John Fletcher · O Último Freio ao Antinomianismo · Seção IV

Os artigos da Igreja da Inglaterra

O primeiro argumento do sr. Hill contra a perfeição cristã é tirado dos artigos IX e XV da Igreja da Inglaterra. Esses artigos, bem entendidos, não são contrários a essa doutrina. Treze argumentos provam que a nossa Igreja a sustenta. Ela se opõe à perfeição farisaica, e não à perfeição cristã. Apresentam-se oito razões para mostrar que é absurdo abraçar a doutrina de um purgatório da morte só porque os nossos reformadores e mártires, ao buscarem a perfeição da humildade, usaram algumas expressões descuidadas que parecem pesar contra a doutrina da perfeição cristã.

NAS seções anteriores pus o machado à raiz de alguns preconceitos e desbaratei uma série de objeções. O campo da controvérsia está limpo. A batalha pode começar; ou melhor, já começou. Pois o sr. Hill, no seu Credo para Perfeccionistas, e o sr. Toplady, na sua Advertência contra doutrinas falsas, trouxeram e dispararam contra a nossa doutrina duas peças de artilharia eclesiástica: os artigos IX e XV da nossa Igreja. E concluem que a carga desses canhões doutrinários demole por completo a perfeição que defendemos. O estrondo da sua artilharia mal apontada e o barulho que fazem a respeito das nossas subscrições são grandes; mas espero que as observações seguintes mostrem que não precisamos ter medo dos tiros.

O propósito do artigo XV da nossa Igreja é indicado pelo título: “De Cristo, o único sem pecado”. Deste título concluímos que o alcance e o propósito do artigo não é assegurar a Cristo a honra de ser o único purificado do pecado, porque tal honra seria uma afronta à sua pureza original e ininterrupta, que o colocava muito acima da necessidade de purificação. Nem o artigo dá a menor indicação de que seja impossível sermos purificados do pecado antes de entrarmos no purgatório dos calvinistas, isto é, nas câmaras da morte. O que a nossa Igreja pretende é distinguir Cristo de toda a humanidade, e especialmente da virgem Maria, que os papistas afirmam ter sido sempre totalmente livre de pecado original e atual. A nossa Igreja faz isso sustentando: (1.) Que Cristo nasceu sem a menor mancha de pecado original e nunca cometeu nenhuma transgressão atual. (2.) Que todos os outros homens, sem excetuar a virgem Maria e os crentes mais santos, são exatamente o oposto de Cristo nesses dois aspectos: todos foram concebidos em pecado original e ofendem em muitas coisas, mesmo depois do batismo,1 e mesmo com todos os auxílios que temos sob a dispensação cristã para nos guardar sem pecado dia após dia. E, portanto, (3.) Que, se dissermos que não temos pecado nenhum (se pretendermos, como alguns pelagianos, que não temos pecado original; ou se dermos a entender, como alguns fariseus, que “nunca fizemos mal nenhum em toda a nossa vida”, isto é, que não temos pecado atual), a nós mesmos enganamos, e a verdade não está em nós (1Jo 1.8); pois não há absolutamente nenhuma pessoa adulta sem pecado nesses aspectos, exceto o nosso Senhor Jesus Cristo.

Que este é o sentido genuíno do artigo fica claro: (1.) Pelo absurdo que decorre da opinião contrária. Pois, se estas palavras, “Cristo, o único sem pecado”, devem ser tomadas em sentido absoluto e ilimitado; se a palavra único exclui inteiramente toda a humanidade em todos os tempos; se ela se dirige tanto contra o fato de sermos purificados do pecado quanto contra o fato de termos sido sempre livres da poluição original e atual; se é este o caso, digo, é evidente que não só os pais em Cristo, mas também Enoque e Elias, são João e são Paulo, estão até hoje manchados de pecado e assim devem continuar por toda a eternidade, para que a opinião do sr. Hill sobre Cristo, o único sem pecado, não deixe de ser verdadeira.

(2.) A nossa opinião é confirmada pelo próprio artigo, do qual uma parte diz assim: “Cristo, na verdade da nossa natureza, foi feito semelhante a nós em todas as coisas, exceto somente o pecado, do qual foi inteiramente isento, tanto na sua carne como no seu espírito. Veio para ser um cordeiro sem mácula; e o pecado, como diz são João, não estava nele (cf. 1Jo 3.5). Mas todos nós, os demais, embora batizados e nascidos de novo em Cristo” [isto é, embora tenhamos desde a infância todos os auxílios que a dispensação cristã oferece aos homens para os guardar sem pecado] “ainda assim ofendemos em muitas coisas” (depois do nosso batismo) “e, se dissermos” [como os pelagianos e fariseus acima mencionados] “que não temos” [original ou atual] “pecado nenhum” [isto é, que somos semelhantes a Cristo em qualquer desses aspectos, levando-se em conta a nossa concepção, infância, meninice, juventude e velhice] “a nós mesmos enganamos, e a verdade não está em nós” (1Jo 1.8).

Tendo assim exposto o sentido claro, racional e bíblico em que subscrevemos o nosso artigo XV, resta fazer uma observação sobre o nono.

Alguns pelagianos fanáticos negam o pecado original, ou a infecção adâmica da nossa natureza; e alguns papistas fanáticos supõem que essa infecção é inteiramente removida no batismo. Em oposição a ambos, a nossa Igreja, com prudência, exige a nossa subscrição ao seu artigo IX, que afirma: (1.) Que a falta e corrupção da nossa natureza é uma triste realidade; e (2.) Que essa falta, corrupção ou infecção permanece nos que são regenerados, isto é, nos que são batizados, ou feitos filhos de Deus, segundo a dispensação cristã. Pois toda pessoa que leu com atenção a nossa liturgia sabe que estas expressões, batizado, regenerado, feito membro de Cristo e filho de Deus, são sinônimas na linguagem da nossa Igreja. Ora, porque reconhecemos, pela nossa subscrição ao nono artigo, que a infecção da nossa natureza não é removida no batismo, mas permanece nos que são regenerados, ou batizados, o sr. Hill julga-se autorizado a impor-nos para toda a vida o jugo do pecado que habita em nós. Ele supõe que não podemos subscrever honestamente esse artigo sem renunciar à gloriosa liberdade dos filhos de Deus (cf. Rm 8.21) e abraçar o evangelho antinomiano, que se resume nestas palavras descuidadas de Lutero, citadas por Bogatzky no seu Tesouro de Ouro:2 “Os pecados de um cristão são para o seu bem, e, se ele não tivesse pecado, não estaria tão bem; nem a oração fluiria tão bem”. [N. do T.: Carl Heinrich von Bogatzky (1690-1774), pietista alemão, autor do Golden Treasury for the Children of God (O Tesouro de Ouro dos Filhos de Deus).] Pode haver algo mais antibíblico ou mais absurdo? Que pessoa sem preconceito não vê que podemos, com a maior coerência, sustentar que o batismo não remove a infecção adâmica do pecado e que, no entanto, essa infecção pode ser removida antes da morte?

Apesar disso, estamos dispostos a fazer ao sr. Hill todas as concessões que pudermos fazer com boa consciência. Se por “infecção da natureza” ele entende a ignorância natural que infectou o nosso entendimento; o esquecimento natural que afetou a nossa memória; a fraqueza inata de todas as nossas faculdades mentais; e as sementes venenosas da mortalidade que infectam todos os homens da cabeça aos pés e impedem os crentes mais fortes de servir a Deus com todo o fervor de que seriam capazes se não tivessem caído da perfeição paradisíaca, sob a maldição de um corpo condenado a morrer e morto por causa do pecado (Rm 8.10); se o sr. Hill, digo, entende isso por “infecção da natureza”, cremos que tal infecção, com todos os apetites naturais e inocentes da carne, permanece não só naqueles a quem as Escrituras chamam crianças em Cristo, mas também nos pais. Pois não há crente adulto que não possa dizer, tanto quanto Cristo, Adão ou são Paulo: Tenho sede (Jo 19.28). Tenho fome (cf. Mt 4.2). Preciso de uma auxiliadora que seja semelhante a mim (cf. Gn 2.18). O meu conhecimento é incompleto. Vejo como num espelho, de forma obscura (cf. 1Co 13.12). Gemo angustiado (cf. 2Co 5.4). Quem se casa não peca (cf. 1Co 7.28,36). É melhor casar do que arder em desejos (1Co 7.9) etc.

Mas, se o sr. Hill, por “infecção da natureza”, entende os desejos pecaminosos da carne, como a embriaguez mental, a glutonaria, a prostituição etc.; ou se entende as disposições sem amor e diabólicas, como a inveja, o orgulho, a obstinação, a maldade, a ira pecaminosa, o ciúme ímpio, a incredulidade, a irritação, a impaciência, a hipocrisia, a vingança, ou qualquer oposição moral à vontade de Deus; se o sr. Hill, digo, entende isso por “infecção da natureza”, e se supõe que esses males devem permanecer radical e necessariamente no coração de todos os crentes [sem excetuar os pais em Cristo] até que a morte venha purificar os pensamentos do coração deles pela inspiração do seu hálito fétido, teremos de tomar a liberdade de discordar dele. E apresentamos os argumentos seguintes para provar que, insinue o sr. Hill o que quiser em contrário, a Igreja da Inglaterra não é contra a doutrina da perfeição evangélica que defendemos.

I. A nossa Igreja nunca pode ser tão incoerente a ponto de dirigir os seus artigos contra aquilo que pede ardentemente na sua liturgia. Mas ela pede ardentemente a perfeição cristã, ou o amor perfeito, nesta vida. Portanto, ela não é contra a perfeição cristã. Só a segunda proposição deste argumento pode ser contestada, e eu a apoio na conhecida coleta do culto da Ceia: “Purifica os pensamentos do nosso coração pela inspiração do teu Santo Espírito, para que te amemos perfeitamente e engrandeçamos dignamente o teu santo nome, por Jesus Cristo, nosso Senhor”. Aqui vemos: (1.) A natureza da perfeição cristã: é o amor perfeito. (2.) A sede desse amor perfeito: um coração purificado dos seus próprios pensamentos. (3.) O seu efeito bendito: engrandecer dignamente o santo nome de Deus. (4.) O seu autor: Deus, a quem se pede a bênção. (5.) O seu meio imediato: a inspiração do seu Santo Espírito. E, por fim, aquele que a obtém para nós pela sua graça: nosso Senhor Jesus Cristo.

II. Essa veia de desejo piedoso pela perfeição cristã atravessa todo o seu culto diário. Na sua confissão, ela ora: “Restaura os que se arrependem, segundo as tuas promessas etc., para que daqui em diante vivamos uma vida piedosa, justa e sóbria, para a glória do teu santo nome”. Ora, a piedade, a justiça e a sobriedade, sendo a suma do nosso dever para com Deus, para com o próximo e para conosco mesmos, são também a suma da perfeição cristã. Nem a nossa Igreja absolve senão os que desejam que o restante da sua vida seja puro e santo, de modo que no fim cheguem à alegria eterna de Deus. Com isso ela dá a entender claramente que podemos alcançar um coração puro e levar uma vida pura e santa sem entrar num purgatório da morte; e que os que não chegam à pureza de coração e de vida, isto é, à perfeição, correm o risco de perder a alegria eterna de Deus.

III. Por isso ela não se envergonha de pedir diariamente, no Te Deum, a pureza sem pecado: “Digna-te, Senhor, guardar-nos neste dia sem pecado”, isto é, isentos de pecado; pois suponho que o título do nosso artigo XV, “De Cristo, o único sem pecado”, quer dizer De Cristo, o único isento de pecado desde a sua concepção até o último suspiro. Este pedido profundo está em perfeita harmonia com as coletas do 9º, 17º, 18º e 19º domingos depois da Trindade: “Concede-nos o espírito de pensar e fazer sempre as coisas que são retas, para que sejamos capacitados a viver segundo a tua vontade”, isto é, a viver sem pecado. “Pedimos-te que a tua graça sempre nos preceda e acompanhe, e nos faça continuamente dedicados a todas as boas obras” etc. “Concede ao teu povo graça para resistir ao mundo, à carne e ao diabo, e para te seguir com coração e mente puros.” “Concede, em tua misericórdia, que o teu Santo Espírito dirija e governe o nosso coração em todas as coisas.” E ainda: “Que te agrade que, pelos remédios salutares da doutrina transmitida por ele [Lucas, o evangelista e médico da alma], sejam curadas todas as doenças da nossa alma” etc. Dia de são Lucas. “Mortifica e mata em nós todos os vícios” [e, entre eles, a inveja, o egoísmo e o orgulho] “e fortalece-nos de tal modo com a tua graça que, pela inocência da nossa vida e pela constância da nossa fé até a morte, glorifiquemos o teu santo nome” etc. Dia dos Santos Inocentes. “Concede-nos o auxílio da tua graça, para que, guardando os teus mandamentos, te agrademos tanto na vontade como na ação.” 1º domingo depois da Trindade. “Dirige, santifica e governa tanto o nosso coração como o nosso corpo, nos caminhos das tuas leis e nas obras dos teus mandamentos, para que sejamos preservados” [nesses caminhos e obras] “em corpo e alma.” “Vai adiante de nós em todas as nossas ações etc. e ajuda-nos com o teu contínuo auxílio, para que, em todas as nossas obras começadas, continuadas e terminadas em ti, glorifiquemos o teu santo nome.” Culto da Ceia. Mais uma vez: “Concede que, em todos os nossos sofrimentos aqui na terra etc., olhemos com firmeza para o céu e contemplemos pela fé a glória que há de ser revelada; e que, cheios do Espírito Santo, aprendamos a bendizer os nossos perseguidores pelo exemplo do teu primeiro mártir” etc. Dia de santo Estêvão. É digno de nota que bendizer os nossos perseguidores e assassinos é a última bem-aventurança [N. do T.: a edição de 1792 imprime least, “menor”; o sentido é last.], o mais alto exemplo de perfeição cristã e o mais difícil de todos os deveres que [se podemos crer no nosso Senhor] nos tornam perfeitos, na nossa esfera, como é perfeito o nosso Pai, que está no céu (Mt 5.11,44,45,48).

IV. O amor perfeito, isto é, a perfeição cristã, brota instantaneamente da fé perfeita; e, como a nossa Igreja quer que todos os seus membros sejam perfeitos no amor, ela os manda pedir assim a fé perfeita, que tem de ser obtida nesta vida ou nunca: “Concede-nos crer tão perfeitamente e sem nenhuma dúvida no teu Filho Jesus Cristo, que a nossa fé nunca seja reprovada aos teus olhos”. (Dia de são Tomé.)

V. O nosso Senhor nos ensina a pedir o mais alto grau de perfeição cristã quando nos manda: Quando vocês orarem, digam etc. venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu (Lc 11.2; Mt 6.10). E a nossa Igreja, introduzindo esta oração profunda em todos os seus cultos, mostra quanto o sr. Hill se engana quando supõe que ela considera “chocante” a nossa doutrina da perfeição cristã.

Se esse cavalheiro objetar que, embora a nossa Igreja nos mande pedir a perfeição cristã nas coletas acima citadas e na oração do Senhor, ela não dá a entender que essas orações profundas possam ser atendidas nesta vida, oponho a esse argumento não só as palavras na terra, que ela repete com tanta frequência na oração do Senhor, mas também as suas próprias palavras: “Deus eterno, que estás mais pronto a ouvir do que nós a orar, e costumas dar mais do que desejamos etc., derrama sobre nós a abundância da tua misericórdia” etc. 12º domingo depois da Trindade. O sr. Hill há de nos desculpar, portanto, se ficamos do lado da nossa Igreja que ora, e não nos envergonhamos de dizer com são Paulo: A ele, que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo o que pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, seja a glória (Ef 3.20-21).

VI. Que a nossa Igreja não pode razoavelmente ser contra a perfeição cristã, provo ainda assim: aquilo que a Igreja da Inglaterra recomenda como o fim do batismo nunca pode ser contrário à sua doutrina. Mas ela recomenda a morte para o pecado, ou a perfeição cristã, como o fim do batismo. Portanto, ela não pode ser contra a perfeição cristã. A segunda proposição, que é a única discutível, eu a provo por estas palavras do seu Catecismo: “Qual é a graça interior ou espiritual do batismo? A morte para o pecado e um novo nascimento para a justiça”. Por isso ela ora junto à sepultura: “Rogamos-te que nos ressuscites da morte do pecado para a vida da justiça, para que, quando partirmos desta vida, descansemos nele” (Cristo). Ora, que a morte do pecado é o fim do batismo, e que esse fim nunca é plenamente alcançado enquanto essa morte não se consumar plenamente, é evidente pelo seguinte trecho do nosso ofício do batismo: “Concede que o velho Adão nesta pessoa seja de tal modo sepultado que o novo seja ressuscitado nela. Concede que todas as afeições carnais” (e, por consequência, toda a mente carnal e todo o pecado inato) “morram nela, e que todas as coisas pertencentes ao Espírito vivam e cresçam nela. Concede que a pessoa que agora vai ser batizada receba a plenitude da tua graça. Concede que ela, estando morta para o pecado e vivendo para a justiça, e sendo sepultada com Cristo na sua morte, crucifique o velho homem e destrua completamente todo o corpo do pecado.” Como podemos sustentar, com a nossa Igreja, que devemos crucificar, mortificar [isto é, matar] e destruir completamente todo o corpo do pecado, de modo a estarmos mortos para o pecado e termos o velho Adão sepultado nesta vida; e, ao mesmo tempo, sustentar com o sr. Hill que todo o corpo do pecado, que devemos destruir completamente, há de permanecer inteiro e completamente indestruído até que a morte venha destruí-lo?

VII. A nossa Igreja não é contra aquele fim da Ceia do Senhor que ela constantemente ensina ser a perfeição cristã. Portanto, a nossa Igreja não é contra a perfeição cristã. A segunda proposição, que é a única que precisa de prova, funda-se nestas palavras profundas do nosso culto da Ceia: “Concede-nos comer de tal modo a carne do teu amado Filho Jesus Cristo e beber o seu sangue, que o nosso corpo pecaminoso seja purificado pelo seu corpo, e a nossa alma lavada pelo seu precioso sangue, e que habitemos para sempre nele, e ele em nós”. Estas palavras exprimem o ponto mais alto da perfeição cristã, e a Ceia do Senhor não alcançou em nós o seu pleno fim enquanto essa oração não for atendida.

VIII. A nossa Igreja não é contra aquilo que ela considera o fim do nascimento de Cristo e da sua apresentação no templo. Mas aquilo que ela considera esse fim é a perfeição cristã. Portanto, ela não é contra a perfeição cristã. A segunda proposição deste argumento funda-se: (1) No prefácio próprio do dia de Natal, no culto da Ceia: “Cristo etc. foi feito verdadeiro homem etc., sem mancha de pecado, para nos purificar de todo pecado”. E (2) nestas palavras da coleta da apresentação de Cristo no templo: “Humildemente te rogamos que, assim como o teu Filho unigênito foi apresentado no templo na substância da nossa carne, assim também sejamos apresentados a ti com coração puro e limpo”.

IX. O mesmo argumento vale quanto à circuncisão do nosso Senhor, à sua celebração da Páscoa com pão sem fermento, à sua subida ao céu e ao envio do Consolador de lá. Que, segundo a nossa Igreja, o fim desses acontecimentos era a nossa perfeição cristã fica claro pelos seguintes trechos das suas coletas: “Concede-nos a verdadeira circuncisão do Espírito, para que, estando o nosso coração e todos os nossos membros mortificados de todos os desejos mundanos e carnais, te obedeçamos em todas as coisas etc.” [A Circuncisão de Cristo.] “Concede-nos lançar fora de tal modo o fermento da malícia e da maldade, que sempre te sirvamos em pureza de vida e em verdade.” [1º domingo depois da Páscoa.] “Concede etc. que também nós, de coração e mente, subamos para lá [ao céu] e com ele [Cristo] habitemos continuamente etc.” Dia da Ascensão. “Concede-nos, pelo mesmo Espírito, ter um juízo reto em todas as coisas e alegrar-nos sempre na sua santa consolação.” [Domingo de Pentecostes.]

X. A nossa igreja não pode razoavelmente opor-se àquilo que ela deseja ardentemente a todos os que comungam e àquilo que ela pede com fervor e recomenda com insistência a todos os seus membros. Ora, ela deseja, pede e recomenda assim o livramento de todo pecado e a caridade perfeita, isto é, a perfeição cristã. Portanto, ela não pode ser contra a perfeição cristã. A segunda proposição se baseia: (1) nestas palavras da absolvição que ela dá a todos os que comungam: “O Deus Todo-Poderoso etc. vos perdoe e livre de todos os vossos pecados, vos confirme e fortaleça em toda bondade”; (2) na sua coleta do domingo da Quinquagésima: “Envia o teu Espírito Santo e derrama em nossos corações aquele dom excelentíssimo da caridade, o próprio vínculo da paz e de todas as virtudes” (são Paulo a chama de “vínculo da perfeição”, Cl 3.14); e (3) na definição de caridade que ela nos dá nas suas homilias: “Caridade [diz ela] é amar a Deus de todo o nosso coração, de toda a nossa alma e com todas as nossas faculdades e forças. De todo o nosso coração: quer dizer, que o nosso coração, a nossa mente e o nosso empenho estejam postos em crer na sua palavra e em amá-lo acima de todas as coisas que mais amamos no céu ou na terra. De toda a nossa alma: quer dizer, que a nossa alegria e o nosso deleite principais estejam postos nele, e a nossa vida inteira entregue ao seu serviço. Com todas as nossas forças: quer dizer, que com as nossas mãos e os nossos pés, com os nossos olhos e os nossos ouvidos, com a nossa boca e a nossa língua, e com todas as nossas partes e faculdades, tanto do corpo como da alma, nos entreguemos a guardar os seus mandamentos. Esta é a parte principal da caridade, mas não é o todo; pois caridade é também amar a todo homem, bom e mau, amigo e inimigo, seja qual for o motivo dado em contrário.” Homilia sobre a Caridade. “Da caridade [são João] diz: Aquele que guarda a palavra e o mandamento de Deus, nele está verdadeiramente o perfeito amor de Deus etc. (1Jo 2.5). E são João não escreveu isso como um dito sutil etc., mas como uma verdade certíssima e necessária.” Homilia sobre a Fé, Parte II. “Assim vos foi declarado o que é a verdadeira caridade, ou o amor cristão etc.; e esse amor, quem quer que o guarde, não somente para com Deus, a quem é obrigado a amar acima de todas as coisas, mas também para com o seu próximo, tanto amigo como inimigo, certamente o guardará de toda ofensa a Deus e de toda justa ofensa aos homens.” Homilia sobre a Caridade, Parte II. E ainda: “Todo homem se convence de que está em caridade; mas examine ele o seu próprio coração, a sua vida e o seu procedimento, e discernirá com verdade se está ou não em perfeita caridade. Pois aquele que não segue a sua própria vontade, mas se entrega com empenho a Deus, para fazer toda a sua vontade e o seu mandamento, pode ter certeza de que ama a Deus acima de todas as coisas; do contrário, certamente não o ama, por mais que o pretenda.” Homilia sobre a Caridade. Mais uma vez: “A paciência perfeita não se importa com o que sofre, nem com quanto sofre, nem com quem a faz sofrer, seja amigo ou inimigo, mas procura sofrer inocentemente. Sim, aquele em quem há caridade perfeita se importa tão pouco com a vingança que procura antes fazer o bem em troca do mal, segundo o perfeitíssimo exemplo de Cristo na cruz. A mesma caridade e o mesmo amor que Cristo mostrou na sua paixão devemos ter uns para com os outros, se queremos ser os seus verdadeiros servos. Se amamos apenas os que nos amam, que grande coisa podemos fazer? Devemos ser perfeitos na nossa caridade, assim como o nosso Pai que está no céu é perfeito (cf. Mt 5.48).” Homilia para a Sexta-feira Santa.

XI. O estado ao qual a nossa igreja quer que todos os seus presbíteros conduzam os seus rebanhos não é um estado “chocante” nem quimérico. Ora, ela quer que todos os seus presbíteros conduzam todos os seus rebanhos à “perfeição em Cristo”, isto é, à perfeição cristã. Portanto, o estado de perfeição cristã não é chocante nem quimérico. A premissa menor, a única que se pode contestar, apoia-se nesta parte solene da exortação que todos os seus bispos dirigem aos seus presbíteros: “Cuidai de nunca cessar o vosso trabalho, cuidado e diligência, até que tenhais feito tudo o que estiver ao vosso alcance para conduzir todos os que forem confiados aos vossos cuidados àquela concordância na fé e àquela maturidade e perfeição de idade em Cristo, de modo que não reste entre vós lugar para o erro na religião nem para o vício na vida.” Ofício de Ordenação.

XII. Nem é a nossa igreja menos rigorosa com os leigos do que com o clero; pois não recebe na sua congregação senão aqueles que professam a determinação de chegar à perfeição cristã. Por isso, todos os seus membros prometeram e fizeram voto solene, por meio dos seus padrinhos, no seu batismo, e em sua própria pessoa, quando foram confirmados pelo bispo: (1) de renunciar ao diabo e a todas as suas obras, às pompas e vaidades deste mundo perverso, sem reserva, e a todos os desejos pecaminosos da carne; (2) de crer em todos os artigos da fé cristã; e (3) de guardar a santa vontade e os mandamentos de Deus e andar neles todos os dias da sua vida. E isso não é fazer voto de aperfeiçoar a santidade no temor de Deus (2Co 7.1)? Deixa a primeira parte desse compromisso sagrado algum espaço para um só momento de acordo com o diabo, o mundo ou a carne? Faz a segunda a menor concessão a uma só dúvida a respeito de qualquer artigo da fé cristã? Ou a terceira, a uma só transgressão voluntária dos mandamentos de Deus? E ainda: não estão esses mandamentos resumidos assim no catecismo da nossa igreja: Aprendo neles o meu dever para com Deus, que é amá-lo de todo o meu coração, e o meu dever para com o meu próximo, que é amá-lo como a mim mesmo? Não é isso amor perfeito, ou perfeição cristã? E não fizemos voto de andar nisso todos os dias da nossa vida? Portanto, todos os membros da nossa igreja que têm consciência de guardar o seu voto batismal devem não somente avançar para o que é perfeito (Hb 6.1), mas alcançá-lo. E, se não houve cristãos perfeitos na nossa igreja, todos os seus membros morreram transgredindo de fato a promessa solene que fizeram no seu batismo: suposição chocante demais para ser feita ou admitida.

Se você perguntar: “Onde estão esses membros da igreja, ou esses cristãos, perfeitos?”, respondo que, se o amor perfeito que guarda os mandamentos é inalcançável, o nosso voto batismal é absurdo e detestável; pois é ao mesmo tempo irracional e muito perverso fazer voto de coisas absolutamente impossíveis. Mas isso não é tudo: nessa suposição, a Bíblia, que menciona com tanta frequência os perfeitos e a perfeição, não é melhor que uma lenda papista; pois deve ser contado entre os romances religiosos o livro que recomenda coisas imaginárias como se fossem realidades indubitáveis. Tão certo, então, como a Bíblia é verdadeira, há ou pode haver cristãos perfeitos; mas

Original Tradução
Virtutem incolumem odimus, Odiamos a virtude enquanto está entre nós;
Sublatam ex oculis quærimus, invidi. tirada dos nossos olhos, nós a buscamos, invejosos.

[N. do T.: Horácio, Odes III, 24, 31-32.]

“Enquanto honramos os santos mortos, chamamos os vivos de entusiastas, hipócritas ou hereges.” [N. do T.: “entusiasta”, no vocabulário do século XVIII, é o fanático religioso que se julga movido por inspiração direta.] Não convém, portanto, expô-los aos dardos da inveja e da malícia. E, supondo que se apresentassem testemunhas vivas do amor perfeito, qual seria a consequência? O testemunho delas seria recusado pelos que não creem na doutrina da perfeição cristã, assim como o testemunho dos crentes que desfrutam a consciência da sua justificação é rejeitado pelos que não creem que se possa alcançar nesta vida uma experiência clara da paz e do amor perdoador de Deus. Se a perfeição original e direta do próprio Cristo foi horrivelmente denegrida pelos seus opositores fanáticos, como a perfeição derivada e refletida dos seus membros escaparia do mesmo tratamento da parte de homens cujo coração está tingido de certo grau do mesmo fanatismo?

Acrescente-se a isso que, para endurecer os incrédulos, o acusador de nossos irmãos (Ap 12.10) impõe constantemente à igreja não somente falsas testemunhas da graça perdoadora, mas também falsos pretendentes ao amor perfeito. Pois ele sabe que, pondo em circulação tantas moedas falsas quantas puder, dará aos inimigos da verdade ocasião de dizer que não há na igreja ouro purificado sete vezes, nem moeda verdadeiramente cunhada com a imagem do rei, o amor perfeito, e trazendo a inscrição real: “Santidade ao Senhor” (Êx 28.36).3

Por isso, em vez de dizer que este ou aquele crente eminente alcançou a perfeição cristã, apoiamos a causa na experiência de são João e daqueles com quem esse apóstolo podia dizer: Naquele que ama não há nenhum tropeço (1Jo 2.10). Nisto o amor é aperfeiçoado em nós, para que, no Dia do Juízo, mantenhamos confiança; pois [quanto à santidade] assim como ele é [na sua natureza humana], também nós somos neste mundo (1Jo 4.17): puros, sem mácula e cheios de amor perfeito. Há, no entanto, esta diferença: ele está no reino da glória, e nós, no reino da graça; ele tem um corpo glorificado, e nós, um corpo corruptível; ele tem a perfeição original de uma árvore, e nós, a perfeição derivada dos ramos que crescem nela. Ou, para usar outra comparação, ele brilha com a perfeição comunicativa de um fogo puro, brilhante e inextinguível; e nós, com a perfeição emprestada, e contudo inerente, de um carvão inteiramente aceso. O mineral em brasa era preto, frio e sujo antes de ser impregnado da perfeição do fogo; e continua brilhante, quente e puro somente enquanto permanece no fogo que o acendeu. Pois, se cai dele por algum acidente, a perfeição resplandecente que havia adquirido desaparece aos poucos, e ele se torna uma cinza suja, o negro emblema do apóstata. Tão verdadeiro é aquele dito do nosso Senhor! Sem mim, ou melhor, separados de mim, vocês não podem fazer nada (Jo 15.5): não podem obter nem conservar luz e calor, conhecimento e amor. Mas, quando já não somos nós que vivemos, e Cristo vive em nós (Gl 2.20); quando a nossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus (Cl 3.3); quando permanecemos em Deus, e Deus permanece em nós (1Jo 4.16), então é que o amor é aperfeiçoado em nós e que [amando-nos uns aos outros assim como Cristo nos amou, Jo 13.34] assim como ele ama, também nós amamos neste mundo (1Jo 4.17).

Tal era a experiência declarada dos pais em Cristo nos tempos apostólicos, e tal ela é também, sem dúvida, nos nossos dias. Nem posso convencer-me de que a nossa igreja zomba dos seus filhos quando descreve assim o cristão perfeito, na sua Homilia para a Sexta-feira Santa: “Aquele em quem há caridade perfeita se importa tão pouco com a vingança que procura antes fazer o bem em troca do mal, segundo o perfeitíssimo exemplo de Cristo na cruz.”

XIII. Se o sr. Hill responder que a nossa igreja fala ali de uma pura quimera, e que nunca poderemos ter nesta vida um só grão de caridade perfeita, porque o velho fermento do pecado que habita em nós sempre corromperá a doçura das nossas disposições diante de Deus, respondo a essa objeção apresentando a minha última prova de que a nossa igreja sustenta a própria doutrina pela qual somos chamados perfeccionistas. Ouçam-na insistir no amor perfeito e na pureza junto a todos os que comungam: “Tende uma fé viva e firme em Cristo etc., e estai em perfeita caridade com todos os homens.” Ofício da Comunhão. E (2) junto a todos os seus filhos fracos: Ainda que a vossa força seja fraca [diz-lhes ela], Cristo ressuscitou para vos fortalecer na vossa batalha; o seu Santo Espírito ajudará as vossas fraquezas. Confiando na sua misericórdia, tomai a vosso cargo purgar este fermento do pecado, que corrompe e azeda a doçura da nossa vida diante de Deus, para que sejais como massa nova e fresca, livre de todo fermento azedo da maldade (cf. 1Co 5.7-8); assim vos mostrareis pão doce para Deus, para que ele tenha o seu deleite em vós? [Homilia sobre a Ressurreição.]

Todos os argumentos anteriores sustentam o nosso entendimento dos artigos IX e XV. E, se o sr. Hill insistir que a nossa igreja se contradiz e às vezes advoga a imperfeição cristã e um purgatório da morte, respondemos que, supondo que a acusação seja bem fundada, devemos antes segui-la quando ela segue sobriamente a Escritura do que quando segue precipitadamente o inconsistente Agostinho. Mas preferimos esperar que, quando ela fala da depravação humana de um modo que parece chocar-se com as citações anteriores, o faz ou quando fala da depravação humana em geral, ou quando inculca a perfeição da humildade, ou quando se opõe à perfeição fingida daqueles a quem chama ironicamente de “fariseus orgulhosos, justos, perfeitos e santos” (Homilia sobre a Miséria do Homem). Destas palavras e de outras semelhantes, portanto, teríamos tanta razão para concluir que ela renuncia à verdadeira santidade cristã quanto para inferir que ela condena a verdadeira perfeição cristã. Além disso, o engano daqueles fariseus que deixaram de alcançar uma perfeição de justiça evangélica e de humildade e alcançaram uma perfeição de justiça própria e de orgulho é tão horrível e tão diametralmente oposto ao espírito do cristianismo que os nossos reformadores merecem ser desculpados se às vezes combateram esse erro de maneira pouco cautelosa; sobretudo porque afirmaram com tanta clareza e frequência a gloriosa liberdade dos filhos de Deus (cf. Rm 8.21).

Encerrarei esta defesa da Igreja da Inglaterra com algumas observações sobre os seus “mártires”, que o sr. Hill também apresenta no seu Credo para dar apoio à doutrina da imperfeição cristã.

1. Se algum dos nossos mártires, falando do seu estado de convertido, renovado e santificado, disse: “Sou todo pecado”, ou palavras com esse sentido, ele falou com a linguagem de uma humildade pouco cautelosa, e não com a linguagem da sobriedade evangélica. Pois um homem pode ter graça e zelo bastantes para ser queimado por uma verdade sem ter tempo e prudência bastantes para investigar e expor devidamente todas as verdades.

2. No nosso estado de fraqueza, a própria perfeição da humildade pode levar um mártir pouco judicioso a usar expressões que parecem chocar-se com a gloriosa liberdade dos filhos de Deus; assim como um amor excessivo pelos nossos amigos pode levar-nos a uma solicitude pouco judiciosa e importuna.

3. Quando um mártir se considera no seu estado caído em Adão, ou no seu estado anterior de desobediência, ele pode dizer: “Sou todo pecado”, exatamente no mesmo sentido em que são Paulo disse: Sou o principal dos pecadores (cf. 1Tm 1.15). Mas dê-lhe tempo para se explicar, e ele logo lhe dará a entender que se alegra no testemunho de uma boa consciência (cf. 2Co 1.12), purificada de obras mortas, para servir ao Deus vivo (Hb 9.14); e que, longe de abrigar algum pecado em si mesmo, está decidido a lutar contra o pecado nos outros, resistindo até o sangue (Hb 12.4). E não é essa disposição um dos degraus mais altos na escada da perfeição cristã?

4. Daí se vê que as expressões pouco cautelosas dos nossos mártires visavam ao orgulho farisaico, ou à perfeição absoluta, e não à perfeição cristã. Como alguns calvinistas piedosos dos nossos dias, eles abraçavam a perfeição cristã de fato, enquanto [por um mal-entendido] a negavam em palavras. Portanto, os seus discursos contra a gloriosa liberdade dos filhos de Deus mostram apenas que a perfeição cristã é uma perfeição de humildade e de amor, e não uma perfeição de sabedoria e de conhecimento.

5. Se for possível provar que algum dos que figuram entre os nossos mártires morreu cheio do pecado que habita em nós, não hesitarei em dizer que ele morreu como fanático, e não como mártir. Pois morrer cheio do pecado que habita em nós é morrer cheio de obstinação secreta e de falta de caridade; e são Paulo declara que, se um apóstolo mesmo entregasse o seu corpo para ser queimado nessa disposição, isso de nada lhe adiantaria (1Co 13.3).

6. Assim como muitos ingleses valentes deram a vida no campo de batalha para defender o seu país contra os franceses, sem conhecer bem as liberdades e as fronteiras do Império Britânico, assim também muitos protestantes deram a vida em Smithfield para defender a sua religião contra os papistas, sem conhecer todos os marcos que dividem a terra do Israel espiritual da terra dos filisteus, e o cristianismo perfeito dos devaneios antinomianos. [N. do T.: Smithfield, em Londres, foi o local onde muitos protestantes foram queimados no reinado de Maria I (1553-1558).]

7. Os judeus podem apresentar os seus mártires tanto quanto os protestantes. Os macabeus, por exemplo, morreram inteiramente satisfeitos com a aliança mosaica e alheios à glória transcendente da dispensação cristã. Mas é essa uma razão suficiente para preferir o judaísmo ao cristianismo? Sim, se o sr. Hill tem razão quando condena a doutrina da fé perfeita e do amor perfeito e nos impõe a doutrina de um purgatório da morte, porque alguns homens bons morreram outrora sem ter uma visão clara da doutrina da perfeição cristã; embora, como homens que comem mel no escuro, provassem a sua doçura e experimentassem deliciosamente o seu poder.

8. Para concluir: estou persuadido de que, se todos os nossos reformadores e mártires estivessem vivos, nenhum deles faria objeção a este argumento, que resume a doutrina da Igreja da Inglaterra a respeito do purgatório. Se a morte nos purifica do pecado que habita em nós, não é o sangue de Cristo aplicado pelo Espírito por meio da fé. Mas o único purgatório em que nós [cristãos] confiamos ser salvos é a morte e o sangue de Cristo, que, se o apreendermos com uma fé verdadeira e firme, nos purga e purifica de todos os nossos pecados. O sangue de Cristo, diz são João, nos purificou de todo pecado (cf. 1Jo 1.7). Homilia sobre a Oração, Parte III. Portanto, a doutrina de que a morte etc. nos purifica do pecado que habita em nós, ou a doutrina de um purgatório da morte, é tão contrária à doutrina da nossa igreja quanto à de são João.

Notas de Fletcher

1. O rev. sr. Toplady, na sua Prova Histórica, página 235, informa-nos que um arcebispo papista de Saint Andrews condenou Patrick Hamilton à morte por sustentar, entre outras doutrinas, “que as crianças, logo depois do batismo, são pecadoras”, ou, o que dá no mesmo, que o batismo não remove de modo absoluto o pecado original. [N. do T.: Patrick Hamilton, reformador escocês, foi queimado em Saint Andrews em 1528.] Esta anedota é importante e mostra que a nossa Igreja dirige contra um erro papista as palavras dos seus artigos que o sr. Hill e o sr. Toplady supõem dirigidas contra a perfeição cristã.

2. Veja-se a edição impressa em Londres em 1773, página 328.

3. Entre os que professam a fé e ultimamente se apresentaram como testemunhas do amor perfeito, fico não pouco surpreso de encontrar o próprio sr. Hill. Esse cavalheiro, que tratou o sr. Wesley com tanta severidade por ter saído em defesa do amor perfeito, ou perfeição cristã, coloca-se da maneira mais solene entre os que amam perfeitamente o seu próximo, e até os seus adversários! Ouçam-no fazer a sua espantosa profissão diante do mundo, no fim do seu panfleto intitulado O Admoestador Admoestado: “Declaro da maneira mais solene” (diz ele) “que estou em perfeita caridade com o dr. Adams, bem como com o senhor, meu antagonista desconhecido.” Nunca ouvi um perfeccionista fazer profissão tão solene e tão pública de amor perfeito.

Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Last Check to Antinomianism. A Polemical Essay on the Twin Doctrines of Christian Imperfection and a Death Purgatory, 4ª edição, Londres, 1792 (exemplar digitalizado no Internet Archive), conferida com a edição das Obras de Fletcher publicada em Nova York; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.