A concordância e a diferença entre o batismo e a ceia do Senhor são bem expostas pela Igreja da Escócia em seu catecismo: “Os sacramentos do batismo e da ceia do Senhor concordam em que o autor de ambos é Deus; a parte espiritual de ambos é Cristo e seus benefícios; ambos são selos da mesma aliança; devem ser ministrados por ministros do evangelho, e por nenhum outro; e devem continuar na Igreja de Cristo até a sua segunda vinda.” “Esses sacramentos diferem em que o batismo deve ser administrado uma só vez, com água, e isso até a crianças; ao passo que a ceia do Senhor deve ser administrada com frequência, nos elementos do pão e do vinho, para representar e apresentar Cristo como alimento espiritual da alma e para confirmar nossa permanência e crescimento nele, e isso somente aos que têm idade e capacidade para examinar a si mesmos.”
Assim como o batismo foi posto no lugar da circuncisão, a ceia do Senhor foi colocada por nosso Salvador no lugar da Páscoa, e foi instituída logo depois de ele celebrar essa ordenança pela última vez com seus discípulos. A Páscoa era um tipo eminente do sacrifício de nosso Senhor e de seus benefícios; e, uma vez que ele estava prestes a cumprir aquele rito simbólico que, de geração em geração, continuara a apresentá-lo à fé e à esperança dos santos antigos, ela não podia ter lugar sob a nova dispensação. Cristo em pessoa tornou-se a verdadeira Páscoa; e era necessário um novo rito para comemorar a libertação espiritual dos homens e para transmitir e confirmar os seus benefícios. As circunstâncias de sua instituição explicam a sua natureza e finalidade.
Na noite em que os primogênitos do Egito foram mortos, os filhos de Israel receberam ordem de tomar um cordeiro para cada casa, matá-lo e aspergir o sangue nos batentes das portas, para que o anjo destruidor passasse por cima das casas de todos os que tivessem obedecido a essa ordem. Não só os primogênitos foram assim preservados com vida, mas o resultado foi a libertação de toda a nação da escravidão no Egito, e o fato de ela se tornar a Igreja visível e o povo de Deus em virtude de uma aliança especial. Em comemoração desses acontecimentos, a festa da Páscoa tornou-se anual, e nessa ocasião todos os homens da Judeia se reuniam diante do Senhor em Jerusalém; providenciava-se um cordeiro para cada casa; o sangue era derramado debaixo do altar pelos sacerdotes, e o cordeiro era comido pelo povo em suas tendas ou casas. Nessa festa doméstica e religiosa, cada chefe de família tomava o cálice de ação de graças e dava graças com sua família ao Deus de Israel. Assim, logo que nosso Senhor, agindo como chefe de sua família, os discípulos, terminou essa cerimônia pascal habitual, passou a uma ação nova e distinta: “pegando um pão”, o pão que estava então na mesa, “tendo dado graças, o partiu e lhes deu, dizendo: Isto é o meu corpo, que é dado por vocês; façam isto em memória de mim. Do mesmo modo, depois da ceia, pegou o cálice”, o cálice com o vinho que tinha sido usado na ceia pascal, “dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue derramado por vocês” (Lc 22.19-20); ou, como se exprime são Mateus: “A seguir, Jesus pegou um cálice e, tendo dado graças, o deu aos seus discípulos, dizendo: Bebam todos dele; porque isto é o meu sangue, o sangue da aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados” (Mt 26.27-28).
Que isso foi a instituição de um rito permanente, e não uma ação temporária restrita aos discípulos então presentes com ele, fica certo por 1Coríntios 11.23-26: “Porque eu recebi do Senhor o que também lhes entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, pegou um pão e, tendo dado graças, o partiu e disse: ‘Isto é o meu corpo, que é dado por vocês; façam isto em memória de mim.’ Do mesmo modo, depois da ceia, pegou também o cálice, dizendo: ‘Este cálice é a nova aliança no meu sangue; façam isto, todas as vezes que o beberem, em memória de mim.’ Porque, todas as vezes que comerem este pão e beberem o cálice, vocês anunciam a morte do Senhor, até que ele venha.” Dessas palavras aprendemos: 1. Que são Paulo recebeu uma revelação especial acerca dessa ordenança, a qual deve ter tido um objetivo mais alto do que a mera comemoração de um fato histórico, e deve-se supor que foi feita com o propósito de lhe ordenar que estabelecesse esse rito nas igrejas fundadas por ele, e de capacitá-lo a compreender corretamente a sua autoridade e o seu sentido onde o encontrasse já estabelecido pelos primeiros fundadores das primeiras igrejas. 2. Que o mandamento de Cristo, “façam isto em memória de mim”, originalmente dado aos discípulos presentes com Cristo na última Páscoa, é imposto por são Paulo aos coríntios. 3. Que ele considerava a ceia do Senhor um rito a ser celebrado “todas as vezes”, com frequência, e isso em todo o tempo futuro, até que o próprio Senhor “venha” para julgar o mundo. A obrigação perpétua dessa ordenança não pode, portanto, ser razoavelmente contestada.
Acerca da natureza desse grande e comovente rito do cristianismo formaram-se opiniões diferentes e muito opostas, que nasceram em parte dos modos de expressão elípticos e figurados adotados por Cristo ao instituí-lo, mas sobretudo da influência da superstição sobre alguns e do extremo de um racionalismo afetado sobre outros.
A primeira é a monstruosa teoria da Igreja de Roma, tão contrária às Sagradas Escrituras, cujas palavras ela alega receber em seu sentido literal, quanto repugnante aos sentidos e à razão da humanidade.
“Entende-se que as palavras ‘Isto é o meu corpo; isto é o meu sangue’ devem ser tomadas em seu sentido mais literal; que, quando Jesus pronunciou essas palavras, mudou, por seu poder onipotente, o pão que estava na mesa em seu corpo e o vinho em seu sangue, e realmente entregou seu corpo e seu sangue nas mãos dos apóstolos; e que, todas as vezes que se administra a ceia do Senhor, o sacerdote, ao pronunciar essas palavras com boa intenção, tem o poder de efetuar mudança semelhante. Essa mudança é conhecida pelo nome de transubstanciação; e a propriedade desse nome consistiria em que, embora o pão e o vinho não se alterem na forma, no sabor, no peso ou em qualquer outro acidente, crê-se que a substância deles é completamente destruída; que em seu lugar está verdadeiramente presente a substância do corpo e do sangue de Cristo, ainda que revestida de todas as propriedades sensíveis do pão e do vinho; e que as pessoas que recebem o que foi consagrado pela pronúncia dessas palavras não recebem pão e vinho, mas participam literalmente do corpo e do sangue de Cristo, e realmente comem a sua carne e bebem o seu sangue. Entende-se, além disso, que o pão e o vinho assim mudados são apresentados pelo sacerdote a Deus; e ele recebe o nome de sacerdote porque, ao colocá-los sobre o altar, oferece a Deus um sacrifício que, embora se distinga de todos os outros por ser sem derramamento de sangue, é um verdadeiro sacrifício propiciatório pelos pecados dos mortos e dos vivos: o corpo e o sangue de Cristo, que foram oferecidos na cruz, oferecidos de novo no sacrifício da missa. Entende-se que os elementos desse sacrifício, sendo verdadeiramente o corpo e o sangue de Cristo, possuem uma virtude intrínseca, que não depende da disposição de quem os recebe, mas opera imediatamente sobre todos os que não impedem essa operação por um pecado mortal. Por isso se considera de grande importância para a salvação dos enfermos e moribundos que partes desses elementos lhes sejam enviadas; e entende-se que a prática de participar em particular de uma pequena porção daquilo que o sacerdote assim transubstanciou é, em todos os aspectos, tão própria e salutar quanto unir-se a outros na ceia do Senhor. Entende-se ainda que, como o pão e o vinho, quando convertidos no corpo e no sangue de Cristo, são objeto natural de reverência e adoração para os cristãos, é muito apropriado adorá-los sobre o altar; e que convém levá-los em procissão solene, para que recebam a homenagem de todos os que os encontram. Aquilo que tinha sido transubstanciado era, portanto, erguido para receber adoração, tanto quando era mostrado ao povo no altar quanto quando era levado em procissão. Daí surgiu na Igreja de Roma a expressão elevação da hóstia, elevatio hostiae. Mas, como o vinho, ao ser levado de um lado para outro, ficava exposto a acidentes incompatíveis com a veneração devida ao corpo e ao sangue de Cristo, tornou-se costume enviar apenas o pão; e, para satisfazer os que por esse motivo não recebiam o vinho, ensinou-se a eles que, como o pão era mudado no corpo de Cristo, participavam por concomitância do sangue junto com o corpo. Com o passar do tempo, o povo deixou de ter permissão para participar do cálice; e dizia-se que, quando Jesus pronunciou as palavras ‘Bebam todos dele’, dirigia-se somente a seus apóstolos, de modo que o seu mandamento se cumpria quando os sacerdotes, sucessores dos apóstolos, bebiam do cálice, embora o povo fosse excluído. E assim a última parte desse sistema conspirava com a primeira para exaltar o clero muito acima dos leigos. Pois as mesmas pessoas que tinham o poder de mudar o pão e o vinho no corpo e no sangue de Cristo, e que apresentavam o que assim tinham feito como sacrifício pelos pecados de outros, gozavam da participação no cálice, enquanto ao povo se permitia a comunhão numa só espécie.” (Bispo Tomline, sobre os Artigos.)
Tão violentamente essas noções se opõem ao senso comum da humanidade que o terreno a que os escritores romanos sempre se viram empurrados para defendê-las é a autoridade de sua Igreja e a necessidade de uma fé implícita nas interpretações que ela dá à Escritura; princípios que excluem inteiramente o uso da Escritura e abrem a porta a toda heresia e a toda loucura fanática. Não fosse a ignorância e a superstição da Europa durante a Idade Média, essa monstruosa perversão de um rito sagrado não teria podido realizar-se; e, mesmo então, ela não foi estabelecida como artigo de fé sem muitas lutas. Quase todos os escritores da controvérsia protestante fornecerão refutação suficiente dessa tentativa capital de abusar da credulidade da humanidade; e a eles, caso ela precise de refutação, o leitor pode ser remetido.
A mente de Lutero, tão poderosa para se desfazer de dogmas que não tinham senão autoridade humana para sustentá-los, permanecia, quanto ao sacramento, presa aos laços de associações antigas. Ele concluiu que o corpo e o sangue de Cristo estão realmente presentes na ceia do Senhor; mas, ciente dos absurdos e das contradições internas da transubstanciação, apegou-se a uma doutrina que alguns escritores, dentro da própria Igreja romana, continuavam a preferir ao dogma papal acima exposto. Ela foi designada pelo termo consubstanciação, que admite que o pão e o vinho permanecem os mesmos depois da consagração, como antes. Assim ele escapa ao absurdo de contradizer os próprios sentidos dos homens. Lutero sustentava, porém, que, embora o pão e o vinho permaneçam inalterados, juntamente com eles o corpo e o sangue de Cristo são literalmente recebidos pelos comungantes. Alguns de seus seguidores imediatos, contudo, não admitiam neste ponto mais do que isto: que o corpo e o sangue de Cristo estavam realmente presentes no sacramento, mas que o modo dessa presença era um mistério inexplicável. Ainda assim, em alguns aspectos importantes, Lutero e os consubstancialistas escaparam inteiramente aos erros da Igreja de Roma quanto a esse sacramento. Negavam que ele fosse um sacrifício; que a presença do corpo e do sangue de Cristo lhe desse alguma virtude física que agisse independentemente da disposição de quem o recebe; e que ela tornasse os elementos objetos de adoração. Seu erro, portanto, pode ser considerado de natureza mais especulativa do que prática; e foi adotado provavelmente por deferência ao que se entendia ser o sentido literal das palavras de Cristo quando a ceia do Senhor foi instituída.
Uma terceira opinião foi sustentada por alguns contemporâneos de Lutero, e foi assim descrita: “Carlostadt, professor com Lutero na universidade de Wittenberg, e Zuínglio, natural da Suíça, fundador das Igrejas Reformadas, isto é, das igrejas protestantes que não são luteranas, ensinaram que o pão e o vinho na ceia do Senhor são os sinais do corpo e do sangue ausentes de Cristo; que, quando Jesus disse ‘Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue’, usou uma figura exatamente do mesmo tipo daquela pela qual, segundo as abreviações continuamente praticadas na linguagem comum, o sinal é muitas vezes posto pela coisa significada. Assim como essa figura é comum, havia duas circunstâncias que impediriam os apóstolos de entendê-la mal quando usada na instituição da ceia do Senhor. Uma era que eles viam o corpo de Jesus, então vivo, e por isso não podiam supor que o estivessem comendo. A outra era que tinham acabado de participar de uma festa judaica em cuja instituição a mesma figura fora usada. Pois, na noite em que os filhos de Israel escaparam do Egito, Deus disse do cordeiro que mandou cada casa matar e comer: ‘É a Páscoa do Senhor’ (Êx 12.11); não querendo dizer que ele era a ação do Senhor de passar por cima de cada casa, mas o sinal e o penhor dessa ação. Todos os cristãos admitem que tal figura é usada numa parte da instituição. Quando nosso Senhor diz ‘Este cálice é a nova aliança no meu sangue’, ninguém supõe que ele queira dizer que o cálice é a aliança, mas todos creem que ele quer chamá-lo de memorial, ou sinal, ou selo da aliança. Se se entender que, de acordo com a analogia da linguagem, ele usa uma figura semelhante quando diz ‘Isto é o meu corpo’, e que não quer dizer mais do que ‘Isto é o sinal do meu corpo’, ficamos livres de todos os absurdos implicados na interpretação literal, à qual os católicos romanos julgam necessário aderir. Damos às palavras uma interpretação mais natural do que a dos luteranos, que consideram ‘Isto é o meu corpo’ como destinado a exprimir uma proposição totalmente diferente, ‘Meu corpo está com isto’; e escapamos às dificuldades em que eles se envolvem por sua interpretação forçada.
“Além disso, por esse método de interpretação, não resta fundamento para a adoração que a Igreja de Roma presta ao pão e ao vinho, pois eles são apenas os sinais daquilo que se crê estar ausente. Não há fundamento para considerar a ceia do Senhor, para desonra do ‘Sumo Sacerdote da nossa confissão’ (Hb 3.1), um novo sacrifício oferecido por um sacerdote terreno, pois o pão e o vinho são apenas os memoriais daquele sacrifício que foi oferecido uma vez na cruz. E, por fim, essa interpretação destrói a ideia papista de uma virtude física na ceia do Senhor; pois, se o pão e o vinho são sinais do que está ausente, o seu uso tem de ser despertar a lembrança disso; mas esse é um uso que não pode de modo algum existir senão em relação àqueles cuja mente é por ele posta numa disposição adequada; e, portanto, a ceia do Senhor torna-se, em vez de um amuleto, um exercício da mente, e a sua eficácia não vem ex opere operato (pela obra realizada), mas ex opere operantis (pela disposição de quem a realiza).”
Embora contenha muita verdade, essa opinião fica aquém da verdade inteira, e por isso foi tomada como base daquela concepção da ceia do Senhor que a reduz a uma mera comemoração religiosa da morte de Cristo, com este acréscimo: que ela tem uma aptidão natural para produzir emoções salutares, para encher nossa mente de reflexões religiosas e para fortalecer resoluções virtuosas. Alguns teólogos da Igreja da Inglaterra, e os socinianos em geral, adotaram essa interpretação e procuraram defendê-la.
A quarta opinião é a das Igrejas Reformadas, e foi ensinada com grande êxito por Calvino. Foi assim bem resumida pelo Dr. Hill: “Ele sabia que as tentativas anteriores de conciliar os sistemas de Lutero e de Zuínglio tinham sido infrutíferas. Mas via a importância de unir os protestantes num ponto em relação ao qual eles concordavam em condenar os erros da Igreja de Roma; e o seu zelo em renovar a tentativa foi provavelmente avivado pela amizade sincera que nutria por Melanchthon, que era o sucessor de Lutero, enquanto ele próprio sucedera a Zuínglio na condução da Reforma na Suíça. Ele achava que o sistema de Zuínglio não correspondia à força das expressões usadas na Escritura; e, embora não aprovasse o modo como os luteranos explicam essas expressões, parecia-lhe haver um sentido em que se podia preservar todo o significado delas e continuar a usar boa parte da linguagem luterana. Como concordava com Zuínglio em pensar que o pão e o vinho eram os sinais do corpo e do sangue de Cristo, que não estavam localmente presentes, renunciou tanto à transubstanciação quanto à consubstanciação. Concordava também com Zuínglio em pensar que o uso desses sinais, sendo memorial do sacrifício oferecido uma vez na cruz, tinha a intenção de produzir um efeito moral. Mas ensinava que, para todos os que se lembram da morte de Cristo da maneira devida, Cristo, pelo uso desses sinais, está espiritualmente presente, presente à mente deles; e considerava que essa presença espiritual dava às seguintes palavras de Paulo um significado que vai muito além do sentido sociniano: ‘Não é fato que o cálice da bênção que abençoamos é a comunhão do sangue de Cristo? E não é fato que o pão que partimos é a comunhão do corpo de Cristo?’ (1Co 10.16). Não é a bênção pronunciada que produz alguma mudança no cálice; mas, para todos os que se unem com o devido afeto à ação de graças então proferida em nome da congregação, Cristo está espiritualmente presente, de modo que se pode dizer com ênfase que eles participam, koinōnein, metechein, de seu corpo e de seu sangue; porque o seu corpo e o seu sangue, estando espiritualmente presentes, transmitem à alma deles o mesmo alimento, a mesma vivificação para a vida espiritual, que o pão e o vinho transmitem à vida natural. Por isso Calvino foi levado a ligar o discurso de João 6 à ceia do Senhor; não naquele sentido literal que se ajusta às ideias papistas e luteranas, como se o corpo de Cristo fosse realmente comido e o seu sangue realmente bebido por alguém, mas num sentido que se ajusta à expressão de nosso Senhor na conclusão desse discurso: ‘As palavras que eu lhes tenho falado são espírito e são vida’ (Jo 6.63); isto é, quando lhes digo: ‘Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim, e eu permaneço nele; viverá por mim; pois a minha carne é verdadeira comida’ (Jo 6.56-57,55), vocês devem entender essas palavras não num sentido literal, mas num sentido espiritual. O sentido espiritual adotado pelos socinianos é apenas este: que a doutrina de Cristo é o alimento da alma, por nutrir uma vida de virtude aqui e a esperança de uma vida gloriosa no além. Os calvinistas pensam que no significado pleno da figura usada nessas palavras entram não apenas as exortações e instruções que a fé no evangelho proporciona, mas também aquela união entre Cristo e o seu povo que é consequência da fé, e aquela comunicação de graça e força pela qual eles são vivificados para a prática do bem e preparados para o cumprimento de todo dever.
“Segundo esse sistema, o benefício pleno da ceia do Senhor é próprio dos que participam dignamente. Pois, embora de todos os que comem o pão e bebem o vinho se possa dizer que anunciam a morte do Senhor, e embora eles possam também receber algumas impressões devotas, somente aqueles para quem Jesus está espiritualmente presente têm parte naquele alimento espiritual que procede de participar de seu corpo e de seu sangue. Segundo esse sistema, comer e beber indignamente tem um sentido mais amplo do que o que entra no sistema sociniano; e torna-se dever de todo cristão examinar a si mesmo, não só quanto ao seu conhecimento, mas também quanto à sua conduta geral, antes de comer daquele pão e beber daquele cálice. Torna-se também dever dos que têm a supervisão das sociedades cristãs excluir dessa ordenança as pessoas de quem há toda razão para crer que são estranhas aos sentimentos que ela pressupõe, e sem os quais ninguém está preparado para manter a comunhão com Jesus que ela implica.” (Theological Lectures.)
Com essa opinião parece concordar, no essencial, a doutrina da Igreja da Inglaterra, exceto que talvez possamos perceber em seus ofícios algumas poucas expressões um tanto favoráveis às opiniões de Lutero e de Melanchthon, cuja autoridade tinha grande peso junto ao arcebispo Cranmer. Isso, porém, aparece só em certas frases; pois o artigo vigésimo oitavo declara com bastante clareza que “o corpo de Cristo é dado, tomado e comido na Ceia somente de maneira celestial e espiritual; e o meio pelo qual o corpo de Cristo é recebido e comido na Ceia é a fé”. “Alguns de nossos primeiros reformadores ingleses”, diz o bispo Tomline, “eram luteranos, e por isso a princípio estavam dispostos a inclinar-se para a consubstanciação; mas parece que logo descobriram o seu erro, pois nos artigos de 1552 se diz expressamente: ‘Um homem fiel não deve crer nem confessar abertamente a presença real e corporal, como eles a chamam, da carne e do sangue de Cristo no sacramento da Ceia do Senhor.’ Essa parte do artigo foi omitida em 1562, provavelmente com a intenção de ofender menos os que sustentavam a presença corporal e de abranger o maior número possível na Igreja estabelecida.” (Exposition of the Articles.) O artigo, tal como está agora, e não expressões particulares da liturgia, é que deve ser tomado como a opinião da Igreja da Inglaterra sobre esse ponto, e ele concorda substancialmente com o Novo Testamento.
O caráter sacramental dessa ordenança é o primeiro ponto a ser estabelecido para uma compreensão verdadeira de sua natureza e de seu sentido. Ela é mais do que um rito comemorativo; é comemorativa sacramentalmente; em outras palavras, é um sinal e selo comemorativo da aliança da nossa redenção.
A primeira prova disso pode ser deduzida das palavras de nosso Senhor usadas na instituição da ordenança: “Isto é o meu corpo; isto é o meu sangue”. São palavras que mostram uma ligação muito íntima entre os elementos e aquilo que era representado por eles, a oferta sacrificial do corpo e do sangue de Cristo como o preço da nossa redenção; eram os sinais daquilo que foi “dado por” nós, entregue à morte em nosso lugar e em nosso favor, para que tivéssemos o benefício da libertação da morte eterna. E ainda: “Este cálice é a nova aliança no meu sangue” (Lc 22.20). [N. do T.: a KJV traz “New Testament”, e Watson explica: “ou aliança”; a NAA já diz “aliança”.] A própria aliança foi ratificada pelo sangue de Cristo, e por isso são Paulo a chama de “o sangue da eterna aliança” (Hb 13.20); e o cálice tinha uma ligação tão íntima com essa aliança que a representava, bem como o meio do seu estabelecimento, ou da sua validade: o derramamento do sangue de nosso Salvador. É claro, portanto, que o rito da ceia do Senhor é um rito de aliança e, consequentemente, um sacramento; um sinal e selo visível, da parte daquele que fez a aliança, de que ela foi estabelecida na morte sacrificial de Cristo e ratificada por ela.
Assim como tem esse caráter de aliança, ou sacramental, da parte de quem o instituiu, também o tem da parte dos que o recebem. Todos deviam comer o pão em “memória” de Cristo; em memória, certamente, de sua morte em particular; não, porém, como um mero acontecimento histórico, mas de sua morte como sacrificial; e por isso a comemoração devia ser, da parte deles, um reconhecimento da doutrina da natureza vicária e propiciatória da morte de Cristo e um ato de fé nela. Quanto ao cálice, foram ordenados a beber dele por uma razão também expressamente dada: “porque isto é o meu sangue, o sangue da aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados” (Mt 26.28). O reconhecimento implicado no ato, portanto, não era meramente que o sangue de Cristo foi derramado, mas que foi derramado como o sangue da nova aliança e “para remissão de pecados”; reconhecimento que só podia ocorrer em consequência da “fé no seu sangue” (cf. Rm 3.25), como sangue da expiação. E ainda, diz são Paulo, ensinado pela revelação particular que recebeu acerca da ceia do Senhor: “Porque, todas as vezes que comerem este pão e beberem o cálice, vocês anunciam a morte do Senhor, até que ele venha” (1Co 11.26); e esse anúncio de sua morte não era a mera declaração do fato da “morte do Senhor”, mas de sua morte segundo a doutrina apostólica, como a verdadeira propiciação pelo pecado, cujos benefícios deviam ser recebidos pela fé. Assim, pois, vemos na ceia do Senhor o sinal visível e o penhor de uma aliança de misericórdia no sangue de Cristo, apresentado por Deus, seu autor; e, da parte do homem, um reconhecimento visível dessa aliança assim ratificada pelo sacrifício de Cristo, e um ato de inteira fé em sua verdade e eficácia para a remissão dos pecados e a concessão de todos os demais benefícios espirituais. Como sinal, ela apresenta: 1. O amor infinito de Deus pelo mundo, que “deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). 2. O amor de Cristo, que morreu, “o justo pelos injustos, para conduzir vocês a Deus” (1Pe 3.18). 3. A natureza extrema de seus sofrimentos, que foram até a morte. 4. O caráter vicário e sacrificial dessa morte, como oferta pelo pecado e propiciação, unicamente em virtude da qual o Deus ofendido entrou numa aliança de graça com o homem. 5. Os benefícios que dela decorrem mediante a fé, a “remissão de pecados”, e o alimento da alma na vida e no vigor espirituais, em virtude de uma “comunhão” vital com Cristo, de modo que ela avança e se aperfeiçoa na santidade, “até que ele venha” para conferir a seus discípulos a bênção prometida na aliança, a vida eterna. Como selo, ela é uma garantia constante, da parte de Deus, da continuidade dessa aliança da redenção, em pleno vigor e sem diminuição, de geração em geração. É um penhor, para todo penitente que crê em Cristo e recebe esse sacramento professando sua inteira confiança nos méritos da paixão de Cristo para o perdão, de que ele é objeto de consideração misericordiosa e de aceitação. Há nela também, quanto a todo aquele que assim crê e é aceito, uma apresentação constante de Cristo como alimento espiritual da alma, a ser recebido pela fé, para que ele cresça por meio dele; e uma garantia renovada da concessão da graça plena da nova aliança, no cumprimento de todas as suas promessas, tanto nesta vida como na vindoura. Em cada celebração apresenta-se o sinal de todos esses atos, provisões e esperanças da graça, e Deus se digna assim repetir seus penhores de fidelidade e amor à Igreja de Cristo, comprada pelo seu sangue. Os membros dessa Igreja, por outro lado, renovam a sua aceitação da nova aliança e a sua confiança nela; anunciam a sua fé em Cristo; gloriam-se em sua cruz, em sua morte sacrificial, embora vergonhosa, como sabedoria de Deus e poder de Deus; banqueteiam-se pela fé com a verdadeira vítima pascal, e fazem isso com alegria e ação de graças por uma libertação maior do que a dos israelitas do Egito, libertação da qual eles mesmos são objeto. Foi esse predomínio da ação de graças na celebração desse rito sagrado que, num período tão antigo da Igreja, deu à ceia do Senhor o título de “Eucaristia”.
Podemos concluir esta exposição com algumas observações gerais.
1. A própria natureza da ordenança da ceia do Senhor exclui da participação nela não apenas os incrédulos declarados, mas todos os que rejeitam a doutrina da expiação feita pela morte vicária de Cristo “para remissão de pecados”. Essas pessoas, de fato, reconheceram isso tacitamente ao reduzir o rito a uma mera comemoração do fato da morte de Cristo e daquelas virtudes de humildade, benevolência e paciência que os seus sofrimentos fizeram aparecer. Se, portanto, a ceia do Senhor é na verdade muito mais do que isso; se ela reconhece o caráter sacrificial da morte de Cristo e a doutrina da “fé no seu sangue” como necessária para a nossa salvação, então este é “um altar do qual não têm o direito de comer” (cf. Hb 13.10) os que rejeitam essas doutrinas; e todas essas pessoas devem ser afastadas da mesa do Senhor pelos ministros sempre que, por complacência com o costume ou por outros motivos, quiserem aproximar-se dela.
2. É igualmente evidente que, quando não há nas pessoas prova de verdadeiro arrependimento do pecado e de desejo de salvação segundo os termos do evangelho, elas estão desqualificadas para participar da “mesa do Senhor” (1Co 10.21). Comem e bebem indignamente e caem, portanto, em “juízo” (1Co 11.29). Todo o ato é, de fato, da parte delas, um ato de profanação ousada ou de hipocrisia: professam por esse ato arrepender-se, e não sentem tristeza pelo pecado; professam buscar libertação de sua culpa e de seu poder, e no entanto permanecem voluntariamente sob a sua escravidão; professam confiar na morte de Cristo para o perdão, e são completamente indiferentes a ambos; professam alimentar-se de Cristo, e não têm fome e sede senão do mundo; põem diante de si os sofrimentos de Cristo, mas, quando “olham para aquele a quem traspassaram”, não “pranteiam por ele” (Zc 12.10); e ofendem gravemente a Majestade sempre presente do céu, fazendo assim pouco caso de Cristo e entristecendo o Espírito Santo (Ef 4.30).
3. Faz parte da disciplina cristã, em toda sociedade religiosa, impedir que tais pessoas comunguem com a Igreja. Elas estão expressamente excluídas pela autoridade apostólica, assim como pela instituição original desse sacramento, que se restringiu aos discípulos de Cristo; e os ministros se tornariam “cúmplices dos pecados dos outros” (1Tm 5.22) se admitissem conscientemente à Ceia do Senhor aqueles que, no seu espírito e na sua vida, o negam.
4. Por outro lado, a mesa do Senhor não deve ser cercada de terrores supersticiosos. São bem-vindos a ela todos os que amam verdadeiramente a Cristo e todos os que desejam sinceramente amá-lo, servi-lo e obedecer-lhe. Todas as pessoas verdadeiramente arrependidas; todos os que sentem o peso de seus pecados e estão dispostos a renunciar a eles; todos os que tomam Cristo como único fundamento de sua esperança e estão prontos a confiar seus interesses eternos aos méritos de seu sacrifício e de sua intercessão devem ser encorajados a “aproximar-se com fé e receber este santo sacramento para seu conforto”. Nele Deus apresenta e confirma visivelmente a sua aliança a essas pessoas, e as convida a tornar-se parte dela pelo ato de receberem com fé os elementos do sacramento.
5. Quanto à frequência da celebração dessa ordenança, não temos regra no Novo Testamento. Os primeiros cristãos a observavam todo dia do Senhor [N. do T.: Watson diz “Sabbath”, nome que dá ao domingo cristão], e a exclusão dela era considerada uma sentença severa da Igreja, mesmo quando apenas temporária. A expressão do apóstolo, “todas as vezes que comerem este pão” (1Co 11.26), dá a entender que a prática da comunhão era frequente; e talvez o costume geral neste país, de uma administração mensal, corresponda ao espírito da antiga instituição. Que ela tenha sido destinada a ser, como a Páscoa, apenas uma celebração anual, não tem prova alguma na Escritura e é contrariado pela prática mais antiga.
6. A negligência habitual dessa ordenança por pessoas que professam uma fé verdadeira em Cristo é altamente censurável. Não falamos agora dos quacres e dos místicos, que a rejeitam por completo, contra a letra de suas Bíblias, mas de muitos que raramente ou nunca comungam, principalmente por hábitos de desatenção a uma obrigação que não pretendem negar. Nesse caso, viola-se um mandamento claro de Cristo, embora talvez sem intenção direta; e perde-se o benefício daquele meio de graça singularmente comovente, no qual o nosso Salvador nos renova os penhores do seu amor, repete as promessas da sua aliança e pede exercícios revigorados da nossa fé, só para nos alimentar mais ricamente com o pão que desce do céu. Se uma condenação particular recai sobre os que participam “indignamente” (1Co 11.27), então uma bênção particular deve seguir-se a participar dignamente; e por isso torna-se dever de todo ministro explicar a obrigação e mostrar as vantagens desse sacramento, e insistir com empenho na sua observância regular junto a todos os que dão prova satisfatória de “arrependimento para com Deus e fé em nosso Senhor Jesus Cristo” (At 20.21).