No que cremosAula 3

As Sagradas Escrituras

“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a educação na justiça.”2Timóteo 3.16 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: 2Tm 3.14-17; 2Pe 1.16-21; Lc 24.13-35; Sl 119.105

Introdução

Um livro e uma pessoa

A fé cristã tem um livro, mas não é a religião de um livro. É a religião de uma pessoa, à qual o livro nos leva.

A distinção parece sutil e é decisiva. Jesus disse a homens que sabiam as Escrituras de cor: “Vocês examinam as Escrituras, porque julgam ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam a meu respeito. Contudo, vocês não querem vir a mim para terem vida” (Jo 5.39-40). Dava para conhecer o texto inteiro e perder inteiramente o assunto dele.

O Manual guarda essa ordem com cuidado quando chama a Bíblia de “a Palavra de Deus escrita” e Jesus de “a Palavra Viva” (§108). O livro é a Palavra escrita porque conduz com fidelidade à Palavra que se fez carne. Ler a Bíblia sem chegar a Cristo é ficar no caminho e não entrar na casa.

É por isso que esta aula não trata a Bíblia como objeto de reverência, e sim como o meio pelo qual Deus fala e transforma. Reverência sem obediência é superstição de gente devota.

A afirmação central

O que quer dizer inspirada

A palavra que Paulo usa é forte e literal: soprada por Deus.

“Toda a Escritura é inspirada por Deus” (2Tm 3.16). O termo grego junta Deus e sopro, e diz que a Escritura procede do fôlego de Deus, como a palavra procede da boca de quem fala. Não é que Deus tenha aprovado depois um livro que gente escreveu. É que o livro veio dele.

Pedro descreve o modo: “nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2Pe 1.21). Repare nas duas metades da frase. Homens falaram, com a língua deles, o vocabulário deles, a história deles. E foram movidos pelo Espírito.

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Não é ditado

Deus não usou os autores como quem usa um gravador. Lucas pesquisou e entrevistou testemunhas, e diz isso na abertura do Evangelho (Lc 1.1-4). Paulo escreve com raiva santa em Gálatas e com ternura em Filipenses. As personalidades estão todas lá.

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Não é genialidade

Também não se trata de homens especialmente inspirados no sentido em que se diz de um poeta. A iniciativa é de Deus, e o resultado é palavra dele, não impressão religiosa deles.

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É Deus falando por gente

As duas coisas ao mesmo tempo, sem anular nenhuma. Há aqui um paralelo com a aula anterior: como em Cristo, o divino e o humano se encontram sem que um apague o outro.

O assunto do livro

Ela testemunha de Cristo

Há uma cena que ensina a ler a Bíblia melhor do que qualquer manual, e ela acontece numa estrada de terra.

Se o Senhor ressurreto lê o Antigo Testamento assim, essa é a chave de leitura da Igreja. Não é um truque de alegoria, em que cada prego do tabernáculo vira um símbolo. É reconhecer que a história de Israel caminha para alguém, e que esse alguém chegou.

O Manual diz o mesmo em duas linhas: a Bíblia “dá testemunho sem erros sobre Jesus Cristo, a Palavra Viva” (§108). Note onde está o peso da afirmação. A confiabilidade da Escritura é afirmada quanto àquilo que ela se propõe a fazer, que é conduzir com segurança a Cristo e à salvação.

A unidade da Bíblia

Os dois Testamentos

Um cristão não tem duas bíblias, uma severa e outra amável. Tem uma só, com duas partes que se explicam.

“O Antigo Testamento não é contrário ao Novo”, diz o Manual, e “ambos os Testamentos carregam o testemunho da salvação de Deus em Cristo” (§109). Do outro lado, “o Novo Testamento cumpre e interpreta o Antigo” (§110). São duas afirmações que precisam andar juntas: o Antigo não é descartável, e o Novo é a chave.

Promessa e cumprimento

O Antigo aponta, prepara e promete. O Novo mostra a quem apontava. É por isso que Mateus repete “para que se cumprisse”, e por isso que Hebreus lê o sacerdócio antigo como sombra do que veio depois (Hb 10.1).

O que permanece

A vontade moral de Deus continua valendo, e Jesus a intensifica no Sermão do Monte em vez de afrouxá-la (Mt 5.17-48). Amar a Deus e ao próximo, os dois mandamentos em que tudo se resume, vêm do Antigo Testamento (Dt 6.5; Lv 19.18).

O que se cumpriu e cessou

As leis cerimoniais e rituais e os preceitos civis dados à nação de Israel não obrigam o cristão, porque encontraram em Cristo o seu cumprimento. Não é que fossem ruins. É que serviram ao seu tempo e à sua função.

O erro antigo que volta sempre

Já no século II houve quem propusesse jogar fora o Antigo Testamento e ficar só com a parte agradável do Novo. A Igreja recusou. E a proposta ressurge toda vez que alguém diz que o Deus de Israel é diferente do Pai de Jesus.

A consequência

Autoridade final em fé e prática

Dizer que a Escritura é a autoridade final não é dizer que ela é a única voz. É dizer quem decide quando as vozes discordam.

A tradição da Igreja ensina, e ensina muito. A razão examina, compara e organiza. A experiência confirma no coração aquilo que já foi dito. Nenhuma dessas três é dispensável, e Wesley usava as três sem constrangimento. Mas nenhuma delas julga a Escritura: todas são julgadas por ela.

O que a afirmação garante

Que existe uma instância acima do gosto do pregador, da moda do momento e da autoridade de qualquer liderança. Quando alguém diz “Deus me revelou”, há onde conferir. Foi assim que os de Bereia trataram até o apóstolo Paulo, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram mesmo assim, e Lucas os elogia por isso (At 17.11).

O que a afirmação não garante

Que a Bíblia responda a tudo o que gostaríamos de perguntar. Ela é autoridade final “em matéria de fé e prática”, e não um manual de física, medicina ou política partidária. Forçá-la a responder o que ela não se propôs a responder é desrespeitá-la achando que se está honrando.

Cuidado

Quatro atalhos que não funcionam

Dois deles diminuem a Escritura. Os outros dois a exaltam de um jeito que acaba prejudicando o leitor.

1“Deus ditou palavra por palavra, e o autor humano é só a caneta”+

Parece a posição mais reverente, e cria problemas sérios. Se fosse ditado, os quatro Evangelhos teriam a mesma redação, e Lucas não precisaria dizer que investigou tudo cuidadosamente (Lc 1.1-4).

O preço desse atalho: quando o leitor percebe as diferenças de estilo e de ênfase entre os autores, ou os detalhes que variam entre relatos do mesmo episódio, ele acha que descobriu uma fraude. Não descobriu. Descobriu que Deus falou por meio de pessoas, o que a própria Bíblia diz.

2“É um livro humano, o registro de experiências religiosas antigas”+

É o atalho oposto, e esvazia a afirmação de Paulo e de Pedro. Se a Escritura é apenas registro de experiência, então ela não julga a minha experiência: no máximo faz companhia a ela.

Onde quebra: em 2Tm 3.16 e 2Pe 1.20-21, que atribuem a iniciativa a Deus, e não à vontade humana. E na prática dos apóstolos, que resolvem disputas dizendo “está escrito”, e não “foi assim que nos sentimos”.

3“Cada um interpreta como quiser; nenhuma leitura é melhor que outra”+

Costuma vir com a melhor das intenções, a de evitar brigas. O resultado é que a Bíblia deixa de poder corrigir alguém, o que é justamente uma das coisas para as quais ela é útil (2Tm 3.16).

Onde quebra: Pedro já dizia que há nas cartas de Paulo pontos difíceis, que os indoutos e instáveis deturpam “para a própria destruição” (2Pe 3.16). Existe, portanto, leitura errada, e ela faz vítimas.

4“O que vale é o Novo Testamento; o Antigo é o Deus da ira”+

É a proposta que a Igreja recusou no século II, hoje repetida em linguagem simpática, quase sempre por quem quer poupar o ouvinte de textos difíceis.

Onde quebra: no próprio Jesus, que expõe o que a seu respeito constava em Moisés e nos Profetas (Lc 24.27), e no Manual, que afirma que ambos os Testamentos testemunham da salvação em Cristo (§109). Além disso, a graça está no Antigo em cada página, e as palavras mais severas sobre o juízo, no Novo, saem da boca de Jesus.

Herança wesleyana

Homem de um livro só

Wesley leu de tudo, publicou uma biblioteca inteira para os seus pregadores e ainda assim se descrevia com uma expressão de uma linha.

No prefácio dos seus sermões, em 1746, ele escreve que é criatura de um dia, que passa pela vida como flecha pelo ar, e que quer saber uma coisa só: o caminho para o céu. Deus, diz ele, condescendeu em ensinar esse caminho e o escreveu num livro. E então vem a frase pela qual ele ficou conhecido.

Oh, dai-me esse livro! A qualquer preço, dai-me o livro de Deus! Já o tenho: aqui há conhecimento bastante para mim. Deixem-me ser homem de um livro só.John Wesley, Prefácio aos Sermões, 1746

Vindo de quem vinha, isso não é anti-intelectualismo. É ordem de prioridade. Wesley sabia grego e hebraico, citava os antigos e os modernos e mandava os seus pregadores estudarem cinco horas por dia. O que ele afirma é onde fica o critério quando a leitura de todos esses livros discordar.

Dele vem também um princípio prático de interpretação, a que chamava analogia da fé: o todo da Escritura governa a parte. Um versículo isolado não pode significar algo que contrarie o conjunto do que Deus revelou. Quando um texto parecer ensinar o contrário do que a Bíblia inteira ensina, o problema está na nossa leitura, e não no texto.

A Teologia de Wesley, capítulo 1

Aplicação

Como ler, na prática

Cinco hábitos simples, que cabem em qualquer rotina e resolvem a maioria dos erros de leitura.

Ore antes de abrir

O mesmo Espírito que moveu os autores é quem torna o texto vivo em quem lê. Não é formalidade devota: é reconhecer de quem depende o entendimento.

Leia o todo antes da parte

Um versículo dentro do parágrafo, o parágrafo dentro do livro, o livro dentro da Bíblia. Quase todo abuso de texto começa por uma frase arrancada do lugar onde ela morava.

Deixe o claro interpretar o obscuro

É a analogia da fé aplicada. Sobre qualquer assunto, a Escritura tem passagens límpidas e passagens difíceis. Comece pelas límpidas, e leia as outras à luz delas, nunca o contrário.

Leia em comunidade

Sozinho, cada um tende a encontrar no texto o que já pensava. A igreja, o grupo pequeno e os irmãos que discordam de você são parte do método, e não um estorvo a ele.

Leia para obedecer

“Sejam praticantes da palavra e não apenas ouvintes, enganando-se a si mesmos” (Tg 1.22). Tiago compara quem ouve e não pratica a alguém que se olha no espelho e sai esquecido da própria cara.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, porque errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Qual texto bíblico você evita, e por quê?Ver resposta sugerida
Quase todo leitor tem um. Pode ser um trecho que o incomoda moralmente, um que parece contradizer o que ele aprendeu, ou um que cobra algo que ele não quer fazer. O desvio costuma ser silencioso: a gente não decide evitar, simplesmente nunca chega ali.

Vale nomear o texto. Se a dificuldade for de entendimento, ela tem tratamento: leia o contexto inteiro, veja o que a Escritura diz sobre o assunto em passagens claras e procure ajuda de alguém mais experiente. Se a dificuldade for de obediência, o tratamento é outro, e mais simples de descrever do que de fazer.

Uma prática para esta semana: leia esse trecho três vezes, em dias diferentes, sem procurar comentário nenhum na primeira leitura. Depois converse sobre ele com alguém da sua igreja. Textos evitados costumam encolher quando saem do escuro.

Alguém lhe diz: “a Bíblia foi escrita por homens e mudada tantas vezes que não dá para confiar”. Como responder com mansidão?Ver resposta sugerida
Comece separando as duas afirmações, porque elas são diferentes e a primeira é verdadeira. Sim, a Bíblia foi escrita por homens, e ela mesma diz isso: homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo (2Pe 1.21). O ponto em disputa não é se houve autores humanos, e sim quem os moveu.

A segunda afirmação, a de que o texto teria sido mudado, é uma questão de fato, e pode ser verificada. Existem milhares de cópias antigas do Novo Testamento, em várias línguas e regiões, e é justamente por comparação entre elas que se identificam as passagens duvidosas. As boas traduções, inclusive a NAA, indicam essas passagens em nota. Um texto adulterado seria aquele em que ninguém pudesse conferir nada.

Um exemplo honesto ajuda mais que uma defesa apressada: 1João 5.7, na forma longa que aparece em traduções antigas, não consta dos manuscritos mais antigos, e por isso a NAA não o traz. Reconhecer isso mostra que a Igreja não esconde o que sabe, e que a doutrina não depende de textos frágeis.

E o tom: “fazendo isso com mansidão e temor” (1Pe 3.16). Numa conversa dessas, quem tem pressa de vencer costuma perder o interlocutor.

Para casa

Tarefas

Ler Lucas 24.13-35 e 2Timóteo 3.14-17 (NAA) e anotar, em meia página, como a cena de Emaús muda o seu jeito de ler o Antigo Testamento. Depois, escolher um livro curto da Bíblia e lê-lo inteiro numa sentada, sem parar em versículos, só para ouvir o argumento do começo ao fim.

Leitura recomendada

O capítulo 1 de A Teologia de John Wesley trata da Escritura e da verdadeira religião. Para a redação oficial da nossa fé, veja os §§108 a 110 do Manual.

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. · Bispo Ildo Mello