A própria vida é uma maravilha, e nos seus princípios é inexplicável. A sua preservação não o é menos. Aparentemente, ela depende da circulação do sangue pelo coração, pelos pulmões e por todo o organismo, por meio das artérias e das veias; e isso parece depender da inspiração e da expiração do ar por meio dos pulmões. Enquanto continuam as pulsações do coração, o sangue circula e a vida se preserva. Mas isso parece depender da respiração, ou seja, da livre inalação do ar atmosférico e da sua expiração. Enquanto, portanto, respiramos livremente, enquanto os pulmões recebem e expelem o ar pela respiração, e o coração continua a bater, fazendo assim o sangue circular por todo o organismo, a vida se preserva. Mas quem pode explicar os fenômenos da respiração? E por que poder os pulmões separam o oxigênio do ar para a nutrição, o aperfeiçoamento e a circulação do sangue? E por que poder o coração continua a se dilatar para receber o sangue e a se contrair para expulsá-lo, de modo que continue a circulação que tem de continuar para que a vida se preserve? Por que o coração não se cansa e não descansa? Por que, com trabalho incessante durante até setenta anos (cf. Sl 90.10), ele não se esgota da sua força física e não para? São perguntas a que só Deus pode responder satisfatoriamente, porque a vida depende dele, sejam quais forem os meios que ele escolha empregar para a sua continuação e preservação.
Desde a queda, todo ser humano não só está sujeito à morte, mas a mereceu, já que todos perderam o direito à vida por causa do pecado. A morte não poderia ter entrado no mundo se o pecado não tivesse entrado primeiro (cf. Rm 5.12). Foi o pecado que não só introduziu a morte, mas a armou com toda a sua força destruidora. O aguilhão, ou punhal, da morte é o pecado (cf. 1Co 15.56); com ele são mortos tanto o corpo quanto a alma.
As pessoas que não conhecem a Deus vivem em tormento contínuo pelo medo da morte (cf. Hb 2.15), porque temem alguma coisa além da morte. Têm consciência de que são perversas; têm medo de Deus e se aterrorizam com o pensamento da eternidade. Por esses temores, milhares de criaturas pecadoras e miseráveis são impedidas de se lançar elas mesmas no mundo desconhecido.
Leitor, você é um inquilino sem prazo, que o Deus Todo-Poderoso pode despedir quando quiser. Quando, em que lugar ou em que circunstâncias ele pode chamá-lo a marchar para o mundo eterno, você não sabe. Mas essa incerteza não pode deixá-lo perplexo se você estiver devidamente sujeito à vontade de Deus, sempre disposto a perder nela a sua própria. Mas você não pode estar assim sujeito a não ser que tenha o testemunho da presença e da aprovação de Deus. Que terrível ser obrigado a entrar no vale da sombra da morte (cf. Sl 23.4) sem isso! Leitor, prepare-se para se encontrar com o seu Deus (cf. Am 4.12).
A morte não está muito longe; você tem pouco tempo para fazer o bem. Adquira uma disposição celestial enquanto está aqui, porque não haverá mudança depois desta vida. Se você morrer no amor de Deus e no amor ao próximo, nesse estado será encontrado no dia do juízo. Se uma árvore prestes a cair se inclinar para o norte, para o norte cairá; se para o sul, para esse lado cairá (cf. Ec 11.3). Em qualquer disposição ou estado de alma em que você morrer, nele será encontrado no mundo eterno. A morte não refina nada, não purifica nada, não mata pecado nenhum, não conduz a glória nenhuma. Que a sua inclinação e tendência contínua seja para Deus, para a santidade, para a caridade, para a misericórdia e para o céu: então, caia quando cair, você cairá bem.
Nunca briguei com a vida. Suportei muitas das suas rajadas rudes e fui acalentado por muitas das suas brisas mais suaves; e, se eu me queixasse do tempo e das disposições da Providência, a vergonha seria minha. De fato, se Deus achar certo, não tenho objeção a viver aqui até o dia do juízo; porque, enquanto a terra durar, haverá alguma coisa a fazer para um coração, uma cabeça e uma mão como os meus, enquanto houver alguma coisa a aprender, alguma coisa a sentir com compaixão e alguma coisa a fazer. Não vivi para mim mesmo nem por mim mesmo. Não tenho consciência de ter passado um só dia assim.
É um bom antídoto contra o medo da morte descobrir que, à medida que o corpo envelhece e decai, a alma rejuvenesce e se fortalece. Pelo “ser exterior” e pelo “ser interior” (2Co 4.16), São Paulo mostra que não era materialista. Ele cria que temos corpo e alma; e estava tão longe de supor que, quando o corpo morre, o ser humano inteiro se decompõe e continua assim até a ressurreição, que afirma que o declínio de um leva ao fortalecimento do outro, e que a própria decomposição do corpo deixa a alma num estado de juventude renovada. A vil doutrina do materialismo não é apostólica.
Quanto mais uma alma fiel se aproxima da beira da eternidade, mais a luz e a influência do céu se derramam sobre ela. O tempo e a vida estão se afundando depressa nas sombras da morte e das trevas; e o resplendor da glória que desponta do mundo eterno começa a iluminar o estado bendito do cristão genuíno e a tornar claros e inteligíveis aqueles conselhos de Deus, em parte manifestados em várias providências intrincadas, e em parte revelados e vistos como num espelho, de forma obscura (cf. 1Co 13.12), na sua própria Palavra Sagrada. Glórias indizíveis começam agora a irromper; as dores, as aflições, as perseguições, as necessidades, as angústias, a doença e a morte, em qualquer das suas formas ou em todas elas, aparecem como o caminho para o Reino e como tendo, na ordem de Deus, uma glória inefável como resultado. Aqui estão a sabedoria, o poder e a misericórdia de Deus. Aqui, a paciência, a perseverança e a glória dos santos! Leitor, a terra e as suas preocupações não se perdem no resplendor dessa glória? Levante-se e vá embora, porque este não é o seu lugar de descanso (cf. Mq 2.10).
O que sabemos do estado dos espíritos separados? O que sabemos do mundo espiritual? Como as almas existem separadas dos seus respectivos corpos? De que são capazes, e qual é a sua ocupação? Quem pode responder a essas perguntas? Talvez não se possa dizer desse estado nada muito melhor do que o que se diz em Jó 10.21 (cf. Jó 10.22): “Uma terra de obscuridade semelhante às trevas, e da sombra da morte”; um lugar onde a morte domina e sobre o qual projeta a sua sombra, interceptando toda luz de toda espécie de vida: “sem ordem alguma”, sem arranjos, sem distinções entre os habitantes; ali estão o pobre e o rico, o senhor e o seu escravo, o rei e o mendigo, os seus corpos em igual corrupção e desonra, as suas almas distinguidas apenas pelo seu caráter moral. [N. do T.: Clarke indica o v. 21, mas as palavras citadas são do v. 22, numa forma própria, próxima da King James, without any order. A NAA traz “terra das trevas e da sombra da morte, terra de escuridão, de trevas profundas, terra da sombra da morte e do caos, onde a própria luz é como a escuridão”.]
Despojados da sua carne, eles estão na sua nua simplicidade diante de Deus, naquele lugar “onde a própria luz é como a escuridão” (Jó 10.22): uma obscuridade palpável. É espaço e lugar, e só tem a luz ou a capacidade de distinguir que torna as trevas visíveis! É uma terra sombria, coberta das densas trevas da morte; uma terra de miséria e de obscuridades, onde está a sombra da morte, e nenhuma ordem, mas um horror sempiterno habita em toda parte; uma duração que não se caracteriza nem se mede por nenhum dos atributos do tempo; onde não há ordem de trevas e luz, noite e dia, calor e frio, verão e inverno. É o estado dos mortos! O lugar dos espíritos separados! Está fora do tempo, fora da prova, além da mudança ou da mutabilidade! Está nos confins da eternidade! Mas o que é ISTO? E onde? Eternidade! Como posso formar alguma ideia de ti? Em ti não há ordem, nem limites, nem substância, nem progressão, nem mudança, nem passado, nem presente, nem futuro. É um algo indescritível, para o qual não há analogia em todo o âmbito da criação. É infinidade e incompreensibilidade para todos os seres finitos. É o que, vivendo, não conheço, e o que tenho de morrer para conhecer; e, mesmo então, não apreenderei dela mais do que saber simplesmente que é a ETERNIDADE.