John Fletcher · O Último Freio ao Antinomianismo · Seção IX
São Paulo, em vez de confessar-se homem carnal, ainda vendido à escravidão do pecado, nos apresenta um retrato notável do cristão perfeito, ao descrever de vez em quando a sua própria espiritualidade e a sua mente voltada para o céu. Por isso, as suas experiências autênticas são outras tantas provas de que a perfeição cristã é alcançável e de fato já foi alcançada nesta vida. O que santo Agostinho e o rev. sr. Whitefield pensaram, em certa época, de Romanos 7. E quanto este último teólogo e o rev. sr. Romaine às vezes se aproximam da doutrina da perfeição cristã.
O erro do sr. Hill quanto à suposta carnalidade de são Paulo é tanto mais espantoso porque a espiritualidade que o apóstolo declara ter não só o inocenta, mas demonstra a verdade da nossa doutrina. Tendo, pois, resgatado o seu caráter de debaixo dos pés daqueles que pisam a sua honra no pó e vendem a sua pessoa à escravidão do pecado num mercado antinomiano, voltarei contra os nossos opositores o argumento deles; e, apelando para as experiências autênticas e indubitáveis de são Paulo, quando ele transmitia sabedoria entre os perfeitos (1Co 2.6) [N. do T.: a NAA traz “maduros”; Fletcher segue a King James, que diz perfect, “perfeitos”.], apresentarei ao leitor um retrato do cristão perfeito pintado de corpo inteiro. Nem preciso informar ao sr. Hill que o apóstolo mal representado posa para o seu próprio retrato diante do espelho da sinceridade evangélica; e que, fazendo-se pintor espiritual de si mesmo, com o pincel de uma boa consciência e com cores misturadas pelo Espírito da Verdade, ele pinta esse admirável retrato do natural:
Sejam meus imitadores (Fp 3.17). Uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficam para trás…, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação [uma coroa de glória] (Fp 3.13-14). O amor… é o vínculo da perfeição (Cl 3.14). O cumprimento da lei é o amor (Rm 13.10). Se não tiver amor, nada serei (1Co 13.2). E que amor são Paulo tinha, isso se vê pelas palavras de Cristo e pelas dele mesmo. Ninguém tem amor maior [isto é, mais perfeito] do que este [diz nosso Senhor]: de alguém dar a própria vida pelos seus amigos (Jo 15.13). Ora, esse mesmo amor Paulo tinha por Cristo, pelas almas, sim, pelas almas dos seus mais ferozes adversários, os judeus. Ouça-o: “O amor de Cristo nos domina (2Co 5.14). Para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro (Fp 1.21). Tenho o desejo de partir e estar com Cristo (Fp 1.23). Em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, desde que eu complete a minha carreira com alegria (At 20.24). Estou pronto não só para ser preso, mas até para morrer… pelo nome do Senhor Jesus (At 21.13). Mesmo que eu seja oferecido como libação sobre o sacrifício e serviço da fé que vocês têm, fico contente e me alegro com todos vocês (Fp 2.17).” E, dois capítulos depois daquele em que se supõe que o apóstolo se declare de fato vendido à escravidão do pecado, ele declara amor perfeito aos seus inimigos jurados; aquele mesmo amor pelo qual a exigência da lei se cumpre naqueles que vivem… segundo o Espírito (Rm 8.4). Ouça-o: “Digo a verdade em Cristo, não minto, e a minha consciência confirma isso por meio do Espírito Santo: etc. Porque eu mesmo desejaria ser amaldiçoado, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, meus compatriotas segundo a carne” (Rm 9.1-3); referindo-se aos judeus, os seus perseguidores implacáveis e sanguinários.
Nem era esse amor de são Paulo como uma enxurrada: corria constantemente, como um rio. Essa água viva brotava sem cessar na sua alma, como o atestam estas palavras: “Lembrem-se de que, durante três anos, noite e dia, não cessei de admoestar, com lágrimas, cada um de vocês (At 20.31). Muitos…, dos quais repetidas vezes eu lhes dizia e agora digo, até chorando, que… só pensam nas coisas terrenas. Pois a nossa pátria está nos céus (Fp 3.18-20). A nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência de que com simplicidade e sinceridade de Deus, não com sabedoria humana, mas na graça divina, temos vivido no mundo (2Co 1.12). Nada sei [isto é, nenhum mal] contra [ou, a respeito de] mim mesmo (1Co 4.4) [N. do T.: Fletcher segue a King James, I know nothing by myself; a NAA traz “a consciência não me acusa de nada”.]. Nada podemos contra a verdade, senão a favor da verdade (2Co 13.8). Se enlouquecemos [isto é, se somos levados para fora de nós mesmos], é para Deus; e, se conservamos o juízo [isto é, a calma], é para vocês” (2Co 5.13) [isto é, o amor a Deus e ao próximo é a única fonte de todas as minhas disposições]. “Não dando nenhum motivo de escândalo em coisa alguma, mas em tudo nos recomendando como ministros de Deus: na muita paciência…, na pureza…, na bondade…, no amor não fingido (2Co 6.3-6). Sinto-me grandemente confortado e transbordo de alegria em meio a toda a nossa tribulação (2Co 7.4). Eu de boa vontade gastarei e me deixarei gastar em favor de vocês. Se eu os amo cada vez mais, será que vou ser amado cada vez menos? (2Co 12.15) [Um raro exemplo este, do amor mais perfeito!] Falamos em Cristo diante de Deus, e tudo isto, meus amados, é para a edificação de vocês (2Co 12.19). Estou crucificado com Cristo (Gl 2.19); logo, já não sou eu quem vive [veja aqui a destruição do eu pecaminoso!], mas Cristo vive em mim. E esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus (Gl 2.20). Como sempre, também agora, Cristo será engrandecido no meu corpo, quer pela vida, quer pela morte (Fp 1.20). Nós… adoramos a Deus no Espírito e nos gloriamos em Cristo Jesus, em vez de confiarmos na carne (Fp 3.3). Observem os que vivem segundo o exemplo que temos dado a vocês (Fp 3.17). Aprendi a viver contente em toda e qualquer situação; em tudo e por tudo aprendi o segredo, tanto de ter em abundância como de passar necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece (Fp 4.11-13). Ensinando a cada um em toda a sabedoria, a fim de que apresentemos cada pessoa perfeita em Cristo. É para esse fim que eu me empenho, esforçando-me o mais possível, segundo o poder de Cristo que opera poderosamente em mim (Cl 1.28-29).”
Essa descrição do cristão perfeito, e de são Paulo, é tão extraordinariamente gloriosa, e me parece uma refutação tão clara do erro calvinista que combato, que não posso negar a mim mesmo o prazer, nem aos meus leitores a edificação, de ver o apóstolo mal representado dar ao seu belo retrato mais algumas pinceladas finais. “Falamos”, diz ele, “não para agradar as pessoas, e sim para agradar a Deus, que prova o nosso coração. A verdade é que nunca usamos de linguagem de bajulação etc. Deus é testemunha disso. Também jamais andamos buscando elogios das pessoas, nem de vocês, nem de outros (1Ts 2.4-6). Mas fomos carinhosos quando estivemos aí com vocês, assim como uma mãe que acaricia os próprios filhos (1Ts 2.7). Assim, com muito afeto, estávamos prontos a lhes oferecer não somente o evangelho de Deus, mas até mesmo a própria vida (1Ts 2.8), trabalhando de noite e de dia para não vivermos à custa de nenhum de vocês (1Ts 2.9). Vocês e Deus são testemunhas de como nos portamos de maneira piedosa, justa e irrepreensível em relação a vocês (1Ts 2.10). O Senhor faça com que cresça e aumente o amor de uns para com os outros e para com todos, como também o nosso amor por vocês (1Ts 3.12). Você tem seguido de perto… a minha conduta, o meu propósito, a minha fé, a minha paciência, o meu amor, a minha perseverança (2Tm 3.10). Guardei a fé. Desde agora me está guardada a coroa da justiça, que o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia” (2Tm 4.7-8).
Quando leio essa maravilhosa experiência de são Paulo, escrita por ele mesmo, e vejo a sua doutrina da perfeição cristã tão gloriosamente exemplificada nas suas próprias disposições e na sua conduta, fico surpreso de que homens bons ainda confundam Saulo, o judeu, com Paulo, o cristão; e tomem o filho da Jerusalém terrena, que está em escravidão com os seus filhos (Gl 4.25), pelo filho da Jerusalém lá de cima, que é livre e é a nossa mãe (Gl 4.26), de todos nós que permanecemos firmes na liberdade para a qual Cristo nos libertou (Gl 5.1). Mas, pensando melhor, já não me admiro. Pois, se aqueles que reservam para si o título de católicos podem crer que Cristo tomou o próprio corpo nos próprios dedos e o partiu ao meio quando tomou o pão, o partiu e disse: Isto é o meu corpo, que é partido por vocês (1Co 11.24) [N. do T.: a NAA traz “que é dado por vocês”; Fletcher segue a King James, which is broken for you, “que é partido”.], por que aqueles que monopolizam entre nós o nome de ortodoxos não podem crer também que são Paulo falou sem figura de linguagem quando disse: Eu… sou carnal, vendido à escravidão do pecado (Rm 7.14), e feito prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros (Rm 7.23)? Irmãos, peço-lhes: sejam como eu sou (Gl 4.12). O que… ouviram de mim, e o que viram em mim, isso ponham em prática; e o Deus da paz estará com vocês (Fp 4.9). Ora, vocês ouviram e viram que o mal que não quero, esse faço (Rm 7.19), e que, segundo a carne, sou escravo da lei do pecado (Rm 7.25). Em suma, vocês ouviram e viram que sou carnal, vendido à escravidão do pecado.
Não me surpreende nada que professantes carnais e insensatos defendam essa doutrina contraditória, esse padrão agradável à carne, feito de incoerência calvinista e de imperfeição cristã. Mas que homens bons e, em outros aspectos, judiciosos a defendam com tanto zelo, isso me parece espantoso! Eles nunca podem ter o propósito de confundir a escravidão evangélica com a liberdade evangélica, e a experiência cristã de são Paulo com a de Medeia [N. do T.: ver os versos de Ovídio citados na seção VIII.] e a do “sr. Fulsome”, para dar apoio ao antinomianismo grosseiro; nem podem ter prazer algum em deturpar o santo apóstolo. Por que, então, patrocinam um erro tão grande? Respondo ainda: pela mesma razão que faz papistas piedosos crerem que o pão consagrado é a carne real de Cristo. Os seus sacerdotes e o papa dizem isso; e algumas expressões figuradas de nosso Senhor parecem apoiar o que eles dizem. Nós, protestantes, a quem os papistas chamam de raciocinadores carnais e de hereges, somos de outra opinião; e, se eles cressem como nós, a sua humildade e a sua ortodoxia correriam perigo. Aplique isso ao caso presente. Os teólogos calvinistas e santo Agostinho afirmam que são Paulo, com humildade, falava da sua experiência presente quando disse: Eu… sou carnal etc. Nós, que somos chamados “arminianos e perfeccionistas”, pensamos o contrário; e os nossos piedosos opositores supõem que, se pensassem como nós, perderiam a sua humildade e a sua ortodoxia. O seu erro, portanto, nasce principalmente de temores equivocados, e não de oposição deliberada à verdade.
Nem santo Agostinho está inteiramente do lado dos nossos opositores: temos a nossa parte no bispo de Hipona, tanto quanto eles. Se ele estava do lado deles quando a controvérsia com Pelágio o havia inflamado, estava do nosso quando ainda se mantinha na linha bíblica da moderação. Então ele reconheceu francamente que o homem que o apóstolo representa em Romanos 7 é “homo sub lege positus ante gratiam; um homem sob o [condenador, irritante] poder da lei, que ainda é estranho à liberdade e ao poder do evangelho de Cristo”. Portanto, se o sr. Hill reivindica santo Agostinho, o controversista preconceituoso, nós reivindicamos santo Agostinho, o pai da Igreja sem preconceitos; ou, antes, deixando de lado a sua autoridade duvidosa, continuamos a apelar para a razão sem preconceitos e para a Escritura clara.
O que digo de santo Agostinho pode-se dizer do rev. sr. Whitefield. Antes de ter abraçado os erros de santo Agostinho, que entre nós são conhecidos pelo nome de calvinismo, ele cria, tanto quanto aquele pai da Igreja, que o homem desconsolado que geme: Quem me livrará? (Rm 7.24), não é possuidor, mas buscador da liberdade cristã. Para prová-lo, basta-me transcrever a parte final do seu sermão intitulado As Marcas do Novo Nascimento.
“Em terceiro lugar [diz ele], dirijo-me àqueles que estão sob a atração do Pai e estão passando pelo espírito de escravidão, mas, não encontrando as marcas” [do novo nascimento] “acima mencionadas, estão sempre clamando [como o penitente carnal de Rm 7]: Quem nos livrará do corpo desta morte? (Rm 7.24). Não se desesperem, pois, apesar da aflição presente, pode ser do agrado divino dar-lhes o Reino (cf. Lc 12.32).” [Daqui se vê que o sr. Whitefield não considerava os que choram desse modo como crentes cristãos, mas apenas como pessoas que poderiam vir a sê-lo, se buscassem com empenho. Por isso ele os exorta, muito judiciosamente, a buscar até achar.] “A graça de Deus por meio de Jesus Cristo” [acrescenta ele] “pode livrá-los e dar-lhes o que lhes falta; até vocês podem receber o Espírito de adoção, a promessa do Pai (Rm 8.15; At 1.4). Para ele tudo é possível; perseverem, pois, buscando, e decidam não achar descanso no seu espírito até saberem e sentirem que nasceram assim de novo, do alto, e que o Espírito de Deus confirma ao espírito de vocês que vocês são filhos de Deus (Rm 8.16).”
O que vem logo em seguida é uma demonstração de que, naquele tempo, o sr. Whitefield não era inimigo da perfeição cristã e pensava que alguns de fato a haviam alcançado; do contrário, nada teria sido mais fútil do que a sua exortação final aos cristãos perfeitos. Tome as palavras dele mesmo, e lembre-se de que, quando as pregou, pelo ardor do seu zelo e pela entrega do seu coração, ele se mostrava um jovem em Cristo, capaz de pisar aos pés as iscas mais sedutoras da carne e do mundo.
“Em quarto e último lugar [diz ele], dirijo-me àqueles que receberam o Espírito Santo em todas as suas graças santificadoras e estão quase maduros para a glória. Salve, santos felizes! Pois o céu de vocês começou na terra. Vocês já receberam as primícias do Espírito (Rm 8.23) e esperam com paciência até que venha aquela bendita mudança, quando a sua colheita estará completa. Eu os vejo e os admiro, embora, ai de mim, a 1 tão grande distância de vocês. A vida de vocês, eu sei, está oculta juntamente com Cristo, em Deus (Cl 3.3). Vocês têm consolações, têm uma comida para comer que um mundo pecador e carnal etc. não conhece. O jugo de Cristo agora se tornou suave para vocês, e o seu fardo, leve (Mt 11.30); vocês passaram pelas dores de parto do novo nascimento e agora se alegram porque Cristo Jesus está formado no coração de vocês. Vocês sabem o que é habitar em Cristo, e Cristo em vocês. Como a escada de Jacó, embora o corpo de vocês esteja na terra, a alma e o coração de vocês estão no céu; e, pela fé e pelo constante recolhimento, como os anjos bem-aventurados, vocês veem incessantemente a face do seu Pai, que está nos céus (cf. Mt 18.10). Não preciso, então, exortá-los a prosseguir etc. Antes, eu os exortarei a ganhar a sua alma pela perseverança (cf. Lc 21.19): mais um pouco, e Jesus Cristo os livrará do fardo da carne, e lhes será amplamente suprida a entrada na alegria eterna etc. do seu Reino celestial (cf. 2Pe 1.11).” Encontrei poucas descrições do cristão perfeito que me agradem mais. Faço-lhe apenas uma objeção. O sr. Whitefield pensava que os crentes que, “pelo constante recolhimento, como os anjos bem-aventurados, veem incessantemente a face do seu Pai”, estão tão adiantados na graça que “não precisam ser exortados a prosseguir”. Isso é levar a doutrina da perfeição mais alto do que o sr. Wesley jamais a levou. De minha parte, se eu fosse pregar a uma congregação de tais “santos felizes”, não hesitaria em tomar este texto: Corram de tal maneira que [eternamente] ganhem o prêmio (1Co 9.24); nem me esqueceria de pôr diante deles o exemplo do apóstolo perfeito, que disse: Uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficam para trás e avançando etc., prossigo para o alvo etc. (Fp 3.13-14). Se eu estivesse na situação do sr. Whitefield, confesso que ou me teria recusado a juntar-me aos imperfeccionistas, ou teria retratado a minha exortação aos cristãos perfeitos.
Tão forte é a maré bíblica a favor da nossa doutrina que às vezes arrasta o próprio rev. sr. Romaine. E não posso confirmar o leitor vacilante na crença de que é possível obter a gloriosa liberdade que defendemos melhor do que transcrevendo uma bela exortação desse grande ministro àquilo que chamamos perfeição cristã e que ele chama A Caminhada da Fé.
“A nova aliança diz assim: Na mente, diz Deus, lhes imprimirei as minhas leis, também no seu coração as inscreverei etc. (Jr 31.33). O Senhor se compromete aqui a tirar o coração de pedra e dar um coração de carne (Ez 36.26), no qual escreverá os dez mandamentos etc. O amor de Deus abrirá o coração estreito, alargará o egoísta, aquecerá o frio e tirará generosidade do avarento. Quando o Espírito Santo ensina o amor fraternal, vence toda oposição a ele etc. Escreve no coração deles os dois grandes mandamentos, dos quais dependem toda a Lei e os Profetas (Mt 22.40). O amor de Deus, diz o apóstolo aos romanos, é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo (Rm 5.5); e aos tessalonicenses: Vocês mesmos foram instruídos por Deus a amar uns aos outros (1Ts 4.9). Assim ele prende a alma à santa lei e inclina o homem interior a amar a obediência. Ela deixa de ser jugo e fardo. Como é fácil fazer o que se ama! Se você ama muito uma pessoa, que prazer é servi-la! O que o amor não o levará a fazer ou a sofrer para agradá-la! Que o amor reine no coração, para com Deus e para com o próximo, e então a lei dele se tornará deleitosa, e a obediência a ela será suavidade. A alma correrá; sim, inspirada pelo amor, subirá com asas como águias (Is 40.31) no caminho dos mandamentos de Deus. Bem-aventurado o povo a quem assim sucede!” (Sl 144.15). [Ora, esse estado é o que chamamos estado de perfeição cristã; e é para alcançá-lo que o sr. Romaine estimula a sua própria alma com a seguinte excelente exortação.]
“Este é o próprio teor da aliança da graça, que o Espírito todo-poderoso se encarregou de cumprir” [se misturarmos fé às promessas, como o próprio sr. Romaine logo dará a entender] “e ele não pode falhar no seu ofício. É a sua coroa e a sua glória cumprir os compromissos da sua aliança. Ó, confia nele, pois, e honra a sua fidelidade” [isto é, se não me engano, cumpre os teus próprios compromissos na aliança]. “Ele prometeu guiar-te com o seu conselho e fortalecer-te com o seu poder etc. O que houver dentro de ti ou fora de ti que se oponha a que andes em amor com ele, ele te inclinará a resistir e te capacitará a vencer. Ó, o que não podes esperar de tal amigo divino, que há de habitar contigo com o propósito de manter o teu coração reto diante de Deus!” [Pergunta: quando o coração é mantido cheio do pecado que habita em nós, é mantido reto diante de Deus?] “O que ele não pode fazer? O que não fará por ti? Tal como é o amor do Pai e do Filho, tal é o amor do Espírito Santo: o mesmo amor livre, perfeito, eterno. Lê as promessas que ele faz desse amor. Medita nelas. Ora a ele pedindo uma fé crescente que se misture a elas; para que, habitando ele” [não o pecado] “no templo do teu coração, possas ter ali comunhão com o Pai e com o Filho. Tudo o que em ti é perdoado pela expiação do Filho, pede ao Espírito Santo que o subjugue, para que não interrompa a comunhão com o teu Deus. E toda graça que se deve receber da plenitude de Jesus para manter e promover essa comunhão, suplica ao Espírito Santo que ta dê com força crescente. Mas pede com fé, em nada duvidando (Tg 1.6). Assim o amor de Deus reinará no teu coração. E então serás como o sol quando se levanta no seu esplendor (Jz 5.31), brilhando mais e mais até ser dia claro (Pv 4.18). Ó, seja a tua carreira como a dele, tão livre, tão regular e tão comunicativa do bem, para que a tua petição diária seja atendida e a vontade do teu Pai seja feita assim na terra como no céu (Mt 6.10).” A Caminhada da Fé, vol. 1, p. 227 etc.
Não apresento esta excelente citação para insinuar que o rev. sr. Romaine seja perfeccionista, mas apenas para edificar o leitor e mostrar que os homens bons e equivocados que têm mais preconceito contra a nossa doutrina às vezes a veem tão verdadeira e tão excelente que, esquecendo as suas alegações em favor do pecado que habita em nós, dão a entender que a nossa petição diária pode ser atendida e que a vontade do nosso Pai pode ser feita assim na terra como no céu; expressão esta que encerra a altura e a profundidade de toda a perfeição cristã.
1. Naquele tempo o sr. Whitefield já era ordenado e tinha recebido o Espírito de adoção. Como prova disso, apelo (1) para o relato da sua conversão em Oxford, antes de ser ordenado; e (2) para estas palavras dele mesmo: “Posso dizer, para honra da graça rica, livre e distintiva, que recebi o Espírito de adoção antes de ter conversado com um único homem ou lido um único livro sobre a doutrina da justificação gratuita pela justiça imputada de Jesus Cristo.” Isto é, antes de ter tido qualquer oportunidade de ser afastado da simplicidade do evangelho da Escritura e levado aos refinamentos calvinistas. Veja as suas Obras, vol. IV, p. 45. Ora, os cristãos que deixam as crianças e os jovens em Cristo “a tão grande distância de si” são exatamente as pessoas a quem chamamos pais em Cristo, ou cristãos perfeitos.
Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Last Check to Antinomianism. A Polemical Essay on the Twin Doctrines of Christian Imperfection and a Death Purgatory, 4ª edição, Londres, 1792 (exemplar digitalizado no Internet Archive), conferida com a edição das Obras de Fletcher publicada em Nova York; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.