A palavra “santificar” tem dois sentidos. 1. Significa consagrar, separar da terra e do uso comum, e devotar ou dedicar a Deus e ao seu serviço. 2. Significa tornar santo ou puro.
Muitos falam muito, e de fato bem, do que Cristo fez por nós. Mas como se fala pouco do que ele vai fazer em nós! E, no entanto, tudo o que ele fez por nós visa ao que vai fazer em nós. Ele se encarnou, sofreu, morreu, ressuscitou dos mortos, subiu ao céu e ali comparece por nós diante de Deus. Todos esses foram atos salvadores, expiatórios e mediadores por nós: para nos reconciliar com Deus; para apagar o nosso pecado; para purificar a nossa consciência das obras mortas; para amarrar o valente bem-armado, tirar-lhe a armadura em que confiava (Lc 11.21-22), lavar o coração contaminado e destruir todo desejo imundo e abominável, todas as disposições que atormentam e são profanas; para fazer do coração o seu trono e encher a alma da sua luz, do seu poder e da sua vida; e, numa palavra, para “destruir as obras do diabo” (1Jo 3.8). Essas coisas se fazem em nós, e sem elas não podemos ser salvos para a vida eterna. Mas esses atos feitos em nós são consequência dos atos feitos por nós. Pois, se ele não tivesse se encarnado, sofrido e morrido em nosso lugar, não poderíamos receber nem o perdão nem a santidade; e, se ele não purificasse e limpasse o nosso coração, não poderíamos entrar no lugar onde tudo é pureza. Porque a visão beatífica é dada somente aos que foram purificados de toda injustiça, pois está escrito: “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus” (Mt 5.8). Nada é purificado pela morte, nada no túmulo, nada no céu. As pedras vivas do templo, como as do templo de Jerusalém, são lavradas, esquadrejadas e cortadas aqui, na igreja militante, para prepará-las para entrar na composição da igreja triunfante.
Essa perfeição é a restauração do ser humano ao estado de santidade de que caiu, criando-o de novo em Cristo Jesus e restaurando nele a imagem e a semelhança de Deus que ele perdeu. Um sentido mais alto que este ela não pode ter; um sentido mais baixo não deve ter. Deus fez o ser humano no grau de perfeição que agradou à sua infinita sabedoria e bondade. O pecado desfigurou essa imagem divina; Jesus veio para restaurá-la. O pecado não pode ter triunfo, e o Redentor da humanidade tem de ter a sua glória. Mas, se o ser humano não for perfeitamente salvo de todo pecado, o pecado triunfa e Satanás exulta, porque fizeram um mal que Cristo ou não pode ou não quer remover. Dizer que ele não pode seria uma blasfêmia chocante contra o poder e a dignidade infinitos do grande Criador; dizer que não quer seria igualmente blasfêmia contra a benevolência e a santidade infinitas da sua natureza. Todo pecado, seja no seu poder, na sua culpa ou na sua contaminação, é obra do diabo; e ele, Jesus, veio para destruir a obra do diabo. E, como toda injustiça é pecado, o seu sangue purifica de todo pecado, porque purifica de toda injustiça (1Jo 1.7,9).
Muitos tropeçam no termo “perfeição” no cristianismo, porque pensam que o que ele implica é incompatível com um estado de provação e cheira a orgulho e presunção. Mas devemos tomar muito cuidado para não tropeçar em nenhuma palavra de Deus, e muito mais para não negar nem esvaziar o sentido de qualquer dos seus ditos, para que ele não nos repreenda e sejamos achados mentirosos diante dele. Mas pode ser que o termo seja rejeitado por não ser entendido. Examinemos o seu sentido.
A palavra “perfeição”, em relação a qualquer pessoa ou coisa, significa que essa pessoa ou coisa está completa ou acabada; que não tem nada de supérfluo e não é deficiente em nada. Por isso aquela observação de um erudito jurista é ao mesmo tempo correta e esclarecedora: “Consideramos perfeitas as coisas a que não falta nada do que é necessário para o fim para o qual foram instituídas”. E ser perfeito muitas vezes significa “ser irrepreensível, limpo, sem censura”. Segundo a definição acima, de Hooker, pode-se dizer que é perfeito o homem que cumpre o fim para o qual Deus o fez. [N. do T.: Richard Hooker (1554-1600), teólogo anglicano, autor de Das leis da política eclesiástica, a quem Clarke chama de civilian, jurista.] E, como Deus exige de cada pessoa que o ame de todo o coração, alma, entendimento e força, e ao próximo como a si mesma, então é perfeito quem faz isso: cumpre o fim para o qual Deus o fez. E isso fica mais evidente pela natureza do amor que enche o seu coração. Pois, como o amor é o princípio da obediência, quem ama a Deus com todas as suas forças o obedecerá com todas as suas forças; e quem ama o próximo como a si mesmo não só não lhe fará mal nenhum, como, ao contrário, trabalhará para promover os seus melhores interesses. Por que a doutrina que prescreve um estado de perfeição como este haveria de ser temida, ridicularizada ou desprezada é coisa estranhíssima, e a oposição a ela só pode vir daquela inclinação da carne que é inimizade contra Deus, que “não está sujeita à lei de Deus, nem mesmo pode estar” (Rm 8.7). E, se eu não tivesse outra prova de que o ser humano caiu de Deus, a sua oposição à santidade cristã me bastaria.
Todo o propósito de Deus era restaurar o ser humano à sua imagem e levantá-lo das ruínas da sua queda; numa palavra, torná-lo perfeito; apagar todos os seus pecados, purificar a sua alma e enchê-lo de santidade, de modo que nenhuma disposição profana, desejo mau ou afeto ou paixão impura se aloje ou tenha qualquer existência nele. Isto, e só isto, é a verdadeira religião, ou perfeição cristã. Uma salvação menor que esta seria desonrosa para o sacrifício de Cristo e para a operação do Espírito Santo, e seria tão indigna do nome de “cristianismo” quanto do nome de “santidade ou perfeição”. Os que ridicularizam isso são zombadores da palavra de Deus, muitos deles homens totalmente irreligiosos, sentados na roda dos escarnecedores (Sl 1.1). Os que o negam negam todo o alcance e propósito da revelação divina e a missão de Jesus Cristo. E os que pregam a doutrina oposta são ou antinomianos especulativos ou advogados de Baal.
Quando São Paulo diz que adverte a todos e ensina a cada um em toda a sabedoria, “a fim de que apresentemos cada pessoa perfeita em Cristo” (Cl 1.28), ele quer dizer alguma coisa. E o que é essa coisa? Tem de significar aquela “santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14). Chame-se como se quiser, ela tem de implicar o perdão de toda transgressão e a remoção de todo o corpo do pecado e da morte, pois isso tem de acontecer antes que possamos ser semelhantes a ele e vê-lo como ele é (1Jo 3.2), no fulgor da sua própria glória. Essa aptidão para comparecer diante de Deus, e essa preparação completa para a glória eterna, é o que defendo, pelo que oro e o que recomendo de coração a todos os verdadeiros crentes sob o nome de perfeição cristã. Se eu tivesse um nome melhor, mais vigoroso, de sentido mais pleno, mais digno da eficácia do sangue que comprou a nossa paz e purifica de toda injustiça, eu o adotaria e usaria com prazer. Mesmo a palavra “perfeição” tem, em algumas relações, tantas restrições e atenuações incompatíveis com aquela salvação plena e gloriosa recomendada no evangelho, e comprada e selada pelo sangue da cruz, que eu a deixaria de lado com prazer e empregaria uma palavra mais positiva e inequívoca no seu sentido, e mais digna do mérito da expiação infinita de Cristo e da energia do seu Espírito todo-poderoso. Mas não há nenhuma na nossa língua, o que lamento como um inconveniente e uma perda.
Por que, então, há tantos, mesmo entre ministros e fiéis sinceros e piedosos, tão contrários ao termo e tão alarmados com quem a professa? Respondo: porque pensam que ninguém pode ser plenamente salvo do pecado nesta vida. Pergunto: onde isso está escrito, em palavras inequívocas, no Novo Testamento? Onde, nesse livro, se dá a entender que o pecado nunca é inteiramente destruído antes que venha a morte e a alma e o corpo se separem? Em lugar nenhum. Na doutrina papista e sem fundamento do purgatório, essa ideia é sustentada, e não com consequências mais racionais. Essa doutrina admite que o pecado é tão inveterado que não pode ser inteiramente destruído nem mesmo na morte, e que é necessário um fogo penal, num estado intermediário entre o céu e o inferno, para expiar o que o sangue de Cristo não cancelou e purificar o que a energia do Espírito todo-poderoso não limpou antes da morte.
Nem os papistas conseguiram ver que um mal moral ficasse retido na alma por causa da sua ligação física com o corpo, e que fosse preciso dissolver essa ligação física para que o contágio moral fosse removido. São os protestantes, que professam, e certamente possuem, uma fé melhor, os únicos que sustentam o purgatório do leito de morte. E com que segurança apresentam a morte como a libertadora completa de toda corrupção e a destruidora final do pecado, como se isso estivesse revelado em cada página da Bíblia! No entanto, não há uma só passagem no Volume Sagrado que diga tal coisa. Se isso fosse verdade, a morte, longe de ser o último inimigo (1Co 15.26), seria a última e melhor amiga, a maior de todas as libertadoras. Pois, se os últimos restos de todo o pecado que habita em todos os crentes devem ser destruídos pela morte (e que massa terrível isso fará!), então a morte, que os remove, tem de ser a maior benfeitora da humanidade. A verdade é que ela não é nem a causa nem o meio da destruição do pecado. Só o sangue de Jesus purifica de toda injustiça.
Supõe-se que o pecado que habita em nós é útil até aos verdadeiros crentes, porque os humilha e os mantém baixos na própria estima. Um pequeno exame mostrará que isso é contrário aos fatos. Admite-se em geral, se não universalmente, que o orgulho é da essência do pecado, se não a sua própria essência, e a raiz de onde brota todo desvio moral. Como pode, então, o orgulho nos humilhar? Não é absurdo? Onde há um cristão sincero, seja qual for o seu credo, que não deplore o seu coração e a sua vontade orgulhosos, rebeldes e não subjugados como a causa de toda a sua miséria, a coisa que estraga os seus melhores sacrifícios e impede a sua comunhão com Deus? Quantas vezes essas pessoas dizem ou cantam, nas suas devoções públicas e particulares:
| Original | Tradução |
|---|---|
| “But pride, that busy sin, | “Mas o orgulho, esse pecado ativo, |
| Spoils all that I perform.” | estraga tudo o que faço.” |
Se não houvesse orgulho, não haveria pecado. E o coração do qual ele é lançado fora recebe, em seu lugar, a humildade, a mansidão e a brandura de Cristo.
Mas ainda se alega, como fato indiscutível, que “a pessoa se humilha com o senso do pecado que habita nela”. Admito que os que veem, sentem e deploram o pecado que habita neles são humilhados. Mas é o pecado que humilha? Não. É a graça de Deus, que mostra e condena o pecado, que nos humilha. Nem o diabo nem a sua obra jamais se mostrarão por si mesmos. O orgulho age muitas vezes sob uma máscara espessa e com frequência se veste de humildade. Como é verdadeiro este dito, e de quantos é a linguagem!
| Original | Tradução |
|---|---|
| “Proud I am my wants to see, | “Tenho orgulho de ver as minhas carências, |
| Proud of my humility.” | orgulho da minha humildade.” |
[N. do T.: versos adaptados de um hino de Charles Wesley em Hymns and Sacred Poems (1742), que diz “Proud I am my loss to see”.] E, para esconder a sua ação, o próprio Satanás se transforma em anjo de luz! Parece, então, que atribuímos essa tão gabada humilhação a uma causa errada. Nunca somos humilhados com o senso do pecado que habita em nós até que o Espírito de Deus o arraste para a luz e nos mostre não só a sua horrenda deformidade, mas a sua hostilidade contra Deus. E ele o manifesta para tirá-lo. Mas uma opinião falsa leva as pessoas a abraçar o monstro e a contemplar as suas correntes com complacência!
Objetou-se a essa perfeição, a essa obra perfeita de Deus na alma, que “quanto maior o senso que temos da nossa própria pecaminosidade, mais Cristo será exaltado aos olhos da alma; pois, se fosse possível que alguém fosse purificado de todo pecado nesta vida, ele não sentiria necessidade de um Salvador; Cristo seria desvalorizado por ele, já que não precisaria mais do seu poder salvador”. Essa objeção entende mal todo o estado da questão. Como Cristo é exaltado aos olhos da alma? Como ele se torna precioso para nós? Não é pelo senso do que ele fez por nós e do que ele fez em nós? Alguém já amou a Deus antes de sentir que Deus o amava? Não é verdade que “nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1Jo 4.19)? É o nome JESUS que nos é precioso, ou Jesus, o Salvador, salvando-nos dos nossos pecados? Toda a nossa confiança está posta nele por causa de algum ato salvador isolado, ou por causa da sua operação contínua como Salvador? Pode algum efeito subsistir sem a sua causa? A causa não tem de continuar operando para manter o efeito? Valorizamos uma boa causa mais pela produção instantânea de um efeito bom e importante do que pela sua energia contínua, exercida para manter esse efeito bom e importante? Todas essas perguntas uma criança pode responder. O que é que purifica a alma e destrói o pecado? Não é o grande poder da graça de Deus? O que é que mantém a alma limpa? Não é o mesmo poder habitando em nós? Assim como um efeito não pode subsistir sem a sua causa, uma alma santificada não pode permanecer na santidade sem o Santificador que habita nela. Quando Cristo expulsa o valente bem-armado, tira-lhe a armadura em que confiava, reparte os seus despojos, purifica a casa e entra nela, de modo que o coração se torna morada de Deus no Espírito. Pode, então, alguém desvalorizar aquele Cristo que não só apagou a sua iniquidade, mas purificou a sua alma de todo pecado, e cuja presença e cuja ação poderosa no seu interior constituem toda a sua santidade e toda a sua felicidade? Impossível! Jesus nunca foi tão altamente valorizado, tão intensamente amado, tão afetuosamente obedecido quanto agora. O grande Salvador não tem a sua glória mais alta nos seus atos de expiação e redenção, mas na manifestação do seu poder salvador.
“Mas as pessoas que dizem ter sido feitas perfeitas desse modo são orgulhosas e arrogantes, e toda a sua conduta diz ao próximo: ‘Fique onde você está, porque sou mais santo do que você’” (cf. Is 65.5). Ninguém que aja assim jamais recebeu essa graça; é ou hipócrita ou alguém que engana a si mesmo. Os que a receberam estão cheios de mansidão, brandura e longanimidade. Amam a Deus de todo o coração, amam até os inimigos, amam toda a família humana e são servos de todos. Sabem que não têm nada que não tenham recebido (1Co 4.7). No esplendor da santidade de Deus, sentem-se absorvidos. Não têm luz, poder, amor nem felicidade senão do Salvador que habita neles. A sua santidade, embora encha a alma, é só uma gota do Oceano infinito. A chama do seu amor, embora penetre todo o seu ser, é só uma faísca do incompreensível Sol da Justiça. Num espírito e de um modo que ninguém além deles pode compreender e sentir plenamente, podem dizer ou cantar:
| Original | Tradução |
|---|---|
| “I loathe myself when God I see, | “Abomino a mim mesmo quando vejo a Deus, |
| And into nothing fall: | e caio no nada: |
| Content that Christ exalted be; | contente de que Cristo seja exaltado; |
| And God is All in All.” | e Deus é tudo em todos.” |
[N. do T.: estrofe 12 do hino “After a Relapse into Sin” (Depois de uma recaída no pecado), de Charles Wesley, Hymns and Sacred Poems (1740). Clarke cita com variações: o original diz “Content, if thou exalted be, / And Christ be all in all”.]
Tem sido para mim uma misericórdia nada pequena ter encontrado, no curso da minha vida religiosa, muitas pessoas que declaravam que o sangue de Cristo as tinha salvado de todo pecado, e cuja profissão era sustentada por uma vida imaculada. Mas nunca conheci uma delas que não tivesse o espírito descrito acima. Eram pessoas da fé mais forte, do amor mais puro, dos afetos mais santos, da vida mais obediente e as mais úteis na sociedade. Vi pessoas assim andando com Deus durante muitos anos. E, assim como tive o privilégio de observar a sua caminhada na vida, tive também o privilégio de ouvir o seu testemunho na morte, quando o seu sol parecia ficar maior e mais brilhante no ocaso. E, embora tenham vindo da grande tribulação, viram que as suas vestes tinham sido lavadas e alvejadas no sangue do Cordeiro (Ap 7.14). Testemunharam plenamente os grandes efeitos que nesta vida decorrem da justificação, da adoção e da santificação, a saber, “a certeza do amor de Deus, a paz de consciência, a alegria no Espírito Santo, o aumento da graça e a perseverança nela até o fim” da sua vida. [N. do T.: Clarke cita aqui, quase literalmente, a resposta 36 do Breve Catecismo de Westminster.] Ó Deus, que eu morra a morte desses justos, e que o meu fim seja como o deles (Nm 23.10)! Amém.
Mal vale a pena mencionar outra objeção levantada pelos ignorantes, pelos que não têm valor e pelos ímpios: “As pessoas que professam isso deixam Cristo fora da questão; ou pensam que purificaram o próprio coração, ou que obtiveram a sua pretensa perfeição pelos próprios méritos”. Nada pode ser mais falso do que essa calúnia. Conheço bem aquele povo em cujo credo a doutrina da “salvação de todo pecado nesta vida” é um artigo destacado. Mas esse povo sustenta com toda a consciência que toda a nossa salvação, desde o primeiro raiar da luz na alma até a sua entrada no reino da glória, é toda por Cristo e por meio de Cristo. Só ele convence a alma do pecado, justifica o ímpio, santifica o profano, preserva nesse estado de salvação e conduz à bem-aventurança eterna. Nenhuma alma jamais foi ou pode ser salva senão pela sua agonia e pelo seu suor de sangue, pela sua cruz e paixão, pela sua morte e sepultamento, pela sua gloriosa ressurreição e ascensão e pela sua intercessão contínua à direita de Deus.
Se as pessoas gastassem tanto tempo clamando com fervor a Deus para que purifique o sangue que ele não purificou quanto gastam condenando essa doutrina, que estado glorioso da igreja logo testemunharíamos! Em vez de fazer acordo com a iniquidade e de atormentar a mente para descobrir com quão pouca graça podem ser salvas, renunciariam ao diabo e a todas as suas obras e decidiriam nunca descansar até verem que Deus o esmagou debaixo dos pés delas (Rm 16.20) e que o sangue de Cristo as purificou de toda injustiça. [N. do T.: “o sangue que ele não purificou” é expressão bíblica, Jl 3.21 na King James. “Renunciar ao diabo e a todas as suas obras” vem do voto batismal do Livro de Oração Comum.] Por que as pessoas não experimentam até onde Deus as salvará, e por que não continuam a orar e crer por mais e mais, até verem que Deus deteve a mão? Quando virem que a sua fé e a sua oração em agonia não recebem mais resposta, então, e só então, poderão concluir que Deus não será mais gracioso e que não salvará totalmente os que por meio de Cristo Jesus se aproximam dele (Hb 7.25).
Mas objeta-se ainda que o próprio São Paulo nega essa doutrina da perfeição, rejeitando-a em relação a si mesmo: “Não que eu já tenha recebido isso ou já tenha obtido a perfeição, mas prossigo” (Fp 3.12). Essa passagem é mal entendida. O apóstolo não fala da sua restauração à imagem de Deus, mas de completar a sua carreira ministerial e receber a coroa do martírio, como mostrei amplamente nas minhas Notas sobre esse lugar, às quais peço licença para remeter o leitor. Há outro ponto que tem sido apresentado, ao menos indiretamente, como objeção a essa doutrina: “Onde estão esses cristãos adultos, esses cristãos perfeitos? Não conhecemos nenhum; mas ouvimos dizer que algumas pessoas que professavam esses graus extraordinários de santidade se tornaram escandalosas na sua vida”. Quando uma pergunta dessas é feita por alguém que teme a Deus, deseja ardentemente a sua salvação e só quer ter plena evidência de que a coisa é alcançável, para sacudir a poeira, levantar-se, sair e possuir a boa terra, ela merece resposta séria. A esse eu diria: pode haver várias pessoas, mesmo no círculo dos seus conhecidos religiosos, cujas más disposições e afetos profanos Deus destruiu, e que, cheias da santidade dele, se tornaram capazes de amá-lo de todo o coração, alma, entendimento e força, e ao próximo como a si mesmas. Mas essas pessoas não fazem profissão pública: a sua conduta, o seu espírito, todo o teor da sua vida é o seu testemunho. Além disso, pode não haver nenhuma entre os seus conhecidos religiosos porque eles não conhecem o seu privilégio, ou porque, infelizmente, estão sob um ministério em que a doutrina é condenada. E, nessas congregações e igrejas, a santidade nunca abunda. As pessoas tendem a ser preguiçosas e infiéis à graça que receberam. Não precisam das exortações do seu ministro para não procurar nem esperar um coração purificado de toda injustiça. Esforçar-se e agonizar “por entrar pela porta estreita” (Lc 13.24) não é trabalho agradável para a carne e o sangue, e elas ficam contentes em ter qualquer coisa que favoreça a sua preguiça espiritual. E esses ministros sempre têm um poderoso coadjutor: o pai da mentira e o espírito do erro agirão no coração não renovado, enchendo-o de trevas, preconceito e incredulidade. Não admira, então, que nesses lugares e sob tal ministério não haja ninguém que possa ser “apresentado perfeito em Cristo Jesus”. Mas, onde quer que a trombeta dê som certo (cf. 1Co 14.8) e o povo saia para a batalha conduzido pelo Capitão da sua salvação (cf. Hb 2.10), ali o inimigo é derrotado e os verdadeiros crentes são levados à liberdade dos filhos de Deus (Rm 8.21). [N. do T.: “Capitão da salvação” é a forma da King James em Hb 2.10; a NAA traz “o Autor da salvação deles”.]
Quanto a alguns que disseram ter recebido essa salvação e depois se tornaram escandalosos na sua vida (embora, em todos os meus longos trabalhos ministeriais e no meu extenso convívio religioso, eu só tenha encontrado um exemplo), eu observaria apenas que podem ter sido enganados, pensando ter o que não tinham, ou podem ter se tornado infiéis a essa graça e a perdido. E isso é possível em toda a extensão de um estado de provação. Houve anjos que não guardaram o seu estado original (Jd 6). E todos sabemos, à nossa própria custa, que aquele que era a cabeça e a fonte de toda a família humana, que foi feito à imagem e semelhança de Deus, pecou contra Deus e caiu desse estado. Do mesmo modo, qualquer dos seus descendentes pode cair de qualquer grau da graça de Deus enquanto estiver no seu estado de provação. E qualquer pessoa, e toda pessoa, tem de cair sempre que deixar de vigiar em oração e deixar de ser “cooperadora de Deus” (1Co 3.9). A fé tem de ser mantida sempre em exercício vivo, atuando pelo amor; e esse amor só está seguro quando exerce as suas energias no caminho da obediência. Uma objeção desse tipo contra a doutrina da perfeição cristã se aplicaria com igual força contra toda a revelação de Deus, tanto quanto contra uma das suas doutrinas, porque essa revelação traz o relato da queda dos anjos e da queda do ser humano. A verdade é que nenhuma doutrina de Deus se apoia no conhecimento, na experiência, na fidelidade ou na infidelidade humanas; apoia-se na veracidade de Deus, que a deu. Ainda que não se encontrasse um só ser humano justificado gratuitamente mediante a redenção que há em Jesus, a doutrina da “justificação pela fé” seria verdadeira, porque é uma doutrina que se apoia na verdade de Deus. E, ainda que não se encontrasse em todas as igrejas de Cristo uma só pessoa cujo coração tivesse sido purificado de toda injustiça e que amasse a Deus e ao próximo com todas as suas forças regeneradas, a doutrina da perfeição cristã continuaria verdadeira, porque Cristo se manifestou para destruir a obra do diabo, e o seu sangue purifica de toda injustiça. E, ainda que todo ser humano seja mentiroso, Deus é verdadeiro (Rm 3.4).
Não é a profissão de uma doutrina que estabelece a sua verdade; é a verdade de Deus, da qual ela procede. A experiência humana pode ilustrá-la, mas é a verdade de Deus que a confirma.
Em todos os casos desta natureza, temos de deixar para sempre de confiar no ser humano, dar crédito sem reserva ao testemunho de Deus e olhar para aquele em quem e por meio de quem todas as promessas de Deus são “sim” e “amém” (2Co 1.20).
Ser cheio de DEUS é grande coisa; ser cheio da plenitude de Deus é ainda maior; ser cheio de toda a plenitude de Deus (Ef 3.19) é o maior de tudo. Isso confunde completamente os sentidos e desconcerta o entendimento, levando-nos a considerar de uma vez a imensidade de Deus, a infinitude dos seus atributos e a perfeição absoluta de cada um deles! Mas deve haver um sentido em que até esse pedido maravilhoso era entendido pelo apóstolo e pode ser compreendido por nós. A maioria das pessoas, ao citar essas palavras, procura corrigir ou explicar o apóstolo acrescentando a palavra “comunicável”. Mas isso é tão ocioso quanto inútil e impertinente. A razão certamente nos diz que São Paulo não oraria para que fossem cheios do que não pode ser comunicado. O apóstolo certamente quis dizer o que disse e queria ser entendido no seu próprio sentido, e logo veremos qual é esse sentido.
Pela “plenitude de Deus” devemos entender todos os dons e graças que ele prometeu conceder ao ser humano para a sua plena salvação aqui e para que esteja plenamente preparado para o gozo da glória depois. Ser cheio de toda a plenitude de Deus é ter o coração esvaziado e purificado de todo pecado e contaminação e cheio de humildade, mansidão, brandura, bondade, justiça, santidade, misericórdia e verdade, e de amor a Deus e ao próximo. E que isso implica esvaziar completamente a alma de tudo o que não é de Deus e não leva a ele fica evidente por isto: o que Deus enche, nem o pecado nem Satanás podem encher, nem ocupar de forma alguma. Pois, se um vaso está cheio de um fluido ou substância, nem uma gota ou partícula de outra espécie pode entrar nele sem deslocar da matéria original uma quantidade igual à que se introduz depois. Não se pode dizer que Deus enche a alma inteira enquanto algum lugar, parte, paixão ou faculdade estiver cheio, ou mais ou menos ocupado, pelo pecado ou por Satanás. E, como nem o pecado nem Satanás podem estar onde Deus enche e ocupa o todo, os termos da oração declaram que Satanás não terá nenhum domínio sobre essa alma nem existência nela. A plenitude de humildade exclui todo orgulho; a de mansidão exclui a ira; a de brandura, toda ferocidade; a de bondade, todo mal; a de justiça, toda injustiça; a de santidade, todo pecado; a de misericórdia, toda dureza e vingança; a de verdade, toda falsidade e dissimulação. E, onde Deus é amado de todo o coração, alma, entendimento e força, não há lugar para inimizade ou ódio a ele, ou a qualquer coisa ligada a ele. Do mesmo modo, onde alguém ama o próximo como a si mesmo, nenhum mal será feito a esse próximo; ao contrário, haverá para com ele todo afeto bondoso, e toda ação bondosa, na medida em que o poder e as circunstâncias o permitirem, lhe será feita. Assim, estar cheio da plenitude de Deus produzirá uma obediência constante, piedosa e afetuosa a ele e uma benevolência invariável para com o próximo, isto é, qualquer pessoa, todo e qualquer ser humano. Tal pessoa está salva de todo pecado; a lei se cumpre nela; e ela possui sempre, e age sob a sua influência, aquele amor a Deus e ao próximo que é o cumprimento da lei. É impossível, com qualquer coerência bíblica ou racional, entender essas palavras num sentido mais baixo. Mas quanto mais elas implicam (e implicam mais), quem pode dizer?
Muitos pregadores, e multidões dos que professam a fé, se empenham em descobrir quantas imperfeições e infidelidades, e quanta pecaminosidade interior, são compatíveis com um estado seguro na religião. Mas como são poucos, muito poucos, os que apresentam o belo padrão do evangelho para medir a altura dos membros da igreja, se são aptos para o exército celestial, se a sua estatura os qualifica para as fileiras da igreja militante! “A medida da estatura da plenitude” (Ef 4.13) raramente se vê; a medida da estatura da pequenez, do nanismo e do vazio se exibe com frequência.
Alguns dizem: “O corpo do pecado nos crentes é, de fato, um tirano enfraquecido, vencido e deposto, e o golpe da morte completa a sua destruição”. Então a morte de Cristo e as influências do Espírito Santo só foram suficientes para depor e enfraquecer o tirano, o pecado, mas a nossa morte tem de entrar para efetuar a sua destruição total! Assim, a nossa morte é, ao menos em parte, o nosso salvador; e aquilo que foi efeito do pecado (“entrou o pecado no mundo, e pelo pecado veio a morte”, Rm 5.12) se torna o meio de destruí-lo finalmente. Isto é: o efeito de uma causa pode se tornar tão poderoso que reage sobre essa causa e produz a sua aniquilação! A teologia e a filosofia dessa opinião são igualmente absurdas. Só o sangue de Cristo purifica de toda injustiça, e a santificação do crente não depende mais da morte do que a sua justificação. Se se disser que “os crentes não deixam de pecar até morrerem”, só tenho a dizer que esses são crentes que não usam devidamente a sua fé. E o que mais se pode dizer de todo o bando de transgressores e incrédulos? Eles deixam de pecar quando deixam de respirar. Se a religião cristã não traz aos seus seguidores retos outros privilégios além desse, bem podemos perguntar: “Em que difere o sábio do tolo, se os dois têm o mesmo fim?” (cf. Ec 2.15-16). Mas todo o evangelho ensina uma doutrina contrária.
É estranho que se encontre alguém que crê em todo o sistema do evangelho e, no entanto, vive no pecado! “Salvação do pecado” é o som prolongado do evangelho, assim como é o seu espírito e o seu propósito. O nosso nome cristão, a nossa aliança batismal, a nossa profissão de fé em Cristo e a nossa crença declarada na sua palavra, tudo nos chama a isso. Pode-se dizer que temos chamados mais fortes do que esses? O nosso próprio interesse, quanto à felicidade de uma vida piedosa e às glórias da bem-aventurança eterna, e as dores e misérias de uma vida de pecado, que leva ao verme que não morre e ao fogo que não se apaga (Mc 9.48), reforçam com toda a força esses chamados. Leitor, ponha essas coisas no coração e responda a Deus esta pergunta: “Como escaparei, se não levar a sério tão grande salvação?” (cf. Hb 2.3). E então, conforme a sua consciência responder, que a sua mente e a sua mão comecem a agir.
Assim como não há fim para os méritos de Cristo encarnado e crucificado, nem limites para a misericórdia e o amor de Deus, nem estorvo ou impedimento para a energia todo-poderosa e a influência santificadora do Espírito Santo, nem limites para a capacidade de aperfeiçoamento da alma humana, assim também não pode haver limites para a influência salvadora que Deus concederá ao coração de todo verdadeiro crente. Podemos pedir e receber, e a nossa alegria será completa! Bem podemos bendizer e louvar a Deus, “que nos chamou a tal estado de salvação”, um estado em que podemos ser salvos assim e, pela graça desse estado, continuar nele até o fim da nossa vida! [N. do T.: Clarke ecoa a resposta do Catecismo do Livro de Oração Comum: “dou graças ao nosso Pai celestial por me ter chamado a este estado de salvação […] e peço a Deus a sua graça para que eu continue nele até o fim da minha vida”.] Como o pecado é a causa da ruína da humanidade, o sistema do evangelho, que mostra a sua cura, é chamado com propriedade “boas notícias” ou “boas-novas”. E é boa notícia porque proclama aquele que salva o seu povo dos pecados deles (Mt 1.21). E seria de fato desonroso para essa graça, e para o mérito infinito daquele que a obteve, supor, e muito mais afirmar, que o pecado abriu feridas que a graça não curaria. Satanás será privado para sempre de tal triunfo.
“Quem comete pecado é do diabo” (cf. 1Jo 3.8). Ouçam isto, vocês que advogam por Baal e não suportam a ideia da doutrina que afirma que os crentes devem ser salvos de todo pecado nesta vida! Quem comete pecado é filho do diabo e mostra que ainda tem nele a natureza do diabo, “porque o diabo peca desde o princípio”. Ele foi o pai do pecado: trouxe o pecado ao mundo e mantém o pecado no mundo vivendo no coração dos seus próprios filhos e levando-os assim à transgressão, e persuadindo outros de que não podem ser salvos dos seus pecados nesta vida, para assegurar uma residência contínua no coração deles. Ele sabe também que, se tiver lugar durante a vida, provavelmente o terá na morte; e, se for assim, por toda a eternidade.
“Isto é”, dizem alguns, “ele não peca habitualmente como fazia antes.” Isso é rebaixar muito a influência e os privilégios do nascimento celestial. [N. do T.: Clarke segue a King James em 1Jo 3.8-9, he that committeth sin is of the devil e whosoever is born of God doth not commit sin, e rejeita a interpretação “não peca habitualmente”. A NAA traduz justamente nessa linha: “aquele que pratica o pecado”, “não vive na prática de pecado”, “não pode viver pecando”. O argumento de Clarke fica mais claro com a forma da King James, “quem comete pecado” e “não comete pecado”.] Temos a evidência mais indiscutível de que muitos filósofos pagãos tinham adquirido, pela disciplina e pelo cultivo da mente, um domínio completo sobre todos os seus antigos hábitos viciosos. Talvez o meu leitor se lembre da história do fisionomista que, entrando no lugar onde Sócrates dava uma lição, foi desafiado pelos alunos, que queriam pôr à prova os princípios da sua ciência, a examinar o rosto do mestre e dizer qual era o seu caráter moral. Depois de contemplar demoradamente o rosto do filósofo, ele declarou que era “o velho mais glutão, beberrão, brutal e libidinoso que já tinha encontrado”. Como o caráter de Sócrates era o contrário de tudo isso, os discípulos começaram a insultar o fisionomista. Sócrates interveio e disse: “Os princípios da sua ciência podem estar muito corretos, porque eu era assim, mas venci isso pela minha filosofia”. [N. do T.: a história do fisionomista Zópiro é contada por Cícero; os detalhes do retrato vêm de versões posteriores.] Ó teólogos cristãos! Ó ministros do evangelho, verdadeiros ou pretensos! Vocês vão conceder à influência da graça de Cristo um domínio nem sequer tão amplo quanto o da filosofia de um pagão que nunca ouviu falar do verdadeiro Deus?
Muitos nos dizem que “ninguém pode ser salvo do pecado nesta vida”. Essas pessoas nos permitem perguntar de quanto pecado podemos ser salvos nesta vida? Alguma coisa tem de ser determinada sobre esse assunto: 1. para que a alma tenha algum objetivo definido em vista; 2. para que não perca o seu tempo, nem empregue a sua fé e a sua energia, orando pelo que é impossível alcançar. Ora, como Cristo se manifestou para tirar os nossos pecados e destruir as obras do diabo, e como o seu sangue purifica de todo pecado e de toda injustiça, não é evidente que Deus quer que os crentes em Cristo sejam salvos de todo pecado? Pois, se o seu sangue purifica de todo pecado, se ele destrói as obras do diabo (e o pecado é obra do diabo), e se aquele que é nascido de Deus não comete pecado, então ele tem de estar purificado de todo pecado. E, enquanto permanece nesse estado, vive sem pecar contra Deus, porque a semente de Deus permanece nele, e ele não pode pecar, porque é nascido, ou gerado, de Deus (cf. 1Jo 3.9).
Quão estranhamente deformados e cegados pelo preconceito e pelo sistema hão de estar os que, diante de uma evidência como esta, ainda ousam sustentar que ninguém pode ser salvo do seu pecado nesta vida, mas tem de cometer pecado diariamente, em pensamento, palavra e obra, como afirmaram os teólogos de Westminster! [N. do T.: Breve Catecismo de Westminster, resposta 82: nenhum simples homem, desde a queda, é capaz nesta vida de guardar perfeitamente os mandamentos de Deus, mas os quebra diariamente “em pensamento, palavra e obra”.] Isto é, todo ser humano é posto sob a necessidade fatal de pecar contra Deus de tantas maneiras quantas o diabo peca, pela sua maldade e malícia naturais, pois nem o próprio diabo tem outra maneira de pecar contra Deus senão em pensamento, palavra e obra. E, no entanto, segundo esses, e outros do mesmo credo, “até os mais regenerados pecam contra Deus enquanto vivem”. É um pobre remendo dizer: “Eles não pecam tanto quanto antes, e não pecam habitualmente, só ocasionalmente”. Ai deste sistema! A graça que os salvou parcialmente não poderia salvá-los perfeitamente? O poder de Deus que os salvou do pecado habitual não poderia salvá-los do pecado ocasional ou acidental? Devemos supor que o pecado, por mais poderoso que seja, é tão poderoso quanto o Espírito e a graça de Cristo? E não podemos perguntar: se foi para a glória de Deus e para o bem deles que foram parcialmente salvos, não teria sido mais para a glória de Deus e para o bem deles se tivessem sido perfeitamente salvos? Mas a letra e o espírito da palavra de Deus, e o propósito e o fim da vinda de Cristo, são salvar o seu povo dos pecados deles.
A perfeição do sistema do evangelho não está em fazer concessões ao pecado, mas em fazer expiação por ele; não em tolerar o pecado, mas em destruí-lo.
Por mais inveterada que seja a doença do pecado, a graça do Senhor Jesus pode curá-la completamente.
Deus não põe limites às comunicações da sua graça e do seu Espírito aos que são fiéis. E, assim como não há limites para as graças, não deve haver limites para o exercício dessas graças. Ninguém pode jamais sentir que ama a Deus demais, ou que ama o próximo demais por amor de Deus.
Sejam purificados e refinados na alma pelo Espírito que habita em vocês, de tal modo que nem a luz de Deus, brilhando no coração de vocês, consiga descobrir uma falha que o amor de Deus não tenha purificado.
“Seja perfeito, e você será perfeições” (cf. Gn 17.1), isto é, inteiramente perfeito. [N. do T.: tradução do próprio Clarke para Gn 17.1, explorando o hebraico tamim; a NAA traz “ande na minha presença e seja perfeito”.] Seja exatamente como o Deus santo quer que você seja, como o Deus todo-poderoso pode fazer você ser, e viva como o Deus todo-suficiente o sustentar; porque só aquele que torna a alma santa pode preservá-la na santidade. O nosso bendito Senhor parece ter essas palavras expressamente em vista: “Portanto, sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês, que está no céu” (Mt 5.48). Mas o que isso implica? Ora, ser salvo de todo o poder, de toda a culpa e de toda a contaminação do pecado. Essa é só a parte negativa da salvação, mas ela tem também uma parte positiva: ser feito perfeito, ser perfeito como o nosso Pai que está no céu é perfeito, ser cheio da plenitude de Deus, ter Cristo habitando continuamente no coração pela fé e estar enraizado e alicerçado em amor (Ef 3.17). Esse é o estado em que o ser humano foi criado, pois foi feito à imagem e semelhança de Deus. Esse é o estado de que o ser humano caiu, pois quebrou o mandamento de Deus. E esse é o estado a que toda alma humana tem de ser elevada, se quiser habitar com Deus na glória, pois Cristo se encarnou e morreu para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo (Hb 9.26). Que privilégio glorioso! E quem pode duvidar da possibilidade de alcançá-lo, se crê no amor onipotente de Deus, no mérito infinito do sangue da expiação e na energia do Espírito Santo, que tudo penetra e tudo purifica? Quantas almas miseráveis empregam em discutir e implicar contra a possibilidade de serem salvas dos seus pecados o tempo que deveriam dedicar a orar e crer para serem salvas das mãos dos seus inimigos! Mas alguns podem dizer: “Você força demais o sentido do termo; ele significa apenas: seja sincero; pois, como a obediência perfeita é impossível, Deus aceita a obediência sincera”. Se por sinceridade a objeção quer dizer “bons desejos e propósitos em geral bons, com um coração impuro e uma vida manchada”, então afirmo que nada disso está implicado no texto, nem na palavra original. Mas, se a palavra sinceridade for tomada no seu sentido próprio e literal, não tenho objeção. “Sincero” é composto de sine cera, “sem cera”, e, aplicado a assuntos morais, é uma metáfora tirada do mel clarificado, do qual se separou cada partícula do favo ou da cera. [N. do T.: etimologia popular, corrente na época de Clarke.] Então, que se proclame do céu: “Ande na minha presença e seja sincero! Joguem fora o velho fermento, para que vocês sejam nova massa para Deus (cf. 1Co 5.7); e assim serão perfeitos como é perfeito o Pai de vocês, que está no céu”. Isso é sinceridade. Leitor, lembre-se de que o sangue de Cristo purifica de todo pecado. Dez mil sofismas sobre textos isolados nunca poderão diminuir, e muito menos destruir, o mérito e a eficácia da grande Expiação.
Deus nunca dá um preceito sem oferecer graça suficiente para capacitar você a cumpri-lo. Creia como ele quer que você creia e aja como ele o fortalecer a agir, e você crerá em todas as coisas para a salvação e fará bem todas as coisas.
Deus é santo, e essa é a razão eterna pela qual todo o seu povo deve ser santo, deve ser purificado de toda impureza da carne e do espírito, aperfeiçoando a santidade no temor de Deus (2Co 7.1). Nenhuma fé em algum credo particular, nenhuma observância religiosa, nenhum ato de benevolência e caridade, nenhuma mortificação, atrição ou contrição pode substituir isso. Temos de nos tornar coparticipantes da natureza divina (2Pe 1.4). Temos de ser salvos dos nossos pecados, da corrupção que há no mundo, e ser santos por dentro e justos por fora, ou nunca veremos a Deus. Foi para isso mesmo que Jesus Cristo viveu, morreu e reviveu: para nos purificar para si mesmo, para que, pela fé no seu sangue, os nossos pecados fossem apagados e a nossa alma restaurada à imagem de Deus. Leitor, você tem fome e sede de justiça? Então é bem-aventurado, porque será saciado (Mt 5.6).
Deus está sempre pronto, pelo poder do seu Espírito, a nos levar adiante a todo grau de vida, de luz e de amor necessário para nos preparar para um eterno peso de glória (2Co 4.17). Pode haver pouca dificuldade em alcançar o alvo da nossa fé, a salvação da nossa alma de todo pecado, se Deus nos levar adiante até ele; e ele fará isso, se nos submetermos a ser salvos do seu próprio modo e nos seus próprios termos. Muitos fazem um protesto violento contra a doutrina da perfeição, isto é, contra a purificação do coração de todo pecado nesta vida e o seu enchimento de amor a Deus e ao próximo, porque a julgam impossível! É dizer demais que eles não conhecem as Escrituras nem o poder de Deus (Mt 22.29)? Certamente as Escrituras prometem a coisa, e o poder de Deus pode nos levar adiante até a sua posse.
O objetivo de todas as promessas e dispensações de Deus era trazer o ser humano caído de volta à imagem de Deus, que ele tinha perdido. Essa é, de fato, a soma e a substância da religião de Cristo. Participamos de uma natureza terrena, sensual e demoníaca (cf. Tg 3.15); o propósito de Deus, por Cristo, é removê-la, fazer-nos coparticipantes da natureza divina e salvar-nos de toda a corrupção, em princípio e em fato, que há no mundo.
Diz-se que Enoque não só “andou com Deus” (Gn 5.24), pondo-o sempre diante dos olhos, começando, continuando e terminando cada obra para a sua glória, mas também que “agradou a Deus” e que teve “testemunho de que havia agradado a Deus” (Hb 11.5). Aprendemos disso que era possível, então, viver de modo a não ofender a Deus e, por consequência, de modo a não cometer pecado contra ele, e ter a evidência ou o testemunho contínuo de que tudo o que se fazia e se propunha era agradável aos olhos daquele que sonda o coração e pesa as intenções. E, se era possível então, certamente é possível agora, pela mesma graça, porque Deus, Cristo e a fé ainda são os mesmos.
O pedido “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.10) certamente aponta para uma libertação de todo pecado, porque nada que é profano pode estar de acordo com a vontade divina, e, se ela se cumpre no ser humano, certamente o pecado será banido da sua alma. Além disso, os santos anjos nunca misturam iniquidade à sua obediência amorosa. E, como o nosso Senhor nos ensina a orar para que façamos aqui a sua vontade como eles a fazem no céu, pode-se pensar que ele poria na nossa boca um pedido cujo cumprimento fosse impossível?
O leitor provavelmente fica admirado com o pequeno número de estrelas grandes em todo o firmamento do céu. Permita-me o leitor levar a sua mente um pouco mais longe e convidá-lo a se espantar, ou a deplorar comigo, o fato de que, entre os milhões de cristãos que vivem nas proximidades e no esplendor do eterno Sol da Justiça, sejam tão poucos os que se encontram da primeira grandeza? Como são poucos os que resistem ao exame pela prova estabelecida em 1 Coríntios 13! Como são poucos os que amam a Deus de todo o coração, alma, entendimento e força, e ao próximo como a si mesmos! Quão poucos cristãos maduros se encontram na igreja! Quão poucos vivem, em todas as coisas, para a eternidade! Quão pouca luz, quão pouco calor, quão pouca influência e atividade se encontram entre os que levam o nome de Cristo! Quão poucas estrelas de primeira grandeza o Filho de Deus terá para enfeitar a coroa da sua glória! Poucos se esforçam por se destacar na justiça, e para muitos a preocupação principal parece ser descobrir com quão pouca graça podem escapar do inferno e com quão pouca conformidade com a vontade de Deus podem chegar ao céu. No temor de Deus, registro este testemunho: percebi que é o trabalho de muitos rebaixar o padrão do cristianismo e abrandar, ou explicar de modo a esvaziar, as promessas de Deus que ele mesmo ligou a deveres. E, porque sabem que não podem ser salvos pelas suas boas obras, contentam-se em não ter boa obra nenhuma. E assim a necessidade da obediência cristã e da santidade cristã não tem lugar destacado em alguns credos modernos. Que todos os que conservam a doutrina apostólica de que o sangue de Cristo purifica de todo pecado nesta vida insistam com cada crente para que prossiga para a perfeição e espere ser salvo, ainda aqui embaixo, na plenitude da bênção do evangelho de Jesus. A todos esses a minha alma diz: procurem apresentar-se a Deus aprovados, como obreiros que não têm de que se envergonhar, que manejam bem a palavra da verdade (2Tm 2.15); e que a vontade do Senhor prospere nas mãos de vocês (cf. Is 53.10)! Amém.
Muitos empregam em ruminar e lamentar o seu coração impuro o tempo que deveriam passar em oração e fé diante de Deus, para que as suas impurezas fossem lavadas. Em que estado de menoridade estão muitos membros da igreja cristã!
Receio que o que algumas pessoas chamam de suas fraquezas possa antes ser chamado de suas forças: o poder predominante, e muitas vezes dominante, do orgulho, da ira, da má vontade etc.; pois quão poucos consideram pecados as más disposições! O termo brando “fraqueza” suaviza a iniquidade. E, como São Paulo, homem tão grande e tão santo, dizem eles, tinha as suas fraquezas, como podem esperar ficar sem as deles? Essas pessoas deveriam saber que estão num erro perigoso, e que São Paulo não quer dizer nada disso, porque fala dos seus sofrimentos, e só deles (cf. 2Co 12.9-10). Mais uma palavra: a graça e o poder de Cristo não apareceriam mais em matar o leão do que em mantê-lo acorrentado? Em destruir o pecado, raiz e ramo, e encher a alma da sua própria santidade, do amor a Deus e ao próximo, do modo de pensar e de todas as disposições santas e celestiais que havia nele mesmo, do que em deixar essas disposições impuras e profanas viverem para sempre no coração, e muitas vezes reinarem nele? Essa doutrina é desonrosa para o evangelho e inteiramente anticristã.
“Se pecarem contra ti, pois não há ninguém que não peque” (cf. 1Rs 8.46). [N. do T.: forma da King James, If they sin against thee; a NAA traz “Quando pecarem contra ti”.] Sobre esse versículo podemos observar que a segunda parte, tal como está traduzida aqui, torna inteiramente inútil a suposição da primeira; porque, se não há ninguém que não peque, é inútil dizer “se pecarem”. Mas essa contradição desaparece quando se recorre ao original, que deveria ser traduzido: “Se vierem a pecar contra ti”, ou “Caso pequem contra ti, pois não há ninguém que não possa pecar”; isto é, não há ninguém impecável, ninguém infalível, ninguém que não esteja sujeito a transgredir. Esse é o verdadeiro sentido da expressão em várias partes da Bíblia, e assim os nossos tradutores entenderam o original. Pois, até no versículo 31 deste capítulo, traduziram yecheta por “Se alguém transgredir”, o que certamente implica que ele poderia fazê-lo ou não. E dessa maneira traduziram a mesma palavra, “Se alguém pecar”, em Levítico 5.1; 6.2; 1 Samuel 2.25; 2 Crônicas 6.22 e em vários outros lugares. A verdade é que o hebraico não tem modo verbal para expressar as palavras de forma permissiva ou optativa, mas, para expressar esse sentido, usa o futuro da conjugação kal. [N. do T.: a NAA também traduz 1Rs 8.46 como “pois não há ninguém que não peque”; a leitura “que não possa pecar” é proposta de Clarke.] Este texto tem sido uma fortaleza maravilhosa para todos os que creem que não há redenção do pecado nesta vida, que ninguém pode viver sem cometer pecado e que não podemos ser inteiramente libertados dele antes de morrer. 1. O texto não ensina essa doutrina; fala só da possibilidade de todo ser humano pecar, e isso tem de ser verdade num estado de provação. 2. Não há outro texto nos Registros Divinos que sirva mais a esse propósito do que este. 3. A doutrina se opõe frontalmente ao propósito do evangelho, porque Jesus veio salvar o seu povo dos pecados deles e destruir as obras do diabo. 4. É uma doutrina perigosa e destruidora e deveria ser apagada do credo de todo cristão. Há muitos que procuram desculpar os seus crimes por todos os meios ao seu alcance, e não precisamos incorporar as suas desculpas num credo para completar o seu engano, declarando que os seus pecados são inevitáveis.
A alma foi feita para Deus e nunca pode estar unida a ele, nem ser feliz, enquanto não for salva do pecado. Quem é salvo do seu pecado e está unido a Deus possui a maior felicidade que a alma humana pode desfrutar, neste mundo ou no vindouro.
Quando uma alma é salva de todo pecado, é capaz de ser plenamente empregada na obra do Senhor. É então, e só então, que está plenamente apta para o uso do Senhor (cf. 2Tm 2.21).
Todos os que são ensinados por Cristo não só são salvos, mas também têm o entendimento muito aperfeiçoado. A verdadeira religião, a civilização, o aperfeiçoamento da mente, o bom senso e o comportamento ordenado andam de mãos dadas.
Quando a luz de Cristo habita plenamente no coração, estende a sua influência a cada pensamento, palavra e ação, e orienta o seu possuidor sobre como deve agir em todos os lugares e circunstâncias.
A nossa alma nunca pode ser verdadeiramente feliz enquanto a nossa vontade não estiver inteiramente sujeita à vontade de Deus e não se tornar uma só com ela.
Enquanto houver um coração vazio e desejoso, há uma fonte de salvação que transborda continuamente. Se em algum lugar, ou em algum momento, vemos que o azeite parou de correr, é porque ali não há vasilhas vazias (2Rs 4.6), não há almas com fome e sede de justiça. Achamos defeito nas dispensações da misericórdia de Deus e perguntamos: “Por que os dias passados foram melhores que os de agora?” (Ec 7.10). Se estivéssemos tão empenhados na nossa salvação quanto os nossos antepassados estavam na deles, teríamos suprimentos iguais e tantas razões quanto eles para cantar em alta voz a misericórdia divina.
“Sejam santos”, diz o Senhor, “porque eu sou santo” (1Pe 1.16; Lv 11.44). Quem pode dar graças ao lembrar a santidade dele é alguém que ama a santidade, que odeia o pecado, que anseia ser salvo dele e que se anima ao lembrar a santidade de Deus, porque vê nela a natureza santa da qual vai participar e a perfeição que vai alcançar aqui. [N. do T.: Clarke alude a Sl 30.4 na King James, give thanks at the remembrance of his holiness; a NAA traz “deem graças ao seu santo nome”.] Mas a maioria dos que se chamam cristãos odeia a doutrina da santidade, nunca a ouve ensinada sem desgosto, e a parte principal dos seus estudos, e dos estudos dos seus pastores, é descobrir com quão pouca santidade podem racionalmente esperar entrar no Reino dos Céus. Ó ilusão fatal e destruidora das almas! Até quando um Deus santo tolerará que doutrinas tão abomináveis contaminem a sua igreja e destruam a alma das pessoas?
Cresçam na imagem e no favor de Deus. Cada graça e cada influência divina que vocês receberam é uma semente, uma semente celestial, que, se for regada com o orvalho do céu, crescerá e se multiplicará sem fim. Quem continua a crer, amar e obedecer crescerá na graça e aumentará continuamente no conhecimento de Jesus Cristo (2Pe 3.18), como seu Sacrifício, Santificador, Conselheiro, Preservador e Salvador final. A vida de um cristão é um crescimento. No começo ele nasce de Deus e é uma criancinha; torna-se jovem e pai em Cristo (cf. 1Jo 2.12-14). Todo pai já foi bebê; e, se não tivesse crescido, nunca teria se tornado homem. Os que se contentam com a graça que receberam quando se converteram a Deus estão, quando muito, num estado contínuo de infância. Mas vemos, na ordem da natureza, que o bebê que não cresce, e não cresce todo dia, é doentio e logo morre. Assim, na ordem da graça, os que não crescem em Jesus Cristo são doentios e logo morrerão: morrerão para todo senso e toda influência das coisas celestiais. Há muitos que se gabam da graça da sua conversão, pessoas que nunca passaram de bebês e que há muito perderam até essa graça, porque não cresceram nela. Quem lê entenda.
Para ter um coração limpo, a pessoa tem de conhecer e sentir a depravação dele, reconhecê-la e lamentá-la diante de Deus, a fim de ser plenamente santificada. Poucos são perdoados porque não sentem nem confessam os seus pecados; e poucos são santificados e purificados de todo pecado porque não sentem nem confessam a sua própria chaga, a ferida do seu coração (cf. 1Rs 8.38). Assim como o sangue de Jesus Cristo, o mérito da sua paixão e morte, aplicado pela fé, purifica a consciência de todas as obras mortas, assim também purifica o coração de toda injustiça. Como toda injustiça é pecado, quem é purificado de toda injustiça é purificado de todo pecado. Tentar escapar disso e advogar a permanência do pecado no coração durante toda a vida é ingrato, perverso e blasfemo. Pois, assim como quem diz que não pecou faz de Deus um mentiroso (1Jo 1.10), já que ele declarou o contrário em cada parte da sua revelação, assim também quem diz que o sangue de Cristo não pode ou não quer nos purificar de todo pecado nesta vida desmente igualmente o seu Criador, que declarou o contrário, e mostra assim que a palavra, a doutrina de Deus, não está nele. Leitor, é direito de nascença de todo filho de Deus ser purificado de todo pecado, guardar-se incontaminado do mundo (Tg 1.27) e viver de modo a nunca mais ofender o seu Criador. Tudo é possível ao que crê (Mc 9.23), porque tudo é possível ao sangue infinitamente meritório e ao Espírito poderoso do Senhor Jesus.
Toda pessoa cujo coração está cheio do amor de Deus está cheia de humildade, porque não há ninguém tão humilde quanto aquele cujo coração foi purificado de todo pecado. Já se disse que o pecado que habita em nós nos humilha. Nunca houve falsidade maior. O orgulho é a própria essência do pecado; quem tem pecado tem orgulho, e orgulho na proporção do seu pecado. Essa é uma doutrina puramente papista e, por estranho que pareça, a doutrina sobre a qual se funda a doutrina deles do mérito! Dizem que Deus deixa a concupiscência no coração de todo cristão para que, lutando contra ela e vencendo-a de tempos em tempos, ele tenha um acúmulo de atos meritórios. Certos protestantes dizem: “É sinal verdadeiro de um estado muito gracioso quando a pessoa sente e deplora a sua corrupção inata”. Como chegam perto dos papistas, cuja doutrina professam detestar e abominar! A verdade é que isso não é sinal de graça nenhum. Mostra apenas, do modo como o usam, que a pessoa recebeu luz para ver as suas corrupções, mas ainda não recebeu graça para destruí-las. Está convencida de que deveria ter o modo de pensar de Cristo, mas sente que tem o modo de pensar de Satanás. Lamenta isso e, se a sua má doutrina não a impedir, não descansará até sentir o sangue de Cristo purificando-a de todo pecado.
Pode alguém esperar ser salvo do seu pecado interior no outro mundo? Ninguém, senão os que sustentam a doutrina papista e antibíblica do purgatório. Mas espera-se essa libertação na morte. Onde está a promessa de que ela será dada então? Não há uma só em toda a Bíblia! E crer por uma coisa essencial à nossa glorificação, sem nenhuma promessa que sustente essa fé no ponto sobre o qual ela se exerce, é um desespero que revela tanto a ausência da verdadeira fé quanto a da razão sã. Multidões dessas pessoas vivem deplorando a sua falta de fé, mesmo onde têm as promessas mais claras e explícitas, e, por estranho que pareça, arriscam a sua salvação, na hora da morte, numa libertação que não está prometida em lugar nenhum dos Sagrados Oráculos! “Mas quem obteve essa bênção?” Todo aquele que veio a Deus por ela do modo certo. “Onde está alguém assim?” Busque as bênçãos como deve, e logo será capaz de responder à pergunta. “Mas é uma bênção grande demais para se esperar.” Nada é grande demais para um crente esperar, se Deus o prometeu e Cristo o comprou com o seu sangue. “Se eu tivesse essa bênção, não seria capaz de conservá-la.” Tudo é possível ao que crê. Além disso, como todos os outros dons de Deus, ela vem com um princípio de preservação, e “sobre toda a glória se estenderá uma proteção” (Is 4.5). “Ainda assim, alguém tão infiel como eu não pode esperá-la.” Talvez a infidelidade que você lamenta tenha vindo justamente da falta dessa bênção. E, quanto à falta de mérito, nenhuma alma debaixo do céu merece a menor das misericórdias de Deus. Não foi pelo seu merecimento que ele lhe deu alguma coisa, mas por amor do seu Filho. Você pode dizer: “Quando me senti pecador, afundando na perdição, corri então para o sangue expiatório e encontrei o perdão; mas essa santificação é uma obra muito maior”. Não. Falando à maneira humana, a justificação é muito maior que a santificação. Quando você era pecador, ímpio, inimigo no entendimento pelas obras más (Cl 1.21), filho do diabo, herdeiro do inferno, Deus o perdoou quando você lançou a sua alma sobre o mérito da grande Oferta Sacrificial. A sua sentença foi revogada, o seu estado mudou, você foi posto entre os filhos, e o Espírito de Deus testemunhou com o seu que você era filho dele. Que mudança! E que bênção! O que é, então, essa santificação completa? É a purificação do sangue que ainda não foi purificado; é lavar a alma de um verdadeiro crente dos restos do pecado; é tornar mais santo alguém que já é filho de Deus, para que seja mais feliz, mais útil no mundo e traga mais glória ao seu Pai celestial. Por maior que seja essa obra, como é pequena, humanamente falando, comparada com o que Deus já fez por você! Mas, ainda que fosse dez mil vezes maior, há alguma coisa difícil demais para Deus? Não é tudo possível ao que crê? E não purifica o sangue de Cristo de toda injustiça? Levante-se, então, e seja batizado com um derramamento maior do Espírito Santo, e lave o seu pecado, invocando o nome do Senhor (cf. At 22.16).
Você está cansado daquela inclinação da carne que é inimizade contra Deus? Pode ser feliz enquanto é profano? Sabe alguma coisa do amor de Deus por você? Não sabe que ele deu o seu Filho para morrer por você? Você o ama em retribuição ao seu amor? Tem ao menos um pouco de amor por ele? E pode amá-lo um pouco sem desejar amá-lo mais? Não sente que a sua felicidade cresce na proporção do seu amor e da sua sujeição a ele? Não deseja ser feliz? E não sabe que santidade e felicidade são tão inseparáveis quanto pecado e miséria? Pode ter felicidade demais ou santidade demais? Pode ser feito santo e feliz cedo demais? Não está cansado de um coração pecaminoso? As suas más disposições, o orgulho, a ira, a impaciência, a irritação, a cobiça e as várias paixões profanas que tantas vezes agitam a sua alma não são para você uma fonte de miséria e de dor? E pode não querer que sejam destruídos? Levante-se, então, sacuda a poeira (Is 52.2) e clame ao seu Deus! O seu ouvido não está surdo, para não poder ouvir; a sua mão não está encolhida, para que não possa salvar (Is 59.1). Eis agora o tempo oportuno! Eis agora o dia da salvação (2Co 6.2)! Era necessário que Jesus Cristo morresse por você, para que você pudesse ser salvo; mas ele deu a vida por você há mil e oitocentos anos! E ele mesmo o convida a vir, porque tudo já está preparado (Lc 14.17). Tal é a natureza de Deus que ele não pode estar mais disposto a salvar você em algum tempo futuro do que está agora. Ele quer que você o ame agora de todo o coração, mas sabe que você não pode amá-lo assim enquanto não for removida a inimizade da inclinação da carne; e isso ele está disposto a destruir neste momento. O poder do Senhor está, portanto, presente para curar (cf. Lc 5.17). Afaste-se de todo pecado; abandone todo ídolo; corte toda mão direita; arranque todo olho direito (cf. Mt 5.29-30). Esteja disposto a se separar dos seus inimigos para receber o seu principal Amigo. O seu dia já vai avançado, a noite está próxima, as sepulturas estão prontas para você, e aqui você não tem cidade permanente (Hb 13.14). Um mês, uma semana, um dia, uma hora, sim, até um momento pode mandar você para a eternidade. E, se você morrer nos seus pecados, para onde Deus está você jamais irá (cf. Jo 8.21). Não espere a redenção na morte. Ela não pode fazer nada por você, mesmo na melhor das hipóteses: é o seu último inimigo. Lembre-se, então, de que nada senão o sangue de Jesus pode purificar você de toda injustiça. Tome posse, portanto, da esperança que lhe é proposta. A porta pode parecer estreita; mas esforce-se, e você passará! “Venham a mim”, diz Jesus (Mt 11.28). Ouça a sua voz, creia a qualquer risco e lute até chegar a Deus. Amém e amém!
Em parte nenhuma das Escrituras somos orientados a buscar a santidade gradatim, aos poucos. Devemos vir a Deus por uma purificação de todo pecado tão instantânea e completa quanto o perdão instantâneo. Nem o perdão seriatim, um de cada vez, nem a purificação gradatim existem na Bíblia. É quando a alma é purificada de todo pecado que ela pode crescer de modo apropriado na graça e no conhecimento do nosso Senhor Jesus Cristo, assim como se pode esperar que o campo produza boa colheita, e que toda a semente germine, quando os espinhos, os cardos, as sarças e as ervas daninhas de toda espécie forem arrancados dele.
Por todos os ângulos do assunto, fica claro que a bênção de um coração limpo, e a felicidade que dela resulta, pode ser obtida nesta vida, porque é aqui, e não no mundo futuro, que devemos ser salvos. Sempre, portanto, que essas bênçãos são oferecidas, podem ser recebidas. Mas todas as graças e bênçãos do evangelho são oferecidas em todo tempo; e, quando são oferecidas, podem ser recebidas. Todo pecador é exortado a se desviar do mal do seu caminho, a se arrepender do pecado e a suplicar perdão ao trono da graça. No mesmo momento em que recebe a ordem de se converter, nesse momento pode e deve se converter. Ele não recebe hoje a exortação ao arrependimento para se tornar penitente em algum tempo futuro. Todo penitente é exortado a crer no Senhor Jesus para receber a remissão dos pecados. Ele não entende, nem pode entender, que a bênção assim prometida não deve ser recebida hoje, mas em algum tempo futuro. Do mesmo modo, a todo crente o coração novo e o espírito reto são oferecidos no momento presente, para que, nesse momento, sejam recebidos. Pois, como a obra de purificar e renovar o coração é obra de Deus, o seu poder todo-poderoso pode realizá-la num momento, num abrir e fechar de olhos. E, como é nosso dever, neste momento, amar a Deus de todo o coração, e não podemos fazer isso enquanto ele não purificar o nosso coração, por consequência ele está pronto a fazê-lo neste momento, porque quer que, neste momento, o amemos. Por isso podemos dizer com justiça: “Eis agora o tempo oportuno! Eis agora o dia da salvação!”. Aquele que no princípio fez num momento a luz resplandecer das trevas pode num momento resplandecer em nosso coração e nos dar a ver a luz da sua glória na face de Jesus Cristo (2Co 4.6). Neste momento, portanto, podemos ser esvaziados do pecado, cheios de santidade e tornar-nos verdadeiramente felizes.
As pessoas purificadas desse modo nunca esquecem o poço de perdição e o atoleiro de lama (Sl 40.2) de onde foram tiradas. E podem então ser orgulhosas? Não! Abominam a si mesmas aos próprios olhos. Nunca se perdoam por ter pecado contra um Deus tão bom e um Salvador tão amoroso. E podem desvalorizar aquele por cujo sangue foram compradas e por cujo sangue foram purificadas? Não! Isso é impossível. Agora veem Jesus como devem vê-lo; veem-no no seu esplendor, porque o sentem na sua vitória e no seu triunfo sobre o pecado. Para os que creem assim, ele é precioso (1Pe 2.7), e nunca foi tão precioso quanto agora. Quanto a não precisarem dele depois de salvas dos seus pecados, seria o mesmo que dizer que a criação não precisa da mão sustentadora de Deus porque as obras estão acabadas! Aprenda isto: assim como é preciso o mesmo poder para sustentar a criação e para produzi-la, assim é preciso o mesmo Jesus que purificou para manter limpo. Elas sentem que é só pela sua habitação contínua que são mantidas santas, felizes e úteis. Se ele as deixasse, as trevas originais e o reino da morte logo seriam restaurados.