavras pode, sem dúvida, encontrar paralelos no pensamento religioso da época; mas o efeito total foi revolucionário. Ele “os ensinava como alguém que tem autoridade e não como os escribas” (Mc 1.22). Podia dizer que o menor de seus discípulos é maior do que João Batista (Mt 11.11) e que o céu e a terra passariam antes das suas palavras (Mc 13.31). Chamou a si os sobrecarregados e lhes ofereceu descanso (Mt 11.28). Prometeu aos que o confessassem diante dos homens que ele os confessaria diante de seu Pai (Mt 10.32). Declarou que ninguém conhecia o Pai senão um Filho e aquele a quem o Filho revelasse o Pai (Mt 11.27; Lc 10.22). Proclamou-se senhor do sábado (Mc 2.23-28), a parte mais sagrada, na estima popular, da lei judaica dada por Deus. Afirmou ter poder para declarar o perdão dos pecados (Mc 2.1-11). Por outro lado, sentia com não menos clareza a sua própria humanidade e as limitações dela. Orava e ensinou seus discípulos a orar. Declarou que não sabia o dia nem a hora do fim da presente era do mundo; isso só o Pai sabia (Mc 13.32). Não lhe cabia determinar quem se sentaria à sua direita e à sua esquerda na sua exaltação (Mc 10.40). Orou para que se fizesse a vontade do Pai, e não a sua (Mc 14.36). Clamou na agonia da cruz: “Deus meu, por que me desamparaste?” (Mc 15.34). O mistério da sua pessoa está nessas palavras. A sua divindade não é menos evidente do que a sua humanidade. O como está além da nossa experiência e, portanto, além da nossa capacidade de compreensão; mas a igreja sempre se ocupou desse problema, e muitas vezes, na prática, enfatizou um lado com exclusão do outro.
Jesus substituiu a religião exterior, cerimonial e baseada na justiça das obras do judaísmo contemporâneo pela ideia de que a piedade consiste no amor a Deus e ao próximo (a um Deus que é Pai e a um próximo que é irmão), manifestado antes de tudo numa atitude do coração e da vida interior, cujo fruto são os atos exteriores. A força motriz dessa vida é a lealdade pessoal a ele mesmo, como revelação do Pai, modelo da humanidade redimida, Irmão mais velho e Rei do reino de Deus.
O que Jesus ensinou e o que ele foi ganhou significado imenso pela convicção de seus discípulos de que a sua morte não fora o fim, isto é, pela fé na ressurreição. O como dessa convicção é um dos problemas históricos mais intrigantes. O fato dessa convicção é inquestionável. Ela parece ter vindo primeiro a Pedro (1Co 15.5), que foi, ao menos nesse sentido, o apóstolo “pedra” sobre o qual a igreja foi fundada. Todos os primeiros discípulos a compartilharam. Ela foi o ponto decisivo na conversão de Paulo. Deu coragem aos discípulos dispersos, reuniu-os de novo e fez deles testemunhas. Dali em diante eles tinham um Senhor ressuscitado, na exaltação da glória, mas sempre interessado neles. O Messias da esperança judaica, numa realidade espiritual mais profunda do que o judaísmo jamais o imaginara, tinha realmente vivido, morrido e ressuscitado para a salvação deles.
Essas convicções foram aprofundadas pelas experiências do dia de Pentecostes. A natureza exata da manifestação pentecostal talvez seja impossível de recuperar. Certamente a ideia de uma proclamação do Evangelho em muitas línguas estrangeiras não se harmoniza com o que sabemos do falar em línguas em outros lugares (cf. 1Co 14.2-19), nem com a crítica, registrada pelo autor de Atos, de que eles estavam bêbados (At 2.13), crítica que Pedro julgou digna de resposta. Mas o ponto significativo é que essas manifestações espirituais pareciam a prova visível e audível do dom e do poder de Cristo (At 2.33). Para aqueles primeiros cristãos, era a inauguração triunfante de uma relação com o Senhor vivo, e a confiança nessa relação governou boa parte do pensamento da Igreja apostólica. Se o discípulo reconhecia visivelmente a sua lealdade pela fé, pelo arrependimento e pelo batismo, o Cristo exaltado, assim se cria, por sua vez reconhecia o discípulo de modo não menos evidente pelo dom do Espírito. O Pentecostes foi de fato um dia do Senhor; e, embora dificilmente se possa chamá-lo de dia do nascimento da igreja, pois esta teve os seus começos na convivência de Jesus com os discípulos, ele marcou época na proclamação do Evangelho, na convicção dos discípulos sobre a presença de Cristo e no aumento dos adeptos da nova fé.
A comunidade cristã de Jerusalém parece ter crescido rapidamente. Logo passou a incluir judeus que haviam vivido na dispersão, além de naturais da Galileia e da Judeia, e até alguns sacerdotes hebreus. Muito cedo o corpo cristão adotou o nome de “igreja”. A designação vem da tradução do Antigo Testamento chamada Septuaginta, onde fora empregada para indicar todo o povo de Israel como congregação chamada por Deus. Como tal, era um título apropriado para o verdadeiro Israel, o verdadeiro povo de Deus, e assim os primeiros cristãos se sentiam. O primitivo grupo de Jerusalém era fiel na frequência ao templo e na obediência à lei judaica, mas, além disso, tinha os seus próprios cultos especiais entre si, com oração, exortação mútua e “partir do pão” diariamente nas casas particulares (At 2.46). Esse “partir do pão” servia a um duplo propósito. Era um laço de comunhão e um meio de sustento para os necessitados. A expectativa da vinda breve do Senhor fazia do grupo de Jerusalém uma congregação em espera, na qual o sustento dos menos abastados era provido pelas ofertas dos que tinham mais recursos, de modo que eles “tinham tudo em comum” (At 2.44). O ato, porém, era muito mais do que isso. Era uma continuação e uma lembrança da última ceia do Senhor com os seus discípulos antes da crucificação. Tinha, portanto, desde o início, um significado sacramental.
A organização era muito simples. A liderança da congregação de Jerusalém foi a princípio a de Pedro e, em grau menor, a de João. A eles estava associado em destaque todo o grupo apostólico, embora se possa duvidar de que formassem um conselho dirigente tão completo quanto a tradição afirmava na época em que Atos foi escrito. Questões surgidas da distribuição de auxílio aos necessitados resultaram na nomeação de uma comissão de sete (At 6.1-6), mas não se sabe se essa medida foi a origem do diaconato ou um expediente temporário para atender a uma situação particular. O máximo que se pode dizer é que os deveres assim confiados se assemelhavam aos que mais tarde os diáconos desempenhavam nas igrejas gentílicas. Num período ainda antigo, embora um pouco posterior, são mencionados “anciãos” (πρεσβύτεροι) (At 11.30), mas é impossível determinar se eram simplesmente os membros mais velhos da igreja (como At 15.23 poderia sugerir) ou oficiais (At 14.23) não improvavelmente moldados segundo os da sinagoga judaica.
A congregação de Jerusalém estava cheia da esperança messiânica, ao que parece, a princípio, numa forma mais rudimentar e menos espiritual do que a que Jesus havia ensinado (cf. At 1.6). Era devotada em sua lealdade ao Cristo, que logo voltaria, mas “ao qual é necessário que o céu receba até os tempos da restauração de todas as coisas” (At 3.21). Entendia que a salvação se obtinha pelo arrependimento, o que incluía tristeza tanto pelo pecado nacional de rejeitar Jesus como Messias quanto pelos pecados pessoais. A esse arrependimento e reconhecimento de lealdade seguia-se o batismo em nome de Cristo, como sinal de purificação e marca de uma nova relação, e ele era selado com a aprovação divina pela concessão dos dons espirituais (At 2.38). Essa pregação de Jesus como o verdadeiro Messias, e o temor de que dela resultasse o desprezo pelo ritual histórico, levaram a um ataque por parte de judeus helenistas farisaicos, que resultou na morte do primeiro mártir cristão, Estêvão, apedrejado por uma turba. A consequência imediata foi uma dispersão parcial da congregação de Jerusalém, de modo que as sementes do cristianismo foram lançadas por toda a Judeia, em Samaria e até em regiões tão afastadas como Cesareia, Damasco, Antioquia e a ilha de Chipre. Dos apóstolos originais, o único que com certeza exerceu considerável atividade missionária foi Pedro, embora a tradição atribua tais trabalhos a todos eles. João também pode ter se dedicado a esse esforço, embora a história posterior desse apóstolo seja muito discutida.
A relativa paz que se seguiu ao martírio de Estêvão foi quebrada para a igreja de Jerusalém por uma perseguição muito mais severa, por volta de 44 d.C., instigada por Herodes Agripa I, que de 41 até a sua morte, em 44, foi rei vassalo sobre os antigos territórios de Herodes, o Grande. Pedro foi preso, mas escapou da morte, e o apóstolo Tiago foi decapitado. Em ligação com a dispersão que se seguiu a essa perseguição se encontra provavelmente o que houver de verdade na tradição de que os apóstolos deixaram Jerusalém doze anos depois da crucificação. Seja como for, Pedro parece ter estado ali só ocasionalmente dali em diante; e a liderança da igreja de Jerusalém coube a Tiago, “o irmão do Senhor”, que já antes se tornara destacado nos assuntos dela (Gl 1.19; 2.9; At 21.18). Essa posição, que ele ocupou até a sua morte como mártir por volta de 63, tem sido muitas vezes chamada de “bispado” e, sem dúvida, correspondia em muitos aspectos ao bispado monárquico das igrejas gentílicas. Não há prova, porém, de que o termo “bispo” tenha sido aplicado a Tiago durante a sua vida. Quando se recordam as sucessões de liderança religiosa entre os povos semitas, especialmente a importância atribuída ao parentesco com o fundador, parece muito mais provável que houvesse aqui um califado rudimentar. Essa interpretação se torna ainda mais provável porque o sucessor de Tiago na liderança da igreja de Jerusalém, embora só tenha sido escolhido depois da conquista da cidade por Tito, em 70, foi Simeão, tido por parente de Jesus.
Sob a liderança de Tiago, a igreja de Jerusalém abrangia dois partidos, ambos de acordo em que a antiga lei de Israel obrigava os cristãos de raça judaica, mas divergentes quanto a saber se ela regulava igualmente os cristãos convertidos do paganismo. Uma ala a tinha como obrigatória para todos; a outra, da qual Tiago era representante, estava disposta a conceder aos cristãos gentios a liberdade em relação à lei, embora visse com desagrado aquela mistura de judeus e gentios a uma mesa comum que Pedro estava disposto a acolher, ao menos por algum tempo (Gl 2.12-16). A catástrofe que pôs fim à rebelião judaica no ano 70 foi fatal, porém, para todas as comunidades cristãs da Palestina, ainda que a de Jerusalém tenha escapado pela fuga aos perigos do cerco. A derrota ainda maior das esperanças judaicas sob Adriano, na guerra de 132 a 135, deixou do cristianismo palestinense um fraco remanescente. Já antes da primeira tomada da cidade, focos mais influentes de influência cristã se encontravam em outras partes do império. A igreja de Jerusalém e as comunidades palestinenses a ela associadas foram importantes como a fonte de onde o cristianismo primeiro brotou e por terem garantido a preservação de muitas lembranças da vida e das palavras de Jesus que de outro modo se teriam perdido, mais do que por terem influenciado, por uma liderança direta e permanente, o desenvolvimento do cristianismo como um todo.
Como já foi mencionado, a perseguição que provocou o martírio de Estêvão resultou na implantação do cristianismo além das fronteiras da Palestina. Missionários, cujos nomes se perderam, pregaram Cristo aos seus compatriotas judeus. Em Antioquia houve uma extensão maior dessa propaganda. Antioquia, capital da Síria, era uma cidade de primeira grandeza, ponto de encontro notavelmente cosmopolita de gregos, sírios e judeus. Ali a nova fé foi pregada aos gregos. O efeito dessa pregação foi a difusão do Evangelho entre os de origem gentílica. O povo os apelidou de “cristãos”, título pouco usado pelos próprios seguidores de Jesus até bem dentro do século II, embora antes disso corrente entre os pagãos. Antioquia também não foi o alvo mais distante do esforço cristão. Por volta de 51 ou 52, sob Cláudio, tumultos entre os judeus, provocados pela pregação cristã de missionários desconhecidos, atraíram a atenção do governo na própria Roma. Nesse período inicial, porém, Antioquia era o centro do desenvolvimento. O efeito dessa conversão de pessoas de origem pagã foi, inevitavelmente, levantar a questão da relação desses discípulos com a lei judaica. Se essa regra fosse imposta aos gentios, o cristianismo não passaria de uma seita judaica; se os gentios ficassem livres dela, o cristianismo poderia tornar-se uma religião universal, mas ao custo de grande parte da simpatia judaica. Que esse conflito inevitável tenha sido decidido em favor da doutrina mais ampla foi, antes de tudo, obra do apóstolo Paulo. Paulo, cujo nome hebraico, Saulo, lembrava o herói da tribo de Benjamim, à qual ele pertencia, nasceu na cidade cilícia de Tarso, de pais fariseus, mas de um pai que possuía a cidadania romana. Tarso era eminente no mundo do ensino e, no tempo do nascimento de Paulo, era um centro do ensino estoico. Criado num lar judeu rigoroso, não há razão para crer que Paulo tenha recebido alguma vez uma educação helênica formal. Nunca foi um helenizante no sentido de Fílon de Alexandria. Um jovem atento, numa cidade como aquela, não podia deixar, porém, de receber muitas ideias helênicas e de se familiarizar, ao menos em certa medida, com a atmosfera política e religiosa do mundo mais amplo fora do seu lar judeu ortodoxo. Ainda assim, foi na tradição rabínica que ele cresceu, e foi como futuro escriba que foi, numa idade hoje desconhecida, estudar com o famoso Gamaliel, o velho, em Jerusalém. Quanto ele sabia do ministério de Jesus, se é que sabia algo, além do que se dizia comumente, é impossível determinar. Sua devoção à concepção farisaica de uma nação santificada pela observância cuidadosa da lei judaica era extrema, e a sua própria conduta, julgada por esse padrão, era “irrepreensível” (Fp 3.6). Sempre homem da mais aguda percepção espiritual, porém, ele chegou, ainda como fariseu, a sentir profunda insatisfação interior com o que alcançara em caráter. A lei não dava uma verdadeira justiça interior. Esse era o seu estado de espírito quando entrou em contato com o cristianismo. Se Jesus não era o verdadeiro Messias, ele havia sofrido com justiça, e os seus discípulos eram, com justiça, objeto de perseguição. Se ele pudesse convencer-se de que Jesus era o escolhido de Deus, então Jesus teria de ser para ele o primeiro objeto de lealdade, e a lei (Jesus morrera por se opor à interpretação farisaica dela, e Paulo não reconhecia outra interpretação) teria ela mesma de ser ab-rogada por intervenção divina.
Embora as datas da história de Paulo sejam conjecturais, pode ter sido por volta do ano 35 que veio a grande mudança: viajando para Damasco numa missão de perseguição, ele viu em visão o Jesus exaltado, que o chamou para o seu serviço pessoal. Qual terá sido a natureza dessa experiência, no máximo se pode conjecturar; mas da sua realidade para Paulo e do seu poder transformador não pode haver dúvida. Dali em diante ele estava convencido não só de que Jesus era tudo o que o cristianismo afirmava que ele era, mas sentia pelo seu Mestre uma devoção pessoal que implicava nada menos que a união de espírito. Podia dizer: “já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20). O antigo legalismo caiu, e com ele o valor da lei. Para Paulo, dali em diante, a vida nova era a de uma nova amizade. Cristo se tornara o seu amigo mais íntimo. Ele agora via o homem, Deus, o pecado e o mundo como que pelos olhos do seu amigo. Fazer a vontade do amigo era o seu desejo mais alto. Tudo o que o amigo havia conquistado era dele. “Se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2Co 5.17).
Numa natureza ardente como a de Paulo, essa transformação se manifestou imediatamente em ação. Da história dos anos seguintes pouco se sabe. Ele foi primeiro para a Arábia, região que, na designação daquela época, não ficava necessariamente muito ao sul de Damasco. Pregou nessa cidade. Três anos depois da sua conversão fez uma visita rápida a Jerusalém, onde se hospedou com Pedro e se encontrou com Tiago, “o irmão do Senhor”. Trabalhou na Síria e na Cilícia durante anos, em perigo, sofrimento e fraqueza física.1 Das circunstâncias desse ministério pouco se sabe. Dificilmente terá deixado de pregar aos gentios; e, com a ascensão em importância de uma congregação mista em Antioquia, foi naturalmente procurado por Barnabé como alguém de discernimento nas questões envolvidas. Barnabé, que fora enviado de Jerusalém, trouxe então Paulo de Tarso para Antioquia, provavelmente no ano 46 ou 47. Antioquia se tornara um grande centro da atividade cristã; e dali, em obediência à orientação divina, como cria a congregação antioquena, Paulo e Barnabé partiram numa viagem missionária que os levou a Chipre e dali a Perge, Antioquia da Pisídia, Icônio, Listra e Derbe: a chamada primeira viagem missionária, descrita em Atos 13 e 14. Aparentemente o esforço evangelístico mais frutífero até então na história da igreja, ela resultou na fundação de um grupo de congregações no sul da Ásia Menor, às quais Paulo mais tarde se dirigiu como as da Galácia, embora muitos estudiosos situem as igrejas da Galácia em regiões mais ao norte e ao centro da Ásia Menor, às quais não se registra nenhuma visita de Paulo.
O crescimento da igreja em Antioquia e a implantação de igrejas mistas em Chipre e na Galácia levantaram então, em grande escala, a questão da relação dos gentios com a lei. A congregação de Antioquia foi perturbada por visitantes de Jerusalém que afirmavam: “Se vocês não forem circuncidados segundo o costume de Moisés, não podem ser salvos” (At 15.1). Paulo resolveu fazer um caso de prova. Levando consigo Tito, um convertido gentio incircunciso, como exemplo concreto de cristianismo não legalista, foi com Barnabé a Jerusalém e se reuniu em particular com os líderes de lá. O resultado alcançado com Tiago, Pedro e João foi um reconhecimento cordial da autenticidade da obra de Paulo entre os gentios e um acordo de que o campo seria dividido: os líderes de Jerusalém continuariam a missão entre os judeus, naturalmente com a manutenção da lei, enquanto Paulo e Barnabé iriam aos gentios com a sua mensagem livre (Gl 2.1-10). Foi uma decisão honrosa para ambos os lados; mas era impossível de executar plenamente. Quais seriam as relações numa igreja mista? Podiam judeus observantes da lei e gentios livres da lei comer juntos? Essa nova questão logo se levantou em ligação com uma visita de Pedro a Antioquia (Gl 2.11-16). Ela levou a uma discussão pública na congregação de Jerusalém, provavelmente no ano 49, o chamado Concílio de Jerusalém, e à formulação de certas regras que governavam as refeições mistas (At 15.6-29). Para Paulo, nada senão a mais livre igualdade entre judeu e gentio parecia possível. Para Pedro e Barnabé, a questão das condições da refeição em comum parecia de importância capital. Paulo resistiu a ambos. Teve de travar a batalha em grande parte sozinho, pois Antioquia parece ter ficado com Jerusalém nessa questão do convívio à mesa.
Seguiram-se então os breves anos da maior atividade missionária de Paulo, o período ao qual devemos todas as suas epístolas. Levando consigo um cristão de Jerusalém, cidadão romano, chamado Silas, separou-se de Barnabé por causa da divergência sobre as refeições e também de uma desavença sobre a conduta de Marcos, primo de Barnabé (At 15.36-40). Uma viagem pela região da Galácia lhe trouxe Timóteo como auxiliar. Impedidos de trabalhar no oeste da Ásia Menor, Paulo e seus companheiros entraram então na Macedônia, fundando igrejas em Filipos e Tessalônica, sendo recebidos com frieza em Atenas e passando dezoito meses de trabalho bem-sucedido em Corinto (provavelmente 51-53). Enquanto isso, os judaizantes vinham minando a sua autoridade apostólica na Galácia, e de Corinto ele escreveu a essas igrejas a sua grande epístola, que defende não só o seu próprio ministério, mas a liberdade do cristianismo em relação a toda obrigação para com a lei judaica. Foi a carta magna de um cristianismo universal. Escreveu também aos tessalonicenses, respondendo às dificuldades peculiares deles a respeito da perseguição e da esperada vinda de Cristo.
Levando consigo para Éfeso Áquila e Priscila, que se haviam tornado seus colaboradores em Corinto, Paulo os deixou ali e fez uma visita apressada a Jerusalém e Antioquia. Ao voltar a Éfeso, onde o cristianismo já havia sido plantado, iniciou ali um ministério de três anos (53?-56?). Em grande parte bem-sucedido, foi também cheio de oposição e de tamanho perigo que Paulo chegou a “perder a esperança até da própria vida” (2Co 1.8) e acabou tendo de fugir. Os fardos do apóstolo só aumentaram durante essa permanência em Éfeso por causa de faltas morais, lutas partidárias e a consequente rejeição da sua autoridade em Corinto. Isso levou não apenas às suas significativas cartas aos coríntios, mas, ao deixar Éfeso, a uma estada de três meses na própria Corinto. A sua autoridade foi restabelecida. Nessa estada em Corinto ele escreveu a maior de suas epístolas, a epístola aos Romanos.
Enquanto isso, Paulo nunca deixara de esperar que a ruptura entre ele e os seus cristãos gentios e a massa da igreja de Jerusalém pudesse ser curada. Como oferta de gratidão pelo que os gentios deviam à comunidade-mãe, vinha recolhendo uma coleta entre os seus convertidos gentios. Apesar do perigo evidente, resolveu levá-la a Jerusalém. Da recepção dessa oferta e do curso das negociações de Paulo nada se sabe; mas o próprio apóstolo foi logo preso em Jerusalém e enviado a Cesareia como prisioneiro do governo romano, sem dúvida como instigador de tumultos. Dois anos de prisão (57?-59?) não levaram a nenhum resultado decisivo, pois Paulo exerceu o seu direito de apelar ao tribunal imperial em Roma, e foram seguidos pela sua acidentada viagem à capital como prisioneiro. Em Roma viveu sob custódia, ao menos parte do tempo na casa que ele mesmo alugara, durante dois anos (60?-62?). Ali escreveu às suas amadas igrejas as nossas epístolas aos Efésios, aos Colossenses e aos Filipenses, e cartas mais breves a Filemom e a Timóteo (a segunda epístola). Se ele foi libertado da prisão e fez outras viagens é um problema que ainda divide a opinião dos estudiosos, mas o peso das poucas provas que existem parece ser contrário a isso. Não há razão para duvidar da tradição de que ele foi decapitado na Via Ostiense, fora de Roma; mas o ano é incerto. A tradição situa o seu martírio em ligação com a grande perseguição de Nero, em 64. Ele não coincidiu no lugar com aquele ataque selvagem e pode muito bem ter ocorrido um pouco antes, sem que a visão posterior o dissociasse daquele acontecimento.
A heroica batalha de Paulo por um cristianismo universal e não legalista já foi suficientemente indicada. A sua cristologia será considerada em outro contexto.2 Foi ele o fundador ou o reformulador da teologia cristã? Ele mesmo teria repudiado com veemência essas imputações. No entanto, uma interpretação feita por uma mente instruída certamente apresentaria a fé simples do cristianismo primitivo de forma um tanto alterada. Embora Paulo tenha incorporado à teologia cristã muito do que vinha da sua própria erudição rabínica e da sua experiência helênica, o seu profundo sentimento cristão o levou a uma compreensão da mente de Cristo mais profunda do que a de qualquer outro dos primeiros discípulos. Paulo, o teólogo, está muitas vezes em desacordo com o retrato de Cristo apresentado pelos Evangelhos. Paulo, o cristão, está profundamente em harmonia com ele.
A concepção paulina da liberdade em relação à lei judaica estava o mais longe possível de qualquer desvalorização antinomiana da moralidade. Se a antiga lei havia passado, o cristão está sob “a lei do Espírito da vida”. Aquele em quem o Espírito habita se inclinará para “as coisas do Espírito” e “mortificará os feitos do corpo” (Rm 8.2, 5, 13). Paulo evidentemente dedicou boa parte da formação dos convertidos à instrução moral. Ele tem uma teoria definida do processo da salvação. Por natureza os homens são filhos do primeiro Adão e participam da sua herança de pecado (Rm 5.12-19); por adoção (uma ideia romana) somos filhos de Deus e participantes das bênçãos do segundo Adão, Cristo (Rm 8.15-17; 1Co 15.45). Essas bênçãos têm ligação especial com a morte e a ressurreição de Cristo. Para Paulo, esses dois acontecimentos se destacam como atos de significado transcendente. A sua atitude está bem expressa em Gálatas 6.14: “Mas longe de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo”; e a razão dessa glória é dupla: por ela o pecado é perdoado e a redenção é realizada (Rm 3.24-26), e ela é a fonte e o motivo da nova vida de fé e de amor (Gl 2.20). Essa ênfase na morte de Cristo era certamente nova. Para Paulo, a ressurreição não era menos importante. Era a prova de que Jesus é o Filho de Deus (Rm 1.4), a promessa da nossa própria ressurreição (1Co 15.12-19) e a garantia da vida espiritual renovada dos homens (Rm 6.4-11). Por isso Paulo pregava “Jesus Cristo, e este, crucificado” (1Co 2.2), ou “Jesus e a ressurreição” (At 17.18).
O poder pelo qual os homens se tornam filhos do segundo Adão é um dom gratuito de Deus por meio de Cristo. É graça inteiramente imerecida (Rm 3.24). Deus a envia a quem quer e a retém de quem quer (Rm 9.10-24). A condição para que o homem receba a graça é a fé (Rm 3.25-28). “Se com a boca você confessar Jesus como Senhor e em seu coração crer que Deus o ressuscitou dentre os mortos, você será salvo” (Rm 10.9). Essa doutrina é de grande importância, pois faz da essência da vida cristã não uma simples crença acerca de Cristo, nem uma justificação puramente forense, como os protestantes muitas vezes interpretaram Paulo, mas uma relação vital e pessoal. A designação de Jesus como “Senhor” foi uma designação que, como Bousset mostrou,3 surgiu nas igrejas gentílicas da Síria, não impossivelmente em Antioquia, e foi a expressão natural, para a sua devoção ao novo Mestre, daqueles que havia muito estavam acostumados a empregá-la para os seus mais altos objetos de veneração. Para Paulo, ela é um resumo da sua fé. Cristo é o “Senhor”; ele mesmo, o “escravo”. Também não é menos necessária a confiança na ressurreição, como prova suprema da filiação divina de Cristo (Rm 1.4).
A vida cristã é uma vida cheia do Espírito. Todas as graças vêm dele, todos os dons e toda a orientação. O homem que tem o Espírito é nova criatura. Vivendo a vida do Espírito, já não vive a da “carne”. Mas esse Espírito que tudo transforma e que habita no crente é o próprio Cristo. “Ora, este Senhor é o Espírito” (2Co 3.17). Se Cristo está em tal relação com o discípulo individual que a união com ele é necessária para toda verdadeira vida cristã, não está em associação menos vital com todo o corpo dos crentes, a igreja. Paulo usa a palavra igreja em dois sentidos: designando a congregação local (Filipos, Corinto, Roma, “a igreja que se reúne na casa deles”) e indicando todo o corpo dos crentes, o verdadeiro Israel. Neste último sentido ela é o corpo de Cristo, do qual cada congregação local é uma parte (Ef 1.22-23; Cl 1.18). De Cristo vêm todos os oficiais e auxiliares, todos os dons espirituais (Ef 4.11; 1Co 12.4-11). Ele é a fonte da vida da igreja, e esses dons são prova do seu senhorio glorificado (Ef 4.7-10).
Como os primeiros discípulos em geral, Paulo julgava próximos a vinda de Cristo e o fim da ordem presente do mundo; mas as suas ideias passaram por alguma modificação. Em suas primeiras epístolas, ele evidentemente cria que isso aconteceria durante a sua vida (1Ts 4.13-18). Ao se aproximar do fim da sua obra, achava provável que morreria antes da vinda do Senhor (Fp 1.23-24; 2Tm 4.6-8). Quanto à ressurreição, Paulo tinha a maior confiança. Aqui, porém, ideias hebraicas e gregas divergiam. A concepção hebraica era um voltar a viver da carne; a grega, a imortalidade da alma. Paulo nem sempre deixa clara a sua posição. Romanos 8.11 parece seguir o pensamento hebraico; mas a grande passagem de 1Coríntios 15.35-54 aponta para o grego. Há um juízo para todos (2Co 5.10), e mesmo entre os salvos haverá grandes diferenças (1Co 3.10-15). O fim de todas as coisas é a sujeição de todos, até de Cristo, a Deus Pai (1Co 15.20-28).
A história e o destino da maioria dos apóstolos são desconhecidos. Embora Pedro não possa ter estado em Roma enquanto Paulo escrevia de lá as suas epístolas, e alguns estudiosos de peso ainda considerem insuficientes as provas de que ele tenha estado ali alguma vez, a força cumulativa das indicações que sobreviveram torna provável a conclusão de que ele esteve em Roma ao menos por pouco tempo e de que a sua estada terminou no martírio por crucificação, nas perseguições de Nero.4 Tal estada, e especialmente tal morte, o ligariam permanentemente à Igreja de Roma. Por outro lado, uma residência de João em Éfeso é muito menos segura.
A perseguição sob Nero foi tão feroz quanto local. Um grande incêndio em Roma, em julho de 64, foi seguido de acusações que envolveram injustamente os cristãos, provavelmente por instigação de Nero, para desviar de si mesmo o rumor popular. Muitos sofreram a morte por meio de torturas horríveis nos jardins do Vaticano, onde Nero fez do martírio deles um espetáculo.5 Dali em diante ele permaneceu na tradição cristã como um tipo do anticristo; mas a Igreja de Roma sobreviveu com vigor. A destruição de Jerusalém, ao fim da rebelião judaica, em 70, foi um acontecimento de significado mais duradouro. Quase pôs fim à influência, já declinante, das congregações palestinenses nos assuntos mais amplos da igreja. Esse colapso e o rápido afluxo de convertidos de origem pagã logo fizeram com que a batalha de Paulo pela liberdade em relação à lei deixasse de ser uma questão viva. Antioquia, Roma e, antes do fim do século, Éfeso eram agora os principais centros do desenvolvimento cristão. Os convertidos vinham em sua maioria das classes sociais mais baixas (1Co 1.26-28), embora entre eles se encontrassem alguns de melhor posição, sobretudo mulheres. Assim eram Lídia de Filipos (At 16.14) e, em posição muito mais elevada, provavelmente o cônsul Flávio Clemente e sua esposa, Flávia Domitila, que sofreram, ele a morte e ela a sentença de banimento, em Roma, sob Domiciano, em 95. A Domitila a Igreja de Roma deveu uma de suas mais antigas catacumbas. Dessa perseguição sob Domiciano (81-96) poucos pormenores se conhecem, mas ela deve ter sido severa em Roma e na Ásia Menor.6
Contudo, embora se possam recolher algumas migalhas desse período, os quarenta anos de 70 a 110 continuam sendo uma das partes mais obscuras da história da igreja. Isso é tanto mais lamentável porque foram uma época de rápida mudança na própria igreja. Quando as características da igreja podem outra vez ser traçadas com clareza, a sua concepção geral do cristianismo mostra surpreendentemente pouco da marca distintiva de Paulo. Não só muitos missionários hoje desconhecidos devem ter trabalhado além do grande apóstolo, como também uma afluência de ideias vindas de fontes não cristãs, trazidas sem dúvida por convertidos de origem pagã, modificou crenças e práticas cristãs, especialmente quanto aos sacramentos, aos jejuns e ao surgimento de formas litúrgicas. A antiga convicção do caráter imediato da orientação do Espírito se apagou, sem se extinguir de todo. A própria constituição da igreja passou, nesse período, por um desenvolvimento de grande alcance, do qual se fará algum relato (ver Período I, seção IX).
Um exemplo desse cristianismo não paulino, embora sem sinal da infiltração de ideias pagãs, pode ser visto na Epístola de Tiago. Escrita no fim do século I ou no começo do II, ela é singularmente pobre em conteúdo teológico. As suas orientações são em grande parte éticas. O cristianismo, na concepção do autor, é um conjunto de princípios corretos devidamente praticados. A fé não é, como em Paulo, uma relação nova, vital e pessoal. É uma convicção intelectual que precisa ser completada pela ação correspondente. É uma lei moral nova e simples (Tg 1.25; 2.14-26).
A esse período obscuro se deve a composição dos Evangelhos. Nenhum assunto da história da igreja é mais difícil. Parece, porém, que num período antigo, que hoje não se pode fixar com precisão, circulava uma coleção dos ditos de Cristo. Provavelmente não longe de 75-80, e segundo uma tradição antiga e digna de crédito, em Roma, surgiu o Evangelho de Marcos. A sua disposição não era puramente histórica: a escolha dos materiais foi determinada, evidentemente, pela importância atribuída às doutrinas e aos usos eclesiásticos que eles ilustravam. Com amplo uso da coleção de ditos e de Marcos, surgiram os Evangelhos de Mateus e de Lucas, provavelmente entre 80 e 95; o primeiro tendo provavelmente a Palestina como lugar de composição, e o segundo procedendo, há alguma razão para crer, de Antioquia. O Evangelho joanino é marcadamente individual e pode, sem injustiça, ser atribuído a Éfeso e ao período de 95-110. Circulavam outros evangelhos, dos quais sobrevivem fragmentos, mas nenhum que se compare em valor com os quatro que a igreja passou a considerar canônicos. Parece ter restado, no fim do século I, pouca recordação de Jesus que não tenha sido recolhida nos Evangelhos conhecidos. Que tenha sido assim pode ser atribuído à grande guerra judaica e ao declínio das congregações hebraicas da Palestina. Aos Evangelhos a igreja deve a herança inestimável do seu conhecimento da vida do seu Mestre e um corretivo permanente para a parcialidade de uma interpretação que, como até a grande mensagem de Paulo, dá pouca atenção ao seu ministério terreno.
1. Alguns poucos incidentes estão enumerados em 2Co 11 e 12.
2. Ver Período I, seção VII.
3. Kyrios Christos [Cristo Senhor], Göttingen, 1913.
4. 1Pe 5.13; Jo 21.18-19; 1 Clemente, 5, 6; Inácio, Aos Romanos, 4.3; Ireneu, Contra as Heresias, 3.1.1; Caio de Roma, em Eusébio, História Eclesiástica, 2.25.5-7.
5. Tácito, Anais, 15.44; Ayer, A Source Book for Ancient Church History [Livro de fontes da história da Igreja antiga], p. 6.
6. 1 Clemente, 1; Ap 2.10, 13; 7.13-14.
Tradução para o português a partir de Williston Walker, A History of the Christian Church (Nova York, Charles Scribner’s Sons, 1918), 1ª edição, conferida com as imagens das páginas; domínio público. As notas são de Walker; as que eram só referência bíblica passaram para o texto. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.