Walker, História da Igreja Cristã · Período VI
XVI. Anglicanismo, puritanismo e congregacionalismo na Inglaterra. Episcopado e presbiterianismo na Escócia; XVII. Os quacres.
As relações da rainha Elisabete com os católicos já foram consideradas em outro lugar (ver Período VI, seção XII). Sua posição, no começo do reinado, era de extrema dificuldade. Com um povo longe de estar unido na crença religiosa, com conspirações dentro do país e inimigos no exterior, só por meio de manobras políticas de extraordinária habilidade ela conseguiu seguir um rumo bem-sucedido. Suas dificuldades aumentaram com as divisões que surgiram, logo no começo do reinado, entre os que aceitavam o seu rompimento com Roma. Essas divisões cresceram, à medida que o reinado avançava, com a vida religiosa popular mais intensa que vinha transformando uma nação que antes se mostrara bastante apática espiritualmente durante as mudanças sob Henrique VIII, Eduardo VI e Maria.
Elisabete tornou de propósito tão fácil quanto possível a aceitação do seu arranjo religioso. A igreja, em seus oficiais e cultos, assemelhava-se ao culto antigo tanto quanto o sentimento protestante podia tolerar. Com exceção de uma pequena parte, todo o clero paroquial se conformou, e Elisabete ficou muito satisfeita em deixá-lo tranquilo em suas paróquias, desde que se mantivesse quieto, embora a sua aceitação sincera do protestantismo fosse muitas vezes duvidosa, e a sua capacidade de pregar ou o seu fervor espiritual, muitas vezes discutíveis. Do ponto de vista político, sua conduta foi sábia. A Inglaterra foi poupada de guerras como as que devastaram a França e a Alemanha.
Desde o início, porém, a rainha teve de enfrentar um protestantismo mais agressivo. Muitos que haviam estado no exílio sob Maria tinham caído sob a influência de Genebra ou de Zurique e voltaram cheios de admiração pelo protestantismo radical dessas cidades. Eram homens, em sua maioria, de profundo fervor religioso, dos quais Elisabete precisava depender em seu conflito com Roma, mas que, se pudessem introduzir as mudanças que desejavam, iriam, no entender da rainha, tumultuar uma situação que, na melhor das hipóteses, só com dificuldade se mantinha em paz. Ainda assim, os desejos desses homens são fáceis de entender do ponto de vista religioso. Queriam expurgar dos cultos o que julgavam restos da superstição romana e conseguir para cada paróquia um ministro pregador, fervoroso e de espírito piedoso. Em particular, objetavam às vestes clericais prescritas, por perpetuarem na mente popular a ideia do ministério como um estado espiritual de poderes peculiares; ao ajoelhar-se para receber a Ceia do Senhor, por implicar a adoração da presença física de Cristo nela; ao uso do anel no casamento, por manter a avaliação do matrimônio como sacramento; e ao sinal da cruz no batismo, por ser supersticioso. Como desejavam assim purificar a igreja, esse partido, por volta de 1564, era chamado popularmente de “puritanos”.
Sob a liderança de Laurence Humphrey (1527-1590), presidente do Magdalen College, em Oxford, e de Thomas Sampson (1517-1589), deão de Christ Church, em Oxford, ambos exilados no tempo de Maria, a primeira discussão puritana girou em torno do uso das vestes prescritas: a “Controvérsia das Vestes”. A Universidade de Cambridge simpatizava em grande parte com os puritanos. Mas nesse assunto a política da rainha se opunha firmemente a qualquer modificação, e em 1566 o arcebispo Parker publicou os seus “Advertisements”1, pelos quais todos os pregadores eram obrigados a obter novas licenças dos bispos, os sermões polêmicos eram proibidos, exigia-se que se ajoelhasse na comunhão e as vestes clericais eram minuciosamente prescritas. Sob esses regulamentos, vários clérigos puritanos foram privados dos seus cargos.
Entre homens que haviam aprendido em Zurique e em Genebra a sentir que todo culto para o qual não se pudesse encontrar autorização bíblica é um insulto à majestade divina, isso levou a uma posição mais avançada: a dúvida sobre se um sistema eclesiástico que depunha ministros que se recusavam a usar vestes e cerimônias que não se podiam demonstrar pelas Escrituras era o que Deus queria para a sua igreja. Além disso, ao lerem o Novo Testamento com óculos genebrinos, viam ali um modelo definido de governo da igreja, bem diferente do que existia na Inglaterra, no qual a disciplina efetiva era mantida por presbíteros, os ministros ocupavam o cargo com o consentimento da congregação e havia uma paridade espiritual essencial entre aqueles a quem, como disse Calvino, as Escrituras, ao descrevê-los como “bispos, presbíteros e pastores”, “usam as palavras como sinônimas”.2 Foi a mesma convicção quanto à igualdade essencial dos que ocupam cargos espirituais que deu ânimo ao presbiterianismo escocês em sua longa luta contra a “prelazia”.
O representante e líder dessa segunda fase do puritanismo foi Thomas Cartwright (1535?-1603). Como professor de teologia da cátedra Lady Margaret na Universidade de Cambridge, em 1569, ele defendeu a nomeação de presbíteros para a disciplina em cada paróquia, a eleição dos pastores pelo seu povo, a abolição de cargos como os de arcebispo e arcediago e a redução do clero a uma paridade essencial. Isso era presbiterianismo na prática, e os puritanos mais radicais passaram desde então a mover-se na direção presbiteriana. Os mais moderados do partido continuaram a sua oposição às cerimônias e às vestes, sem se unir a Cartwright na exigência de que se alterasse a constituição da Igreja inglesa. Os argumentos de Cartwright despertaram a oposição do homem que seria o principal inimigo dos primeiros puritanos, John Whitgift (1530-1604). Contra a afirmação de Cartwright de um presbiterianismo jure divino, Whitgift estava longe de afirmar autoridade semelhante para o episcopado. Para ele, esta era a melhor forma de governo da igreja, mas negava que as Escrituras estabeleçam algum modelo exato e afirmava que muita coisa fica entregue ao juízo da igreja. Por influência de Whitgift, Cartwright foi privado da sua cátedra em 1570 e, no ano seguinte, expulso da universidade. Viveu desde então uma vida errante e perseguida, boa parte do tempo no continente, mas trabalhando incansavelmente para promover a causa puritana presbiteriana.
As mudanças defendidas por Cartwright foram apresentadas num panfleto extremado, mas de grande efeito popular, intitulado An Admonition to the Parliament [Advertência ao Parlamento], escrito por dois ministros de Londres, John Field (?-1588) e Thomas Wilcox (1549?-1608), em 1572. Whitgift respondeu-lhe e foi, por sua vez, rebatido por Cartwright. O puritanismo presbiteriano estava crescendo. Aos que eram mais moderados que Cartwright, parecia que ele exigiria uma alteração relativamente pequena da constituição eclesiástica existente. As cerimônias odiosas poderiam ser descartadas, o Livro de Oração revisado, presbíteros instituídos nas paróquias e os bispos preservados como oficiais que presidiriam as igrejas de cada diocese, organizadas como sínodo, primi inter pares. Uma classis local voluntária, espécie de presbitério, foi organizada por ministros puritanos em Wandsworth, perto de Londres, em 1572, e organizações semelhantes surgiram em outros lugares. Reuniões de ministros para pregação e discussão, as chamadas “profecias” (prophesyings), começaram mais ou menos na mesma época. A causa puritana radical foi impulsionada pela Declaration of Ecclesiastical Discipline [Declaração da disciplina eclesiástica], publicada por um jovem erudito de Cambridge, Walter Travers (1548?-1635), em 1574. Essa obra logo se tornou, em certo sentido, o padrão puritano. Tudo isso foi favorecido pela sucessão de Edmund Grindal (1519?-1583) no arcebispado de Cantuária, com a morte de Parker, em 1576. Grindal simpatizava com os puritanos e foi suspenso por suas objeções de consciência às ordens da rainha para proibir as “profecias”.
Cartwright e os seus companheiros puritanos se opunham a toda separação da Igreja da Inglaterra. Sua ideia era introduzir tanto quanto possível da disciplina e da prática puritanas e esperar que o governo levasse adiante a reforma da igreja. Essa esperança não parecia vã. No espaço de uma geração, a constituição e o culto da igreja do país haviam sido alterados quatro vezes. Não poderiam logo ser mudados uma quinta vez, para o que os puritanos consideravam um modelo mais bíblico? Eles fariam agitação e esperariam. Esse continuou sendo o programa dos puritanos em geral. Naturalmente, houve alguns para quem essa demora parecia injustificável. Queriam estabelecer imediatamente o que entendiam ser bíblico. Esses foram os separatistas, ou primeiros congregacionais.
Em 19 de junho de 1567, as autoridades de Londres prenderam e encarceraram os membros de uma dessas congregações separatistas, reunida para o culto sob o pretexto de celebrar um casamento. Esse grupo havia rejeitado a Igreja da Inglaterra e escolhido pelo menos dois oficiais: Richard Fitz, ministro, e Thomas Rowland, diácono. Evidentemente caminhava na direção congregacional. Não se sabe se restos dessa congregação mantiveram depois uma existência corporativa.
O primeiro defensor realmente notável dos princípios congregacionais na Inglaterra foi Robert Browne (1550?-1633), estudante em Cambridge no tempo agitado da breve cátedra de Cartwright e ali graduado em 1572. A princípio puritano presbiteriano avançado, chegou a adotar princípios separatistas por volta de 1580 e, junto com um amigo, Robert Harrison, fundou uma igreja congregacional em Norwich em 1581. Em consequência da sua pregação, viu-se logo na prisão. Ele e a maioria da sua congregação buscaram segurança em Middelburg, nos Países Baixos. Ali, em Middelburg, Browne fez imprimir, em 1582, um volume considerável contendo três tratados. Um deles, dirigido contra os puritanos que queriam permanecer na Igreja da Inglaterra, traz o seu assunto no título: A Treatise of Reformation without Tarying for anie, and of the Wickednesse of those Preachers which will not reforme . . . till the Magistrate commaunde and compell them [Tratado da reforma sem esperar por ninguém, e da perversidade daqueles pregadores que não querem reformar… enquanto o magistrado não os mandar e obrigar]. Outro, A Booke which sheweth the Life and Manners of all true Christians [Livro que mostra a vida e os costumes de todos os verdadeiros cristãos], apresentava os princípios fundamentais do congregacionalismo.
Segundo Browne, a única igreja é um corpo local de crentes em Cristo por experiência, unidos a ele e uns aos outros por uma aliança voluntária. Essa igreja tem Cristo como sua cabeça imediata e é regida por oficiais e leis instituídos por ele. Cada igreja governa a si mesma e escolhe um pastor, um mestre, presbíteros, diáconos e viúvas, que o Novo Testamento designa; mas cada membro tem responsabilidade pelo bem-estar do todo. Nenhuma igreja tem autoridade sobre outra, mas cada uma deve às outras ajuda fraterna. O sistema assim esboçado era essencialmente democrático, muito mais do que o primeiro congregacionalismo em geral viria de fato a ser na prática.
O sistema de Browne se parece tanto com as ideias dos anabatistas (ver Período VI, seção IV) que alguma ligação, ao menos de pensamento, parece quase certa. Norwich, além disso, era em grande parte povoada por refugiados holandeses. Ainda assim, Browne não mostrou nenhuma dívida consciente para com os anabatistas e não rejeitou o batismo infantil. Sua ênfase na aliança como elemento constitutivo da igreja é muito mais positiva do que entre os anabatistas. A conclusão provável é que Browne devia muito a um modo de pensar anabatista bastante difundido, em vez de ter tomado emprestado diretamente de alguma fonte anabatista. A permanência do próprio Browne na Holanda foi breve. Sua igreja entrou em tumulto e, depois de um período na Escócia, ele voltou à Inglaterra, onde se conformou, ao menos exteriormente, à Igreja estabelecida em outubro de 1585, e passou a longa vida que lhe restava, de 1591 a 1633, no ministério dela. Com tal histórico de abandono dos princípios iniciais, não admira que os primeiros congregacionais se ressentissem do nome de “brownistas”; e, no entanto, o congregacionalismo nunca foi enunciado com mais clareza do que por ele.
Sob o arcebispado de Grindal, muitos dos ministros puritanos deixaram de usar o Livro de Oração, no todo ou em parte, e o estabelecimento da “Santa Disciplina”, como se chamava a que fora exposta na Declaration of Ecclesiastical Discipline de Travers, avançou rapidamente. Grindal teve como sucessor na sé de Cantuária, porém, de 1583 a 1604, Whitgift. Calvinista convicto em teologia, era um disciplinador rigoroso, e nisso teve o apoio decidido da rainha. Prontamente publicou artigos que impunham a plena aprovação e o uso do Livro de Oração, prescreviam as vestes clericais e proibiam todas as reuniões religiosas particulares.3 Desde então, a mão da repressão pesou fortemente sobre puritanos e separatistas. Essa hostilidade foi agravada pela publicação clandestina de uma sátira contundente contra os bispos, grosseira e injusta, mas extremamente espirituosa e exasperante, claramente de origem puritana, embora desagradasse aos puritanos em geral. Publicados em 1588-1589 e conhecidos como os Martin Marprelate Tracts [Panfletos de Martin Marprelate], sua autoria nunca foi plenamente averiguada, embora as probabilidades apontem para Job Throckmorton (1545-1601), um leigo puritano.
A afirmação, por puritanos e separatistas, do caráter divino dos seus sistemas estava agora produzindo rapidamente uma mudança de atitude nos líderes dos seus adversários, que podem ser chamados de anglicanos. Em seu sermão na Paul’s Cross, em Londres, em 1589, Richard Bancroft (1544-1610), que viria a suceder Whitgift como arcebispo, não apenas denunciou o puritanismo, mas afirmou para o episcopado um direito jure divino. Adrian Saravia (1531-1613), teólogo valão domiciliado na Inglaterra, defendeu a mesma ideia um ano depois, assim como Thomas Bilson (1547-1616), que logo seria bispo de Winchester, em seu Perpetual Government of Christ’s Church [O governo perpétuo da igreja de Cristo], em 1593. Menos extremado foi o erudito Richard Hooker (1553?-1600), em suas Laws of Ecclesiastical Polity [Leis da política eclesiástica], de 1594. Embora o episcopado tenha fundamento nas Escrituras, seu principal argumento em favor dele é a sua razoabilidade essencial, em contraste com o biblicismo extremo dos puritanos. Estavam lançados os alicerces de um partido de igreja alta.
A repressão do puritanismo e do separatismo contou com a grande ajuda do tribunal da Alta Comissão. Desde o tempo de Henrique VIII, fora um expediente real favorito controlar assuntos ou pessoas eclesiásticos por meio de comissões nomeadas para investigar e julgar sem estarem presas aos procedimentos ordinários da lei. O sistema cresceu aos poucos. Elisabete o desenvolveu e o tornou mais permanente; mas ele não se tornou um tribunal eclesiástico plenamente eficaz enquanto Bancroft não passou a ser um dos seus membros, em 1587. Por volta de 1592, havia alcançado plenamente os seus poderes. A presunção de culpa pesava contra o acusado, e a natureza da prova não era definida. Podia interrogar e prender em qualquer lugar da Inglaterra, e tornara-se o braço direito da autoridade episcopal.
Enquanto isso, o congregacionalismo havia reaparecido. Em 1587, Henry Barrowe (1550?-1593), advogado de Londres, e John Greenwood (?-1593), clérigo, foram presos por realizarem reuniões separatistas em Londres. Da prisão fizeram sair às escondidas manuscritos que apareceram como tratados impressos na Holanda, atacando anglicanos e puritanos igualmente e explicando os princípios congregacionais. Vários foram conquistados, entre eles Francis Johnson (1562-1618), ministro puritano. Em 1592, formou-se em Londres uma igreja congregacional, com Johnson como seu “pastor” e Greenwood como seu “mestre”, e em 6 de abril do ano seguinte Barrowe e Greenwood foram enforcados por negarem a supremacia da rainha em matéria eclesiástica. No mesmo ano, o Parlamento aprovou uma lei que decretava o desterro de todos os que contestassem a autoridade eclesiástica da rainha, se recusassem a ir à igreja ou estivessem presentes a algum “conventículo” em que se usasse outro culto que não o legal.4 Por força dela, a maior parte dos congregacionais de Londres foi obrigada a buscar refúgio em Amsterdã, onde Johnson continuou como seu pastor e Henry Ainsworth (1571-1623?) como seu mestre.
Os últimos anos do reinado de Elisabete viram também os começos de uma reação contra o calvinismo dominante. Em 1595 irrompeu uma controvérsia em Cambridge, onde Peter Baro (1534-1599) vinha defendendo ideias que mais tarde seriam chamadas de arminianas. Essa discussão levou à publicação, sob os auspícios de Whitgift, dos Artigos de Lambeth, fortemente calvinistas;5 mas a tendência de criticar o calvinismo, assim iniciada, aumentou e, em parte por oposição ao puritanismo, viria a ser cada vez mais característica do partido anglicano.
Elisabete encerrou o seu longo reinado em 24 de março de 1603 e teve como sucessor o filho de Maria, “rainha dos escoceses”, Jaime I (1603-1625), que já ocupava o trono escocês desde 1567, como Jaime VI. Todos os partidos religiosos da Inglaterra viram com esperança a sua ascensão: os católicos, por causa da sua ascendência; os puritanos presbiterianos, em razão da sua educação presbiteriana; e os anglicanos, por causa das suas elevadas concepções do direito divino e da sua hostilidade ao governo presbiteriano, desenvolvida em suas longas lutas para manter o poder da coroa na Escócia. Só os anglicanos leram corretamente o seu caráter. “Sem bispo, não há rei” era a sua expressão favorita. Em pretensões e atos, não foi mais arbitrário que Elisabete; mas o país suportava de uma governante popular e admirada muita coisa de que se ressentia num soberano antipatizado, sem dignidade e que não o representava.
A caminho de Londres, em abril de 1603, Jaime I recebeu a “Petição Milenária”6, assim chamada porque se supunha que trouxesse mil assinaturas, embora na verdade não tivesse nenhuma. Era uma exposição muito moderada dos desejos puritanos. Em consequência, realizou-se uma conferência em Hampton Court, em janeiro de 1604, entre bispos e puritanos, na presença real, sendo o principal debatedor anglicano, além do próprio rei, Bancroft, agora bispo de Londres. Nenhuma mudança importante desejada pelos puritanos foi concedida, exceto uma nova tradução da Bíblia, que resultou na “Versão Autorizada” de 1611. Ordenou-se a eles que se conformassem. Essa vitória anglicana foi seguida pela promulgação, pela convocação, com aprovação real, em 1604, de uma série de cânones que elevavam à condição de lei da igreja muitas das declarações e práticas contra as quais os puritanos haviam objetado. O espírito dirigente nisso foi Bancroft, que logo sucederia Whitgift na sé de Cantuária (1604-1610). Os puritanos estavam agora seriamente alarmados, mas Bancroft foi mais moderado no governo do que as suas declarações e a sua conduta anterior teriam feito prever, e só um número relativamente pequeno de ministros, calculado de modo variado entre quarenta e nove e trezentos, foi de fato privado dos cargos. O anglicanismo também ganhava força com uma melhora gradual na instrução e no zelo do seu clero, que Whitgift e Bancroft muito fizeram para promover; um exemplo notável foi o erudito, santo e eloquente Lancelot Andrewes (1555-1626), que se tornou bispo de Chichester em 1605.
O sucessor de Bancroft como arcebispo foi George Abbot (1611-1633), homem de simpatias estreitas e de forte calvinismo, impopular entre a massa do clero e ele próprio praticamente em desgraça na última parte do seu episcopado. Os anglicanos sentiram a perda de mãos tão fortes como as de Whitgift e Bancroft, e nessas circunstâncias não só o puritanismo, mas também o separatismo, fizeram progressos decididos.
Um movimento separatista de consequências finais de longo alcance teve o seu começo provavelmente por volta de 1602, na obra de John Smyth (?-1612), antigo clérigo da igreja estabelecida, que havia adotado princípios separatistas e reunia agora uma congregação em Gainsborough. Logo se conseguiram adeptos nos distritos rurais vizinhos, e uma segunda congregação se reuniu na casa de William Brewster (1560?-1644), em Scrooby. Desse grupo de Scrooby, William Bradford (1590-1657) era um jovem membro. A partir de cerca de 1604, contou com a liderança do erudito e afável John Robinson (1575?-1625), que, como Smyth, fora clérigo do partido puritano na Igreja da Inglaterra e, como ele, fora levado a crer que o separatismo era o único passo lógico. Pesando sobre eles a mão da autoridade, a congregação de Gainsborough, dirigida por Smyth, exilou-se voluntariamente em Amsterdã, provavelmente em 1607. A que tinha centro em Scrooby, sob a liderança de Robinson e Brewster, seguiu o mesmo caminho para a Holanda, em 1607 e 1608, mas estabeleceu-se em 1609 em Leiden.
Em Amsterdã, Smyth entrou em contato com os menonitas e, por seu próprio estudo, convenceu-se de que a posição deles, que rejeitava o batismo infantil, era a do cristianismo primitivo. Em 1608 ou 1609, portanto, batizou a si mesmo por efusão e depois os outros membros da sua igreja. De temperamento instável, Smyth logo depois brigou com o seu rebanho, mas dois dos seus membros, Thomas Helwys (1550?-1616?) e John Murton (?-1625?), conduziram de volta à Inglaterra uma parte considerável dele e estabeleceram em Londres, em 1611 ou 1612, a primeira congregação batista permanente em solo inglês. Nas controvérsias holandesas contemporâneas, haviam adotado a posição arminiana e por isso eram conhecidos como “batistas gerais”. Ao que parece, alguns restos da igreja congregacional exilada de Johnson e Greenwood (ver acima) mantiveram uma organização em Londres, mas o replantio efetivo e permanente do congregacionalismo na Inglaterra deu-se quando Henry Jacob (1563-1624), que fizera parte da congregação de Robinson em Leiden, fundou uma igreja em Southwark em 1616. Dessa igreja, uma parte se separou em 1633, por princípios batistas. Eram calvinistas e por isso foram chamados de “batistas particulares”. Entre eles, a imersão foi praticada por volta de 1641 e daí se espalhou a todos os batistas ingleses.
O acontecimento principal na história da igreja congregacional de Leiden foi a decisão de enviar à América a sua minoria mais ativa. Robinson, a contragosto, ficou com a maioria. Em 1620, depois de negociações intermináveis, os “Pais Peregrinos” atravessaram o Atlântico no Mayflower, sob a liderança espiritual do seu “presbítero”, William Brewster, e em 21 de dezembro lançaram os alicerces da colônia de Plymouth, da qual William Bradford logo seria o sábio e abnegado governador. O congregacionalismo foi assim plantado na Nova Inglaterra.
Enquanto isso, sob o governo menos vigoroso de Abbot, o puritanismo vinha criando “leitorados” (lectureships), sucessores das antigas “profecias”. Em paróquias onde o titular legal era hostil, ou não queria ou não sabia pregar, às vezes com o consentimento do próprio titular, dinheiro puritano financiava pregadores vespertinos de feição fortemente puritana. O puritanismo sempre dera ênfase à observância rigorosa do domingo. Suas tendências sabatistas foram reforçadas pela publicação, em 1595, da Doctrine of the Sabbath [Doutrina do sábado] de Nicholas Bownde (?-1613), que defendia a perpetuidade do quarto mandamento com o rigor judaico. Por isso, despertou-se muita hostilidade puritana, e também a do arcebispo Abbot, quando Jaime I publicou a sua famosa Declaration of Sports [Declaração dos esportes], em 1618, na qual recomendava os antigos jogos e danças populares para a observância do domingo. Ao puritano, aquilo parecia uma ordem real para desobedecer à vontade de Deus. O puritanismo cresceu constantemente como força política durante todo o reinado de Jaime. O tratamento arbitrário que o rei dava ao Parlamento, sua falta de apoio efetivo aos protestantes da Alemanha, duramente pressionados nas lutas iniciais da Guerra dos Trinta Anos, e sobretudo suas tentativas, afinal malsucedidas, de conseguir para o seu herdeiro o casamento com uma princesa espanhola, despertavam ressentimento crescente e levaram a Câmara dos Comuns a uma simpatia política cada vez maior pelo puritanismo, tanto mais que os anglicanos se identificavam em grande parte com a política real. No fim do seu reinado, em 1625, as perspectivas eram sombrias.
Nem foi menos carregada de males futuros a política de Jaime em seu reino do norte. Durante a infância de Jaime, o regente Morton, em 1572, havia assegurado a perpetuação nominal do episcopado, em grande parte como meio de se apossar das terras da igreja. Havia, portanto, bispos de nome na Escócia. Seu poder era pequeno. Em 1581, sob a liderança de Andrew Melville, a Assembleia Geral dera plena autoridade aos presbitérios como tribunais eclesiásticos e ratificara o presbiteriano Segundo Livro de Disciplina. Apesar da oposição de Jaime, o rei e o Parlamento escocês haviam sido obrigados a reconhecer esse sistema presbiteriano como estabelecido por lei em 1592.
Ainda assim, Jaime estava decidido a substituir esse presbiterianismo, em grande parte autônomo, por um episcopado controlado pelo rei. Tinha à mão os meios, nos bispos nominais. Em 1597, já era forte o bastante para insistir em que só ele tinha o direito de convocar as assembleias gerais, e as suas usurpações sobre o presbiterianismo cresceram constantemente. Melville e outros líderes foram exilados. O ano de 1610 viu um avanço real notável. Jaime estabeleceu dois tribunais de alta comissão para causas eclesiásticas na Escócia, semelhantes ao da Inglaterra, cada um com um arcebispo à frente; e obteve de bispos ingleses a sagração episcopal e a sucessão apostólica para o episcopado escocês, até então irregular. Um Parlamento manipulado, em 1612, completou o processo, dando plena jurisdição diocesana a esses bispos. Até então não houvera mudanças no culto, mas nove anos depois o rei impôs, por meio de uma Assembleia Geral intimidada e depois do Parlamento, o ajoelhar-se na comunhão, a confirmação por mãos episcopais, a observância das grandes festas da igreja, a comunhão privada e o batismo privado. A Escócia fervia de descontentamento religioso quando Jaime morreu.
Jaime I teve como sucessor, na Inglaterra e na Escócia, o seu filho Carlos I (1625-1649). Homem de mais dignidade pessoal que o pai, de vida familiar pura e de religião sincera, era tão exaltado quanto Jaime em suas concepções do direito divino dos reis, arbitrário em seus atos e sem nenhuma capacidade de entender o rumo do sentimento público. Distinguia-se também por uma fraqueza que facilmente o expunha a acusações de duplicidade e desonestidade. Desde o início, gozou da amizade e do apoio de um dos homens mais notáveis do seu tempo, William Laud (1573-1645).
Laud fora, sob Jaime, um dos líderes dos anglicanos mais jovens. Adversário vigoroso do calvinismo, já em 1604 sustentara “que não podia haver verdadeira igreja sem bispos”. Em 1622, em disputa com o jesuíta Fisher, afirmara que a Igreja romana era uma verdadeira igreja e um ramo da Igreja Católica universal, da qual a Igreja da Inglaterra era a parte mais pura. Em muitos aspectos, foi um fundador da posição “anglo-católica”; mas não é de admirar que tanto os puritanos quanto as autoridades romanas, para quem essa ideia era então nova, o julgassem católico romano no fundo do coração. Duas vezes lhe ofereceram o cardinalato. Classificá-lo assim, porém, era fazer-lhe grande injustiça. Laud era um disciplinador rigoroso, empenhado na uniformidade de cerimônias, vestes e culto, de língua áspera e modos arrogantes que lhe granjearam muitos inimigos. No fundo, com toda a estreiteza das suas simpatias, tinha uma piedade real, do tipo, embora não do encanto, da de Lancelot Andrewes. Em 1628, Carlos fez de Laud bispo da diocese fortemente puritana de Londres e, em 1633, arcebispo de Cantuária. Para todos os efeitos, foi também o principal conselheiro de Carlos em assuntos políticos depois do assassinato do duque de Buckingham, em 1628.
A pequena nobreza rural, que formava a espinha dorsal da Câmara dos Comuns, era fortemente calvinista em suas simpatias e inclinada, em política, a ressentir-se da imposição arbitrária de tributos sem o consentimento do Parlamento. Carlos logo caiu em desfavor nos dois aspectos. Sob a orientação de Laud, promoveu arminianos a benefícios eclesiásticos. Para impedir a discussão calvinista, em 1628, mandou antepor aos Trinta e Nove Artigos uma declaração de que ninguém “dará o seu próprio sentido” a nenhum Artigo, “mas o tomará no sentido literal e gramatical”.7 O Parlamento ressentiu-se dessas medidas.8 Carlos havia recorrido à tributação forçada, prendendo alguns que se recusaram a pagar. Roger Manwaring (1590-1653), capelão real, pregou em 1627, argumentando que, como o rei governava como representante de Deus, os que recusavam os tributos por ele impostos corriam perigo de condenação eterna. O Parlamento condenou Manwaring, em 1628, a multa e prisão, mas Carlos o protegeu com o perdão e o recompensou com promoções eclesiásticas, por fim com um bispado. Questões do direito real de prender sem declarar a causa e da tributação, assim como da religião, azedaram as relações entre o rei e o Parlamento, e depois de dissolver o de 1629 Carlos decidiu governar sem o auxílio do Parlamento. Nenhum Parlamento se reuniria até 1640. A fraqueza do partido anglicano estava em ter se identificado com a política arbitrária do rei.
Laud, com o apoio do rei, impôs a conformidade com mão pesada. Os leitorados foram desfeitos. Pregadores puritanos foram silenciados. A Declaration of Sports foi publicada de novo. Nessas circunstâncias, muitos puritanos começaram a perder a esperança quanto às perspectivas religiosas e políticas e a planejar seguir os separatistas através do Atlântico. Não buscavam uma liberdade religiosa abstrata, mas liberdade para pregar e organizar-se como desejavam. Em 1628, a emigração para Massachusetts havia começado. Em 1629, obteve-se uma carta régia para Massachusetts, e formou-se uma igreja em Salem. O ano de 1630 viu a chegada de muitos imigrantes sob a liderança de John Winthrop (1588-1649). Logo havia igrejas fortes em torno da baía de Massachusetts, sob hábeis líderes ministeriais, dos quais John Cotton (1584-1652), de Boston, e Richard Mather (1596-1669), de Dorchester, foram os mais destacados. A colônia de Connecticut foi plenamente estabelecida em 1636, com Thomas Hooker (1586-1647) como seu principal ministro em Hartford; e a colônia de New Haven em 1638, sob a orientação espiritual de John Davenport (1597-1670). Esses homens eram clérigos da igreja estabelecida inglesa. Não tinham simpatia pelo separatismo. Mas, como os separatistas, viam a Bíblia como a única lei da organização da igreja e a liam do mesmo modo. Suas igrejas foram organizadas, portanto, segundo o modelo congregacional. Até 1640, a maré puritana para a Nova Inglaterra correu cheia, com pelo menos vinte mil pessoas atravessando o Atlântico.
O período de governo de Carlos sem o Parlamento foi um tempo de considerável prosperidade na Inglaterra, mas tributos tidos amplamente como ilegais, como o famoso “dinheiro dos navios”, e a uniformidade religiosa imposta mantiveram a inquietação. Foi na Escócia, porém, que a tempestade estourou. Jaime I conseguira derrubar o presbiterianismo em grande parte garantindo o apoio dos nobres com doações de terras da igreja. No começo do seu reinado, Carlos, por um ato de revogação que era justo, embora impolítico, ordenou a restituição dessas terras, para vantagem duradoura da igreja escocesa, embora a ordem tenha sido executada de modo imperfeito. Seu efeito político, porém, foi lançar os possuidores de terras e dízimos da igreja em grande parte para o lado dos presbiterianos descontentes. Havia agora uma Escócia relativamente unida, em vez das divisões que Jaime fomentara em proveito próprio.
Por grandes que tenham sido as mudanças efetuadas por Jaime I, ele não ousara alterar os traços mais amplos do culto público (ver acima). Mas agora, em 1637, num desejo insensato de uniformidade, Carlos, inspirado por Laud, ordenou a imposição de uma liturgia que era essencialmente a da Igreja da Inglaterra. O seu uso, em 23 de julho, em Edimburgo, provocou um tumulto. A Escócia se inflamou em oposição. Em fevereiro de 1638, um Pacto Nacional para defender a verdadeira religião foi amplamente assinado. Em dezembro, uma Assembleia Geral depôs os bispos e repudiou toda a estrutura eclesiástica que Jaime e Carlos haviam erguido desde 1597. Isso era rebelião, e Carlos levantou forças para reprimi-la. Tão formidável era a atitude escocesa que um acordo improvisou uma trégua em 1639; mas em 1640 Carlos decidiu submeter os escoceses. Para pagar as despesas da guerra prevista, Carlos foi por fim obrigado a convocar um Parlamento inglês em abril de 1640. As velhas queixas parlamentares em política e religião foram logo apresentadas, e Carlos rapidamente dissolveu o “Parlamento Curto”. Na breve guerra que se seguiu, os escoceses invadiram a Inglaterra com êxito. Carlos foi obrigado a negociar e a garantir as despesas de um exército escocês de ocupação até que o tratado fosse concluído. Não havia remédio. O Parlamento inglês tinha de ser convocado de novo, e em novembro de 1640 o “Parlamento Longo” iniciou os seus trabalhos. Ficou logo evidente que o puritanismo presbiteriano estava em maioria. Laud foi lançado na prisão. Em julho de 1641, a Alta Comissão foi abolida. Em janeiro de 1642, a tentativa do rei de prender cinco membros dos Comuns, a quem acusava de traição, precipitou a guerra civil. Em geral, o Norte e o Oeste ficaram do lado do rei, o Sul e o Leste do lado do Parlamento.9
O Parlamento aboliu o episcopado em janeiro de 1643. Era preciso prover o credo e o governo da igreja e, por isso, o Parlamento, bem no espírito de Elisabete, como soberano, convocou uma assembleia de cento e vinte e um clérigos e trinta leigos, por ele nomeados, para se reunir em Westminster em 1º de julho de 1643, a fim de aconselhar o Parlamento, que conservava em suas próprias mãos o poder de legislar. A Assembleia de Westminster, assim convocada, continha alguns congregacionais e episcopais, mas a sua maioria esmagadora era puritana presbiteriana. Enquanto isso, a guerra começara mal para o Parlamento e, para garantir o auxílio escocês, a Liga e Pacto Solene, que comprometia a maior uniformidade possível na religião na Inglaterra, na Escócia e na Irlanda e se opunha à “prelazia”, foi aceita pelos Parlamentos escocês e inglês entre agosto e outubro de 1643 e logo foi exigida de todos os ingleses maiores de dezoito anos. Comissários escoceses, sem voto mas com muita influência, passaram então a ter assento na Assembleia de Westminster. A Assembleia apresentou ao Parlamento um Diretório de Culto e um sistema de governo da igreja inteiramente presbiteriano em 1644. Em janeiro seguinte, o Parlamento aboliu o Livro de Oração e pôs em seu lugar o Diretório, que estabelecia uma ordem de culto substancialmente igual à usada nas igrejas presbiterianas e congregacionais conservadoras até hoje, sem oração litúrgica, embora com sugestões de assuntos apropriados para as petições. O Parlamento via com desconfiança o estabelecimento do governo presbiteriano, embora por fim o tenha ordenado em junho de 1646. A obra, porém, foi posta em funcionamento de modo muito imperfeito. O mesmo mês que presenciou a abolição do Livro de Oração viu a execução de Laud por meio de um decreto de proscrição (bill of attainder), ato que deve ser julgado como de vingança. A Assembleia preparou em seguida a sua famosa confissão,10 que apresentou ao Parlamento no fim de 1646. Adotada pela Assembleia Geral da Escócia em 27 de agosto de 1647, permanece como o padrão do presbiterianismo escocês e americano. O Parlamento inglês recusou a aprovação até junho de 1648, e então modificou algumas seções. Em 1647, a Assembleia completou dois catecismos, um Maior, para a exposição no púlpito, e um Breve,11 para a instrução das crianças. Ambos foram aprovados pelo Parlamento inglês e pela Assembleia Geral escocesa em 1648.
A Confissão e os catecismos de Westminster sempre estiveram entre as exposições mais notáveis do calvinismo. Em geral, repetem o conhecido tipo continental. Na questão dos decretos divinos, são infralapsários (ver Período VI, seção XV). Uma das suas principais peculiaridades é que, além da conhecida derivação do pecado original a partir dos primeiros pais como “a raiz de toda a humanidade”, dão ênfase a uma “aliança de obras” e a uma “aliança de graça”. Na primeira, Adão é visto como a cabeça representativa da raça humana, a quem Deus fez promessas definidas, que incluíam os seus descendentes, e que ele, como representante deles, perdeu pela sua desobediência, tanto para eles como para si mesmo. Tendo falhado a “aliança de obras”, Deus ofereceu uma nova “aliança de graça” por meio de Cristo. Essa doutrina da aliança remonta a Kaspar Olevianus (ver Período VI, seção XIII), embora a sua exposição mais completa viesse a estar na obra de Johann Coccejus (1603-1669), professor em Franeker e em Leiden. Era uma tentativa de dar uma explicação definida do pecado como ato do próprio homem e de mostrar uma responsabilidade humana real pela sua ruína. Outra peculiaridade desses símbolos é uma ênfase no sábado que está em harmonia com o desenvolvimento puritano dessa doutrina (ver acima).
Enquanto essas discussões teológicas e eclesiásticas estavam em andamento, a guerra civil havia cumprido a sua primeira fase. Em 2 de julho de 1644, o exército real fora derrotado em Marston Moor, perto de York, em grande parte pela habilidade de um membro do Parlamento de pouca experiência militar, Oliver Cromwell (1599-1658), cuja capacidade havia criado uma tropa escolhida de “homens religiosos”. Pouco menos de um ano depois, em 14 de junho de 1645, Cromwell desbaratou o último exército de campanha do rei perto de Naseby. No ano seguinte, Carlos entregou-se aos escoceses, que, por sua vez, o entregaram ao Parlamento inglês. O exército, tal como Cromwell o criara, era um corpo de entusiastas religiosos, no qual pouco se questionavam as distinções mais sutis de credo. Contanto que se opusessem a Roma e à “prelazia”, batistas, congregacionais e puritanos eram bem-vindos nele. O presbiterianismo rígido da maioria parlamentar era tão desagradável ao exército quanto o antigo governo dos bispos, e Cromwell compartilhava plenamente esse sentimento. O exército logo passou a exigir um grau amplo de tolerância.
Essa atitude do exército impediu o pleno estabelecimento do presbiterianismo que o Parlamento havia sancionado. Ela desagradou aos escoceses. Carlos aproveitou então essa situação para tramar com os escoceses uma invasão da Inglaterra em seu favor, levando-os a crer que apoiaria o presbiterianismo. Em 17-19 de agosto de 1648, o exército escocês invasor foi dispersado por Cromwell perto de Preston. Essa vitória deixou o exército senhor absoluto da Inglaterra. Em 6 de dezembro seguinte, o “Expurgo de Pride” expulsou do Parlamento todos os que se opunham aos desejos do exército. Carlos I foi então julgado e condenado pelas suas alegadas traições e perfídias, e decapitado em 30 de janeiro de 1649, portando-se com grande dignidade. Cromwell subjugou em seguida a Irlanda, em 1649, submeteu a Escócia no ano seguinte e derrotou o filho de Carlos, o futuro Carlos II (1660-1685), perto de Worcester, em 1651. A oposição fora sufocada em toda parte.
Cromwell, embora não se identificasse inteiramente com nenhuma denominação, era na prática um congregacional, ou independente, e sob o seu Protetorado permitiu-se um amplo grau de tolerância.12 Desde o começo da guerra, porém, cerca de dois mil clérigos episcopais tinham sido privados dos seus cargos e haviam sofrido grandes privações. Então, como em mudanças anteriores e posteriores, é evidente, no entanto, que a grande maioria do clero ou não foi perturbada ou conseguiu ajustar-se à nova situação. Por mais hábil, consciencioso e dotado de visão de estadista que Cromwell fosse, o seu governo era o da autoridade militar e, como tal, era malvisto, enquanto as rixas entre corpos religiosos rivais desagradavam igualmente à grande maioria do povo da Inglaterra, que ainda não conseguia conceber senão uma única forma estabelecida de fé. Até a sua morte, em 3 de setembro de 1658, Cromwell reprimiu todo descontentamento.
Oliver Cromwell teve como sucessor no cargo de Protetor o seu filho Richard; mas o novo governante era um homem sem energia, e o resultado foi uma anarquia prática. Realistas e presbiterianos se uniram então para efetuar a restauração da monarquia. Em 14 de abril de 1660, Carlos II publicou em Breda uma declaração “de liberdade para as consciências sensíveis”,13 e em 29 de maio estava em Londres. Mas, se os presbiterianos tinham esperanças justas de ser incluídos no novo arranjo religioso, estavam condenados a uma amarga decepção.
Carlos II talvez tenha pretendido alguma inclusão dos presbiterianos na igreja nacional. Edward Reynolds (1599-1676), até então puritano decidido, foi feito bispo de Norwich. O santo Richard Baxter (1615-1691), um dos mais eminentes do partido presbiteriano, recebeu a oferta de um bispado, mas recusou. Uma conferência entre bispos e presbiterianos realizou-se por autoridade do governo no Palácio de Savoy em 1661,14 mas deu em pouca coisa. Carlos II era inteiramente imoral, fraco e indiferente em religião, e pouca confiança se podia pôr em suas promessas. Se ele tivesse sido um homem melhor ou mais forte, é duvidoso que pudesse ter contido a maré da reação nacional contra o puritanismo. O primeiro Parlamento eleito depois da sua restauração era ferozmente realista e anglicano. As Convocações de Cantuária e de York reuniram-se em 1661, e cerca de seiscentas alterações foram feitas no Livro de Oração, mas nenhuma na direção puritana, e em maio de 1662 a nova Lei de Uniformidade recebeu a sanção real. Por ela,15 proibia-se, sob penas pesadas, o uso de qualquer outro culto que não os do Livro de Oração revisado, e exigia-se de cada clérigo que, antes de 24 de agosto, prestasse juramento de “sincero assentimento e consentimento a tudo e a cada coisa nele contida e prescrita”; e também “de que não é lícito, sob nenhum pretexto, pegar em armas contra o rei”.
Essas disposições tinham o propósito de excluir os puritanos da igreja e, como tais, foram eficazes. De mil e quinhentos a dois mil ministros deixaram os seus postos em vez de prestar os juramentos prescritos. O partido puritano era agora o que nunca fora antes, um partido fora da Igreja da Inglaterra. A não conformidade fora forçada a tornar-se dissidência. Leis mais severas logo se seguiram, motivadas em parte pelo medo de conspiração contra a monarquia restaurada. Pela Primeira Lei dos Conventículos, de 1664, multa, prisão e, por fim, deportação eram as penas pela presença num culto que não estivesse de acordo com o Livro de Oração, frequentado por cinco ou mais pessoas que não fossem da mesma casa. A “Lei das Cinco Milhas”16, do ano seguinte, proibia a qualquer pessoa “em ordens sacras ou pretensas ordens sacras”, ou que tivesse pregado num “conventículo”, e não prestasse o juramento que condenava a resistência armada ao rei e se comprometia a não tentar “nenhuma alteração do governo, seja na igreja, seja no Estado”, morar num raio de cinco milhas de qualquer cidade com foro de município ou à mesma distância do antigo lugar do seu ministério. Tais pessoas eram também proibidas de lecionar em escolas, quase a única ocupação prontamente aberta a um ministro privado do cargo. A Segunda Lei dos Conventículos,17 de 1670, tornou menos severas as penas por essa frequência ilegal, mas dispôs engenhosamente que as pesadas multas do pregador e dos ouvintes podiam ser cobradas de qualquer um dos presentes, caso a pobreza impedisse o pagamento por todos. Ainda assim, apesar dessa repressão, a pregação e as congregações dissidentes continuaram.
Carlos II, embora fosse homem sem religião verdadeira, simpatizava com a fé romana, que professou no leito de morte, e seu irmão, o futuro Jaime II, foi católico declarado e fervoroso a partir de 1672. Além disso, Carlos recebia pensões secretas do fortemente católico Luís XIV da França. Em 15 de março de 1672, com o propósito de ajudar os católicos e de garantir para esse fim o favor dos dissidentes, Carlos publicou, por sua própria autoridade, uma Declaração de Indulgência, pela qual se concedia culto público aos dissidentes protestantes, as leis penais contra os católicos eram suspensas e o culto destes era permitido em casas particulares. Ao Parlamento isso pareceu um favor inconstitucional a Roma. Forçou a retirada da Indulgência, em 1673, e aprovou a Lei do Teste,18 que, embora visasse os católicos, pesou duramente sobre os dissidentes protestantes. Todos os que ocupavam cargos militares ou civis, com poucas exceções menores, e que moravam num raio de trinta milhas de Londres, eram obrigados a receber a Ceia do Senhor segundo os ritos da Igreja da Inglaterra ou perder os seus postos. Essa lei só seria revogada em 1828. A repressão da dissidência continuou, portanto, inalterada até a morte de Carlos II, em 1685.
Em favor de Jaime II (1685-1688), é preciso dizer que ele via no estabelecimento do catolicismo o seu objetivo principal, e as suas medidas, embora imprudentes, foram corajosas. Ignorou a Lei do Teste e nomeou católicos para altos cargos no serviço militar e civil. Trouxe jesuítas e monges. Obteve de um Tribunal do Banco do Rei manipulado, em 1686, o reconhecimento do seu direito “de dispensar de todas as leis penais em casos particulares”. Restabeleceu um Tribunal da Alta Comissão. Em 4 de abril de 1687, publicou uma Declaração de Indulgência19 que concedia completa tolerância religiosa. Em si mesma, era uma medida de bela aparência e, do ponto de vista moderno, louvável. Seus motivos, porém, eram óbvios demais. Seu objetivo último era tornar a Inglaterra outra vez um país católico romano, e todo o protestantismo se alarmou, enquanto os amantes do governo constitucional viam nela uma anulação do poder do Parlamento pela vontade arbitrária do rei. A vasta maioria dos dissidentes, embora aliviada por ela de pesadas incapacidades legais, recusou-se a apoiá-la e fez causa comum com os homens da igreja estabelecida. Quando, em abril de 1688, Jaime II ordenou que a Indulgência fosse lida em todas as igrejas, sete bispos protestaram. Foram levados a julgamento e, para alegria dos protestantes, absolvidos. Jaime havia posto à prova demais o sentimento nacional. Guilherme de Orange (1650-1702), estatúder dos Países Baixos, que se casara com Maria, filha de Jaime, foi convidado a liderar o movimento contra Jaime. Em 5 de novembro de 1688, desembarcou com um exército. Jaime fugiu para a França. A Revolução estava consumada, e em 13 de fevereiro de 1689 Guilherme (III) e Maria foram proclamados soberanos conjuntos da Inglaterra.
O clero da Restauração havia afirmado por tempo demais as doutrinas do direito divino dos reis e da obediência passiva à autoridade real para que essa mudança lhe fosse agradável. Sete bispos, encabeçados por William Sancroft (1616-1693), recusaram o juramento de fidelidade aos novos soberanos, e com eles cerca de quatrocentos clérigos. Para eles, Jaime II continuava a ser o ungido do Senhor. Foram privados dos cargos, como anglicanos e dissidentes o tinham sido antes, e portaram-se com igual coragem. Muitos deles eram homens de piedade fervorosa. Formaram o partido dos nonjurors [os que não juraram], que foi desaparecendo aos poucos.
Nas circunstâncias da Revolução de 1688, já não se podia negar a tolerância aos dissidentes protestantes. Pela Lei de Tolerância20 de 24 de maio de 1689, todos os que jurassem, ou afirmassem, os juramentos de fidelidade a Guilherme e Maria, rejeitassem a jurisdição do papa, a transubstanciação, a missa, a invocação da Virgem e dos santos, e também subscrevessem as partes doutrinárias dos Trinta e Nove Artigos, recebiam liberdade de culto. Era uma tolerância pessoal, e não um ajuste territorial como na Alemanha ao fim da Guerra dos Trinta Anos. Formas diversas de culto protestante podiam agora existir lado a lado. Os dissidentes talvez chegassem a um décimo da população da Inglaterra, divididos entre presbiterianos, congregacionais, batistas e quacres. Ainda eram obrigados a pagar dízimos à igreja estabelecida e tinham muitas outras incapacidades legais, mas haviam conquistado a liberdade religiosa essencial. Nenhum desses privilégios foi concedido aos que negavam a Trindade nem aos católicos romanos. O alívio efetivo destes últimos só veio em 1778 e 1791, e só se completou em 1829.
Na Escócia, a Restauração foi um tempo de grande tumulto e sofrimento. O Parlamento de 1661 anulou todas as leis relativas à religião aprovadas desde 1633. O episcopado foi, portanto, restaurado como no tempo de Carlos I. Em setembro de 1661, foram nomeados quatro bispos, o principal deles James Sharp (1618-1679), como arcebispo de St. Andrews. A sagração foi obtida da Inglaterra. Sharp fora ministro presbiteriano, mas havia traído o seu partido e a sua igreja. O Parlamento exigiu de todos os ocupantes de cargos públicos que renegassem os pactos de 1638 e 1643. Em 1663, o Parlamento decretou pesadas multas pela ausência das igrejas, agora governadas episcopalmente, embora nem ele ousasse introduzir uma liturgia. Muitos ministros presbiterianos foram então privados dos cargos, especialmente no sudoeste da Escócia. Quando os seus paroquianos se ausentavam do ministério dos novos nomeados, eram multados e, se o pagamento não aparecia, aquartelavam-se soldados em suas casas. Em 1664, um Tribunal da Alta Comissão foi acrescentado aos instrumentos de repressão. Dois anos depois, alguns dos oprimidos defensores dos pactos de 1638 e 1643, ou covenanters, participaram do Levante de Pentland. Ele foi esmagado sem piedade, e o elemento presbiteriano foi tratado com severidade crescente. Em 3 de maio de 1679, numa retaliação tardia, Sharp foi assassinado. Esse crime foi logo seguido por um levante armado de covenanters; mas em 22 de junho a revolta foi esmagada em Bothwell Bridge e os insurgentes capturados foram tratados com grande crueldade. Seis meses depois, o irmão do rei, Jaime, o futuro Jaime II da Inglaterra, foi posto praticamente à frente dos assuntos escoceses. Os presbiterianos mais extremados e intransigentes eram agora um povo proscrito e caçado, conhecido como cameronianos, do nome de um dos seus líderes, Richard Cameron.
A ascensão de Jaime II, ou VII, como era numerado na Escócia, a princípio só intensificou a repressão dos cameronianos. Seu primeiro ano foi o “tempo da matança”; e o Parlamento de 1685 fez da morte a punição pela presença num “conventículo”. Jaime, porém, logo seguiu o mesmo rumo que na Inglaterra. Encheu o seu conselho de católicos e, em 1687, publicou Cartas de Indulgência que concediam liberdade de culto. Como na Inglaterra, essa libertação dos católicos das penalidades despertou a hostilidade de protestantes de todos os matizes. Episcopais e presbiterianos se opuseram igualmente; e quando Guilherme e Maria subiram ao trono da Inglaterra tinham muitos amigos no reino do norte. A Escócia, porém, estava mais dividida que a Inglaterra. Os Stuarts eram escoceses e, embora os episcopais não gostassem do catolicismo de Jaime, desconfiavam do calvinismo do “Guilherme holandês”, a quem os presbiterianos favoreciam. A Revolução triunfou, porém, e em 11 de maio de 1689 Guilherme e Maria se tornaram soberanos da Escócia. Em 1690, o Parlamento restaurou todos os ministros presbiterianos expulsos desde 1661, ratificou a Confissão de Westminster (ver acima) e declarou o presbiterianismo a forma reconhecida pelo governo. Esse estabelecimento legal do presbiterianismo teve a oposição dos leigos cameronianos, que continuaram a sua hostilidade a todo controle da igreja pela autoridade civil e condenaram a falta de renovação dos pactos, e a dos episcopais, que eram fortes no norte da Escócia. Estes últimos, porém, embora na condição de corpo “dissidente”, foram autorizados por uma lei de tolerância de 1712 a usar a liturgia inglesa. Tanto na Inglaterra como na Escócia, portanto, as longas disputas entre protestantes foram resolvidas de modo semelhante, pela tolerância.
Um dos produtos mais notáveis do período das guerras civis na Inglaterra foi a Sociedade dos Amigos, ou quacres. George Fox (1624-1691) foi um dos poucos gênios religiosos da história inglesa. Nascido em Fenny Drayton, filho de um tecelão, cresceu fervoroso e de espírito sério, “sem nunca ter feito mal a homem ou mulher”. Aos dezenove anos, uma bebedeira para a qual foi convidado por alguns cristãos nominais causou-lhe tanta repugnância, pelo contraste entre a prática e a profissão de fé, que ele se lançou numa busca angustiada da realidade espiritual. Detestava toda espécie de fingimento. Seus primeiros companheiros tinham sido, em certa medida, batistas, e muitas das suas peculiaridades posteriores se encontram entre os anabatistas do continente ou estavam representadas pelas seitas irregulares do período da guerra civil inglesa. Esses eram apenas os adornos exteriores. A experiência transformadora, e sempre central, veio a Fox em 1646. Ele sentiu que o cristianismo não é uma profissão exterior, mas uma luz interior pela qual Cristo ilumina diretamente a alma que crê. A revelação não se limita às Escrituras, embora estas sejam verdadeira Palavra de Deus; ela ilumina todos os homens que são verdadeiros discípulos. O Espírito de Deus fala diretamente por meio deles, dá-lhes a sua mensagem e os vivifica para o serviço.
Em 1647, Fox começou o seu ministério tempestuoso. Já que Deus dá a luz interior a quem ele quer, o verdadeiro ministério é o de qualquer homem ou mulher que ele se digne usar. Um ministério profissional deve ser rejeitado. Os sacramentos são realidades interiores e espirituais. Os elementos exteriores não são apenas desnecessários, mas enganosos. Os juramentos são uma confirmação inútil da palavra verdadeira de um cristão. O servilismo na fala ou no comportamento é uma degradação do verdadeiro respeito cristão de homem para homem. Os títulos artificiais devem ser rejeitados; Fox não negava títulos legais como rei ou juiz. A guerra é ilícita para o cristão. A escravidão é abominável. Todo cristianismo, para ser verdadeiro, tem de se expressar numa vida transformada e consagrada. Um protesto como o de Fox contra as tendências de limitar toda a revelação divina às Escrituras ou aos Pais dos primeiros séculos foi um corretivo salutar e necessário a uma interpretação unilateral do cristianismo. Nem foi menos benéfica a sua insistência na honestidade espiritual.
A sinceridade e o fervor espiritual das crenças de Fox, o seu ódio a tudo o que cheirava a formalismo e a sua exigência de experiência espiritual interior foram forças de imensa atração. Em 1652, a primeira comunidade quacre se reuniu em Preston Patrick, no norte da Inglaterra. Dois anos depois, os Amigos haviam se espalhado para Londres, Bristol e Norwich. A mais eminente das primeiras conversões de Fox foi Margaret Fell (1614-1702), com quem ele se casou depois que ela ficou viúva, e a casa dela, Swarthmore Hall, serviu de quartel-general para os seus pregadores.
Nas circunstâncias da vida inglesa, um movimento assim enfrentou oposição feroz. Antes de 1661, nada menos que três mil cento e setenta e nove pessoas, entre elas o próprio Fox, tinham sofrido prisão. Cedo se manifestou um zelo missionário que mandou quacres proclamar a sua fé em pontos tão distantes como Jerusalém, as Índias Ocidentais, a Alemanha, a Áustria e a Holanda. Em 1656, entraram em Massachusetts, e em 1661 quatro já tinham sido enforcados. Havia alguma explicação, embora nenhuma justificativa, para essa severidade na conduta extravagante de muitos dos primeiros quacres, que teria provocado a intervenção da polícia em qualquer época.
Essas extravagâncias foram possíveis pela falta inicial de organização, assim como pela crença na inspiração imediata do Espírito. Fox viu a necessidade da ordem e, por volta de 1666, os traços principais da disciplina quacre estavam delineados, embora diante de oposição considerável. Naquele ano foram estabelecidas as “Reuniões Mensais”, pelas quais se podia manter vigilância estrita sobre a vida e a conduta dos membros. Antes da morte de Fox, em 1691, o grupo havia assumido as características sóbrias que desde então o distinguem.
As leis contra os dissidentes na Restauração pesaram com severidade peculiar sobre os quacres, já que eles, ao contrário dos presbiterianos e congregacionais, não faziam nenhum esforço para esconder as suas reuniões, mas as mantinham desafiadoramente diante da autoridade hostil. Cerca de quatrocentos morreram na prisão, e muitos foram arruinados financeiramente por pesadas multas. A esse período, porém, pertencem o seu troféu mais eminente e a sua grande experiência colonial. William Penn (1644-1718), filho do almirante Sir William Penn, depois de inclinações para o quacrismo já em 1661, abraçou plenamente as suas crenças em 1666 e tornou-se imediatamente um dos mais eminentes pregadores e defensores literários da fé. Decidiu encontrar na América a liberdade negada aos quacres na Inglaterra. Depois de ajudar a enviar cerca de oitocentos quacres para Nova Jersey em 1677-1678, Penn obteve de Carlos II a concessão da Pensilvânia, em 1681, em pagamento de uma dívida da coroa para com o seu pai. Em 1682, Filadélfia foi fundada, e começou uma grande experiência colonial.
A Lei de Tolerância de 1689 (ver Período VI, seção XVI) livrou os quacres, como os outros dissidentes, das suas incapacidades legais mais opressivas e concedeu-lhes liberdade de culto.
1. Gee e Hardy, Documents Illustrative of English Church History, pp. 467-475.
2. Calvino, Institutas, 4.3.8.
3. Gee e Hardy, pp. 481-484.
4. Gee e Hardy, pp. 492-498.
5. Schaff, Creeds of Christendom, vol. 3, p. 523.
6. Gee e Hardy, pp. 508-511.
7. Gee e Hardy, pp. 518-520.
8. Ibid., pp. 521-527.
9. Para documentos importantes que ilustram este período, ver Gee e Hardy, pp. 537-585.
10. Schaff, Creeds of Christendom, vol. 3, pp. 598-673.
11. Ibid., pp. 676-703.
12. Gee e Hardy, pp. 574-585.
13. Ibid., pp. 585-588.
14. Gee e Hardy, pp. 588-594.
15. Ibid., pp. 600-619.
16. Ibid., pp. 620-623.
17. Gee e Hardy, pp. 623-632.
18. Ibid., pp. 632-640.
19. Gee e Hardy, pp. 641-644.
20. Ibid., pp. 654-664.
Tradução para o português a partir de Williston Walker, A History of the Christian Church (Nova York, Charles Scribner’s Sons, 1918), 1ª edição, conferida com as imagens das páginas; domínio público. As notas são de Walker; as que eram só referência bíblica passaram para o texto. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.