Walker, História da Igreja Cristã · Período IV
VII. Decadência do papado e renovação pelo Império restaurado; VIII. Movimentos de Reforma; IX. O partido da Reforma conquista o papado; X. O papado rompe com o Império; XI. Hildebrando e Henrique IV; XII. A luta termina em acordo; XIII. A Igreja Grega depois da controvérsia das Imagens; XIV. A expansão da Igreja.
Pode parecer estranho que o papado, que mostrara tamanho poder sob Nicolau I, tenha caído, menos de vinte e cinco anos depois da morte dele, em sua mais baixa degradação. A explicação está na anarquia crescente da época. Até certo ponto, o colapso do império favoreceu o desenvolvimento da autoridade papal; passado esse ponto, o papado tornou-se joguete dos nobres italianos e, por fim, de qualquer facção que dominasse Roma, visto que o papa era escolhido pelo clero e pelo povo da cidade. O papado já não podia apelar a nenhuma potência política forte de fora, como Zacarias apelara a Pepino contra os lombardos.
No fim do século IX, o papado viu-se envolvido nas disputas pela posse da Itália. Estêvão V (885-891) foi subjugado por Guido, duque de Espoleto, e obrigado a conceder-lhe o vazio título imperial. Formoso (891-896) era igualmente dependente e coroou imperador o filho de Guido, Lamberto, em 892. Formoso procurou livrar-se dessa situação em 893, chamando em seu auxílio Arnulfo, que os alemães haviam escolhido como rei em 887. Em 895 Arnulfo tomou Roma e, no ano seguinte, foi coroado imperador por Formoso. Poucos meses depois, Lamberto era por sua vez senhor de Roma, e seu partidário, Estêvão VI (896-897), mandou desenterrar os restos de Formoso, falecido havia pouco, condená-los num sínodo e tratá-los com extrema indignidade. Um motim, porém, lançou Estêvão VI na prisão, onde foi estrangulado.
Os papas passaram então a suceder-se rapidamente, conforme as diversas facções dominavam Roma. Entre a morte de Estêvão VI (897) e a ascensão de João XII (955), nada menos que dezessete ocuparam o trono papal. As influências dominantes nos primeiros anos do século X foram as do nobre romano Teofilato e de suas famigeradas filhas, Marózia e Teodora. Os papas eram criaturas deles. De 932 até sua morte em 954, Roma foi governada pelo filho de Marózia, Alberico, homem de força, capacidade e caráter, que muito fez por reformas eclesiásticas em Roma, mas que, ainda assim, garantiu a nomeação de seus partidários como papas. Ao morrer, teve como sucessor no governo temporal de Roma o filho, Otaviano, que pouco tinha das rudes virtudes do pai. Embora sem idoneidade moral para o cargo, Otaviano conseguiu eleger-se papa em 955, tomando nessa qualidade o nome de João XII (955-964), e foi um dos primeiros papas a adotar um nome novo ao ser eleito. Ele alterou toda a situação romana e abriu um novo capítulo na história do papado ao pedir o auxílio do hábil soberano alemão Oto I contra o poder ameaçador de Berengário II, que se assenhoreara de grande parte da Itália.
A linhagem de Carlos Magno extinguiu-se na Alemanha em 911, com a morte de Luís, o Menino. Com a desintegração do império carolíngio e o crescimento do feudalismo, a Alemanha ameaçava desfazer-se em suas divisões tribais: Baviera, Suábia, Saxônia, Francônia e Lorena. Os homens mais poderosos eram os duques tribais. A necessidade de defesa contra os normandos e os húngaros impôs certo grau de unidade, favorecido pelo ciúme que os bispos sentiam do poder crescente da nobreza secular. Em 911, portanto, os nobres alemães e o alto clero escolheram como rei Conrado, duque da Francônia (911-918). Ele se mostrou insuficiente, e em 919 Henrique, o Passarinheiro, duque da Saxônia, foi eleito seu sucessor (919-936). Sua capacidade esteve à altura da situação. Embora tivesse pouco poder fora da Saxônia, obteve a paz com os demais duques, fortificou seus próprios territórios, repeliu os dinamarqueses, subjugou os eslavos a leste do Elba e, finalmente, em 933, derrotou os invasores húngaros. Os piores perigos da Alemanha estavam afastados e lançados os alicerces de uma monarquia forte quando lhe sucedeu como rei o filho, ainda mais capaz, Oto I (936-973).
A primeira obra de Oto foi a consolidação do reino. Fez dos duques semi-independentes vassalos efetivos seus. Nessa obra valeu-se sobretudo do auxílio dos bispos e dos grandes abades. Eles controlavam extensos territórios da Alemanha e, ao prover esses postos com partidários seus, Oto dispunha de forças que, somadas às próprias, bastavam para dominar qualquer coalizão hostil de nobres leigos. Ele nomeava os bispos e abades, e sob ele estes se tornaram, como continuariam a ser até as guerras napoleônicas, governantes leigos além de prelados espirituais. Surgiu assim a peculiar constituição da Alemanha, pela qual o poder imperial se apoiava no controle das nomeações eclesiásticas, situação que haveria de conduzir, no século seguinte, à luta das investiduras com o papado. À medida que estendia seu poder, Oto fundou novos bispados nas fronteiras do reino, com fins em parte políticos e em parte missionários, como Brandemburgo e Havelberg entre os eslavos, e Schleswig, Ribe e Aarhus para os dinamarqueses. Estabeleceu também o arcebispado de Magdeburgo.
Se Oto tivesse limitado sua obra à Alemanha, isso teria sido em proveito daquela terra e da edificação duradoura de uma monarquia central forte. Ele, porém, sentiu-se atraído pela Itália e ali estabeleceu relações da maior importância histórica, mas destinadas a dissipar a força da Alemanha por séculos. Uma primeira invasão, em 951, fez dele senhor do norte da Itália. Uma rebelião em casa (953) e uma grande campanha contra os húngaros (955) interromperam o empreendimento italiano; mas em 961 ele invadiu novamente a Itália, a convite do papa João XII, então duramente pressionado por Berengário II (ver Período IV, seção VII). Em 2 de fevereiro de 962, Oto foi coroado imperador em Roma por João XII, acontecimento que, embora em teoria continuasse a sucessão dos imperadores romanos desde Augusto e Carlos Magno, foi a inauguração do Sacro Império Romano, que haveria de subsistir em nome até 1806. Em teoria, o imperador era o chefe da cristandade secular, assim constituído com a aprovação da igreja, expressa na coroação pelo papado. Na prática, era um governante alemão mais ou menos poderoso, com possessões italianas, em termos variáveis com os papas.
João XII logo se cansou do controle efetivo de Oto e conspirou contra ele. Oto, homem de forte sentimento religioso, para quem tal papa era um escândalo, sem dúvida também foi movido pelo desejo de firmar seu domínio sobre os bispos alemães, garantindo para a igreja uma cabeça mais digna e mais dócil. Em 963 Oto obrigou o povo romano a jurar que não escolheria papa algum sem o seu consentimento, fez depor João XII e promoveu a escolha de Leão VIII (963-965). O novo papa sustentava-se unicamente pelo apoio imperial. Com a partida de Oto, João XII reassumiu o papado e, à morte de João, as facções romanas escolheram Bento V. Mais uma vez Oto voltou, mandou Bento para o exílio, restaurou Leão VIII e, após a pronta morte de Leão, fez escolher João XIII (965-972). Oto resgatara o papado, por ora, das mãos dos nobres romanos, mas ao preço da subserviência a ele próprio.
O filho e sucessor de Oto, Oto II (973-983), seguiu substancialmente a mesma política do pai, em casa e quanto ao papado, embora com mão mais fraca. O filho deste, Oto III (983-1002), foi mais longe. Os nobres romanos haviam outra vez dominado o papado durante sua menoridade, mas em 996 ele entrou em Roma, subjugou-os e fez seu primo Bruno ser feito papa como Gregório V (996-999), o primeiro alemão a ocupar o ofício papal. Após a morte de Gregório, Oto III colocou no trono papal seu preceptor, Gerberto, arcebispo de Reims, como Silvestre II (999-1003), o primeiro papa francês e o homem mais douto da época.
A morte de Oto III extinguiu a linha direta de Oto I, e o trono coube a Henrique II (1002-1024), duque da Baviera e bisneto de Henrique, o Passarinheiro. Homem cheio de sincero desejo de melhorar o estado da igreja, sentiu-se ainda assim forçado, pelas dificuldades em conquistar e manter sua posição, a exercer controle estrito sobre as nomeações eclesiásticas. Tinha as mãos demasiado presas pelos assuntos alemães para intervir eficazmente em Roma. Ali os condes de Túsculo obtiveram o controle do papado e garantiram a nomeação de Bento VIII (1012-1024), com quem Henrique mantinha boas relações e por quem foi coroado. Henrique chegou a persuadir o pouco espiritual Bento VIII, num sínodo em Pavia em 1022, ao qual estiveram presentes o papa e o imperador, a renovar a proibição do casamento sacerdotal e a favorecer outras medidas que a época considerava reformas.
Com a morte de Henrique II, a linha direta extinguiu-se mais uma vez, e o trono imperial coube a um conde franconiano, Conrado II (1024-1039), um dos mais capazes governantes alemães, sob o qual o império ganhou grande força. Seus pensamentos, porém, eram políticos, e considerações políticas determinavam suas nomeações eclesiásticas. Em Roma ele não interveio. Ali o partido tusculano garantiu o papado para o irmão de Bento VIII, João XIX (1024-1032), e, à morte deste, para o sobrinho de doze anos, Bento IX (1033-1048), ambos indignos, e o último, um dos piores ocupantes do trono papal. Criou-se em Roma uma situação intolerável, à qual pôs fim (ver Período IV, seção VIII) o hábil e muito mais religioso filho de Conrado, Henrique III, imperador de 1039 a 1056.
O próprio Carlos Magno valorizava o monaquismo mais pela sua obra educacional e cultural do que pelos seus ideais ascéticos. Esses ideais, contudo, atraíram no reinado de Carlos Magno um nobre soldado do sul da França, Witiza, ou, como logo foi conhecido, Bento (750?-821), chamado de Aniane por causa do mosteiro que fundou em 779. O objetivo de Bento era assegurar por toda parte a plena observância ascética da Regra de Bento de Núrsia (ver Período III, seção VII). O lado educacional ou laboral do monaquismo pouco o atraía. Ele queria elevar o monaquismo a uma atividade maior no culto, na contemplação e na abnegação. Sob Luís, o Piedoso, Bento tornou-se o principal conselheiro monástico daquele imperador e, por ordem imperial, em 816 e 817, a interpretação que Bento de Aniane dava à Regra do Bento mais antigo tornou-se obrigatória para todos os mosteiros do império. Daí resultou, sem dúvida, uma melhora muito considerável na condição deles. A maior parte desses benefícios se perdeu, porém, no colapso do império, em que o monaquismo partilhou a queda geral.
A própria miséria da época teve o efeito de desviar do mundo o espírito dos homens e de engrandecer o ideal ascético. Nos primeiros anos do século X começava um verdadeiro reavivamento ascético da religião, que haveria de crescer em força por mais de dois séculos. Sua primeira manifestação notável foi a fundação, em 910, pelo duque Guilherme, o Piedoso, da Aquitânia, do mosteiro de Cluny, não longe de Mâcon, no leste da França.1 Cluny devia ser livre de toda jurisdição episcopal ou mundana, autônomo, mas sob a proteção do papa. Suas terras deviam estar a salvo de toda invasão ou secularização, e sua regra seria a de Bento, interpretada com grande rigor ascético. Cluny foi governado por uma série de abades de caráter e capacidade notáveis. Sob o primeiro e o segundo deles, Bernão (910-927) e Odo (927-942), teve muitos imitadores, graças ao trabalho enérgico de ambos. Até o mosteiro beneditino matriz de Monte Cassino, na Itália, foi reformado segundo as linhas de Cluny e, com o favor de Alberico, fundou-se um mosteiro, Santa Maria no monte Aventino, que representava as ideias de Cluny em Roma. À morte de Odo, o movimento de Cluny estava difundido pela França e pela Itália.
Não fazia parte do propósito original de Cluny colocar outros mosteiros sob sua dependência, nem desenvolver planos eclesiástico-políticos de longo alcance. Seu objetivo era uma reforma monástica pelo exemplo e pela influência. Mesmo assim, já à morte do primeiro abade, cinco ou seis mosteiros estavam sob o controle do abade de Cluny. Sob o quinto abade, Odilo (994-1048), porém, Cluny tornou-se a cabeça de uma “congregação”, pois ele colocou todos os mosteiros fundados ou reformados por Cluny na dependência da casa-mãe, sendo seus superiores nomeados pelo próprio abade de Cluny e responsáveis perante ele. Isso era novo no monaquismo e fez de Cluny praticamente uma ordem, sob uma só cabeça, com toda a força e influência que tal constituição implica. Passou então a ter uma força comparável à dos dominicanos ou dos jesuítas de tempos posteriores. Com esse crescimento veio uma ampliação dos objetivos reformadores do movimento de Cluny. Exemplo disso é a “Trégua de Deus”. Embora não tivesse se originado em Cluny, foi adotada e muito promovida pelo abade Odilo de 1040 em diante. Seu objetivo era limitar as constantes guerras miúdas entre os nobres, prescrevendo um período de interdição em memória da paixão de Cristo, da noite de quarta-feira até a manhã de segunda, durante o qual os atos de violência seriam punidos com severas penas eclesiásticas. Seu propósito era excelente; seu êxito, apenas parcial.
À medida que crescia, o movimento de Cluny conquistou o apoio do clero e tornou-se um esforço, não pela reforma do monaquismo, como no início, mas por uma ampla melhoria da vida clerical. Na primeira metade do século XI, o partido de Cluny, como um todo, opunha-se à “simonia” (At 8.18-24) e ao “nicolaísmo” (Ap 2.6, 14-15). Pela primeira entendia-se qualquer concessão ou recebimento de um ofício clerical em troca de pagamento em dinheiro ou de outra vantagem sórdida. Pelo segundo, qualquer violação do celibato clerical, por casamento ou concubinato. Esses reformadores desejavam um clero digno, nomeado por razões espirituais, conforme a época entendia a dignidade. Embora muitos do partido de Cluny, e até abades do próprio Cluny, aparentemente nada tivessem a criticar nas nomeações eclesiásticas feitas pelos reis, desde que feitas por motivos espirituais, em meados do século XI uma grande parcela considerava simonia qualquer investidura feita por um leigo e tinha como ideal reformador um papado forte o bastante para tirar dos reis e príncipes aquilo que julgava serem seus poderes usurpados de designação clerical. Foi essa a parcela que haveria de apoiar Hildebrando em sua grande luta.
Também fora do movimento de Cluny a reforma ascética foi característica dos séculos X e XI. Na Lorena e em Flandres, um reavivamento monástico de grandes proporções foi iniciado por Gerardo, abade de Brogne (?-959). Na Itália, Romualdo de Ravena (950?-1027) organizou colônias de eremitas, chamadas “desertos”, nas quais se praticava o mais estrito ascetismo e das quais saíam missionários e pregadores. O “deserto” mais famoso, que ainda existe e deu nome ao movimento, é o de Camaldoli, perto de Arezzo. Mais famoso ainda foi Pedro Damião (1007?-1072), também de Ravena, ardoroso defensor da reforma monástica e adversário da simonia e do casamento clerical, que foi durante algum tempo cardeal-bispo de Óstia e uma figura eclesiástica de destaque na Itália na promoção das ideias hildebrandinas, antes do papado de Hildebrando.
Fica evidente que, antes de meados do século XI, um forte movimento de reforma eclesiástica se fazia sentir. Henrique II simpatizara em grande medida com ele (ver Período IV, seção VIII). Henrique III (1039-1056) esteve ainda mais sob sua influência. O abade Hugo de Cluny (1049-1109) era amigo íntimo desse imperador, e a imperatriz Inês, da Aquitânia, fora criada na mais calorosa simpatia pelo partido de Cluny, do qual o pai dela fora devotado adepto. Henrique III era pessoalmente de natureza religiosa e, embora não hesitasse em controlar as nomeações eclesiásticas por razões políticas tão plenamente quanto seu pai, Conrado II, não aceitava dinheiro por isso, denunciava a simonia e nomeava bispos de elevado caráter e zelo reformador.
A situação em Roma exigia a intervenção de Henrique III, pois se tornara agora um escândalo intolerável. Bento IX, colocado no trono pelo partido tusculano, mostrara-se tão indigno que seus rivais, os nobres da facção dos Crescenzi, conseguiram expulsá-lo de Roma em 1044 e instalar em seu lugar o seu representante, como Silvestre III. Bento, porém, logo voltou a dominar parte da cidade e então, cansado temporariamente de seu alto ofício e provavelmente planejando casar-se, vendeu-o em 1045 por um preço que se diz ter sido de mil ou de duas mil libras de prata. O comprador foi um arcipreste romano de boa reputação de piedade, João Graciano, que tomou o nome de Gregório VI. Ao que parece, poucos sabiam da compra. Gregório foi a princípio bem recebido por reformadores como Pedro Damião. O escândalo logo se tornou de domínio público. Bento IX recusou-se a renunciar ao papado, e havia agora três papas em Roma, cada um de posse de uma das igrejas principais, e cada um denunciando os outros dois. Henrique III interveio então. Num sínodo realizado por ele em Sutri, em dezembro de 1046, Silvestre III foi deposto, e Gregório VI obrigado a renunciar e banido para a Alemanha. Poucos dias depois, um sínodo em Roma, sob supervisão imperial, depôs Bento IX. Henrique III imediatamente indicou, e o clero e o povo da cidade, intimidados, elegeram um alemão, Suidger, bispo de Bamberg, como Clemente II (1046-1047). Henrique III atingira o ponto mais alto do controle imperial sobre o papado. Tão grato pareceu o resgate do papado de sua degradação anterior que o partido reformador a princípio não criticou seriamente essa dominação imperial; mas ela não podia durar muito sem levantar a questão da independência da igreja. A própria perfeição da obra de Henrique logo despertou oposição.
Henrique III teve repetidas ocasiões de mostrar seu controle sobre o ofício papal. Clemente II morreu logo, e Henrique fez colocar no trono papal outro bispo de seu império, como Dâmaso II. O novo papa sobreviveu apenas alguns meses. Henrique nomeou então para a sé vacante seu primo Bruno, bispo de Toul, reformador completo, em plena simpatia com Cluny, que viajou a Roma como peregrino e, após uma eleição canônica meramente formal pelo clero e pelo povo da cidade (pois o ato do imperador era o que decidia), tomou o título de Leão IX (1049-1054).
Leão IX lançou-se vigorosamente à tarefa da reforma. Sua medida mais eficaz foi uma grande alteração na composição dos conselheiros imediatos do papa, os cardeais. O nome “cardeal” fora empregado originalmente para indicar um clérigo ligado de forma permanente a um cargo eclesiástico. Na época de Gregório I (590-604), porém, seu uso em Roma estava se tornando técnico. Desde uma época incerta, mas anterior à conversão de Constantino, em cada distrito de Roma uma determinada igreja era considerada, ou designada, a mais importante, originalmente, ao que parece, como o lugar exclusivo dos batismos. Essas igrejas eram conhecidas como igrejas “titulares”, e seus presbíteros ou presbíteros principais eram os sacerdotes “cardeais”, isto é, principais, de Roma. De modo semelhante, os chefes dos distritos de caridade em que Roma foi dividida no século III eram conhecidos como os diáconos “cardeais”, ou principais. Num período posterior, mas certamente já no século VIII, os bispos das imediações de Roma, os bispos “suburbicários” ou suburbanos, eram chamados “cardeais-bispos”. Essa divisão do colégio dos cardeais em “cardeais-bispos”, “cardeais-presbíteros” e “cardeais-diáconos” persiste até hoje. Como o clero principal de Roma e arredores, eles eram, muito antes que o nome “cardeal” se ligasse exclusiva ou mesmo principalmente a eles, os principais auxiliares e conselheiros do papa.
Ao chegar ao papado, Leão IX encontrou o cardinalato repleto de romanos e, na medida em que representavam as facções nobres que por longo tempo haviam dominado o papado antes da intervenção de Henrique III, de homens sem simpatia pela reforma. Leão IX nomeou para vários desses altos postos homens de zelo reformador vindos de outras partes da cristandade ocidental. Assim mudou em grande parte as simpatias do cardinalato, cercou-se de auxiliares de confiança e, em medida considerável, tornou o cardinalato dali em diante representativo da Igreja Ocidental como um todo, e não apenas da comunidade local romana. Foi um passo de consequências de longo alcance. Três dessas nomeações tiveram significado especial. Humberto, monge da Lorena, foi feito cardeal-bispo e, até sua morte em 1061, haveria de ser um dos principais adversários da investidura leiga e uma força na política papal. Hugo, o Branco, monge das vizinhanças de Toul, que viveria até depois de 1098, tornou-se cardeal-presbítero e por muito tempo apoiou a reforma, só para se tornar, nos últimos vinte anos de vida, o mais amargo adversário de Hildebrando e de seus sucessores. Por fim, o próprio Hildebrando, que acompanhara Leão IX desde a Alemanha, foi feito subdiácono, encarregado, em medida bastante considerável, da administração financeira da sé romana. Leão IX nomeou outros homens de capacidade e zelo reformador para cargos importantes, ainda que menos destacados, em Roma e arredores.
Hildebrando, que agora se associava ao cardinalato, é a personalidade mais notável da história papal medieval. Homem de pequena estatura e aparência pouco imponente, seu poder intelectual, sua firmeza de vontade e a amplitude ilimitada de seus desígnios fizeram dele a figura dominante de sua época. Nascido em condição humilde na Toscana, por volta do ano 1020, foi educado no mosteiro cluniacense de Santa Maria no Aventino, em Roma, e cedo se inflamou com os mais radicais ideais reformadores. Acompanhou Gregório VI à Alemanha quando esse infeliz papa foi banido (ver Período IV, seção VIII), e dali voltou a Roma com Leão IX. Provavelmente já era monge, mas é duvidoso que tenha estado alguma vez no próprio Cluny. Era, porém, ainda jovem, e atribuir-lhe a influência principal sob o vigoroso Leão IX é um erro. Leão era antes o seu mestre.
Leão IX entrou vigorosamente na obra da reforma. Mantinha relações cordiais com seus principais líderes: Hugo, abade de Cluny, Pedro Damião e Frederico da Lorena. Fez extensas viagens à Alemanha e à França, realizando sínodos e impondo a autoridade papal. Em seu primeiro sínodo de Páscoa em Roma, em 1049, condenou a simonia e o casamento sacerdotal nos termos mais severos. Um sínodo realizado sob sua presidência em Reims, no mesmo ano, afirmou o princípio da eleição canônica: “ninguém será promovido ao governo eclesiástico sem a escolha do clero e do povo”. Por essas viagens e assembleias a influência do papado cresceu grandemente.
Em suas relações com o sul da Itália e com Constantinopla, Leão IX foi menos feliz. As crescentes pretensões dos normandos, que desde 1016 vinham conquistando gradualmente a parte inferior da península, encontraram a oposição do papa, que reivindicava a posse para o papado. A interferência papal nas igrejas, especialmente da Sicília, que ainda prestava obediência a Constantinopla, despertou o enérgico patriarca daquela cidade, Miguel Cerulário (1043-1058), que então, em conjunto com Leão, metropolita da Bulgária, fechou as igrejas de rito latino em suas regiões e atacou a Igreja Latina numa carta escrita por este último, na qual repetia as velhas acusações de Fócio (ver Período IV, seção VI) e acrescentava a condenação do uso do pão sem fermento na Ceia do Senhor, costume que se tornara comum no Ocidente no século IX. Leão IX respondeu enviando a Constantinopla, em 1054, o cardeal Humberto e Frederico da Lorena, chanceler papal, que depositaram sobre o altar-mor de Santa Sofia uma excomunhão de Miguel Cerulário e de todos os seus seguidores. Esse ato tem sido geralmente considerado a separação formal das Igrejas Grega e Latina. Em 1053 as forças de Leão foram derrotadas, e ele próprio foi capturado pelos normandos. Não sobreviveu muito a essa catástrofe, morrendo em 1054.
À morte de Leão IX, Henrique III nomeou papa outro alemão, o bispo Gebhard de Eichstätt. Ele tomou o título de Vítor II (1055-1057). Embora amigo do partido da reforma, Vítor II era devotado admirador de seu patrono imperial e, com a morte inesperada do grande imperador em 1156 [N. do T.: assim no original impresso; leia-se 1056], muito fez para garantir a sucessão tranquila do filho de Henrique III, Henrique IV, então um menino de seis anos, sob a regência da imperatriz-mãe, Inês. Menos de um ano depois, Vítor II morreu.
O domínio de Henrique III era sem dúvida desagradável aos reformadores mais radicais, que o haviam suportado em parte por necessidade, já que não se via de que outro modo o papado poderia ser libertado do controle dos nobres romanos, e em parte pela simpatia de Henrique por muitos aspectos do movimento reformador. O próprio Henrique estivera tão firmemente entrincheirado em seu controle da igreja alemã, e do próprio papado, que as consequências lógicas do movimento reformador parecem não ter sido claras para ele. Agora ele se fora. Uma regência fraca tomara o seu lugar. O momento parecia maduro aos reformadores para um avanço que diminuísse o controle imperial ou, se possível, o eliminasse de vez.
À morte de Vítor II, os romanos, conduzidos pelo clero reformador, escolheram papa Frederico da Lorena, como Estêvão IX (1057-1058), sem consultar a regente alemã. Reformador completo, o novo papa era irmão do duque Godofredo da Lorena, inimigo da casa imperial alemã, que por seu casamento com a condessa Beatriz da Toscana se tornara o nobre mais forte do norte da Itália. Sob Estêvão, o cardeal Humberto publicou então um programa para o partido reformador em seus Três Livros contra os Simoníacos, nos quais declarava inválida toda nomeação feita por leigos e atacava especialmente a investidura leiga, isto é, a entrega, pelo imperador, de um anel e de um báculo ao bispo eleito, em sinal de sua posse no cargo. A vitória desses princípios minaria os alicerces do poder imperial na Alemanha. Sua afirmação vigorosa só podia levar a uma luta de proporções gigantescas. Ainda assim, Estêvão não ousou levar as coisas longe demais. Enviou, portanto, Hildebrando e o bispo Anselmo de Luca, que obtiveram da imperatriz Inês a aprovação de seu papado. Mal isso fora obtido, Estêvão morreu em Florença.
A morte de Estêvão provocou uma crise. Os nobres romanos reafirmaram sua antiga autoridade sobre o papado e escolheram, apenas uma semana depois, seu próprio partidário, Bento X. Os cardeais reformadores tiveram de fugir. Sua causa pareceu por um momento perdida. A situação foi salva pela firmeza e habilidade política de Hildebrando. Ele obteve a aprovação de Godofredo da Toscana e de parte do povo de Roma para a candidatura de Gerardo, bispo de Florença, reformador e, como Godofredo, natural da Lorena. Um representante dessa minoria romana obteve o consentimento da regente, Inês. Hildebrando reuniu então os cardeais reformadores em Siena, e ali Gerardo foi escolhido como Nicolau II (1058-1061). O auxílio militar de Godofredo da Toscana logo tornou o novo papa senhor de Roma. Sob Nicolau II, o poder real era o de Hildebrando e, em menor grau, o dos cardeais Humberto e Pedro Damião.
O problema era libertar o papado do controle dos nobres romanos sem cair sob a suserania do imperador. Era preciso encontrar algum apoio material para o papado. O auxílio da Toscana podia ser considerado garantido. Beatriz e sua filha, Matilde, haveriam de ser incansáveis no auxílio. Mas a Toscana não bastava. Sob a hábil orientação de Hildebrando, Nicolau II estabeleceu relações cordiais com os normandos, que tanto trabalho haviam dado a Leão IX, reconheceu suas conquistas e recebeu-os como vassalos do papado. Com igual habilidade, estabeleceram-se então ligações estreitas, em grande parte por intermédio de Pedro Damião e do bispo Anselmo de Luca, com o partido democrático da Lombardia conhecido como Pataria, oposto ao alto clero da região, antirreformador e imperialista. Fortalecido por essas novas alianças, Nicolau II, no sínodo romano de 1059, proibiu expressamente a investidura leiga em quaisquer circunstâncias.
O acontecimento mais significativo do papado de Nicolau II foi o decreto desse sínodo romano de 1059 que regulamentava a escolha do papa, a mais antiga constituição escrita hoje em vigor, pois, apesar de consideráveis modificações, rege até hoje a eleição dos papas. Em teoria, a escolha do papa fora, como a dos outros bispos, feita pelo clero e pelo povo da cidade de sua sé. Isso se chamava eleição canônica. Na prática, tal eleição significara o controle de qualquer poder político que fosse dominante em Roma. O propósito da nova constituição era afastar esse perigo. Na forma, ela convertia em lei as circunstâncias da própria eleição de Nicolau.2 Seu principal autor parece ter sido o cardeal Humberto. Determinava que, à morte de um papa, os cardeais-bispos deliberassem primeiro sobre o sucessor e depois se aconselhassem com os demais cardeais. Somente depois de feita a escolha por eles se deveriam buscar os sufrágios do restante do clero e do povo. Em linguagem estudadamente vaga, o documento resguarda “a honra e a reverência devidas ao nosso amado filho Henrique”, isto é, o jovem Henrique IV, mas não define em nada a parte do imperador na escolha. O propósito evidente era pôr a eleição nas mãos dos cardeais, primordialmente dos cardeais-bispos. Determinava-se, além disso, que o papa podia vir de qualquer parte da igreja, que a eleição podia realizar-se fora de Roma em caso de necessidade, e que o papa escolhido possuiria os poderes de seu ofício imediatamente após a eleição, onde quer que estivesse. Era, de fato, uma revolução no modo de escolha do papa, e daria ao ofício uma independência do controle político que até então não possuíra.
Mal esses novos resultados políticos e constitucionais haviam sido alcançados, viram-se ameaçados pela morte de Nicolau II em 1061. A do enérgico cardeal Humberto também ocorreu no mesmo ano. Hildebrando tornou-se, mais do que nunca, a força dominante no partido reformador. Menos de três meses após a morte de Nicolau, Hildebrando conseguira a eleição de seu amigo Anselmo, bispo de Luca, como Alexandre II (1061-1073). Os bispos alemães, porém, eram hostis ao novo método de eleição papal, os prelados lombardos desaprovavam o apoio papal à Pataria, e os nobres romanos ressentiam-se da perda de controle sobre o papado. Esses elementos hostis uniram-se então e, numa assembleia alemã realizada em Basileia em 1061, obtiveram da imperatriz regente a nomeação como papa de Cadalo, bispo de Parma, que tomou o nome de Honório II. Na luta que se seguiu, Honório quase venceu; mas uma revolução na Alemanha, em 1062, pôs o poder principal naquele reino e a tutela do jovem Henrique IV nas mãos do ambicioso Anno, arcebispo de Colônia. Anno queria estar bem com o partido reformador e lançou sua influência a favor de Alexandre, que foi declarado o papa legítimo num sínodo de prelados alemães e italianos realizado em Mântua em 1064. Assim a política ousada de Hildebrando triunfou sobre uma Alemanha dividida.
Alexandre II, sob a orientação de Hildebrando, fez avançar notavelmente a autoridade papal. Anno de Colônia e Siegfried de Mainz, dois dos mais poderosos prelados da Alemanha, foram obrigados a fazer penitência por simonia. Ele impediu Henrique IV de obter o divórcio da rainha Berta. Deu sua aprovação à expedição pirata de Guilherme, o Conquistador, que resultou na conquista normanda da Inglaterra em 1066, e favoreceu ainda os planos de Guilherme com a instalação de bispos normandos nas principais sés inglesas. Sancionou os esforços dos normandos do sul da Itália que haveriam de resultar na conquista da Sicília. Enquanto isso, Henrique IV atingiu a maioridade em 1065. Longe de ser um rei fraco, logo se mostrou um dos mais engenhosos governantes alemães. Era inevitável que a política papal quanto às nomeações eclesiásticas se chocasse com aquele controle histórico dos soberanos alemães sobre o qual tanto repousava o poder deles no império. A disputa efetiva surgiu em torno do arcebispado de Milão, posto de primeira importância para o controle do norte da Itália. Henrique nomeara Godofredo de Castiglione, a quem Alexandre acusara de simonia. A Pataria de Milão escolheu um certo Atto, que Alexandre reconheceu como arcebispo legítimo. Apesar desse ato, Henrique conseguiu então a consagração de Godofredo, em 1073, para o posto disputado. A luta estava plenamente travada. O conflito envolvia o poder do governo imperial e as pretensões do partido reformador papal radical. Alexandre via Henrique como um jovem bem-intencionado, desencaminhado por maus conselhos, e por isso excomungou não o próprio Henrique, mas seus conselheiros imediatos, como culpados de simonia. Poucos dias depois, Alexandre II morreu, deixando a grande disputa ao seu sucessor.
A eleição de Hildebrando deu-se com curioso desprezo pela nova constituição estabelecida sob Nicolau II. Durante os funerais de Alexandre II, em São João de Latrão, a multidão aclamou Hildebrando papa e levou-o, quase em tumulto, à igreja de São Pedro Acorrentado, onde foi entronizado. Tomou o nome de Gregório VII (1073-1085). Com sua ascensão, a interpretação mais extrema dos princípios de A Cidade de Deus de Agostinho chegara ao trono papal. Ele via o papado como uma soberania universal de instituição divina, à qual todos devem obedecer e perante a qual todos os soberanos terrenos são responsáveis, não só pelo seu bem-estar espiritual, mas pelo seu bom governo temporal. Embora o cardeal Deusdedit, e não Hildebrando, tenha sido provavelmente o autor do famoso Dictatus, este exprime bem os princípios de Hildebrando: “Que a Igreja Romana foi fundada somente por Deus.” “Que somente o pontífice romano pode com direito ser chamado universal.” “Que somente ele pode depor ou reintegrar bispos.” “Que somente ele pode usar [isto é, dispor das] insígnias imperiais.” “Que lhe é permitido depor imperadores.” “Que ele mesmo não pode ser julgado por ninguém.” “Que ele pode desligar os súditos da fidelidade devida a homens iníquos.”3 Era nada menos que um ideal de domínio do mundo. À luz da experiência posterior, pode ser chamado impraticável e até anticristão; mas nem Hildebrando nem sua época haviam passado por essa experiência. Era um grande ideal de uma possível sociedade humana regenerada, realizada pela obediência a um poder espiritual soberano, e como tal merecia respeito naqueles que o sustentavam, e era digno daquela prova que, só ela, poderia revelar seu valor ou sua inutilidade.
Os primeiros anos do pontificado de Hildebrando foram favoráveis ao papado. Uma rebelião contra Henrique IV por parte de seus súditos saxões, que tinham muitas queixas, e o descontentamento dos nobres de outras regiões mantiveram Henrique plenamente ocupado. Em 1074 ele fez penitência em Nuremberg diante dos legados papais e prometeu obediência. No sínodo de Páscoa em Roma, em 1075, Hildebrando renovou o decreto contra a investidura leiga, negando a Henrique qualquer participação na criação de bispos. Poucos meses depois, a sorte de Henrique mudou. Em junho de 1075, sua vitória sobre os saxões fez dele, aparentemente, senhor da Alemanha, e sua atitude para com o papado alterou-se rapidamente. Henrique fez de novo uma nomeação para o arcebispado de Milão. Hildebrando respondeu, em dezembro de 1075, com uma carta que pedia severas contas a Henrique.4 Em 24 de janeiro de 1076, Henrique, com seus nobres e bispos, realizou um concílio em Worms, no qual o cardeal vira-casaca Hugo, o Branco, se adiantou com acusações pessoais contra Hildebrando. Ali grande parte dos bispos alemães se uniu numa violenta denúncia de Hildebrando e na rejeição de sua autoridade como papa,5 ação para a qual logo se obteve a aprovação dos prelados lombardos.
A resposta de Hildebrando foi o mais famoso dos decretos papais medievais. No sínodo romano de 22 de fevereiro de 1076, ele excomungou Henrique, retirou-lhe a autoridade sobre a Alemanha e a Itália e desligou todos os súditos de Henrique de seus juramentos de fidelidade.6 Foi a afirmação mais ousada da autoridade papal jamais feita. A isso Henrique respondeu com uma carta inflamada dirigida a Hildebrando, “agora não papa, mas falso monge”, na qual o intimava a “descer, para ser condenado por toda a eternidade”.7
Se Henrique IV tivesse tido atrás de si uma Alemanha unida, o resultado bem poderia ter sido a queda de Hildebrando. A Alemanha não estava unida. Os saxões e os demais inimigos políticos de Henrique aproveitaram a oportunidade para lhe criar dificuldades. Até os bispos respeitavam a autoridade de um papa que nominalmente haviam rejeitado. Henrique não foi capaz de enfrentar a oposição crescente. Uma assembleia de nobres em Tribur, em outubro de 1076, declarou que, se ele não fosse absolvido da excomunhão dentro de um ano, seria deposto, e o papa foi convidado a uma nova assembleia, que se reuniria em Augsburgo em fevereiro de 1077, na qual se examinaria toda a situação política e religiosa da Alemanha. Henrique corria grande perigo de perder o trono. Tornou-se questão de importância vital livrar-se da excomunhão. Hildebrando recusou todos os apelos; resolveria as questões em Augsburgo.
Henrique IV decidiu então dar um passo do maior significado dramático e político. Iria ao encontro de Hildebrando antes que o papa pudesse chegar à assembleia de Augsburgo e arrancaria dele a desejada absolvição. Atravessou os Alpes no inverno e foi procurar Hildebrando no norte da Itália, por onde o papa passava a caminho da Alemanha. Na dúvida se Henrique vinha em paz ou em guerra, Hildebrando refugiou-se no forte castelo de Canossa, pertencente à sua ardorosa partidária, a condessa Matilde da Toscana, filha de Beatriz (ver Período IV, seção X). Para lá foi Henrique, e ali se apresentou diante do portão do castelo em três dias sucessivos, descalço como penitente. Os companheiros do papa intercederam por ele, e em 28 de janeiro de 1077 Henrique IV foi absolvido da excomunhão. Em muitos aspectos foi um triunfo político do rei. Ele lançara seus adversários alemães em confusão. Impedira que se realizasse com êxito uma assembleia em Augsburgo sob a liderança papal. Os planos do papa haviam sido frustrados. Ainda assim, o acontecimento sempre permaneceu na memória dos homens como a mais profunda humilhação do império medieval diante do poder da igreja.8
Em março de 1077, os inimigos alemães de Henrique, sem instigação de Hildebrando, escolheram Rodolfo, duque da Suábia, como antirrei. Seguiu-se a guerra civil, enquanto o papa equilibrava um pretendente contra o outro, na esperança de obter para si a decisão final. Forçado por fim a tomar partido, Hildebrando, no sínodo romano de março de 1080, excomungou e depôs Henrique pela segunda vez.9 As mesmas armas políticas raramente podem ser usadas duas vezes com eficácia. A opinião na Alemanha se cristalizara, e desta vez a ação do papa teve pouco efeito. Henrique respondeu com um sínodo em Brixen, em junho de 1080, que depôs Hildebrando10 e escolheu para papa em seu lugar um dos mais acérrimos adversários de Hildebrando, o arcebispo Wiberto de Ravena. Wiberto chamou-se Clemente III (1080-1100). A morte de Rodolfo em batalha, no outubro seguinte, deixou Henrique mais forte na Alemanha do que nunca. Ele decidiu livrar-se de Hildebrando. Em 1081 Henrique invadiu a Itália, mas levou três anos para se apoderar de Roma. Pressionados pelas esmagadoras forças alemãs e lombardas, os partidários políticos de Hildebrando mostraram-se fracos demais para oferecer resistência eficaz e duradoura. O povo romano, e nada menos que treze dos cardeais, voltaram-se para o vitorioso soberano alemão e seu papa. Em março de 1084, Wiberto foi entronizado e coroou Henrique imperador. Hildebrando, aparentemente um homem vencido, ainda ocupava o castelo de Santo Ângelo e recusava terminantemente qualquer acordo. Em maio, um exército normando veio em socorro de Hildebrando, mas esses rudes partidários incendiaram e saquearam Roma de tal modo que ele teve de retirar-se com eles e, depois de quase um ano desse doloroso exílio, morreu em Salerno, em 25 de maio de 1085.
As relações de Hildebrando com outros países foram deixadas de lado no relato de sua grande luta com a Alemanha. Basta dizer que seus objetivos eram semelhantes, embora, absorvido como estava pelo conflito com Henrique IV, nunca tenha levado as coisas a tal extremo com os reis da Inglaterra e da França. Procurou colocar o alto clero de toda parte sob seu controle. Mandou fazer uma extensa codificação do direito eclesiástico. Impôs o celibato clerical como regra não só teórica, mas prática, da Igreja Romana. Se seus métodos eram mundanos e inescrupulosos, como sem dúvida eram, nenhum infortúnio jamais o levou a abrandar suas pretensões, e mesmo na aparente derrota obteve uma vitória moral. Os ideais que ele estabelecera para o papado haveriam de viver muito depois dele.
À morte de Hildebrando, os cardeais que lhe eram fiéis escolheram como sucessor Desidério, o hábil e erudito abade de Monte Cassino, que tomou o nome de Vítor III (1086-1087). Tão desanimadoras eram as perspectivas que ele recusou por muito tempo essa duvidosa honra. Quando por fim a aceitou, abandonou discretamente os esforços mais extremos de Hildebrando pelo domínio do mundo, embora renovasse com o máximo vigor a proibição da investidura leiga. Conseguiu, porém, estar em Roma apenas alguns dias. A cidade permaneceu nas mãos de Wiberto e, antes do fim de 1087, Vítor III já não existia. A situação do partido de Hildebrando parecia quase desesperadora. Depois de muita hesitação, alguns dos cardeais reformadores reuniram-se em Terracina e escolheram um monge cluniacense francês, que Hildebrando nomeara cardeal-bispo, Odo de Lagery, como papa Urbano II (1088-1099). Homem de convicções hildebrandinas, sem o gênio de Hildebrando, Urbano era muito mais conciliador e politicamente hábil. Procurou, com grande êxito, criar um partido amigo entre o clero alemão, ajudado nisso pelos monges do influente mosteiro de Hirsau. Fomentou o descontentamento contra Henrique IV, muitas vezes por meios nada dignos. Contudo, só no fim de 1093 Urbano conseguiu tomar posse efetiva de Roma e expulsar Wiberto. Sua ascensão em poder foi daí em diante rápida. Num grande sínodo realizado em Piacenza em março de 1095, ele fez soar o chamado a uma cruzada. Em Clermont, em novembro do mesmo ano, deu vida à Cruzada (ver Período V, seção I). Na onda do movimento cruzado, Urbano elevou-se de imediato a uma posição de liderança europeia. Henrique IV e Wiberto podiam opor-se a ele, mas o papado alcançara um significado popular diante do qual eles nada tinham a oferecer.
Embora os homens estivessem cansados da longa contenda, o papa seguinte, Pascoal II (1099-1118), piorou as coisas em vez de melhorá-las. Os últimos dias de Henrique IV foram desastrosos. Uma rebelião bem-sucedida, encabeçada por seu filho, Henrique V (1106-1125), forçou sua abdicação em 1105. Sua morte seguiu-se no ano seguinte. A posição de Henrique V na Alemanha era mais forte do que jamais fora a de seu pai, e ele era mais inescrupuloso. A afirmação de seus direitos de investidura era tão insistente quanto a do pai. Em 1110 Henrique V marchou sobre Roma com grandes forças. Pascoal II estava impotente e não tinha a coragem de um Hildebrando. O papa e Henrique acordaram então (1111) que o rei renunciaria ao seu direito de investidura, desde que os bispos da Alemanha lhe entregassem todos os senhorios temporais.11 Isso teria sido uma revolução que reduziria a igreja alemã à pobreza, e o protesto levantado quando o acordo foi promulgado em Roma, em fevereiro de 1111, mostrou que era impossível de realizar. Henrique V então fez prisioneiros o papa e os cardeais. Pascoal fraquejou. Em abril de 1111, cedeu a Henrique a investidura com anel e báculo e coroou-o imperador.12 O partido hildebrandino protestou com violência. No sínodo romano de março de 1112, Pascoal retirou seu acordo, que podia bem sustentar ter-lhe sido arrancado à força. Um sínodo em Vienne, em setembro, excomungou Henrique e proibiu a investidura leiga, e o papa aprovou essa ação.
Mas a base de um acordo já estava à vista. Dois líderes eclesiásticos franceses, Ivo, bispo de Chartres, e Hugo de Fleury, em escritos entre 1099 e 1106, haviam sustentado que a igreja e o Estado tinham cada qual seus direitos de investidura, uma com a autoridade espiritual, o outro com a temporal. Anselmo, o famoso arcebispo de Cantuária (1093-1109), firme defensor dos princípios da reforma, recusara a investidura de Henrique I da Inglaterra (1100-1135), o que levou a uma disputa que terminou com a renúncia do rei à investidura com anel e báculo, conservando a coroa a investidura nas posses temporais, mediante o recebimento de um juramento de fidelidade. Esses princípios e precedentes influenciaram o curso posterior da controvérsia. O acordo veio em 1122, na Concordata de Worms, ajustada entre Henrique V e o papa Calisto II (1119-1124). Por mútuo acordo, as eleições de bispos e abades na Alemanha seriam livres e em forma canônica; permitia-se, porém, a presença do imperador na escolha e, em caso de eleição disputada, ele deveria consultar o metropolita e os demais bispos da província. Nas outras partes do império, a Borgonha e a Itália, não se fez menção da presença imperial. O imperador renunciou à investidura com anel e báculo, isto é, com os símbolos da autoridade espiritual. Em troca, o papa concedeu-lhe o direito de investidura nas posses temporais do ofício pelo toque do cetro real, sem exigir pagamento do candidato. Esse reconhecimento imperial deveria ocorrer na Alemanha antes da consagração, e nas outras partes do império dentro de seis meses depois dela.13 O efeito foi que, pelo menos na Alemanha, um bispo ou abade tinha de ser aceitável tanto à igreja quanto ao imperador. Na Itália, o poder imperial, que se apoiara no controle das nomeações eclesiásticas, ficou muito abalado. Foi um desfecho da luta que só em parte teria satisfeito Hildebrando. Ainda assim, a igreja ganhara muito. Se não se mostrara superior ao Estado, afirmara sua igualdade com o poder temporal.
A dinastia isáurica em Constantinopla (717-802) presenciou os graves conflitos internos causados pela controvérsia sobre o culto das imagens, que foi em certa medida uma luta pela liberdade da igreja em face do controle imperial (ver Período III, seção XI). Viu a perda de Roma e do Exarcado e o surgimento do império ocidental renovado sob Carlos Magno. Os períodos das dinastias frígia (820-867) e macedônica (867-1057) foram marcados por notável renascimento do saber, de modo que, intelectualmente, o Oriente era decididamente superior ao Ocidente. O patriarca Fócio, cuja disputa com Nicolau I já foi mencionada, era de eminente erudição. Seu Myriobiblon tem valor permanente, por conservar muito de autores clássicos antigos de outro modo perdidos. Simeão “Metafrastes” compilou no século X sua famosa coleção de vidas dos santos orientais. Em Simeão, “o Novo Teólogo” (?-1040?), a Igreja Grega teve seu mais nobre místico, que acreditava que a revelação da luz divina, a própria visão de Deus, é possível de alcançar e vem da graça, trazendo paz, alegria e justificação. Teologicamente, o mundo grego nada tinha de novo a oferecer. Apegava-se com intensidade às tradições do passado.
A principal controvérsia religiosa do Oriente nessa época foi a provocada pelos paulicianos. A origem e a história do movimento são obscuras. Eles se chamavam simplesmente cristãos, e seu apelido se deve, ao que parece, à reverência que tinham pelo apóstolo Paulo, e não, como às vezes se afirma, a alguma ligação real com Paulo de Samósata. O movimento parece ter começado com um certo Constantino-Silvano, de Mananalis, perto de Samósata, por volta de 650-660. Nele reapareceram antigas crenças heréticas, aparentadas com as dos marcionitas e dos gnósticos e talvez delas derivadas. Embora os paulicianos repudiassem o maniqueísmo, eram dualistas, sustentando que este mundo é criação de um poder mau, ao passo que as almas provêm do reino do Deus bom. Aceitavam o Novo Testamento, com a possível exceção dos escritos atribuídos a Pedro, como a mensagem do Deus justo. Viam Cristo como um anjo enviado pelo Deus bom e, portanto, Filho de Deus por adoção. Sua obra era primordialmente de instrução. Rejeitavam o monaquismo, os sacramentos exteriores, a cruz, as imagens e as relíquias. Seu ministério era o de pregadores itinerantes e “copistas”. Repudiavam a hierarquia católica. Opunham-se ao exteriorismo da vida religiosa ortodoxa corrente.
Os paulicianos parecem ter se espalhado rapidamente no império oriental e lançado raízes fortes na Armênia. Perseguidos pelos ortodoxos, suas aptidões militares granjearam-lhes considerável respeito. Constantino V transplantou colônias deles para a península balcânica em 752, como defesa contra os búlgaros, processo repetido em escala maior pelo imperador João Tzimisces em 969. Ali parecem ter dado origem aos bogomilos, muito semelhantes a eles, que por sua vez haveriam de influir no desenvolvimento dos cátaros do sul da França (ver Período V, seção III). Obrigados a buscar refúgio entre os sarracenos, algumas frações dos paulicianos assolaram as fronteiras do império no século IX e chegaram a penetrar profundamente nele, até que seu êxito militar, embora não sua atividade religiosa, foi definitivamente contido pelo imperador Basílio I, em 871.
A segunda metade do século IX e o século X foram um período de renovado poder militar para o império oriental, especialmente sob João Tzimisces (969-976) e Basílio II (976-1025). Por este último foram conquistadas a Bulgária e a Armênia. Dissensões internas e o medo de um militarismo usurpador enfraqueceram o império no século XI, de modo que a ascensão dos turcos seljúcidas o encontrou despreparado. Em 1071 os turcos conquistaram grande parte da Ásia Menor e, em 1080, estabeleceram-se em Niceia, a menos de cem milhas de Constantinopla. Essa grande perda para a cristandade haveria de ser uma das causas que levaram às Cruzadas.
Os séculos X e XI foram uma época de grande expansão do cristianismo. A obra de Ansgário nas terras escandinavas (ver Período IV, seção VI) deixara poucos resultados. A cristianização escandinava foi um processo lento e gradual. Unni, arcebispo de Hamburgo (918-936), imitou Ansgário, mas sem grande êxito. A obra foi levada adiante pelo arcebispo Adaldag (937-988). Sob sua influência, o rei Haroldo Dente-Azul, da Dinamarca, aceitou o cristianismo, e estabeleceram-se bispados dinamarqueses. Sob o filho de Haroldo, Sueno, o paganismo voltou ao poder; mas ele foi levado a favorecer a igreja em 995, e a obra foi completada na Dinamarca pelo rei Canuto, o Grande (1015-1035), que também governou a Inglaterra e, por algum tempo, a Noruega.
A história da Noruega é semelhante. Fizeram-se alguns começos cristãos sob Haakon I (935-961), e Haroldo Dente-Azul, da Dinamarca, enviou missionários. O cristianismo na Noruega não se estabeleceu de modo permanente até o tempo de Olavo I (995-1000), que trouxe pregadores ingleses. A obra estendeu-se então às Órcadas, às Shetland, às Hébridas, às Feroé, à Islândia e à Groenlândia, então em poder escandinavo. Olavo II (1015-1028) impôs o cristianismo na Noruega com medidas tão extremas que foi deposto e Canuto assumiu o controle; contudo, vive na tradição como Santo Olavo. Magno I (1035-1047) completou a obra.
Na Suécia, depois de muitos começos desde o tempo de Ansgário, o cristianismo foi efetivamente estabelecido pelo rei Olavo Skötkonung (994-1024), que foi batizado em 1008. Mesmo assim a obra foi lenta, e o paganismo só foi plenamente derrubado por volta de 1100. A Finlândia e a Lapônia só foram alcançadas dois séculos depois.
Depois de vários esforços no século X, o cristianismo foi efetivamente estabelecido na Hungria pelo rei Estêvão I (997-1038), organizador da monarquia húngara, que vive na história como Santo Estêvão. O duque polonês Mieszko aceitou o cristianismo em 967 e, em 1000, o rei Boleslau I (992-1025) organizou a igreja polonesa com um arcebispado em Gniezno. A Pomerânia só foi cristianizada em 1124-1128.
Os movimentos que acabamos de considerar foram obra da Igreja Latina. A grande expansão da Igreja Grega situa-se neste período e realizou-se pela conversão da Rússia. Seus começos são obscuros. Esforços para a difusão do cristianismo na Rússia parecem ter sido feitos já no tempo do patriarca de Constantinopla Fócio (866). A rainha russa Olga recebeu o batismo numa visita a Constantinopla em 957. A obra foi por fim definitivamente estabelecida pelo grão-duque Vladimir I (980-1015), que recebeu o batismo em 988 e obrigou seus súditos a seguirem seu exemplo. Um metropolita, nomeado pelo patriarca de Constantinopla, foi posto à frente da igreja russa, com sua sé logo em Kiev, de onde foi transferida em 1299 para a cidade de Vladimir e, em 1325, para Moscou.
1. Henderson, Select Historical Documents [Documentos históricos selecionados], pp. 329-333.
2. Texto em Henderson, Select Historical Documents, pp. 361-365. A chamada “versão papal” é, com toda a probabilidade, a original.
3. Henderson, Select Historical Documents, pp. 366-367; trechos em Robinson, Readings in European History [Leituras de história europeia], 1:274.
4. Henderson, pp. 367-371; Robinson, 1:276-279.
5. Henderson, pp. 373-376.
6. Henderson, pp. 376-377; Robinson, 1:281-282.
7. Henderson, pp. 372-373; Robinson, 1:279-281. A carta parece pertencer a este ponto, e não a janeiro de 1076, data a que muitas vezes é atribuída.
8. O melhor relato é o do próprio Hildebrando. Henderson, pp. 385-387; Robinson, 1:282-283.
9. Henderson, pp. 388-391.
10. Ibid., pp. 391-394.
11. Henderson, pp. 405-407; Robinson, 1:290-292.
12. Henderson, pp. 407-408.
13. Henderson, pp. 408-409; Robinson, 1:292-293.
Tradução para o português a partir de Williston Walker, A History of the Christian Church (Nova York, Charles Scribner’s Sons, 1918), 1ª edição, conferida com as imagens das páginas; domínio público. As notas são de Walker; as que eram só referência bíblica passaram para o texto. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.