Walker, História da Igreja Cristã · Período VI

Período VI, seções XIII a XV

XIII. As controvérsias alemãs e a Guerra dos Trinta Anos; XIV. O socinianismo; XV. O arminianismo.

Seção XIII. As controvérsias alemãs e a Guerra dos Trinta Anos

Foi uma infelicidade para o luteranismo não ter outro laço de união entre os seus representantes, nos vários territórios, além da concordância na “doutrina pura”, e considerar as diferenças de entendimento incompatíveis com a comunhão cristã. A concepção luterana original de uma fé que constitui uma nova relação pessoal entre Deus e a alma que crê tendeu a se diluir numa crença que, como Melanchthon certa vez a definiu, é “um assentimento pelo qual aceitas todos os artigos da fé”. O resultado foi uma nova escolástica protestante.

Melanchthon, influenciado pelo pensamento humanista, foi aos poucos passando da sua concordância original com Lutero para algumas ênfases diferentes das do seu colega maior. Por volta de 1527 já não simpatizava com a negação luterana da liberdade humana e chegara à conclusão de que a salvação só é possível pela ação cooperante da vontade do homem, opinião à qual se costuma dar o nome de “sinergismo”. Por volta de 1535 enfatizava as boas obras, não como preço da salvação, mas como sua prova indispensável. Quanto à Ceia do Senhor, passou a achar que Lutero havia enfatizado demais a presença física de Cristo e, sem chegar bem à posição de Calvino (ver Período VI, seção VIII), a sustentar que Cristo é dado “não no pão, mas com o pão”, isto é, a pôr a ênfase na recepção espiritual mais do que na física. Essas diferenças nunca provocaram rompimento com Lutero, em parte pela afeição generosa de Lutero pelo amigo mais jovem, em parte pela cautela de Melanchthon ao expressá-las, embora às vezes deixassem Melanchthon pouco à vontade na presença de Lutero, nos últimos anos do reformador. Haveriam de causar problemas de sobra nas comunhões luteranas.

Uma das principais causas de ressentimento foi o consentimento relutante de Melanchthon ao Ínterim de Leipzig, em 1548. Para Melanchthon, muitas práticas romanas então reintroduzidas eram “coisas indiferentes”. Para Matias Flácio Ilírico e Nikolaus von Amsdorf, na segurança de Magdeburgo, nada podia ser “indiferente” num tempo como aquele (ver Período VI, seção V). Atacaram Melanchthon com aspereza, e talvez ele merecesse parte da censura. Essa tensão logo cresceu com o sentimento dos príncipes da antiga linhagem eleitoral saxônia, que fora despojada, de que Melanchthon, ao permanecer em Wittenberg, que agora pertencia ao seu bem-sucedido espoliador, Moritz, era culpado de abandonar uma família que o havia apoiado fielmente; e eles engrandeceram a escola de Jena, que transformaram em universidade em 1558, nomeando Flácio para uma das suas cátedras.

Surgiram outras disputas teológicas. Andreas Osiander (1498-1552) provocou a oposição de todos os demais partidos luteranos ao declarar, com Paulo, que o pecador recebe uma justiça real do Cristo que nele habita, e não é simplesmente declarado justo. Georg Major (1502-1574) afirmou, em concordância essencial com Melanchthon, a necessidade das boas obras como provas da salvação. Em 1552 foi violentamente atacado por Amsdorf, que chegou a afirmar que as boas obras são um estorvo à vida cristã. No mesmo ano, Joachim Westphal (1510?-1574) atacou ferozmente a doutrina da Ceia do Senhor de Melanchthon como criptocalvinismo, isto é, calvinismo introduzido às escondidas. Não admira que, pouco antes da sua morte, ocorrida em 19 de abril de 1560, Melanchthon desse como motivo da sua disposição de partir o desejo de escapar da “fúria dos teólogos”.

A situação protestante na Alemanha foi pouco depois ainda mais agitada pelo avanço vitorioso do calvinismo no sudoeste. Frederico III (1559-1576), o excelente Eleitor Palatino, foi levado pelo estudo das discussões sobre a Ceia do Senhor a adotar a posição calvinista. Para os seus territórios, os jovens teólogos Kaspar Olevianus (1536-1587) e Zacharias Ursinus (1534-1583) prepararam em 1562 o notável Catecismo de Heidelberg, a mais suave de espírito e a mais experiencial das exposições do calvinismo.1 O Eleitor o adotou em 1563. Mas o calvinismo não tinha proteção sob a Paz de Augsburgo, de 1555, e não só os católicos, mas também os luteranos, logo protestavam contra a tolerância que lhe era dada.

As disputas no luteranismo continuaram com grande intensidade. Em 1573, o Eleitor Augusto da Saxônia (1553-1586), tendo assumido a tutela dos jovens príncipes da Saxônia ducal, onde os inimigos de Melanchthon dominavam, expulsou os seus representantes mais radicais. Até então a Saxônia eleitoral, com as suas universidades de Wittenberg e Leipzig, seguira a tradição melanchthoniana ou “filipista”. Agora, em 1574, o mesmo Eleitor Augusto, influenciado pela esposa e por um volume anônimo, julgou ter descoberto nos seus próprios domínios uma propaganda calvinista, até então insuspeitada, a respeito da Ceia do Senhor. Mandou prender alguns dos seus principais teólogos, e um deles chegou a ser torturado. O “filipismo” foi reprimido com vigor.

Essa luta, no entanto, deu origem, em 1577, ao último grande credo luterano, a Fórmula de Concórdia.2 Preparada por diversos teólogos, dos quais os principais foram Jakob Andreae (1528-1590), de Tübingen, Martin Chemnitz (1522-1586), de Brunsvique, e Nikolaus Selnecker (1530-1592), de Leipzig, foi publicada, depois de negociações intermináveis, em 1580, no quinquagésimo aniversário da Confissão de Augsburgo, com as assinaturas de aprovação de cinquenta e um príncipes, trinta e cinco cidades e entre oito e nove mil ministros. Vários príncipes e cidades luteranos recusaram a sua aprovação; mas ela sem dúvida representava a decidida maioria da Alemanha luterana. Não tão extremada quanto Flácio e Amsdorf, representa a interpretação luterana mais estrita. É minuciosa, técnica e escolástica, em contraste marcante com o frescor da Confissão de Augsburgo de meio século antes. Começara o período da alta ortodoxia luterana, que teria a sua exposição clássica em 1622, nos Loci Theologici de Johann Gerhard (1582-1637), de Jena. A sua escolástica era tão completa quanto qualquer outra da Idade Média. Sob essa repressão, os filipistas voltaram-se cada vez mais para o calvinismo, e o calvinismo fez maiores incursões na Alemanha. Ao Palatinado juntou-se Nassau em 1577, Bremen por volta de 1581, Anhalt em 1597 e parte de Hesse no mesmo período. A casa eleitoral de Brandemburgo, da qual descende a atual linhagem imperial alemã, tornou-se calvinista em 1613, embora a maioria dos habitantes de Brandemburgo continuasse luterana. Essa transformação muitas vezes se fez com a conservação da Confissão de Augsburgo. Mas, embora essas igrejas “reformadas” alemãs se tornassem calvinistas na doutrina e no culto, a disciplina característica de Calvino encontrou pouco espaço entre elas.

O protestantismo na Alemanha atingiu a maré mais alta do seu avanço territorial por volta de 1566. A partir daí começou a refluir. O catolicismo revigorado da Contrarreforma tornou-se cada vez mais agressivo, conduzido pelos jesuítas e apoiado por príncipes católicos fervorosos, como os duques da Baviera. O protestantismo dividido não conseguia oferecer resistência unida. Na Baviera, o duque Alberto V (1550-1579) aplicou com vigor o princípio cujus regio, ejus religio para esmagar a sua nobreza e o seu povo protestantes. O abade de Fulda tentou de modo semelhante reprimir o protestantismo nos seus territórios em 1572. Enfrentado com êxito por algum tempo, levou a cabo a tarefa em 1602. Restaurações católicas semelhantes se efetuaram nos territórios protestantizados pertencentes aos arcebispados de Mainz e de Trier. Sob a liderança jesuíta, avanços católicos semelhantes se fizeram em outros bispados cujos habitantes haviam abraçado as ideias evangélicas. O arcebispo de Colônia, Gebhard Truchsess, um dos sete Eleitores, decidiu casar-se, em 1582, e abraçou o protestantismo. Pouca ajuda lhe veio. Foi expulso da sua sé, de posição estratégica, e o território foi inteiramente restituído ao catolicismo. Na Áustria e na Boêmia, a situação tornou-se cada vez mais desfavorável ao protestantismo; e ali, como em outras partes do império, a propaganda jesuíta ganhou muitos convertidos individuais. Era agressiva e confiante na vitória final. A situação entre protestantes e católicos estava sempre tensa.

Um acontecimento dos anos 1606-1607 aumentou notavelmente essa amargura. A cidade de Donauwörth era esmagadoramente protestante, mas ali se haviam permitido mosteiros católicos. Uma procissão católica de 1606 foi apedrejada. Por ordem imperial, Maximiliano, o hábil duque católico da Baviera (1597-1651), ocupou a cidade e começou a reprimir o seu culto evangélico. Na Dieta de 1608, os católicos exigiram a restituição de todas as propriedades eclesiásticas confiscadas desde 1555. Para essa reivindicação tinham a letra estrita da lei, na Paz de Augsburgo; mas muitos desses distritos se haviam tornado, nas duas gerações decorridas, solidamente protestantes na sua população.

Nessas circunstâncias, vários príncipes protestantes formaram uma “União” defensiva em 4 de maio de 1608, chefiada pelo Eleitor calvinista Frederico IV do Palatinado. A ela os príncipes católicos, liderados por Maximiliano da Baviera, opuseram uma “Liga”, em 10 de julho de 1609. Os poderosos estados luteranos do norte da Alemanha não quiseram entrar na “União”, nem o Imperador estava na “Liga”. Se Henrique IV da França tivesse vivido, a guerra provavelmente teria rebentado nessa época; mas o seu assassinato em 1610 e a incerteza da sucessão imperial na Alemanha a adiaram por algum tempo.

Além das disputas amargas entre católicos e luteranos, a condição da Alemanha era, sob muitos aspectos, de inquietação. Os negócios iam mal. A moeda aviltada causava grande sofrimento, e o país empobrecia. A imposição da unidade de crença, tanto nos territórios protestantes quanto nos católicos, prejudicava a vida intelectual do povo; e a ilusão da feitiçaria, que custou milhares de vidas e era alimentada igualmente por católicos e protestantes, esteve no seu pior entre 1580 e 1620.

A deflagração efetiva da Guerra dos Trinta Anos veio da Boêmia. Essa terra, então em grande parte protestante, arrancara do seu rei, o imperador Rodolfo II (1576-1612), em 1609, uma carta, a Majestätsbrief, que concedia um alto grau de tolerância. Rodolfo foi sucedido, como imperador e como rei, pelo seu fraco irmão Matias (rei, 1611-1619; imperador, 1612-1619), mas este não tinha filhos, e em 1617 o seu primo, Fernando da Estíria, representante enérgico da Contrarreforma, conseguiu ser reconhecido pelos estados da Boêmia como sucessor de Matias. As influências católicas aumentaram, e em maio de 1618 um grupo de protestantes descontentes atirou de uma janela alta, em Praga, os dois regentes católicos que representavam o ausente Matias. Esse ato pôs a Boêmia em rebelião e deu início à guerra. O começo foi favorável aos insurgentes boêmios, e em 1619, depois da morte de Matias, elegeram rei o calvinista Frederico V (1610-1632), Eleitor Palatino. Na mesma semana, Fernando da Estíria foi escolhido imperador como Fernando II (1619-1637).

Frederico encontrou pouco apoio fora da Boêmia, e então Maximiliano da Baviera e uma força espanhola vinda dos Países Baixos acudiram em auxílio de Fernando. Sob o comando de um general valão, Jan Tzerklas, barão de Tilly (1559-1632), essa coligação católica esmagou as forças boêmias perto de Praga, em 8 de novembro de 1620. Frederico fugiu do país. A Majestätsbrief foi anulada, os bens dos protestantes boêmios foram em grande parte confiscados, com grande vantagem financeira para os jesuítas, e a Contrarreforma foi imposta com mão pesada na Boêmia, na Morávia e na Áustria. Entre os que se enriqueceram com a aquisição de bens confiscados estava alguém destinado a desempenhar grande papel na história posterior da guerra, Albrecht von Wallenstein (1583-1634). A “União” foi dissolvida. Uma repressão semelhante do protestantismo ocorreu então na Áustria.

Enquanto isso, tropas espanholas, sob Spínola, haviam invadido o Palatinado em 1620, e para lá logo seguiram Tilly e o exército da “Liga”. A terra foi conquistada, o catolicismo imposto, e o título eleitoral de Frederico, com boa parte do Palatinado, transferido para Maximiliano da Baviera em 1623.

O noroeste da Alemanha, onde muitos bispados se haviam tornado possessões protestantes desde a Paz de Augsburgo, viu-se então ameaçado de guerra, e os desastres que já haviam atingido o protestantismo despertaram as potências protestantes estrangeiras. Nada de eficaz se fez, porém, a não ser por Cristiano IV da Dinamarca, a quem a Inglaterra e os Países Baixos protestantes enviaram algum pequeno auxílio. Ao imperador Fernando, a inimizade do rei dinamarquês pareceu temível, e por isso ele recorreu a Wallenstein para levantar um novo exército como comandante-chefe imperial. Esse notável aventureiro, nascido protestante, era nominalmente católico e agora o nobre mais rico da Boêmia. Líder nato, levantou um exército no qual não fazia perguntas sobre raça ou credo, mas apenas sobre a capacidade de lutar e a lealdade a ele. Logo dispunha de uma força de grande eficiência.

Em 25 de abril de 1626, Wallenstein derrotou o exército protestante comandado por Ernst de Mansfeld na ponte de Dessau, sobre o Elba, perseguindo as forças batidas até a Hungria, para onde se retiraram na vã esperança de oferecer resistência eficaz em conjunto com o inimigo do Imperador, Bethlen Gabor, príncipe da Transilvânia. Em 27 de agosto de 1626, Cristiano IV da Dinamarca foi derrotado em Lutter por Tilly e pelo exército da “Liga”. Os católicos aproveitaram esses êxitos em 1627 e 1628. Hanôver, Brunsvique e a Silésia foram conquistados, e depois Holstein, Schleswig, a Pomerânia e Mecklemburgo. Wallenstein não conseguiu tomar o porto báltico de Stralsund, que era auxiliado pelos suecos, e julgou prudente fazer a paz antes que o hábil rei sueco, Gustavo Adolfo (1611-1632), pudesse intervir. Assim, por um tratado de maio de 1629, permitiu-se a Cristiano IV conservar os seus territórios, com a condição de não tomar mais parte na política alemã.

Os católicos estavam decididos a colher os frutos das suas grandes vitórias. Em 6 de março de 1629, um “Edito de Restituição” imperial ordenou a devolução à posse católica de todas as propriedades eclesiásticas que haviam passado a mãos protestantes desde 1552, a expulsão dos protestantes dos territórios governados por católicos e o não reconhecimento de nenhum protestante a não ser os luteranos, privando assim os calvinistas de qualquer direito. Os acontecimentos dos anos seguintes impediram a sua plena execução, mas cinco bispados, uma centena de mosteiros e centenas de igrejas paroquiais foram, por algum tempo, transferidos dessa maneira. Muitos mais o teriam sido se o êxito católico tivesse continuado e se os próprios católicos não tivessem brigado pelos despojos. Essas disputas e o ciúme da “Liga”, chefiada por Maximiliano da Baviera, diante do grande aumento do poder imperial que Wallenstein havia produzido, levaram então a “Liga” a exigir, com êxito, a demissão de Wallenstein. Em setembro de 1630, o Imperador foi obrigado a separar-se do seu hábil general.

Mesmo antes da demissão de Wallenstein, ocorrera um acontecimento de importância capital, embora as suas consequências não fossem imediatamente visíveis. Gustavo Adolfo da Suécia, com um pequeno exército, desembarcara na costa alemã em 26 de junho de 1630. Dois motivos o levaram a intervir na guerra. Vinha sem dúvida como campeão da fé protestante; mas também desejava fazer do Báltico um lago sueco, e via nos ataques imperiais aos portos alemães do Báltico um perigo imediato para o seu próprio reino. Se fossem ocupados por uma potência hostil, a Suécia correria grande perigo. Gustavo logo conseguiu expulsar as forças imperiais da Pomerânia; mas avançava devagar, pois não tinha aliados adequados. Em janeiro de 1631, porém, firmou um tratado com a França, então sob a direção imperiosa do grande ministro de Luís XIII, Armand du Plessis, cardeal de Richelieu (1585-1642), pelo qual lhe foram concedidos consideráveis subsídios financeiros. Richelieu retomara a hostilidade histórica da França aos Habsburgos da Espanha e da Áustria e a antiga política francesa de ajudar os inimigos deles em proveito político da monarquia francesa, mesmo que esses inimigos fossem protestantes. A tarefa seguinte de Gustavo, importante e difícil, foi assegurar a aliança de Brandemburgo, que, embora protestante, fora imperialista, e da Saxônia, que fora neutra. Em 20 de maio de 1631, Tilly tomou Magdeburgo, e os habitantes foram tratados com ferocidade brutal.

A perda desse grande baluarte protestante foi seguida, em junho, por uma aliança entre Gustavo e o Eleitor de Brandemburgo, e em agosto a Saxônia abandonou a neutralidade e uniu-se aos suecos. Em 17 de setembro de 1631, Gustavo, com pouca ajuda real dos saxões, obteve uma grande vitória sobre Tilly em Breitenfeld, perto de Leipzig. O poder imperial no norte da Alemanha desmoronou, e o rei sueco marchou vitorioso até o Reno, estabelecendo-se em Mainz, enquanto os saxões tomavam Praga. Na sua aflição, o Imperador chamou mais uma vez Wallenstein para levantar um exército, e em abril de 1632 esse general estava à frente de uma força temível.

Gustavo marchou então contra Maximiliano da Baviera, derrotando Tilly numa batalha perto de Donauwörth, na qual esse comandante foi mortalmente ferido. Munique, a capital bávara, teve de render-se ao rei sueco. Enquanto isso, Wallenstein expulsara os saxões de Praga e marchara ao encontro de Gustavo. Durante algumas semanas, os dois exércitos ficaram frente a frente perto de Nuremberg, mas os combates foram indecisos, e Wallenstein marchou para o norte a fim de esmagar a Saxônia. Gustavo o seguiu e o derrotou em Lützen, perto de Leipzig, em 16 de novembro de 1632, numa batalha feroz em que Gustavo foi morto. A sua obra foi duradoura. Ele fizera do Edito de Restituição letra morta no norte da Alemanha, e a sua memória é merecidamente estimada pelo protestantismo alemão.

A direção dos negócios suecos passou ao hábil chanceler Axel Oxenstjerna, embora o general protestante mais capaz fosse agora Bernardo de Saxe-Weimar (1604-1639). Em novembro de 1633, Bernardo tomou a importante cidade de Regensburg, no sul da Alemanha, e abriu a linha do Danúbio ao avanço protestante. Enquanto isso, Wallenstein permanecera relativamente inativo na Boêmia, em parte enciumado com as grandes forças espanholas que haviam sido enviadas ao sul da Alemanha, em parte intrigando com a Saxônia, a Suécia e a França. O que exatamente tinha em mente é incerto, mas a suposição mais provável é que pretendesse assegurar para si a coroa da Boêmia. A sua omissão em socorrer Regensburg foi a gota d’água que despertou a hostilidade desconfiada do Imperador, e em 25 de fevereiro de 1634 foi assassinado pelos próprios soldados, em consequência de uma intriga imperial.

Em 5 e 6 de setembro de 1634, Bernardo e as tropas suecas foram duramente derrotados em Nördlingen pelas forças imperiais e espanholas reunidas. A seu modo, a batalha foi tão decisiva quanto a de Breitenfeld, quase três anos antes. Aquela mostrara que o norte da Alemanha não podia ser mantido pelos católicos; esta, que o sul da Alemanha não podia ser conquistado pelos protestantes. A guerra deveria ter terminado então; em 15 de junho de 1635 fez-se a paz em Praga entre o Imperador e a Saxônia. Tomou-se 12 de novembro de 1627 como data de referência. Todas as propriedades eclesiásticas deveriam ficar por quarenta anos nas mãos de quem as possuía naquela data, e o seu destino final seria decidido por um tribunal composto igualmente de juízes católicos e protestantes. Não se fez menção de privilégios para os calvinistas. A essa paz aderiu, nas semanas seguintes, a maior parte da Alemanha protestante.

Mas não haveria paz para a terra desgraçada. Por mais treze anos a guerra continuou, tão selvagem como sempre. Os seus objetivos originais praticamente se perderam, e ela se tornou uma luta, travada em solo alemão com a ajuda de partidos alemães, pelo engrandecimento da Espanha, da França e da Suécia, na qual a França foi a que mais ganhou. Fernando II foi sucedido pelo filho, Fernando III (1637-1657), mas a troca não trouxe nenhuma mudança real na situação. Faltavam à Alemanha homens de verdadeira liderança, sendo a única exceção notável Frederico Guilherme, o “Grande Eleitor” (1640-1688) de Brandemburgo; mas, embora tenha conseguido ampliar as suas possessões territoriais, ele era jovem demais para influir muito no curso da guerra.

Por fim, depois de negociações intermináveis, a “Paz de Vestfália” foi celebrada em 27 de outubro de 1648. A Suécia firmou-se solidamente na costa alemã do Báltico. A maior parte da Alsácia passou à França. A independência da Suíça, que já existia havia muito, foi formalmente reconhecida. Brandemburgo recebeu o arcebispado de Magdeburgo e os bispados de Halberstadt e Minden como compensação pela renúncia, em favor dos suecos, às suas pretensões sobre parte da Pomerânia. Maximiliano da Baviera conservou o título de Eleitor e parte do Palatinado, enquanto o restante do Palatinado foi restituído a Karl Ludwig, filho do infeliz Frederico V, para quem se criou um novo título eleitoral. Mais importante foi o acordo religioso. Aqui a habilidade do “Grande Eleitor” conseguiu a inclusão dos calvinistas, que, com os luteranos, passaram a ser considerados um só partido diante dos católicos. Os calvinistas alemães obtiveram finalmente plenos direitos. O Edito de Restituição foi inteiramente abandonado, e o ano de 1624 foi tomado como norma. As propriedades eclesiásticas que então estivessem em mãos católicas ou protestantes assim deveriam permanecer. Embora continuasse o poder do soberano leigo de determinar a religião dos seus súditos, ele foi modificado por uma disposição segundo a qual, onde houvesse culto religioso dividido num território em 1624, cada parte poderia continuá-lo na mesma proporção que então existia. Entre luteranos e calvinistas, combinou-se que a norma seria a data da Paz e que a passagem do governante leigo, dali em diante, de uma para outra forma de protestantismo não afetaria os seus súditos. Por outro lado, por insistência do Imperador, nenhum privilégio foi concedido aos protestantes da Áustria ou da Boêmia.

Nenhum dos lados gostou da Paz. O papa a condenou. Mas todos estavam cansados da guerra, e a Paz teve o grande mérito de traçar as linhas entre catolicismo e protestantismo de modo tosco, mas aproximadamente, onde de fato estavam. Como tal, mostrou-se essencialmente permanente, e com ela o período da Reforma no continente pode ser considerado encerrado.

Para a Alemanha, a Guerra dos Trinta Anos foi um mal completo e terrível. Durante uma geração, a terra fora sulcada de ponta a ponta por exércitos sem lei e saqueadores. A população caíra de dezesseis milhões para menos de seis. Os campos estavam abandonados. O comércio e a manufatura, destruídos. Acima de tudo, a vida intelectual estagnara, a moral se embrutecera e corrompera, e a religião fora gravemente mutilada. Um século depois do seu fim, as consequências devastadoras ainda não tinham sido reparadas. Pouca evidência de vida espiritual se manifestou nesse terrível tempo de guerra; mas a ele pertence, em grande parte, e refletindo a confiança da piedade sincera em meio à aflição, a obra daquele que talvez seja o maior dos compositores de hinos luteranos, Paul Gerhardt (1607-1676). Nos seus primeiros anos situa-se também a atividade principal daquele estranho e profundo místico protestante, Jakob Böhme (1575-1624), de Görlitz.

Seção XIV. O socinianismo

A época da Reforma apresentou vários desvios da ortodoxia tradicional quanto à pessoa e à obra de Cristo. Embora não fossem característicos dos anabatistas em geral, a sua manifestação mais antiga se encontra entre anabatistas como Denk e Haetzer (ver Período VI, seção IV). As opiniões radicais e o destino trágico de Serveto já foram registrados (ver Período VI, seção VIII), mas esse pensador engenhoso não fundou escola de discípulos. Os principais antitrinitários da época vieram da Itália, onde as opiniões reformadas muitas vezes tomaram forma radical e onde o ceticismo da Renascença e a crítica dos escolásticos posteriores frequentemente se mesclaram com a disposição anabatista de ver no sentido da Escritura algo diferente das interpretações tradicionais. Radicais italianos desse tipo foram Matteo Gribaldi (?-1564), antigo professor de direito em Pádua, a quem Calvino expulsou de Genebra em 1559; e Giovanni Valentino Gentile (1520?-1566), que chegou a Genebra por volta de 1557, fugiu dali para escapar à punição pelas suas ideias e, depois de uma carreira errante, foi decapitado em Berna em 1566. De maior importância foi Giorgio Biandrata (1515?-1588?), que passou um ano em Genebra, mas achou prudente partir para a Polônia em 1558, servindo como médico das famílias reinantes daquela terra e da Transilvânia e ajudando a fundar nesta última região uma comunhão unitária, que acabou obtendo reconhecimento legal.

Os que estavam destinados a dar nome ao movimento foram os dois Sozzini, tio e sobrinho. Lelio Sozzini (Socinus, 1525-1562) era de uma família proeminente de Siena e estudante de direito. As suas opiniões foram a princípio evangélicas, e viveu um ano, 1550-1551, em Wittenberg, gozando da amizade de Melanchthon. Foi bem recebido em várias cidades suíças, entre elas Genebra, e estabeleceu-se em Zurique, onde morreu. A execução de Serveto voltou a sua atenção para o problema da Trindade, mas as suas especulações não foram tornadas públicas enquanto viveu. O sobrinho, mais ilustre, Fausto (1539-1604), esteve em Lyon em 1561 e em Genebra em 1562. Embora já fosse um radical e influenciado, ainda que menos do que muitas vezes se afirmou, pelas anotações e papéis do tio, Fausto conformou-se exteriormente à Igreja Romana e viveu de 1563 a 1575 na Itália. Dali mudou-se para Basileia, até ir para a Transilvânia, em 1578, a instâncias de Biandrata. O ano seguinte o encontrou na Polônia, onde viveu até a morte, em 1604.

Graças aos trabalhos de Fausto Sozzini e de outros na Polônia, o partido ganhou considerável terreno e expressou eficazmente a sua crença no Catecismo Racoviano, no qual Fausto havia trabalhado, publicado em 1605 em Raków, a cidade de que tirou o nome e na qual esses “Irmãos Poloneses” tinham a sua sede. O catecismo é uma notável combinação de raciocínio racionalista e de um sobrenaturalismo rígido. A base da verdade são as Escrituras, mas a confiança no Novo Testamento baseia-se principalmente nos milagres que acompanharam a sua promulgação e, sobretudo, no milagre supremo da ressurreição. O Novo Testamento, assim atestado sobrenaturalmente, garante o Antigo Testamento. O propósito de ambos é mostrar ao entendimento do homem o caminho para a vida eterna. Embora possa haver neles matérias acima da razão, não há nada de valor contrário à razão. A única fé que exigem é a crença de que Deus existe e é galardoador e juiz. O homem é por natureza mortal e não poderia encontrar por si mesmo o caminho para a vida eterna. Por isso Deus lhe deu a Escritura e a vida e o exemplo de Cristo. Cristo foi um homem, mas um homem que viveu uma vida de obediência singular e exemplar, cheio de sabedoria divina, e foi por isso recompensado com a ressurreição e uma espécie de divindade delegada, de modo que é agora alguém que ouve a oração. A vida cristã consiste na alegria em Deus, na oração e na ação de graças, na renúncia ao mundo, na humildade e na paciência perseverante. As suas consequências são o perdão dos pecados e a vida eterna. O batismo e a Ceia do Senhor devem ser conservados, por terem sido ordenados por Cristo e possuírem certo valor simbólico. Afirma-se a liberdade essencial do homem, e negam-se o pecado original e a predestinação.

A parte mais bem-sucedida da polêmica sociniana foi o seu ataque à teoria da satisfação na expiação, que os reformadores haviam aceitado universalmente. A satisfação não é exigência da natureza de Deus. Perdão e satisfação são concepções que se excluem mutuamente. É absoluta injustiça que os pecados dos culpados sejam punidos na pessoa do inocente. A morte de Cristo é um grande exemplo da obediência que todo cristão deveria, se necessário, manifestar; mas essa obediência não foi maior do que a que Ele devia por si mesmo, e Ele não podia transferir o seu valor a outros. Se pudesse ser transferido, na medida em que o homem se sentisse por isso dispensado do esforço moral pela justiça, o caráter ficaria enfraquecido.

A relação do socinianismo com a escolástica posterior, especialmente a de Scotus, é indubitável; mas, ao contrário daquele sistema medieval, rejeitou toda autoridade da igreja e encontrou a sua fonte nas Escrituras, interpretadas pela razão. Rebelou-se contra as opiniões predominantes sobre a incapacidade humana e a depravação total. Contribuiu não pouco para libertar a religião da servidão ao dogma e para favorecer o estudo sem preconceitos da Escritura; mas quase não tinha ideia do que a religião significou para Paulo, Agostinho ou Lutero: uma nova e vital relação pessoal entre a alma que crê e Deus, por meio de Cristo.

Suprimido, em grande parte pelos esforços dos jesuítas na Polônia, o socinianismo encontrou alguns adeptos nos Países Baixos e ainda mais na Inglaterra, onde haveria de ter não pouca influência.

Seção XV. O arminianismo

O rigor do calvinismo produziu uma reação, especialmente na Holanda, onde as tradições humanistas nunca se haviam extinguido e onde o anabatismo estava muito difundido. Ela se manifestou numa ênfase nos aspectos mais práticos da religião, numa aversão às definições credais rígidas e numa atitude mais tolerante. Um pensador desse tipo foi o erudito holandês Dirck Coornhert (1522-1590); mas a reação chegou à sua expressão mais plena na obra de Jacó Armínio (Jacobus Arminius, 1560-1609), e dos seus discípulos.

Armínio, cujos parentes foram mortos na luta dos Países Baixos pela independência, foi educado por amigos na Universidade de Leiden, de 1576 a 1582. Foi então enviado a Genebra às custas da guilda dos mercadores de Amsterdã. Em 1588 assumiu um pastorado em Amsterdã, distinguindo-se como pregador e pastor de espírito irênico. Em 1603 foi escolhido para suceder ao eminente Franciscus Junius (1545-1602) como professor de teologia em Leiden, onde permaneceu até a morte. Embora pouco inclinado à controvérsia, foi designado em 1589 para responder a Coornhert e para defender a posição “supralapsária” contra dois ministros de Delft. Esta última discussão dizia respeito à ordem dos propósitos divinos. Teria Deus “decretado” a eleição e a reprovação e depois permitido a queda como meio pelo qual o decreto pudesse ser executado (supra lapsum)? Ou teria previsto e permitido que o homem caísse e depois decretado a eleição como método para salvar alguns (infra lapsum)? Ao estudar as questões envolvidas, Armínio chegou a duvidar de toda a doutrina da predestinação incondicional e a atribuir ao homem uma liberdade que, por mais que fosse do agrado de Melanchthon (ver Período VI, seção XIII), não tinha lugar no calvinismo puro. Surgiu uma controvérsia amarga entre Armínio e o seu colega supralapsário na universidade, Francisco Gomaro (Franciscus Gomarus, 1563-1641), e logo os Países Baixos protestantes estavam amplamente envolvidos.

Depois da morte de Armínio, em 1609, a liderança do partido foi assumida pelo pregador da corte Johan Wtenbogaert (1557-1644) e por Simão Episcópio (1583-1643), amigo e discípulo de Armínio, que logo seria professor de teologia em Leiden. Por eles as ideias “arminianas” foram sistematizadas e desenvolvidas, e ambos se opuseram à ênfase corrente nas minúcias da doutrina, vendo o cristianismo antes de tudo como uma força de transformação moral. Em 1610, eles e outros simpatizantes, em número de quarenta e um, a instâncias do eminente estadista holandês Johan van Oldenbarneveldt (1547-1619), amigo da tolerância religiosa, redigiram uma declaração da sua fé chamada Remonstrância,3 da qual o partido recebeu o nome de “remonstrantes”. Contra a doutrina calvinista da predestinação absoluta, ensinava uma predestinação baseada na presciência divina do uso que os homens fariam dos meios de graça. Contra a doutrina de que Cristo morreu só pelos eleitos, afirmava que Ele morreu por todos, embora ninguém receba os benefícios da sua morte a não ser os que creem. Concordava com o calvinismo ao negar a capacidade dos homens de fazer por si mesmos qualquer coisa realmente boa: tudo é da graça divina. Por isso os arminianos não eram pelagianos (ver Período III, seção XVIII). Em oposição à doutrina calvinista da graça irresistível, ensinavam que a graça pode ser rejeitada, e declaravam incerteza quanto ao ensino calvinista da perseverança, julgando possível que os homens percam a graça uma vez recebida.

Todos os Países Baixos protestantes logo se encheram de conflito. A grande maioria do povo era calvinista, e essa opinião tinha o apoio do estatúder Maurício (1588-1625). Os remonstrantes eram favorecidos por Oldenbarneveldt, o líder da província da Holanda, e pelo grande jurista e historiador, fundador do direito internacional, Hugo Grócio (1583-1645). A disputa logo se envolveu na política. Os Países Baixos estavam divididos entre os partidários dos “direitos das províncias”, entre os quais estavam as classes mercantis mais ricas e dos quais Oldenbarneveldt e Grócio eram líderes, e o partido nacional, cujo chefe era Maurício. O partido nacional queria agora um sínodo nacional para decidir a controvérsia. A província da Holanda, sob Oldenbarneveldt, sustentava que cada província podia decidir os seus assuntos religiosos e resistiu à proposta. Maurício, por um golpe de Estado em julho de 1618, derrubou o partido dos “direitos das províncias”. Oldenbarneveldt, apesar dos seus grandes serviços, foi decapitado em 13 de maio de 1619, e Grócio, condenado à prisão perpétua, da qual escapou em 1621.

Enquanto isso, um sínodo nacional, convocado pelos Estados Gerais, reuniu-se em Dort de 13 de novembro de 1618 a 9 de maio de 1619. Além de representantes dos Países Baixos, tomaram parte nos seus trabalhos delegados da Inglaterra, do Palatinado, de Hesse, de Bremen e da Suíça. Pelo Sínodo de Dort o arminianismo foi condenado e adotaram-se “cânones” de tom agressivamente calvinista, os quais, juntamente com o Catecismo de Heidelberg e a Confissão Belga (ver Período VI, seções XII e XIII), tornaram-se a base doutrinária da Igreja holandesa.4 Não tão extremado quanto alguns calvinistas individuais (não adotou as ideias supralapsárias de Gomaro), o Sínodo de Dort atingiu o ponto mais alto da elaboração de credos calvinistas.

Logo depois do Sínodo de Dort, os remonstrantes foram banidos, mas com a morte de Maurício, em 1625, as medidas contra eles tornaram-se letra morta. Voltaram, embora só viessem a receber reconhecimento oficial em 1795. Nos Países Baixos, o partido cresceu lentamente e ainda existe. O seu tipo de piedade na terra natal foi predominantemente intelectual e ético, e foi um tanto afetado pelo socinianismo. O arminianismo haveria de ter influência ainda maior na Inglaterra do que na sua terra natal, e haveria de provar, na pessoa de John Wesley, a sua possibilidade de associação com um tipo de piedade tão caloroso e emotivo quanto qualquer interpretação da verdade cristã pode apresentar.

Dessa controvérsia surgiu, da pena de Grócio, em 1617, uma importante teoria da expiação. A concepção de Anselmo havia considerado a morte de Cristo como a satisfação da honra divina ofendida (ver Período V, seção V). Os reformadores a haviam considerado o pagamento da pena pelo pecado à justiça divina ultrajada, em favor daqueles por quem Cristo morreu, e haviam apresentado a exigência da pena como uma exigência fundamental da natureza de Deus, que pode ser misericordioso, mas tem de ser justo. Na concepção calvinista, o sacrifício de Cristo foi suficiente para todos, mas eficaz somente para os eleitos, em cujo favor Ele morreu. Os socinianos haviam submetido essas opiniões a uma crítica radical, negando que a natureza de Deus exigisse punição ou que a pena devida por um pudesse ser justamente satisfeita pelos sofrimentos de outro (ver Período VI, seção XIV). A essa crítica sociniana Grócio respondeu então. Deus é um grande governante moral. O pecado é uma ofensa contra a sua lei. Como um sábio governante terreno, Ele pode perdoar se quiser; mas perdoar sem tornar evidente o respeito em que tem a sua lei seria expor essa lei ao desprezo. Por isso a morte de Cristo não foi um pagamento pelo pecado do homem, que é perdoado gratuitamente, mas um tributo à santidade do governo divino, mostrando que, ao mesmo tempo que Deus remite a pena, Ele vindica a majestade do seu governo divino. Nesse sentido, o sacrifício de Cristo não é injustiça. É o tributo divino à lei ofendida. Como um sábio governante terreno, Deus pode oferecer o perdão a todos os que o quiserem receber, nos termos que Ele escolher, por exemplo, sob a condição de fé e arrependimento. A engenhosidade dessa teoria é inegável. Ela livrou os arminianos do embaraço causado pela sua afirmação de que Cristo morreu por todos. Se aquele sacrifício foi por todos, e não só pelos eleitos, e foi um pagamento da pena pelo pecado, por que então nem todos eram salvos? Grócio respondeu negando o pagamento da pena. Deu também, em resposta aos socinianos, uma razão definida para o grande sacrifício. Mas, de todas as teorias da expiação, esta é a mais teatral e a menos satisfatória, pois a mensagem do evangelho é que, em algum sentido verdadeiro, Cristo morreu não pela justiça em geral, mas por mim.

Notas

1. Schaff, Creeds of Christendom, vol. 3, pp. 307-355.

2. Ibid., vol. 3, pp. 93-180.

3. Schaff, Creeds of Christendom, vol. 3, pp. 545-549.

4. Schaff, Creeds of Christendom, vol. 3, pp. 550-597.

Tradução para o português a partir de Williston Walker, A History of the Christian Church (Nova York, Charles Scribner’s Sons, 1918), 1ª edição, conferida com as imagens das páginas; domínio público. As notas são de Walker; as que eram só referência bíblica passaram para o texto. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.