W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume II · O ministério mediador
A Pessoa de Cristo. O dogma da Pessoa de Cristo nem sempre foi definido e delimitado com o devido rigor. Ele é a formulação expressa do que a Escritura ensina acerca da unidade indivisível das duas naturezas no único Cristo. Não é, portanto, a doutrina da divindade de nosso Senhor como tal, embora a inclua. Nem é a doutrina da sua perfeita humanidade como tal, embora também esta esteja envolvida. Trata simplesmente da Pessoa que resulta da união, enquanto divino-humana, ou encarnada. A Palavra de Deus não dá a essa união um termo que lhe indique a natureza: não usa a expressão Pessoa de Cristo, assim como não usa a palavra Trindade. Mas a primeira expressão tem com o Redentor a mesma relação que a segunda tem com a Essência triúna. Às vezes, os que fazem justiça ao dogma específico da Pessoa de Cristo o ampliam indevidamente, incluindo nele muito do que pertence aos Estados e aos Ofícios de Cristo como Sujeito de um desenvolvimento histórico. Convém limitar o nosso tema presente à Personalidade divina do Filho que assume a nossa natureza, à verdade da natureza humana que ele assume e à Pessoa divino-humana, com a sua nova e eterna personalidade composta, que daí resulta. O que não couber propriamente neste âmbito deve ser deixado para uma etapa posterior.
A doutrina da unidade indivisa e indivisível da Pessoa encarnada é ensinada pelo Espírito Santo de duas maneiras: primeiro, pela linguagem usada acerca do Cristo; segundo, pela atribuição da virtude e das qualidades de cada uma das duas naturezas à obra do Salvador. Quanto à primeira: embora nenhuma das duas naturezas jamais dê os seus atributos à outra, a única Pessoa comum se reveste das duas classes de atributos, de modo intercambiável. Quanto à segunda: em tudo o que o Salvador faz e sofre, cada natureza tem as suas funções distintas, sem confusão, ao passo que ambas são funções da única Pessoa comum, cuja personalidade divina lhes dá virtude divina: umas são divinas, outras humanas; mas todas são divino-humanas. Essas verdades gerais foram resumidas antigamente assim: Cristo é verdadeiramente Deus, perfeitamente homem, inconfusamente em duas naturezas, indivisivelmente em uma só Pessoa. Desenvolvimentos posteriores do dogma levam o assunto a uma multidão de sutilezas que não fizeram nenhum avanço real rumo à solução daquilo que continua sendo O MISTÉRIO DE DEUS, QUE É CRISTO (Cl 2.2).
Personalidade. Deus se encarnou como a Segunda Pessoa da Deidade. Por isso, a personalidade única, contínua, permanente e perpétua do único Cristo é a do Filho eterno, que conserva a sua Divindade imutável no seu estado humano, ao longo de toda a sua história como Mediador e para sempre. Cristo é divino; a sua divindade é a do Filho; e é a personalidade do Filho que é o Sujeito no ato e nos resultados da encarnação.
Divina. A divindade do Filho, eterno na essência de Deus, já foi estabelecida; agora temos de tratar da divindade do Filho na Pessoa de Cristo. Como encarnado, o Redentor é chamado por nomes divinos; a sua relação de mediador supõe a sua natureza verdadeiramente divina, que lhe é atribuída em conexão com a humana e como distinta dela; e os atributos divinos lhe são dados, com a homenagem que esses atributos exigem.
II, 108O Deus e Senhor encarnado. I. Em algumas passagens (poucas, mas entre as mais claras do Novo Testamento), o Redentor, na sua manifestação humana, é chamado DEUS. Num número maior, é chamado SENHOR, com todo o sentido do antigo JEOVÁ no termo. Num número ainda maior, leva a terceira das designações primitivas da Deidade, ADONAI, ou Senhor, isto é, em todas aquelas em que o termo Senhor não representa Jeová, mas indica apenas a jurisdição sobre todas as coisas que é dada ao Filho eterno. Quase não é preciso dizer que nem o termo DEUS nem o termo SENHOR, no sentido de Jeová, jamais definem na Escritura uma dignidade conferida a Cristo.
Deus. 1. O Novo Testamento começa aplicando a Jesus a predição de Emanuel, que significa: Deus conosco (Is 7.14; Mt 1.23). E a luz do cumprimento, projetada de volta sobre a mesma predição, mostra que o Filho encarnado é o Deus Forte (Is 9.6). O mesmo acontece com o salmo 45: O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre (Sl 45.6; Hb 1.8), palavras que a Epístola aos Hebreus refere ao Mediador encarnado. No começo do seu Evangelho, são João fala do Verbo feito carne como Deus (Jo 1.1) e, segundo a melhor leitura, como o Deus unigênito (Jo 1.18); e dá destaque também à confissão de Tomé: Senhor meu e Deus meu! (Jo 20.28). Duas passagens são duvidosas: em a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue (At 20.28), talvez se deva ler a igreja do Senhor; e Deus manifestado na carne é, antes, Aquele que foi manifestado (1Tm 3.16). Mas dificilmente se pode ler de outro modo senão que Cristo é sobre todos, Deus bendito para sempre (Rm 9.5). E o testemunho final de são Paulo é que os cristãos aguardam a manifestação do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo (Tt 2.13). São poucos textos, mas o seu pequeno número pesa a favor deles como prova. A economia mediadora se baseia numa subordinação do Filho encarnado; e o nome Deus só é dado a Cristo em atribuições ocasionais, que servem para proteger a verdade eterna que, por algum tempo, parece necessariamente velada e, por isso, exposta à perversão.
Jeová. 2. O Encarnado é JEOVÁ; e o seu nome de SENHOR, não sempre, mas às vezes, é, portanto, o nome da sua supremacia mais alta, e lhe atribui um ser divino essencial e necessário. Aqui também, e pela mesma razão, os casos são apenas ocasionais. Talvez, com exceção da confissão de Tomé, que, por assim dizer, preparou o caminho para o que viria depois (o elo entre a confissão dos dias do Evangelho e a das Epístolas), esse nome não tenha sido dado a nosso Senhor senão depois da sua ascensão. A oração da igreja nos dez dias de intervalo foi dirigida a Cristo, Jeová: Tu, SENHOR, que conheces o coração de todos, revela-nos qual dos dois escolheste (At 1.24). O testemunho de santo Estêvão, mais forte na morte, é: SENHOR Jesus, recebe o meu espírito! (At 7.59). Os crentes foram batizados em nome do SENHOR Jesus (At 8.16) e, depois, invocam esse nome (At 9.21). Os evangelistas abundam em cumprimentos da Escritura que implicam que o Jeová da criação e da redenção prometida no Antigo Testamento é Cristo na sua Pessoa de Mediador. No princípio, Senhor, lançaste os fundamentos da terra (Hb 1.10). O Batista preparou o caminho do Senhor (Jeová), isto é, de Cristo (Mt 3.3). O profeta Isaías viu a glória do Senhor (Is 6.1): viu a glória dele (Jo 12.41), isto é, a de Cristo. São Tiago o chama de o Senhor da glória (Tg 2.1). Para o profeta do Novo Testamento, ele é o Rei dos reis e Senhor dos senhores (Ap 19.16). Essa passagem, porém, pode ser classificada junto com o sublime parêntese de são Pedro, Este é o Senhor de todos (At 10.36), e com a frase de são Paulo, para nós há… um só Senhor (1Co 8.6), como a transição do Jeová de senhorio absoluto para o Adonai de uma autoridade, por assim dizer, delegada. Na grande maioria das passagens, de que não tratamos agora, Cristo é Senhor no sentido de um representante divino-humano e exaltado da autoridade divina sobre todas as coisas. Estas passagens unem os dois em um só. Mas pode-se dizer que mesmo esses textos de um senhorio delegado proclamam a divindade de Jesus, assim como o Adonai do Antigo Testamento era, tanto quanto Jeová, um nome divino.
II, 109Jeová e Deus. 3. O Encarnado é JEOVÁ E DEUS. Ele mesmo não assumiu esses títulos, por uma razão que mais adiante se verá com mais clareza. Mas falou de tal modo que deu matéria de reflexão, que amadureceria, no devido tempo, numa fé plena na sua divindade: por exemplo, quando disse que, onde quer que os seus discípulos se reunissem, ali estou no meio deles (Mt 18.20), EU SOU [N. do T.: no inglês, there am I (“ali estou”) traz as mesmas palavras de I AM (“Eu Sou”); no grego, o verbo também é o mesmo nos dois textos (εἰμί)]; antes que Abraão existisse, EU SOU (Jo 8.58). E também guardou silêncio quando esses termos lhe foram atribuídos: o seu silêncio foi a sua aceitação. Talvez o testemunho mais grandioso dado ao Salvador seja o que lhe deu o discípulo que mais duvidou: SENHOR MEU E DEUS MEU (Jo 20.28), palavras que pretendiam exprimir, e foram aceitas como exprimindo, a homenagem da sua alma ao Jeová e Deus, o Sondador dos corações, a Testemunha de todos os segredos humanos e o Salvador dos mais culpados e indignos dos homens. Essa foi a última confissão pública, pelo menos de um indivíduo; e deu o tom de toda a homenagem posterior do Novo Testamento. Dos dois nomes supremos que brotaram dos lábios de Tomé, só um passou a ser usado correntemente, e justamente aquele que admite um sentido inferior: a razão disso pertence ao assunto da subordinação mediadora de nosso Senhor.
II, 110Antítese das naturezas divina e humana. II. Como Mediador entre Deus e o homem, Cristo é necessariamente divino. Tendo tudo o que pertence a uma das naturezas representadas, deve ter também tudo o que pertence à outra. O que a sua obra mediadora exigia, a sua Pessoa de Mediador supre: perfeita igualdade e unidade com as duas partes entre as quais ele exerce a mediação. E a melhor demonstração da divindade do Redentor encarnado se encontra nas passagens que mostram as suas duas naturezas na sua combinação e unidade. Destas há várias classes; mas devemos nos limitar às que, em palavras expressas, unem, ao mesmo tempo que distinguem, as naturezas divina e humana depois da encarnação. Isso exclui, por ora, as predições do Antigo Testamento, os testemunhos dados na encarnação e até as alusões indiretas de nosso Senhor e dos seus apóstolos: a elas se fará referência quando o assunto for a personalidade única. Na verdade, só temos, para o nosso apelo, os três apóstolos que são as colunas da doutrina cristológica.
A Carne e o Espírito. 1. São Paulo distingue na Pessoa de Cristo a Carne e o Espírito, a natureza superior e a inferior: segundo a carne, veio da descendência de Davi e foi designado Filho de Deus com poder, segundo o Espírito de santidade (Rm 1.3-4). Que a natureza divina de Cristo seja chamada Espírito é o que se poderia esperar: Deus é Espírito (Jo 4.24); ora, este Senhor é o Espírito (2Co 3.17). Aquele que foi manifestado na carne foi justificado em espírito (1Tm 3.16). A mesma distinção aparece virtualmente na Epístola aos Hebreus, embora a natureza humana seja mencionada só de modo implícito: pelo Espírito eterno (Hb 9.14), Cristo ofereceu o seu sangue. São Pedro também usa a mesma antítese: morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito (1Pe 3.18).
A Carne e Deus. 2. São Paulo também estabelece a antítese entre a Carne e Deus: deles descende o Cristo, segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito para sempre (Rm 9.5). A isso se poderia acrescentar o mistério de que Deus foi manifestado na carne; mas prefere-se a leitura Aquele que foi manifestado, e a antítese está no espírito que vem em seguida (1Tm 3.16). Ele também une, ao mesmo tempo que distingue, o Ser divino que existia na forma de Deus e era igual a Deus e aquilo que ele assumiu ao se tornar semelhante aos seres humanos (Fp 2.6-7).
II, 111A Carne e o Filho de Deus. 3. Tanto são João como são Paulo põem lado a lado as duas naturezas como a do Filho de Deus e a da Carne. Deus enviou o seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa (Rm 8.3). São João, no seu Evangelho, acrescenta a designação Verbo: o Verbo se fez carne e habitou entre nós (e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai) (Jo 1.14). E, na sua primeira epístola, Jesus Cristo, que veio em carne (1Jo 4.2), é, como mostra o contexto, o Filho de Deus que se manifestou (1Jo 3.8).
Importância desta prova. 4. A estas se poderiam acrescentar muitas outras passagens em que as duas naturezas são postas lado a lado de modo implícito, como, por exemplo, as declarações indiretas com que nosso Senhor costumava indicar tanto a sua origem celestial como a terrena. Essas, porém, devem ficar reservadas por enquanto, pois serão usadas para ilustrar a unidade da sua pessoa nas duas naturezas. É melhor fixar a atenção nos textos, relativamente poucos, em que a Pessoa do Encarnado é decomposta nos seus dois elementos. Estes são, provavelmente, as melhores e mais evidentes demonstrações da divindade de nosso Senhor, e isso por duas razões. Em primeiro lugar, manifestam claramente o propósito dos escritores de dar destaque à distinção e, ao fazê-lo, afirmar a realidade da Divindade ao mesmo tempo que se afirma a humanidade. Em outras passagens, a suprema dignidade do Redentor é apenas pressuposta e imprime o seu selo na textura da linguagem. Mas nestas é claro o propósito deliberado de declarar a sua divindade. Em segundo lugar, põem essa divindade em conexão formal e expressa com a pessoa única do Cristo, evitando assim o duplo perigo contra o qual tantas vezes temos de guardar os nossos pensamentos: de um lado, a decomposição de Cristo em duas pessoas distintas; de outro, a tendência de fundir as duas naturezas numa só natureza nova, e também numa só pessoa nova, que não seria nem Deus nem homem.
Perfeições divinas. III. A Pessoa encarnada é revestida de atributos divinos e recebe honra divina. Mais adiante se verá qual é o limite disso e a razão desse limite. Mas, à parte da reserva do estado humilhado de nosso Senhor e por trás dela, e rompendo o véu da sua auto-humilhação, há provas abundantíssimas dos seus atributos divinos e da honra que lhe foi prestada e que ele aceitou, honra que só Deus pode reivindicar.
II, 112Atributos. 1. Basta mostrar que cada classe das perfeições divinas encontra nele o seu representante; em outras palavras, que a divindade já estabelecida o é no pleno sentido da palavra, e não uma divindade subordinada e diminuída. Nada do que pertence à noção de Deus falta nas atribuições feitas a Cristo como manifestado na carne. Os atributos absolutos de Deus são dele, especialmente a espiritualidade e a eternidade da existência, pois ele é o Espírito eterno (Hb 9.14), o mesmo ontem, hoje e para sempre (Hb 13.8), e o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último (Ap 1.11; 21.6) [N. do T.: Pope cita Ap 1.11 segundo a KJV; a NAA, que segue outro texto grego, não traz aí essas palavras, que ela tem em Ap 22.13]. Os atributos relativos, como a onipresença, a onisciência, a onipotência, a sabedoria e a bondade, são afirmados a respeito dele mesmo na sua condição terrena, e muito mais na sua exaltação: ele é invocado, como o Onisciente, como aquele que conhece o coração de todos (At 1.24); tem todo o poder (Hb 1.1-2); é a sabedoria de Deus (1Co 1.24), em quem estão ocultos todos os seus tesouros (Cl 2.3). E os atributos que ligam Deus ao universo moral são dele na unidade com o Pai: ele é o Santo e o Justo (At 3.14), e o seu amor, que excede todo entendimento (Ef 3.19), é sempre apresentado como inteiramente coordenado com o amor do Pai: o mesmo na sua profundidade eterna, no objeto que contempla e nos meios que emprega.
Honra divina. 2. Nosso Senhor, como encarnado, foi destinado a receber o culto e a honra devidos ao único Deus: ele os reivindica para si; e de que lhe são prestados temos amplas provas, tiradas de todas as partes do Novo Testamento.
(1.) Todos os anjos de Deus o adorem!, foi dito ao introduzir o Primogênito no mundo (Hb 1.6). Já o haviam adorado Prestada a ele. antes, pois ele era o Filho, sustentando todas as coisas pela sua palavra poderosa (Hb 1.3). Na encarnação, adoraram o Deus unigênito manifestado na carne; e, ao longo de toda a sua história, o ministério deles foi um ministério de adoração. Mas foi à igreja da humanidade que se deu a antiga ordem: Ele é o seu Senhor; adore-o! (Sl 45.11) [N. do T.: a NAA traz “por ser ele o seu senhor, incline-se diante dele”]. A ele, a quem o Pai se dirigiu como estando no seu trono: O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre (Sl 45.6).
Reivindicada por ele. (2.) Nosso Senhor reivindica uma honra devida somente a Deus. Reivindica-a ao longo de toda a sua vida e ministério: pela majestade silenciosa do seu caráter divino, pelas suas obras maravilhosas, literalmente feitas em Deus (Jo 3.21), e pela declaração clara de que o Pai confiou a ele, o Filho do Homem, todo julgamento, para que todos honrem o Filho assim como honram o Pai (Jo 5.23). E aquele que ensinou de novo o primeiro e grande mandamento exigiu dos seus discípulos um amor perfeito e abnegado por ele mesmo, que é o cumprimento do culto tanto quanto da lei. Aceitou toda espécie de homenagem, de toda espécie de adoradores: já na terra, e ainda mais lá no alto, dos que estão nos céus, na terra e debaixo da terra (Fp 2.10).
II, 113Ilimitada. (3.) Por isso, não há literalmente nenhuma reserva na homenagem suprema que os seus servos lhe prestam. Ele é invocado como Deus para a sua Bênção, a graça do Senhor Jesus Cristo (2Co 13.13); recebe, como Deus, a Doxologia: sobre todos, Deus bendito para sempre (Rm 9.5); a ele seja a glória, tanto agora como no dia eterno (2Pe 3.18). O último livro da Escritura dá ao Filho exaltado o mesmo tributo que o Pai recebe. Mas a melhor prova é a homenagem, a devoção, a lealdade e o amor ilimitados que se concentram na Pessoa de Cristo em todas as Epístolas: Mesmo sem tê-lo visto vocês o amam. Mesmo não o vendo agora, mas crendo nele, exultam com uma alegria indescritível e cheia de glória (1Pe 1.8). Tal amor só poderia ser dado a Deus, e só Deus poderia inspirar tal alegria.
A personalidade é a do Filho. Embora a Pessoa encarnada seja o Deus-homem, ou a manifestação de Deus na carne, a personalidade divina é somente a do Filho, a Segunda Pessoa da Trindade. Como Pessoa distinta na Divindade, ele traz toda a natureza divina para a humanidade e continua a sua personalidade eterna através de todos os processos do seu desenvolvimento e da sua obra mediadora, para sempre.
O mistério. I. No mistério da distinção eterna na Deidade, que tornou possível que o Pai enviasse e o Filho fosse enviado, não ousamos entrar. Nem no mistério da intercomunhão pela qual toda a natureza divina está em cada uma das Pessoas e, por isso, desceu à terra no Filho. Nem na relação específica do Filho na Divindade, o Logos eterno, ou Verbo, com a manifestação de Deus na criatura e no homem. Essas questões levam a um domínio da teologia especulativa que nenhum oráculo sagrado encoraja, guia ou recompensa. A nossa sabedoria está em nos limitarmos ao que foi revelado.
II, 114A missão do Filho. II. Já se provou que o Filho eterno, como tal, foi enviado pelo Pai, no conselho e no ato divinos da Trindade; e que, portanto, veio espontaneamente, para salvar a humanidade. Agora só é necessário mostrar que a única personalidade eterna continua na nova manifestação de Deus entre os homens.
A filiação eterna. 1. Naturalmente, buscamos a prova disso no próprio relato da encarnação. Mas, ao receber essa prova, devemos lembrar que a Escritura posterior, especialmente o prólogo de são João, lança a sua luz sobre aquela narrativa. Aqui, homens interpretam a voz de anjos. O unigênito do Pai era o Verbo que se fez carne (Jo 1.14, 18); Deus deu o seu Filho, unigênito, enviando-o ao mundo (Jo 3.16-17); e desse Filho, unigênito, se disse na grande anunciação: o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus (Lc 1.35). Esse Filho do Altíssimo (Lc 1.32), portanto, não se tornou o Filho de Deus na encarnação; trouxe consigo a sua filiação para dentro da nossa natureza. Nenhum argumento pode fugir a essa conclusão. Pode-se dizer que, em muitas passagens às vezes alegadas em favor da filiação eterna, o termo Filho se refere ao Cristo histórico e manifestado, como, por exemplo: a nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho, Jesus Cristo (1Jo 1.3). Mas, quando lemos que Deus enviou o seu Filho unigênito ao mundo (1Jo 4.9) e, logo depois, que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo (1Jo 4.14), o sentido simples e evidente não deve ser mal-entendido. O Pai, que é Deus, e Deus, que é o Pai, é quem envia. Deus não se torna o Pai por enviar o Filho.
Sempre o Filho. 2. Isso dá a lei para a interpretação dos nomes derivados dessa filiação, que o próprio Senhor e os seus servos usam habitualmente. Sejam quais forem os títulos que ele adota ou recebe em relação ao seu ofício, o termo Filho entra sempre na designação da sua Pessoa. Em todo o Novo Testamento, o seu nome por excelência é o Filho de Deus, ou o Filho, de modo absoluto. Se ele chama a si mesmo Filho do Homem, dificilmente podemos separar a filiação eterna até mesmo desse título. Pois filho de homem, no sentido literal, ele nunca foi: a sua verdadeira paternidade e a sua filiação eram divinas; e, como o Filho, mesmo na figura de homem, ele continuava sendo o Filho de Deus na humanidade. Por isso, omitidos os predicativos DE DEUS e DO HOMEM, o simples nome O FILHO conserva-lhe o seu caráter eterno e perpétuo de Segunda Pessoa da Trindade manifestada na carne. Uma Pessoa da Divindade continua a sua personalidade na natureza humana, a qual, por isso mesmo, é necessariamente impessoal em si, isto é, sem nenhuma existência pessoal independente da divina. Essa Pessoa não é o Pai, nem o Espírito Santo, mas o Filho. Assim, verifica-se que, na maior parte das passagens em que se usa o termo Filho de modo absoluto, a referência é à Pessoa encarnada, que não é só o Filho de Deus e o Filho do Homem, mas o Filho que une os dois.
II, 115Importância. III. É muito grande a importância de lembrar que a personalidade divina do Filho prossegue sem interrupção, a mesma ontem, hoje e para sempre; e isso pode ser ilustrado de muitas maneiras.
A unidade da Pessoa. 1. Essa verdade dá unidade à Pessoa e unidade à obra do Redentor. Preserva a divindade de ambas. Embora deixe à natureza humana a sua perfeição, nega-lhe uma existência pessoal distinta. A humanidade foi assumida na Divindade; não foi a Divindade que foi recebida por uma pessoa humana. O Senhor não está unido em comunhão com um sujeito humano. Ele não mantém comunhão com a sua natureza inferior como algo distinto do seu Eu divino. É verdade que, na humilhação do seu empobrecimento por nós, ele fala e age a partir de uma consciência humana. Mas a condescendência foi voluntária; e de tudo o que a ela pertence ele faz o seu próprio ato divino. Embora fosse Filho, aprendeu a obediência (Hb 5.8): esta afirmação não tem a ênfase que o escritor quis dar-lhe, se não estiver nela a condescendência voluntária de um Filho igual ao Pai. Assim, por um lado, essa verdade livra a Pessoa de Cristo da inimaginável renúncia a qualquer coisa que lhe pertencesse como Filho de Deus; por outro, impede que atribuamos a humilhação de Cristo a uma natureza humana cujos sofrimentos e atos o Filho teria tornado seus apenas por imputação. Ele aprendeu, como quem está na carne, tudo o que a sua paixão ensinou; mas o aprendeu como o Filho. Daí a simplicidade com que sempre se alude à missão do Filho do céu à terra. Às vezes se faz referência à natureza que ele assumiu para realizar a sua obra; mas às vezes, e na verdade com frequência ainda maior, o propósito da missão do Filho é apresentado como se fosse realizado só por esse Filho. Deus enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados (1Jo 4.10): não se menciona a natureza que lhe deu o seu sacrifício. Na verdade, a Escritura pressupõe que o SUPPOSITUM INTELLIGENS, o Agente que determina a si mesmo e é responsável, a Pessoa que nos salvou, é o Filho de Deus.
II, 116A filiação de Cristo e a nossa. 2. Essa verdade nos mostra também o vínculo entre a filiação divina e a nossa. O propósito perfeito do cristianismo, e aquilo que é, por assim dizer, o seu traço próprio, é aproximar Deus do homem como Pai: restaurar a sua relação paterna com a humanidade. E a alma do cristianismo pessoal é a adoção, que, como regenerados, nos faz filhos de Deus. Porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho ao nosso coração, e esse Espírito clama: “Aba, Pai!” (Gl 4.6). Pela virtude da sua divindade, o Salvador nos redimiu com o seu precioso sangue; pelo poder do Espírito Santo, ele nos santifica de todo pecado para si mesmo; mas a nova vida, com os privilégios a que ele nos introduz no seu evangelho, é a virtude da sua filiação divina em nós: a sua eterna vida filial derramada de novo na nossa natureza humana.
Humanidade. A natureza humana que nosso Senhor assumiu, as condições humanas sob as quais ele apareceu, incluíam tudo o que pertence propriamente ao homem. A integridade da sua humanidade não admitia defeito em nenhum dos seus elementos, nem excesso algum; ele era homem, mas no desenvolvimento sem pecado da humanidade pura. Nele, a natureza humana realizou-se perfeitamente; e ele se sujeitou a todas as condições da vida humana.
Homem perfeito. I. As Escrituras declaram que a humanidade de Cristo é perfeita, no sentido de possuir tudo o que pertence à natureza humana. Ele é o homem Cristo Jesus, ou Cristo Jesus, homem (1Tm 2.5): a declaração mais forte e mais clara do Novo Testamento sobre o assunto. Ele é o Filho do Homem; participou de carne e sangue; veio em carne; nascido de mulher (Gl 4.4); semelhante aos seres humanos; e em semelhança de carne pecaminosa (Rm 8.3): Homem, mas semelhante aos seres humanos; Carne, mas em semelhança de carne pecaminosa.
1. Mais particularmente, a sua natureza humana tinha cada um dos elementos Sem defeito. constitutivos dessa natureza. Nosso Senhor foi concebido da Virgem, nutrido da substância dela durante a gestação e nasceu como os outros homens. O seu corpo era real: mesmo depois da ressurreição, ele disse: um espírito não tem carne nem ossos, como vocês estão vendo que eu tenho (Lc 24.39). Possuía um espírito humano, sede do intelecto, da sensibilidade e da vontade. Do intelecto, necessariamente limitado: Jesus crescia em sabedoria (Lc 2.52), e ignorava algumas coisas; da sensibilidade: a sua alma estava profundamente triste (Mt 26.38), e ele era manso e humilde de coração (Mt 11.29); da vontade: não seja como eu quero, e sim como tu queres (Mt 26.39). E, na medida em que se possa admitir uma distinção tríplice na natureza humana, ele era, essencialmente e por necessidade, o que nós nos tornamos por meio do seu Espírito: inteiramente santificado e conservado irrepreensível em corpo, alma e espírito. A razão era nele o reflexo limitado do seu próprio Logos eterno; o seu espírito era a morada do Espírito eterno, restituído nele à nossa raça; e, por meio da sua alma, ele se aliou às necessidades e fraquezas da natureza humana sensível. Apropriou-se de todos os elementos dela, na sua unidade, para redimi-los todos.
II, 117Sem excesso. 2. Daí se segue que, como homem, nosso Senhor nada acrescentou à sua humanidade ao assumi-la na Divindade. O Logos divino não deslocou o espírito humano, nem o elevou a uma condição que ultrapassasse os limites humanos. Sobre essa verdade repousa, como veremos, a possibilidade da linguagem de subordinação usada pelo Salvador.
Desenvolvimento sem pecado. II. A natureza humana de nosso Senhor passou por um processo sem pecado: um desenvolvimento comum aos outros homens, mas, diferentemente do deles, sem pecado. Isto é, por um lado, a união com a divindade não deteve a evolução natural da sua humanidade; e, por outro, essa união serviu para assegurar o desenvolvimento perfeito da natureza inferior, sob a condição, porém, de fazer das fraquezas dela o instrumento e o meio da Obediência e da Paixão expiatórias. Esses temas serão abordados na História do Mediador; no momento, basta expô-los na medida em que são essenciais a uma visão correta da humanidade perfeita de Cristo.
Homem τελείως. 1. Nosso Senhor foi perfeitamente homem: τελείως. A sua natureza humana foi a realização perfeita da ideia eterna da humanidade. Por isso ele chama a si mesmo o FILHO DO HOMEM; e são Paulo o chama o segundo e melhor, ou último Adão (1Co 15.45): ὁ ἔσχατος Ἀδάμ. Enquanto em Adão a imortalidade era um dom condicional, em Cristo era absoluta: a vida estava nele (Jo 1.4). Mas ele foi enviado para mostrar a perfeição de uma existência humana no mundo do pecado e, por isso, o curso da sua vida passou pelo desenvolvimento comum. Ressalvado o mistério da sua entrada na nossa raça, ele foi, daí em diante, em todas as coisas como um de nós.
II, 1182. Mas ele veio em semelhança de carne pecaminosa (Rm 8.3): na carne da fraqueza e da capacidade de sofrer e morrer. Renunciou ao seu direito à imortalidade da sua santa humanidade e, por si mesmo, deu a sua vida. Mas há outro sentido da Carne nas Escrituras que nada tem em Cristo: o do capítulo sete de Romanos. Nele estava o mistério de todas as consequências do pecado, como o suportar da dor sem o próprio pecado que causa a dor. O desenvolvimento da sua natureza humana foi absolutamente sem pecado, porque ela era o ente santo que pertencia ao Filho de Deus, e que foi chamado e é o Filho de Deus (Lc 1.35).
A Pessoa encarnada. A Pessoa divino-humana é a união, o resultado da união, das duas naturezas; ou, antes, a personalidade que une as condições da existência divina e da humana. Essa personalidade é una e indivisa, como o atesta a linguagem que atribui tanto à Pessoa como à obra de Cristo atributos tirados de uma e de outra natureza, ao passo que o Sujeito de todos os predicados é um só. As duas naturezas da única Pessoa não se confundem nem se fundem uma na outra; isso é garantido à razão pela eterna necessidade do caso, como também pelo fato de que nenhum dos atributos de qualquer das duas naturezas é jamais atribuído à outra nas Escrituras.
União hipostática. Essa união das duas naturezas numa só pessoa não recebe nome no Novo Testamento. A teologia a chama UNIÃO HIPOSTÁTICA. O termo deriva do uso posterior de Hipóstase para designar as subsistências pessoais na Divindade, em distinção da sua Substância ou Essência comum. Por isso, significa que da união das duas naturezas resulta uma só Hipóstase ou Pessoa. Não define mais que isso. E, portanto, é apenas a expressão teológica da verdade acerca de Cristo que, sem definição, permeia as Escrituras. Mas há dois erros contra os quais o termo precisa ser resguardado, ou melhor, contra os quais as duas palavras do termo resguardam a doutrina, Hipostática. cada uma de um deles. Sendo a união HIPOSTÁTICA, não é a conjunção de duas naturezas por um laço qualquer que permita concebê-las como separadas. Resultando a Hipóstase de uma União. UNIÃO, não pode haver mistura das duas naturezas num composto que já não fosse nenhuma delas, mas algo entre Deus e o homem.
II, 119Um só Cristo indiviso. I. A unidade indivisa e indivisível de UM SÓ CRISTO marca a linguagem das Escrituras, nas suas referências tanto à Pessoa como à obra dele. Consideremos cada uma por sua vez.
Uma só Pessoa. 1. Quer ele fale de si mesmo, quer os seus apóstolos falem dele, a regra é que, seja qual for o nome dado a nosso Senhor como sujeito, aplicam-se a esse sujeito predicados tirados de ambas as naturezas, ou de uma e de outra alternadamente. Algumas ilustrações bastarão; mas é preciso classificá-las com cuidado, pois são a indução pela qual chegamos ao nosso princípio geral, ou fórmula.
Sujeito das duas classes de predicados. (1.) Em todas aquelas passagens, já mencionadas, que unem numa só frase o divino e o humano, o sujeito é Jesus Cristo, e os predicados são tirados de ambas as naturezas. A igreja de [Deus], a qual ele comprou com o seu próprio sangue (At 20.28): ele, o sujeito, tem por predicados Deus e a humanidade cujo sangue foi derramado. O mesmo acontece quando se diz que jamais teriam crucificado o Senhor da glória (1Co 2.8). Na verdade, todas as passagens citadas para ilustrar a proposição geral, e outras que se poderiam acrescentar, contêm virtualmente atributos de ambas as naturezas.
Divino ou humano. (2.) Em algumas, porém, o sujeito único tem especialmente um predicado divino. O Filho do Homem, o sujeito, tem por predicado que está no céu (Jo 3.13) [N. do T.: palavras da KJV, ausentes de parte dos manuscritos; a NAA termina o versículo em “o Filho do Homem”]. A glória que eu tive junto de ti (Jo 17.5) cai sob a mesma lei; e muitas outras, como antes que Abraão existisse, Eu Sou (Jo 8.58).
(3.) Em outras passagens (pela natureza do caso, a grande maioria), o predicado é simples e puramente humano. Jesus estava dormindo, Jesus chorou (Jo 11.35), a sua alma estava profundamente triste, e ele disse depois da ressurreição: Não me detenha (Jo 20.17). Essas coisas entram, naturalmente, na própria substância da história do seu estado de humilhação; e a última e mais misteriosa ilustração é o duplo clamor com que o Salvador consumou a expiação: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? (Mt 27.46) e Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito! (Lc 23.46).
II, 120(4.) Se levarmos essa lei conosco para o Novo Testamento, veremos que em toda parte aparece uma só Pessoa, que fala e de quem se fala ora como Deus, ora como homem, ora como ambos; e sem o menor cuidado de evitar possíveis mal-entendidos. Um só Cristo, com as suas duas classes de atributos, é sempre pressuposto como algo familiar à consciência cristã.
Uma só obra mediadora. 2. Essa unidade aparece também em tudo o que se diz da obra do Redentor. Toda a sua ação mediadora não é a do Filho de Deus somente, nem a do Filho do Homem, mas a do Θεάνθρωπος, o DEUS–HOMEM na sua Pessoa inteira, indivisa e indivisível.
Nenhuma distinção. (1.) Deve-se observar que, negativamente, a Escritura nunca traça uma linha de demarcação entre atos divinos e atos humanos na missão e nas funções de Jesus. Ela distingue, sim, como vimos, entre as naturezas, e de modo muito elaborado, o que torna mais marcada a ausência da outra distinção.
Um só Agente de todas as funções. (2.) Dá-se toda variedade possível de nomes ao único Agente da redenção; e todo aspecto e todo ato da sua obra são atribuídos a cada uma dessas designações: o Verbo, o Filho, Jesus, Cristo, Jesus Cristo, todos representam aquele que assumiu a carne e se fez homem, redimiu o mundo, governa na presente dispensação e deporá a sua autoridade mediadora quando o fim tiver chegado.
A Pessoa eterna. (3.) Às vezes se usa uma linguagem que associa a humanidade à divindade no estado preexistente. O Senhor encarnado parece estar no céu antes da ascensão, antes da encarnação, antes que o mundo existisse: ele, o segundo homem, é [o Senhor] do céu (1Co 15.47); e a condescendência de Cristo Jesus, como exemplo do sacrifício de si mesmo na terra, são Paulo a faz remontar à eternidade da sua existência na forma de Deus (Fp 2.6). Nele, o Cabeça encarnado da igreja mística, os santos são considerados, num propósito eterno, predestinados para serem adotados como filhos (Ef 1.5). Assim também o Cordeiro foi morto, e a redenção realizada, antes da fundação do mundo (1Pe 1.20). Às vezes, por outro lado, empregam-se termos que pareceriam trazer para o tempo a existência eterna do Autor da redenção, como quando se diz que o Filho foi plenamente gerado hoje, na nossa natureza: hoje eu gerei você (At 13.33).
II, 121O Agente é um só. (4.) Mas sempre e em toda parte o Agente é um só: um só na personalidade, um só na operação ou ἐνέργεια θεανδρική [operação divino-humana]. Tudo o que foi feito e sofrido foi feito e sofrido pelo único Redentor: o Filho de Deus, o Filho do Homem, o Filho, Jesus Cristo homem, o único Mediador. Ele é um só, por um vínculo entre as suas naturezas que não tem semelhança nem analogia em todo o âmbito do pensamento humano, a não ser a da união entre a alma e o corpo do homem. E aqui está o fundamento de todo o edifício da obra redentora: tudo é divino na sua virtude e eficácia infinitas, tudo é humano na sua validade para a humanidade. O único Cristo que redimiu o mundo pode ser distinguido quanto às suas naturezas; mas, na sua obra, a distinção volta a desaparecer.
Sem confusão. II. Embora a Pessoa seja una na unidade da divindade e da humanidade, as Escrituras nunca confundem as duas naturezas em si mesmas. Isso se vê, primeiro, no fato de que, positivamente, os dois elementos são postos em antítese um ao outro; e, segundo, no fato de que, negativamente, nenhum dos atributos de uma natureza é jamais aplicado à outra.
Naturezas mantidas distintas. 1. Quanto ao primeiro ponto, podemos remeter de novo às passagens já citadas como prova da distinção das naturezas, das quais são Paulo deu, por assim dizer, a fórmula: Jesus Cristo, que, segundo a carne, veio da descendência de Davi e foi designado Filho de Deus com poder, segundo o Espírito de santidade (Rm 1.3-4). A antítese deve ser pressuposta em todos aqueles textos que falam do Filho ou do Verbo que se faz carne ou se torna homem. Isso se aplica especialmente a são João, em cuja linguagem se fez ou tornou-se equivale a veio em: o Verbo se fez carne (Jo 1.14) equivale a Jesus Cristo veio em carne (1Jo 4.3) [N. do T.: na KJV, que Pope segue, o v. 3 também traz essas palavras; na NAA, elas estão só no v. 2]. Carne e espírito não são mais absolutamente distintos, no ensino não materialista da Bíblia e na filosofia do senso comum, do que as duas naturezas do Redentor.
Nenhuma natureza com os atributos da outra. 2. Negativamente, pode-se apelar para o cuidadoso decoro das Escrituras, que nunca predicam da Deidade de Cristo em abstrato os atributos da humanidade, nem da humanidade de Cristo em si mesma os atributos da Divindade. Quando se diz: pastorear a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue (At 20.28), Deus, ou o Senhor, conforme a leitura que se adote, é a Pessoa de Cristo, cujo sangue humano, e não a sua divindade como tal, comprou a igreja. Essa regra de linguagem não tem exceção.
Verdade necessária. 3. Não há necessidade, porém, de provar nenhuma dessas duas posições. Pela natureza das coisas, o Infinito não pode tornar-se o finito, a não ser nas especulações irracionais do panteísmo. A natureza divina e a humana são essencial e eternamente distintas. Pode-se dizer que há comunhão entre nós e Deus, e união entre o homem e Deus em Cristo. Mas, no próprio Deus-homem, essa união é também comunhão: comunhão das naturezas na união da Pessoa.
Na Escritura. As passagens citadas em confirmação das diversas proposições sobre a Pessoa de Cristo tornam desnecessário um exame demorado do testemunho das Escrituras. Mas será útil lançar um olhar geral sobre as diversas formas da doutrina, tal como foi revelada gradualmente pelo Espírito Santo: sobre o curso de desenvolvimento pelo qual o MISTÉRIO DE DEUS, QUE É CRISTO (Cl 2.2), foi gradualmente dado a conhecer à apreensão da fé, embora continuasse reservado como mistério que a razão não pode compreender. Daremos apenas o simples esboço do assunto: primeiro, do ensino preparatório do Antigo Testamento; depois, do testemunho do Salvador a respeito de si mesmo; e, por último, do ensino apostólico maduro depois do Pentecostes. É preciso lembrar que só temos de tratar da unidade indivisível da Pessoa do Salvador nas duas naturezas.
Antigo Testamento. I. Em duas ocasiões, nosso Senhor declarou enfaticamente que o Antigo Testamento dava testemunho dele. Primeiro, quando deu o mandamento, único no seu gênero, de examinar as Escrituras (Jo 5.39) [N. do T.: a NAA traz “Vocês examinam as Escrituras”, no indicativo; Pope lê o verbo como imperativo, com a KJV], isso foi o reforço e a recompensa da ordem. Depois da ressurreição, ele mesmo examinou as Escrituras com dois dos seus discípulos (Lc 24.27) como nunca foram examinadas por nenhum outro; e deu-lhes, naquele discurso que não se conservou, o esboço que nos cabe preencher. Encontramos nos registros antigos indicações da natureza humana e da divina, que a princípio correm paralelas, mas distintas; e, nos livros posteriores do Antigo Testamento, elas se unem nas predições de uma só Pessoa encarnada, que, como Servo de Jeová, une as duas.
II, 123O Descendente. 1. Ele é O DESCENDENTE [N. do T.: no inglês, the Seed, “a semente”, como no hebraico e no grego; nas passagens citadas a seguir, a NAA traz “descendente” ou “descendência”]: termo que percorre toda a Bíblia significando o elemento da natureza do homem no seu desenvolvimento, o símbolo da sua continuidade como raça; e, aplicado a Cristo, tem uma relação específica com a posição dele na humanidade como seu representante. Primeiro, ele é o Descendente da mulher (Gn 3.15): esse Primeiro Evangelho contém a promessa de um Vencedor divino de Satanás, mas por enquanto declara apenas a humanidade representativa de Cristo. Segundo, ele é o Descendente de Abraão: na sua descendência serão benditas todas as nações da terra (Gn 22.18). Terceiro, ele é o Descendente de Davi: farei surgir depois de você o seu descendente… e estabelecerei para sempre o trono do seu reino (2Sm 7.12-13). Essas diversas predições são interpretadas, cada uma, no Novo Testamento como referentes a um só Cristo, que foi o Filho enviado, nascido de mulher (Gl 4.4), a respeito de quem são Paulo dissera pouco antes que a promessa a Abraão se referia a UM só: e ao seu descendente, que é Cristo (Gl 3.16); o qual, segundo a carne, veio da descendência de Davi, mas é o Filho de Deus com poder (Rm 1.3-4). São três profecias convergentes, que reaparecem nos Salmos e nos Profetas sob várias formas.
O Anjo da Presença. 2. Ao mesmo tempo, e correndo em paralelo com elas, ele é o ANJO DE JEOVÁ que apareceu a Abraão e lhe prometeu a vinda dele mesmo, o Descendente. Nele está o meu nome (Êx 23.21). Ele é o ANJO DA FACE DE JEOVÁ (Is 63.9); e o profeta Oseias, recordando a luta dele com o patriarca, chama-o o Senhor (Jeová), o Deus dos Exércitos (Os 12.5). Em Malaquias, ele é o Anjo da aliança (Ml 3.1) [N. do T.: a NAA traz “o mensageiro da aliança”; em hebraico, é a mesma palavra que se traduz por “anjo”]; e esse nome olha para trás, para a teofania anterior, isto é, a manifestação do Filho revelador em forma de anjo, e olha para a frente, para a sua futura aparição na forma que ele mesmo escolheu, a de Homem. Por isso, no Novo Testamento, ele é o Jeová que, encarnado, veio ao seu templo literal, e cuja voz Isaías tinha ouvido no templo místico (Is 6.1), quando viu a glória dele e falou a respeito dele (Jo 12.41).
A Pessoa única. 3. As duas naturezas também se unem nas partes posteriores do Antigo Testamento.
(1.) Três salmos podem ser escolhidos como conclusivos acima de todos os outros: não como se esgotassem o assunto, mas como a chave indicada pelo Novo Testamento para a solução do antigo mistério de Cristo (Ef 3.4). Você é meu Filho, hoje eu gerei você (Sl 2.7): a primeira parte dessa frase, conforme declara são João, refere-se a uma filiação eterna (Jo 1.14); a segunda, conforme são Paulo, refere-se à sua revelação na carne, consumada e demonstrada na ressurreição (At 13.33). Disse o SENHOR ao meu senhor (Sl 110.1): aqui, tanto Jeová, no começo, quanto Adonai, no fim, pertencem ao Supremo; e o Senhor de Davi é, em sua Pessoa encarnada, exaltado à direita de Deus. O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre… Deus, o seu Deus, o ungiu com o óleo de alegria, como a nenhum dos seus companheiros (Sl 45.6-7). Aqui o nome de Deus é dado ao Filho eterno, cuja excelência humana, em união com a Divindade, completa o caráter encarnado e imprime o selo da supremacia encarnada daquele a respeito de quem se diz à Igreja: por ser ele o seu senhor, incline-se diante dele (Sl 45.11).
II, 124Os profetas. (2.) O testemunho de Jesus pelo Espírito de profecia é ainda mais nítido nos profetas propriamente ditos. O Jeová da visão de Isaías é aquele Cristo que é o menino que nos nasceu e o filho que se nos deu (Is 9.6): como o filho dado, é o DEUS FORTE; como o menino nascido, ou melhor, em sua Pessoa encarnada, é Maravilhoso, Príncipe da Paz, maravilha para a contemplação adoradora da fé e paz da posse que a satisfaz. Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará EMANUEL (Is 7.14): nesse nome, que o nosso Salvador nunca usou como designação pessoal, anuncia-se o mistério pleno do Cristo de Deus. Miqueias fala daquele que há de reinar em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade… E este HOMEM será a paz (Mq 5.2, 5) [N. do T.: a NAA traz “E ele será a nossa paz”]. Jeremias profetiza a respeito do Redentor: E este será o nome pelo qual será chamado: SENHOR, JUSTIÇA NOSSA (Jr 23.6). Suscitado a Davi como a Justiça encarnada, ele é JEOVÁ; e dá o seu nome à Cidade Santa, a Igreja (Jr 33.16), como herdeira da justiça de Deus que há nele (2Co 5.21) [N. do T.: o original indica 2Co 5.12]. O testemunho divino, em Zacarias, sobre o homem que é o meu companheiro, diz o Senhor dos Exércitos (Zc 13.7) [N. do T.: a NAA traz “aquele que é o meu companheiro”], torna claro o seu sentido profundo quando ligado a olharão para MIM, a quem traspassaram (Zc 12.10) [N. do T.: a NAA traz “Olharão para aquele a quem traspassaram”], e às citações desse texto feitas no Novo Testamento tanto pelo Redentor (Mt 24.30) quanto por são João (Ap 1.7). Daniel é o primeiro a dar a Jeová encarnado o título de Filho do Homem e o apresenta investido de domínio supremo: alguém como um filho do homem (Dn 7.13) deve ser posto em paralelo com o aspecto do quarto é semelhante ao Filho de Deus (Dn 3.25) [N. do T.: a NAA traz “semelhante a um filho dos deuses”]. A aplicação que o nosso Salvador faz dos títulos de Daniel há de assegurar ao profeta, talvez, o lugar mais alto entre os testemunhos antigos. Malaquias os encerra, no cânon, com a profecia daquele Anjo da aliança que, no cumprimento, é Cristo vindo ao seu templo (Ml 3.1): essa pode ser considerada a última demonstração, a que coroa todas as outras, de que o Jeová do Antigo Testamento é o SENHOR do Novo.
O Servo. (3.) É preciso acrescentar que a Pessoa encarnada assim prefigurada, e mais do que prefigurada, nas Escrituras anteriores é apresentada, tanto nos salmos quanto na profecia, como o Agente subordinado da obra da Trindade mediadora. Reservando para o lugar próprio o tratamento mais completo desse ponto, basta-nos indicar que o Cristo futuro é o Ungido do Senhor (Sl 2.2), ou Messias; o Ministro de Deus: Eis aqui o meu servo, a quem sustenho (Is 42.1). A palavra do Senhor (1Sm 3.21), nos dias de Samuel, é a eterna Sabedoria (Pv 8.30-31), o próprio Deus e, no entanto, distinto: personificado nos Provérbios, ele está encarnado sob esse nome no Novo Testamento; mas, em ambos, é o revelador do conselho divino. Esses últimos termos, porém, como o de Anjo, não estão especificamente ligados, no Antigo Testamento, à natureza humana de nosso Senhor. Pertencem antes à sua Pessoa divino-humana ainda não revelada: o ANJO–SERVO ou o SERVO–FILHO de Jeová.
II, 125A encarnação velada. (4.) O testemunho do Antigo Testamento, lido à luz do Novo, é, portanto, abundantíssimo e claríssimo. Mas a encarnação do Filho de Deus foi um mistério até que ele veio. A teologia judaica posterior não indica que a nação a tenha previsto. E são Paulo nos diz que Cristo era o mistério de Deus (Cl 2.2), assim como também o era a revelação da salvação ao mundo, até a plenitude do tempo (Gl 4.4).
O testemunho de Jesus. II. O testemunho de nosso Senhor sobre a sua única e indivisível Pessoa divino-humana é, pela natureza das coisas, supremo: explica os prenúncios do Antigo Testamento e fornece todos os elementos que, sob o ensino do Espírito Santo, foram mais ou menos desenvolvidos pelos evangelistas e apóstolos. Deve ser buscado única e exclusivamente nas suas próprias palavras, ditas na terra e do céu.
Na terra. 1. O testemunho que Jesus deu sobre esse mistério enquanto esteve na terra já foi antecipado no tratamento anterior da Personalidade única. Pode ser exposto mais plenamente, embora em resumo e com as repetições necessárias, como segue:
O uso que o Senhor faz do termo Filho. (1.) Ele adota para si três nomes: O FILHO DE DEUS, O FILHO DO HOMEM e O FILHO. O primeiro, empregado só raramente, refere-se à sua natureza divina; o segundo, usado habitualmente, faz dele um com a humanidade; e o terceiro aplica-se muito geralmente, se não sempre, à sua Pessoa indivisível, como aquela que inclui os dois anteriores.
Distinções. (2.) Embora isso seja verdade em geral, também é verdade que cada um desses três nomes é referido pelo Redentor à sua Pessoa única: como preexistente em igualdade com o Pai; como Homem entre os homens; e como um só e o mesmo no tempo e na eternidade, no céu e na terra. O uso que ele faz deles pode ser estudado com proveito.
II, 126Textos. 2. Isso pode ser ilustrado com algumas passagens que trazem a autorrevelação de nosso Senhor tal como se encontra nos evangelistas.
Filho de Deus. (1.) O termo Filho de Deus, ele mesmo raramente o usou; mas aceitou o título, em seu sentido divino, tanto dos seus discípulos quanto dos seus inimigos. Estes entenderam que ele se fazia igual a Deus (Jo 5.18); e nosso Senhor o confirmou, naquela ocasião e em muitas outras: para que todos honrem o Filho assim como honram o Pai (Jo 5.23). Eu e o Pai somos um (Jo 10.30). Quem vê a mim vê o Pai (Jo 14.9). Foi acusado de blasfêmia por se chamar Filho de Deus. Não tinha dado a si mesmo esse nome; mas aceitou-o e apelou às suas obras como prova de que esse nome lhe pertencia por direito: o Pai está em mim e eu estou no Pai (Jo 10.38). Mas, como Filho do Deus vivo, ele é também o Filho do Homem; e, quando Simão Pedro fez essa confissão, seu Mestre declarou que o conhecimento da sua Pessoa divino-humana fora dado pela revelação do próprio Pai (Mt 16.16-17). Só uma vez o Senhor, por assim dizer espontaneamente, chama a si mesmo Filho de Deus; e então se apresenta ao cego curado, no templo, como alguém que lhe fala como homem: Você crê no Filho de Deus?… é aquele que está falando com você (Jo 9.35, 37) [N. do T.: a NAA traz “Você crê no Filho do Homem?”]. É um exemplo muito notável.
O Filho. (2.) De modo geral, ele fala como O Filho, em sentido absoluto: sempre com referência ao Pai, mas sempre em sua relação encarnada. Não é preciso citar outras passagens além daquelas em que o único Senhor, o Filho, declara a sua preexistência e a sua igualdade com Deus. Como o Filho, ele disse: antes que Abraão existisse, Eu Sou (Jo 8.58), declarando ao mesmo tempo a sua preexistência e a sua eternidade. Assim também quando afirmou ter recebido do Pai vida em si mesmo (Jo 5.26): vida originada no Pai, mas eterna, ou sem começo. Ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho (Mt 11.27): só o Filho, em sua pessoa encarnada, como Homem, revela o Pai. E é o Filho, aproximando-se da cruz como homem, quem ora: glorifica-me contigo mesmo com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo (Jo 17.5).
Filho do Homem. (3.) Mas, assim como o nome Filho do Homem foi o que o Redentor escolheu para si, assim também é o que dá a mais plena expressão à unidade da Pessoa encarnada. Ele o assumiu em lugar do nome mais restrito de Messias ou Cristo, por ser a designação messiânica que o unia a toda a humanidade. E esse nome é o sujeito de uma variedade sem fim de predicados tomados indiferentemente das suas duas naturezas. Isso já foi suficientemente demonstrado. Bastará apelar mais uma vez ao primeiro uso que ele fez do Nome que tanto amava: Ora, ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que de lá desceu, o Filho do Homem, que está no céu (Jo 3.13) [N. do T.: a NAA não traz “que está no céu”]. Aqui estão a preexistência, a descida e o retorno daquele que, em sua pessoa única, é o Filho do Homem. Outra palavra, registrada por são João como dita no fim do ministério do Salvador, transfere isso ao Filho em sentido absoluto: Vim do Pai e entrei no mundo, mas agora deixo o mundo e vou para o Pai (Jo 16.28). Toda a doutrina da filiação divina e divino-humana de nosso Senhor está aqui.
II, 127Do céu. 3. O testemunho dado do céu é o complemento do que está nos Evangelhos; e remove qualquer leve vestígio de dúvida que alguns dos ditos proferidos em sua subordinação possam ter deixado. A respeito dele, podemos usar as palavras dos apóstolos: Agora o senhor fala claramente (Jo 16.29). O Apocalipse final, ou Revelação a respeito de Jesus Cristo, foi dado por Jesus a são João e, por meio dele, à Igreja para sempre. O próprio Redentor aparece em sua manifestação final e mais gloriosa em sua forma humana, como um semelhante a um filho de homem (Ap 1.13); mas diz, como Deus: Não tenha medo. Eu sou o primeiro e o último (Ap 1.17) [N. do T.: o original indica Ap 1.11]. E, depois de muitas palavras que mostram que ele ainda é o Servo exaltado da Trindade, deixa ressoando em nossos ouvidos o último de todos os seus testemunhos: Tudo está feito!… Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim (Ap 21.6; 22.13). Assim, o testemunho supremo é o dele mesmo.
O testemunho apostólico. III. O testemunho dos evangelistas e apóstolos é o do próprio Salvador por meio do Espírito: é o cumprimento da promessa Ele me glorificará (Jo 16.14).
Os evangelistas. 1. Os evangelistas têm a precedência. Mas, como o de são João deve ser considerado testemunho apostólico, resta apenas o dos sinóticos. São Mateus e são Lucas o apresentam nas genealogias. No primeiro, o Descendente de Davi é Emanuel, Deus conosco (Mt 1.23); no segundo, o Descendente da mulher é Filho de Deus (Lc 1.35); o primeiro o liga a José, seu suposto pai, ao judaísmo e ao Antigo Testamento; o segundo, a Maria, ao mundo e à nova dispensação. Os sinóticos e são João concordam perfeitamente, embora são João, como se verá, faça referência mais direta à natureza divina do Encarnado.
II, 128Os apóstolos. 2. É comum aos apóstolos chamar o seu Mestre de SENHOR, título que funda a supremacia mediadora do Redentor na dignidade fundamental de Jeová, o SENHOR; e também lhes é comum atribuir-lhe atributos e exigir para ele homenagens que implicam a sua divindade. Os tipos distintos do ensino deles quanto à Pessoa única podem ser indicados brevemente.
São Pedro. (1.) São Pedro, pregando em Atos aos estrangeiros reunidos em Jerusalém, proclama a autoridade messiânica de Cristo em termos gerais e ainda não se detém no mistério da origem divino-humana do homem aprovado por Deus (At 2.22). Acumula nomes que implicam dignidade divina, como o Santo e o Justo e o Autor da vida (At 3.14-15); mas o que predomina é a subordinação do Servo de Deus de quem Isaías falou: Tendo Deus ressuscitado o seu Servo (At 3.26), παῖδα, não o Filho em sentido absoluto, mas o Servo-Filho. Nas suas epístolas, ele continua o tributo ao Messias mediador e começa com uma bênção ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo (1Pe 1.3). Mais adiante, fala de Cristo como morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito (1Pe 3.18), unindo aqui as duas naturezas pela mesma fórmula que são Paulo usa. Na segunda epístola, lemos sobre a justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo; diz-se que os crentes se tornam coparticipantes da sua natureza divina; e para o Senhor… mil anos são como um dia (2Pe 1.1-4; 3.8). Além disso, são Pedro encerra o seu ministério com uma doxologia que só Deus pode receber: nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja a glória, tanto agora como no dia eterno (2Pe 3.18). São Tiago chama o Salvador de o Senhor da glória: aquele bom nome que pertence somente à Deidade (Tg 2.1, 7). E são Judas atribui ao único Deus sábio, nosso Salvador, glória e majestade (Jd 25) [N. do T.: a NAA traz “ao único Deus, nosso Salvador, mediante Jesus Cristo, Senhor nosso”].
São Paulo. (2.) São Paulo tem uma ordem de testemunhos que lhe é peculiar. A maior parte deles, porém, já foi citada; e os que dizem respeito à subordinação da Pessoa de Cristo devem ficar reservados para o lugar próprio. A Epístola aos Romanos é, por excelência, o tratado mediador e contém a expressão mais clara da unidade e da distinção nas duas naturezas. Logo no começo, isso é dito assim: da descendência de Davi, segundo a carne, isto é, a natureza humana, e declarado ou definido Filho de Deus com poder, segundo o Espírito de santidade (Rm 1.3-4), isto é, a divina. Temos aqui uma filiação dupla e uma natureza dupla. A mesma distinção aparece depois, com variação: deles descende o Cristo, segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito para sempre (Rm 9.5). Não pode haver dúvida de que o propósito expresso do apóstolo é unir aqui as duas naturezas. Entre essas duas passagens há outra de grande importância. Deus enviou o seu próprio Filho, o Filho de si mesmo, em semelhança de carne pecaminosa; aquele próprio Filho que ele não poupou (Rm 8.3, 32), em que ἰδίου υἱοῦ corresponde ao πατέρα ἴδιον da conclusão correta dos judeus: ele dizia que Deus era seu próprio Pai (Jo 5.18). Na Epístola aos Coríntios, notável pela expressão mais plena da subordinação mediadora, há alguns anúncios claros da dignidade divino-humana. Cristo é o Senhor da glória (1Co 2.8), a quem, quanto à sua natureza humana, os poderosos deste mundo crucificaram. E onde a sua subordinação é ensinada do modo mais expresso, ele é o Senhor vindo do céu e espírito vivificante em sua natureza divina, ao passo que é o segundo Adão em sua natureza humana (1Co 15.45-47) [N. do T.: no v. 47, a NAA traz “o segundo homem é do céu”]. Este Senhor é o Espírito (2Co 3.17), que é Deus; e é no fim dessas epístolas, nas quais Deus é o cabeça de Cristo (1Co 11.3), que se pronuncia a bênção trinitária, a qual põe o Encarnado na Trindade como o canal de toda a graça que flui do amor de Deus e se torna posse comum dos crentes por meio do Espírito Santo. As epístolas do cativeiro romano (as três epístolas cristológicas propriamente ditas) contêm outro tipo de expressão: em harmonia com o dos escritos anteriores e posteriores de são Paulo, mas muito diferente. Na Epístola aos Colossenses, a Pessoa de Cristo, o Filho do amor do Pai, é a imagem do Deus invisível, o primogênito de (ou antes de) toda a criação (Cl 1.15-17); e nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade (Cl 2.9). Ora, essas palavras admiráveis descrevem a Pessoa encarnada; não, porém, subindo da natureza inferior, como em Romanos, mas descendo da superior. Diz-se daquele cujo sangue redimiu os homens que ELE É a Imagem de Deus: ele mesmo invisível como Espírito, mas manifestando a Divindade na carne; que ELE É o Primogênito antes de toda criatura (pois nele foram criadas todas as coisas, e ele é antes de todas as coisas), mas também o Primogênito da raça humana criada, como herdeiro e representante de todos: Primogênito em dois sentidos. A Epístola aos Efésios não contém nenhuma declaração expressa sobre esse tema. Mas, como documento especial da Trindade mediadora, atribui a nosso Senhor, em relação a Deus, à Igreja e à alma individual, um lugar que não pertence a nenhuma criatura. É digno de nota que só aqui são Paulo se junta a são Pedro ao bendizer o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo (Ef 1.3), palavras que poderiam parecer referir o primeiro título à humanidade e o segundo à divindade de Cristo, mas que na verdade pertencem à doutrina da sua subordinação. A Epístola aos Filipenses é singular por trazer a única passagem em que são Paulo se aproxima do mistério da encarnação. Cristo Jesus é o único sujeito de todos os predicados daquele parágrafo em que toda a trajetória do Redentor se condensa num único e sublime exemplo de condescendência. Quanto à sua divindade, ele existia, ou melhor, existe, na forma de Deus (Fp 2.6-8): ὐπάρχων estabelece a Deidade consubstancial, e μορφὴ Θεοῦ, a subsistência pessoal na Trindade. Quanto à sua humanidade, ele é reconhecido em figura humana; ou melhor, como Homem, é semelhante aos seres humanos. A palavra feito liga a passagem às palavras dirigidas aos Gálatas, feito de mulher (Gl 4.4), e, de modo mais notável, às de são João: o Verbo se fez carne (Jo 1.14) [N. do T.: Pope se apoia no inglês “made”, que nas três passagens traduz o mesmo verbo grego; a NAA traz “tornando-se semelhante” (Fp 2.7) e “nascido de mulher” (Gl 4.4)]; ao passo que a expressão de são Paulo, semelhante aos seres humanos, nos mostra que a de são João não deve ser mal interpretada como se declarasse uma mudança real de uma natureza em outra. A forma de servo exprime a unidade da Pessoa mediadora subordinada. As epístolas pastorais contêm o testemunho final do apóstolo: as suas PALAVRAS FIÉIS. Aparecem uma ou duas formas novas da doutrina. A manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador (Tt 2.13): essas palavras não são absolutamente sem paralelo em são Paulo; são o eco final daquele antigo sobre todos, Deus bendito para sempre (Rm 9.5). As palavras Deus e Salvador pertencem gramaticalmente a uma só pessoa, assim como o Deus e Pai de Cristo é um só na Epístola aos Filipenses. Teologicamente, pertencem à Pessoa única que é Deus e, como Encarnado, nosso Salvador. Não se deve esquecer que Deus, nosso Salvador, já tinha sido antes tornado sinônimo de Cristo Jesus, nosso Salvador (Tt 1.3-4). Na Primeira Epístola a Timóteo há um novo exemplo do método de unir as duas naturezas: o mistério da piedade, aquele que foi manifestado na carne, justificado em espírito (1Tm 3.16). E isso lança luz, retrospectivamente, sobre aquelas palavras: Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e a humanidade, o homem Cristo Jesus (1Tm 2.5), ou Cristo Jesus, HOMEM. As duas passagens explicam-se mutuamente. Na última dessas pastorais, o apóstolo se despede do assunto na doxologia em que convida a Igreja universal a dizer amém: O Senhor me livrará… A ELE, GLÓRIA PARA TODO O SEMPRE. AMÉM! (2Tm 4.18).
II, 130Epístola aos Hebreus. (3.) A Epístola aos Hebreus nada acrescenta de positivamente novo à forma da doutrina; mas é abundantemente clara quanto à própria doutrina. O primeiro capítulo é simplesmente uma exposição da divindade do Encarnado como tal. Começa com uma nova leitura do ensino de são Paulo aos colossenses: o Filho encarnado, pois Deus nos falou pelo Filho (Hb 1.2), é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu Ser (Hb 1.3). É chamado Deus pelo Pai, que o assenta no seu trono mediador (Hb 1.8); e a ele se atribui a produção de todos os fenômenos, que ele cria e põe de lado, permanecendo ele próprio O MESMO (Hb 1.10-12). O segundo capítulo esgota a realidade da humanidade de nosso Senhor. Tanto o que santifica como os que são santificados, todos vêm de um só (Hb 2.11). Ele participou dessas coisas: da carne e sangue dos filhos (Hb 2.14). Depois que os dois capítulos trataram separadamente das duas naturezas, somos chamados no terceiro (ficando por trás do véu o mistério da junção das duas naturezas) a considerar atentamente o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confissão, [Cristo] Jesus (Hb 3.1). Essa Pessoa, Apóstolo de Deus para o homem e Sumo Sacerdote do homem para Deus, pelo Espírito eterno, A SI MESMO ofereceu (Hb 9.14); isto é, sendo divino, o seu Espírito eterno ofereceu a sua humanidade como sacrifício. E o apóstolo, no fim, volta ao pensamento com que terminou o primeiro capítulo, em palavras que condensam toda a doutrina da Pessoa indivisível: Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e para sempre (Hb 13.8).
II, 131São João. (4.) O testemunho pessoal de são João (à parte o registro que ele faz do testemunho de nosso Senhor) encontra-se no Prólogo e no Apêndice do seu Evangelho, nas suas epístolas e no Apocalipse. O Prólogo atribui à natureza divina do Redentor três nomes: o Logos, o Filho, o Deus unigênito (Jo 1.1-18). A natureza humana é chamada Carne. E a união é descrita como o fazer-se, ou tornar-se, carne, e como o habitar nessa carne como num tabernáculo: ele habitou entre nós. Logos é um termo que significa o que a Sabedoria significava no Antigo Testamento; tornara-se corrente na teologia judaica e fora pervertido; são João o resgata e depois não o usa mais. O Filho é a revelação do Deus unigênito na carne. Ele se fez carne, mas não por alguma transformação, pois apenas habitou entre nós: aqui se previne o futuro erro eutiquiano. Ele habitou entre nós, mas não como um Estranho, pois se fez carne e é glorificado na carne: aqui se condena o futuro nestorianismo. As palavras elevadas da introdução do Evangelho devem interpretar o todo. Depois do Prólogo, são João raramente toma a palavra; mas, quando o faz, é quase sempre para mostrar a glória divina do Encarnado, a qual, diz ele, vimos (Jo 1.14). Depois de registrar o primeiro milagre, acrescenta que Jesus manifestou a sua glória (Jo 2.11). De novo, comenta as palavras do Senhor: Ele, porém, se referia ao santuário do seu corpo (Jo 2.21), clara lembrança do habitar em tabernáculo entre nós. Do mesmo modo, a nota particular sobre o ensino simbólico do Senhor acerca do mistério da sua encarnação: Jesus, sabendo… que tinha vindo de Deus e voltava para Deus (Jo 13.3). Na Primeira Epístola, são João retoma o seu termo Logos, mas combina com ele a vida: o Verbo da vida (1Jo 1.1). Como no Evangelho, logo deixa essa designação e se detém na de Filho. A realidade da união das duas naturezas é declarada por todo o teor do parágrafo de abertura: a vida se manifestou, e nós a vimos (1Jo 1.2). Daquele que no Evangelho se diz que se fez carne, diz-se aqui que veio em carne (1Jo 4.2-3). É notável que a epístola, que começa com o Verbo da Vida que se manifestou, termine com o mesmo: Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna (1Jo 5.20). E quem é o verdadeiro Deus? A resposta de são João é o seu último testemunho, e talvez o último testemunho da Bíblia: nós estamos naquele que é o Verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo.
II, 132Tom geral. (5.) Mas, tanto em relação a são João como a todos os outros que registraram a história e a obra do Salvador, o melhor argumento do seu ensino sobre a unidade, a singularidade e a supremacia da Pessoa divino-humana é o tom e o caráter gerais da sua apresentação comum. Não é tanto o resultado de uma avaliação justa do sentido de certas passagens, nem a indução tirada da comparação de muitas, quanto a impressão que o espírito e a maneira das suas comunicações produzem no leitor atento, sobretudo se for um leitor piedoso. Sempre que entramos na presença de Jesus, sentimos que estamos diante de alguém que é Deus e, contudo, não somente Deus; homem e, contudo, não somente homem. Quase não há uma página, ou um episódio numa página, que se possa entender pela teoria de que uma só das naturezas esteja em Cristo: sempre fica algum resíduo que exige a outra natureza. Não há nada semelhante em toda a literatura; é uma concepção que não tem paralelo. O fato de todos os escritores concordarem de modo tão admirável no seu testemunho a respeito de uma só Pessoa, que é Deus e homem, deve ser atribuído ao cumprimento da sua promessa: esse dará testemunho de mim (Jo 15.26).
Histórico. De modo geral, pode-se dizer que a discussão acerca das duas naturezas de Cristo ocupou a Igreja cristã, mais ou menos, desde o princípio; mas as controvérsias que diziam respeito à Pessoa única como tal se limitaram aos primeiros cinco séculos. As teorias e opiniões dos que negaram a divindade de nosso Senhor não entram aqui em consideração, a rigor, pois não admitem nenhuma Pessoa de Cristo tal como a nossa teologia a entende. Temos de assinalar, primeiro, as heresias que erraram a respeito de cada uma das duas naturezas; e, segundo, as que entenderam mal a natureza da sua união.
Humanitarismo. I. A controvérsia sobre a questão da divindade de Jesus só entra aqui de modo indireto.
Primeiras formas. 1. A sua primeira forma apareceu nos ebionitas e nos nazarenos, cristãos que não tinham jogado fora o velho fermento do judaísmo. Os EBIONITAS tiraram o nome ou de Ebion ou de um adjetivo que significa pobreza, e afirmavam que Cristo era somente homem; os NAZARENOS melhoraram essa visão rasteira, acrescentando que ele foi concebido e dotado de modo miraculoso. Assim, esses precursores primitivos da doutrina HUMANITÁRIA [N. do T.: no inglês teológico da época, humanitarian designava quem via em Cristo apenas um homem] foram, respectivamente, os representantes do socinianismo do século XVI e do unitarismo mais recente da nossa época. O SOCINIANISMO, aparentado com a Os nazarenos e o socinianismo. opinião nazarena, admitia que Cristo nasceu milagrosamente, que teve comunhão transcendente com Deus no céu durante a sua vida e que, depois da ressurreição, foi exaltado acima de todas as outras criaturas. Sustentava a inspiração das Escrituras, que, no entanto, se esforçava por harmonizar com as suas ideias por meio de uma nova tradução e de comentários estranhos. Pouco a pouco, esse antigo Ebionismo e unitarismo. socinianismo perdeu os seus traços distintivos e mais nobres e desceu ao UNITARISMO moderno, aparentado com a visão ebionita. Assim, o erro humanitário completou o seu círculo, terminando nestes últimos dias onde começou, na era pós-apostólica.
II, 134Segundo século. 2. Durante o segundo e o terceiro séculos, esses erros primitivos foram reavivados e combinados. Teódoto e Artemão, no segundo século, em 180, afirmaram que Cristo era mero homem, ψιλὸν ἄνθρωπον, mas nascido sobrenaturalmente de uma virgem. Paulo de Samósata, no terceiro século, em 261, sustentou a mesma ideia; mas admitia que o Logos estava nele como um espírito, num sentido mais elevado do que nos profetas. As opiniões desses hereges, porém, estavam ligadas às suas ideias erradas sobre a Trindade, e desapareceram da Igreja ou se fundiram com outras formas de erro.
Classificação. II. Das primeiras heresias que atacaram as naturezas de nosso Senhor, embora todas conservassem a fé na sua Pessoa, umas erraram tanto quanto à divindade como quanto à humanidade, e outras quanto a cada uma delas separadamente.
Heresias gnósticas e docetas. 1. Os erros gnósticos eram muito variados, mas concordavam em geral em fazer da Divindade de Cristo uma emanação e da sua humanidade apenas uma aparência de homem. O divino nele era um éon, e o humano não era um corpo material, mas uma aparência psíquica ou etérea, que nada tinha que ver com a substância da Virgem. Por isso esses hereges foram chamados docetas (de δοκέω [parecer]). Na forma mais antiga do docetismo, a de Cerinto, condenada por são João, o homem Jesus tinha um corpo verdadeiro, sobre o qual o Cristo desceu no seu batismo, para permanecer com ele só até a sua morte. Daí a ênfase da afirmação apostólica de que Jesus Cristo veio em carne (1Jo 4.2): não em mera semelhança de carne.
Cada natureza desonrada. 2. As heresias de Ário e de Apolinário desonraram, respectivamente, as duas naturezas: a primeira negava a eterna consubstancialidade de nosso Senhor com o Pai; a segunda lhe negava o espírito humano; a primeira enfraquecia a Divindade, a segunda a humanidade. Esses erros, porém, estavam intimamente ligados.
Orígenes. (1.) Ambos tiveram os seus antecedentes na era pré-nicena. Orígenes afirmou a geração eterna do Logos e deu o devido destaque à doutrina da filiação eterna; mas, ao insistir indevidamente na subordinação do Filho na Divindade, preparou o caminho para o arianismo. Os seus seguidores esqueceram a eternidade presente na sua doutrina da filiação, bem como a sua palavra de ordem: Deus-homem. E, uma vez que o Logos em Cristo passou a ser considerado uma essência criada, tornou-se, na teoria deles, apenas uma edição mais antiga e mais nobre do espírito humano, que bem poderia ocupar o lugar da razão e da natureza intelectual do homem no grande Representante do homem.
II, 135Arianismo. (2.) A doutrina da Pessoa de Cristo, tal como ensinada por Ário, presbítero de Alexandria, atribuía à filiação divina uma origem pela vontade de Deus, antes que existissem o tempo e o mundo: o Filho ἦν ποτε ὅτε οὐκ ἦν [houve quando ele não era] e foi gerado não φύσει [por natureza], mas βουλήσει [por vontade]. Ele era a primeira criatura, embora distinto da criação como mediador entre Deus e ela. O Credo Niceno (325 d.C.) dá, nas suas cláusulas defensivas, a melhor explicação da heresia que condenou: GERADO, NÃO FEITO; DA MESMA SUBSTÂNCIA DO PAI. O termo ὁμοούσιον, DA MESMA SUBSTÂNCIA, tornou-se a palavra de ordem da ortodoxia, tal como representada por Atanásio e pelo Concílio de Niceia. Os semiarianos abrandaram-no para ὁμοιούσιον, DE SUBSTÂNCIA SEMELHANTE. A diferença entre os dois termos, porém, embora assinalada por uma única letra, é na verdade ilimitada: nenhuma criatura pode ser semelhante a Deus em essência. Do Concílio de Niceia em diante não houve na cristandade nenhuma comunidade de arianos, nem credo algum do arianismo.
Apolinarismo. (3.) Logo se demonstrou que o Homoousion, “da mesma substância”, era tão importante para a natureza humana de Cristo como para a divina. Apolinário, bispo de Laodiceia (362 d.C.), defendeu a divindade de Cristo de tal modo que lhe tirou a integridade da sua humanidade. A natureza humana estava em Deus antes da encarnação e foi trazida do céu com Cristo. E a encarnação foi apenas a assunção da carne e da alma animal do homem. A natureza divina tornava desnecessário o espírito humano: a Pessoa de Cristo era um composto de Deus e de apenas dois elementos da natureza humana. Assim se conservava o verdadeiro Deus, mas não a verdadeira natureza do homem. Os grandes teólogos do século IV objetaram contra Apolinário que o homem não poderia ser redimido sem a redenção do seu espírito. O artigo DESCEU AO INFERNO, do Credo dos Apóstolos, foi inserido a seu tempo em defesa do espírito separado em Cristo; mas a condenação da doutrina foi proclamada formalmente no segundo concílio ecumênico, de Constantinopla, em 381 d.C. É digno de nota que esse concílio, que afirmou a integridade da natureza humana de Cristo, proclamou também a divindade do Espírito Santo. Os erros apolinaristas reapareceram, como se verá, em formas posteriores.
II, 136Heresias quanto à Pessoa única. III. As heresias que atacaram a união das duas naturezas de nosso Senhor na sua Pessoa única foram duas, a nestoriana e a eutiquiana: a segunda, que confundia as naturezas, foi uma reação contra a primeira, que dividia a Pessoa.
Nestorianismo. 1. Nestório era patriarca de Constantinopla (428 d.C.) e um adversário intolerante da heresia. Escandalizou-se, porém, com uma das palavras de ordem correntes da ortodoxia, que chamava a Virgem MÃE DE DEUS, θεότοκος. Fora formado na escola antioquena de teologia; como presbítero em Antioquia, absorvera o ensino de Teodoro de Mopsuéstia (o verdadeiro fundador do nestorianismo), que insistia muito na união do Logos com um homem nascido de Maria. Nestório concedia aos seus adversários que a Virgem era MÃE DE CRISTO; mas negava a união pessoal e ensinava que um homem perfeito se tornou o órgão e o instrumento do Logos, ou o templo em que ele habitava. A tendência (talvez apenas a tendência) do seu ensino era representar Cristo como duas pessoas, unidas por um laço que não difere essencialmente daquele que une Deus a qualquer outro órgão eminente da sua vontade. Nessa teoria, as duas naturezas do Redentor estavam unidas por uma ἀσύγχυτος συνάφεια [conjunção sem mistura]: não numa só personalidade, mas por mera conjunção, ainda que de natureza indefinível. Nestório foi condenado formalmente no terceiro concílio ecumênico, reunido em Éfeso em 431 d.C. O seu principal adversário foi Cirilo de Alexandria.
Eutiquianismo. 2. Os seguidores de Cirilo, que morreu em 444 d.C., exageraram as suas afirmações sobre “a união, numa só hipóstase, do Logos vindo do Pai e da carne humana”. A escola mística de pensamento alexandrina, representada por Êutiques, recusava-se a admitir que, depois da encarnação, alguma coisa pertencente a Cristo fosse outra coisa senão divina. A sua declaração era esta: “Confesso que, antes da união, nosso Senhor era de duas naturezas (ἐκ δύο φύσεων); mas, depois da união, confesso uma só natureza.” A tendência (talvez, também aqui, apenas a tendência) dessa doutrina não era absorver o divino no humano, nem o humano no divino, mas estabelecer uma natureza composta, nem Deus nem homem: uma só natureza e uma só Pessoa, e não uma só Pessoa em duas naturezas. A história das controvérsias que levaram à convocação do quarto concílio ecumênico, reunido em Calcedônia em 451 d.C., é um registro doloroso da fraqueza humana, sobre a qual prevaleceu o Espírito da Verdade.
II, 137Fórmula de Calcedônia. 3. A fórmula redigida nesse concílio dá, nas suas afirmações cuidadosas, a melhor explicação dos dois erros opostos. “Seguindo os santos Pais, ensinamos unanimemente um só e o mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito quanto à sua Divindade e perfeito quanto à sua humanidade, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, subsistindo de alma racional e de carne humana; consubstancial a seu Pai quanto à Divindade, e consubstancial a nós quanto à humanidade; semelhante a nós em todas as coisas, mas sem pecado; quanto à Divindade, gerado do Pai antes de todos os séculos; mas, quanto à humanidade, nascido nestes últimos dias, por nós, homens, e pela nossa salvação, da Virgem Maria, a mãe de Deus; um só e o mesmo Cristo; Filho, Senhor, Unigênito, conhecido e reconhecido em duas naturezas, sem confusão, sem separação e sem divisão; a distinção das naturezas de modo algum abolida pela sua união, mas conservada a propriedade de cada natureza, e concorrendo as duas numa só Pessoa e Hipóstase. Confessamos não um Filho dividido e separado em duas pessoas, mas um só e o mesmo Filho e Unigênito, e Deus-Logos, nosso Senhor Jesus Cristo, como os profetas já haviam proclamado a seu respeito, e ele mesmo nos ensinou, e o símbolo dos Pais nos transmitiu.” Os quatro termos do original grego merecem atenção cuidadosa. Diz-se que as duas naturezas estão unidas ἀσυγχύτως, sem mistura, e ἀτρέπτως, sem transmutação ou conversão: estes, contra Êutiques. A Pessoa única é preservada ἀδιαιρέτως, indivisamente, e ἀχωρίστως, inseparavelmente: estes, contra Nestório. Assim se encerrou, no Concílio de Calcedônia, a longa controvérsia sobre a Pessoa de Cristo: “verdadeiramente” Deus, “perfeitamente” homem, “inseparavelmente” uma só Pessoa, “inconfusamente” em duas naturezas. O Credo Atanasiano acrescentou uma analogia: “Um, de modo algum por confusão de substância, mas por unidade de pessoa. Pois, assim como a alma racional e a carne são um só homem, assim Deus e homem são um só Cristo.” As controvérsias posteriores, e as decisões posteriores, não passaram de reproduções mais fracas dessas afirmações ousadas, firmes e incontestáveis.
Erros posteriores. IV. Os desenvolvimentos posteriores do dogma cristológico dizem respeito mais à doutrina dos dois estados de nosso Senhor do que à da sua Pessoa única. Na medida, porém, em que afetam esta última, devem receber breve menção.
II, 138Eutiquianismo. 1. O eutiquianismo reapareceu, ou antes continuou, nas heresias monofisita e monotelita, que por muito tempo perturbaram a Igreja do Oriente.
Monofisitas. (1.) A teoria MONOFISITA é, como o nome indica, a de uma “única natureza” em Cristo. Foi sustentada, com muitas distinções sutis, por várias seitas, que concordavam em fundir a humanidade do Senhor com a sua Divindade e divergiam conforme a considerassem uma propriedade ou um acidente da natureza divina. Essas seitas continuaram até o dia de hoje, representadas pelos jacobitas, coptas, abissínios e armênios.
Monotelitas. (2.) A variante MONOTELITA girava em torno da questão da unidade ou dualidade da vontade do Redentor. O sexto concílio ecumênico, de Constantinopla, em 680 d.C., condenou a doutrina de uma só vontade em Cristo: a Igreja católica, do Oriente e do Ocidente, concordou em que em duas naturezas tem de haver duas vontades, e que em Cristo a vontade divina e a humana cooperavam harmoniosamente, seguindo a humana a divina. Muita controvérsia resultou na rejeição da heresia monotelita, que não deixava lugar, em Cristo, para limitação no conhecimento nem para tentação humana ou prova moral. Com ela foi rejeitado também (ao menos na fórmula eclesiástica) o meio-termo que se buscava na expressão μία θεανδρικὴ ἐνέργεια, “uma só operação teândrica, ou divino-humana”. Mas, embora essa expressão não tenha sido aceita de modo geral, só ela expressa a verdade da ação mediadora única daquela Pessoa em quem a vontade divina governava as volições livres da humana. Também essa heresia sobreviveu entre as seitas orientais até o presente.
Adocionismo. 2. O nestorianismo reapareceu no Ocidente, muito tempo depois da decisão de Calcedônia, assim como o eutiquianismo reapareceu no Oriente. Dois bispos espanhóis, Elipando de Toledo e Félix de Urgel, ensinaram que, na sua natureza humana, o Redentor era Filho de Deus apenas por adoção: uma adoção que era o selo da sua excelência, prevista na encarnação e consumada na ressurreição. Os argumentos de Alcuíno e de outros teólogos, baseados na impessoalidade da natureza humana de nosso Senhor (“in adsumtione carnis a Deo persona perit hominis, non natura” [na assunção da carne por Deus, perece a pessoa do homem, não a natureza]), bastaram para obter a condenação dessa forma da heresia nestoriana, conhecida como ADOCIONISMO, no Concílio de Frankfurt, em 794 d.C.
II, 139Tendências modernas. 3. Pode-se dizer que, desde o sexto concílio ecumênico, nenhuma controvérsia sobre a Pessoa de Cristo perturbou a cristandade. As decisões do Concílio de Calcedônia, o quarto ecumênico, foram de fato decisivas. As discussões medievais giraram em torno de teorias filosóficas e místicas da encarnação, mas não resultaram em nenhum desenvolvimento novo do dogma nem em nenhuma heresia nova muito definida. As discussões em que se empenharam as Igrejas luterana e reformada, e as que dividiram os teólogos luteranos, diziam respeito antes à relação das duas naturezas de nosso Senhor, respectivamente, com os seus dois estados de humilhação e de exaltação; e por isso pertencem a outra seção. Todos os combatentes estavam de acordo, e de acordo também com as Igrejas romana e grega, em sustentar a unidade da Pessoa divino-humana como resultado, de algum modo inexplicável, da assunção do humano pelo divino. Divergiam apenas quanto à medida em que os atributos da Deidade foram ocultados ou suprimidos. É verdade que as formas mais modernas dessa controvérsia envolvem questões que, parecendo tocar apenas a humilhação de nosso Senhor, tocam na realidade a perfeição de uma ou de outra das suas naturezas, ou de ambas. Por exemplo, as teorias de muitos teólogos alemães e franceses que consideram o Filho de Deus como alguém que se limitou literalmente, por um tempo, às fronteiras de um espírito humano são, sem dúvida, reproduções daquilo que se descreveu como eutiquianismo. Mas teremos de voltar a esse assunto quando tratarmos dos dois estados do Redentor.
Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. II, pp. 106-139, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.