W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume I · A regra divina da fé
O cânon como regra de fé. Tendo considerado a Fé como a revelação de Deus em Cristo aceita pelo homem, e a divindade dos seus registros como garantida pela inspiração deles, resta-nos completar a discussão do assunto pondo em relevo o caráter específico da Bíblia como o cânon, ou regra dotada de autoridade, da doutrina e da prática cristãs. Dois usos diferentes do termo sugerirão uma divisão. Objetivamente, o corpo dos escritos sagrados foi determinado, sob a direção do Espírito divino, pela aplicação de um cânon, ou regra, ao qual se verificou que eles eram conformes: aqui teremos as Escrituras canônicas. Subjetivamente, sob a iluminação do mesmo Espírito, essas Escrituras assim provadas tornaram-se o padrão absoluto e final dentro da Igreja cristã: aqui teremos de considerar a regra de fé e a sua interpretação como texto sagrado.
A palavra Κανών significa literalmente uma vara reta e, metaforicamente, uma regra de aferição, ou o instrumento da faculdade crítica na ética, na arte ou na linguagem. Também é usada, em sentido passivo, para designar aquilo que foi medido e determinado (Gl 6.16). São Paulo aplica o termo tanto no sentido ativo como no passivo, nas únicas passagens em que ele ocorre no Novo Testamento (2Co 10.13-16). [N. do T.: nessas passagens a NAA traduz κανών por “regra” (Gl 6.16) e por “esfera de ação” (2Co 10.13-16).] Nos escritos patrísticos, é empregado com referência à regra da Igreja, à regra de fé e à regra da verdade; e as decisões dos sínodos eram chamadas cânones. Os derivados de “cânon” foram aplicados às Escrituras antes do próprio termo: eram livros canonizados, Libri Canonizati. Anfilóquio, num catálogo das Escrituras (c. 380), foi o primeiro a adotar a palavra para designar a regra, ou critério, ou padrão, pelo qual se deve fixar o conteúdo da Bíblia. Desde o tempo de Jerônimo, ela está em uso corrente e consagrado nos dois sentidos, um dependente do outro.
O cânon objetivo. O cânon objetivo é a coleção de todos os escritos sagrados das duas dispensações. A Igreja cristã recebeu da judaica o cânon do Antigo Testamento na sua integridade, e dos apóstolos o do Novo, sendo a autoridade do Salvador a garantia de ambos. Será necessário, primeiro, estabelecer esses pontos pela própria Escritura e, depois, rever a história da formação do cânon inteiro, examinando brevemente as variações de opinião posteriores quanto aos seus limites exatos: uma coisa e outra, porém, só na medida em que afetam a regra de fé cristã.
O testemunho da Escritura. O cânon do Antigo Testamento é ratificado no Novo como contendo os oráculos de Deus infalíveis e suficientes para a dispensação mais antiga: assim as Escrituras hebraicas, exatamente como hoje as recebemos e mantemos, são autenticadas, e os chamados livros apócrifos são excluídos. A coleção de escritos hoje chamada Novo Testamento também dá indícios daquilo que naturalmente se poderia esperar: que esses escritos, no devido tempo, constituiriam um cânon novo e suplementar, que consumaria o anterior.
O cânon do Antigo Testamento. Temos a mais plena certeza de que o Antigo Testamento, tal como o temos, foi aceito por nosso Senhor. Ele se refere à antiga distinção entre a Lei, תּוֹרָה, que contém o Pentateuco; os Profetas, נְבִיאִים; e os Escritos, ou os Salmos, כְתוּבִים, os Hagiógrafos. As demarcações dessas três seções não eram definidas com precisão, mas o eram o bastante para identificar o nosso atual volume hebraico como o mesmo que Jesus tinha nas mãos e mandou os seus discípulos estudarem. A importância de um testemunho tão supremo não pode ser exagerada: ele pode ser colocado, e às vezes temos de colocá-lo, no lugar de muitos outros argumentos.
I, 195Os apócrifos. 1. Esse testemunho exclui os livros apócrifos: de fato, a divisão tríplice é reconhecida e admitida por alguns desses próprios escritos, o que mostra que eles eram declaradamente excluídos do cânon. O termo APÓCRIFOS entrou em uso no segundo século cristão para designar livros de origem oculta (occulta origo), ou talvez de autoridade secreta (secreta auctoritas); e certamente também com o sentido adicional de espúrios e heréticos, em oposição aos escritos aceitos pela Igreja. Qualquer que fosse a aplicação precisa dessa palavra grega comum, ela implicava uma autoridade absoluta na coleção da qual eles eram excluídos, e também a razão da sua exclusão. O Novo Testamento nunca cita esses livros nem alude a eles. Pode-se dizer que esse não é um argumento decisivo, visto que vários livros do Antigo Testamento também não são mencionados; mas é preciso lembrar que, quando se cita a Lei, ou os Profetas, ou os Salmos, fica autenticado tudo o que se sabia estar incluído nessas divisões convencionais. Pode-se alegar também que o Senhor, assim como os seus apóstolos, não especifica o número exato de livros contidos nessas divisões, especialmente na última, que era a mais indeterminada. Mas temos o testemunho suficiente de hebreus contemporâneos para suprir essa lacuna. Josefo diz: “Temos apenas vinte e dois livros dignos de crédito como possuidores de autoridade divina, dos quais cinco são os livros de Moisés. Desde a morte dele até o reinado de Artaxerxes, rei da Pérsia, os profetas, que foram os sucessores de Moisés, escreveram em treze livros. Os quatro restantes contêm hinos a Deus e ensinamentos de vida para a edificação humana” (Josefo, Contra Apião I). Mas isso nos leva ao ponto seguinte.
Nosso Senhor confirma o antigo cânon. 2. Essa divisão parece pôr o seu selo sobre os meios pelos quais o cânon do Antigo Testamento havia sido organizado e ratificado. Nosso Senhor pressupôs o que são Paulo expressou: que aos judeus, como povo, foram confiados os oráculos de Deus (Rm 3.2). Ao aceitar essas Escrituras com as divisões então existentes, ele confirmou silenciosamente uma longa história, da qual se perdeu a maior parte dos pormenores. Fica evidente, no curso da história bíblica, que houve uma coleção gradual desde o princípio. O Livro da Lei foi depositado ao lado da arca da aliança do Senhor (Dt 31.26). Esse original devia ser copiado por todo rei futuro: terá esse livro consigo e nele lerá todos os dias da sua vida (Dt 17.19). Apesar disso, Josias não o tinha visto quando o sumo sacerdote Hilquias disse ao escrivão Safã: Achei o Livro da Lei na Casa do Senhor (2Rs 22.8); embora não saibamos em quantas mãos se poderiam ter encontrado cópias. Pois o livro fora ampliado por outros escritos, e é possível que autógrafos tenham sido postos em circulação por Josué, de quem se diz que escreveu estas palavras no Livro da Lei de Deus (Js 24.26), e por Samuel, que explicou ao povo o direito do reino, escreveu-o num livro e o pôs diante do Senhor (1Sm 10.25). Por isso Josafá enviou os seus levitas, que ensinaram em Judá, tendo consigo o Livro da Lei do Senhor; percorriam todas as cidades de Judá e ensinavam o povo (2Cr 17.9). Também se colecionaram provérbios, pois lemos dos provérbios de Salomão, que foram transcritos pelos homens a serviço de Ezequias, rei de Judá (Pv 25.1). Um único Livro geral parece ter tido autoridade, aquele de que o profeta falou: Procurem no livro do Senhor e leiam (Is 34.16). Mas, até o cativeiro, não havia distinção entre as classes de escritos. Foi um só volume que Daniel citou, e que Esdras e Neemias leram diante do povo desde o amanhecer até o meio-dia (Ne 8.3). Quando a nação judaica se reorganizou politicamente, houve uma revisão final. A tradição universal da Igreja antiga atribuiu a Esdras e à Grande Sinagoga a função de dispor as suas Escrituras na forma atual, tendo a perseguição de Antíoco (168 a.C.) e a proscrição dos livros sagrados dado ocasião à fixação do cânon. Essa questão, porém, deve ser estudada na literatura que lhe é própria. Pode-se admitir que a suposta Sinagoga da tradição judaica representa uma sucessão de homens piedosos, desde Esdras até Simão, o Justo, que foi sumo sacerdote depois da morte de Alexandre, o Grande. Nessa hipótese, a revisão e a coleção finais não se concluíram no tempo de Esdras. Mas a autoridade do Salvador dá uma sanção retrospectiva à autenticação final, qualquer que tenha sido o modo como foi realizada.
O cânon do Novo Testamento. Não há no Novo Testamento nenhuma declaração clara de que o cânon antigo seria complementado por outra coleção de O cânon do Novo Testamento. livros: não só não há declaração clara, como há um silêncio quase total sobre o assunto. Quando lembramos quantas vezes o Antigo Testamento se refere ao Volume que, de geração em geração, ia sendo ampliado, parece uma anomalia que não haja referência semelhante no Novo. Lemos da palavra da verdade (Ef 1.13); da verdade, segundo é a verdade em Jesus (Ef 4.21); da nova ou superior aliança (Hb 8.8); nunca de novas Escrituras, e certamente nunca de um novo volume ou coleção de documentos inspirados. Mas não faltam indícios, aos quais já se fez referência ao tratarmos da doutrina da inspiração, de que o desígnio do Espírito Santo incluía a formação de um novo cânon.
I, 197Testemunho. 1. Embora os vários termos com que os escritores do Novo Testamento costumavam descrever a sua mensagem ampliada não se refiram expressamente a uma nova Bíblia, são de tal natureza que lançam o fundamento para ela no devido tempo. E é certo que os escritos individuais dos apóstolos eram tidos, nas congregações que os recebiam, como dotados de autoridade igual à dos antigos e aceitos oráculos de Deus, e que a Igreja católica [universal] a que são Pedro se dirigiu contava os escritos de são Paulo como coordenados com as demais Escrituras (2Pe 3.16). É notável, além disso, que quase todos os escritores deem, num ponto ou noutro, uma insinuação distante, e até mais que isso, da autoridade permanente da sua própria contribuição. Isso não precisa de mais ilustração do que a que já recebeu. Olhando agora para trás, depois que o cânon foi ratificado, somos obrigados a admitir que essas expressões são exatamente as que se esperaria que eles usassem, supondo-se que contassem com a consolidação dos seus escritos na unidade da Escritura.
Analogia. 2. Nenhum argumento, porém, é necessário além do da analogia. Uma nova aliança exigiria novos oráculos; toda a economia do Novo Testamento não passava de uma retomada e continuação do plano antigo. Cristo veio cumprir a Lei e os Profetas, e cumpri-los complementando tanto as suas palavras como os seus escritos. Ele mesmo era, na nova economia, o que tinha sido na antiga: o Revelador universal e onipresente, pelo seu Espírito nos seus servos, o Espírito de Cristo, que neles estava (1Pe 1.11). Mas ele suscitou uma série de agentes e escritores que eram os representantes e as reproduções daqueles que formaram o Antigo Testamento, embora com outros nomes. Eram cronistas, profetas e legisladores, exatamente como nos tempos antigos. Há uma continuidade perfeita na história da verdade revelada; se o seu método tivesse mudado no fim dos tempos, o Salvador nos teria falado da mudança. O silêncio do Novo Testamento, ou o seu silêncio parcial, quanto a qualquer mudança no plano do Espírito Santo tem a força de uma confirmação do método estabelecido. Assim como, nos tempos antigos, o volume do livro foi sendo ampliado gradualmente e só foi ratificado de modo definitivo depois que a inspiração cessou, assim também poderíamos esperar que fosse com a nova economia. As Escrituras do Novo Testamento circularam entre as igrejas como o padrão da sua fé muito antes que o Espírito levasse a Igreja a pôr sobre elas o selo daquilo que chamamos canonização: a elas, como ao Antigo Testamento, todas as partes, ortodoxas e heréticas, recorriam.
História. A história do cânon completo abrange a sua fixação gradual durante os primeiros séculos e as flutuações de opinião em épocas posteriores. Um exame imparcial desses dois assuntos levará à conclusão de que o mesmo Espírito que deu as Escrituras velou por elas e assegurou a sua integridade.
Período antigo. A formação do cânon atravessa toda a época pré-nicena. O quarto século terminou antes que a fé e a faculdade crítica das comunidades cristãs acrescentassem ao Antigo, na sua integridade, o nosso atual Novo Testamento, desaparecendo enfim a última dúvida que ainda persistia acerca de qualquer dos livros.
A Igreja. 1. A primeira coisa a notar é a prerrogativa da Igreja nesse ponto. O apóstolo nos diz que ao povo antigo, como tal, foram confiados os oráculos de Deus (Rm 3.2): um testemunho explícito e de grande importância, se notarmos a força do termo ἐπιστεύθησαν e o πρῶτον [primeiramente] que introduz a frase. Havia uma estreita analogia entre a aceitação gradual do novo corpo de Escritura e a do antigo. O cânon antigo só foi fixado depois que o Espírito de inspiração se retirou; era ofício dos Pais judeus distinguir entre os livros dotados de autoridade e todos os outros; os critérios com que determinavam a diferença eram, tanto quanto os conhecemos, os nomes e a inspiração reconhecida dos escritores e o consenso tradicional das épocas passadas. A ratificação final foi provocada pela pressão da perseguição dirigida contra os escritos sagrados; mas não deve haver dúvida de que isso se deu sob a supervisão especial do Espírito Santo. Até aqui o paralelo é completo. Mas havia algumas peculiaridades no caso da nova coleção. O evangelho se difundiu pelo mundo, e cada igreja era a guardiã dos seus próprios livros santos, ao passo que cada província da cristandade primitiva tinha a sua própria seleção de Escrituras; havia também inúmeras heresias, que multiplicavam as suas produções espúrias. Essas duas circunstâncias contribuíram para fazer da concordância da Igreja cristã na aceitação final dos escritos do Novo Testamento um fato mais notável do que a unanimidade da Igreja judaica a respeito do Antigo Testamento. Quando chegou plenamente o tempo determinado, o mesmo Espírito que fechou o volume do Antigo Testamento fechou também o do Novo.
I, 199Os critérios aplicados. 2. Os critérios aplicados aos livros que circulavam entre as congregações cristãs eram muito simples. O critério principal era a sua origem ou autorização apostólica, que era a garantia do seu caráter inspirado. Em caso de dúvida remanescente, recorria-se à Regula Fidei comum, ou regra de fé, bem como ao testemunho das igrejas que possuíam os documentos em questão. Era firme convicção dos cristãos primitivos que o Senhor dera somente aos apóstolos autoridade para dirigir a fé da sua Igreja, tanto por suas palavras como por suas comunicações escritas. Autoria apostólica ou autorização apostólica era tudo o que exigiam dos escritos sagrados: buscavam simplesmente as credenciais de apóstolo, τὰ σημεῖα τοῦ ἀποστόλου [os sinais do apóstolo] (2Co 12.12). Por isso os escritos de são Marcos e de são Lucas nunca chegaram sequer a ser classificados entre os livros duvidosos: entendia-se que tinham sido escritos com a sanção de são Pedro e de são Paulo. Quanto à autenticidade dos que se apresentavam como diretamente apostólicos, e à validade dos que alegavam uma sanção indireta, a sua harmonia com a regra de fé comum e o testemunho das igrejas individuais eram critérios subordinados e suficientes.
Divisão primitiva. 3. O resultado foi a divisão primitiva dos livros sagrados em duas classes: os que eram universalmente reconhecidos como divinamente inspirados e os que, a princípio, não eram geralmente recebidos. Os primeiros, os HOMOLOGOUMENA, eram, antes do fim do segundo século, os quatro Evangelhos e Atos, treze epístolas de são Paulo, a primeira epístola de são Pedro e a primeira epístola de são João. Os ANTILEGOMENA eram sete: não rejeitados, é verdade, mas objeto de dúvida, e não recebidos de imediato. As razões dessa suspensão do juízo são evidentes. Alguns não traziam o nome dos escritores, como a Epístola aos Hebreus. Alguns foram escritos à comunidade cristã em geral e circulavam amplamente, sem a proteção de nenhuma igreja em particular. Outros eram dirigidos a indivíduos e, por isso, despertavam suspeita. Uns poucos se opunham aos pontos de vista de algumas partes da Igreja, como o Apocalipse e a Epístola de são Tiago. É preciso lembrar que eles não eram impugnados, como o termo Antilegomena poderia parecer indicar, mas apenas mantidos em dúvida. Em tempos posteriores foram chamados DEUTEROCANÔNICOS, sendo a sua autoridade considerada menor que a dos outros livros.
I, 200Escritos dos Pais apostólicos. 4. Havia alguns pequenos tratados que, nos primeiros tempos, eram recebidos de modo muito geral com uma veneração peculiar: escritos, segundo se pensava, por homens apostólicos, ou companheiros dos apóstolos, como Clemente Romano, Barnabé e Hermas. Eram lidos publicamente em algumas igrejas e foram copiados nos códices mais antigos, onde ainda se encontram, embora apenas como apêndices no final. As suas pretensões não resistiram por muito tempo ao exame zeloso.
O Novo Testamento apócrifo. 5. Numa classe inteiramente diferente devem ser colocados os muitos escritos que compõem os livros cristãos APÓCRIFOS. Alguns deles foram escritos a serviço de um cristianismo judaizante, outros com uma tendência exatamente oposta, e os restantes para satisfazer uma curiosidade amiga de lendas. Havia evangelhos, atos, epístolas e apocalipses apócrifos; mas nenhum deles jamais foi encontrado em qualquer catálogo, particular ou público, dos escritos sagrados. Pode-se acrescentar que as sombras apócrifas do Novo Testamento são muito inferiores, em caráter ético, às do Antigo, algumas das quais são do mais alto mérito. As do Novo Testamento, de fato, ou não têm valor algum ou são de todo alheias ao cristianismo.
Catálogos antigos. 6. Sucessivas decisões sinodais foram-se aproximando cada vez mais do catálogo de livros santos que mantemos. Elas culminaram no Concílio de Hipona (393 d.C.) e, quatro anos depois, no Terceiro Concílio de Cartago (397 d.C.), então sob a influência de Agostinho, no cânon do atual Novo Testamento. A perseguição de Diocleciano, no começo do quarto século, levou a um exame mais cuidadoso daquilo que, durante todo o século anterior, se chamara “Evangelicum Instrumentum” [instrumento evangélico], termo usado por Tertuliano, que também descreveu a Bíblia inteira como “Totum Instrumentum utriusque Testamenti” [todo o instrumento de ambos os Testamentos]. Só as exigências prementes de outras discussões e decisões doutrinárias impediram o Concílio de Niceia de realizar o que, virtualmente, já estava feito: isto é, a tarefa de definir o cânon autorizado da Sagrada Escritura.
I, 201O cânon do Antigo Testamento. 7. O cânon do Antigo Testamento, tal como hoje o temos, foi aceito e confirmado por muitos catálogos nos séculos quarto e quinto. A Igreja de Alexandria, representada por Atanásio, dá exatamente a nossa lista de livros: fato notável, se lembrarmos que a versão grega feita em Alexandria fora a primeira a dar circulação aos apócrifos. Mas o estudo do hebraico entrara em declínio: a Igreja cristã contentava-se com a Septuaginta, ampliada como estava por acréscimos apócrifos. As Escrituras hebraicas ficaram entregues demais aos massoretas. Por isso o cânon do Novo Testamento foi fixado, na fé e na aceitação cristãs, mais cedo e com mais unanimidade do que o do Antigo: até o Concílio de Cartago admitiu, embora com reservas, os apócrifos do Antigo Testamento.
História moderna. A opinião posterior acerca do cânon pode ser estudada com proveito e como advertência. O seu esboço, que deve ser completado por um estudo cuidadoso da literatura do assunto, é o seguinte:
1. A questão do cânon permaneceu por muito tempo em aberto na Igreja Trento. medieval. O Concílio de Trento, num decreto aprovado por uns poucos teólogos em 1546, seguiu um exemplo dado pelo Concílio de Florença em 1441 e incluiu quase todos os apócrifos entre os livros da Escritura: um decreto contrário aos catálogos anteriores, e que por isso muitos teólogos romanistas posteriores procuraram atenuar, distinguindo, como muitos dos reformadores, entre uma autoridade canônica superior e outra inferior.
I, 202Igreja grega. 2. A Igreja grega posterior sempre oscilou de opinião nessa questão. Depois de muitas tentativas de separar os apócrifos da Escritura propriamente dita, acabou coincidindo com a decisão tridentina num sínodo de Jerusalém realizado sob Dositeu, em 1672.
A Reforma. 3. Os teólogos da Reforma erraram muito para o lado da frouxidão. Lutero excluiu os livros apócrifos do cânon, embora os admitisse para edificação. Separou do restante os Antilegomena, especialmente Hebreus, Judas, Tiago e o Apocalipse, aplicando-lhes um padrão subjetivo, “o modo como tratam de Cristo”, no qual os julgou deficientes; ao passo que o restante continha, a seu juízo, “o cerne do cristianismo”. Os reformadores suíços rejeitaram os apócrifos com mais rigor; e nisso foram seguidos pelos seus formulários e pela Confissão de Westminster. Os arminianos receberam as Escrituras por inteiro, embora livres nos seus juízos quanto à autoria. A Igreja da Inglaterra, nisso como em muitas outras coisas, guiou-se por um espírito de conciliação. O seu Sexto Artigo define a Escritura como “aqueles livros canônicos do Antigo e do Novo Testamento de cuja autoridade nunca houve dúvida alguma na Igreja”; não enumera os livros do Novo Testamento e admite a leitura pública de algumas partes dos apócrifos: “os outros livros (como diz Jerônimo) a Igreja os lê como exemplo de vida e instrução de costumes, mas não os aplica para estabelecer doutrina alguma”. As comunidades metodistas rejeitam por toda parte os apócrifos inteiramente, como os muitos corpos eclesiásticos que aceitam a Confissão de Westminster.
Evidências. Os ataques modernos ao cânon estão, até certo ponto, ligados à oposição à revelação cristã em geral, embora também deem origem a um ramo distinto de investigação crítica. Determinar o que constitui a coleção canônica envolve muitas questões, relativas principalmente à genuinidade, à integridade e à autenticidade de certos livros em particular; e a defesa desses livros é de grande importância, pois a fé da Igreja de Cristo repousa sobre a unidade das Escrituras como um só todo orgânico.
Autenticidade e integridade. 1. A questão mais ampla, a da existência de algum cânon autorizado, não está aqui em jogo. Ela fica resolvida com a aceitação da doutrina da inspiração: somos obrigados a admitir a grande massa das Escrituras de ambos os Testamentos como dada por Deus à sua Igreja. A questão não é a da Bíblia em geral e como um todo; é apenas a dos seus limites. Mas tanto no Novo Testamento como no Antigo há alguns livros que, como vimos, nem sempre tiveram um lugar incontestado. Com referência a estes especialmente, e quanto a um dos pontos em disputa com referência a toda a Escritura, é preciso formular e responder a questão preliminar. Primeiro, é preciso estabelecer que os documentos que temos procedem dos escritores e das épocas a que dizem pertencer. Esta é a questão da Genuinidade. sua GENUINIDADE, e diz respeito apenas aos documentos em si. Ela pergunta, com relação a todos os livros, e especialmente aos contestados, se foram escritos pelos autores cujos nomes trazem. Surge então o ponto importante da sua INTEGRIDADE, feito o devido desconto, isto é, das pequenas alterações e interpolações de texto a que todos os livros estão sujeitos no curso Autenticidade. da transcrição. Por último vem a questão da sua AUTENTICIDADE. Esta diz respeito à origem dos documentos, como procedentes, segundo afirmam, de homens inspirados e como contendo os oráculos de Deus. Ela pergunta se as suas pretensões são sustentadas por aquelas evidências ou credenciais externas e internas, as únicas capazes de sustentar uma pretensão tão elevada. É evidente que essas questões se interpenetram; daí que o termo Autenticidade, e as questões que dele dependem, possam razoavelmente abranger todo o terreno.
Critérios. 2. O estudo deste ramo da teologia envolve a investigação histórica comum pela qual se examinam as pretensões literárias. Mas não se limita a isso: o Espírito Santo aprova os livros que são “geralmente recebidos na Igreja” com a marca do seu selo secreto e, contudo, evidente. Segundo os princípios que consideramos fundamentais, esses dois critérios devem controlar-se mutuamente, mas o testemunho de Cristo e do seu Espírito deve ser supremo.
Crítica histórica. (1.) Seja quanto ao Antigo Testamento, seja quanto ao Novo, todo livro e todo fragmento de todo livro precisa passar pela prova. Isso constitui um ramo distinto de estudo, o da crítica histórica: um ramo de extrema dificuldade, que nenhum estudante deve empreender se não tiver os meios de levá-lo a fundo. Qualquer que seja a confiança que tenhamos na autenticação do Antigo Testamento por nosso Senhor e na fixação do cânon do Novo Testamento pela Igreja, a defesa de cada parte integrante da Bíblia é uma necessidade imposta ao teólogo pelos ataques da incredulidade. Não é exagero dizer que todo homem incumbido da defesa do evangelho deveria ter à mão os argumentos que provam a genuinidade e a autenticidade de cada livro; ou, o que é o mesmo, os argumentos que o defendem contra os ataques. As obras conhecidas como Introduções à Bíblia, Dicionários Bíblicos ou Histórias do Cânon fornecem esses argumentos em abundância, com toda a argumentação pró e contra. Mas é preciso lembrar que, embora todo livro exija a sua defesa, as principais questões em disputa se limitam, na verdade, a uns poucos pontos vitais em cada Testamento.
I, 204Limites. (2.) Nada é mais importante do que conduzir qualquer investigação desse tipo com uma clara consciência dos seus limites. Eles são de dois tipos. Primeiro, a investigação da gênese e da formação gradual das diversas partes da Escritura, especialmente do Antigo Testamento, está cercada das mais formidáveis dificuldades. Grande parte do material para formar juízo perdeu-se irremediavelmente. Daí as contradições e confusões sem saída, o caos impotente de hipóteses sempre cambiantes, que se encontram nos escritos dos modernos desintegradores da Bíblia. O campo é para eles, literalmente, de conjectura ilimitada; e muitas vezes conjectura e evidência são para eles termos intercambiáveis. Daí também se torna evidente que o defensor da Bíblia não deve esperar ser capaz de resolver muitas dessas questões e deve contentar-se em deixá-las em aberto. Em segundo lugar, não se exige de nós, e na verdade nem nos é permitido, empreender essas investigações como se a vida do cristianismo dependesse delas. A autenticidade da Bíblia como um todo (que, afinal, está inextricavelmente ligada à sua genuinidade) envolve o TESTIMONIUM SPIRITUS SANCTI, ou seja, aquele testemunho interior que ela traz e que testifica ao nosso espírito quando lemos qualquer parte dela. Por isso se pode estabelecer como cânon, para regular a nossa confiança no Cânon, que o próprio Espírito da Inspiração é a Testemunha Divina. Assim como nosso Senhor nos ratificou as Escrituras mais antigas, o Espírito Santo nos ratificou, na Igreja e por meio da Igreja, as novas Escrituras e a Bíblia como um todo. A crítica há de trazer a sua evidência humana; mas a evidência suprema é a dele. Quando se diz, porém, que o Espírito Santo dá o seu testemunho à Bíblia COMO UM TODO, isso não deve ser mal compreendido. Ele pôs, de modo notável, o seu selo sobre cada um dos livros, e especialmente sobre os mais contestados. As partes mais vulneráveis parecem ser as mais amplamente defendidas. Por exemplo, a origem mosaica do Pentateuco é atestada de forma muito completa pelo Salvador e pelos apóstolos: se reunirmos as citações e referências do Novo Testamento, veremos que nele se podem traçar as linhas principais da história dos cinco livros. Os acontecimentos anteriores a Moisés são mencionados com base na autoridade dele. E o seu relato da promulgação da lei, do deserto e de todos os seus acontecimentos, da economia ritual do tabernáculo, da entrada em Canaã, e de fato todo o conteúdo do Pentateuco, são aceitos como pertencentes à época mosaica e à de Josué. A autenticidade de Daniel tem sido atacada, a parte final de Isaías tem sido atribuída a um autor anônimo, o próprio coração de Zacarias tem sido arrancado das suas profecias: ora, estas são as três porções do Antigo Testamento que o Salvador, depois do Deuteronômio, protegeu com o máximo cuidado. Entre os livros do Novo Testamento há alguns que a crítica ataca com vigor, negando a sua origem apostólica e o seu caráter inspirado ou autorizado. Não seria verdade dizer que estes oferecem, em todos os casos, evidência interna mais abundante a seu próprio favor; mas certamente o Espírito Santo fala por meio deles a todo coração bem-disposto. Quem pode resistir ao apelo do Evangelho de são João, das Epístolas Pastorais, da Epístola aos Efésios, de são Tiago, da Epístola aos Hebreus e da Segunda Epístola de são Pedro? Este último documento foi talvez o que mais lentamente se admitiu de todos, por razões fáceis de identificar; mas nenhuma mente piedosa pode ler o seu primeiro capítulo sem sentir que o escritor está cheio do Espírito Santo e não é um falsário que usurpa o nome do apóstolo e finge ter estado no monte da transfiguração. É claro que se pode abusar deste argumento. Mas, para nós, ele é supremo quanto à Bíblia inteira que o Espírito deu à Igreja.
Regra de fé. O cânon da Escritura, como a coleção aceita de escritos sagrados, pode ser considerado objetivamente como a regra de fé da Igreja cristã, isto é, a norma final e infalível do que se deve crer como necessário, seja à salvação pessoal, seja à integridade da fé cristã; e subjetivamente, como um corpo de documentos divinos que deve ser estudado com todos os recursos humanos sob o ensino do Espírito Santo.
A Escritura. A inspiração plenária das Escrituras implica a sua autoridade suprema em todo tribunal possível e, ao mesmo tempo, justifica que apelemos para o seu próprio testemunho quanto às implicações e à extensão dessa autoridade. Em toda parte elas falam como o oráculo final da fé, do dever e da esperança, e rejeitam toda espécie de norma coordenada. Essa elevada afirmação das suas pretensões é apresentada de modo a harmonizar-se com as regras de fé subordinadas, ou confissões, adotadas pelos diversos ramos da Igreja que dá testemunho, e com o exercício do juízo particular; e a salvaguarda suprema da doutrina é a presença do Espírito Santo como Guardião eficaz e suficiente da sua Palavra.
Norma da fé. 1. Em termos gerais, o Novo Testamento declara-se, como a consumação da Escritura, a NORMA DA FÉ. Absorvendo o Antigo Testamento, ou melhor, coordenando-se com ele, declara pelo testemunho de um dos seus últimos e maiores escritores: Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ENSINO … a fim de que o servo de Deus seja perfeito (2Tm 3.16-17). O servo de Deus é aqui o mestre cristão, de quem se diz que o seu conhecimento dos antigos oráculos o tornou sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus (2Tm 3.15). Os apóstolos haviam de ser guiados em toda a verdade (Jo 16.13), isto é, em todo o âmbito da verdade, segundo é a verdade em Jesus (Ef 4.21). Por isso, o testemunho final, em são Judas, refere-se à fé que uma vez por todas foi entregue aos santos (Jd 3): entregue de novo pela sua Autoridade Suprema à sua Igreja nova e perfeita. A Moral. doutrina de nosso Senhor é a REGRA E O CRITÉRIO DA MORALIDADE e de todo dever humano. A fé cristã é a lei cristã, e a lei cristã é a fé cristã: o fim da lei é Cristo, para justiça (Rm 10.4); e toda a sua economia tem este propósito: a fim de que a exigência da lei se cumprisse em nós, que não vivemos segundo a carne, mas segundo o Espírito (Rm 8.4). Ele é o caminho, a verdade e a vida (Jo 14.6), e aqui a verdade está no centro. Ele resumiu o ensino futuro dos apóstolos como todas as coisas que tenho ordenado a vocês (Mt 28.20). São Paulo não conhece outra ética senão a que fora recebida e ouvida dele mesmo, e manda os seus convertidos andarem segundo a mesma regra, ou κανών (Fp 3.16; Gl 6.16), como guia infalível e prova de toda obrigação [N. do T.: em Fp 3.16 a NAA traz “andemos de acordo com o que já alcançamos”, sem a palavra “regra” da versão inglesa; em Gl 6.16 traz “esta regra”]. E o livro da verdade e do dever é também a CARTA DOS PRIVILÉGIOS. Foi com o sentido mais amplo possível que Jesus disse: tudo o que ouvi de meu Pai eu lhes dei a conhecer (Jo 15.15); todo o conjunto das bênçãos expostas por extenso em Atos e nas Epístolas não é mais que a expansão de germes dados na sua promessa. O Novo Testamento é o livro das alianças da promessa (Ef 2.12): da nova aliança entre o Deus triúno e o seu povo, ratificada pelo sangue de Cristo, anunciada na sua promessa e conferida pelo seu Espírito.
I, 207Apelo a si mesma. 2. A Escritura apela em toda parte para si mesma para pôr fim a toda controvérsia. À lei e ao testemunho! (Is 8.20) era a antiga palavra em Israel. Como, então, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim deve acontecer? (Mt 26.54). Com essas palavras, nosso Salvador torna absoluta a autoridade das Escrituras que falam a respeito dele. Apolo, como os apóstolos, provava por meio das Escrituras que Jesus é o Cristo (At 18.28). Os bereanos eram, por isso, mais nobres do que os de Tessalônica, porque estavam examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim (At 17.11). O perigo de negligenciar tão grande salvação depende de ela ter sido anunciada inicialmente pelo Senhor e confirmada a nós pelos que a ouviram (Hb 2.3). Há um apelo perpétuo de uma parte da Escritura a outra parte da Escritura: às vezes à razão, às vezes a autores pagãos, às vezes a tradições; mas o César a que ela finalmente apela é sempre ela mesma. O Salvador remete ao Antigo Testamento; os apóstolos, a ele e ao Antigo Testamento; são Paulo, além disso, a si mesmo; e são Pedro, a são Paulo. Isso tem a força de uma lei universal dentro da Bíblia. E não se pode negar que, ao longo da história da Igreja, desde o princípio, todos os partidos fizeram, implícita ou explicitamente, da Palavra de Deus a sua última instância de decisão.
I, 208Outro apelo condenado. 3. Toda outra autoridade final é proibida, de forma absoluta ou implícita. Nada pode ser mais claro do que o fato de nosso Senhor considerar toda a soma da religião viciada pela infidelidade à Escritura. Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos humanos (Mt 15.9): aqui os fariseus são um espelho em que se refletem os tradicionalistas posteriores. E também: Será que o erro de vocês não está no fato de não conhecerem as Escrituras…? (Mc 12.24).
Normas subordinadas. 4. A autoridade suprema, porém, sanciona outras normas inferiores na forma de credos. As regras de fé que foram elaboradas desde o princípio basearam-se nas fórmulas da própria Escritura, expressando em compêndio a crença da Igreja. Mas de todas elas, em todas as suas formas, mais antigas e mais recentes, a Bíblia é a prova: o tribunal ao qual devem ser finalmente levadas. Isso se aplica a credos, catecismos, normas e formulários de todo tipo, dos quais se falará mais adiante.
Juízo particular. 5. A regra também pressupõe e harmoniza consigo, como subordinados a ela, o Ensino Ministerial Público e o Juízo Particular, sob a direção do Espírito Santo. As Escrituras são o livro-texto de um ensino vivo e contínuo, que é uma ordenança de Deus na congregação: esse ensino pode ser pervertido e já o foi; mas é, apesar disso, o meio designado na Igreja para a continuação da doutrina dos apóstolos. Além disso, o privilégio, o dever e a responsabilidade do juízo particular são declarados em toda parte. As profecias da Palavra de Deus, é verdade, não provêm de interpretação pessoal (2Pe 1.20), isto é, não se resolvem por si mesmas nem por nenhuma solução particular (ἰδίας ἐπιλύσεως οὐ γίνεται); e isso vale para toda a Escritura, que não fica sem a interpretação do Espírito que a deu. Contudo, todos os crentes devem examinar todas as coisas (1Ts 5.21): não só os bereanos, em processo de conversão, mas todos os cristãos são responsáveis pelo dom da razão, regenerada e santificada para o seu uso mais elevado. Ambos, porém, exigem a presença do Intérprete Supremo. Ele ainda guia a Igreja viva à verdade, apesar de todas as aparências em contrário; ele é a unção que vem do Santo (1Jo 2.20), a qual ensina e é concedida a todo cristão; e a combinação dos três (o juízo individual santificado, o ministério de ensino e o Espírito Santo) dá a sua perfeição a toda a teoria da regra de fé, que é uma só na unidade desses três. Revelação, inspiração e cânon também são três e um só, na unidade do sempre presente e sempre vivo Espírito da verdade (Jo 16.13).
Princípios opostos. Há dois erros sobre este assunto, mais ou menos difundidos. O racionalismo, de um lado, mina a autoridade da Palavra de Deus: ou rejeitando-a como revelação externa, ou aceitando-a e fazendo da razão humana o único árbitro do seu sentido. O tradicionalismo, do outro, faz da Escritura apenas uma norma paralela à tradição viva da Igreja. Ambos, embora de maneiras opostas, tiram da Bíblia a sua dignidade de regra da Fé cristã e a separam da sua ligação com o Espírito Santo, como instrumento supremo da operação dele nas coisas espirituais para sempre.
A razão. O método racionalista ou faz da razão humana a substância da verdade revelada, ou a medida e o árbitro do sentido da Escritura. Pois ele é de dois tipos: um renuncia por completo à revelação externa e independente; o outro, aquele a que agora nos referimos mais particularmente, aceita a Bíblia, mas apenas como uma republicação dos oráculos da religião natural, e faz do entendimento humano o instrumento único e, por assim dizer, sem guia da sua interpretação.
Racionalismo extremo. 1. Para o primeiro, as Escrituras são simplesmente um registro histórico e um catálogo do desenvolvimento gradual dos instintos religiosos do mundo. A evolução governa todas as coisas, tanto no domínio espiritual como no físico; e o Antigo e o Novo Testamento apenas assinalam os estágios pelos quais passaram as faculdades espirituais das raças mais antigas. Em Jesus e nos seus apóstolos, a consciência religiosa da humanidade atingiu um ponto elevado, mas não o mais elevado que ela há de atingir. A razão do homem, em constante desenvolvimento, deve fazer da doutrina deles o ponto de partida para novas evoluções, e em todas as épocas assim a fez; e ainda não é o fim. Esta teoria oscila para sempre entre o teísmo e o ateísmo, e não tem lugar senão entre os inimigos da Fé cristã. Sobre isso já se disse o bastante ao tratar das evidências da revelação.
I, 210Racionalismo propriamente dito. 2. O racionalismo propriamente dito aceita a supremacia da Palavra como dada por Deus para regular a doutrina da Igreja, mas insiste em que a razão humana é o único juiz do seu sentido. Esse espírito impregna, em maior ou menor grau, as comunidades cristãs que abandonaram a doutrina da inspiração plenária dos santos oráculos. Ele tem muitos matizes e variedades de definição e de expressão; mas todos se unem na opinião de que a aplicação de uma razão honesta e esclarecida é tudo o que a Escritura exige quando ensina doutrina autorizada, impõe obrigação moral e promete privilégio à esperança dos crentes.
O seu defeito. 3. É evidente que esse princípio parte de uma avaliação errada da função do entendimento humano, especialmente em relação ao Espírito divino, seu guia, supondo-se admitida uma supervisão divina sobre o homem. Ele eleva indevidamente o poder da razão, e a própria razão é testemunha disso. Não é razoável aceitar a verdade acerca do Ser Infinito e dos interesses eternos sob a condição de que ela possa ser sondada e perfeitamente compreendida: sob essa condição, alguns dos fatos mais elementares da consciência interior e da ciência exterior teriam de ser rejeitados, pois são igualmente insondáveis. Por isso, recusando-se a aceitar a orientação celestial numa região desconhecida, o espírito racionalista há de forçosamente renunciar às melhores partes da revelação, justamente por serem as mais profundas. Esquece a verdadeira e nobre função da razão: ser ministra da fé, que em todas as coisas cognoscíveis é, num certo e importante sentido, suprema. A razão deve pesar as evidências apresentadas à fé e deduzir as consequências daquilo que a fé aceita; deve guardar o resultado tanto dos ataques do espírito de incredulidade rebelde e indisciplinada como das perversões do excesso de crença e da superstição. Levando o assunto para a região do testemunho da Escritura, vemos que o espírito daquilo que hoje chamamos racionalismo é constantemente condenado. A mesma Palavra que, do começo ao fim, honra a razão argumentando serenamente com ela e apelando às suas convicções e instintos indestrutíveis, é sumamente perentória ao definir os limites além dos quais o seu domínio não se estende. A pessoa natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura. E ela não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente (1Co 2.14). E até para o próprio discernimento espiritual há um limite: Porque agora vemos como num espelho, de forma obscura (1Co 13.12). O nosso conhecimento, no seu ponto mais alto, é parcial: na vida presente o nosso conhecimento é incompleto, ἐκ μέρους (1Co 13.9).
Tradição. A verdadeira doutrina se opõe a toda ideia de uma autoridade coordenada na Tradição. Esta tem uma função legítima, que deve ser defendida, ao mesmo tempo que se condena a sua perversão.
Legítima. 1. A Tradição é παράδοσις, oral ou escrita. E é evidente que ela ocupa um lugar importante na economia da revelação divina. São Paulo ordena aos crentes, no início dos seus escritos, que guardem as tradições que lhes foram ensinadas, seja por palavra, seja por carta nossa (2Ts 2.15); e não viver segundo elas é viver de forma desordenada (2Ts 3.6). Por isso, no seu uso original, ela abrange a entrega de toda a verdade ao homem por meio de instrumentos humanos. Devemos a ela as Escrituras, com aquela sagrada interpretação tradicional das suas doutrinas principais a que chamamos analogia da fé; e devemos a ela a preservação de muitos usos e práticas que não estão estritamente determinados na Bíblia. A teologia nunca rejeitou nem desprezou a tradição autêntica e bem compreendida.
Abuso. 2. Mas o abuso da Tradição sempre foi a ruína da doutrina, especialmente de toda a doutrina cristã. Reduzida a uma teoria eclesiástica, ela tem então dois elementos: a Escritura e a tradição oral da Igreja constituem uma dupla regra de fé; e isso exige necessariamente, como árbitro final, uma autoridade reguladora infalível na própria Igreja.
Desenvolvimento. (1.) A regra coordenada é a da Tradição Oral, que acrescenta doutrinas não contidas na Escritura, ou a do Desenvolvimento, que expande as que foram reveladas em germe. Nunca se definiu com autoridade o que é o Verbum Dei non scriptum [Palavra de Deus não escrita], nem o que constitui as TRADIÇÕES APOSTÓLICAS; mas em geral se incluem nelas alguns dos principais artigos de fé e de prática. A hipótese do DESENVOLVIMENTO não passa, ela mesma, de um desenvolvimento moderno da teoria da Tradição: o princípio por cuja operação os grandes erros distintivos do romanismo foram transformados em artigos DE FIDE [de fé] e tornados obrigatórios. A Ecclesia docens [Igreja docente] decide, sob a direção do Espírito Santo, quando chegou a hora de uma opinião se tornar dogma. A Igreja infalível é o episcopado que descende em linha direta dos apóstolos; a Igreja universal, que expressa o seu pensamento por meio de concílios; e, ultimamente, como último desenvolvimento do dogma, a voz do Sucessor de são Pedro, falando ex cathedra [da cátedra], foi feita árbitro final da verdade. Esta é a doutrina da Tradição tal como é sustentada na Igreja Católica Romana. Em outros lugares se sustentam modificações dela. A Igreja Oriental sustenta que a Igreja foi dotada, concomitantemente, de inspiração, mas supõe que isso se limitou às primeiras eras: segundo o seu ensino, a dupla regra, Escritura e Tradição, ficou completa quando o seu mais antigo e único Credo foi autenticado. De forma vaga e indefinida, o mesmo princípio é sustentado, de modo incoerente, por muitos teólogos em comunhões que tiveram origem num protesto contra a tradição eclesiástica indevidamente equiparada à Escritura.
I, 212Sua condenação. (2.) Esta teoria perde de vista o verdadeiro e mais importante ofício da Tradição, que é simplesmente o testemunho humano dos oráculos divinos e a guarda deles. Ela desonra a prerrogativa dos escritores inspirados e edifica, não sobre o fundamento dos apóstolos e profetas (Ef 2.20), mas sobre a Igreja como intérprete deles; atribui à comunidade visível as funções da invisível; imprime à Fé um caráter de mutabilidade, do qual o edifício dos dogmas medievais dá prova abundante; e, por fim, é objeto da denúncia admonitória do nosso Salvador, tal como se apresentava nas tradições rabínicas do seu tempo. O tom e os termos com que nosso Senhor invariavelmente falou deste acréscimo sobreposto à única regra de fé deveriam ter protegido a sua Igreja para sempre contra ele. O Talmude judaico foi construído sobre este princípio, e há muito tempo vem sendo construído um Talmude cristão correspondente. Nele, os ensinos da Fé têm passado por um processo de transformação constante. A doutrina da expiação foi violada no dogma da transubstanciação; a do pecado original, no dogma da Imaculada Conceição; e a da suprema jurisdição do Espírito, no dogma da infalibilidade pontifícia. Esta teoria, na sua forma moderna de Desenvolvimento, é nociva à simplicidade e à integridade da verdade e perigosa para a fé que uma vez por todas foi entregue aos santos (Jd 3): τῇ ἅπαξ παραδοθείσῃ τοῖς ἁγίοις πίστει. Dentro das épocas da administração inspiradora do Espírito, houve desenvolvimento na mais grandiosa escala, estendendo-se a todas as principais doutrinas da revelação: esse princípio é nada menos que uma lei absoluta. Mas o domínio do desenvolvimento fora da Bíblia se limita às coisas não essenciais e à construção do sistema dogmático; na verdade, neste caso o termo é inteiramente mal aplicado. Somente na Escritura há, a rigor, desenvolvimento da doutrina propriamente dita.
Interpretação. A Bíblia, como regra de fé, é o fundamento da teologia. Ela precisa ser estudada como uma coleção de documentos ao mesmo tempo divinos e humanos, que contém os materiais e as diretrizes da ciência teológica. Os ramos desse estudo são vários. A crítica bíblica é o ramo da crítica geral que tem por objeto a determinação do texto. O campo da introdução bíblica abrange a substância e o conteúdo das Escrituras como uma coleção de literatura divino-humana. A filologia sagrada trata das línguas originais em que a revelação foi dada. A hermenêutica trata da Bíblia como um texto a ser exposto exegética e teologicamente. Os princípios gerais desses vários ramos de estudo devem ser esboçados com brevidade, pois lançam a base do sistema doutrinário do cristianismo; mas aqui são mencionados apenas na medida em que dizem respeito aos fundamentos do estudo da teologia.
Crítica bíblica. O termo “crítica” significa a arte e o exercício do juízo, e tem ampla aplicação em relação à Escritura em geral. Mas a crítica bíblica não estende o seu alcance além do juízo exercido sobre a genuinidade do texto. O seu objetivo é oferecer ou restaurar a aproximação mais estreita possível das palavras originais dos autógrafos das Escrituras, nenhum dos quais subsiste ou foi objeto de testemunho histórico direto. Para alcançar esse objetivo, a crítica é guiada por certos auxílios objetivos e por cânones subjetivos aceitos de modo mais ou menos unânime.
I, 214Manuscritos e versões. 1. Os seus materiais externos são os manuscritos que subsistem e as versões mais antigas, sobretudo os primeiros. Os manuscritos do Antigo Testamento não são antigos: não são anteriores ao século XII. A crítica do texto hebraico tem, por isso, alcance limitado; precisa depender muito do cuidado antigo daqueles a quem estes oráculos foram confiados. Mas ainda assim tem um campo amplo e fez grandes progressos nos últimos tempos. Os manuscritos do Testamento grego são mais abundantes, mais bem autenticados e mais perfeitamente conservados do que os de quaisquer clássicos antigos: incluindo os unciais, cópias em letras maiúsculas gregas, e os cursivos, em letra menor, somam quase mil e seiscentos. Os mais antigos deles são unciais e têm valor inestimável nos arquivos da Igreja cristã, como os mais veneráveis representantes dos seus livros sagrados. O Códice Alexandrino, conhecido como A, hoje no Museu Britânico, data provavelmente de por volta do começo do século V e contém os dois Testamentos inteiros, exceto a maior parte de são Mateus e algumas folhas que faltam em outros pontos. O Códice Vaticano, ou B, é a base da Vulgata, que tem autoridade no romanismo; é um século mais antigo que o A, mas não é tão completo no Novo Testamento. O Códice de Efrém, ou C, é um palimpsesto, isto é, um manuscrito escrito sobre outro manuscrito: dois terços do Novo Testamento foram encontrados por baixo de certos outros escritos nesse pergaminho. O Códice de Beza, D, hoje em Cambridge, é provavelmente do século VI e contém apenas os Evangelhos e Atos. Mas a Providência divina reservou para esta época a descoberta de um uncial que é provavelmente um dos mais antigos e certamente o mais completo dos primeiros exemplares da Escritura. É conhecido como Códice Sinaítico, ou א, e contém o Novo Testamento completo. Depois destes, os manuscritos se multiplicam rapidamente, na forma de cópias mais ou menos completas usadas em várias igrejas e de lecionários. Muitíssimos deles descendem em linha direta, por assim dizer, de cópias feitas nos primeiros séculos, mas hoje perdidas; e fica sempre a questão de saber se, em muitos casos, não são representantes tão fiéis do texto primitivo quanto aqueles unciais da antiguidade que ainda subsistem. A tendência tem sido desprezá-los inteiramente em comparação com os códices mais antigos; mas para isso não parece haver fundamento justo. As versões antigas são de grande importância para a crítica. A Septuaginta do Antigo Testamento é, por muitas razões, a mais importante, por ser tão usada no Novo Testamento; mas não é a única. Cada século, do segundo ao sétimo, produziu uma versão notável do Novo Testamento, e o recurso a elas, especialmente à Peshitta, ou siríaca, do século IV, presta valioso auxílio na determinação do texto. As inumeráveis citações encontradas nos Pais da Igreja dos cinco primeiros séculos também pertencem a este ramo, pois muitas vezes são traduções livres ou paráfrases soltas de traduções.
I, 215Cânones críticos. 2. Esses manuscritos, que se multiplicaram e foram perdendo mais ou menos a autoridade à medida que os séculos passavam, são cotejados e agrupados em famílias ou recensões, segundo as principais regiões da cristandade primitiva de onde provieram: distinção que, no entanto, tem mais importância histórica do que crítica. Os críticos bíblicos, pelo uso de certos cânones cuja aplicação requer o mais raro discernimento e experiência, procuram com o auxílio deles, principalmente, restaurar o texto ao seu estado original. Precisam considerar as causas prováveis das próprias variantes: se surgiram por acidente ou de propósito. No segundo caso, de que muitas vezes se deve suspeitar, precisam rastrear as mudanças do texto até motivos teológicos ou de outra natureza, e avaliá-las de acordo com isso. A tarefa deles é pesar uma variedade infinita de provas neste sagrado tribunal da crítica; e, ao chegar à sua decisão sobre qualquer passagem controvertida, precisam levar em conta uma multidão de condições que exigem atenção. Há alguns princípios simples e razoáveis que decidem a grande maioria dos casos, embora o seu valor seja muito contestado entre os próprios críticos e a sua aplicação a algumas dificuldades remanescentes seja insatisfatória. Esses cânones são, por exemplo: que a lição mais breve tem mais probabilidade de ser a correta do que uma mais prolixa, “brevis lectio præferenda verbosiori“; que a mais difícil ou mais áspera é mais provavelmente autêntica do que a mais suave, “proclivi lectioni præstat ardua“; que é suspeito um texto que manifestamente favorece os dogmas ortodoxos. Nenhum desses cânones está livre de exceções. E continua de pé que o estabelecimento do texto é uma tarefa que exige a aplicação da mais aguda faculdade crítica, sob a direção de um juízo sumamente sóbrio. É ofício ou prerrogativa de apenas uma rara categoria de eruditos, mas os resultados alcançados pelos seus trabalhos são de interesse e valor universais.
I, 216Resultados. 3. O alcance teológico desta ciência é evidente. Nada é mais importante do que a pureza do padrão comum de apelação nas discussões e decisões dogmáticas. E, à parte isso, é desejo instintivo de todos os que amam as Escrituras lê-las na sua integridade: toda prova de avanço seguro rumo a um texto aceito por unanimidade é motivo de profunda alegria para quem sabe quanto depende do resultado.
Nada de vital em jogo. (1.) Isto não deve ser exagerado. Pode-se admitir que o Espírito Santo não permitiu que as verdades eternas da revelação dependessem de alguma passagem isolada da sua própria palavra, nem da integridade absoluta do texto em geral. A maioria das passagens contestadas, das interpolações e das variantes de leitura não tem peso doutrinário algum. Nenhuma delas atinge a única prova fundamental de qualquer artigo de fé, pela razão de que nenhum artigo de fé repousa sobre a evidência de um só texto. Por isso, embora as variações nos principais manuscritos cheguem a dezenas de milhares (incluindo tudo, desde mudanças de letras até parágrafos inteiros inseridos ou omitidos), elas não envolvem nenhuma questão vital para a doutrina cristã. Podemos esperar ver um texto que, humanamente falando, seja perfeito ou quase perfeito: conhecido e lido por todos. Mas nenhum pensamento sobre as garantias ou a estabilidade da Fé precisa ficar atado a essa nossa esperança.
Textos contestados. (2.) Ainda assim, há no texto do Novo Testamento algumas variações de profundo interesse. Essas, que chegam a umas vinte ou trinta, devem ser consideradas com cuidado por todo estudante; pois, embora nenhuma doutrina vital dependa delas, o seu testemunho tem um peso peculiar, e a história secreta, por assim dizer, das variações envolve questões de profunda importância teológica. Por exemplo, a crítica moderna concorda de modo muito geral em abandonar as “Testemunhas Celestiais” (1Jo 5.7) [N. do T.: as palavras “no céu: o Pai, o Verbo e o Espírito Santo; e estes três são um”, que a Vulgata e a KJV trazem em 1Jo 5.7 e a NAA não traz], contra a Vulgata e a decisão católica romana; mas o estudo da questão mostrará quão clara e plena era a doutrina da Trindade quando uma interpolação como essa pôde ganhar curso. O mesmo se pode dizer da questão de saber se, em lugar de DEUS foi manifestado na carne, devemos ler AQUELE QUE foi manifestado (1Tm 3.16) [N. do T.: a NAA segue esta segunda leitura: “Aquele que foi manifestado na carne”], e se devemos manter a igreja de DEUS, a qual ele comprou com o seu próprio sangue, ou a igreja do SENHOR (At 20.28). A isto está intimamente ligada a mais notável de todas as variações: o Deus unigênito em lugar de o Filho unigênito, no Prólogo de são João (Jo 1.18). Outras questões, como a omissão ou a manutenção da doxologia na versão de são Mateus da Oração do Senhor, têm também o seu profundo interesse; quanto a esta em particular, há boas razões para nos inclinarmos a favorecer a causa da sua manutenção, já que ela se apoia em argumentos muito fortes.
I, 217Conhecimento prático. (3.) O estudante pode adquirir habilidade suficiente para pesar bem os argumentos de ambos os lados nestes e em outros pontos principais semelhantes do estabelecimento do texto, e para chegar a uma decisão humilde e própria. O conhecimento peculiar e técnico que este estudo requer, e a variedade de condições que devem concorrer em quem exerce um juízo autorizado sobre o texto, limitam a crítica bíblica, no que toca aos seus processos, a um número seleto. Os resultados, porém, no que afetam a teologia, estão abertos a todos. Todos podem pesar as provas que outros reúnem e apreciar os juízos que eles mesmos não poderiam formar de maneira independente.
A estrutura da Escritura. A INTRODUÇÃO BÍBLICA abrange, no seu amplo alcance, tudo o que diz respeito ao conhecimento da Bíblia como composta de documentos literários e, particularmente, como uma coleção de literatura humana. Certa medida de conhecimento, e de conhecimento familiar (quanto mais íntimo, melhor), da estrutura da Escritura é uma obrigação do estudante de teologia, especialmente do estudante que se prepara para o ministério.
Unidade orgânica. 1. A Bíblia, como um todo, é a história, a única história, da religião, ou das relações entre Deus e o homem, no mundo. Contém as crônicas do Reino Único, que teve três manifestações, a pré-mosaica, a hebraica e a messiânica; e, de uma quarta e última manifestação, contém uma série de predições que perpassa a Bíblia inteira. Este é o vínculo da sua unidade, como um grande Registro de Profecia e Cumprimento. O estudo do volume, que nele vê o desdobramento de uma vasta realização agora em curso e a indicação de outra ainda não revelada, considera-o uma unidade orgânica completa, e o vínculo da sua perfeição é Cristo e o seu reino.
I, 218Divisões. 2. Mas esta unidade orgânica pode ser decomposta em divisões subordinadas. Primeiro, temos as várias grandes dispensações já mencionadas, que serão expostas mais adiante. Estas podem ser consideradas, de outra forma, como a relação entre os dois Testamentos. O Antigo Testamento, nome com que são Paulo quase parece designar o volume antigo, na leitura do Antigo Testamento (2Co 3.14) [N. do T.: a NAA traz “a leitura da antiga aliança”; Pope segue a KJV, the reading of the old testament, e é nesse nome que o argumento se apoia], divide-se na Lei, ou a base histórica; nos Profetas, ou a transição da Lei para o Evangelho; e nos Salmos, ou o elemento devocional para todas as épocas. O Novo Testamento distribui-se em Evangelicum, ou os quatro Evangelhos; Apostolicum, ou Atos e Epístolas; e Apocalypticum, ou Apocalipse. Em tempos mais modernos, os Evangelhos são distinguidos em sinóticos, isto é, os três que concordam numa sinopse geral do ministério do Senhor, e joanino; Atos é considerado a transição para as Epístolas; e os vários tipos de doutrina das Epístolas apostólicas e do Apocalipse são comparados com o restante da Escritura. Tudo isso será tratado mais plenamente no devido tempo.
A literatura de cada livro. 3. Mas cada livro tem o seu próprio campo de investigação. Este inclui o autor, a data, as circunstâncias e o propósito de cada documento; especialmente a análise, em relação à sua ligação com os que o precedem e os que o sucedem. A importância teológica disto é grande: um conhecimento exato, ainda que geral, do escopo de cada documento fornecerá em geral a sua melhor defesa contra os ataques; lançará luz sobre o seu caráter e as suas implicações doutrinárias e, assim, lhe dará o seu lugar no sistema da teologia bíblica. Uma visão clara das peculiaridades literárias e de outra ordem de cada livro da Bíblia é indispensável ao estudante: é um dos requisitos elementares da formação teológica; mas, talvez por isso mesmo, não há nada mais negligenciado. Nenhum jovem ministro, nenhum candidato ao ministério, deve pensar que adquiriu os rudimentos da sua profissão enquanto não tiver firmado na mente um núcleo de informação a respeito de todos os documentos individuais: um núcleo em torno do qual o conhecimento adicional se vá juntando continuamente, até que nenhuma parte fique na obscuridade.
História sagrada. 1. A Bíblia deve ser estudada como histórica do começo ao fim. Esta é a lei da sua construção em todas as partes, até nas proféticas. A rigor, a sua história como tal é apenas a do povo escolhido, como a raça preordenada na qual Deus haveria de se manifestar no Filho encarnado; e o estudo metódico dessa história é uma das primeiras obrigações teológicas. Tal como está contida na Escritura e confirmada pelos historiadores seculares, é a série de anais nacionais mais digna de confiança, assim como é a mais importante em relação à história da redenção. De Abraão a Moisés, ou à servidão no Egito, temos a Era Patriarcal; do deserto a Canaã, ou de Moisés a Samuel, a fundação da Teocracia; dos tempos dos Juízes e dos Reis, a divisão da nação, o Cativeiro, o período da glória do Israel do Antigo Testamento. Depois do encerramento da história inspirada da antiga aliança vem o grande Intervalo de quatrocentos anos, que termina com a Encarnação, o aparecimento, o ministério e a rejeição do Redentor e, em consequência, a dispersão das tribos entre as nações da terra. Esses são os fatos decisivos daquela história sagrada que pode ser considerada, em certo sentido, a corrente central de toda a história.
Cronologia. 2. Esses pontos salientes regulam a cronologia bíblica, que, como ciência, é talvez a mais abstrusa e difícil das que se ligam à interpretação da Escritura. Ela envolve o exame dos vários sistemas adotados para a ordenação das datas bíblicas, especialmente no Antigo Testamento: a Septuaginta diverge do texto hebraico, e a cronologia rabínica diverge de ambos, ao passo que os princípios que regeram os escritores sagrados ainda não estão determinados com precisão. A solução de muitas dificuldades cronológicas pode ser buscada em erros de transcrição; mas há uma incerteza quanto ao uso dos numerais que ainda precisa ser esclarecida: a chave do esquema de Moisés e dos escritores históricos mais antigos ainda está por descobrir. Se ficar evidente que o sistema mais longo, no qual concordam a Septuaginta e o Pentateuco samaritano, é o correto, não será difícil harmonizar a cronologia bíblica dos tempos primitivos com tudo o que exigem a ciência sólida, os anais autênticos das outras nações e até as tradições delas. Quando descemos mais no curso da história, a cronologia se torna mais simples. Há algumas épocas proeminentes cujas datas podem ser consideradas fixas: o Êxodo, a construção do templo, as deportações, o nascimento de Cristo, o Pentecostes, a morte de Herodes, a destruição de Jerusalém. É preciso lembrar que a Arte de Verificar as Datas é relativamente moderna [N. do T.: eco do título L’Art de vérifier les dates, obra dos beneditinos de Saint-Maur publicada a partir de 1750], e é preciso dar tempo para que muitas questões se resolvam. Enquanto isso, e com relação a algumas épocas, deve-se admitir uma margem cujos limites não estão definidos.
I, 220Geografia. 3. A geografia bíblica abrange quase a terra inteira, mas mais particularmente aquela parte dela que é o cenário da história sagrada: a Terra Santa, originalmente Canaã, que se tornou a Terra de Emanuel. Isto não só é muito interessante em si mesmo, como está ligado inseparavelmente à interpretação da Escritura.
Arqueologia. 4. A arqueologia da Bíblia é um ramo peculiar da sua história: abrange toda a estrutura da antiga economia, vista como coisa passada e à parte da sua relação com o Evangelho. Há um sentido em que nenhum i ou til está realmente obsoleto, pois se pode afirmar que quase tudo o que é judaico sobreviveu às mudanças do tempo. Mas não é disso que temos de tratar aqui. As antiguidades da Escritura têm dois campos: um de maior importância, que inclui a constituição civil, política e religiosa do hebraísmo, como algo que está por baixo e em volta dos próprios fundamentos do cristianismo; e o outro, que diz respeito ao povo como simples ramo da raça semítica, com costumes sociais e religiosos que podem ser comparados com os de outras nações.
Hebraísmo. (1.) Com referência ao primeiro, as antiguidades mais essencialmente sagradas do hebraísmo, o estudo teológico tem um campo amplo. Inclui os sinais nacionais de separação do mundo: os sinais da aliança, a circuncisão e a Páscoa; com o tabernáculo, mais antigo, e o templo, posterior, e a sua estrutura simbólica interior, como morada de Deus no meio do seu povo. Também o cerimonial do culto: a ordem levítica; o sumo sacerdócio, com a relação de todas as demais funções com ele; o serviço e o sistema do sacrifício, as ofertas pelo pecado e as ofertas de ação de graças, com as suas variedades; as três festas, a sua história, o seu sentido e o seu significado típico; o único jejum; os sábados e os ciclos sabáticos; as luas novas; a voz da profecia, nunca ausente; e os vários modos de revelação, desde o Urim e o Tumim, passando pelos símbolos e visões, até o Bath-kol [a “filha da voz”: a voz vinda do céu, na tradição rabínica], que forma a transição para o ramo seguinte.
I, 221Judaísmo. (2.) Há também uma arqueologia pós-hebraica, que pertence ao judaísmo do Intervalo, ou melhor, ao tempo em que o hebraísmo estava passando a judaísmo. Em alguns aspectos, a Igreja antiga apareceu em sua melhor luz depois do Cativeiro: herdou o passado, de cujas lições o seu castigo a preparou para tirar proveito; deu origem a muitas instituições novas, algumas das quais, especialmente sancionadas por nosso Senhor, continham os germes de muito do que foi incorporado à Igreja cristã. Dificilmente se pode estudar com cuidado excessivo os anais deste Intervalo: por exemplo, o surgimento e a história do Sinédrio; a constituição da sinagoga e a sua ordem; a ascendência gradual dos escribas, rabinos e outros guardiões da lei; a separação do povo em fariseus, saduceus e essênios; e as novas festas, como o Purim, que nosso Senhor aprovou, embora não fosse de instituição divina direta. Um interesse teológico profundo e peculiar se prende a esta parte da história das grandes Preparações. O estudo deste período, como se verá mais adiante, nunca deixa de ser recompensado da maneira mais ampla.
Usos e costumes. (3.) Muitos temas da arqueologia são secundários, embora só em sentido relativo. A interpretação do Novo Testamento exige um conhecimento exato, e aplicado no momento oportuno, dos usos e costumes dos povos antigos: o seu modo de vida, a arquitetura das casas, o comércio, a agricultura, os ritos festivos e fúnebres, os hábitos sociais, a música, os métodos literários, o estilo de escrita e as formas de instrução pública e particular. Os comentários fornecem, em geral, as informações de que o expositor ou o pregador precisa; mas o estudante não deve depender inteiramente de reforços ocasionais da sua memória. Deve procurar ser bem lido e sentir-se em casa em todos esses ramos do conhecimento sagrado.
História natural. 5. A história natural da Bíblia abrange tudo o que resta: isto é, o mundo da natureza em que a Escritura vive e se move. Ela tem o seu próprio campo, bastante amplo, que não deve ser estudado como se fosse à luz da ciência física moderna, mas que não deixa de ter interesse também desse ponto de vista. A fauna e a flora dos registros bíblicos, retratadas com grande fidelidade nas melhores introduções e monografias, têm valor teológico, além do valor geral: quase todo fato acabará, num ponto ou noutro, afetando a interpretação ou a ilustração da doutrina do Novo Testamento; e a importância de cada coisa deve ser medida pela sua utilidade para esse fim.
Filologia. O estudo da Escritura nas suas línguas originais está no fundamento da teologia. O texto da revelação está em duas línguas, cada uma com as suas variedades e particularidades. Certo conhecimento delas é indispensável ao teólogo completo, embora nem o seu conhecimento prático da Bíblia nem o valor do seu ministério pastoral dependam de uma familiaridade minuciosa e profunda com elas.
Hebraico. 1. O Antigo Testamento está escrito em hebraico, com exceção de certos fragmentos em caldeu (Dn 2.4-7.28; Ed 4.8-6.18; 7.12-26; Jr 10.11). Sempre houve, e ainda há, muita discussão sobre a relação do hebraico com a língua original da raça humana, quando ainda era una e indivisa; e também sobre o seu parentesco com o que se chama, sem exatidão, o tronco semítico de línguas: o aramaico, dividido em siríaco e caldeu; o samaritano, ao que parece uma mistura de hebraico e aramaico; e o árabe, com o etíope, que lhe é aparentado. O estudo profundo do Antigo Testamento exige que esses dialetos semíticos sejam incluídos: os ramos aramaicos, por causa das porções do Antigo Testamento escritas em caldeu, da língua vernácula do tempo do nosso Salvador, que transparece aqui e ali nos Evangelhos, e da importante versão siríaca Peshito; o árabe, pelo seu valor na determinação de muitas raízes hebraicas. Mas, afinal, é o hebraico puro que é indispensável: não só por causa do próprio Antigo Testamento, mas também porque o Novo Testamento é tão marcado por citações diretas e por ecos indiretos dessa linguagem.
Grego. 2. O grego em que aprouve ao Espírito Santo guardar, como num santuário, as Escrituras do Novo Testamento é o dialeto clássico tardio, a Κοινή [língua comum]. Essa é a sua base; mas ele é profundamente afetado pelo dialeto judaico-helenístico, com maior ou menor infusão de hebraísmos no estilo e no vocabulário: em algumas partes, não é outra coisa senão pensamento hebraico em roupagem grega. A época alexandrina foi o elo entre o estilo oriental e o ocidental; por isso a versão dos Setenta, os Apócrifos e Fílon são auxílios importantes para o estudo do grego sagrado. A isso deve-se acrescentar certa fraseologia e certo modo de expressão, novos e peculiares, que as novas ideias do cristianismo introduziram. Levando tudo isso em conta, podemos dizer que a língua do Novo Testamento é um estudo à parte, que exige o seu próprio aparato de recursos e auxílios filológicos.
I, 223Auxílios. 3. As duas línguas sagradas, como podem ser chamadas, são em nossos dias mais bem compreendidas, e os auxílios para aprendê-las são mais abundantes, do que em qualquer época anterior. Os léxicos, as gramáticas e as concordâncias do hebraico e do grego estão tão ajustados às necessidades do estudante que ele pode, com uma diligência comum, adquirir pelo menos um conhecimento prático e operante das Escrituras originais. Um conhecimento profundo só é possível a poucos; mas ninguém que lance cedo os seus alicerces precisa ficar sem aquela destreza no uso dos instrumentos da filologia sagrada que o capacite a apreciar a exposição de guias mais eruditos do que ele. É de grande importância ter clareza sobre este ponto. Os mais nobres resultados da erudição moderna encontram-se nos comentários da Bíblia. Estes muitas vezes divergem em alguns pontos críticos da exposição; e o leitor fica necessariamente entregue ao próprio juízo. E esse juízo ele será capaz de formar se fizer dos originais o seu estudo habitual, segundo as melhores luzes que tiver. E, além disso, um conhecimento bem modesto, sobretudo do Testamento grego, trará as palavras do Espírito Santo para muito mais perto do que qualquer tradução, mesmo a melhor, jamais poderia fazer.
Hermenêutica. Há uma ciência própria da hermenêutica: isto é, dos princípios que se aplicam na exegese, a exposição e interpretação da Escritura. Essa ciência é extremamente vasta, mas a sua aplicação teológica repousa em poucos princípios gerais, tão simples quanto importantes.
História. I. A história da hermenêutica bíblica na Igreja cristã pode ser estudada com proveito. Não houve escolas que se sucedessem umas às outras; mas as diversas escolas se distinguiram pela preponderância de um dos princípios, o alegórico ou místico, o eclesiástico ou tradicional, o literal ou puramente histórico e racional, presentes em maior ou menor grau em todas as épocas. O primeiro princípio de interpretação que influiu na teologia foi o da escola alexandrina, que sempre tendeu ao método alegórico, herdado da Cabala judaica. Ela não desprezou de todo a interpretação gramatical do “corpo” da Escritura, mas deu mais atenção à exposição moral da sua “alma” e, acima de tudo, aos usos místicos ou anagógicos reservados aos iniciados, ou τέλειοι. É evidente que nenhum sistema definido ou coerente de teologia dogmática pode basear-se nesse princípio de exposição, por mais rico em resultados que ele seja quando devidamente controlado. Durante a Idade Média esse método continuou, em maior ou menor grau; mas o que mais caracterizou aqueles tempos foi que a exposição da Escritura ficou presa por laços eclesiásticos: primeiro a dirigia a Regula Fidei [regra de fé], ou antes a regra da Igreja; a pesquisa independente era reprimida; e os comentários tomaram em geral a forma de catenæ, ou sinopses da exposição patrística, até o Concílio de Trento. Enquanto isso, um método livre e histórico sempre existira aqui e ali: especialmente na antiga escola de Antioquia e entre os escolásticos racionalistas, como Abelardo. Esse método nunca esteve ausente, como protesto da erudição contra os excessos dos outros dois princípios. Desde a Reforma, essas tendências talvez tenham ficado mais marcadas do que antes: a última, especialmente, encontrou a sua expressão na exposição racionalista dos tempos modernos. Hoje, o objetivo mais alto desta ciência é combinar as três, dando ao sentido espiritual profundo, à interpretação tradicional da Igreja e ao estudo científico do texto os seus respectivos direitos.
I, 224Métodos. 1. Por isso podemos reproduzir esses diversos métodos e aplicá-los às leis gerais da hermenêutica. O estudo gramatical do texto tal como se lê corresponde a tudo o que havia de são na escola histórica; a observância da analogia da fé toma o lugar do princípio eclesiástico, sendo essa analogia, em grande parte, a própria tradição bíblica interna, tal como se manteve nas tradições e na exegese mais puras da comunidade cristã; e a dependência do Espírito Santo, o Mestre interior, conserva o melhor segredo da escola alegórica ou mística, sem os seus erros.
I, 225Texto literal e figurado. 2. Na raiz de tudo está a interpretação gramatical ou literal: é o que se quer dizer quando se afirma que a Bíblia deve ser interpretada como qualquer outro livro. Os léxicos dão o sentido das palavras; a gramática, a sua construção correta; e a concordância, a fraseologia característica de cada escritor. O estudante da Escritura, como o estudante de qualquer clássico antigo, tem a chave que lhe permite entender o que a Bíblia diz e o que ela quer dizer, até onde vai o sentido literal.
Importância da gramática. 3. Pode-se dizer com segurança que uma proporção muito grande das dificuldades, das asperezas e até das aparentes discrepâncias da Bíblia desaparece diante de uma aplicação exata das regras da gramática quanto a casos, preposições, modos e tempos, especialmente no grego. Muita coisa depende do simples sentido gramatical do aoristo nestas duas passagens correlatas: assim também a morte passou a toda a humanidade, porque todos pecaram (Rm 5.12); e um morreu por todos; logo, todos morreram (2Co 5.14). Os comentários modernos dão ampla prova disso, como também o aperfeiçoamento gradual das nossas traduções da Escritura. Não é preciso dar aqui outros exemplos: eles aparecerão constantemente no desenvolvimento da nossa doutrina. Mas nunca será demais insistir neste fato: a interpretação gramatical e minuciosa do texto tal como se lê é um grande passo para a compreensão da maior parte, e de longe, da Palavra de Deus.
Linguagem figurada. 4. O caráter peculiar e abundante da linguagem figurada desse texto não faz diferença essencial: ela pertence à gramática universal; e, embora a figura bíblica tenha as suas leis peculiares, evidentemente também ela se presta a uma interpretação literal simples. Os tropos mais simples, pelos quais (como indica a palavra τρόπος) palavras ou expressões mais extensas são apenas desviadas do seu sentido natural, segundo um hábito geral da humanidade, abundam na Bíblia, como em todos os livros orientais. O símile, ou comparação pura; a metáfora, que é o símile sem o elo da comparação; e a metonímia, ou sinédoque, que descreve um objeto por alguma das suas relações ou partes, têm todos o mesmo sentido que na demais literatura. Isso vale até para metáforas como Eu sou a videira verdadeira (Jo 15.1), ou o Senhor Deus é sol e escudo (Sl 84.11); e para a metonímia em Eles têm Moisés e os Profetas (Lc 16.29), ou nós é que somos a circuncisão (Fp 3.3). De fato, as Escrituras adotam essas figuras na sua linguagem comum em larguíssima medida. Em alguns casos, é sem dúvida importante distinguir entre a figura que deve ser entendida literalmente e a figura que deve ser entendida figuradamente: uma distinção da qual depende muita discussão teológica, como, por exemplo, em relação à instituição da Eucaristia. Nas palavras Isto é o meu corpo, que é dado por vocês e Este cálice é a nova aliança no meu sangue (Lc 22.19-20), temos a metáfora e a metonímia, ou sinédoque, unidas. E, por mais verdadeiro que seja que aqui se precisa de algo infinitamente além da interpretação gramatical, a simples gramática já percorre boa parte do caminho até o sentido correto. O mesmo se pode dizer dos tropos mais extensos, como a alegoria, a parábola e o símbolo, que devem ter, seja o que for que tenham além disso, a sua interpretação natural. A alegoria, como expansão da metáfora, tem sempre uma história real como base: assim a da videira trazida do Egito (Sl 80) e a alusão de são Paulo a Agar e Sara (Gl 4). As relações entre a história e o véu que a encobre exigem estudo cuidadoso à luz da analogia, que será considerada mais adiante. Mas, mesmo supondo que a chave necessária à sua solução teológica seja encontrada depois, permanece a exposição gramatical simples do tropo. O mesmo vale para a parábola, o método de ensino próprio do nosso Senhor, comovente e, pode-se dizer, exclusivo dele, que é o símile expandido. Ela tem o seu único grande ponto de semelhança e sempre os seus acessórios subordinados; mas a relação entre eles deve ser estudada com cuidado, primeiro como simples parábola, antes que se introduzam princípios mais altos. O símbolo, tropo indefinido que permeia a Escritura e vai desde uma palavra ou um número até ações com cenário complexo, tem as suas próprias leis, que formam um ramo profundamente interessante e importante da hermenêutica sagrada; mas essas leis em nenhum caso dispensam o sentido literal.
I, 226Analogia. II. A analogia da fé sugere um segundo cânon de interpretação, que se aplica à Escritura como distinta de todos os outros escritos. É um termo amplo e inclui, de fato, três campos de aplicação: primeiro, a observação atenta não só do contexto do escritor, mas também da linha geral do seu ensino, visto que ele é um dos representantes da doutrina inspirada; em conexão com isso, a referência constante à harmonia universal da verdade bíblica, dada por um só Espírito inspirador; e, por fim, o apelo aos princípios da Fé tal como mantidos pela Igreja católica desde o princípio.
I, 227O escritor individual. 1. Cada escritor inspirado tem o seu carisma, ou dom, o seu próprio estilo de fraseologia e de pensamento teológico. Por exemplo, embora os apóstolos inspirados não possam ter senão uma só doutrina da justiça cristã, são Paulo e são Tiago foram instruídos a apresentá-la sob aspectos diferentes, assim como cada um deles emprega o termo lei com os seus próprios matizes de sentido. Ora, deve ser um cânon que a interpretação dos dois seja harmonizada entendendo-se cada um segundo a analogia do seu próprio ensino geral. A regra se aplica com grande força ao Novo Testamento: são Paulo usa à sua maneira muitas palavras escolhidas, como graça, lei, atribuir; são João também tem os seus termos, como coração no sentido de consciência; e a lei da analogia exige que essa chave seja aplicada a toda discussão sobre o sentido de cada um desses escritores.
Analogia da Escritura. 2. O mesmo vale para toda a Bíblia, seja o Antigo Testamento, seja o Novo. Há uma analogia da Escritura (Rm 12.6): uma regra ou padrão de doutrina que permeia todos os oráculos de Deus; e toda exposição deve ser fiel a ela. Essa analogia deve governar a interpretação da Palavra divina, entendida como o desenvolvimento gradual de uma só Verdade harmoniosa: há uma só doutrina da Trindade, da pessoa de Cristo, do pecado, da redenção, da fé e das obras, da influência do Espírito Santo, da imortalidade; e todas elas estão em harmonia com a única nota fundamental do conjunto, a reconciliação entre Deus e o homem em Cristo. A aplicação deste cânon é, num sentido, extremamente difícil; noutro, extremamente fácil. Mas, difícil ou fácil, é uma lei inexorável que a exegese de cada frase da Escritura deve estar de acordo com a sua própria e suprema regra de fé. Cristo está em toda parte. E, embora o exame das Escrituras para nelas encontrar o testemunho de Jesus possa ser levado ao excesso, e o tenha sido, isso só aconteceu com aqueles que não moderaram este cânon nem o protegeram pela aplicação direta dos outros.
Analogia da fé. 3. Mais uma vez, há o que se pode chamar, adotando a expressão de são Paulo, a analogia da Fé, κατὰ τὴν ἀναλογίαν τῆς πίστεως (Rm 12.6) [N. do T.: a NAA traduz “segundo a proporção da fé”], que é na verdade a analogia da Escritura tal como confirmada na crença católica das melhores épocas e das mais puras confissões da Igreja de Cristo. Este cânon é de grande importância, se for aplicado corretamente e devidamente resguardado na aplicação. Naturalmente, ele regula só a exegese das passagens que envolvem fidelidade ou infidelidade aos princípios fundamentais do evangelho: esses princípios foram mantidos em todas as épocas pelo corpo católico, e a interpretação deles deve ter grande peso para nós. Os credos mais antigos declaram a sua crença nas doutrinas fundamentais; a exposição quase unânime que fizeram delas chegou até nós numa tradição pura; e é o intérprete mais sábio, além de mais modesto, aquele que dá ao seu testemunho pelo menos algum peso. Isso, porém, leva imediatamente ao terceiro cânon, do qual dependem, em última instância, a vida, a verdade e a segurança da hermenêutica bíblica.
I, 228O Espírito Santo. III. A presença imediata do Espírito Santo na Sagrada Escritura, tanto como seu Defensor quanto como seu Intérprete, é, nesta ciência, ao mesmo tempo lei e guia da interpretação: como tal, ela corrige o espírito subjetivo, seja místico, alegórico ou racionalista. A inspiração da Bíblia é também a sua guardiã.
Na própria Escritura. 1. Ele é o Expositor dentro da própria Escritura: expõe o Antigo Testamento pelo Novo, o tipo pelo antítipo, e o texto antigo por um novo estilo e uma nova forma de citação. Nada é mais proveitoso para o comentador humano do que seguir os passos do Comentador divino: observar com diligência como ele expõe os antigos oráculos nos novos, e fazer fielmente dos métodos dele os seus próprios, para a exposição de ambos.
Na Igreja. 2. Ele continua a sua interpretação na Igreja cristã e na mente de todos os que creem com firmeza na realidade da sua presença e da sua direção. Ele conserva o espírito regenerado em verdadeira e profunda afinidade com a Palavra escrita; ou, para dizê-lo na sua própria linguagem, que é melhor, dá o senso espiritual e o discernimento de que depende a compreensão correta da Escritura. As suas verdades se discernem espiritualmente. Porém a pessoa espiritual julga todas as coisas (1Co 2.14-15). Além disso, não é fanatismo crer que ele responde a todo suplicante, especialmente a todo ministro responsável pelo ensino do seu povo, que consulta o Oráculo em oração simples. Nos tempos antigos, o Senhor dava conselho aos líderes da congregação que consultavam o peitoral do juízo do sumo sacerdote (Nm 27.21). A revelação cristã aboliu os símbolos típicos do Urim e do Tumim; mas nos deu a realidade da Doctrina et Veritas desses símbolos, da sua Revelação e Verdade (Êx 28.30) [N. do T.: Doctrina et Veritas, “Doutrina e Verdade”, é a forma como a Vulgata latina traduz “o Urim e o Tumim” neste versículo]. E ninguém jamais buscou nem jamais buscará em vão este Oráculo. Para nosso encorajamento, está escrito: vocês têm a unção que vem do Santo (1Jo 2.20).
Exegese pura e aplicada. O resultado de tudo isso é a exegese, seja como pura exposição do texto, seja aplicada no ensino pastoral próprio das funções ministeriais; a teologia bíblica, ou a construção sistemática da doutrina das Escrituras, como tal, nas suas formas e disposições puramente bíblicas; e a teologia dogmática, que contém os resultados analisados de todas as definições e desenvolvimentos posteriores.
Teologia exegética. I. A teologia exegética é o fruto da aplicação da hermenêutica em particular, e de todo o estudo bíblico em geral, à interpretação teológica do texto. Naturalmente, há comentários que tratam apenas da sua tradução gramatical; mas com eles nada temos a ver: a própria palavra, na sua forma grega, exegese, ou na sua forma latina, exposição, significa mais do que isso. É extrair e apresentar o sentido.
Comentários. 1. Como tal, ela ocupa um lugar amplo e abundante na literatura cristã: desde monografias sobre passagens e parágrafos isolados, passando por exposições de cada um dos livros, até comentários sobre a Escritura inteira. Não pode haver muita dúvida de que a melhor e mais pura apresentação das verdades cristãs se encontra nos livros dedicados à exposição direta da Palavra sagrada; mas o valor desses livros está em geral na proporção da sua concentração, e os frutos mais ricos da exegese moderna resultam de trabalho sério e erudito sobre documentos individuais ou sobre os escritos de autores individuais.
A Escritura sistematizada. 2. A exegese se aplica na teologia prática, e a aplicação mais importante é a que toma forma no ministério da Palavra, ou ensino pastoral da congregação. Os princípios que governam a aplicação da hermenêutica à pregação pertencem à homilética, que nos tempos modernos se tornou uma ciência à parte, cujo objetivo é guiar o pastor cristão nos melhores métodos de desdobrar os mistérios da Fé ao seu rebanho e de pregar o evangelho aos de fora.
Teologia bíblica. II. A teologia bíblica é a mais nobre superestrutura erguida sobre o fundamento da ciência hermenêutica propriamente dita.
Pressuposta em toda parte. 1. Ela organiza sistematicamente, e na sua unidade, a ilimitada variedade da verdade que na Escritura se apresenta num processo de desenvolvimento, muitas vezes e de muitas maneiras (Hb 1.1). A sua organização sistemática, porém, procura mostrar mais as etapas do desenvolvimento do que os resultados finais, embora não exclua estes últimos. Ela se ocupa das relações entre a teologia do Antigo Testamento e a do Novo: um assunto de interesse sempre crescente. Trata também das várias escolas de ensino e de pensamento em que se podem distribuir os escritores inspirados. Por isso é uma teologia das dispensações: mostra as doutrinas de cada economia à medida que ela ampliava a herança de verdade dispensada à que a precedeu. Especialmente no Novo Testamento ela tem um campo amplo, mostrando as variações e as harmonias que se podem observar entre os diversos escritores. Por isso apresenta o desenvolvimento da doutrina cristã no seu curso de revelação variada, mas ordenada, de Gênesis a Apocalipse.
I, 230Teologia dogmática. 2. A teologia bíblica está no fundamento da dogmática e lhe dá segurança e força. De época em época, a doutrina das Escrituras assumiu na Igreja cristã novas formas de enunciado, de organização, de definição e de terminologia. Quando cessou o desenvolvimento da doutrina divina, começou o desenvolvimento do dogma humano. Sem dúvida, um só e o mesmo Espírito presidiu a ambos, embora não os tenha presidido da mesma maneira. Mas a única garantia da solidez da nossa teologia sistemática, em todos os seus ramos, é a sua fidelidade à exposição da Palavra de Deus como o único padrão da verdade, a única REGRA DE FÉ.
Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. I, pp. 193-230, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.