Walker, História da Igreja Cristã · Período IV
I. Missões nas Ilhas Britânicas; II. Missões continentais e crescimento papal; III. Os francos e o papado; IV. Carlos Magno; V. Instituições eclesiásticas; VI. Império em colapso e papado em ascensão.
A difusão do arianismo entre as tribos germânicas, a conversão dos francos à fé romana e a aceitação gradual da ortodoxia católica pelos invasores germânicos já foram assinaladas (ver Período III, seção V). Muito, porém, restava por fazer. Não há prova mais impressionante da vitalidade da igreja no império em colapso e no início da Idade Média do que o vigor e o êxito com que ela empreendeu a expansão do cristianismo.
O cristianismo já tinha algum ponto de apoio nas Ilhas Britânicas antes da conversão de Constantino. Bispos de York, de Londres e provavelmente de Lincoln estiveram presentes no Concílio de Arles, em 314. Contudo, ele sobreviveu apenas debilmente à queda do Império Romano entre a população celta, ao passo que boa parte do solo do sul e do leste da Inglaterra foi ganha para o paganismo pelos invasores anglo-saxões. Alguns tênues começos cristãos encontravam-se, sobretudo no sul da Irlanda, antes do tempo de Patrício; mas ele fez avançar de tal modo a causa do evangelho naquela ilha, e organizou de tal modo as suas instituições cristãs, que merece o título de Apóstolo da Irlanda.
Nascido por volta de 389, possivelmente no sul do País de Gales, Patrício era filho de um diácono e neto de um sacerdote. Sua formação foi, portanto, cristã. Capturado numa incursão por volta de 405, foi escravo na Irlanda durante seis anos. Tendo fugido para o continente, Patrício viveu por um tempo considerável no mosteiro de Lérins, ao largo da costa sul da França. Em 432 foi ordenado bispo missionário pelo bispo Germano de Auxerre e começou na Irlanda a obra que terminou com sua morte, em 461. A maior parte dos trabalhos missionários de Patrício deu-se no nordeste da Irlanda, embora não sem alguns esforços no sul e no oeste, mais selvagem. Poucos fatos sobreviveram; mas do seu zelo não pode haver dúvida, e tampouco das suas notáveis aptidões de organizador, sob cuja direção o cristianismo até então disperso da Irlanda foi sistematizado e fez grandes progressos. Ele pôs a ilha, em certa medida, em contato com o continente e com Roma.
Parece certo que Patrício introduziu na Irlanda o episcopado diocesano; mas essa instituição logo foi modificada pelo sistema de clãs da ilha, de modo que houve, em lugar dela, muitos bispos monásticos e tribais. Patrício favoreceu o monasticismo; mas o grande promotor do peculiar monasticismo irlandês foi Finiano de Clonard (470?-548), sob cuja liderança surgiu um grupo de mosteiros irlandeses fortemente missionário e, para a época, notavelmente erudito. As escolas monásticas da Irlanda foram justamente famosas nos séculos VI e VII. A glória desse monasticismo irlandês foi a sua realização missionária.
Os começos do cristianismo na Escócia são muito obscuros. Diz-se que Niniano trabalhou ali no século IV e nos primeiros anos do V, mas pouco se pode dizer de sua data e de sua obra real. Kentigern, ou Mungo (527?-612?), que difundiu o cristianismo nas vizinhanças de Glasgow, é uma figura quase tão apagada. Parece provável que os colonos do norte da Irlanda que fundaram, por volta de 490, o reino de Dalriada, abrangendo o atual Argyleshire, já tenham vindo como cristãos. O grande missionário da Escócia foi Columba (521-597), homem estreitamente aparentado com algumas das mais poderosas famílias tribais da Irlanda e discípulo de Finiano de Clonard. Já distinguido como monge e fundador de mosteiros na Irlanda, transferiu seus trabalhos para a Escócia em 563, estabelecendo-se com doze companheiros na ilha de Iona, ou Hy, sob a proteção de seu compatriota e parente, o rei de Dalriada. Ali Columba desenvolveu um mosteiro muito florescente, e dali partiu para trabalhos missionários entre os pictos, que ocupavam os dois terços setentrionais da Escócia. Por Columba e seus companheiros o reino dos pictos foi ganho para o evangelho. Como na Irlanda, as instituições cristãs eram em grande parte monásticas. Não havia dioceses, e até os bispos estavam sob a autoridade, exceto na ordenação, de Columba, que era presbítero, e de seus sucessores como abades de Iona.
Esses esforços missionários irlandeses foram levados ao norte da Inglaterra, entre os anglo-saxões da Nortúmbria. Ali, na ilha de Lindisfarne, ao largo do extremo nordeste da costa inglesa, Aidano, monge de Iona, estabeleceu em 634 uma nova Iona. Dali o cristianismo foi amplamente difundido na região por ele até sua morte, em 651, e depois por seus companheiros. Tampouco o zelo missionário desses monges celtas ficou de modo algum restrito às Ilhas Britânicas. Columbano, ou Columba, o Jovem (543?-615), tornou-se monge do célebre mosteiro irlandês de Bangor, fundado em 558 por Comgall, líder no saber e no zelo missionário. De Bangor, Columbano partiu, por volta de 585, com doze companheiros monges, e estabeleceu-se em Anegray, na Borgonha, perto de onde fundou o mosteiro de Luxeuil. Expulso por volta de 610, em consequência de sua repreensão, à maneira de um profeta, ao rei Teodorico II e à avó do rei, Brunilda, Columbano trabalhou por breve tempo no norte da Suíça, onde seu companheiro e discípulo irlandês, Galo, viria a viver como anacoreta e a dar o nome ao posterior mosteiro de São Galo, mais do que a fundá-lo. Columbano seguiu para o norte da Itália e ali estabeleceu, em 614, nos Apeninos, o mosteiro de Bobbio, onde morreu um ano depois.
Columbano foi apenas um dos primeiros de vários monges irlandeses que trabalharam no continente, muitos deles no que hoje é o centro e o sul da Alemanha. Assim, Kiliano atuou em Würzburg e Virgílio em Salzburgo. Uma modificação da prática cristã, de grande importância posterior, foi introduzida no continente por esses monges irlandeses, notadamente por Columbano. A entrada de milhares na igreja, quando o cristianismo foi aceito pelo Estado, havia em grande parte arruinado a antiga disciplina pública. Desenvolvera-se o costume da confissão privada entre os monges do Oriente e do Ocidente. Basílio a favorecera fortemente no Oriente. Em parte alguma ela teve apoio mais caloroso do que entre os monges irlandeses, e por eles foi estendida aos leigos, como de fato aconteceu, até certo ponto, pelos monges do Oriente. Os irlandeses no continente foram os introdutores da confissão privada dos leigos. Na Irlanda também surgiram os primeiros livros penitenciais extensos, nos quais se fixavam satisfações apropriadas para pecados específicos, embora esses livros tivessem antecedentes em cânones conciliares anteriores. Os monges irlandeses tornaram esses tratados penitenciais conhecidos no continente.
Enquanto isso, uma obra do maior significado para a história religiosa da Grã-Bretanha e para o papado fora empreendida pelo papa Gregório Magno. Movido por um impulso missionário que sentia havia muito tempo, e aproveitando a situação favorável proporcionada pelo casamento de Etelberto, “rei” de Kent e suserano de grande parte do sudeste da Inglaterra, com uma princesa cristã franca, Berta, Gregório enviou um amigo romano, Agostinho, prior do seu amado mosteiro no monte Célio, com vários companheiros monges, para tentar a conversão dos anglo-saxões. A expedição deixou Roma em 596, mas sua coragem era pouca, e foi necessário todo o poder de persuasão de Gregório para induzi-la a prosseguir. Só na primavera de 597 o grupo, reforçado por auxiliares francos, chegou a Cantuária. Etelberto e muitos de seus seguidores logo aceitaram o cristianismo. Gregório considerou a luta já vencida. Agostinho recebeu a consagração episcopal de Virgílio de Arles em novembro de 597, e, em 601, Gregório nomeou Agostinho metropolita, com autoridade para estabelecer doze bispos sob sua jurisdição. Quando o norte da Inglaterra fosse convertido, um metropolitanato semelhante seria estabelecido em York. Londres e York deveriam ser as capitais eclesiásticas. Os bispos bretões, sobre os quais Gregório não tinha jurisdição reconhecida, o papa os confiou à superintendência de Agostinho.1 A tarefa, na realidade, haveria de se mostrar muito mais árdua do que parecia à visão otimista de Gregório, e passaria a maior parte de um século antes que o cristianismo se tornasse dominante na Inglaterra. Ainda assim, o movimento assim inaugurado haveria de fortalecer imensamente o papado. Os anglo-saxões deveram sua conversão principalmente aos esforços diretos de Roma, e eles, por sua vez, demonstraram ao papado uma devoção que não era característica das terras mais antigas, como a França e a Espanha, onde o cristianismo fora introduzido de outro modo. O cristianismo anglo-saxão haveria de produzir, além disso, alguns dos mais enérgicos missionários, pelos quais o evangelho e a obediência papal seriam igualmente promovidos no continente.
A Inglaterra não foi levada a aceitar o cristianismo sem muitas vicissitudes. A hegemonia de Kent declinava antes da morte de Etelberto, e com ela os primeiros triunfos cristãos foram eclipsados. A Nortúmbria foi gradualmente assumindo a liderança. Foi um êxito quando Eduíno, rei da Nortúmbria, se converteu em 627 pela obra de Paulino, que logo seria bispo de York. O rei pagão Penda, da Mércia, porém, derrotou e matou Eduíno em 633, e seguiu-se uma reação pagã na Nortúmbria. Sob o rei Osvaldo, que se tornara cristão quando exilado em Iona, o cristianismo foi restabelecido na Nortúmbria, principalmente com a ajuda de Aidano (ver Período IV, seção I). Era do tipo irlandês, ou, como muitas vezes se diz, “bretão antigo”. Penda atacou mais uma vez, e em 642 Osvaldo foi morto em batalha. O irmão de Osvaldo, Osvio, como ele um convertido de Iona, depois de muita luta assegurou para si toda a Nortúmbria em 651, além de uma suserania amplamente reconhecida. O cristianismo inglês estava se firmando.
Desde a primeira chegada dos missionários romanos houve controvérsia entre eles e seus irmãos cristãos irlandeses, ou bretões antigos. Os pontos de divergência parecem de importância secundária. Um sistema de cálculo mais antigo, abandonado em Roma, resultava em divergência quanto à data da Páscoa. As formas de tonsura eram diferentes. Havia algumas variações, hoje não recuperáveis, na administração do batismo. Além disso, como já se assinalou, o cristianismo romano era solidamente organizado e diocesano, ao passo que o da antiga Igreja Bretã era monástico e tribal. Enquanto os missionários bretões antigos consideravam o papa o mais alto dignitário da cristandade, os representantes romanos atribuíam-lhe uma autoridade judicial que os bretões antigos não admitiam plenamente. O sul da Irlanda aceitou a autoridade romana por volta de 630. Na Inglaterra, a decisão veio num sínodo realizado sob o rei Osvio em Whitby, em 664. Ali o bispo Colmano de Lindisfarne defendeu os costumes bretões antigos, enquanto Vilfrido, outrora de Lindisfarne, mas ganho para Roma numa peregrinação, e que logo seria bispo de York, se opôs. O costume romano quanto à Páscoa foi aprovado, e com ele a causa romana venceu na Inglaterra. Em 703 o norte da Irlanda seguira o mesmo caminho, e em 718, a Escócia. No País de Gales o processo de acomodação foi muito mais lento e só se completou no século XII. Na Inglaterra, esse fortalecimento do vínculo com Roma foi muito favorecido pela nomeação, em 668, pelo papa Vitaliano, de um monge romano, Teodoro, natural de Tarso, na Cilícia, como arcebispo de Cantuária. Organizador capaz, ele fez muito para tornar permanente a obra iniciada por seus predecessores.
As duas correntes de esforço missionário combinaram-se em proveito do cristianismo inglês. Se a de Roma contribuiu com ordem, a bretã antiga deu zelo missionário e amor ao saber. A erudição dos mosteiros irlandeses foi transplantada para a Inglaterra e ali fortalecida pelas frequentes peregrinações anglo-saxãs a Roma. Ilustração notável desse movimento intelectual foi Beda, geralmente chamado “o Venerável” (672?-735). Membro, durante quase toda a vida, do mosteiro duplo de Wearmouth e Jarrow, na Nortúmbria, seu saber, como o de Isidoro de Sevilha um século antes, abrangia todo o círculo do conhecimento de sua época e fez dele mestre de gerações futuras. Escreveu sobre cronologia, fenômenos naturais, as Escrituras e teologia. Acima de tudo, é lembrado por sua História Eclesiástica do Povo Inglês, obra de grande mérito e principal fonte de informação sobre a cristianização das Ilhas Britânicas.
Com a conversão de Clóvis ao cristianismo ortodoxo (496) (ver Período III, seção V), começou nos domínios francos uma estreita relação entre igreja e Estado. Em grande medida era verdade que a conquista franca e a cristianização eram dois lados do mesmo escudo. Sob os descendentes de Clóvis, os reis merovíngios, a condição interna da igreja franca desceu, porém, a um nível muito baixo. Bispos e abades eram nomeados por considerações políticas, e muitas terras da igreja foram confiscadas ou postas em mãos seculares. Mesmo os esforços de Gregório I para obter um controle papal mais efetivo na França e realizar uma reforma tiveram pouco resultado duradouro.
O colapso político dos merovíngios levou à ascensão ao poder da casa carolíngia, originalmente “prefeitos do palácio”, o que se consumou quando Pepino, chamado, não de todo corretamente, de Heristal, venceu a batalha de Tertry, em 687. Os reis merovíngios continuaram de nome, mas a autoridade real era exercida por Pepino como “duque dos francos”. Depois de sua morte, em 714, seu filho ilegítimo Carlos Martel (715-741) exerceu todos os poderes de um rei. Por ele o avanço maometano na Europa ocidental foi detido de modo permanente, na grande batalha entre Tours e Poitiers, em 732. Ele percebeu a vantagem do auxílio eclesiástico e apoiou o esforço missionário no oeste da Alemanha e nos Países Baixos, onde desejava estender seu controle político. Contudo, nem Pepino “de Heristal” nem Carlos Martel foram mais úteis à igreja de seus próprios territórios do que os merovíngios. Exploraram-na por razões políticas, secularizaram suas terras e pouco fizeram para conter suas desordens. Apesar disso, sob Carlos Martel iniciou-se uma grande obra missionária e reformadora que haveria de cristianizar grandes porções do oeste da Alemanha, reformar a igreja franca e pôr o papado e os francos em relações da maior consequência para ambos.
Vilibrordo (657?-739), nortumbriano, começou a obra missionária na Frísia com o apoio de Pepino de Heristal e, em 695, foi consagrado bispo missionário pelo papa Sérgio I, ato que resultou no estabelecimento da sé de Utrecht. Sua obra teve escasso êxito e foi retomada por um dos homens mais capazes e notáveis do período, Winfrido, ou Bonifácio (680?-754). Anglo-saxão nascido em Devonshire, Winfrido tornou-se monge de Nutcell, perto de Winchester. Em 716 começou trabalhos missionários na Frísia, mas com tão pouco êxito que voltou à Inglaterra. Em 718 e 719 esteve em Roma, onde recebeu do papa Gregório II (715-731) a incumbência de trabalhar na Alemanha. De 719 a 722 trabalhou na Frísia e em Hesse, indo mais uma vez a Roma no último desses anos e recebendo a consagração como bispo missionário, com juramento de fidelidade ao papa.2 Os dez anos seguintes testemunharam grande êxito em Hesse e na Turíngia. Não só foram convertidos pagãos, como os monges irlandeses foram em grande parte levados à obediência a Roma. Gregório III (731-741) fez de Bonifácio arcebispo em 732, com autoridade para fundar novas sés. Depois de uma terceira viagem a Roma, em 738, ele assim organizou a igreja da Baviera e, um pouco mais tarde, a da Turíngia. Em 744 ajudou seu discípulo Sturm na fundação do grande mosteiro beneditino de Fulda, destinado a ser um centro de saber e de formação sacerdotal para todo o centro-oeste da Alemanha. Entre 746 e 748 Bonifácio foi feito arcebispo de Mainz, que assim se tornou a principal sé alemã. Em tudo isso Bonifácio fortaleceu as causas da ordem e da disciplina e aumentou a autoridade papal. Sua obra foi muito ajudada pelo número considerável de homens e mulheres que vieram de sua Inglaterra natal como colaboradores, e para os quais ele encontrou lugar no serviço monástico e em outros serviços cristãos.
A morte de Carlos Martel, em 741, viu sua autoridade dividida entre seus filhos Carlomano (741-747) e Pepino, o Breve (741-768). Ambos eram muito mais devotados à igreja do que o pai, e Carlomano acabou por retirar-se do poder para tornar-se monge. Embora nenhum dos dois quisesse abrir mão da autoridade sobre a igreja franca, ambos apoiaram Bonifácio na abolição das piores irregularidades e abusos dela e numa ligação mais estreita com Roma. Numa série de sínodos realizados sob a liderança de Bonifácio, a partir de 742, atacou-se o mundanismo do clero, censuraram-se os bispos itinerantes, condenou-se o casamento sacerdotal e impôs-se uma disciplina clerical mais rigorosa. Num sínodo realizado em 747, os bispos reunidos reconheceram a jurisdição do papado, embora, como os governantes civis não estivessem presentes, essas conclusões carecessem da força de lei franca. A igreja franca, graças à obra de Bonifácio, melhorou imensamente em organização, caráter e disciplina, ao passo que, o que ele valorizava igualmente, a autoridade do papado sobre ela aumentou de modo muito decidido, ainda que a do prefeito do palácio continuasse a mais poderosa.
À medida que Bonifácio se aproximava da velhice, seus pensamentos voltaram-se para a obra missionária na Frísia, com a qual havia começado. Conseguiu a nomeação de seu discípulo anglo-saxão, Lulo, como seu sucessor na sé de Mainz. Em 754 foi à Frísia, e ali foi assassinado pelos pagãos, coroando assim sua vida ativa e de ampla influência com uma morte de testemunho da sua fé. Sua obra fora em favor da ordem, da disciplina e da consolidação, bem como do avanço cristão, e essas eram as principais necessidades da época.
Já se assinalou (ver Período III, seção XI) que o papado, e a Itália em geral, se opuseram aos esforços iconoclastas do imperador Leão III, chegando a excomungar os adversários das imagens num sínodo romano realizado sob Gregório III, em 731. O imperador respondeu retirando o sul da Itália e a Sicília da jurisdição papal e colocando essas regiões sob a sé de Constantinopla, assunto que por muito tempo foi um espinho na carne do papado. Em Roma e no norte da Itália o poder imperial exercido a partir de Constantinopla era fraco demais para controlar a ação papal. O representante imperial era o exarca de Ravena, sob o qual estava um duque de Roma para os assuntos militares, embora o papa fosse, em muitos aspectos, o representante do imperador nos negócios civis da cidade. O papado estava agora em rebelião prática contra os governantes que tinham sua sede em Constantinopla. Encontrava-se, porém, numa posição perigosíssima. Os lombardos pressionavam e ameaçavam tomar Roma. A desunião decorrente da disputa iconoclasta tornava necessário, se o papado quisesse manter alguma independência considerável em Roma, encontrar contra os lombardos outra proteção que não a do imperador. Os papas a buscaram, e por fim a obtiveram, dos francos.
Em 739 Gregório III apelou a Carlos Martel por ajuda contra os lombardos, mas em vão. Com Pepino, o Breve, foi diferente. Ele tinha mentalidade mais eclesiástica, e planos maiores do que os que até seu pai havia acalentado agora o moviam. Pepino e o papado podiam prestar auxílio mútuo um ao outro. O novo rei lombardo, Aistulfo (749-756), conquistou Ravena ao imperador em 751 e pressionava gravemente a própria Roma. Pepino desejava o título de rei, bem como o poder régio, na França. Decidira uma revolução que relegasse a um mosteiro o último dos fracos merovíngios, Childerico III, e pusesse o próprio Pepino no trono. Para essa mudança desejava não só a aprovação da nobreza franca, mas a sanção moral da igreja. Apelou ao papa Zacarias (741-752). A aprovação do papa foi prontamente concedida, e antes do fim de 751 Pepino estava formalmente no ofício régio. Para esse ofício foi ungido e coroado, mas é incerto se por Bonifácio, como em geral se supôs.
Essa transação, que parece ter sido simples na época, estava carregada das mais amplas consequências. Dela se podia tirar a conclusão de que estava no poder do papa dar e negar reinos. Inteiramente ocultos nela estavam o restabelecimento do império no Ocidente, o Sacro Império Romano, e aquela interação entre papado e império que forma parte tão grande da história da Idade Média. Desse ponto de vista, foi o acontecimento mais importante da história medieval.
Se o papa podia assim ajudar Pepino, este não podia ser menos útil ao papa. Aistulfo e seus lombardos continuavam a pressionar Roma. Estêvão II, portanto, foi pessoalmente a Pepino, coroando e ungindo de novo Pepino e seus filhos na igreja de Saint-Denis, perto de Paris, em 754, e confirmando-lhes o título indefinido de “Patrícios dos Romanos”, tanto mais útil, talvez, por implicar uma relação com Roma inteiramente indefinida. Esse título fora usado pelo exarca imperial em Ravena. Pouco depois dessa coroação, Pepino cumpriu sua obrigação recíproca. À frente de um exército franco, no fim de 754 ou no começo de 755, invadiu a Itália e obrigou Aistulfo a concordar em entregar ao papa Ravena e as outras conquistas lombardas recentes. Uma segunda campanha, em 756, foi necessária para que o rei lombardo cumprisse sua promessa. O Exarcado, cuja capital era Ravena, e a Pentápole eram agora possessões do papa. Começavam os “Estados da Igreja”, aquela soberania temporal do papado que haveria de durar até 1870. Contudo, até onde se pode agora julgar, ao conceder assim o Exarcado ao papa Estêvão, Pepino considerava-se suserano. A própria Roma, Pepino não a deu ao papa. Não era sua para dar. Juridicamente, a situação de Roma teria sido difícil de definir. Embora os papas tivessem rompido na prática com o imperador em Constantinopla, Roma não lhe fora conquistada. Na verdade, o papado reconheceu a soberania do imperador oriental no estilo de seus documentos públicos até 772. Pepino tinha os direitos inteiramente nebulosos que pudessem estar incluídos no título de “Patrício dos Romanos”. De fato, Roma estava na posse do papa.
Embora o papa fosse agora um governante territorial, a extensão de suas possessões estava longe de satisfazer a ambição papal, a julgar por uma curiosa falsificação, de autoria desconhecida, mas que parece datar desse período: a chamada Doação de Constantino.3 Em forma de carta régia, com uma profissão de fé e um relato fabuloso de sua conversão e batismo, Constantino ordenava que todos os eclesiásticos fossem sujeitos ao papa Silvestre e aos sucessivos ocupantes da sé romana, e transferia a eles “a cidade de Roma e todas as províncias, distritos e cidades da Itália ou das regiões ocidentais”. Isso significava uma soberania sobre a metade ocidental do império, ou pelo menos uma suserania. Desacreditada por alguns dos homens mais sábios da Idade Média, a Doação foi geralmente aceita como verdadeira até que sua falsidade foi demonstrada por Nicolau de Cusa, em 1433, e por Lorenzo Valla, em 1440.
Pepino, o Breve, morreu em 768. Governante forte, sua fama foi indevidamente eclipsada pela de seu filho, maior do que ele, que, em geral, simplesmente levou adiante o que o pai havia começado. Pepino dividira seu reino entre os dois filhos, Carlos e Carlomano. Havia má vontade entre os irmãos, mas a situação foi aliviada pela morte de Carlomano, em 771. Com esse acontecimento começou o verdadeiro reinado de Carlos, a quem o mundo atribuiu o título de “Grande” de tal modo que o entreteceu indissoluvelmente com o seu nome: Carlos Magno.
Carlos Magno, talvez mais do que qualquer outro soberano da história, foi cabeça sobre todas as coisas para a sua época. Guerreiro de grandes dotes, mais do que duplicou as possessões do pai. Quando morreu, seu domínio abrangia toda a França moderna, a Bélgica e a Holanda, quase metade da Alemanha e da Áustria-Hungria modernas, mais da metade da Itália e um pedaço do nordeste da Espanha. Era o que de mais próximo da dimensão imperial se vira desde a queda do Império Romano do Ocidente. A conquista era apenas parte de sua obra. Seus exércitos, ao ampliar a fronteira, davam descanso e tempo para a consolidação à porção central de seus territórios. Ele foi o patrono do saber, o senhor benévolo da igreja, o guardião da ordem, a quem nada parecia pequeno demais para merecer atenção nem grande demais para ser executado.
Uma desavença com Desidério, rei dos lombardos, resultou na conquista e extinção desse reino por Carlos Magno em duas campanhas, nos anos de 774 a 777. As concessões de Pepino ao papado foram renovadas, mas a situação, na prática, mudou. O papado já não estava separado, como antes, dos principais territórios francos pelo reino lombardo interposto. A ligação de Carlos Magno com Roma era uma suserania muito mais efetiva do que a de seu pai, e ele, daí em diante, tratou o papa como o principal prelado de seu reino, e não como um poder independente, embora não chegasse a ditar a escolha dos papas, como fazia com a dos bispos de seu reino.
Muito importante para a expansão do cristianismo foi a conquista dos saxões por Carlos Magno, que então ocupavam o que é hoje o noroeste da Alemanha, resultado alcançado só depois de uma série de campanhas que se estenderam de 772 a 804. A imposição do cristianismo pela força tornou-se permanente pelos meios mais pacíficos da implantação de bispados e mosteiros em toda a terra saxônica. Por essa conversão, a última tribo germânica considerável, e uma das mais dotadas e enérgicas, foi trazida para a família cristã da Europa, para proveito permanente desta. A Frísia também se tornou então uma terra inteiramente cristã. As lutas de Carlos Magno com o duque rebelde Tássilo, da Baviera já cristianizada, levaram não só à plena absorção dos bispados bávaros no sistema eclesiástico franco, mas a guerras vitoriosas contra os ávaros e à extensão do cristianismo a grande parte do que é hoje a Áustria.
Tal governante, dedicado igualmente à ampliação do poder político e do cristianismo, e controlando a maior parte da cristandade ocidental, era, de fato, uma figura de proporções imperiais. Não surpreende, portanto, que o papa Leão III (795-816), muito devedor a Carlos Magno pela proteção contra nobres romanos descontentes, tenha posto na cabeça do rei franco a coroa imperial romana enquanto este se ajoelhava na igreja de São Pedro, no dia de Natal de 800. No pensamento do povo romano que aplaudiu, como do Ocidente em geral, era a restauração ao Ocidente do império que por séculos fora detido pelo governante em Constantinopla. Colocava Carlos Magno na grande sucessão desde Augusto. Dava a esse império um cunho teocrático. Inesperada, e não de todo bem-vinda a Carlos Magno na ocasião, era a encarnação visível de um grande ideal. O Império Romano, pensavam os homens, nunca havia morrido, e agora a consagração de Deus fora dada a um imperador ocidental pelas mãos do seu representante. Não era, necessariamente, uma rejeição do título imperial do governante em Constantinopla. O império tardio vira com frequência dois imperadores, no Oriente e no Ocidente. Leão V (813-820), o imperador em Constantinopla, mais tarde reconheceu formalmente o título imperial de seu colega ocidental. Para o Ocidente e para o papado, a coroação foi da maior consequência. Levantou questões de poder imperial e de autoridade papal que seriam disputadas ao longo de toda a Idade Média. Acentuou o sentimento de que igreja e Estado eram apenas dois lados do mesmo escudo, um conduzindo o homem à felicidade temporal, o outro à bem-aventurança eterna, ambos estreitamente relacionados e devendo-se auxílio mútuo. Tornou mais evidente do que nunca a profunda clivagem religiosa e política entre Oriente e Ocidente. Ao próprio grande imperador pareceu o cumprimento do sonho da Cidade de Deus de Agostinho (ver Período III, seção XVII): a união da cristandade num reino de Deus, do qual ele era a cabeça terrena. Seu poder nunca foi maior do que quando morreu, em 814.
Na ascensão de Carlos Magno, nenhuma escola da Europa ocidental era tão florescente quanto as que se achavam ligadas aos mosteiros das Ilhas Britânicas. Foi da Inglaterra que esse monarca de múltiplos interesses obteve seu principal auxiliar intelectual e literário. Alcuíno (735?-804) era provavelmente natural de York, e certamente estudou ali. De 781 até sua morte, com algumas interrupções, foi o principal auxiliar de Carlos Magno num verdadeiro renascimento do saber clássico e bíblico, que tornou o reinado brilhante em comparação com os anos anteriores e elevou a vida intelectual do Estado franco. O próprio Carlos Magno, sem chegar a ser grande erudito, deu o exemplo como aluno ocasional nessa “escola do palácio”. Em 796 Carlos Magno fez de Alcuíno o chefe do mosteiro de São Martinho, em Tours, que se tornou então, sob sua direção, um centro de saber para todo o reino franco. Outros ajudaram nesse renascimento intelectual, como o lombardo Paulo Diácono (720?-795), o franco Einhard (770?-840) ou o visigodo Teodulfo (760?-821). A mera menção dessas várias origens nacionais mostra o cuidado que Carlos Magno demonstrou em obter, de qualquer parte da Europa ocidental, aqueles que pudessem elevar os padrões intelectuais de seu império.
Com esse crescimento do saber veio a discussão teológica. Os bispos espanhóis Elipando de Toledo e Félix de Urgel ensinavam uma cristologia adocionista: que Cristo, embora em sua natureza divina fosse o Filho de Deus, em sua natureza humana era filho apenas por adoção. Sob a liderança de Carlos Magno, essas opiniões foram condenadas em sínodos realizados em Regensburg (792) e Frankfurt (794). Nessa obra Carlos Magno considerava-se o guia teológico, não menos do que o protetor, da igreja. De modo semelhante, no sínodo de Frankfurt há pouco mencionado, Carlos Magno fez condenar as conclusões do Concílio Geral de 787 em Niceia (ver Período III, seção XI), rejeitou sua aprovação da veneração das imagens e fez publicar os Libri Carolini, que defendiam a sua posição. Em 809, num sínodo em Aachen, Carlos Magno aprovou o acréscimo espanhol filioque (ver Período III, seção XVII) ao chamado credo niceno-constantinopolitano. Todos esses atos foram praticados em consulta com os bispos e teólogos de seu reino, mas sem especial deferência ao papa nem remessa das questões ao juízo papal.
As instituições políticas romanas baseavam-se nas cidades, das quais dependia o campo circundante, e a organização cristã seguiu a mesma regra. Os distritos rurais dependiam dos bispos das cidades e de seus nomeados, e eram atendidos por eles, exceto onde, no Oriente, havia “bispos rurais”. As invasões germânicas alteraram essa situação. No século VI encontravam-se na França os começos do sistema paroquial (ver Período III, seção XII). Ali ele cresceu rapidamente, estimulado pelo costume de grandes proprietários de terras fundarem igrejas. Os fundadores e seus herdeiros conservavam o direito de nomear o titular. Essa situação deixava incerto o controle episcopal. Carlos Magno, portanto, determinou que, além do direito de ordenar todos os sacerdotes paroquiais, o bispo tivesse poder de visitação e de disciplina em toda a sua diocese. A situação eclesiástica foi ainda fortalecida pelo pleno estabelecimento legal dos dízimos. Havia muito favorecidos pelo clero, com base no exemplo do Antigo Testamento, foram exigidos por um sínodo franco em Mâcon, em 585. Pepino os tratou como encargo legal, e Carlos Magno deu-lhes plena sanção legal. Deviam ser recolhidos não só pelos bispos, mas pelo titular de cada paróquia e para seu uso. Além disso, constantes doações de terras à igreja haviam elevado as possessões eclesiásticas, no tempo dos primeiros carolíngios, a um terço do solo da França. Esses grandes domínios eram uma tentação constante na necessidade financeira de um Carlos Martel, que secularizou muito; mas sob o governo amistoso de Carlos Magno foram respeitados, ainda que as confiscações anteriores não tenham sido restituídas.
Sob Carlos Magno, a pregação foi incentivada e prepararam-se livros de sermões. A confissão era favorecida, embora ainda não obrigatória. Esperava-se que todo cristão soubesse recitar a Oração do Senhor e o Credo dos Apóstolos.
Carlos Magno renovou e ampliou o sistema metropolitano, que caíra em desuso. No começo de seu reinado havia apenas um metropolita no reino franco. No fim, havia vinte e dois. Estes eram agora geralmente conhecidos como arcebispos, título que remonta ao tempo de Atanásio, embora por muito tempo usado de modo impreciso. Na teoria carolíngia, o arcebispo era o juiz e a autoridade disciplinar dos bispos de sua província, dotado de poderes que o crescimento da jurisdição papal logo haveria de cercear. Era também seu dever convocar sínodos frequentes para considerar os problemas religiosos da arquidiocese, ou, como geralmente se dizia, da província.
Para melhor regular a vida de seus auxiliares clericais imediatos, o bispo Crodegango de Metz introduziu, por volta de 760, uma vida em comum semimonástica, que foi favorecida e difundida por Carlos Magno. Da designação dessa vida como vita canonica surgiu o nome “cônegos” para o clero ligado a uma catedral ou igreja colegiada. Seu local de reunião chamava-se capitulum, ou cabido, título logo aplicado aos próprios cônegos. Por esse meio, a vida e o trabalho do bispo e do clero imediatamente associado a ele foram em grande parte regulados. O próprio Carlos Magno designava os bispos de seu reino.
Em todas essas mudanças, exceto na da autoridade pessoal sobre as nomeações episcopais, Carlos Magno apenas levava adiante as reformas iniciadas por Bonifácio. Muito do que ele completou fora começado por seu pai, Pepino. Na morte de Carlos Magno, a igreja franca estava num estado muito melhor de instrução, disciplina e eficiência do que estivera sob os últimos merovíngios e os primeiros carolíngios.
O grande poder de Carlos Magno era pessoal. Mal ele havia morrido, começou o rápido declínio de seu império. Seu filho e sucessor, Luís, o Piedoso (814-840), tinha excelente caráter pessoal, mas estava totalmente aquém da tarefa deixada por Carlos Magno, ou até do controle de seus próprios filhos, que conspiraram contra ele e brigaram entre si. Depois de sua morte, dividiram o império entre si pelo Tratado de Verdun, em 843. A Lotário (843-855) couberam a Itália franca e uma faixa de território que incluía o vale do Ródano e a região situada imediatamente a oeste do Reno, juntamente com o título imperial. A Luís (843-875) foi dada a região a leste do Reno, de onde lhe veio o apelido de “o Germânico”. A Carlos, o Calvo (843-877), coube a maior parte da França moderna e, por fim, a coroa imperial. Esse Tratado de Verdun é geralmente considerado o ponto a partir do qual a França e a Alemanha seguem caminhos separados.
Esses governantes mostraram-se completamente incapazes de manter a unidade ou a defesa. A França sofreu gravemente com os ataques dos normandos escandinavos, que subiam por seus rios e incendiavam suas cidades, estabelecendo-se por fim (911) de modo permanente na Normandia. A Itália foi presa das incursões sarracenas, numa das quais (841) a própria igreja de São Pedro, em Roma, foi saqueada. Pouco depois, no começo do século X, as incursões dos húngaros levaram a devastação à Alemanha e à Itália. Nessas circunstâncias, quando a unidade ou a defesa nacional era impossível, o feudalismo desenvolveu-se com grande rapidez. Suas raízes remontam aos dias de declínio do Império Romano, mas com a morte de Carlos Magno ele recebeu grande impulso. Era intensamente divisivo, substituindo qualquer governo central forte por muitos centros locais de autoridade, ciumentos uns dos outros e empenhados em luta constante. Igrejas e mosteiros tornaram-se em grande parte presa dos nobres locais, ou defendiam seus direitos com dificuldade como partes do sistema feudal. Essa forma social e política de organização haveria de dominar a Europa até o século XIII e, em grande parte, tornar possível o crescimento do papado medieval.
O impulso dado ao saber por Carlos Magno não morreu imediatamente. Na corte de Carlos, o Calvo, João Escoto (?-877?), a quem muito mais tarde se acrescentou o nome de Erígena, ocupava uma posição semelhante à que Alcuíno ocupara sob Carlos Magno. Traduziu os muito admirados escritos do Pseudo-Dionísio (ver Período III, seção XIV) e desenvolveu sua própria filosofia neoplatônica, que sua época era ignorante demais para julgar herética ou ortodoxa. Na Alemanha, Rábano Mauro (776?-856), abade de Fulda e arcebispo de Mainz, discípulo de Alcuíno, alcançou merecida reputação como mestre, comentarista das Escrituras, promotor da instrução clerical e autor do que era quase uma enciclopédia. Em Hincmaro (805?-882), arcebispo de Reims, a França possuía não só um prelado de grande autoafirmação e influência, mas um polemista teológico de dons marcantes.
O renovado estudo de Agostinho que esse renascimento intelectual produziu levou a duas controvérsias doutrinárias. A primeira dizia respeito à natureza da presença de Cristo na Ceia. Por volta de 831, Pascásio Radberto, monge do mosteiro de Corbie, perto de Amiens, de notável erudição tanto na teologia grega como na latina, publicou o primeiro tratado completo sobre a Ceia do Senhor, De corpore et sanguine Domini. Nele ensinou, com Agostinho, que só os que participam com fé recebem a virtude do sacramento, e, com os gregos, que ela é o alimento da imortalidade; e também que, por milagre divino, a substância é feita o próprio corpo e sangue de Cristo. Isso era a transubstanciação, embora a palavra só viesse a ser cunhada no século XII. A Radberto respondeu Rábano Mauro; mas uma resposta mais elaborada foi a de um confrade de Corbie, Ratramno, por volta de 844. Ainda assim, sua opinião concordava em muito com a de Radberto. O corpo e o sangue de Cristo estão misteriosamente presentes; contudo, não são idênticos ao corpo que sofreu na cruz. A controvérsia não foi decidida na época, mas o futuro, na Igreja Romana, estava com Radberto.
A segunda controvérsia foi suscitada por Gottschalk (808?-868?). Monge de Fulda, tornado monge por consagração dos pais, seus esforços para libertar-se desses laços foram frustrados por Rábano Mauro. Voltou-se então para o estudo de Agostinho, e seu duro destino talvez o tenha levado a enfatizar uma dupla predestinação divina, para a vida ou para a morte. Foi atacado por Rábano Mauro e por Hincmaro, mas encontrou vigorosos defensores. Condenado como herege num sínodo em Mainz, em 848, passou os vinte anos seguintes em prisão monástica, perseguido por Hincmaro e recusando-se a retratar-se. A controvérsia foi um novo reacender da velha disputa entre o agostinianismo consequente e o semipelagianismo, que era a teoria efetiva de grande parte da igreja.
À medida que o colapso do império de Carlos Magno se tornava mais completo, porém, essas controvérsias e a vida intelectual da qual brotaram foram se apagando. Por volta de 900, uma barbárie renovada havia extinguido em grande parte a luz que brilhara intensamente um século antes. Havia uma grande exceção a essa condição geral. Na Inglaterra, Alfredo, o Grande (871-901?), distinguido como adversário bem-sucedido dos conquistadores dinamarqueses, reuniu à sua volta homens eruditos, num espírito semelhante ao de Carlos Magno, e incentivou a instrução do clero.
O colapso do império de Carlos Magno levou ao surgimento de um partido eclesiástico na França que, desesperando de ajuda da parte do Estado, voltava os olhos para o papado como fonte de unidade e de esperança. Esse partido via também com desconfiança qualquer controle da igreja pelos soberanos ou pela nobreza, e representava o ciúme dos bispos comuns e do baixo clero em relação aos grandes arcebispos, com suas afirmações de autoridade muitas vezes arbitrárias, dos quais Hincmaro era exemplo notório. O objetivo do movimento não era a exaltação do papado por si mesma; antes, sua exaltação como meio de conter o controle secular e o dos arcebispos, e de manter a unidade eclesiástica. Desse círculo, entre 847 e 852, e provavelmente da própria região de Reims, de Hincmaro, saiu uma das mais notáveis falsificações: as chamadas Decretais Pseudo-Isidorianas, que se apresentavam como coligidas por um certo Isidoro Mercator, com o que sem dúvida se tinha em vista Isidoro de Sevilha (ver Período III, seção XX) e Mário Mercator. Consistiam em decisões de papas e concílios, desde Clemente de Roma, no século I, até Gregório II, no VIII, parte genuínas e parte forjadas. A Doação de Constantino (ver Período IV, seção III) está incluída. Nelas os primeiros papas reivindicam para si a jurisdição suprema. Todos os bispos podem apelar diretamente à autoridade papal. Os direitos arquiepiscopais intermediários são limitados, e nem o papado nem os bispos estão sujeitos ao controle secular. O papado nada teve a ver com sua origem; mas ela haveria de ser usada poderosamente em favor das pretensões papais. A época era acrítica. A coleção passou imediatamente por genuína, e só foi desmascarada quando a Reforma despertou o estudo histórico.
Com o declínio do poder imperial, a independência do papado cresceu rapidamente. Os papas mostraram-se os homens mais fortes da Itália. Leão IV (847-855), ajudado por cidades do sul da Itália, derrotou os sarracenos e cercou com uma muralha o bairro de São Pedro, em Roma, a “Cidade Leonina”. Em Nicolau I (858-867) a sé romana teve seu ocupante mais capaz e mais afirmativo entre Gregório Magno e Hildebrando. Ele esboçou um programa de pretensões papais dificilmente superado depois, mas que o papado levaria séculos para realizar. Nicolau procurou realizar os ideais da Cidade de Deus de Agostinho. Em seu pensamento, a igreja é superior a todos os poderes terrenos, o governante de toda a igreja é o papa, e os bispos são seus agentes. Essas concepções ele conseguiu tornar efetivas em dois casos notáveis, nos quais teve ainda a vantagem de escolher o lado em que estava o direito. O primeiro foi o de Teutberga, a esposa ofendida de Lotário II da Lorena. Repudiada para que aquele soberano pudesse casar-se com sua concubina, Valdrada, ela apelou a Nicolau, que declarou nula a decisão de um sínodo realizado em Metz, em 863, que sancionara o divórcio, e excomungou os arcebispos de Trier e de Colônia, que haviam apoiado Lotário. O papa defendera a mulher indefesa, mas nem por isso deixou de humilhar dois dos mais poderosos prelados alemães e de frustrar um governante alemão. No segundo caso, Nicolau recebeu o apelo do bispo deposto Rotado de Soissons, que fora removido pelo prepotente arcebispo Hincmaro de Reims, e impôs sua restituição. Aqui Nicolau apareceu como protetor dos bispos contra seus metropolitas e defensor de seu direito de apelar ao papa como juiz final. Nessa disputa, as Decretais Pseudo-Isidorianas foram usadas pela primeira vez em Roma.
Num terceiro caso, Nicolau, embora tivesse o direito do seu lado, teve menos êxito. O imperador em Constantinopla, Miguel III, “o Bêbado”, era governado por seu tio, Bardas, homem de reputação duvidosa. O patriarca Inácio recusou o sacramento a Bardas e foi deposto. Em seu lugar, Bardas conseguiu a nomeação de um dos homens mais eruditos do mundo grego tardio, Fócio (patriarca 858-867, 878-886), então leigo. Inácio, assim prejudicado, apelou a Nicolau, que enviou legados a Constantinopla. Estes se uniram na aprovação de Fócio. O papa repudiou a ação deles e, em 863, declarou Fócio deposto. Fócio acusou então a Igreja ocidental de heresia por admitir a cláusula filioque no credo, jejuar aos sábados, usar leite, manteiga e queijo na Quaresma, exigir o celibato sacerdotal e restringir a confirmação aos bispos. Num sínodo sob sua liderança em Constantinopla, em 867, o papa foi condenado. Nicolau fracassou em sua tentativa de exercer autoridade sobre a Igreja oriental. A animosidade entre Oriente e Ocidente apenas aumentou, o que haveria de levar, em 1054, à separação completa das igrejas.
Durante esse período que se seguiu à morte de Carlos Magno, iniciaram-se importantes esforços missionários. Ansgário (801?-865), monge de Corbie, entrou na Dinamarca em 826, mas foi expulso no ano seguinte. Em 829 e 830 trabalhou na Suécia. Em 831 foi nomeado arcebispo da sé recém-constituída de Hamburgo, com jurisdição missionária prevista sobre a Dinamarca, a Noruega e a Suécia. A destruição de Hamburgo pelos dinamarqueses, em 845, resultou na transferência de Ansgário para Bremen, que foi unida eclesiasticamente a Hamburgo. Os esforços de Ansgário não contavam com o apoio de nenhuma força militar franca, e seus pacientes trabalhos realizaram pouco. A plena cristianização da Escandinávia ainda estava no futuro.
Maior êxito acompanhou as missões no Oriente. Os búlgaros, originalmente um povo turaniano vindo do leste da Rússia, haviam conquistado no século VII um grande território na região dos Bálcãs e, por sua vez, adotado os costumes e a língua de seus súditos eslavos. Sob seu rei, Bóris (852-884), o cristianismo foi introduzido, sendo Bóris batizado em 864. Por algum tempo indeciso entre Constantinopla e Roma, Bóris escolheu por fim a obediência espiritual à primeira, já que o patriarca de Constantinopla estava disposto a reconhecer uma igreja búlgara autônoma. Essa adesão teve imensa consequência para determinar o crescimento futuro da Igreja Grega na Europa oriental. Os missionários mais célebres entre os eslavos foram, porém, os irmãos Cirilo (?-869) e Metódio (?-885). Naturais de Tessalônica, haviam alcançado alta posição no império oriental. A pedido de Rostislau, duque da Morávia, o imperador oriental Miguel III enviou para lá os irmãos em 864. Ali trabalharam com grande êxito. Uma luta de vários anos entre o papado e Constantinopla pela posse desse território recém-conquistado resultou na vitória final de Roma. O uso de uma liturgia eslava foi permitido pelo papa João VIII (872-882), embora logo retirado, mas foi dessa fonte que o culto em eslavo chegou, por fim, à igreja russa. Da Morávia, o cristianismo em sua forma romana chegou à Boêmia por volta do fim do século IX.
1. Gee e Hardy, Documents Illustrative of English Church History [Documentos ilustrativos da história da Igreja inglesa], pp. 9, 10.
2. Robinson, Readings in European History [Leituras de história europeia], 1:105-111.
3. Henderson, Select Historical Documents [Documentos históricos selecionados], pp. 319-329.
Tradução para o português a partir de Williston Walker, A History of the Christian Church (Nova York, Charles Scribner’s Sons, 1918), 1ª edição, conferida com as imagens das páginas; domínio público. As notas são de Walker; as que eram só referência bíblica passaram para o texto. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.