Capítulo XXXIII

O inferno

Páginas 416 a 420 da edição de 1835

O inferno foi feito só para o diabo e os seus anjos (cf. Mt 25.41), não para o ser humano. O ser humano é um intruso ali; nenhum espírito humano jamais será encontrado ali senão por culpa própria. Quem recusa o único meio de salvação está perdido. Deus não quis a sua morte.

Todo pecador ganha a perdição eterna por um serviço longo, duro e penoso. Ó, quanto trabalho as pessoas têm para chegar ao inferno! De manhã cedo e até tarde labutam no pecado; e não ficaria a justiça divina em dívida com elas se não lhes pagasse o salário devido?

As pessoas podem fazer chicanas e brincar com isso aqui, mas as suas críticas desesperadas não serão alegadas lá. Não há injustiça no inferno, assim como não há no céu. Quem não o merece nunca cairá nas dores amargas da morte eterna.

O máximo poder da natureza humana não poderia suportar, nem por um momento, a ira de Deus, o verme que não morre e o fogo que não se apaga (cf. Mc 9.48). O corpo tem de morrer, ser decomposto e ser reconstruído sobre princípios indestrutíveis antes que esse castigo possa ser suportado.

Ainda que se pudesse supor que a purificação moral pudesse ser realizada por sofrimentos penais, o que já se provou ser absurdo, não temos prova nenhuma da existência de um lugar como o purgatório, no qual essa purificação possa ser realizada. É pura fábula, ou colhida de escritos espúrios e apócrifos, canonizados pela superstição e pela ignorância, ou fruto dos delírios de visionários piedosos, convertidos do paganismo nos primeiros tempos, de onde importaram essa parte do seu credo. Não há um só texto das Escrituras, legitimamente interpretado, que dê o menor apoio a uma doutrina tão perigosa para a alma das pessoas quanto tem sido lucrativa para os seus inventores. De modo que, ainda que tal purificação fosse possível, não se pode provar que exista o lugar onde ela deve ser realizada. Portanto, antes que se possa confiar nas doutrinas levantadas sobre essa suposição, é preciso provar a existência do lugar e demonstrar a possibilidade da purificação nesse lugar.

Os papistas inventaram um purgatório para o refinamento e a purificação das ofensas que não tinham sido devidamente satisfeitas em vida. E, mesmo nesse lugar, as orações da igreja, compradas com o dinheiro dos parentes e amigos sobreviventes, tinham virtude soberana para aliviar e abreviar os sofrimentos dos culpados falecidos e conseguir-lhes um salvo-conduto mais rápido do fogo penal para o paraíso, no qual todos os que a igreja mandava para lá tinham o direito inalienável de entrar.

Podemos concluir com segurança que a visão que as almas condenadas têm, no abismo da perdição, da felicidade dos bem-aventurados, e a convicção de que elas mesmas poderiam ter desfrutado eternamente essa felicidade, da qual estão eternamente excluídas por culpa própria, formarão uma parte nada pequena do castigo dos perdidos.

Até no inferno um espírito condenado tem de abominar o mal que o atormenta e desejar o bem que o livraria do tormento. Se uma alma perdida pudesse se reconciliar com o seu tormento e com a sua situação, então, naturalmente, o seu castigo deixaria de ser castigo. Um desejo eterno de escapar do mal e um desejo eterno de se unir ao sumo bem, cuja satisfação é para sempre impossível, devem constituir uma segunda circunstância da miséria dos perdidos.

A lembrança dos bens possuídos em vida, e que agora não se desfrutarão nunca mais, juntamente com a graça oferecida ou abusada, formará uma terceira circunstância da perdição dos ímpios.

Os tormentos que uma alma sofre no inferno de fogo formarão, por toda a eternidade, uma fonte contínua e presente de desgraça indescritível.

A impossibilidade conhecida de jamais escapar desse lugar de tormento, ou de ter algum alívio da sua miséria ali, forma uma quinta circunstância do castigo dos ímpios.

A conduta iníqua de parentes e amigos que foram pervertidos pelo mau exemplo dos que estão perdidos é para estes uma fonte de castigo presente.

A reflexão amarga, “Eu poderia ter evitado o pecado, mas não evitei; poderia ter sido salvo, mas não quis”, deve equivaler a dez mil carrascos. Que angústia intolerável isso deve produzir numa alma condenada!

Há vários graus de castigo no inferno, correspondentes a vários graus de culpa; e o desprezo demonstrado para com a pregação do evangelho, e o abuso feito dela, colocarão os cristãos meio incrédulos na lista mais alta dos transgressores e lhes comprarão o inferno mais quente! Será mais tolerável para certos pecadores, que já estão condenados há quase quatro mil anos (cf. Mt 11.24), do que para os que vivem e morrem incrédulos debaixo do evangelho! Uma eternidade de trevas, de medos e de dores por um momento, comparativamente, de satisfação sensual: que pensamento terrível!

Supor que os pecadores serão aniquilados é heresia tão grande, embora dificilmente tão absurda, quanto crer que as penas da condenação são corretivas e que o fogo do inferno se apagará. Há prova presuntiva nas Escrituras que nos leva à conclusão de que, se não houver castigo eterno, a glória não será eterna, já que se usam os mesmos termos para expressar a duração de ambos. Nenhum espírito humano que não esteja unido a Deus pode ser salvo. “Os que se afastam de ti certamente perecerão” (Sl 73.27); estarão perdidos, desfeitos, arruinados, e isso sem remédio. Separados de Deus pelo pecado, nunca serão reunidos a ele; o grande abismo tem de estar eternamente entre eles e o seu Criador (cf. Lc 16.26). Como a natureza pecaminosa continua a agir até no lugar de tormento, há razões contínuas para que esse castigo continue. Quando pudermos provar que o evangelho será pregado no inferno, e que se farão aos condenados ofertas de salvação livres, plenas e presentes, então poderemos esperar que o verme que não morre morra e que o fogo que não se apaga se extinga!

Não temos prova, nem das Escrituras nem da razão, de que haja castigos corretivos no mundo eterno. O estado de prova certamente se estende só até o último termo da vida humana. Não temos prova, nem das Escrituras nem da razão, de que ele se estenda a outro estado. Não só há um profundo silêncio sobre isso nos Registros Divinos, como há as declarações mais positivas contra isso. No tempo e na vida é que se deve tratar do grande negócio relativo à eternidade. Ao passar os limites do tempo, entramos na eternidade: esse é o estado imutável. Nessa infinitude terrível e indescritível de duração incompreensível, lemos apenas de dois lugares ou estados: céu e inferno; glória e miséria; sofrimento sem fim e gozo sem fim. Nesses dois lugares, ou estados, lemos apenas de duas classes de seres humanos: os salvos e os perdidos, entre os quais há aquele abismo imensurável que ninguém pode atravessar. Num estado, não lemos de pecado, de imperfeição, de maldição: ali todas as lágrimas são enxugadas para sempre de todos os rostos (cf. Ap 21.4), e os justos resplandecem como o sol no Reino de seu Pai (cf. Mt 13.43). No outro, não lemos senão de “choro, lamento e ranger de dentes” (cf. Mt 13.42), do verme que não morre e do “fogo que não se apaga” (cf. Mc 9.48). Ali, os efeitos e as consequências do pecado aparecem em todas as suas cores e em todas as suas consequências. Ali não se publica nenhuma dispensação da graça, não se fazem ofertas de misericórdia: os ímpios continuam ímpios (cf. Ap 22.11), e as circunstâncias do seu caso não podem oferecer nenhum meio pelo qual o seu estado possa ser melhorado; e é impossível que os sofrimentos, sejam penais ou acidentais, destruam aquela causa (o pecado) pela qual foram produzidos.

Não se pode dizer que seres em estado de sofrimento penal, debaixo da ira e do desagrado de Deus (porque, se sofrem penalmente, têm de estar debaixo desse desagrado), possam amá-lo ou servi-lo. Os seus sofrimentos são consequência dos seus crimes e não podem fazer parte da sua obediência. Portanto, todas as eras em que sofrem são eras gastas em pecar contra a primeira e essencial lei da sua criação; e necessariamente aumentam a soma do seu demérito e estabelecem a necessidade eternamente sucessiva de permanecer naquele lugar e estado de tormento. Assim é evidente que essa doutrina, tão especiosa e promissora à primeira vista, é essencialmente defeituosa e contém em si mesma as sementes da sua própria destruição. Além disso, se o fogo do inferno pudesse purificar do pecado, todas as dispensações da graça e da justiça de Deus entre os homens teriam sido inúteis, e a missão de Jesus Cristo, palpavelmente desnecessária, já que tudo o que se propõe realizar pela sua graça e pelo seu Espírito poderia, segundo essa doutrina, ser realizado por uma permanência proporcional no fogo do inferno. E ali eras inumeráveis são apenas um ponto em relação à eternidade; e qualquer duração concebível ou inconcebível desses tormentos não tem importância para este argumento, enquanto, ao terminarem, ainda resta uma eternidade.

Em que consiste essa destruição eterna (cf. 2Ts 1.9), não sabemos dizer. Não é aniquilação, porque o seu ser continua; e, como a destruição é eterna, é uma permanência e uma presença eternas do mal substancial e uma ausência de todo bem; porque parte desse castigo consiste em ser banido da face do Senhor, excluído para sempre da sua aprovação, de modo que não se poderá mais desfrutar a luz do seu rosto, já que haverá uma impossibilidade eterna de jamais se reconciliar com ele. Nunca ver a face de Deus por toda a eternidade é um pensamento que dilacera o coração e aterra a alma; e ser banido da glória do seu poder, daquele poder cuja glória se manifesta particularmente em salvar os perdidos e glorificar os fiéis, é algo em que não se pode pensar sem confusão e consternação.

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Adam Clarke, Christian Theology, selecionada e organizada por Samuel Dunn (Londres, Thomas Tegg and Son, 1835), exemplar digitalizado pelo Google (Universidade de Illinois). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).