Capítulo X

A regeneração

Páginas 155 a 157 da edição de 1835

A alma tem de ser regenerada, toda culpa tem de ser removida e o coração tem de ser purificado. “Mas nós fomos regenerados, porque fomos devidamente batizados.” O batismo é o sinal da regeneração, mas não é a coisa em si; é o “sinal exterior e visível de uma graça interior e espiritual”. [N. do T.: definição de sacramento do Catecismo do Livro de Oração Comum anglicano.] Vocês têm de nascer da água e do Espírito (Jo 3.5). A água é o emblema da lavagem espiritual, mas não é a lavagem em si. “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” (Jo 3.6), é santo, puro e celestial. Se o seu batismo com água tivesse sido a regeneração espiritual, vocês teriam um coração purificado de toda injustiça, livre do orgulho, da ira, dos maus desejos, das más disposições etc. Mas vocês, que confiam nessa circuncisão da carne, não têm isso, e sabem que nunca tiveram. Por isso precisam do sangue que expia e purifica de toda injustiça. Ter os reformadores por pais, o batismo como selo da sua aliança e a frequência à igreja e ao sacramento como fundamento da sua esperança da glória não pode elevar vocês mais alto do que elevou os antigos judeus ter Abraão por pai (Mt 3.9), a circuncisão como selo da sua aliança e os sacrifícios e cerimônias, cuidadosamente oferecidos e cumpridos, como fundamento da sua esperança na continuação do favor divino. Nessas coisas eles confiavam; em coisas assim vocês confiam.

A mancha é tão profunda, os hábitos de pecar estão tão enraizados e a inclinação para fazer o mal é tão forte que nada menos que o poder pelo qual a alma foi criada pode vencer esses hábitos, arrancar esses vícios e fazer um leproso assim mudar as suas manchas e um etíope assim mudar a sua pele (Jr 13.23). [N. do T.: o original impresso diz leper, “leproso”, onde Jr 13.23 fala do leopardo; mantivemos a palavra de Clarke.] Toda a mudança por que a alma passa na sua conversão é efeito de uma energia divina interior. É isso que o evangelho promete quando promete enviar o Espírito Santo. Esse Espírito poderoso é dado para iluminar, convencer, fortalecer, vivificar e salvar. E a mudança que se opera na alma do pecador, nos seus hábitos e na sua vida, é tal que nenhuma causa natural pode produzir, nenhuma arte humana pode realizar e nenhuma instituição religiosa, ainda que ligada aos conselhos morais mais sérios e incisivos, pode jamais efetuar. É inteiramente obra de Deus, e ele a realiza não por força nem por poder, mas pelo seu próprio Espírito (Zc 4.6).

A alma humana foi pervertida, desviada de Deus para o pecado e a morte. Ela tem de ser convertida, isto é, voltar do pecado e da morte para Deus e para a vida eterna. Caiu no pecado, na miséria e na ruína, e tem de ser restaurada à santidade, à felicidade e à salvação sem fim. A lei, recebida como vinda dele e sob a influência do seu próprio Espírito, faz a alma voltar (mostra o caminho da reconciliação) para Deus, e mostra como ela há de ser restaurada do seu estado arruinado, reconstruída como no princípio e feita morada de Deus no Espírito (Ef 2.22). [N. do T.: o trecho parece vir do comentário de Clarke a Sl 19.7, que a King James traduz “a lei do Senhor é perfeita, e converte a alma”; a NAA diz “restaura a alma”.]

A conversão é a volta, ou a mudança total, de um pecador, dos seus pecados para Deus. A conversão é muitas vezes confundida com a regeneração e com a santidade, mas significa propriamente o efeito produzido no coração pela primeira influência da graça e da luz de Deus, pelo qual um idólatra abraça o verdadeiro Deus, um judeu a doutrina de Cristo e um pecador se afasta dos seus pecados e busca a salvação da sua alma em todos os meios de graça.

Se alguém não nascer de novo, nascido do alto, nascido não só da água mas do Espírito Santo, não pode ver o Reino de Deus (Jo 3.3). Essas palavras podem parecer duras, e os que pouco se habituaram a considerar as coisas espirituais podem exclamar: “Isso é fanatismo! Quem pode suportar isso? Tais coisas não são possíveis”. A essas pessoas só posso dizer: “Deus falou”. Isso basta para os que dão crédito à existência dele e à sua Bíblia. Aquele por cujo poder todo-poderoso Sara teve força para conceber e dar à luz um filho na velhice, e por cuja intervenção miraculosa uma virgem concebeu e dela nasceu o Homem Cristo Jesus, pode, pelo mesmo poder, transformar a alma pecadora e fazê-la trazer a imagem do celestial, assim como trouxe a imagem do terreno (1Co 15.49).

A ordem da grande obra da salvação é esta: 1. Convicção do pecado. 2. Contrição pelo pecado. 3. Fé no Senhor Jesus Cristo, como aquele que foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou para a nossa justificação (Rm 4.25). 4. Justificação, ou perdão de todo pecado passado, pela fé no seu sangue, acompanhada ordinariamente do testemunho do seu Espírito no nosso coração de que os nossos pecados estão perdoados. 5. Santificação, ou santidade, que é progressiva, como um crescer em tudo naquele que é a cabeça viva, Jesus Cristo (Ef 4.15); e pode ser instantânea, porque Deus pode esvaziar, e muitas vezes esvazia, a alma de todo pecado num momento, num abrir e fechar de olhos (1Co 15.52); e então, tendo semeado as sementes da justiça, elas germinam livremente e sem estorvo. 6. Perseverança no estado de santificação, crendo, esperando, vigiando e trabalhando para permanecer nesse estado de salvação, recebendo a cada hora uma impressão mais profunda do selo de Deus. 7. A glorificação é o resultado, porque quem vive fiel até a morte receberá a coroa da vida (Ap 2.10). Sem convicção do pecado, não há contrição; sem contrição, não há fé que justifique; sem fé, não há justificação nem santificação; sem santificação, não há glorificação.

Há toda razão para crer, e a experiência genuína das coisas divinas o confirma, que no ato da justificação, quando o Espírito de Deus, o Espírito de santidade, é dado para confirmar ao nosso espírito que somos filhos de Deus (Rm 8.16), todos os contornos da imagem divina são traçados na alma. E é obra do Espírito Santo, na nossa santificação, retocar e preencher todos esses contornos, até que cada traço da semelhança divina esteja preenchido e aperfeiçoado.

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Adam Clarke, Christian Theology, selecionada e organizada por Samuel Dunn (Londres, Thomas Tegg and Son, 1835), exemplar digitalizado pelo Google (Universidade de Illinois). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).