John Fletcher · O Último Freio ao Antinomianismo · Seção VI

Paulo pregou a perfeição cristã

São Paulo pregou a perfeição cristã e declarou tê-la alcançado. Visão dos diferentes tipos de perfeição que pertencem às diferentes dispensações da graça e da glória. Como são Paulo podia declarar uma perfeição cristã de fé e de amor e, ainda assim, afirmar que não havia alcançado a sua perfeição de sofrimentos, e muito menos a sua perfeição de conhecimento e de glória. A imperfeição do santo Menino Jesus em conhecimento e em sofrimento, e o seu crescimento em sabedoria e estatura e em graça diante de Deus e dos homens, eram inteiramente compatíveis com a sua perfeição de amor humilde.

O nome de SÃO PAULO aparece na lista de testemunhas do sr. Hill contra a perfeição cristã; mas aparece sem o consentimento do apóstolo, pois Pedro e Tiago não defenderam com mais vigor do que são Paulo a gloriosa liberdade dos filhos de Deus (cf. Rm 8.21). Mais ainda: ele declarou tê-la alcançado e se dirigiu aos pais em Cristo como a pessoas que dela participavam juntamente com ele. “Transmitimos sabedoria”, diz ele, “entre os que são perfeitos” (1Co 2.6). “Todos, pois, que somos perfeitos, tenhamos este modo de pensar” (Fp 3.15). [N. do T.: nos dois versículos a NAA traz “maduros”; Fletcher cita a King James, que diz perfect, “perfeitos”.]

Paulo também não imaginava que a perfeição cristã devesse ficar restrita à ordem apostólica, pois queria que todos os crentes fossem como ele nesse ponto. É por isso que exortou os coríntios a aperfeiçoar a santidade no temor de Deus (2Co 7.1), a aperfeiçoar-se (2Co 13.11), a estar perfeitamente unidos no mesmo modo de pensar (1Co 1.10), e lhes mostrou o caminho perfeito, ou caminho ainda mais excelente (1Co 12.31; 13). Disse aos efésios que Deus deu pastores, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos, até que todos cheguemos à unidade da fé, ao estado de homem perfeito, à medida da estatura da plenitude de Cristo (Ef 4.12-13). Ele ensinava a cada um etc., a fim de apresentar cada pessoa perfeita em Cristo Jesus (Cl 1.28). Queria que os colossenses se revestissem plenamente do amor, que é o vínculo da perfeição (Cl 3.14), para que se conservassem perfeitos e completos em toda a vontade de Deus (Cl 4.12). Queria que o homem de Deus fosse perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra (2Tm 3.17). Exortava os seus convertidos a que, quer comessem, quer bebessem, quer fizessem qualquer outra coisa, fizessem tudo para a glória de Deus (1Co 10.31) e em nome do Senhor Jesus (Cl 3.17), estando sempre alegres, orando sem cessar e em tudo dando graças (1Ts 5.16-18); isto é, exortava-os a andar segundo as regras mais estritas da perfeição cristã. Censurou os hebreus por serem ainda daqueles que têm necessidade de leite e não de alimento sólido, observando que o alimento sólido, εστι τελειων, é para os perfeitos, isto é, para aqueles que, pela prática [ou experiência], têm as suas faculdades [espirituais] exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal (Hb 5.12-14). Começa o capítulo seguinte exortando-os a avançar para o que é perfeito (Hb 6.1), dando a entender que, se não o fizerem, poderão cair insensivelmente, expor o Filho de Deus à zombaria e não poder outra vez ser renovados para arrependimento (Hb 6.6). E conclui toda a epístola com um desejo comovente: que o Deus da paz os aperfeiçoasse em todo o bem, para que pudessem fazer a vontade dele (Hb 13.20-21). Daí se vê que não seria menos absurdo pôr são Paulo a crucificar de novo a Cristo (cf. Hb 6.6) do que fazê-lo atacar a conhecida doutrina de Cristo: Sejam (moralmente) perfeitos (segundo a sua estreita capacidade e o seu poder limitado) como é (moralmente) perfeito o Pai de vocês, que está no céu (na sua natureza infinita e na sua divindade sem limites) (Mt 5.48). [N. do T.: em toda esta série Fletcher cita a King James, que diz perfect; nesses lugares a NAA traz “unidos” (1Co 1.10), “pessoa madura” (Ef 4.13), “maduros” (Cl 4.12) e “adultos” (Hb 5.14).]

O sr. Hill provavelmente tentará pôr de lado todas essas passagens da Escritura dizendo que nada pode ser mais absurdo do que apresentar Paulo como perfeccionista, já que ele mesmo diz: Não que eu já tenha recebido isso ou já tenha obtido a perfeição (Fp 3.12). Mas algumas observações sobre os diferentes tipos de perfeição, e sobre a perfeição particular que o apóstolo disse ainda não ter alcançado, resolverão facilmente essa dificuldade.

O sr. Hill conhece bem demais a teologia para ignorar que a perfeição absoluta pertence somente a Deus e que o próprio Cristo, quanto à sua humanidade, ficou e ainda fica aquém da perfeição infinita. A onisciência e uma sabedoria que não admite crescimento são essenciais à perfeição absoluta; mas o homem Cristo não era onisciente, pois não sabia o dia do juízo (cf. Mc 13.32); nem a sua sabedoria era infinita, pois crescia em sabedoria (Lc 2.52). Mais ainda: a sua felicidade ainda não é absoluta, pois cresce dia a dia, à medida que ele vê a sua descendência e fica cada vez mais satisfeito (cf. Is 53.10-11). Somente Deus é supremamente perfeito; todos os seres são imperfeitos quando comparados a ele. E, embora todas as suas obras fossem perfeitas no seu lugar, como ele lhes deu diferentes graus de perfeição, as que têm graus inferiores de bondade podem ser chamadas imperfeitas em comparação com as que são dotadas de graus superiores de excelência. Assim, os arcanjos são perfeitos como arcanjos, mas imperfeitos em comparação com Jesus Cristo. Os anjos são perfeitos como anjos, mas imperfeitos em comparação com os arcanjos. Enoque, Elias e os santos que ressuscitaram com o nosso Senhor são perfeitos como santos glorificados; e, em comparação com eles, os espíritos dos justos aperfeiçoados (Hb 12.23) que já partiram continuam num estado de imperfeição, pois os santos ressuscitados estão glorificados no corpo e na alma, ao passo que os corpos desfeitos em pó dos santos que partiram, não tendo ainda sentido o poder da ressurreição de Cristo (Fp 3.10), continuam sob o poder da corrupção. Por mais imperfeitos que são Paulo e são João sejam agora, em comparação com Enoque, Elias e os vinte e quatro anciãos tantas vezes mencionados por são João (cf. Ap 4.4), são, no entanto, muito mais perfeitos do que quando estavam oprimidos por um corpo corruptível, no qual gemiam angustiados (2Co 5.4); pois os espíritos sem corpo dos justos aperfeiçoados são mais perfeitos do que os cristãos mais perfeitos, que ainda estão num corpo morto por causa do pecado (Rm 8.10). E, assim como entre os ricos uns são mais ricos que outros, ou entre os homens altos uns são mais altos que outros, assim também entre os cristãos perfeitos uns são mais perfeitos que outros.

Segundo a gradação que pertence a todas as obras de Deus, e segundo a doutrina das dispensações da graça divina, o menos perfeito de todos os cristãos perfeitos é mais perfeito do que o judeu mais perfeito; sim, mais do que João Batista, cuja dispensação ligava o judaísmo ao cristianismo. Ou, para usar a linguagem do nosso Senhor, o menor no Reino [cristão] de Deus é maior do que João (Lc 7.28), embora o próprio João fosse o maior entre os nascidos de mulher (cf. Mt 11.11) sob qualquer dispensação anterior. Pela mesma regra, quem é perfeito sob a dispensação judaica é mais perfeito do que quem é perfeito apenas segundo a dispensação dos gentios.

O padrão dessas diferentes perfeições está fixado nas Escrituras. Temer a Deus e fazer o que é justo (At 10.35), isto é, fazer aos outros o que gostaríamos que nos fizessem, movidos pelo temor de Deus, é o padrão da perfeição de um gentio. O padrão da perfeição de um judeu, quanto à moral, pode ser visto em Dt 27.14-26 e no Sl 15; e, quanto à devoção, está fixado no Sl 119. Toda essa perfeição é assim resumida por Miqueias: “Ó Israel, o que o Senhor, seu Deus, pede de você? Que pratique a justiça, ame a misericórdia e ande humildemente com o seu Deus” (Mq 6.8). [N. do T.: o vocativo “Ó Israel” é de Fletcher; a King James traz “ó homem” (O man).]

A perfeição do cristianismo em sua infância, que nas Escrituras é chamada o batismo de João, é assim descrita por João e por Cristo: “Quem tiver duas túnicas reparta com quem não tem etc. (Lc 3.11). Se você quer ser perfeito, venda os seus bens, dê aos pobres e siga-me (Mt 19.21). Se alguém vem a mim e não odeia [isto é, não está disposto, por minha causa, a deixar] o seu pai e a sua mãe, a sua mulher e os seus filhos, os seus irmãos e as suas irmãs, e até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. E quem não tomar a sua cruz e vier após mim não pode ser meu discípulo” (Lc 14.26-27). [N. do T.: em Lc 14.26 a NAA traz “e não me ama mais do que ama”; Fletcher segue a King James, hate not.]

Quanto ao cristianismo adulto e perfeito, que vem em seguida ao batismo do Espírito Santo, ministrado pelo próprio Cristo, a sua perfeição está descrita no Sermão do Monte, em 1Co 13 e em todas aquelas partes das Epístolas em que os apóstolos exortam os crentes a andar de acordo com a liberdade da glória dos filhos de Deus (Rm 8.21).

A perfeição dos espíritos sem corpo é assim descrita por uma voz do céu: “Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem das suas fadigas [não dos seus pecados; disso eles descansaram antes da morte], pois as suas obras os acompanham” (Ap 14.13). E a perfeição completa dos santos glorificados é assim descrita por são João e por são Paulo: “Eles viverão e reinarão com Cristo (Ap 20.4) numa cidade em que não há santuário, porque o seu santuário é o Senhor, o Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro; e a cidade não precisa do sol para lhe dar claridade, pois a glória de Deus a ilumina, e o Cordeiro é a sua lâmpada (Ap 21.22-23). Nunca mais haverá qualquer maldição; nela estará o trono de Deus e do Cordeiro, os seus servos o adorarão, contemplarão a sua face, e na sua testa terão o nome dele; e reinarão para todo o sempre (Ap 22.3-5) em corpos glorificados. Porque é necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade (1Co 15.53). Semeia-se em desonra, ressuscita em glória; semeia-se em fraqueza, ressuscita em poder; semeia-se corpo natural, ressuscita corpo espiritual (1Co 15.42-44). Como é o Adão celestial, assim também são os celestiais; e, assim como trouxemos a imagem do homem terreno, traremos também a imagem do homem celestial (1Co 15.48-49); pois a carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deus” (1Co 15.50); mas o corpo espiritual, isto é, o corpo glorificado, herdará a Canaã celestial.

As pessoas cuja ortodoxia consiste em recusar-se obstinadamente a espiar por cima do muro do preconceito dirão, provavelmente, que essas observações sobre os diferentes tipos e graus de perfeição são “quimeras novas”, e que eu multiplico as perfeições como multiplico as justificações, “inventando-as às dúzias”. A isso respondo que nada apresentamos senão aquilo que, esperamos, se recomenda à imparcialidade dos que têm consideração pela razão e pela revelação.

(1) A razão nos diz que todas as obras de Deus são perfeitas no seu lugar e que, ocupando umas um lugar mais alto do que outras na escala dos seres, elas são, por consequência, mais perfeitas. Se o sr. Hill não quiser crer nisso, apelamos para o seu banqueiro e lhe perguntamos se não há uma diferença essencial entre a perfeição metálica do latão, a da prata e a do ouro. Apelamos para o seu joalheiro e lhe perguntamos se a perfeição de uma ágata não é inferior à de uma esmeralda, e a perfeição de um rubi à de um diamante; e se não se pode dizer que alguns diamantes são mais perfeitos do que outros. Apelamos para o seu jardineiro e lhe perguntamos se uma amora silvestre não é inferior a um morango, um morango a uma nectarina, e uma nectarina a um abacaxi; e se, apesar disso, cada uma dessas frutas não tem a sua perfeição. Mais ainda: ousaremos perguntar ao seu ajudante de jardineiro se a perfeição do fruto não implica a perfeição da flor; se a perfeição da flor não pressupõe a do botão; e se um botão cuja perfeição a geada destruiu em março tem alguma probabilidade de produzir flores perfeitas em maio e frutos perfeitos em outubro.

Se o medo de se tornar perfeccionista levar o sr. Hill a recusar o seu assentimento a essas verdades evidentes, falaremos com ele como mestre em artes, cavalheiro versado em filosofia natural tanto quanto em calvinismo. É absurdo dizer que alguns justos sobem progressivamente da perfeição de uma dispensação inferior à perfeição de uma dispensação superior no mundo espiritual? Não vemos uma promoção semelhante até entre as classes mais baixas de animais no mundo natural? Considere aquele belo inseto que exulta em exibir a sua coroa e em abrir as asas ao sol. Você não dirá que ele é uma borboleta perfeita? No entanto, três semanas atrás era uma crisálida perfeita, dormindo tranquila no seu túmulo de seda. Alguns meses antes era um bicho-da-seda perfeito, que se preparava diligentemente para outro estado de existência, fiando e tecendo a sua mortalha. E, se você o tivesse visto um ano atrás, não teria visto nada senão um ovo perfeito. Assim, em um ano, ele passou por três grandes mudanças, que podem ser chamadas metamorfoses, nascimentos ou conversões. Cada mudança foi perfeita no seu gênero; e, no entanto, a última é tão superior à primeira quanto uma bela borboleta que voa supera um verme negro que rasteja; e quanto esse verme supera a semente invisível de vida que jaz adormecida no minúsculo ovo de um inseto.

(2) A Escritura e a experiência não apoiam menos do que a razão e a filosofia a nossa doutrina da diferença entre as perfeições. Lemos que Noé era homem justo e perfeito entre os seus contemporâneos (Gn 6.9). Lemos também: Havia um homem na terra de Uz cujo nome era Jó. Este homem era perfeito (Jó 1.1). [N. do T.: nos dois versículos a NAA traz “íntegro”; Fletcher cita a KJV, que diz perfect.] Ora, qualquer que fosse a perfeição de Noé e de Jó, é evidente que não era a perfeição judaica, pois a perfeição do judaísmo requer o sacramento da circuncisão, e o sr. Hill dificilmente dirá que os homens eram circuncidados na terra de Uz e antes do dilúvio. Daí concluo que Noé e Jó tinham alcançado a perfeição do gentilismo, e não a do judaísmo.

Mais ainda: Observe o homem perfeito, diz Davi, porque o futuro dele será de paz (Sl 37.37). [N. do T.: a NAA traz “aquele que é íntegro e reto”.] Sem dúvida ele disse isso do judeu perfeito; e assim eram, penso eu, Moisés, Samuel e Daniel. Se o sr. Hill não o admitir, apresento Simeão, ou Ana, ou Zacarias e Isabel, que ambos eram justos diante de Deus, vivendo de forma irrepreensível em todos os preceitos e mandamentos do Senhor (Lc 1.6). [N. do T.: a edição de 1792 imprime “Luke i. 16”; o versículo citado é Lc 1.6.] Ora, esses excelentes judeus não eram perfeitos segundo a dispensação de João Batista; pois o batismo com água não era menos essencial a um discípulo perfeito de João do que a circuncisão a um discípulo perfeito de Moisés; e eles, ou alguns deles, provavelmente morreram muito antes de João abrir a sua dispensação pregando batismo de arrependimento (Mc 1.4).

Mais uma vez: João Batista era, sem dúvida, perfeito segundo a sua própria dispensação; a sua severidade penitencial, a sua grande reputação de santidade e o alto elogio que o nosso Senhor fez dele levam-nos naturalmente a concluí-lo. Mas que ele não era um cristão perfeito é evidente pelas seguintes considerações. (1) O nosso Senhor disse que o menor no Reino [cristão] de Deus seria maior do que João (Lc 7.28). (2) O próprio João confessou a imperfeição do seu batismo, ou dispensação, em comparação com a perfeição do batismo de Cristo e da sua dispensação espiritual. Eu é que preciso ser batizado por você, disse ele a Cristo, e é você que vem a mim? (Mt 3.14). E aos seus discípulos disse: Eu batizo vocês com água, mas ele [o Cordeiro de Deus] os batizará com o Espírito Santo e com fogo (Mt 3.11). (3) João foi decapitado antes de Cristo ser crucificado; e o derramamento do Espírito, o batismo do Espírito Santo, só começou depois da ascensão de Cristo. O apóstolo são João menciona particularmente que o Espírito até aquele momento não tinha sido dado, ou seja, que a plena dispensação do Espírito ainda não fora aberta, porque Jesus ainda não havia sido glorificado (Jo 7.39). Observação importante, esta, que as próprias palavras de Cristo aos seus discípulos confirmam (Jo 16.7): Eu lhes digo a verdade: é melhor para vocês que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vocês [a plena dispensação do Espírito Santo não será aberta]; mas, se eu for, eu o enviarei a vocês. De acordo com isso, deu-lhes esta ordem: Não se afastem de Jerusalém, mas esperem a promessa do Pai [isto é, o Espírito prometido], a qual, diz ele, vocês ouviram de mim. Porque João, na verdade, batizou com água, mas vocês serão batizados com o Espírito Santo, dentro de poucos dias (At 1.4-5). E, depois de terem sido assim batizados, começaram a pregar o batismo pleno de Cristo, que tem dois ramos: o batismo de água e o batismo do Espírito, ou do fogo celestial. Por isso, quando os judeus arrependidos perguntaram: Que faremos, irmãos?, Pedro respondeu: Cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo, e vocês receberão o dom do Espírito Santo. Porque a promessa dele é para vocês e para os seus filhos, e para todos os que ainda estão longe, isto é, para todos aqueles que o Senhor, nosso Deus, chamar à perfeição da dispensação cristã. E nós somos testemunhas destes fatos, nós e o Espírito Santo, que Deus [desde o dia de Pentecostes] deu aos que lhe obedecem, isto é, aos crentes obedientes. Compare At 2.38 e At 5.32 com Jo 7.39.

Das razões precedentes concluímos que o caso de João Batista foi tão singular quanto o de Moisés. Moisés conheceu Josué e o apontou como o homem que havia de conduzir os israelitas à terra da promessa; mas Moisés morreu antes que Josué abrisse o caminho. Assim, Moisés viu a boa terra; não estava longe do reino figurado de Deus; mas não entrou nele. Do mesmo modo, o Batista conheceu Cristo e o apontou como a pessoa maravilhosa que havia de introduzir os crentes no reino espiritual de Deus. Mas João foi decapitado antes que Cristo glorificado abrisse o seu reino próprio. Assim, João viu o reino dos céus; não estava longe dele; mas, apesar disso, não entrou nele. Morreu como um justo aperfeiçoado segundo a sua própria dispensação incompleta, mas não segundo a dispensação de Cristo e do seu Espírito. Essa foi a tristeza do Batista, não a sua culpa; pois ele desejava ardentemente ser batizado por Cristo com o Espírito Santo, mas o Espírito Santo ainda não tinha sido dado na medida cristã. O dom do Espírito era antes destilado como orvalho do que derramado como chuva, porque Jesus ainda não havia sido glorificado (Jo 7.39). Mas agora que ele subiu às alturas para receber em favor dos homens esse dom indescritível na sua plenitude, agora que a promessa do Pai se cumpre para todos os que a reclamam como convém, somos culpados se nos damos por satisfeitos com as manifestações inferiores do Espírito que pertencem ao batismo de João ou ao cristianismo infantil; e agimos de maneira indigna de cristãos se ridicularizamos o reino do Espírito Santo e falamos mal do cristianismo perfeito.

Voltando ao assunto: um gentio perfeito vê Deus nas suas obras e providências; mas, carecendo de uma manifestação mais particular da existência e da bondade dele, suspira: Quem dera eu soubesse onde encontrá-lo! (Jó 23.3). Um judeu perfeito espera ardentemente a sua vinda como Messias e Emanuel, ou Deus conosco (Mt 1.23); e geme: Ah! Se fendesses os céus e descesses! (Is 64.1). Um discípulo perfeito de João crê que o Messias veio em carne e ora: Ó Cordeiro de Deus, que tiras o pecado do mundo, restaura o reino a um israelita que espera; batiza-me com o Espírito Santo; enche-me do Espírito (cf. Jo 1.29; At 1.6). E os cristãos perfeitos podem testemunhar, por bendita experiência, que aquele que foi manifestado na carne (1Tm 3.16) veio no poder do Espírito para estabelecer dentro deles o seu reino gracioso de justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm 14.17).

Era nesse reino bendito que são Paulo vivia quando disse: Todos, pois, que somos perfeitos, tenhamos este modo de pensar (Fp 3.15). [N. do T.: aqui e em 1Co 2.6, logo adiante, a NAA traz “maduros”; Fletcher cita a KJV, que diz perfect.] No entanto, embora fosse não apenas um cristão perfeito, mas também capaz de transmitir sabedoria entre os que são perfeitos (1Co 2.6), ele reconhece com justiça que é imperfeito em conhecimento, em comparação com os santos perfeitamente glorificados. O nosso conhecimento é incompleto, diz ele, mas, quando vier o que é perfeito, então o que é incompleto será aniquilado. Porque agora vemos como num espelho, de forma obscura; mas, quando deixarmos estes véus escuros de carne e sangue e formos revestidos de corpos celestiais e incorruptíveis, seremos capazes de contemplar Deus sem morrer; e então o veremos face a face (1Co 13.9-12). [N. do T.: no v. 10, a NAA traz “o que é completo”.] Porque, embora agora sejamos filhos de Deus, ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é (1Jo 3.2).

É desse aperfeiçoamento final dos santos, no dia da ressurreição, que o apóstolo escreve aos hebreus, quando diz: Todos estes, mesmo tendo obtido bom testemunho por meio da fé, não obtiveram a concretização da promessa que se refere à plena perfeição dos justos, porque Deus tinha previsto algo melhor para nós [cristãos], para que eles [os santos judeus], sem nós, não fossem aperfeiçoados [isto é, para que todos nós fôssemos aperfeiçoados juntos na glória]. Porque todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta [a trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis], e nós, os que tivermos morrido ou formos então encontrados vivos num estado de perfeição inicial, seremos transformados (Hb 11.39-40; 1Co 15.51-52).

Nem daí se segue que todos os santos glorificados serão igualmente perfeitos. Não posso deixar de abraçar aqui o sensato parecer do dr. Watts. “O culto do céu”, diz esse judicioso teólogo, “e a alegria que o acompanha podem ser extremamente diferentes em graus, segundo a diferente capacidade dos espíritos; e, contudo, todos podem ser perfeitos e livres de defeitos pecaminosos. Não louva o pardal o seu Criador sobre a cumeeira de uma choupana, chilreando na sua perfeição nativa? E, no entanto, a cotovia se eleva, no seu voo e no seu canto, tão acima do pardal quanto as nuvens estão acima do telhado. Sem dúvida, alegrias e glórias superiores devem pertencer a poderes e serviços superiores. A palavra perfeição nem sempre implica igualdade. Ainda que todas as almas no céu fossem de um só molde, feitio e inclinação, pode haver diferentes tamanhos de capacidade mesmo num mesmo gênio, e um grau diferente de preparo para os mesmos deleites. Portanto, embora todos os espíritos dos justos fossem uniformes nas suas naturezas e nos seus prazeres, e todos perfeitos, um espírito pode possuir mais felicidade e glória do que outro, porque é mais capaz de bênçãos intelectuais e está mais bem preparado para elas. Assim, quando vasos de vários tamanhos são lançados no mesmo oceano, haverá grande diferença na quantidade de líquido que recebem, embora todos possam estar cheios até a borda e todos feitos do metal mais precioso.” Watts, Sobre a felicidade dos espíritos separados. [N. do T.: Isaac Watts (1674-1748), teólogo e autor de hinos inglês; o trecho é do discurso “The Happiness of Separate Spirits Made Perfect”, em The World to Come. “Espíritos separados” são as almas separadas do corpo pela morte.]

Tendo assim provado, pela razão e pela Escritura, que há vários tipos e graus de perfeição, e que um homem pode ser perfeito segundo a dispensação da graça divina sob a qual está na terra, embora ainda não seja perfeito segundo a dispensação da glória divina, que se dará quando os nossos corpos mortais conhecerem o poder da ressurreição de Cristo; tendo provado isso, digo, nada é mais fácil do que conciliar são Paulo consigo mesmo, quando ele fala, no mesmo capítulo, de ser perfeito e de ainda não ser perfeito. Pois, quando diz: Todos, pois, que somos perfeitos, tenhamos este modo de pensar (Fp 3.15), fala da perfeição cristã, isto é, da maturidade da graça e da santidade a que chegam, sob a dispensação plena do evangelho de Cristo, homens ainda carregados de carne e sangue corruptíveis. Mas, quando diz: Não que eu já tenha recebido isso ou já tenha obtido a perfeição etc. (Fp 3.12), fala da sua perfeição como candidato a uma coroa de martírio na terra e a uma coroa de glória no céu. É como se dissesse: Embora eu esteja morto para o pecado e aperfeiçoado no amor, embora já não seja eu quem vive, mas Cristo vive em mim (Gl 2.20), não estou satisfeito com a minha perfeição presente: quero ser aperfeiçoado como Cristo. Não é verdade que o Cristo tinha de sofrer estas coisas e [depois] entrar na sua glória? (Lc 24.26). Em suma, quero ser aperfeiçoado no sofrimento, tanto quanto no amor. Não posso, não quero descansar enquanto não terminar a minha carreira de dor e de vergonha e tomar parte nos sofrimentos de Cristo (Fp 3.10) no madeiro ignominioso. Estou cheio de uma nobre ambição de morrer mártir por ele, persuadido de que essa perfeição de sofrimentos me amadurecerá para a minha perfeição celestial, a perfeição à qual serei elevado na ressurreição dos justos.

Que esse era o sentido do apóstolo quando negou que já tivesse sido aperfeiçoado parecerá indubitável, espero, aos que considerarem o contexto. As palavras que precedem imediatamente a observação de são Paulo de que ainda não o havia alcançado exprimem um desejo comovente de participar tanto da exaltação de Cristo, por uma ressurreição gloriosa, como da sua humilhação, por sofrimentos perfeitos. O que eu quero é conhecer Cristo, como ele diz, e o poder da sua ressurreição, tomar parte nos seus sofrimentos e me tornar como ele na sua morte dolorosa e ignominiosa, para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos (Fp 3.10-11), que é a plena perfeição da natureza humana, e garantir uma parte na primeira ressurreição dos justos, na qual os mártires terão interesse particular. Testemunha disso é esta passagem clara da Escritura: Vi ainda as almas dos que foram decapitados por terem dado testemunho de Jesus e proclamado a palavra de Deus etc., e viveram e reinaram com Cristo durante mil anos. Os restantes dos mortos não reviveram até que se completassem os mil anos. Esta é a primeira ressurreição. Bem-aventurado e santo é aquele que tem parte na primeira ressurreição (Ap 20.4-6).

Mas repito: embora são Paulo negasse ter alcançado ainda uma perfeição de vergonha e de glória, professava, contudo, ter alcançado uma perfeição de fé cristã que atua pelo amor (cf. Gl 5.6). Isso é evidente pelas palavras que seguem o texto controvertido: uma coisa faço etc.; prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus [que é a minha completa glorificação no céu]. Todos, pois, que somos perfeitos [em fé e amor], tenhamos este modo de pensar (Fp 3.13-15). Prossigamos para a nossa perfeição de sofrimento aqui e de glória no porvir, perfeição corporal, esta, que o apóstolo descreve assim no fim do capítulo: aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, o qual transformará o nosso corpo de humilhação, segundo a eficácia do poder que ele tem de até subordinar a si todas as coisas (Fp 3.20-21). Daí se vê, se não estamos estranhamente enganados, que não é menos absurdo combater a nossa doutrina da perfeição cristã com base em Filipenses 3 do que combater a divindade de Cristo com base no primeiro capítulo do Evangelho de são João.

Concluirei estas observações sobre os vários tipos de perfeição com uma observação que poderá ajudar o sr. Hill a entender como são Paulo podia ser perfeito no amor, quando professava não ser perfeito nem em glória, nem em conhecimento, nem em sofrimentos.

Se o nosso Senhor não tivesse sido perfeito no amor desde menino, teria violado os dois grandes mandamentos dos quais dependem toda a Lei e os Profetas (Mt 22.40). Mas nele não existe pecado (1Jo 3.5); portanto, ele era perfeito no amor, embora o seu amor admitisse aumento, assim como a sua sabedoria e o seu conhecimento, do mesmo modo que um botão perfeito admite crescer até ser uma flor perfeita, e essa flor até ser um fruto perfeito. É por isso que, à medida que crescia o amor perfeito do nosso Senhor, ele crescia em graça diante de Deus e dos homens, sendo-lhe devido por todos os seres racionais um grau adicional de aprovação a cada manifestação da sua perfeição crescente (Lc 2.52). [N. do T.: a edição de 1792 imprime “Luke i, 52”; o versículo citado é Lc 2.52.] Mas, embora o nosso Senhor fosse sempre perfeito no amor, é certo que nem sempre foi perfeito nos sofrimentos, muito menos na glória; pois não foi aperfeiçoado nos sofrimentos senão depois de expirar entre os dois ladrões, nem foi aperfeiçoado na glória antes de tomar o seu lugar à direita de Deus. Essa é evidentemente a doutrina do apóstolo quando diz: Convinha que Deus, por meio de quem todas as coisas existem, aperfeiçoasse, por meio de sofrimentos, o Autor da nossa salvação (Hb 2.10). E ainda, no capítulo 5: Embora fosse Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu e, tendo sido aperfeiçoado [nos sofrimentos e na glória], tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem (Hb 5.8-9). O sr. Hill deve, então, admitir que a imperfeição de são Paulo quanto aos sofrimentos e à glória não era obstáculo à perfeição do seu amor; ou deve afirmar que Cristo foi pecaminosamente imperfeito no amor enquanto continuou imperfeito nos sofrimentos e na glória: suposição, esta, horrível demais para ser admitida por um cristão meramente nominal, quanto mais pelo sr. Hill.

Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Last Check to Antinomianism. A Polemical Essay on the Twin Doctrines of Christian Imperfection and a Death Purgatory, 4ª edição, Londres, 1792 (exemplar digitalizado no Internet Archive), conferida com a edição das Obras de Fletcher publicada em Nova York; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.