Unidade. Há UM SÓ DEUS, que existe por si mesmo, não foi criado, é infinitamente sábio, poderoso e bom, está presente em todo lugar e enche os céus, a terra e todas as coisas. Ora, como ESSE ÚNICO Deus é eterno, isto é, sem princípio nem fim, e está presente em toda parte e enche todo o espaço, só pode haver UM Ser assim. Não pode haver dois ou mais Eternos, nem dois ou mais que estejam presentes em toda parte e encham todas as coisas. Supor mais de uma Fonte suprema de sabedoria, poder e todas as perfeições infinitas é afirmar que não existe nenhum Ser Supremo. Uma pluralidade de seres eternos seria como uma pluralidade de universos, de eternidades e de espaços infinitos, o que seria contraditório e absurdo.
Espiritualidade. Não devemos tentar conceber o Ser Supremo como se estivesse confinado a uma forma, a qualquer espécie de limite, a um espaço ou lugar determinado. Como JEOVÁ, ele é inconcebível em todos os aspectos. Nenhuma mente pode abarcá-lo. Ele é um Espírito infinito, igualmente presente em todo lugar e em todos os pontos da duração. Não pode estar mais presente num lugar do que em outro, porque enche os céus e a terra (Jr 23.24), embora as manifestações da sua presença possam ser maiores em certos lugares e em ocasiões especiais. As suas obras mostram que ele está aqui presente, mas ele não estaria menos presente se não houvesse nenhuma obra visível. Ele não é como o ser humano, embora, por condescendência à nossa fraqueza, muitas vezes se apresente como se tivesse membros e afetos humanos. Quando se diz que algo é feito pelo dedo, pela mão ou pelo braço de Deus, isso apenas indica graus de poder manifestados na realização de certas obras de misericórdia, providência, livramento etc. E esses graus de poder são sempre proporcionais à obra a ser realizada. O dedo pode indicar uma intervenção relativamente pequena, quando se opera um milagre, mas não um milagre espantoso. A mão, uma intervenção em que é necessário grande poder, acompanhado de evidente habilidade e propósito. E o braço, uma intervenção em que o grande poder de Deus avança com efeito soberano, esmagador e irresistível. Quando se lhe atribui o ombro, isso indica o seu poder onipotente de sustentação, que mantém o seu governo sobre o mundo e sobre a sua igreja e sustenta tudo o que ele fez. Do mesmo modo, o seu coração representa o seu zelo pela própria honra, pelo bem-estar dos seus seguidores e pelos aflitos e angustiados.
Esse único Ser infinito e eterno é um Espírito. Isto é, não é composto nem formado de partes, pois então não seria diferente da matéria, que é totalmente desprovida de inteligência e poder. Por isso ele tem de ser invisível, porque um espírito não pode ser visto pelo olho humano. E não há nesse princípio nada que contradiga a razão ou a experiência. Todos sabemos que existe o ar que respiramos e o vento que sibila entre as árvores, que abana e refresca o nosso corpo e que às vezes arranca árvores enormes pela raiz, derruba os edifícios mais sólidos e agita o vasto oceano. Mas ninguém jamais viu esse ar ou esse vento, embora todos sintam os seus efeitos e saibam que ele existe. Ora, seria tão absurdo negar a existência de Deus porque não podemos vê-lo quanto negar a existência do ar ou do vento porque não podemos vê-lo.
Deus é Espírito. Não se parece em nada com o ser humano, em nada com a matéria, em nada com qualquer das criaturas que fez. Pois, embora seja Espírito e tenha criado inúmeros espíritos, não tem nada em comum com eles. Ele é um ESPÍRITO, uma substância impalpável de uma espécie muito diferente. Assim como a sua natureza transcende toda a natureza criada, a sua espiritualidade transcende a espiritualidade de todos os espíritos criados.
Define-se espírito como “uma substância imaterial e não composta”. Não nos assustemos com a palavra substância, que muitos confundem com matéria. Substância é subsistência, seja material, seja imaterial. Mas o espírito é substância imaterial e, por consequência, não composta e indivisível. E, pela inefável espiritualidade da natureza divina, podemos compreender de imediato que ele não tem partes: é ilimitado, infinito e eterno. Não pode ser visto pelos olhos, mas pode ser percebido pela mente. Não é palpável à mão, mas pode ser sentido pela alma. Pela sua ação poderosa, podem ser operadas na mente as mudanças mais poderosas e salutares, que ela percebe de imediato como sobrenaturais e que, pela santidade dos seus efeitos, sabe serem obra de Deus.
Eternidade. O mais interessante é o nome pelo qual Deus quis se dar a conhecer a Moisés e aos israelitas, nome pelo qual o Ser Supremo foi depois conhecido entre os habitantes mais sábios da terra: Aquele que É e que SERÁ o que É (Êx 3.14). [N. do T.: esta é a interpretação do próprio Clarke para o nome divino; a NAA traduz “Eu Sou o Que Sou”.] É uma característica própria do Ser divino, que é, propriamente falando, o único SER, porque é independente e eterno, ao passo que todos os outros seres, quaisquer que sejam as formas em que apareçam, são derivados, finitos, mutáveis e sujeitos à destruição, à decadência e até à aniquilação. Quando Deus, portanto, se anunciou a Moisés por esse nome, proclamou a sua própria eternidade e imaterialidade. E o próprio nome excluía a possibilidade da idolatria, porque era impossível à mente, ao considerá-lo, representar o Ser divino em qualquer forma definida. Pois quem poderia representar o SER, ou a Existência, por uma forma limitada? E quem pode ter ideia de uma forma ilimitada? Vemos, assim, que a primeira revelação que Deus fez de si mesmo tinha o propósito de mostrar ao povo a simplicidade e a espiritualidade da sua natureza, para que, considerando-o como o SER e a Causa de todo SER, fossem preservados para sempre de toda idolatria. O próprio nome é uma prova de revelação divina, pois não é possível que tal ideia tivesse entrado na mente humana se não lhe tivesse sido comunicada do alto. Não poderia ter sido produzida pelo raciocínio, porque não havia premissas sobre as quais construí-la, nem analogias pelas quais formá-la. Compreendemos a Eternidade tão facilmente quanto compreendemos o Ser considerado simplesmente em si e por si mesmo, quando não existia nada de formas, cores ou qualidades definidas além do seu próprio ser infinito e ilimitado.
Todo o tempo é como nada diante dele, porque, na presença de Deus, como na sua natureza, tudo é eternidade. Diante dele, portanto, nada é longo e nada é curto. Nenhum decurso de séculos enfraquece os seus propósitos, nem ele precisa esperar ocasião oportuna para executá-los. E, quando o mais longo período de tempo já passou, não é mais que um momento, um ponto indivisível, em comparação com a eternidade.
Onipotência. Todos os atributos de Deus são iguais. Cada um é infinito, eterno, sem origem e sem fronteira ou limite. Assim é o poder de Deus: pode fazer todas as coisas que não impliquem absurdo ou contradição. Pode fazer qualquer coisa, do modo que lhe agradar, e quando lhe agradar. E fará tudo o que for necessário fazer e deva ser feito, quando deva ser feito e quando fazê-lo manifestar melhor a sua glória. E a sua glória se manifesta principalmente em promover a felicidade e salvar a alma das pessoas.
O que é a natureza senão um instrumento nas mãos de Deus? O que chamamos de efeitos naturais são todos realizados por ação sobrenatural. Pois a natureza, isto é, todo o sistema das coisas inanimadas, é tão inerte quanto qualquer das partículas de matéria cujo conjunto a compõe, e não pode ser causa de efeito algum senão quando movida por um poder soberano. Essa é uma doutrina da boa filosofia e deve ser cuidadosamente considerada por todos, para que vejam que, sem uma Providência que tudo governa e tudo energiza, nenhum efeito pode ser produzido. Mas, além dessas influências gerais de Deus na natureza, que se manifestam no que chamamos de leis gerais, ele escolhe muitas vezes agir sobrenaturalmente, isto é, independentemente dessas leis gerais ou contra elas, para que vejamos que há um Deus que não se limita a uma só maneira de agir, mas que, com meios, sem meios e até contra os meios naturais, realiza os propósitos graciosos da sua misericórdia em favor do ser humano. Onde Deus prometeu, creia-se nele sem reservas, porque ele não pode mentir (Tt 1.2); e que a natureza apressada não se intrometa na obra dele.
Se há leis que Deus impôs ao universo, sejam gerais, sejam particulares, elas têm de receber dele mesmo a sua ação e eficácia. E, seja qual for o modo segundo o qual ele governa, ele mesmo tem de ser a energia pela qual o governo é exercido. Portanto, não são as leis gerais nem as particulares que governam o mundo, mas o grande, sábio e santo Deus, governando segundo um modo particular concebido por ele mesmo, segundo o qual ele se dispõe a agir. Propriamente falando, ele não governa nem por leis gerais nem por leis particulares, mas pela sua própria sabedoria infinita, que adapta as suas operações a todas as circunstâncias e ocorrências, as quais estão sempre diante dele e sempre sob a sua direção e controle, “tirando sempre o bem do aparente mal, e algo melhor ainda, numa progressão infinita”. [N. do T.: versos de James Thomson, no Hino que encerra As Estações (1730).] Como toda matéria e todo espírito foram criados por ele, e ele sustenta tudo o que criou, toda matéria e todo espírito são governados por ele. Tudo, portanto, está sob a sua contínua supervisão ou governo. E, como esse governo é sábio, santo e bom, tudo o que é governado por ele é governado da melhor maneira e conduzido ao melhor fim.
Admite-se que o pecado tem um grande poder, e que Satanás, que se arma das paixões vis do ser humano e reina na impureza do coração, também tem um grande poder. Mas o que é o poder, por maior que seja, por mais malévolo que seja, por mais favorecido pelas circunstâncias para realizar os propósitos da sua malevolência, quando se opõe a ele o Poder Infinito? Todo poder tem de proceder originalmente de Deus. O poder, no sentido acima, tem de residir em algum ser inteligente e ser exercido por ele. Ora, todos esses seres, assim como os demais, têm de depender daquele que é a Fonte de onde vieram. Por isso não podem existir nem agir senão como ele quer ou permite. E daí fica evidente que ele pode a qualquer momento contrariar, suspender ou destruir todos os esforços de todos os seres finitos. Portanto, seja qual for o poder do pecado e de Satanás, isso não pode ser objeção contra a destruição do pecado no coração humano. Ele PODE FAZER ISSO.
Salvar a alma humana é prerrogativa só de Deus. Nada menos que um poder ilimitado, exercido sob a direção e o impulso de uma misericórdia sem limites, pode salvar um pecador.
A ressurreição dos mortos é uma obra estupenda de Deus. Ela requer a sua força em ação soberana. E, quando consideramos que toda a humanidade há de ser ressuscitada e transformada num momento, num abrir e fechar de olhos (1Co 15.52), o impulso, ou a velocidade, com que esse poder será aplicado tem de ser inconcebivelmente grande. Todo movimento é proporcional à quantidade de matéria no corpo que move e à velocidade com que é aplicado. O efeito, aqui, é proporcional à causa e à energia que ele emprega para produzi-lo. Mas a natureza do poder de Deus em ação é tal que nos é perfeitamente inconcebível.
Tudo é igualmente fácil para o Poder que é ilimitado. Um universo pode ser produzido por um só ato da Vontade divina tão facilmente quanto a menor partícula elementar de matéria.
Não tenho dúvida de que o poder ou a força da natureza divina foi o atributo que os nossos rudes antepassados, e na verdade todos os habitantes primitivos da terra, mais contemplaram. Por isso estátuas colossais, rochas imensas e templos maciços foram dedicados a esse poder ou força, que a imaginação desenfreada do ser humano acabou personificando e adorando numa forma humana monstruosa, sob o nome de Hércules entre os gregos e romanos, de Baal entre os cananeus, de Brama entre os antigos hindus etc., e de Tuisco etc. entre os nossos antepassados teutões e celtas. Daí se supôs que todo homem forte era o favorito especial da Divindade e estava sob a direção particular dessa força ou poder. Foi isso que deu origem às histórias de Hércules, Teseu, Belerofonte e dos gigantes de diversos países.
Onipresença. Trevas e luz, ignorância e conhecimento, são coisas que dizem respeito a nós. Deus vê tão bem nas trevas quanto na luz e conhece tão perfeitamente, por mais envolto em ignorância que o ser humano esteja, como se tudo fosse claridade intelectual (Sl 139.12). O que para nós está escondido pelas trevas, ou é desconhecido pela ignorância, Deus vê e conhece perfeitamente, porque ele é todo visão, todo audição, todo sentimento, todo alma, todo espírito, tudo em TODOS e infinito em si mesmo. Ele dá a todas as coisas e não recebe nada de nenhuma. Embora a sua essência seja indivisível, a sua influência se difunde pelo tempo e pela eternidade. Assim Deus se faz conhecer, ver, ouvir e sentir. No entanto, na infinitude da sua essência, nem anjo, nem espírito, nem ser humano pode vê-lo, nem criatura alguma pode compreendê-lo ou formar qualquer ideia do seu modo de existir. E, ainda assim, o ser humano vaidoso quer ser sábio e determinar a sua presciência, os seus propósitos eternos, os seus decretos infinitos, com todas as operações de amor infinito e de ódio infinito, e os seus objetos, um por um e pelo nome, desde toda a eternidade, como se ele mesmo possuísse um ser e poderes do mesmo alcance que os da Divindade! Ó vocês, sábios tolos! Jeová, a Fonte da perfeição e do amor eternos, é diferente dos seus credos, assim como é diferente de vocês mesmos, forjadores de doutrinas para provar que a Fonte da benevolência infinita é um filete de amor caprichoso para com milhares, enquanto é uma torrente transbordante, eterna e irresistível de ódio para com milhões e milhões de anjos e seres humanos! A contraprova dessas doutrinas é esta: ele suporta essas blasfêmias e não consome os que as defendem. “Mas ninguém defende essas doutrinas.” Então escrevi contra ninguém, e só me resta acrescentar a oração: que tais doutrinas nunca desonrem as páginas da história, nem continuem a desonrar, como já desonraram, os anais da igreja!
É estranho que a doutrina de um espaço real, absoluto e exterior tenha levado alguns filósofos a concluir que ele era uma parte ou atributo de Deus, ou que o próprio Deus era o espaço, já que lhe pareciam caber atributos incomunicáveis da Divindade, como a infinitude, a imutabilidade, a indivisibilidade e a incorporeidade, além de ser incriado, impassível, sem princípio nem fim. Não consideraram que todas essas propriedades negativas pertencem ao NADA. Pois o nada não tem limites, não pode ser movido, nem mudado, nem dividido, nem é criado, nem pode ser destruído.
É, portanto, a presença dele que constitui esse espaço, sem a qual ele não poderia existir. E, como cada partícula do espaço está sempre, e cada momento indivisível está em toda parte, o Criador e Senhor de todas as coisas não pode estar ausente de tempo algum nem de lugar algum.
Ele é onipresente não apenas virtualmente (isto é, pelo seu poder), mas substancialmente, porque o PODER não pode existir sem SUBSTÂNCIA.
Todas as coisas estão contidas nele e se movem nele ou por ele, mas sem que um afete o outro. Ele não sofre nada com os movimentos dos corpos, e os corpos não encontram nenhuma resistência na sua onipresença.
Onisciência. Deus é infinitamente sábio. Conhece a si mesmo, o que formou e o que pode fazer. Soube muito bem como construir a sua palavra de modo a ajustá-la ao estado de todos os corações, e deu-lhe tal plenitude infinita de sentido que ela serve para todos os casos. E ele é tão infinito no seu conhecimento, e tão onipresente, que toda a criação está constantemente exposta ao seu olhar. Não há nada que nasça dos afetos, da mente ou da imaginação que não esteja constantemente debaixo dos seus olhos. Ele nota cada pensamento que surge, cada desejo que desponta.
“A multiforme sabedoria de Deus” (Ef 3.10): a sabedoria de Deus, variada e imensamente diversificada, que traça planos grandiosos e infinitos e os realiza por meios sem fim, ao longo de todas as eras, fazendo cada acontecimento servir aos propósitos da sua infinita misericórdia e bondade. O propósito gracioso de Deus de salvar um mundo perdido por Jesus Cristo não podia ser frustrado por nenhuma astúcia, habilidade ou malícia de seres humanos ou de demônios. Quaisquer obstáculos que se lancem no caminho, a sua sabedoria e o seu poder podem removê-los, e à sua sabedoria infinita jamais faltarão caminhos ou meios para realizar os seus propósitos graciosos.
Benevolência. Tenha noções corretas de Deus: da sua natureza, poder, vontade, justiça, bondade e verdade. Não o imagine movido por paixões como as humanas. Separe-o, no seu coração, de tudo o que é terreno, humano, inconstante, rigidamente severo ou caprichosamente misericordioso. Considere que ele não pode ser como o ser humano, nem sentir como o ser humano, nem agir como o ser humano. Não lhe atribua paixões humanas, porque isso o profanaria em vez de santificá-lo. Não o confine nas suas concepções a um lugar, espaço, vazio, céu ou terra. Esforce-se para pensar dignamente da imensidade e da eternidade da sua natureza, da sua onisciência, onipresença e onipotência. Evite o erro dos pagãos, que prendiam até os seus Dii Majores, os seus deuses maiores, ao destino, como muitos cristãos bem-intencionados prendem o verdadeiro Deus aos decretos. Conceba-o como infinitamente livre para agir ou não agir, como lhe agradar. Considere a bondade da sua natureza, pois a bondade, em todo estado possível de perfeição e infinitude, lhe pertence. Não lhe atribua malevolência, nem obra, propósito ou decreto que a implique. A malevolência não é apenas uma paixão humana, mas uma paixão do ser humano caído. Não suponha que ele possa fazer o mal, ou destruir quando poderia salvar; que algum dia tenha odiado, ou possa odiar, algum daqueles que fez à sua imagem e semelhança, a ponto de condená-los à perdição eterna por um decreto positivo antes de nascerem; ou, o que dá no mesmo, de passar por eles sem lhes oferecer os meios de salvação e, por consequência, tornar impossível que sejam salvos. Procure concebê-lo assim e, fazendo isso, você o separará de tudo o que é imperfeito, humano, mau, caprichoso, mutável e sem bondade. Lembre-se sempre de que ele tem sabedoria sem erro, poder sem limites, verdade sem falsidade, amor sem ódio, santidade sem mal e justiça sem rigor ou severidade, de um lado, e sem ternura caprichosa, de outro. Numa palavra, ele não pode ser, dizer, propor ou fazer nada que não seja infinitamente justo, santo, sábio, verdadeiro e gracioso. Não odeia nada do que fez, [N. do T.: “que não odeia nada do que fez” vem de Sabedoria 11.24, livro deuterocanônico. A frase entrou na oração da Quarta-feira de Cinzas do Livro de Oração Comum anglicano.] e amou o mundo, toda a raça humana, de tal maneira que deu o seu Filho unigênito para morrer por ela, para que não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3.16). O sistema de humanizar Deus, fazendo-o agir, pelas nossas concepções injustas a respeito dele, como nós mesmos agiríamos em certas circunstâncias, tem sido a ruína tanto da religião quanto da piedade, e por causa dele os incrédulos têm zombado de nós. Já é tempo de não conhecermos mais Deus “segundo a carne”, pois, mesmo que tenhamos conhecido Jesus Cristo segundo a carne, já agora não devemos conhecê-lo deste modo (2Co 5.16).
“Deus é amor” (1Jo 4.8). Nisso está incluída uma infinitude de largura, comprimento, profundidade e altura; ou melhor, toda largura, comprimento, profundidade e altura se perdem nessa imensidade (Ef 3.18). Esse amor abrange tudo o que está em cima, tudo o que está embaixo, tudo o que é presente, tudo o que é passado e tudo o que há de vir. Em relação aos seres humanos, o amor de Deus, na sua largura, é um cinto que envolve o globo, ou um manto em que ele está envolto. O seu comprimento vai do propósito eterno da missão de Cristo até a eternidade de bem-aventurança que os puros de coração hão de desfrutar nas suas glórias inefáveis. A sua profundidade alcança o mais caído dos filhos de Adão e a mais profunda depravação do coração humano; e a sua altura, as dignidades infinitas do trono de Cristo.
Tudo o que é bom vem de Deus; tudo o que é mau vem do próprio ser humano. Assim como do sol, que é o pai ou a fonte da luz, vem toda a luz, de DEUS, que é a Fonte infinita, o Pai e a Origem do Bem, vem todo bem. E tudo o que se pode chamar de bom, ou puro, ou luz, ou excelência de qualquer espécie, tem de proceder necessariamente dele, já que ele é a única fonte de toda bondade e perfeição.
Deus distribui os seus benefícios quando, onde e a quem lhe agrada. Ninguém pode se queixar da sua conduta nisso, porque ninguém merece nenhum bem da sua mão. Deus nunca castiga senão os que o merecem, mas abençoa sem cessar os que não o merecem. A razão é evidente: a justiça depende de certas regras, mas a beneficência é livre. A beneficência pode abençoar tanto os bons quanto os maus; a justiça só pode castigar os maus. Quem não faz essa distinção há de ter uma noção muito confusa da conduta da Providência divina entre os seres humanos.
Filantropia é um título que Deus dá a si mesmo. Enquanto existir a natureza humana, esse há de ser um traço da natureza divina. Deus ama o ser humano. Teve prazer na ideia dele quando ela se formou na sua mente infinita; formou o ser humano segundo essa ideia e se alegrou na obra das suas mãos. Quando o ser humano caiu, o mesmo amor o levou a planejar a sua redenção, e Deus Salvador procede de Deus Amigo dos seres humanos. [N. do T.: Clarke pensa no grego philanthrōpía, “amor aos seres humanos”, palavra usada para Deus em Tt 3.4, onde a NAA traduz “o seu amor por todos”.]
Não pode parecer estranho que Deus queira que todos sejam salvos, pois isso decorre necessariamente de ele querer a salvação de alguém. Porque essa natureza não foi dividida, e cada porção dela está igualmente debaixo do olhar misericordioso do Pai dos espíritos de toda a carne.
Como Deus “não quer que ninguém pereça”, e quer “que todos cheguem ao arrependimento” (2Pe 3.9), por consequência nunca planejou nem decretou a condenação de ninguém. Nem tornou impossível a salvação de alma alguma, seja obrigando-a a fazer o mal para que morresse por isso, seja recusando-lhe os meios de recuperação sem os quais ela não poderia ser salva.
A vontade de Deus é infinitamente boa, sábia e santa. Tê-la cumprida nos seres humanos e entre eles é ter a bondade, a sabedoria e a santidade infinitas espalhadas por todo o universo, e a terra transformada num reflexo do céu.
Vontade, em DEUS, é aquilo que ele escolhe ou determina fazer ou deixar de fazer. Ora, como um Ser excelente, perfeito e sábio não pode querer, desejar ou almejar nada que não seja bom, sábio, útil e apropriado, a vontade de Deus é sempre movida pela sua bondade. Por isso ele nunca pode fazer uma escolha má ou imprópria, nem determinar nada que não seja bom em si mesmo e bom e apropriado para todos os que possam ser objeto da sua ação. Como a vontade implica desejo, e a natureza de Deus é boa, a sua vontade ou desejo tem de ser bom: bom em si mesmo e bom para todos os que ele atinge. Por isso ele tem de ser bom em todas as suas ações e bom para todas as suas criaturas, em todas as suas determinações e em todos os seus tratos providenciais com elas.
“Deus é amor” (1Jo 4.16): uma Fonte infinita de benevolência e beneficência para com todo ser humano. Ele não odeia nada do que fez. Não pode odiar, porque é amor. Faz o seu sol nascer sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos (Mt 5.45). Não fez nenhum ser humano para a perdição, nem jamais tornou impossível, por algum decreto que obrigue, que alguma alma caída encontre misericórdia. Deu a prova mais completa do seu amor por toda a raça humana na encarnação do seu Filho, que provou a morte por todos (Hb 2.9). Como pode um decreto de reprovação absoluta e incondicional da maior parte, ou de qualquer parte, da raça humana subsistir diante de um texto como este? Já se observou com acerto que, embora Deus seja santo, justo, reto etc., nunca é chamado Santidade, Justiça etc. em abstrato, como aqui é chamado AMOR. Esta parece ser a essência da natureza divina, e todos os outros atributos parecem ser apenas modalidades dela.
Sempre me espantou que alguma alma humana que participe minimamente da natureza divina, ou que conheça alguma coisa do amor e da bondade inefáveis de Deus, tenha algum dia acalentado a ideia, ou se esforçado por provar, que o Deus cujo nome é Misericórdia e cuja natureza é Amor, e que “não odeia nada do que fez”, tenha, apesar disso, um amor soberano, incondicional e eterno por uns poucos da raça humana caída, junto com um ódio soberano, irrevogável e eterno pela grande massa da humanidade; de modo que a salvação daqueles e a perdição destes tenham sido, desde toda a eternidade, absoluta e irrevogavelmente fixadas, preordenadas e decretadas!
Justiça. Todas as perfeições divinas estão em perfeita unidade e harmonia entre si. Deus nunca age por um só dos seus atributos, mas na unidade infinita de todos eles. Nunca age por benevolência com exclusão da justiça, nem por justiça com exclusão da misericórdia. Embora o efeito das suas operações possa nos parecer, num caso, fruto só do poder; noutro, só da justiça; num terceiro, só da misericórdia, em relação à própria natureza divina todos esses efeitos são o produto conjunto de todas as suas perfeições, nenhuma das quais é exercida mais ou menos que outra.
A justiça de Deus não pode ter exigências que não sejam perfeitamente equitativas. A sua justiça é retidão infinita, tão distante do rigor, de um lado, quanto do relaxamento ou da parcialidade, de outro. Se alguém disser que “o estado miserável do pecador clama alto aos ouvidos da misericórdia de Deus, e que isso é razão suficiente para que a sua misericórdia seja exercida”, respondo que o seu estado de impiedade clama igualmente alto aos ouvidos da justiça de Deus, para que só ela seja exercida, e assim a esperança na misericórdia fica cortada. Além disso, fazer da MISÉRIA do culpado, que é efeito do seu pecado, a razão pela qual Deus deveria ter misericórdia dele é fazer do pecado e dos seus frutos a razão pela qual Deus deveria agir assim. E então aquilo que está em hostilidade eterna com a natureza e o governo de Deus teria de ser o motivo pelo qual ele deveria, de um modo muito estranho e contraditório, exercer a sua benevolência com total exclusão da sua justiça, retidão e verdade.
Todos os que leram as Escrituras com cuidado e atenção sabem muito bem que Deus é frequentemente representado nelas como fazendo aquilo que ele apenas permite que se faça. Assim, porque o ser humano entristeceu o seu Espírito e resistiu à sua graça, ele retira dele esse Espírito e essa graça, e assim o ser humano se torna ousado e presunçoso no pecado. Faraó tornou o próprio coração obstinado contra Deus (Êx 9.34), e Deus o entregou à cegueira judicial, de modo que ele se precipitou teimosamente para a própria destruição. Mas observe-se que não se diz nada aqui sobre o estado eterno do rei egípcio. Nada em todo o relato nos autoriza a crer que Deus endureceu o coração dele contra a influência da sua própria graça, a fim de levá-lo a pecar de tal modo que a sua justiça pudesse entregá-lo ao inferno. Seria um ato de injustiça tão flagrante que dificilmente o atribuiríamos ao pior dos homens. Quem leva outro a cometer uma falta para ter melhor pretexto de puni-lo, ou o coloca em circunstâncias em que não pode deixar de cometer um crime capital, e depois o enforca por isso, é certamente o mais execrável dos mortais. Que diríamos então do Deus de justiça e misericórdia, se lhe atribuíssemos um decreto, cuja data se perde na eternidade, pelo qual ele teria determinado excluir da possibilidade de salvação milhões e milhões de almas ainda não nascidas, e deixá-las sob a necessidade de pecar, endurecendo de fato o coração delas contra as influências da sua própria graça e do seu Espírito, para que pudesse, a pretexto de justiça, destiná-las à perdição sem fim? Seja o que for que se alegue em favor de opiniões tão extremas, deve ser evidente a todos os que não estão profundamente presos a preconceitos que nem a justiça nem a soberania de Deus são engrandecidas por elas.
A própria justiça, com base na sua natureza santa e eterna, dá a salvação ao mais vil dos que se refugiam na expiação de Cristo, porque a justiça não tem nada a conceder, nem céu a dar, que o sangue do Filho de Deus não tenha merecido.
Santidade. “Deus é luz”, a Fonte da sabedoria, do conhecimento, da santidade e da felicidade, “e não há nele treva nenhuma” (1Jo 1.5): nenhuma ignorância, nenhuma imperfeição, nenhuma pecaminosidade, nenhuma miséria. E dele toda alma que crê recebe sabedoria, conhecimento, santidade e felicidade. Esta é a grande mensagem do evangelho, o grande princípio do qual depende a felicidade humana. A luz implica toda excelência essencial, especialmente sabedoria, santidade e felicidade. As trevas implicam toda imperfeição, e principalmente ignorância, pecaminosidade e miséria. A luz é a mais pura, a mais sutil, a mais útil e a que mais se difunde de todas as criaturas de Deus e, por isso, é um emblema muito apropriado da pureza, da perfeição e da bondade da natureza divina. Deus é para a alma humana o que a luz é para o mundo. Sem a luz, tudo seria sombrio e desconsolado, e o terror e a morte reinariam em toda parte. E, sem um Deus que habita em nós, o que é a religião? Sem a sua luz que tudo penetra e tudo difunde, o que é a alma humana? A religião seria uma ciência vazia, uma letra morta, um sistema sem autoridade e sem influência; e a alma, um deserto sem caminhos, uma solidão desolada, cheio de mal, de terror e de pavor, sempre torturado pelas antecipações vívidas de uma miséria futura, sucessiva, permanente, concreta e sem fim.
Nada pode humilhar tanto uma mente piedosa quanto uma compreensão bíblica da majestade de Deus. É fácil contemplar a sua bondade, a sua benignidade e a sua misericórdia: em todas elas temos interesse, e delas esperamos o maior bem. Mas considerar a sua santidade e a sua justiça, a retidão infinita da sua natureza, com a convicção de que pecamos e quebramos as leis estabelecidas pela sua Soberana Majestade, e sentir-nos como que levados à presença do seu tribunal: quem pode suportar esse pensamento? Se querubins e serafins cobrem o rosto diante do seu trono (Is 6.2), e a alma mais santa clama:
| Original | Tradução |
|---|---|
| “I loathe myself when God I see, | “Abomino a mim mesmo quando vejo a Deus, |
| And into nothing fall,” | e caio no nada”, |
o que deve sentir um pecador cuja consciência ainda não foi purificada das obras mortas (Hb 9.14) e que sente a ira de Deus permanecendo sobre ele (Jo 3.36)? E como, sem um Mediador e Sacrifício como Jesus Cristo, pode algum espírito humano entrar na presença do seu Juiz? Os que conseguem se aproximar dele sem terror sabem pouco da sua justiça e nada dos seus pecados. Quando nos aproximamos dele em oração, ou em qualquer ordenança, não deveríamos sentir mais reverência do que geralmente sentimos? [N. do T.: os versos citados são de Charles Wesley, Hymns and Sacred Poems (1740), do hino “After a Relapse into Sin” (Depois de uma recaída no pecado), estrofe 12.]
Ainda que toda a terra e todo o inferno se unissem para impedir a realização dos grandes propósitos do Altíssimo, seria tudo em vão: nem mesmo o sentido de uma só letra se perderá (Mt 5.18).
As palavras de Deus, que indicam os seus propósitos, são tão imutáveis quanto a sua própria natureza.