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Parte I · Capítulo III

Nova presunção de uma revelação direta, tirada da fraqueza e da corrupção da razão humana e da falta de autoridade das opiniões meramente humanas

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Ainda que admitíssemos que uma razão perfeita, exercitada na contemplação das obras naturais de Deus e do curso de seu governo moral, pudesse fornecer-nos, por meio de um processo exato de indução, uma regra suficiente para determinar a qualidade das ações morais e motivos suficientes para a obediência, o caso não se alteraria; pois essa razão perfeita não se encontra entre os homens. Seria inútil insistir, diante dos que negam a doutrina da Escritura sobre a queda do homem, em que o entendimento e a razão dele estão enfraquecidos pela deterioração de toda a sua natureza intelectual. Mas será igualmente pertinente ao argumento declarar um fato que não se pode contestar: as faculdades de raciocínio dos homens diferem muito em força, e, de premissas que todos hão de admitir serem um tanto obscuras, se tirariam inevitavelmente inferências diferentes. Ou, então, a lei divina seria aquilo que cada homem quisesse fazer dela e, por consequência, uma regra variável, posição que certamente não se pode sustentar; ou muitas pessoas deixariam de apreendê-la devidamente. E, ainda que nesse caso se alegasse que não é punível quem obedece à lei até onde a conhece, certamente os fins de um plano de governo geral, firme e sabiamente formado, ficariam frustrados por essa razão. Também aqui, portanto, a presunção tem de ser em favor de uma declaração expressa da vontade de Deus, em termos que o entendimento comum dos homens possa apreender, como o único meio pelo qual se pode dar orientação moral suficiente e exercer controle eficaz.

A noção de que, por indução racional, a vontade de Deus pode ser inferida de seus atos em grau suficiente para todo propósito de orientação moral fica ainda mais viciada por supor que os homens em geral são tão contemplativos em seus hábitos que prosseguem tais investigações com interesse, e tão bem-dispostos que, na maioria dos casos, as fazem com honestidade. Nenhuma dessas coisas é verdadeira.

A massa da humanidade não é, nem nunca foi, contemplativa e, portanto, se não for instruída de outro modo, permanecerá ignorante de seu dever; pois as questões de virtude, de moral e de religião, como se pode mostrar pelas disputas dos homens mais sábios, em sua maior parte não estão ao alcance da mente do povo sem uma revelação.1

É igualmente fato indubitável que, em todas as questões morais que refreiam os vícios, as paixões e os interesses imediatos dos homens, a convicção costuma ser resistida, e a regra é rebaixada até a prática, em vez de a prática ser elevada até a regra; de modo que os sofismas mais frágeis são admitidos como argumentos, e os princípios mais frouxos tomam o lugar dos de retidão e virtude rigorosas. Isso é matéria de observação diária e não pode ser negado. A inferência irresistível que daí decorre é que, pelo menos, o grosso da humanidade, não estando acostumado a exercícios intelectuais, não tendo sequer tempo livre para eles por estar condenado a trabalhos servis e não estando disposto a conduzir a investigação com cuidado e exatidão, jamais chegaria a conhecer a vontade do Governador supremo, se o conhecimento dela só pudesse ser obtido pela observação e pelo raciocínio habituais. Se se disser que “a parte intelectual e instruída da humanidade deveria ensinar o resto”, pode-se responder que mesmo isso seria difícil, porque o conhecimento deles próprios teria de ser comunicado aos outros pelo mesmo processo de indução difícil pelo qual eles mesmos o alcançam; do contrário, não se produziria convicção racional na mente dos aprendizes. A tarefa seria, portanto, desesperada em relação à maioria, tanto pela falta de tempo quanto pela falta de capacidade intelectual. Mas, ainda que fosse praticável, o sistema teísta não tem nenhuma provisão para tal instrução. Não impõe a uns o dever de ensinar nem a outros o dever de aprender. Não tem mestres autorizados, nem dia de descanso do trabalho em que reunir os ouvintes, nem ordenanças religiosas autorizadas pelas quais a verdade moral possa ser levada aos ouvidos e ao coração dos homens; e, se os tivesse, como seu melhor conhecimento está contido antes em especulações difusas e hesitantes do que concentrado em máximas e primeiros princípios, expressos em poucas palavras simples, que de imediato revelam uma mente superior plenamente à altura de todo o assunto e de repente iluminam o entendimento dos mais indiferentes e iletrados, seria ensinado em vão.

Suponhamos, porém, que a verdade tenha sido descoberta, que seus mestres tenham sido designados e que se tenham separado dias para a comunicação da instrução. De que autoridade estariam investidos esses mestres? Não alegam nenhuma comissão daquele cuja vontade pretendem ensinar, e não operam milagres em confirmação da verdade de sua doutrina. Essa doutrina, pela natureza das coisas, não pode ser demonstrada matematicamente de modo a impor a convicção; e, portanto, seria considerada, e com justiça, como a opinião do mestre e nada mais que uma opinião, que cada um poderia ouvir ou não sem nenhuma consciência de violar uma obrigação, e que cada um poderia receber, e receberia, conforme seu próprio juízo concordasse ou discordasse de seu mestre não autorizado, ou conforme seus interesses e paixões recomendassem ou desacreditassem a doutrina assim ensinada.2

Os fatos provam isso suficientemente. Os sábios da antiguidade eram mestres de moral; fundaram escolas, reuniram discípulos, puseram sua fama na sabedoria; contudo, havia pouca concordância entre eles, mesmo quanto aos primeiros princípios da religião e da moral, e em geral não reformaram nem a própria vida nem a dos outros. Isso é reconhecido por Cícero: “Pensas que essas coisas tiveram alguma influência sobre os homens (excetuados pouquíssimos) que pensaram, escreveram e discutiram a respeito delas? Quem há, de todos os filósofos, cuja mente, vida e costumes fossem conformes à reta razão? Quem jamais fez de sua filosofia a lei e a regra de sua vida, e não mera exibição de seu engenho e de seus talentos? Quem observou suas próprias instruções e viveu em obediência a seus próprios preceitos? Ao contrário, muitos deles eram escravos de concupiscências torpes, muitos do orgulho, muitos da cobiça” etc.3

Tal sistema de orientação e controle moral, pois, ainda que pudesse ser formado, não suportaria comparação com o que é provido pela revelação direta e externa, cuja doutrina, embora transmitida por homens diferentes, em épocas diferentes, é concorde do começo ao fim; que se torna autorizada pelo atestado divino; que consiste em enunciação clara e legislativa, e não em especulação humana e inferência trabalhosa; cujos mestres foram tão santos quanto sua doutrina era sublime; e que em todas as épocas exerceu poderosa influência moral sobre a conduta dos homens. “Em toda a Grécia, não conheço senão um Fédon e um Pólemon”, diz Orígenes, “que tenham sido feitos melhores por sua filosofia; ao passo que o cristianismo trouxe de volta miríades do vício para a virtude.”

Todas essas considerações, portanto, reforçam ainda mais a presunção de que a vontade de Deus foi objeto de revelação expressa ao homem, porque uma declaração dessa espécie é a única que se pode conceber como adequada, completa, de compreensão comum, suficientemente autorizada e adaptada às circunstâncias da humanidade.

“As verdades que os filósofos provaram pela razão especulativa careciam de alguma autoridade mais perceptível que as apoiasse; e os preceitos que eles estabeleceram, por mais razoáveis que fossem em si mesmos, pareciam ainda carecer de peso e não ser mais que preceitos de homens.” (Dr. Sam. Clarke.)

Notas de Richard Watson

1. “Se a filosofia tivesse ido mais longe do que foi e, partindo de princípios inegáveis, nos tivesse dado a ética como uma ciência, à maneira da matemática, demonstrável em cada parte, nem assim ela teria sido tão eficaz para o homem neste estado imperfeito, nem própria para a cura. A maior parte da humanidade carece de tempo livre ou de capacidade para a demonstração, nem consegue acompanhar uma cadeia de provas, da qual, nesse caminho, teria sempre de depender para se convencer, e à qual não se pode exigir que dê assentimento enquanto não vir a demonstração. Onde quer que eles empaquem, os mestres são sempre postos à prova e têm de desfazer a dúvida por um fio de deduções coerentes a partir do primeiro princípio, por mais longo ou intrincado que seja. E tanto se poderia esperar fazer de todos os jornaleiros e artesãos, das fiandeiras e das leiteiras, matemáticos perfeitos quanto torná-los perfeitos na ética por esse caminho: ter mandamentos claros é o meio seguro e único de levá-los à obediência e à prática; a maior parte não pode saber e, por isso, tem de crer. E pergunto se alguém vindo do céu no poder de Deus, com prova e demonstração plena e clara de milagres, dando regras simples e diretas de moralidade e de obediência, não tem mais probabilidade de iluminar o grosso da humanidade, endireitá-la em seus deveres e levá-la a cumpri-los do que raciocinando com ela a partir de noções gerais e de princípios da razão humana.” (Locke, Reasonableness of Christianity.) ↩

2. “Conceda-se (embora não seja verdade) que todos os preceitos morais do evangelho já eram conhecidos antes por alguém, em algum lugar, entre os homens. Mas onde, ou como, ou com que utilidade, isso não se considera. Suponha-se que possam ser recolhidos aqui e ali: alguns de Sólon e de Bias, na Grécia; outros de Túlio, na Itália; e, para completar a obra, que se consulte Confúcio, lá na China, e que Anacársis, o cita, contribua com sua parte. Que fará tudo isso para dar ao mundo uma moral completa, que possa ser para a humanidade a regra inquestionável da vida e dos costumes? A que equivaleria isso como regra firme, como transcrição certa de uma lei sob a qual estamos? O dito de Aristipo ou de Confúcio lhe dava autoridade? Foi Zenão legislador da humanidade? Se não, o que ele ou qualquer outro filósofo transmitiu não passava de um dito seu. A humanidade podia dar-lhe ouvidos ou rejeitá-lo, como quisesse, ou conforme convinha a seus interesses, paixões, princípios ou humores: não estava sob nenhuma obrigação; a opinião deste ou daquele filósofo não tinha autoridade.” (Locke, Reasonableness etc.) ↩

3. Sed haec eadem num censes apud eos ipsos valere, nisi admodum paucos, a quibus inventa, disputata, conscripta sunt? Quotus enim quisque philosophorum invenitur, qui sit ita moratus, ita animo ac vita constitutus, ut ratio postulat? etc. (Pensas que essas mesmas coisas têm valor entre os próprios homens que as descobriram, discutiram e escreveram, exceto pouquíssimos? Pois quantos filósofos se encontram cujo caráter, ânimo e vida sejam tais como a razão exige?) (Tusculanae Quaestiones, livro II.) ↩

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Richard Watson, Theological Institutes; or, A View of the Evidences, Doctrines, Morals, and Institutions of Christianity (Londres, 1823-1829), conferido com a edição de Nova York (Lane & Scott, 1850-1851). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).