John Wesley · Apelos aos Homens de Razão e Religião · Apelo Adicional, Parte II
O retrato bíblico dos pecados do antigo Israel e o chamado aos membros da Igreja da Inglaterra para que examinem os pecados da sua nação: perjúrio, profanação do dia do Senhor, embriaguez, luxo e injustiça.
I. 1. Não é meu propósito, neste momento, tocar em opiniões particulares, sejam elas certas ou erradas, nem em nenhum daqueles pontos menores de prática que são sustentados de modos diversos por homens de diferentes convicções. Pretendo, primeiro, apontar algumas coisas que, por princípios comuns, são condenadas por homens de todas as denominações e, contudo, se encontram em todas; e, em segundo lugar, algumas em que os membros de cada denominação são, de modo mais particular, incoerentes com os seus próprios princípios.
E, em primeiro lugar, meu propósito é, deixando de lado opiniões de qualquer espécie, bem como pontos de prática discutíveis, mencionar aquelas coisas, entre as que me ocorrerem, que por princípios comuns são condenadas e, não obstante, se encontram, em maior ou menor grau, entre homens de todas as denominações.
2. Mas, antes de entrar nesta tarefa desagradável, rogo-lhes, irmãos, pelas misericórdias de Deus, por todo o amor que vocês têm a Deus, à sua pátria e à sua própria alma: não considerem quem fala, mas o que é dito. Se for possível, deixem de lado o preconceito por uma hora; deem uma audiência justa ao que se expõe. Considerem simplesmente, em cada ponto: Isto é verdadeiro ou é falso? É razoável ou não? Se perguntarem: “Mas a juízo de quem?”, respondo: ao juízo de vocês mesmos; apelo à luz da própria mente de vocês. Não há em seu próprio peito uma testemunha fiel? Por ela vocês hão de ficar de pé ou cair. Ninguém pode ser julgado pela consciência de outro. Julgue cada um por si mesmo, pela melhor luz que tiver. E que o Deus misericordioso ensine a mim e a você tudo aquilo que não sabemos!
Ora, como falo principalmente aos que creem nas Escrituras, o método que proponho é este. Primeiro, observar o relato que elas dão dos judeus, a antiga igreja de Deus, visto que todas estas coisas foram escritas para advertência nossa (1Co 10.11), de nós que dizemos ser agora a igreja visível do Deus de Israel. Em segundo lugar, apelar a todos os que professam ser membros dela, a cada um que se chama cristão, para que digam até que ponto, em cada caso, o paralelo se sustenta. E em quanto nós somos melhores do que eles?
3. Em primeiro lugar, devo observar o relato que as Escrituras dão dos judeus, a antiga igreja de Deus. Refiro-me ao seu caráter moral, às suas disposições e ao seu comportamento exterior.
Mal tinham sido tirados do Egito, e já os encontramos murmurando contra Deus (Êx 14.11-12). Outra vez, quando ele acabara de fazê-los atravessar o mar Vermelho com mão poderosa e braço estendido (Êx 15.24). E outra vez, logo depois, no deserto de Sim: Vocês não estão murmurando contra nós (diz Moisés), mas contra o Senhor (Êx 16.8). Mais ainda: enquanto ele lhes dava pão do céu, eles continuavam murmurando e tentando a Deus (Êx 17.2-3), e a sua linguagem espantosa naquela ocasião foi esta: Está o Senhor no meio de nós ou não? (Êx 17.7).
O mesmo espírito mostraram durante todos os quarenta anos em que ele suportou os seus maus costumes no deserto. Disso Moisés deu solene testemunho, falando aos ouvidos de toda a congregação de Israel, quando Deus estava para tirá-lo da frente deles: Procederam corruptamente contra ele (diz ele), já não são seus filhos, e sim suas manchas; é geração perversa e deformada. O Senhor rodeou Jacó e cuidou dele, guardou-o como a menina dos olhos (Dt 32.5, 10). Ele o fez cavalgar sobre os altos da terra, comer o produto do campo; mas ele abandonou a Deus, que o fez, desprezou a Rocha da sua salvação (Dt 32.11, 13, 15).
Do mesmo modo, muito tempo depois, Deus se queixa: Escutem, ó céus, e ouça, ó terra! Criei filhos e os fiz crescer, mas eles se revoltaram contra mim. O boi conhece o seu dono, e o jumento, o lugar onde lhe dão comida, mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende. Ai desta nação pecadora, deste povo carregado de iniquidade! São descendência de malfeitores, filhos que praticam o mal. Rejeitaram o Senhor, desprezaram o Santo de Israel (Is 1.2-4). Por acaso, uma virgem se esquece dos seus enfeites? Ou uma noiva se esquece do seu véu? Mas o meu povo se esqueceu de mim por dias sem fim (Jr 2.32).
4. E, assim como desprezaram o conhecimento de Deus, também fizeram pouco caso das ordenanças de Deus. Desde os dias dos seus pais (diz Deus pelos seus profetas) vocês se afastaram dos meus estatutos e não os guardaram (Ml 3.7). Vocês dizem: “É inútil servir a Deus. De que nos adianta guardar os seus preceitos?” (Ml 3.14). Contudo, você não me invocou, ó Jacó; e você se cansou de mim, ó Israel. Você não me trouxe as ovelhas para os holocaustos, nem me honrou com os seus sacrifícios (Is 43.22-23). E assim o próprio profeta confessa: Tu sais ao encontro daqueles que se lembram de ti nos teus caminhos. (…) Não há ninguém que invoque o teu nome, que se disponha a apegar-se a ti (Is 64.5, 7).
5. Mas invocavam o seu nome com juramentos vãos, com perjúrio e blasfêmia. Assim diz Jeremias: Por causa dos juramentos a terra chora (Jr 23.10) [N. do T.: a NAA traz “chora por causa da maldição divina”; Wesley segue a redação “because of swearing”, da qual depende o argumento]. Embora digam: “Tão certo como vive o Senhor”, certamente juram falso (Jr 5.2). Assim Oseias: Falam palavras vãs, juram falsamente e fazem alianças (Os 10.4). Assim Ezequiel: Dizem: “O Senhor não nos vê, o Senhor abandonou a terra.” (Ez 8.12). Assim Isaías: As suas palavras e as suas obras são contra o Senhor, para desafiarem a sua gloriosa presença (Is 3.8). Dizem: “Que Deus se apresse e termine logo a sua obra, para que a vejamos! Que se aproxime e se manifeste o conselho do Santo de Israel, para que o conheçamos!” (Is 5.19). E assim Malaquias: Vocês estão cansando o Senhor com as suas palavras; dizem: “Aqueles que fazem o mal passam por bons aos olhos do Senhor, e é desses que ele se agrada”; e: “Onde está o Deus da justiça?” (Ml 2.17).
6. E, assim como desprezaram as suas coisas santas, também profanaram os seus sábados (Ez 22.8). Sim, quando Deus lhes mandou dizer: Tenham o cuidado de não levar cargas no dia de sábado, nem façam trabalho algum. Pelo contrário, santifiquem o dia de sábado, como ordenei aos seus pais. Mas eles não me deram ouvidos, nem atenderam; pelo contrário, foram teimosos, e não quiseram ouvir nem aceitar a disciplina (Jr 17.21-23).
Também não honravam os pais, nem aqueles que Deus, de tempos em tempos, designava para governá-los. Em seu meio (em Jerusalém, diz o profeta) desprezam o pai e a mãe (Ez 22.7). E, desde o dia em que Deus os fez subir da terra do Egito, as suas murmurações, contendas, rebeliões e desobediências contra aqueles que ele escolhera para ir à frente deles formam a parte mais considerável da sua história. De modo que, se Moisés não tivesse intercedido, Deus já então os teria exterminado da face da terra (Sl 106.23).
7. Quanto mais o provocaram depois, com embriaguez, preguiça e luxo! Cambaleiam por causa do vinho (diz o profeta Isaías) e não podem ficar em pé por causa da bebida forte (Is 28.7). Isso deu ocasião àquelas advertências veementes e repetidas contra esse pecado dominante: Ai dos bêbados de Efraim, dos que são vencidos pelo vinho! (Is 28.1). A orgulhosa coroa dos bêbados de Efraim será pisada com os pés (Is 28.3). Ai dos que se levantam pela manhã para logo se embriagarem, e continuam até alta noite, até que o vinho os esquente! (…) Porém não consideram os feitos do Senhor, nem olham para as obras das suas mãos (Is 5.11-12). Ai dos que são heróis para beber vinho e valentes para misturar bebida forte! (Is 5.22). Ai dos que andam à vontade em Sião! (…) Vocês dormem em camas de marfim e se espreguiçam sobre os seus leitos. Comem os cordeiros do rebanho e os bezerros que estão na engorda. Ficam cantando à toa ao som da lira e inventam instrumentos musicais. (…) Bebem vinho em taças e se ungem com o mais excelente óleo, mas não se afligem com a ruína de José (Am 6.1, 4-6). Eis que esta (diz Ezequiel a Jerusalém) foi a iniquidade de sua irmã Sodoma: ela e as suas filhas tiveram fartura de pão e próspera tranquilidade (Ez 16.49).
8. Da preguiça e da fartura de pão seguiu-se naturalmente a lascívia. Foi ainda enquanto Moisés estava com eles que o povo começou a prostituir-se com as filhas dos moabitas (Nm 25.1). Sim, das filhas de Sião Isaías se queixa: Andam de pescoço erguido, com olhar despudorado (Is 3.16). E do seu povo em geral Deus se queixa por Jeremias: Depois de eu ter-lhes saciado a fome, adulteraram e se reuniram em casas de prostitutas. Como garanhões bem fartos e cheios de desejo, cada um fica rinchando para a mulher do seu próximo (Jr 5.7-8). Todos eles são adúlteros, são um bando de traidores (Jr 9.2). A terra está cheia de adúlteros (Jr 23.10).
Sim, e alguns deles foram entregues a paixões contrárias à natureza. Assim lemos em Juízes 19.22: Os homens daquela cidade (Gibeá) cercaram a casa em que estava o forasteiro e começaram a bater na porta. E disseram ao dono da casa: Traga para fora o homem que entrou em sua casa, para que abusemos dele. E havia também, muito tempo depois, sodomitas na terra [N. do T.: a NAA traz “prostitutos cultuais” (1Rs 14.24)], nos dias de Roboão e dos reis seguintes: O aspecto do rosto testifica contra eles; e, como Sodoma, exibem o seu pecado e não o encobrem (Is 3.9).
9. Isso vinha acompanhado da injustiça em todas as suas formas. Assim todos os profetas testemunham contra eles: O Senhor esperava retidão, mas eis aí opressão; esperava justiça, mas eis aí clamor (Is 5.7). Você emprestou com usura e cobrou juros. Você explorou o seu próximo com extorsão. (…) Eis que bato as minhas mãos uma na outra contra a exploração que você praticou (Ez 22.12-13). Como mercador que tem nas mãos uma balança desonesta e ama a opressão (Os 12.7). Ainda se encontram (…) a medida falsa que eu detesto? Poderei eu inocentar balanças desonestas e uma bolsa com pesos adulterados? (Mq 6.10-11). Quem se desvia do mal é tratado como presa (Is 59.15). O Senhor viu isso e desaprovou o fato de não haver justiça. Os perversos devoram aqueles que são mais justos do que eles. O inimigo pesca todos com o anzol, apanha-os na sua rede e os ajunta na sua rede de arrastão (Hc 1.13-15). Cobiçam campos e se apossam deles com violência; cobiçam casas e as tomam (Mq 2.2). Além da roupa, vocês arrancam a capa daqueles que passam seguros (Mq 2.8). Praticam extorsões contra o estrangeiro e são injustos com o órfão e a viúva (Ez 22.7). O povo da terra pratica extorsão e anda roubando. Fazem violência aos pobres e necessitados, e injustamente oprimem os estrangeiros (Ez 22.29). As obras deles são obras de iniquidade, e atos de violência estão nas suas mãos (Is 59.6). Por isso, o direito se retirou, e a justiça se pôs de longe, porque a verdade anda tropeçando pelas praças, e a retidão não pode entrar (Is 59.14).
10. A verdade, de fato, tinha caído, tanto quanto a justiça. Todos, diz Isaías, falam tolices (Is 9.17). Este é um povo rebelde, filhos mentirosos (Is 30.9). Os lábios de vocês falam mentiras, e a sua língua profere maldade. Não há ninguém que clame pela justiça, ninguém que compareça em juízo pela verdade; confiam no que é nulo e andam falando mentiras (Is 59.3-4). Isso motivou aquela advertência de Jeremias: Que cada um de vocês se proteja do seu amigo e não confie em nenhum irmão. Porque todo irmão é enganador, e todo amigo não faz mais do que espalhar calúnias. Cada um zomba do seu próximo, e não falam a verdade. Ensinam a sua língua a proferir mentiras; cansam-se de tanto praticar a iniquidade (Jr 9.4-5).
11. E mesmo os que se abstinham desses pecados exteriores grosseiros continuavam interiormente corruptos e abomináveis. Toda a cabeça estava doente, e todo o coração, enfermo. Desde a planta do pé até o alto da cabeça não havia nada são, a não ser feridas, contusões e chagas abertas (Is 1.5-6). Todas essas nações (diz Deus) são incircuncisas, e toda a casa de Israel é incircuncisa de coração (Jr 9.26). O coração deles está dividido (Os 10.2). Levantaram ídolos dentro de seu coração; todos se afastaram de mim para seguirem os seus ídolos (Ez 14.3-5).
A sua alma continuava apegada ao pó. Acumulavam tesouros sobre a terra. Desde o menor deles até o maior, diz Jeremias, cada um se dá à ganância (Jr 6.13). Ansiavam pelo pó da terra (Am 2.7) [N. do T.: assim na versão inglesa usada por Wesley; a NAA traz “Esmagam no pó da terra a cabeça dos pobres”]. Encheram-se de coisas penhoradas (Hc 2.6). Ajuntavam casas e mais casas e reuniam campos e mais campos, até que não houvesse mais lugar (Is 5.8). Sim, o seu apetite era como a sepultura; eram como a morte, que nunca se farta (Hc 2.5).
12. E não somente pela sua cobiça, mas também pelo orgulho do coração eram abominação para o Senhor. A arrogância de Israel, diz Oseias, abertamente dá testemunho contra eles (Os 7.10). Ouçam e prestem atenção, diz Jeremias, não sejam orgulhosos! (…) Deem glória ao Senhor, seu Deus (Jr 13.15-16). Mas eles não queriam ser repreendidos; continuavam sábios aos seus próprios olhos e inteligentes em seu próprio conceito (Is 5.21), e diziam continuamente ao seu próximo: Fique onde você está! Não se aproxime de mim, porque sou mais santo do que você! (Is 65.5).
Ao orgulho acrescentavam a hipocrisia. Este povo, diz o próprio Deus, se aproxima de mim e com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim (Is 29.13). Não clamam a mim de coração, mas dão uivos nas suas camas (Os 7.14). Eles voltam, mas não para o Altíssimo. Fizeram-se como um arco defeituoso (Os 7.16). Lisonjeavam-no, porém de boca, e com a língua lhe mentiam (Sl 78.36). De modo que, com isso, apenas profanavam o santuário do Senhor. Há outra coisa que vocês fazem, diz Malaquias: cobrem de lágrimas o altar do Senhor, com choro e gemidos, porque ele já não olha para a oferta (Ml 2.11, 13).
13. Deus declarava continuamente a esses adoradores formais que a sua religião exterior não passava de vaidade. De que me serve a multidão dos sacrifícios que vocês oferecem?, diz o Senhor. Estou farto dos holocaustos de carneiros e não me agrado do sangue de novilhos, nem de cordeiros, nem de bodes. Não me tragam mais ofertas vãs! O incenso é para mim abominação, e também as Festas da Lua Nova, os sábados e a convocação das assembleias. Não posso suportar iniquidade associada à reunião solene. (…) Quando vocês estendem as mãos, eu fecho os meus olhos; sim, quando multiplicam as suas orações, não as ouço (Is 1.11, 13, 15). Quem mata um boi é como o que comete homicídio; quem sacrifica um cordeiro, como o que quebra o pescoço de um cão (Is 66.3). Quando jejuarem, não ouvirei o seu clamor e, quando trouxerem ofertas, não me agradarei deles (Jr 14.12). Que cada um vá e adore os seus ídolos, já que vocês não querem me ouvir! Mas não profanem mais o meu santo nome com as suas dádivas (Ez 20.39).
14. E, durante todo esse tempo, estavam inteiramente descuidados e seguros; mais ainda, confiantes de estar no favor de Deus. Andavam à vontade; imaginavam que o dia mau estava longe (Am 6.1, 3). Mesmo quando Deus derramou o furor da sua ira sobre Israel, ateou fogo em tudo o que estava em volta deles, mas eles não entenderam; ele os queimou, mas eles não fizeram caso (Is 42.25). O seu coração enganado o iludiu, de maneira que não pode dizer: “Não é uma mentira isso que tenho em minha mão?” (Is 44.20). Longe disso, nesse mesmo tempo diziam: Estou inocente; não pequei (Jr 2.35, 37). Somos sábios, e a lei do Senhor está conosco (Jr 8.8). Templo do Senhor! Templo do Senhor somos nós! (Jr 7.4).
15. Assim foi que se endureceram na sua impiedade. Os filhos, diz Deus, têm a mente fechada e o coração endurecido (Ez 2.4). Será que ficaram envergonhados, porque cometeram abominação? Não, eles não ficaram com vergonha. Eles nem sabem o que é envergonhar-se (Jr 6.15). Todo o dia estendi as mãos a um povo rebelde, que de contínuo me irrita abertamente (Is 65.2-3). A casa de Israel não vai querer dar ouvidos a você, porque não quer dar ouvidos a mim; pois toda a casa de Israel tem o coração fechado e a mente endurecida (Ez 3.7). Desde o dia em que os pais de vocês saíram da terra do Egito até hoje, muitas e muitas vezes, todos os dias, eu lhes enviei todos os meus servos, os profetas. Mas vocês não quiseram me ouvir, nem atenderam; foram teimosos e fizeram pior do que os seus pais (Jr 7.25-26).
Estavam igualmente endurecidos contra as misericórdias e contra os juízos. Quando ele lhes dava a seu tempo as chuvas, as primeiras e as últimas, quando lhes reservava as semanas determinadas da colheita, enchendo-lhes o coração de fartura e de alegria, ainda assim ninguém deste povo de coração teimoso e rebelde dizia: Temamos agora o Senhor, nosso Deus (Jr 5.23-24). Nem tampouco se voltaram para aquele que os feria (Is 9.13). Naquele dia, o Senhor os convidava para chorar e prantear; porém, o que se viu era só festa e alegria; comeram carne, beberam vinho e disseram: “Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos” (Is 22.12-13). Embora ele os consumisse, eles não quiseram aceitar a disciplina; endureceram o rosto mais do que uma rocha. (…) Ninguém se arrepende da sua maldade. (…) Cada um se afasta e segue o seu caminho como um cavalo que arremete com ímpeto na batalha (Jr 5.3; 8.6). Deixei que vocês ficassem com falta de pão em todos os lugares, mas vocês não se converteram a mim, diz o Senhor. Além disso, retive a chuva, faltando ainda três meses para a colheita. (…) Eu os castiguei com o crestamento e a ferrugem. Os gafanhotos devoraram as hortas e as vinhas. (…) Enviei a peste contra vocês, assim como havia feito no Egito. Matei os seus jovens à espada. (…) Destruí alguns de vocês, como Deus destruiu Sodoma e Gomorra. Vocês foram como um toco de lenha tirado do fogo, mas não se converteram a mim, diz o Senhor (Am 4.6-11).
16. Em consequência da sua resolução de não voltar, não suportavam a sã doutrina nem os que a anunciavam. Diziam aos videntes: “Não tenham mais visões!” E aos profetas: “Não profetizem para nós o que é reto; digam-nos coisas agradáveis. (…) Não nos falem mais a respeito do Santo de Israel” (Is 30.10-11). Mas odiavam quem os repreendia no tribunal e detestavam quem falava com sinceridade (Am 5.10). Assim, os filhos do seu povo (diz Deus a Ezequiel) falam de você junto às paredes e nas portas das casas (Ez 33.30). Então Amazias, o sacerdote, mandou dizer a Jeroboão, rei de Israel: Amós está conspirando contra o rei no meio da casa de Israel. A terra não pode suportar todas as suas palavras. Depois Amazias disse a Amós: Fuja para a terra de Judá e profetize lá. Mas em Betel você não poderá mais profetizar, porque este é o santuário do rei e o templo do reino (Am 7.10, 12-13). Do mesmo espírito procedia o que disseram de Jeremias: Venham! Vamos fazer planos contra ele. (…) Venham! Vamos fazer acusações contra ele e não dar atenção a nenhuma das suas palavras (Jr 18.18). Daí ser ele obrigado a clamar: Senhor, sou motivo de riso o dia inteiro; todos zombam de mim. Sempre que falo, (…) por causa da palavra do Senhor, sou objeto de deboche e de zombaria o tempo todo. Porque ouvi a murmuração de muitos: “Há terror por todos os lados! Denunciem, e nós o denunciaremos!” Todos os meus amigos íntimos esperam que eu tropece e dizem: “Talvez ele se deixe persuadir; então nós o venceremos e dele nos vingaremos” (Jr 20.7-8, 10). E em outro lugar: Ai de mim, minha mãe! Porque você me pôs no mundo para ser homem de rixa e homem de discórdias para toda a terra! Nunca lhes emprestei, nem pedi dinheiro emprestado, mas todos me amaldiçoam (Jr 15.10).
17. Mas se alguém, seguindo o vento e a falsidade, inventar uma mentira (diz o profeta Miqueias) do tipo: “Eu lhes profetizarei a respeito de vinho e de bebida forte”, esse tal será o profeta deste povo (Mq 2.11). E Deus lhes deu pastores segundo o coração deles. Tais foram aqueles filhos de Eli, homens malignos, que não se importavam com o Senhor (1Sm 2.12), homens rapaces, cobiçosos e violentos (1Sm 2.14-16), por causa dos quais desprezavam a oferta do Senhor (1Sm 2.17); que não somente trouxeram maldição sobre si (1Sm 3.13), mas também levavam o povo do Senhor a transgredir (1Sm 2.24), enquanto engordavam com as melhores partes de todas as ofertas do povo de Israel (1Sm 2.29). Tais foram aqueles de quem Isaías diz: Os sacerdotes e os profetas cambaleiam por causa da bebida forte, são vencidos pelo vinho (Is 28.7). Eles dizem: “Venham! Vou trazer o vinho! Vamos nos encharcar de bebida forte! O dia de amanhã será como este e ainda maior” (Is 56.12). Por isso (diz ele) o Senhor derramou sobre vocês o espírito de profundo sono; ele fechou os olhos de vocês, que são os profetas, e cobriu a cabeça de vocês, que são os videntes. Para vocês, toda visão já se tornou como as palavras de um livro selado (Is 29.10-11). Tais foram também aqueles de quem ele diz: Os atalaias de Israel são cegos, nada sabem. Todos são cães mudos, não podem latir. São sonhadores preguiçosos, gostam de dormir.
Tais cães são gulosos, nunca se fartam. São pastores que nada compreendem; todos seguem o seu próprio caminho, cada um para a sua ganância, todos sem exceção (Is 56.10-11).
Pouco melhores eram aqueles de quem os profetas posteriores nos deixaram um relato tão terrível: Tanto o profeta como o sacerdote estão contaminados; até na minha casa achei a sua maldade, diz o Senhor. (…) Dos profetas de Jerusalém se derramou a impiedade sobre toda a terra (Jr 23.11, 15). Os seus sacerdotes transgridem a minha lei e profanam as minhas coisas santas. Não fazem distinção entre o santo e o profano, (…) e assim sou profanado no meio deles (Ez 22.26). Se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se eu sou senhor, onde está o respeito para comigo? Eu, o Senhor dos Exércitos, pergunto isso a vocês, sacerdotes que desprezam o meu nome (Ml 1.6).
Sim, alguns deles tinham caído nos pecados mais grosseiros. A companhia dos sacerdotes, diz Oseias, pratica perversidades. (…) Ali está a prostituição de Efraim; Israel se contaminou (Os 6.9-10). Nos profetas de Jerusalém (diz Deus por Jeremias) vejo coisa horrenda: cometem adultério, andam com falsidade (Jr 23.14).
18. E os que estavam isentos disso eram profundamente cobiçosos. Quem há entre vocês que feche as portas de graça? Nem acendem de graça o fogo do meu altar. Eu não tenho prazer em vocês, diz o Senhor dos Exércitos (Ml 1.10) [N. do T.: assim na versão inglesa usada por Wesley; a NAA traz “Quem dera houvesse entre vocês alguém que fechasse as portas do templo, para que não acendessem em vão o fogo do meu altar!”]. Os sacerdotes de Sião ensinam por interesse, e os seus profetas adivinham por dinheiro. E ainda se apoiam no Senhor, dizendo: “Não está o Senhor no meio de nós?” (Mq 3.11). Assim diz o Senhor a respeito dos profetas que clamam: “Paz”, quando têm o que mastigar, mas apregoam guerra santa contra aqueles que não lhes dão nada para comer (Mq 3.5). Por isso, a palavra do Senhor veio a Ezequiel, dizendo: Profetize contra os pastores de Israel e diga-lhes: Ai dos pastores de Israel que apascentam a si mesmos! Será que os pastores não deveriam apascentar as ovelhas? Vocês comem a gordura, vestem-se da lã, mas não apascentam o rebanho. Vocês não fortaleceram as fracas, não curaram as doentes, não enfaixaram as quebradas, não trouxeram de volta as desgarradas e não buscaram as perdidas, mas dominam sobre elas com força e tirania. Assim, elas se espalharam, por não haver pastor, e se tornaram pasto para todos os animais selvagens. As minhas ovelhas andam espalhadas por toda a terra, sem haver quem as procure ou quem as busque (Ez 34.1-6).
19. No mesmo sentido declaram os outros profetas: Vocês se desviaram do caminho e levaram muitos a tropeçar. (…) Por isso, também eu os fiz desprezíveis e indignos diante de todo o povo (Ml 2.8-9). Tanto o profeta como o sacerdote usam de falsidade. Curam superficialmente a ferida do meu povo, dizendo: “Paz, paz”; quando não há paz (Jr 6.13-14). Profetizam mentiras em meu nome (Jr 14.14). Dizem continuamente aos que me desprezam: “O Senhor disse: Vocês terão paz”; e a todos os que andam segundo a dureza do seu coração dizem: “Nenhum mal lhes sobrevirá” (Jr 23.17). Os profetas de Jerusalém fortalecem as mãos dos malfeitores, para que não se convertam da sua maldade (Jr 23.14). Andam enganando o meu povo; e, quando se constrói uma parede, os profetas a cobrem com cal (Ez 13.10). Com mentiras vocês desanimaram o coração do justo, não o havendo eu entristecido, e fortaleceram as mãos do ímpio para que não se desviasse do seu mau caminho e vivesse (Ez 13.22). Muitos pastores destruíram a minha vinha e pisaram o meu campo; fizeram da porção que era o meu prazer um deserto (Jr 12.10). Há, no meio dela, uma conspiração dos seus profetas. Como um leão que ruge, que arrebata a presa, assim eles devoram pessoas (Ez 22.25). Assim diz o Senhor: Apascente as ovelhas destinadas para o matadouro. Aqueles que as compram matam-nas e não são punidos; os que as vendem dizem: “Louvado seja o Senhor! Ficamos ricos!” E os pastores das ovelhas não se compadecem delas (Zc 11.4-5).
II. 1. Tal é o relato geral que as Escrituras dão dos judeus, a antiga igreja de Deus. E, uma vez que todas estas coisas foram escritas para advertência nossa, de nós que somos agora a igreja visível do Deus de Israel, passo agora a apelar a todos os que professam isso, a cada um que se chama cristão: até que ponto, em cada caso, o paralelo se sustenta? E em quanto nós somos melhores do que eles?
E, primeiro, eram eles descontentes? Queixavam-se da providência de Deus? Diziam: Está o Senhor no meio de nós ou não?, quando estavam em perigo iminente ou em necessidade premente e não viam saída? E qual de nós pode dizer: Estou limpo deste pecado; lavei as mãos e o coração na inocência? Não fizemos nós, que julgamos os outros, as mesmas coisas? Não murmuramos e nos queixamos inúmeras vezes? Sim, e isso quando não estávamos em necessidade premente nem afligidos por perigo iminente? Não somos nós, em geral (a julgar pelos nossos próprios escritores), não temos sido desde as eras mais remotas um povo queixoso, murmurador e descontente, nunca satisfeito por muito tempo nem com Deus nem com os homens? Certamente, nisto temos grande necessidade de nos humilhar diante de Deus, pois de modo nenhum somos melhores do que eles.
Mas Jesurum abandonou a Deus, que o fez, desprezou a Rocha da sua salvação. E a Inglaterra, não fez o mesmo? Perguntem aos tempos passados, indaguem desde o nascer do sol até o poente, se jamais houve um povo chamado pelo seu nome que tivesse menos Deus em todos os seus pensamentos. Quem, em todo o teor do seu comportamento, mostrou tão pouco caso da Rocha da sua salvação?
Poderia haver jamais motivo mais forte para Deus clamar: Escutem, ó céus, e ouça, ó terra!? Pois não nos criou ele e nos fez crescer como seus filhos? E, contudo, como nos revoltamos contra ele! Se Israel outrora não tinha conhecimento de Deus, se o seu antigo povo não entendia, era isso coisa peculiar a eles? Não estamos nós também debaixo da mesmíssima condenação? Será que nós, como povo, conhecemos a Deus? Será que o consideramos como Deus? Trememos diante da presença do seu poder? Reverenciamos a sua excelsa Majestade? Lembramo-nos em todo tempo: Deus está aqui! Ele está agora lendo o meu coração; ele conhece todos os meus caminhos; a palavra ainda nem chegou à minha língua, e ele já a conhece toda? É este o caráter de nós, cristãos ingleses? A marca pela qual nos distinguimos dos pagãos? Conhecemos assim a Deus? Consideramos assim o seu poder, o seu amor, o seu olho que tudo vê? Pelo contrário, não somos também nós uma nação pecadora, que se esqueceu dele por dias sem fim? Um povo carregado de iniquidade, que continuamente rejeita o Senhor e despreza o Santo de Israel?
2. Há, de fato, nesse aspecto, uma grande diferença entre os judeus e nós. A eles aconteceu (se assim posso dizer) esquecer-se de Deus, porque outras coisas se interpuseram no seu caminho; nós, porém, pretendemos esquecê-lo; fazemos isso de propósito deliberado, porque não gostamos de lembrar-nos dele. Pelos relatos de Jeremias, temos razão para crer que, quando aquele povo estava mais profundamente corrompido, ainda assim os maiores homens da nação, os ministros de Estado, os nobres e os príncipes de Judá, falavam de Deus às vezes, talvez com tanta frequência quanto de qualquer outro assunto. Mas é assim entre nós? Não é, antes, questão de boa educação manter Deus bem longe, fora da nossa vista? Fala-se dele, por pouco que seja, entre os grandes? Entre os nobres ou ministros de Estado da Inglaterra? Entre quaisquer pessoas de posição ou destaque no mundo? Concedem eles a Deus algum lugar na sua conversação? De dia em dia, de ano em ano, vocês conversam por uma hora sequer sobre as maravilhas que ele faz pelos filhos dos homens? Se alguém, à mesa de um cavalheiro ou de um nobre, começasse a discorrer sobre a sabedoria, a grandeza ou o poder de Deus, não causaria isso (no mínimo) tanto espanto como se tivesse começado a falar blasfêmias? E, se o homem mal-educado insistisse no assunto, não deixaria toda a companhia em embaraço? E o que vocês sinceramente creem que a parte mais benevolente diria dele depois que ele tivesse ido embora, senão isto: “Ele não regula bem da cabeça!”, ou: “Coitado! Não conhece o mundo.”
Vocês sabem que esta é a verdade nua e crua. Mas quão terrível é esse pensamento para todo espírito sério! Em que estado caiu esta nação cristã! E, mais ainda, os homens de destaque, de fortuna, de instrução! Um estrangeiro que pensa, se estivesse presente a um encontro desses, não estaria inclinado a concluir que os homens de qualidade na Inglaterra são ateus? Que não creem que haja Deus algum, ou, quando muito, apenas um Deus epicurista, que se assenta tranquilo sobre o círculo dos céus e não se importa conosco, vermes da terra? Ora, ele conhece cada pensamento que agora surge no seu coração. E por quanto tempo você conseguirá tirá-lo da sua vista? Somente até que este véu da carne seja rasgado. Pois então a sua glória não o acompanhará. Não será o seu corpo misturado ao pó comum? E a sua alma não estará nua diante de Deus? Oxalá você agora se reconciliasse com Deus, para que então seja revestido de glória e imortalidade!
3. Queixou-se Deus dos judeus: Desde os dias dos seus pais, vocês se afastaram dos meus estatutos e não os guardaram? E com quanta justiça pode ele fazer a mesma queixa de nós? Pois que proporção extremamente pequena encontramos, em qualquer lugar, daqueles que se chamam cristãos e que fazem questão de consciência de frequentar as ordenanças? Será que um terço dos habitantes de qualquer paróquia desta grande cidade frequenta com constância a oração pública e o ministério da sua palavra, como por dever de consciência para com Deus? Será que um décimo dos que reconhecem ser ela uma instituição de Cristo participa devidamente da Ceia do Senhor? Será que a quinquagésima parte dos membros nominais da Igreja da Inglaterra observa os jejuns da Igreja, ou ao menos os quarenta dias da Quaresma e todas as sextas-feiras do ano? Quem dentre estes, pois, pode atirar a primeira pedra nos judeus por negligenciarem as ordenanças de Deus?
Mais ainda: quantos milhares se encontram entre nós que nunca participaram da Ceia do Senhor? Quantos milhares há que vivem e morrem nessa desobediência sem arrependimento? Que multidões, mesmo nesta cidade cristã, não frequentam culto público algum? Não, nem passam uma única hora, de um ano a outro, derramando em particular o coração diante de Deus? Se Deus sai ao encontro daquele que se lembra dele nos seus caminhos ou não, isso não lhes diz respeito. Assim o homem come e bebe, e morre como morre um animal,
“Cai na escuridão e desaparece.”
Não foi, portanto, somente dos filhos de Israel que o mensageiro de Deus pôde dizer: Não há ninguém (comparativamente) que invoque o teu nome, que se disponha a apegar-se a ti.
4. Vocês ouviram o que foi dito aos antigos: Por causa dos juramentos a terra chora. Mas, se isso se podia dizer da terra de Canaã, quanto mais desta terra? Em que cidade ou vila, em que mercado ou bolsa, em que rua ou lugar de concorrência pública não se toma em vão, dia após dia, o santo nome que foi invocado sobre nós? Do nobre ao camponês, quem deixa de invocar a Deus, desse modo, se não de outro? Para onde vocês podem se voltar, aonde podem ir, sem ouvir alguém pedindo a Deus a condenação, seja do seu próximo, seja de si mesmo? Amaldiçoando, sem temor nem remorso, aqueles que Cristo comprou para receberem bênção por herança!
É você um desses miseráveis estúpidos, insensatos e sem-vergonha que pedem com tanta insistência a condenação da própria alma? E se Deus o tomasse pela palavra? É você capaz de habitar com chamas eternas? Se for, por que haveria de ter pressa em estar no lago que está queimando com fogo e enxofre? Que Deus o ajude, ou você estará lá logo, e por bastante tempo; pois aquele fogo não se apaga! Mas a sua fumaça sobe, dia e noite, para todo o sempre.
E qual é aquele assunto importante a respeito do qual você há pouco apelava a Deus? Estava você tomando Deus por testemunha sobre a sua alma quanto à sua salvação eterna? Não; mas quanto à beleza do seu cavalo, à rapidez do seu cão ou à qualidade da sua bebida! Como pode ser isso? Que ideia você tem de Deus? O que você pensa que ele é?
Idcirco stolidam præbet tibi vellere barbam Jupiter? [Será por isso que Júpiter te oferece a sua barba estúpida, para que a arranques?]
Que estupidez, que desvario é este! Assim, sem prazer, nem proveito, nem louvor, desprezar aquele que tem toda a autoridade no céu e na terra! Desafiar levianamente a sua gloriosa presença!
É você um homem de letras, e desceu tão baixo? Então não o mandarei aos escritores inspirados (assim chamados; talvez você se recuse a receber instrução deles), mas ao velho pagão cego. Se você apenas fixasse na mente a ideia que ele tinha de Deus (embora não seja rigorosamente exata, a não ser que a apliquemos a Deus feito homem), nunca mais o afrontaria assim:
Ἦ καὶ κυανέῃσιν ἐπ᾽ ὀφρύσι νεῦσε Κρονίων·
Ἀμβρόσιαι δ᾽ ἄρα χαῖται ἐπεῤῥώσαντο Ἄνακτος
Κρατὸς ἀπ᾽ ἀθανάτοιο· μέγαν δ᾽ ἐλέλιξεν Ὄλυμπον. [Disse, e com as sobrancelhas escuras acenou o filho de Crono; os cabelos ambrosíacos do soberano ondularam sobre a sua cabeça imortal, e ele fez estremecer o grande Olimpo.]
Não se levantarão então os próprios pagãos no Juízo com esta geração, e a condenarão? Sim, e não somente os pagãos instruídos da Grécia e de Roma, mas os selvagens da América. Pois não me lembro de jamais ter ouvido um índio selvagem pronunciar o nome de Sootaleicatee (aquele que se assenta no céu) sem pôr a mão sobre o peito ou baixar os olhos para o chão. E você é cristão! Oh, como você faz o próprio nome do cristianismo ser blasfemado entre os gentios!
5. Mas é somente o juramento leviano (por indesculpável que seja) que faz a nossa terra chorar? Não se pode dizer também de nós: Embora digam: “Tão certo como vive o Senhor”, certamente juram falso? Sim, a tal ponto que dificilmente há coisa semelhante em nação alguma debaixo do céu; quase todo canto da terra está cheio de perjúrio voluntário e deliberado.
Não falo agora dos perjúrios em que todo praguejador habitual não pode deixar de cair dia após dia. (E, de fato, o praguejar habitual “contribui notoriamente para o crescimento do perjúrio. Pois pouca atenção se dá aos juramentos quando o uso comum os enxovalhou e a repetição a cada minuto os tornou baratos e vulgares.”) Nem daqueles que são continuamente cometidos, e muitas vezes descobertos, nos nossos tribunais públicos. Somente quanto a estes últimos devo observar que são consequência natural daquela maneira monstruosa e chocante com que ali se costuma ministrar o juramento: sem decoro nem seriedade alguma; muito menos com aquela solenidade reverente que um pagão racional esperaria num apelo direto ao grande Deus do céu.
Eu tinha certa vez o propósito de examinar todos os juramentos que costumam ser prestados por qualquer classe de pessoas entre nós. Mas logo descobri que essa era uma obra pesada demais para mim, tão quase in infinitum [ao infinito] se multiplicam os juramentos na Inglaterra, a um grau, suponho, desconhecido em qualquer outra nação da Europa.
O que agora me proponho é dar como exemplo apenas alguns (mas estes de não pequena importância) e mostrar quão espantosamente pouco caso se faz do que é solenemente prometido ou afirmado diante de Deus.
6. Isso, em parte, já me foi feito por um autor recente. Até onde ele vai, pouco mais farei do que transcrever as suas palavras (Sr. Disney, First Essay [Primeiro ensaio], p. 30).
“Quando um juiz de paz toma posse na comissão, presta juramento: ‘Que fará justiça igual ao pobre e ao rico, segundo o seu saber, entendimento e poder, e segundo as leis e costumes do reino e os estatutos nele feitos, em todos os artigos da comissão do rei a ele dirigida.’ Quais são esses artigos, vocês os encontrarão no primeiro assignavimus [atribuímos] da comissão: ‘Atribuímos a vós, e a cada um de vós, conjunta e separadamente, (…) guardar e fazer guardar todas as ordenanças e estatutos feitos para (…) a tranquilidade, a ordem e o governo do nosso povo, em todos e cada um dos seus artigos, segundo a força, a forma e o efeito dos mesmos, e castigar e punir todas as pessoas que os transgredirem, segundo a forma desses estatutos e ordenanças.’ De modo que ele está solenemente juramentado para a execução de todos os estatutos que o poder legislativo da nação houve por bem confiar ao seu cuidado. Tais são todos aqueles (entre outros) feitos contra a embriaguez, a bebedeira em tavernas, o juramento profano, a blasfêmia, as práticas lascivas e desordeiras e a profanação do dia do Senhor. E é difícil imaginar como um juiz de paz possa julgar-se mais obrigado a reprimir tumultos ou brigas particulares do que a cobrar doze pence de um praguejador profano, cinco xelins de um bêbado, dez xelins da taverna que consente a bebedeira, ou qualquer outra multa que a lei impõe ao vício e à imoralidade. O mesmo juramento o obriga a uma coisa e à outra, impondo igual obrigação à sua consciência. Como um magistrado que deixa de punir o excesso, a profanidade e a impiedade pode eximir-se da culpa de perjúrio, não pretendo saber. Se raciocinar com honestidade, há de se achar tão perjuro quanto uma testemunha que, estando sob juramento de declarar toda a verdade, oculta, não obstante, a parte mais importante dela. E o seu perjúrio é tanto mais infame quanto mais nocivos forem o mau exemplo e os efeitos dele.”
7. O mesmo autor (no prefácio ao seu segundo ensaio) prossegue:
“Senhores dos grandes júris, vocês prestam o juramento solene de que investigarão diligentemente e farão verdadeira denúncia de todos os artigos, questões e coisas que lhes forem confiados; e também de que (não só não denunciarão ninguém por inveja, ódio ou malícia, mas) não deixarão ninguém sem denúncia por medo, favor ou afeição. Ora, as leis contra a imoralidade e a profanidade não lhes são confiadas tanto quanto as leis contra os tumultos, os crimes graves e a traição? A denúncia e a acusação formal não são um dos meios expressamente estabelecidos pelos estatutos para punir a embriaguez e o beberrar nas tavernas? As casas de prostituição e de jogo não são puníveis nos mesmos tribunais e, portanto, denunciáveis por vocês? A proclamação para a punição do vício, da profanidade e da imoralidade não é sempre lida diante de vocês logo que prestam juramento? E o juiz das sessões itinerantes, ou o presidente da bancada, na instrução dada logo depois dessa leitura, não lhes recita as leis particulares contra tais delitos, ou não os remete a essa proclamação? De tudo isso fica claro que vocês estão obrigados, sob juramento, a denunciar todo vício e imoralidade, assim como outros crimes que cheguem ao seu conhecimento, porque lhes são expressamente confiados. E devem fazê-lo não só quando se apresentam provas diante de vocês pela informação de outros, mas também a respeito de todos os delitos que vocês, ou qualquer um de vocês, possam denunciar pelo seu próprio conhecimento pessoal: tudo isso vocês juraram fazer com imparcialidade, sem medo, favor ou afeição.”
Deixo agora a todos os homens razoáveis considerar quão poucos jurados dos grandes júris fazem isso. E, por conseguinte, que multidões deles, por toda a nação, incorrem na culpa de perjúrio deliberado!
8. O autor prossegue (página 8): “Dirijo-me agora a vocês, que são condestáveis. [N. do T.: constable, oficial leigo da paróquia, escolhido entre os moradores e encarregado de manter a ordem e executar os mandados dos juízes de paz.] E a vocês sou obrigado a dizer que, se conhecem o seu dever, não é graças a nós, os juízes de paz. Porque o juramento que costumamos dar-lhes é tão curto e em termos tão gerais que não lhes deixa instrução nenhuma sobre os pormenores do ofício para o qual são juramentados. Mas o juramento que lhes deveria ser dado recita parte do seu dever nestas palavras:
“Vocês farão o melhor que puderem para que os velhacos, vagabundos e andarilhos noturnos sejam presos, e para que os estatutos feitos para puni-los sejam devidamente executados; terão olhos vigilantes sobre os que mantiverem alguma casa ou lugar onde se pratique algum jogo ilícito, e também sobre os que frequentarem tais lugares, ou neles ou em outra parte praticarem algum jogo ilícito. Vocês denunciarão todos e cada um dos delitos contrários aos estatutos feitos para coibir o beberrar nas estalagens, cervejarias e outras casas de pasto, e para reprimir a embriaguez. Uma vez por ano, durante o seu mandato, denunciarão todos os recusantes papistas. Executarão bem e devidamente todas as ordens e mandados a vocês dirigidos. E bem e devidamente, segundo o seu conhecimento, poder e capacidade, farão e executarão todas as outras coisas pertencentes ao ofício de condestável, enquanto nele permanecerem.”
Sobre isso, “observo, primeiro, que os atores de teatro são mencionados expressamente no estatuto, para serem presos como vagabundos e punidos de acordo; e que, embora um estatuto da rainha Elizabeth excetue as companhias que tenham licença com a assinatura e o selo de um nobre, um estatuto posterior, do reinado do rei Jaime I, retirou-lhes essa proteção, declarando que dali em diante nenhuma autorização dada por qualquer par do reino terá valor para livrá-los ou isentá-los das penas e castigos daquele estatuto anterior. Todo condestável, portanto, nas paróquias aonde chegarem esses comediantes ambulantes, está obrigado pelo seu juramento a prendê-los, corrigi-los e despachá-los sem demora.”
“A parte seguinte do seu juramento obriga vocês a ter olhos vigilantes sobre as casas que mantêm jogos ilícitos e sobre as pessoas que os praticam. O estatuto manda que vocês, toda semana ou ao menos todo mês, revistem dentro da sua jurisdição todas as casas ou lugares suspeitos desse delito e, descobrindo-o, levem os culpados ao castigo. Sobre este artigo observo: 1. Que a lei faz certa concessão aos artífices, lavradores, aprendizes, trabalhadores e criados, para jogarem no Natal, mas em nenhuma outra época do ano; e 2. Que todos os esportes e passatempos, quaisquer que sejam, são declarados ilícitos no dia do Senhor por um estatuto do rei Carlos II. Vocês estão, portanto, obrigados sob juramento a levar ao castigo os culpados de profanar esse dia com quaisquer esportes ou passatempos.”
As partes seguintes do seu juramento são: 1. Que vocês denunciarão todos e cada um dos delitos de beberrar nas tavernas e de embriaguez que cheguem ao seu conhecimento; 2. Que uma vez por ano denunciarão todos os recusantes papistas. E mais: pelo estatuto em que se baseia o seu juramento, vocês estão obrigados a denunciar em sessão, uma vez por ano, todos os que, nas suas paróquias (não sendo dissidentes), não vão à igreja ao menos uma vez por mês.” E 3. Que bem e devidamente executarão todas as ordens e mandados a vocês dirigidos. Creio que nenhum condestável fingirá ignorar isso. Como se explica, então, que, quando expedimos mandados para cobrar multas dos culpados de praguejar, de embriaguez e coisas semelhantes, esses mandados sejam tão mal cumpridos? Vocês não estão juramentados para executar estes tanto quanto quaisquer outros, e isso devidamente, segundo o teor da sua ordem? A sua ordem diz que vocês devem cobrar tal quantia e, se o culpado não pagar, devem tomá-la pela penhora dos seus bens; e, se não houver bens a penhorar, só então devem pô-lo no tronco; de outro modo, vocês não têm autoridade para isso; nem pô-lo no tronco, quando poderiam ter penhorado, é execução alguma da sua ordem.”
“A última parte do seu juramento está em termos gerais: que vocês, bem e devidamente, segundo o seu conhecimento, poder e capacidade, farão e executarão todas as outras coisas pertencentes ao ofício de condestável. Darei como exemplo algumas coisas que certamente pertencem ao seu ofício, porque vocês, e ninguém mais, podem fazê-las. 1. Um condestável pode, sem mandado, prender e levar perante um juiz de paz as pessoas que estiverem conduzindo carroças, cavalos ou gado no dia do Senhor; 2. As que encontrar em esportes e passatempos nesse dia; 3. As que encontrar bebendo nas tavernas; 4. Os lojistas que venderem ou expuserem mercadorias no dia do Senhor; e, por último, as que encontrar embriagadas ou blasfemando, ou jurando e praguejando profanamente.”
“Assim lhes mostrei, em parte, o que pertence ao seu ofício: será bom se, segundo o teor do seu juramento, vocês devidamente, segundo o seu conhecimento e capacidade, fizerem e executarem todas estas coisas. Mas lembrem-se de que, se não o fizerem, se negligenciarem qualquer uma delas, são perjuros.”
Julguem agora todos os homens quantos condestáveis na Inglaterra estão livres de perjúrio deliberado!
9. “Dirijo-me agora (continua ele) aos zeladores da igreja. [N. do T.: church-wardens, leigos eleitos anualmente em cada paróquia para cuidar dos bens da igreja e denunciar às autoridades eclesiásticas as faltas dos paroquianos.] O seu juramento é: ‘Que vocês exercerão bem e fielmente o ofício de zelador da igreja durante o ano seguinte e, da melhor maneira que souberem e puderem, denunciarão as pessoas e coisas que forem denunciáveis pelas leis eclesiásticas deste reino.’ Indicarei apenas algumas delas.”
“O estatuto do rei Jaime I obriga vocês a denunciar, uma vez por ano, todos os que faltam à igreja durante um mês inteiro.”
“O cânon 90 ordena que vocês primeiro admoestem e depois, se não se emendarem, denunciem todos os seus paroquianos que não frequentam devidamente a igreja aos domingos e ali não permanecem durante todo o tempo do culto divino. Sobre este artigo observem: 1. Que a simples ausência de uma pessoa da igreja é motivo suficiente para vocês procederem. 2. Que vocês devem denunciar não só os que não vão à igreja, mas também os que nela se portam com irreverência ou indecência, seja andando de um lado para outro, seja conversando; todos os que não permanecem ali com ordem e sobriedade durante todo o culto e o sermão, e todos os que gastam à toa alguma parte desse tempo no adro ou nos campos.”
“O cânon 112 ordena que vocês, dentro de quarenta dias depois da Páscoa, apresentem ao bispo ou ao seu chanceler os nomes de todos os que, com mais de dezesseis anos, na sua paróquia, não receberam a comunhão.”
“Outros estatutos obrigam vocês a denunciar a embriaguez, o beberrar nas tavernas e as tavernas que permitem que se beba nelas.”
E o cânon 109 obriga vocês a denunciar toda espécie de vício, profanidade e devassidão, exigindo que denunciem fielmente todos e cada um dos culpados de adultério, prostituição, embriaguez, juramento profano ou qualquer outra impureza e perversidade de vida.” Faz parte, portanto, do ofício para o qual vocês estão solenemente juramentados denunciar não só toda embriaguez e todo beberrar nas tavernas, mas também o juramento profano, a lascívia e tudo o mais que seja contrário à piedade cristã. De modo que, se vocês conhecem algum dos seus paroquianos, seja qual for a sua condição ou posição, culpado de qualquer dessas coisas, estão obrigados a denunciá-lo na próxima visitação, ou vocês mesmos são culpados de perjúrio. E o cânon 26 exprime tamanha aversão à negligência de um zelador da igreja nesta matéria que proíbe o ministro de, de maneira nenhuma, admitir à santa comunhão vocês que (nas palavras do cânon) tendo prestado juramento de denunciar todos esses delitos nas suas respectivas paróquias, ainda assim, apesar do dito juramento, negligenciando ou recusando-se a denunciar, ciente e voluntariamente, desesperada e irreligiosamente incorrerem na horrenda culpa do perjúrio.”
E quem está livre? Apelo a todo ministro de paróquia, de uma ponta a outra da Inglaterra: quantos zeladores da igreja vocês conheceram, em vinte, trinta, quarenta anos, que não tenham assim desesperada e irreligiosamente incorrido na horrenda culpa do perjúrio?
10. Passo a perjúrios de outra espécie. O juramento que todos os capitães de navio prestam, cada vez que voltam de uma viagem comercial, é nestes termos:
“Juro que o registro acima, agora apresentado e por mim assinado, é uma declaração exata do nome do meu navio, da sua tonelagem, volume, propriedade, número e nacionalidade dos marinheiros, do atual comandante e da viagem; e que contém, além disso, uma relação verdadeira da minha carga, com as marcas, números, quantidade, qualidade e consignação particulares de todos os bens e mercadorias que estão no meu dito navio, segundo o melhor do meu conhecimento; e que não abri a carga nem entreguei mercadoria alguma do meu dito navio desde que ela foi carregada. Assim Deus me ajude.”
Estas palavras são tão claras, expressas e inequívocas que não precisam de explicação. Mas quem presta este juramento tão simples sem se tornar perjuro ciente e deliberadamente? Um capitão em cinquenta? Um em quinhentos? Não podemos ir ainda mais longe? Haverá cinco capitães de navio, hoje em Londres, que, numa ocasião ou noutra, não tenham incorrido na culpa de perjúrio deliberado por este mesmo juramento, que sabiam ser falso quando o prestaram?
11. O juramento que todos os funcionários da alfândega de Sua Majestade prestam ao assumir o cargo é este:
“Juro ser verdadeiro e fiel no exercício, segundo o melhor do meu conhecimento e poder, do encargo confiado aos meus cuidados e inspeção, no serviço da alfândega de Sua Majestade; e que não tomarei nem receberei recompensa ou gratificação alguma, direta ou indiretamente, além do meu salário, ou do que me é ou for concedido pela Coroa, ou das taxas regulares estabelecidas por lei, por qualquer serviço feito ou por fazer no exercício do meu emprego na alfândega, por qualquer motivo que seja. Assim Deus me ajude.”
Sobre isso pode-se observar: 1. Que há taxas regulares, estabelecidas por lei, para alguns desses funcionários; 2. Que os demais se comprometem, por este juramento, a não tomar nem receber recompensa ou gratificação alguma, direta ou indiretamente, além do seu salário ou da sua remuneração da Coroa, por qualquer motivo que seja.
Como os primeiros cumprem este compromisso solene? Aqueles cujas taxas estão estabelecidas por lei? Cobram essas taxas estabelecidas e nada mais? Não recebem nenhuma gratificação adicional? Nem por qualquer motivo que seja? Se recebem, são inegavelmente culpados de perjúrio deliberado.
E os segundos não cobram taxa nenhuma? Não recebem recompensa ou gratificação alguma por qualquer serviço feito ou por fazer no exercício do seu emprego? Não aceitam dinheiro algum, direta ou indiretamente, por qualquer motivo que seja? Cada vez que recebem, seja mais, seja menos, também eles se tornam francamente perjuros.
Contudo, quem tem escrúpulo de uma coisa ou de outra? Seja de cobrar uma taxa maior do que a lei determina, seja de aceitar qualquer taxa, grande ou pequena, que lhe seja oferecida, mesmo onde a lei não determina taxa nenhuma?
Que inumeráveis perjúrios, então, se cometem aqui, uma vez após outra, dia após dia! E sem remorso algum; sem vergonha alguma! Sem temor nenhum, nem de Deus nem dos homens!
12. Apresentarei só mais um exemplo. O juramento de quem vota num membro do Parlamento é este:
“Juro que não recebi nem obtive, por mim mesmo ou por qualquer pessoa em confiança para mim, ou para meu uso e proveito, direta ou indiretamente, soma ou somas de dinheiro, cargo, posto ou emprego, presente ou recompensa, nem promessa ou garantia de dinheiro, cargo, emprego ou presente algum, a fim de dar o meu voto nesta eleição; e que não votei anteriormente nesta eleição. Assim Deus me ajude.”
Podemos observar aqui: 1. Que este juramento é prestado uma vez a cada sete anos (se exigido) por todos os proprietários livres, em todos os condados da Inglaterra e do País de Gales, bem como por todos os cidadãos livres de cada cidade e de cada burgo; e 2. Que por ele todo eleitor jura, em palavras que não admitem evasiva, que não recebeu, direta ou indiretamente, presente ou recompensa alguma, nem promessa de nenhuma.
Mas (deixando de lado aqueles miseráveis sem Deus e sem vergonha que frequentemente votam duas vezes na mesma eleição) quão poucos há que podem prestar este juramento com a consciência livre de ofensa? Que não receberam, direta ou indiretamente, presente algum, nem promessa de algum? Não! E você, não recebeu? Se não recebeu outra coisa, não recebeu comida ou bebida? E pagou pela comida ou bebida que recebeu? Se não pagou, aquilo foi um presente; e, por conseguinte, você é tão realmente perjuro quanto o homem que recebeu cem libras.
Que perspectiva melancólica temos, então, diante de nós! Eis quase todo o povo comum que tem algum bem, por todo o país, tanto na cidade como no campo, chamando a Deus por testemunha de uma falsidade conhecida e deliberada!
13. Concluirei este tópico com as palavras graves do autor citado anteriormente.
“Receio que a maioria destes considere os seus juramentos mera formalidade, coisa de pouca importância. Mas pode haver no mundo coisa mais sagrada que um juramento? Não é ele um apelo solene a Deus quanto à sua sinceridade? E não é esse mesmo apelo o reconhecimento de que ele certamente punirá a falsidade? Mais ainda: não é invocar sobre vocês mesmos a vingança de Deus, caso sejam falsos? Pondo a mão sobre o Evangelho, vocês não declaram que não esperam salvação alguma por meio de Cristo se não cumprirem o que então prometem, ou se o que então afirmam não for verdade? E as palavras Assim Deus me ajude não provam suficientemente que essa é a intenção do seu juramento? E que, se vocês jurarem falso, não devem esperar misericórdia alguma de Deus, nem neste mundo nem no vindouro? E vocês não dão o seu consentimento pessoal e expresso a esta pesada maldição ao beijar o livro? Como, então, algum de vocês ousa brincar com um compromisso tão tremendo? Será que vocês pensam que o juramento de um jurado do grande júri ou de um oficial da paróquia” (de um capitão, de um funcionário da alfândega ou de um eleitor) “não é tão sagrado e obrigatório quanto o de uma testemunha no tribunal? Que é que pode fazer a diferença? Ambos são igualmente apelos a Deus e imprecações da sua vingança sobre o perjúrio deliberado.”
14. Se há, pois, um Deus de quem não se zomba, que peso de pecado jaz sobre esta nação? E pecado de cor nada comum; pois o perjúrio sempre foi considerado uma das manchas mais profundas. E como alguém tentará desculpar isso? Acrescentando-lhe a blasfêmia? Assim, de fato, alguns têm feito, dizendo como os de outrora: Ora, tu, Deus, não te importas com isso. O Senhor não nos vê (isto é, não faz caso de nós), o Senhor abandonou a terra (Sl 10.13; Ez 8.12). [N. do T.: a primeira frase segue a redação do Saltério do Livro de Oração Comum; a NAA traz, em Sl 10.13, “dizendo no seu íntimo que Deus não lhe pedirá contas”.] Deixou as causas segundas seguirem o seu curso, e o homem entregue ao seu próprio conselho (Eclo 15.14).
Quantos são os que hoje falam assim? Segundo a filosofia miúda deles, a providência particular de Deus está inteiramente descartada, os cabelos da nossa cabeça já não estão contados; e não só um pardal, mas uma cidade, um império pode cair no chão sem a vontade ou o cuidado do nosso Pai celestial (Mt 10.29-30). [N. do T.: “filósofos miúdos” (minute philosophers) era o nome que George Berkeley dera aos livres-pensadores no seu diálogo Alciphron (1732).] Vocês admitem, então, apenas uma Providência geral. Não entendo o termo. Tenham a bondade de me dizer o que entendem por uma “providência geral, distinta de uma particular”. Receio que fiquem sem resposta; a não ser que entendam alguma coisa enorme e desajeitada (suponho que semelhante ao primum mobile [primeiro móvel] do sistema ptolomaico) que faz girar continuamente o universo inteiro, sem afetar uma coisa mais que outra. Receio que esta hipótese exija mais provas do que vocês são capazes de apresentar no momento; além de vir acompanhada de mil dificuldades, que vocês não conseguem resolver facilmente. Talvez seja, portanto, o caminho mais sensato pensarem por uma vez como o povo simples e se contentarem com o relato claro das Escrituras. Este nos informa que, embora Deus habite nos céus, ele ainda domina sobre tudo (Sl 103.19); que a sua providência se estende a cada indivíduo de todo o sistema de seres que ele fez; que todas as causas naturais, de todo tipo, dependem inteiramente da sua vontade, e ele aumenta, diminui, suspende ou destrói a eficácia delas segundo o seu próprio beneplácito; que ele se serve, à sua vontade, de causas preternaturais, o ministério dos anjos bons ou maus; e que ele nunca se impediu de exercer o seu poder imediato, de falar vida ou morte a qualquer das suas criaturas, de chamar um mundo à existência, ou ao nada, com um só olhar.
Você, então, ó homem, pensa que conseguirá se livrar do juízo deste grande Deus (Rm 2.3)? Ó, não acumule mais contra si mesmo ira para o dia da ira (Rm 2.5)! Você não pode desfazer o que passou; mas agora conserve-se puro (1Tm 5.22), ainda que seja ao preço de tudo o que você tem; e reconheça a bondade de Deus em não o ter cortado há muito tempo e enviado para o seu próprio lugar.
15. Os judeus de outrora foram acusados por Deus também de profanar os seus sábados (Ez 22.8). E nós, cristãos, ficamos atrás deles nisso? (Falo dos que reconhecem essa obrigação.) Chamamos ao sábado “meu prazer” e “santo dia do Senhor, digno de honra”, não seguindo os nossos próprios caminhos, não pretendendo fazer a nossa própria vontade, nem falando palavras vãs (Is 58.13)? Descansam nele o nosso servo e a nossa serva? E o estrangeiro das nossas portas para dentro (Dt 5.14)? Não se faz em nossa casa nenhum serviço que não seja realmente necessário? Vocês sabem na sua própria consciência, e Deus sabe, que a verdade é exatamente o contrário.
Mas, deixando de lado essas coisas que se fazem como que às escondidas, seja por homens humildes, seja por homens de posição: quantos são, em toda cidade, assim como nesta, os que profanam o sábado com mão erguida? Quantos nesta, que desafiam abertamente a Deus e ao rei, que violam as leis divinas e humanas, trabalhando no seu ofício, entregando as suas mercadorias, recebendo o seu pagamento ou cuidando dos seus negócios ordinários, num ramo ou noutro, e limpando a boca e dizendo: “Não fiz nada de errado” (Pv 30.20)? Quantos compram e vendem no dia do Senhor, até nas ruas abertas desta cidade? Quantos abrem, ou (com alguma modéstia) entreabrem, as suas lojas? Mesmo quando não têm o pretexto de mercadorias perecíveis; sem pretexto nenhum, o dinheiro é o seu deus, e o lucro a sua piedade. Mas que são todas essas multidões nos arredores da cidade, que quase cobrem a face da terra? Até caírem, uns após outros, nos inúmeros antros preparados para elas em todo canto. Que têm estes a ganhar profanando o dia do Senhor? Absolutamente nada. Eles bebem a iniquidade como a água (Jó 15.16). Mais ainda: muitos deles pagam pelo seu pecado; talvez grande parte do que deveria sustentar a família na semana seguinte. Não sei o que é fazer a nossa própria vontade ou seguir os nossos próprios caminhos, se não é isso. Que alegaremos, então, em desculpa de vocês? Que “muitos outros fazem o mesmo que vocês”? Não, o número está tão longe de atenuar a sua culpa que a agrava sem medida. Pois isto é guerra aberta contra Deus. E um exército inteiro de vocês se une e, de comum acordo, à luz do sol, arremete contra ele, protegido por um grosso escudo (Jó 15.26).
16. Menciona-se uma vez nos profetas: Em seu meio (Jerusalém) desprezam o pai e a mãe (Ez 22.7). Mas é frequente a menção de como desprezavam os seus pais civis, das suas murmurações e rebeliões contra os seus governantes. Contudo, certamente a nossa jactância contra eles está excluída, mesmo neste particular. Pois não testemunham todas as nossas histórias uma série tal de motins, sedições, facções e rebeliões que dificilmente encontra paralelo em qualquer outro reino desde que o mundo começou? E o espírito selvagem, turbulento e ingovernável dos nossos compatriotas não tem sido continuamente reconhecido e lamentado (como o atestam até hoje muitos dos seus escritos) pela parte serena e racional da nação? Efeitos terríveis disso foram vistos e sentidos, mais ou menos, em cada geração.
Mas esse espírito existiu só no passado? Bendito seja Deus, agora está contido, não irrompe; mas os seus vestígios ainda são fáceis de encontrar. Pois de onde brota este contínuo falar mal das autoridades? [N. do T.: Jd 8, na redação inglesa (speak evil of dignities); a NAA traz “insultam os gloriosos seres celestiais”.] De todos os que estão ao leme dos negócios públicos? De onde vem este falar mal da autoridade do nosso povo (At 23.5), tão comum entre todas as classes de homens? Não incluo aqueles cuja função é examinar toda a administração pública. Mas não é quase todo cavalheiro particular do país, todo clérigo, todo comerciante, sim, todo homem e toda mulher que tem língua, um político, um reformador do Estado? Não é todo carroceiro e todo carregador muito mais entendido que o rei, os lordes e os comuns juntos? Capaz de lhes dizer todos os pontos fracos, de apontar as suas faltas e erros, e como deveriam proceder, se querem salvar a nação? Ora, tudo isso tem uma tendência natural e inegável para o motim e a rebelião. Ó, quanta necessidade temos nós, acima de qualquer nação da terra, do cuidado e da proteção contínuos daquele que é o único capaz de dominar a fúria do mar (Sl 89.9) e acalmar o tumulto dos povos (Sl 65.7)!
17. Mas prossigamos. Havia em Efraim bêbados (Is 28.1), heróis para beber vinho e valentes para misturar bebida forte (Is 5.22)? E não os há na Inglaterra? Não são eles fruto de cada condado, cidade e vila do país? Estes, na verdade, não se levantam pela manhã, ou não com frequência, para logo se embriagarem, e assim continuam até alta noite, até que o vinho os esquente. Encontraram um caminho mais rápido: começar à noite e continuar entregues ao vinho ou à bebida forte até a manhã. E que multidões destes há por todo o país? Perdidos para a razão e para a humanidade, tanto quanto para a religião; de modo que não admira que não considerem os feitos do Senhor, nem olhem para as obras das suas mãos (Is 5.11-12).
Nem precisam, de fato, os nossos bêbados continuar da manhã até alta noite, até que o vinho os esquente: pois eles encontraram um método muito mais breve de lançar fora todo senso e razão e de se desembaraçar de todo resto de consciência ou de entendimento. De modo que, seja qual for a obra das trevas que se deva fazer depressa, e isso sem nenhum perigo de interrupção por medo, compaixão ou remorso, eles podem, em poucos momentos, com um só gole, ficar tão eficazmente habilitados para ela como se pudessem engolir uma legião de demônios. Ou (se isso é tudo o que lhes importa) podem, a um custo módico, destruir o próprio corpo tanto quanto a alma e mergulhar, através deste fogo líquido, naquele preparado para o diabo e seus anjos (Mt 25.41). [N. do T.: Wesley alude às bebidas destiladas, como o gim, então baratas e de consumo generalizado na Inglaterra.]
Amigo! Pare! Você ainda tem forma de homem. E talvez algum resto de entendimento. Ó, que o Deus misericordioso se apodere disso! Para ele todas as coisas são possíveis. Pense um pouco, por uma vez. Que é que você está fazendo? Por que haveria de destruir a si mesmo? Eu não seria capaz de tratar o pior inimigo que tenho no mundo como você trata a si mesmo. Por que haveria de matar-se aos poucos? Por que haveria de queimar-se vivo? Ó, poupe ao menos o seu corpo, se não tem compaixão da sua alma! Mas então você tem alma? Crê nisso de verdade? O quê, uma alma que tem de viver para sempre! Ó, poupe a sua alma! Não destrua a sua própria alma com uma destruição eterna! Ela foi feita para Deus. Não a entregue nas mãos daquele antigo assassino de homens! Você não pode entorpecê-la por muito tempo. Quando ela deixar o corpo, despertará e não dormirá mais. Mais um pouco, e ela se lançará ao grande abismo, para viver, pensar e sentir para sempre. E o que alegrará o seu espírito ali, se você não tiver uma gota de água para refrescar a língua (Lc 16.24)? Mas a sorte ainda não está lançada. Clame agora a Deus, e a iniquidade não lhe servirá de tropeço (Ez 18.30).
18. Nos tempos antigos havia também os que andavam à vontade em Sião (Am 6.1), que dormiam em camas de marfim e se espreguiçavam sobre os seus leitos, que comiam os cordeiros do rebanho e os bezerros que estavam na engorda (Am 6.4). Mas como eram deselegantes esses antigos epicuristas! Cordeiros do rebanho e bezerros na engorda! Eram essas as melhores iguarias que conseguiam arranjar? Quanto progredimos desde o tempo de Jeroboão! Quem pode contar as variedades das nossas mesas, ou as artes que temos “para ampliar o prazer do paladar”? E que são os leitos ou as camas de marfim deles diante da mobília dos nossos aposentos? Ou as suas correntinhas e braceletes, mantos e vestidos de festa (Is 3.19-22), diante dos adornos das nossas pessoas? Que comparação há entre os divertimentos deles e os nossos? Olhem para Salomão em toda a sua glória; e, no entanto, não podemos perguntar se ele não era completamente alheio aos prazeres da caça? E, apesar dos seus quarenta mil cavalos [N. do T.: assim na versão inglesa de Wesley; a NAA traz “quatro mil” (1Rs 4.26)], viu ele alguma vez uma corrida em toda a sua vida? Ele fez jardins e pomares e tanques de águas; plantou vinhas e construiu casas (Ec 2.4-6). Mas teve ele um único teatro entre todas essas coisas? Não. Esta é a glória dos tempos mais recentes. Ou tinha ele alguma ideia de um baile, de uma reunião de sociedade, de um baile de máscaras ou de um ridotto? [N. do T.: ridotto, palavra italiana para uma festa pública com música e dança.] E quem imagina que todos os seus instrumentos de música juntos possam ser comparados aos nossos, mais do que os seus versos hebraicos, ou os do seu pai, toscos e retumbantes, se comparariam
“ao doce cantarolar das cantigas italianas”?
Em todos estes pontos, a nossa superioridade sobre os judeus é grande em todos os sentidos.
Sim, e sobre os nossos próprios antepassados, tanto quanto sobre os deles. Mas isso é a nossa glória ou a nossa vergonha? Se Eduardo III ou Henrique V viessem agora para o nosso meio, que pensariam da mudança no seu povo? Aplaudiriam a elegante variedade na mesa do velho barão? Ou a custosa delicadeza da sua mobília e das suas roupas? Escutariam esses instrumentos de música? Ou achariam prazer nesses divertimentos? Alegrar-se-iam ao ver os nobres e a fidalguia do país à vontade, espreguiçando-se em camas de plumas? Delicados demais para usar os próprios membros, até nas ruas da cidade; para suportar o contato do povo, o soprar do vento ou o brilho do sol! Ó, como lhes arderia o coração! Que indignação, tristeza e vergonha não haveriam de sentir, ao ver perdida a antiga robustez, e a temperança, a paciência e o desprezo pelo supérfluo dos britânicos, a operosidade rude e incansável, trocados pela moleza, pela ociosidade e pela fartura de pão (Ez 16.49)! Felizes eles, que foram reunidos aos seus pais antes que se fizesse essa troca!
19. Provar extensamente que o luxo e a sensualidade, a preguiça e a indolência, a moleza e a ociosidade, a efeminação e a falsa delicadeza da nossa nação não têm paralelo seria trabalho perdido. Receio que possamos dizer o mesmo da lascívia; pois, se os judeus, como diz o profeta, se reuniram em casas de prostitutas (Jr 5.7), assim fazem os ingleses, e com muito mais abundância. De fato, onde se encontra a castidade masculina? Entre a nobreza? Entre a fidalguia? Entre os comerciantes? Ou entre o povo comum da Inglaterra? Quão poucos têm qualquer pretensão a ela? Quão poucos desejam sequer a reputação dela? Você mesmo consideraria honra ou desonra ser contado entre aqueles de quem se diz: Estes são os que não se macularam com mulheres, porque são virgens (Ap 14.4)? E quão numerosos são hoje, até entre os que são tidos como homens de honra e probidade, os que, como garanhões bem fartos e cheios de desejo, cada um fica rinchando para a mulher do seu próximo (Jr 5.8)?
Mas, como se isso não bastasse, não é também o pecado de Sodoma mais comum entre nós do que jamais foi em Jerusalém? Não estão as nossas ruas infestadas daqueles monstros de impureza que se inflamam mutuamente em sua sensualidade (Rm 1.27), a quem Deus entregou a um modo de pensar reprovável, para praticarem coisas que não convêm (Rm 1.28)? Ó Senhor, as tuas misericórdias não têm fim; por isso não somos consumidos (Lm 3.22).
20. Também não ficamos atrás deles na injustiça, mais do que na impureza. Quão frequentes são entre nós os roubos às claras? Não estão os atos de violência (Is 59.6) até nas nossas ruas? E que leis bastam para impedi-los? Não abunda o furto de várias espécies em todas as partes do país, embora a morte seja o seu castigo? E não há entre nós quem empreste com usura e cobre juros, quem explore o seu próximo com extorsão (Ez 22.12)? Sim, ofícios inteiros que subsistem de uma extorsão tal que nem entre os judeus nem entre os pagãos se conhecia? Não se encontram ainda a medida falsa, as balanças desonestas e a bolsa com pesos adulterados (Mq 6.10-11)? Além das mil maneiras sem nome de lograr e defraudar, a astúcia e os segredos de cada ofício e profissão. Seria tarefa sem fim descer aos pormenores e mostrar, em cada circunstância, como não só os trapaceiros e os jogadores (essas pragas públicas, esses escândalos da nação inglesa), mas altos e baixos, ricos e pobres, homens de reputação e homens sem nenhuma, em toda posição da vida pública ou privada, se corromperam e geralmente se aplaudem e consideram política e sabedoria agir assim: de modo que, se o lucro está à mão, não se importam de que a justiça se ponha de longe (Is 59.14); de modo que quem se desvia do mal, quem não entra nos seus conchavos, ainda é tratado como presa (Is 59.15); e os perversos ainda devoram aqueles que são mais justos do que eles (Hc 1.13).
E que reparação há? Suponham que um grande homem oprima o necessitado. Suponham que o rico moa a face dos pobres (Is 3.15): que remédio contra tal opressão pode o pobre encontrar neste país cristão? Se um é rico e o outro pobre, a justiça não se põe de longe? E não está o pobre na máxima improbabilidade (se não na impossibilidade) de obtê-la? Talvez o risco seja maior entre nós do que entre judeus, turcos ou pagãos.
Por exemplo: suponha que um grande homem, com ou sem forma legal, cause dano ao seu vizinho pobre. Que fará este? Processar Sua Senhoria pelo direito comum? Levar a causa a julgamento nas próximas sessões trimestrais ou nas sessões itinerantes? Ai! Os seus próprios vizinhos, os que conhecem todo o caso, lhe dirão: “Você perdeu o juízo.” “Mas doze homens bons e verdadeiros me farão justiça.” Muito bem; mas onde você os encontrará: homens sem parcialidade, incapazes de corrupção, acima do medo e do favor, de toda perspectiva de ganho ou de perda? E isso não é tudo; eles não só precisam ser bons e verdadeiros, mas homens sábios e entendidos. Do contrário, quão fácil é para um advogado hábil lançar névoa diante dos olhos deles! Mesmo supondo também que o juiz seja inteiramente imparcial e à prova de toda corrupção. E, se todas essas circunstâncias concorrerem (do que receio não haver muitos precedentes), supondo que se dê um veredicto a seu favor, ainda assim você nada ganhou. A causa é transferida para um tribunal superior, e você tem de começar todo o trabalho de novo. Ali você tem de lutar com todas as mesmas dificuldades de antes e, talvez, com muitas outras novas. Contudo, se tiver dinheiro bastante, poderá vencer; mas, se este faltar, a sua causa está perdida. Sem dinheiro, não se tem mais lei; só a pobreza basta para excluir inteiramente a justiça.
Mas “um procurador honesto não pode conseguir-me justiça?” Um procurador honesto! Onde você encontrará um? Dos que são chamados procuradores extremamente honestos, quem há que tenha qualquer escrúpulo:
1. Em promover e estimular processos desnecessários, se não também injustos?
2. Em defender uma causa má, sabendo que o é:
Opondo uma exceção e depois retirando-a:
Alegando alguma defesa falsa contra a petição do autor:
Apresentando uma resposta evasiva à sua petição:
Prolongando o processo, se possível, até que o autor esteja arruinado:
3. Em levar uma causa que não chega a dez xelins a Westminster Hall, declarando na petição que passa de quarenta:
4. Em retardar o processo do seu próprio cliente, ciente e deliberadamente, a fim de ganhar mais com isso:
5. Em redigir ele mesmo as peças processuais ou as escrituras do seu cliente, em vez de dá-las a redigir a advogados competentes:
6. Em cobrar do seu cliente os honorários que deveriam ter sido pagos a esses advogados, embora não tenham sido pagos:
7. Em cobrar por cópias passadas a limpo, onde nenhuma foi feita:
8. Em cobrar gratificações por agilidade dadas aos escreventes, quando não se lhes deu um só centavo;
9. Em mandar o seu escrevente numa viagem (mais longa ou mais curta) para tratar de negócios com diversas pessoas, ou por elas, e cobrar o aluguel do cavalo e as despesas da viagem de cada uma delas separadamente:
10. Em mandar o seu escrevente a Westminster para tratar dos negócios de dez (pode ser) ou vinte pessoas, e cobrar de cada uma dessas vinte o seu comparecimento, como se ele tivesse sido mandado por causa de uma só:
11. Em cobrar o seu próprio comparecimento da mesma maneira: e
12. Em encher a sua conta de comparecimentos, honorários e taxas de período forense, embora o seu cliente não esteja nem um pouco mais adiantado na sua causa.
Esse é o que se chama um procurador honesto! Quanto mais honesto é um batedor de carteiras?
Mas há um magistrado cujo ofício próprio é reparar os injuriados e oprimidos. Vá então e experimente esse remédio; vá e conte o seu caso ao lorde chanceler. Alto lá; você tem de proceder conforme as regras: tem de lhe contar o seu caso na forma da lei, ou não contar de modo algum. Precisa, portanto, dar entrada numa petição na Chancelaria e contratar um advogado desse tribunal. “Mas você já gastou tudo o que tinha; não tem dinheiro nenhum.” Então receio que não terá justiça nenhuma. Você tropeça logo na soleira. Se perdeu ou gastou tudo, a sua causa não vale nada: nem sequer chegará a ser ouvida. Assim, se o opressor se apoderou de tudo o que você tinha, está tão seguro como se você estivesse debaixo da terra.
21. Ora, que coisa espantosa é esta! A própria grandeza da vilania a põe fora do alcance de reparação! Mas suponham que o oprimido ainda tenha algum bem e possa percorrer todos os tribunais de justiça: que paralelo podemos encontrar entre judeus, turcos ou pagãos, quer para as demoras, quer para as despesas que isso acarreta? Quanto às primeiras, que monstruosidade é que, num processo relativo àquela herança que deve fornecer a você e à sua família alimento e vestuário, você tenha de esperar mês após mês, talvez ano após ano, antes que se decida se ela é sua ou não! E que vai você comer ou vestir enquanto isso? Disso o tribunal não toma conhecimento! Não é esta mesma demora (suponhamos que não houvesse nenhum outro agravo no processo legal inglês) uma injustiça que ultrapassa toda expressão? Contrária a todo senso, razão, justiça e equidade? Uma causa capital é julgada num só dia e decidida definitivamente de uma vez. E a vida vale menos que o alimento? Ou o corpo importa menos que as roupas (cf. Mt 6.25)? Que zombaria descarada da justiça é, então, este adiar das causas pecuniárias de um período forense para outro, sim, de ano para ano!
Quanto às segundas: um homem me lesou em cem libras. Recorro a um juiz para recuperá-las. Que coisa assombrosa é que esse mesmo juiz não possa dar-me o que é meu de direito, e o que evidentemente se mostra ser meu, a menos que eu dê primeiro, talvez, metade da quantia a homens que nunca vi antes na minha vida!
22. Até aqui supus que todas as causas, quando são decididas, o são segundo a justiça e a equidade. Mas é assim? Vocês, doutos na lei, não se profere nos seus tribunais nenhuma sentença injusta? As mesmas causas não foram decididas de maneiras inteiramente opostas? De um modo neste período forense, exatamente do modo contrário no seguinte? Talvez de um modo pela manhã (lembro-me de um caso assim) e de outro à tarde. Como é isso? Não resta justiça alguma na terra? Nenhuma consideração pelo certo ou pelo errado? Ou as causas foram tão embaralhadas por tanto tempo que vocês já não sabem o que é errado ou certo? O que é conforme à lei, ou contrário a ela? Ouvi alguns de vocês declararem francamente que em muitos casos é quase impossível saber o que é lei e o que não é. Tanto se multiplicaram sobre vocês os seus in-fólios de leis que nenhum cérebro humano é capaz de contê-los; não, nem qualquer esquema coerente ou resumo de todos eles.
Mas será realmente por ignorância da lei (esta é a suposição mais favorável) que tão poucos de vocês têm escrúpulo de aceitar honorários de qualquer das partes, em quase qualquer causa que se possa conceber? E que vocês geralmente advogam do modo como advogam, em qualquer lado de qualquer causa? Divagando para lá e para cá, de um modo tão avesso ao senso comum e tão inteiramente alheio à questão? Fiquei espantado ao ouvir as alegações de alguns advogados eminentes: e, quando aconteceu que o advogado da outra parte entendia apenas as regras comuns da lógica, ele fez aqueles homens eminentes parecerem ou tão grandes velhacos, se podiam evitá-lo, ou tão grandes cabeças-duras, se não podiam, que se teria acreditado que nunca mais mostrariam a cara ali. Enquanto isso, se há um Deus que julga com justiça, que insultos horrendos contra ele são estes! Deixaria eu de castigar estas coisas?, diz o Senhor. Não deveria eu me vingar de uma nação como esta? (Jr 5.9).
23. Há mais um exemplo de (não sei como chamá-lo) injustiça, opressão, sacrilégio, que há muito clama em alta voz aos ouvidos de Deus. Pois, entre os homens, quem ouve? Refiro-me à administração de muitos daqueles a quem estão confiadas as nossas instituições públicas de caridade. Pela piedosa munificência dos nossos antepassados, temos abundância delas, de vários tipos. Mas não é gritantemente verdade (para tocar só em alguns pontos gerais) que os administradores de muitas delas: 1. Não aplicam a doação ao uso para o qual o benfeitor a destinou; ou 2. Não a aplicam com o cuidado e a economia que em tal caso se exigem indispensavelmente; ou 3. Não aplicam a doação inteira a uso caritativo algum, mas desviam parte dela, de tempos em tempos, para uso próprio e das suas famílias. Ou, por fim, por pura e descarada opressão, excluem de toda participação em tal doação aqueles que ousam (ainda que com toda a delicadeza e todo o respeito possíveis) pôr diante deles as coisas que eles fizeram:
“Mas Bruto é um homem honrado:
E assim são todos, todos homens honrados!” [N. do T.: Shakespeare, Júlio César, ato III, cena 2.]
E alguns deles são tidos em estima pela sua religião, considerados modelos tanto de honestidade como de piedade! Mas Deus não vê como o ser humano vê (1Sm 16.7). Ele lhes retribuirá diretamente (Dt 7.10), talvez ainda no mundo presente. Pois aquela passagem da Escritura muitas vezes ainda se cumpre: Esta é a maldição que sai pela face de toda a terra. Enviarei essa maldição, diz o Senhor dos Exércitos, e a farei entrar na casa do ladrão (pois é isso que ele é, e nada melhor, aos olhos de Deus; em nada mais honesto que um salteador de estrada), ela ficará nessa casa e consumirá a sua madeira e as suas pedras (Zc 5.3-4).
24. E não é verdade que, assim como a justiça, também a verdade anda tropeçando pelas praças (Is 59.14)? Pois quem fala a verdade de coração (Sl 15.2)? Quem há que tenha escrúpulo de consciência em dizer as coisas como são, sempre que chega a falar? Quem hesita em contar mentiras oficiosas, isto é, em afastar-se da verdade a fim de fazer o bem? Como soa estranho aos ouvidos modernos aquele dito dos antigos pais: “Eu não diria uma mentira, não, nem para salvar as almas do mundo inteiro.” E, no entanto, isso concorda rigorosamente com a palavra de Deus, em particular com a de São Paulo: se alguns dizem pratiquemos o que é mau, para que nos venha o que é bom, a condenação destes é justa (Rm 3.8).
Mas quantos de nós praticam esse mal sem sequer considerar se virá o bem ou não, dizendo o que não pensamos, apenas por costume, porque é da moda fazê-lo? Que quantidade imensa de falsidade essa moda ímpia produz dia após dia! Pois não se espalhou ela por todas as partes da nação? Como toda a nossa linguagem está inchada de cumprimentos! De modo que não se espera que uma pessoa bem-educada fale como pensa: não contamos com isso da parte dela. Mais ainda: quem lhe agradeceria por isso? Quão poucos o tolerariam? Foi dito antigamente, e por um guerreiro e rei: o que fala mentiras não permanecerá diante dos meus olhos (Sl 101.7). Mas não somos nós de outro parecer? Não dizemos antes: o que não fala mentiras não permanecerá diante dos meus olhos? Na verdade, a prova raramente chega, pois tanto os que falam como os que ouvem estão de acordo em que a formalidade e a cerimônia, a lisonja e o cumprimento devem prevalecer, e a verdade deve ser banida do meio de todos os que conhecem o mundo.
E, se os ricos e poderosos têm tão pouca consideração pela verdade que mentem até pelo gosto de mentir, que admira que os homens de condição mais baixa façam o mesmo por lucro? Que admira que isso tenha se firmado, como por consenso geral, em todo tipo de compra e venda? Não é caso julgado que não há mal nenhum em contar mentiras no exercício do comércio? Dizer que é o menor preço aquilo que não é o menor, ou que não aceitará o que de fato aceita logo em seguida? A tal ponto que é provérbio até entre os turcos, quando lhes pedem que abatam o preço: “Como? Você me toma por cristão?” De modo que nunca foi tão oportuna como hoje aquela advertência: Que cada um de vocês se proteja do seu amigo e não confie em nenhum irmão. Porque todo irmão é enganador (…). Cada um zomba do seu próximo (Jr 9.4-5).
25. E quanto àqueles poucos que se abstêm dos pecados exteriores: está o coração deles reto diante de Deus? Não poderá ele dizer também de nós (como dos judeus): este povo é incircunciso de coração (Jr 9.26)? E você, não é? Você, então, ama o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração e com toda a sua força (Mc 12.30)? É ele o seu Deus e o seu tudo? O desejo dos seus olhos? A alegria do seu próprio coração? Ou, antes, não levanta você ídolos dentro do seu coração (Ez 14.3)? Não é o ventre o seu deus (Fp 3.19)? Ou a sua diversão? Ou a sua boa reputação? Ou o seu amigo? Ou a sua esposa? Ou o seu filho? Isto é, falando claramente: não se deleita você em algum desses bens terrenos mais do que no Deus do céu? Mais ainda: talvez você seja uma dessas almas rasteiras que anseiam pelo pó da terra (Am 2.7) [N. do T.: a NAA traz “esmagam no pó da terra a cabeça dos pobres”.]! Na verdade, quem não anseia? Quem não ganha tudo o que pode? Quem, entre os que não são tidos por avarentos, deixa de ajuntar todo o dinheiro que pode ganhar honestamente, e talvez muito mais? Pois serão apenas aqueles que o mundo classifica entre os avarentos os que usam de todos os artifícios para aumentar a sua fortuna, labutando de manhã cedo até tarde, gastando todas as suas forças em carregar-se de barro espesso (Hc 2.6) [N. do T.: a NAA traz “se enche de coisas penhoradas”.]? Até quando? Até a própria hora em que Deus os chama, quando diz a cada um deles: Louco! Esta noite lhe pedirão a sua alma; e o que você tem preparado, para quem será? (Lc 12.20)
26. E, no entanto, não dá testemunho contra nós a nossa arrogância (Os 5.5), até mesmo a arrogância daqueles cuja alma está apegada ao pó (Sl 119.25)? Não são eles sábios aos seus próprios olhos e inteligentes em seu próprio conceito (Is 5.21)? Não observaram escritores da nossa própria terra que não há sobre a terra nação mais presunçosa que a inglesa, mais cheia de si quanto à sua própria sabedoria, coragem e força, tanto nacional como pessoal? E, de fato, a julgar pelos habitantes de Londres, isso fica demonstrado com toda a evidência. Pois não são até os mais humildes dentre eles capazes de instruir o rei e todos os seus conselheiros? Que sapateiro remendão em Londres não é mais sábio que o primeiro-secretário de Estado? Que polemista de café não é teólogo mais hábil que Sua Graça, o arcebispo de Cantuária? E que profundo desprezo pelos outros se junta a essa alta opinião de nós mesmos! Não sei se o povo de todas as nações é mais mestre no fingimento; mas em nenhuma nação, seja ela qual for, aparece tamanha propensão a desprezar o próximo: a desprezar não só os estrangeiros (já há quase dois mil anos se observava: Britannos hospitibus feros [os britanos, cruéis com os estrangeiros]), mas os próprios compatriotas, e isso muitas vezes por razões tão surpreendentes que só um fato inegável poderia torná-las críveis. Quantas vezes o cavalheiro na sua carruagem despreza esses sujeitos imundos que andam a pé? E estes, por sua vez, não desprezam na mesma medida esses sujeitos preguiçosos que se refestelam nas suas carruagens? Não admira, então, que os que têm a forma de piedade (2Tm 3.5) desprezem os que não a têm, e que o santo do mundo diga com tanta frequência ao pecador grosseiro, na prática, se não em palavras: Fique onde você está! Não se aproxime de mim, porque sou mais santo do que você (Is 65.5)!
27. Mas que espécie de santidade é essa? Não pode Deus declarar com justiça também a nosso respeito: Este povo se aproxima de mim com a sua boca, mas o seu coração está longe de mim (Is 29.13); lisonjeiam-me, porém de boca, e com a língua me mentem (Sl 78.36)? Não é assim com você? Quando você fala com Deus, os seus lábios e o seu coração andam juntos? Não profere muitas vezes palavras com as quais não quer dizer absolutamente nada? Não diz e desdiz? Ou não diz uma coisa a Deus e outra aos homens? Por exemplo, você diz a Deus: Digna-te, Senhor, guardar-me neste dia sem pecado. Mas diz aos homens que isso não pode ser feito, que é pura tolice e loucura esperá-lo. Você pede a Deus que possa amá-lo perfeitamente e engrandecer dignamente o seu santo nome; mas diz aos homens que não existe amor perfeito sobre a terra, que isso não passa de sonho de louco. Você ora a Deus que purifique os pensamentos do seu coração pela inspiração do seu Santo Espírito. Mas garante ao seu próximo que hoje não existe inspiração, e que ninguém a pretende senão os entusiastas. [N. do T.: as três petições vêm do Livro de Oração Comum: a primeira do Te Deum, as outras duas da coleta que abre a Ceia do Senhor.] Que hipocrisia grosseira é essa! Certamente você pensa que o Altíssimo não tem conhecimento (Sl 73.11). Ó, não se engane: de Deus não se zomba. Pois aquilo que a pessoa semear, isso também colherá! (Gl 6.7)
28. Tal é, no presente, a religião desta nação cristã! Assim honramos aquele por cujo nome somos chamados. E, no entanto, já houve nação mais descuidada e mais segura de si? Mais alheia ao temor da ira de Deus? Como pode alguém expor-se mais eficazmente ao ridículo dos que são tidos por homens de entendimento do que mostrando alguma preocupação, como se os juízos de Deus pairassem sobre as nossas cabeças? Certamente, então, o nosso coração enganado nos iludiu, de maneira que não podemos dizer: Não é uma mentira isso que temos em nossa mão? (Is 44.20). Certamente essa nossa confiança não vem de Deus: é antes uma cegueira judicial, uma insensibilidade estúpida, um sono profundo, precursor de pesada vingança.
“Atrás dela caminha a ruína, e a desolação vazia.”
Certamente nunca houve povo mais preparado para a destruição! Os filhos têm a mente fechada e o coração endurecido (Ez 2.4). Será que ficaram envergonhados, porque cometeram abominação? (Jr 6.15) Quando profanaram abertamente o dia do Senhor? Quando cometeram impureza? Ou quando proferiram maldições e blasfêmias que não se ouvem nem entre os pagãos? Não: eles não ficaram com vergonha. Eles nem sabem o que é envergonhar-se. E, embora Deus lhes envie todos os seus servos, muitas e muitas vezes, mesmo assim não querem ouvir; são teimosos e fazem pior do que os seus pais (Jr 7.25-26).
Que mais, então, Deus podia fazer à sua vinha, que não lhe tenha feito (Is 5.4)? Ele nos provou longamente com misericórdias, dando chuvas do céu e estações frutíferas (At 14.17), sustentando-nos com o trigo mais fino (Sl 81.16). Mas ainda assim este povo de coração teimoso e rebelde não diz: Temamos agora o Senhor, nosso Deus (Jr 5.23-24). Mais ainda: não lhe deram graças por todas as suas misericórdias; nem sequer reconheceram que eram dádiva sua. Não viram a mão de Deus em nenhuma dessas coisas; sabiam explicá-las de outra maneira. Ó insensatos, quando vocês vão entender? Ainda não sabem que há um Deus que governa o mundo? O que vocês viram com os próprios olhos? Foi dos mais rápidos a corrida, ou dos mais fortes a batalha (Ec 9.11)? Já se esqueceram de Dettingen [N. do T.: batalha travada em 1743, na Guerra de Sucessão Austríaca, vencida pelo exército comandado pessoalmente pelo rei Jorge II.]? Não sabe a Inglaterra que Deus estava lá? Ou suponham que a continuação da paz, ou o sucesso na guerra, sejam mero resultado da sua própria sabedoria e força: vocês mandam também no sol e nas nuvens? Podem vocês despejar ou reter os cântaros dos céus (Jó 38.37)? Mas que tudo seja natureza, acaso, qualquer coisa, contanto que Deus não tenha parte no governo da terra!
29. Será que os seus juízos nos levarão a uma disposição melhor? Será que ouvimos a vara e aquele que a designou (Mq 6.9) [N. do T.: a NAA traz “Escutem, ó tribo”.]? Observemos: que fruto encontramos naqueles que estão perecendo pelo golpe da sua mão (Sl 39.10)? Quem quiser certificar-se claramente disso, visite os hospitais desta cidade. Julgue por si mesmo como os doentes ali recebem a visitação paterna de Deus; especialmente ali, porque a misericórdia também se mistura ao juízo, de modo que é evidente que o Senhor corrige a quem ama (Hb 12.6). Entre, então, em qualquer enfermaria, seja de homens ou de mulheres, e observe atentamente de uma ponta à outra: estão eles se humilhando sob a mão de Deus? Estão tremendo sob o senso da sua ira? Estão louvando-o pelo seu amor? Estão exortando uns aos outros a não desanimar quando são repreendidos por ele (Hb 12.5)? Como nove em cada dez deles passam o tempo, esse tempo tão importante, de manhã até a noite? Ora, de tal maneira que você não descobriria facilmente, por ali, se eram cristãos, pagãos ou maometanos.
Haverá aflição mais profunda do que essa? Haverá aflição maior que a perda da saúde? Talvez haja: a perda da liberdade, especialmente nas circunstâncias em que às vezes ocorre. Você pode facilmente convencer-se disso entrando em Ludgate ou em Newgate [N. do T.: duas prisões de Londres.]. Que cena aparece assim que você entra! O próprio lugar enche a alma de horror. Que escuro e lúgubre! Que insalubre e imundo! Que desprovido de tudo o que pudesse dar algum consolo! Mas isso é pouco, comparado às circunstâncias que acompanham o confinamento nessa sombra da morte. Veja aquele pobre infeliz que antes não carecia de nada e estava cercado de amigos e conhecidos, agora separado, talvez por um golpe inesperado, de todos os caminhos alegres dos homens: arruinado, abandonado por todos e entregue nas mãos de tais senhores e de tais companheiros! Não sei se, para alguém de espírito reflexivo e sensível, poderia haver coisa semelhante deste lado do inferno.
Que efeito tem, então, essa pesada visitação de Deus sobre os que jazem sob ela por algum tempo? Há talvez uma exceção aqui e ali; mas, em geral, estão entregues a toda maldade, completamente despojados de todo temor de Deus e de todo respeito pelos homens, a ponto de saírem comumente dessa escola inteiramente preparados para qualquer espécie ou grau de vilania, perfeitamente brutais e diabólicos, plenamente equipados para toda palavra e obra má.
30. Serão os nossos compatriotas recuperados com mais eficácia quando o perigo e a aflição se juntam? Se assim for, o exército, especialmente em tempo de guerra, deve ser a parte mais religiosa da nação. Mas será de fato assim? Andam os soldados como quem se vê à beira da eternidade, aproveitando bem toda oportunidade (Ef 5.16) de glorificar a Deus e de fazer o bem aos homens, porque não sabem a hora em que o seu Senhor lhes pedirá a alma? Longe disso: a religião de soldado é motivo de chacota até entre os que não têm religião nenhuma; o vício e a profanação, sob todas as formas, reinam entre eles sem controle; e todo o teor do seu comportamento diz: comamos e bebamos, porque amanhã morreremos (1Co 15.32).
Terão mais religião que os de terra aqueles que estão expostos a perigos ainda maiores, as forças navais inglesas? Diz-se que outrora se distinguiam nisso; e é certo que Sir Francis Drake temia a Deus, como a maioria dos seus comandantes, e temos razão para crer que também os seus soldados e marinheiros. Mas que diremos da marinha de hoje, mais particularmente dos navios de guerra? Há religião ali, seja o poder, seja a forma? Não é quase cada navio de guerra um mero inferno flutuante? Onde se encontra maldade mais consumada, desprezo mais pleno e mais ousado de Deus e de todas as suas leis, exceto no abismo sem fundo? Mas aqui a descrição falha; e a bondade de Deus ainda dura todos os dias! Mas deixaria eu de castigar estas coisas?, diz o Senhor. Não deveria eu me vingar de uma nação como esta? (Jr 5.9) Ah, que a perspectiva de juízos nacionais seja suficiente! Que caiamos em nós e nos voltemos para o Senhor, nosso Deus, antes que a sua misericordiosa longanimidade chegue ao fim e ele derrame sobre nós as taças da sua ira!
Mas que pouco fundamento temos até agora para esperar isso! Pois quem hoje escuta com paciência a palavra de exortação (Hb 13.22)? Quão poucos suportam a sã doutrina (2Tm 4.3) e a aplicação honesta e direta dela! Não dizem eles aos videntes: Não tenham mais visões!, e aos profetas: digam-nos coisas agradáveis (Is 30.10)? E, se alguém fizer assim, se costurar almofadas para todas as axilas (Ez 13.18) [N. do T.: a NAA traz “costuram fitinhas mágicas para serem usadas em todas as articulações das mãos”.] e fizer cessar de diante deles o Santo de Israel (Is 30.11), se profetizar a respeito de vinho e de bebida forte, esse tal será o profeta deste povo (Mq 2.11).
31. Tenho consciência de quão delicado é este assunto, e de quão extremamente difícil é falar de modo a não dizer nem pouco demais nem demais, nem mais nem menos do que a causa de Deus exige. Sei também que é absolutamente impossível falar sem causar ofensa. Mas, seja quem for que se ofenda, não ouso calar-me, nem posso abster-me da franqueza no falar. Apenas me esforçarei por usar de toda a ternura que puder, de modo compatível com essa franqueza.
Com terno amor, então, pergunto: não há entre nós (falo a vocês, meus irmãos, que são sacerdotes e profetas do Senhor, separados para prestar serviços sagrados (1Co 9.13) e para anunciar a palavra do Senhor), não há entre nós quem cometa impureza, como aqueles por quem Israel foi contaminado? Não viu o Senhor coisa horrenda também em alguns dos profetas desta terra, a saber, que cometem adultério e (para ocultá-lo) andam com falsidade (Jr 23.14)? Deus me livre de afirmar isso. Apenas proponho (não sustento) a pergunta. Se houver um infeliz assim, peço a Deus que o fira no coração e lhe diga: Esse homem é você (2Sm 12.7)!
Não há nenhum de vocês que, como eles, seja herói para beber vinho e valente para misturar bebida forte (Is 5.22)? Sim, não há quem cambaleie por causa da bebida forte, quem seja vencido pelo vinho (Is 28.7)? Não se acham os que dizem: Venham! Vou trazer o vinho! Vamos nos encharcar de bebida forte! O dia de amanhã será como este e ainda maior (Is 56.12)?
Ai, meu irmão! É essa a voz de um ministro de Cristo? De um encarregado dos mistérios de Deus (1Co 4.1)? Suponha que você encontre em algum momento angústia e tristeza: não há em Deus salvação para você (Sl 3.2)? Não é o Deus a quem você serve capaz de livrá-lo de qualquer praga ou angústia? Será embriagar-se com vinho alívio melhor do que encher-se do seu Espírito (Ef 5.18)? Você não entende isso? Você não conhece o Senhor? Cuidado para não destruir tanto a sua própria alma como os que o ouvem! Ah, tome cuidado! Se não conhece o seu amor, tema o seu poder! Apresse-se em fugir da ira vindoura, para que ele não o fira com uma maldição tão grande quanto o seu pecado e não o varra da face da terra.
32. Pode-se dizer que pessoas como você honram ou temem a Deus mais do que aqueles de quem fala Malaquias (Ml 1.6)? Não pode Deus queixar-se: Esses sacerdotes transgridem a minha lei e profanam as minhas coisas santas (Ez 22.26)? Sim, todas as vezes que você ousa tocar os mistérios de Deus com essas mãos profanas, todas as vezes que pronuncia o nome ou a palavra dele com esses lábios profanos! Mas é só por esse motivo que Deus pode dizer: tanto o profeta como o sacerdote estão contaminados (Jr 23.11)? Não pode acrescentar: Não fazem distinção entre o santo e o profano, e assim sou profanado no meio deles (Ez 22.26)? Pois não é assim? Faz você distinção entre o santo e o profano, entre aquele que teme a Deus e aquele que não o teme? Faz você uma distinção efetiva entre eles, mesmo no ofício mais solene da nossa religião? À mesa do Senhor, você tem o cuidado de separar o que é precioso daquilo que não presta (Jr 15.19)? De receber todos os que (como você pode razoavelmente crer) se aproximam com coração arrependido e fé viva, e de rejeitar totalmente os que testemunham contra si mesmos que estão sem esperança e sem Deus no mundo (Ef 2.12)?
Mais ainda: quem ousa afastar da mesa do Senhor um dos homens mais importantes da sua paróquia? Mesmo que seja um bêbado ou um praguejador habitual? Sim, mesmo que renegue abertamente o Senhor que o resgatou (2Pe 2.1)? O sr. Stonhouse fez isso uma vez. Mas qual foi o desfecho? O cavalheiro moveu uma ação contra ele, para terror de todos os sujeitos insolentes como ele nos tempos vindouros.
33. Ó meus irmãos, não é por falta de fazerem essa distinção, bem como por muitas outras abominações, que, em relação a alguns dentre nós (quantos, Deus sabe), se cumpre também hoje aquela passagem da Escritura? Os seus atalaias são cegos, nada sabem; são pastores que nada compreendem (Is 56.10-11). O Senhor derramou sobre eles o espírito de profundo sono e fechou os seus olhos; cobriu os profetas e os videntes. Toda visão já se tornou para vocês como as palavras de um livro selado. Se derem o livro a alguém que sabe ler, dizendo: Leia isto, por favor, ele responderá: Não posso, porque está selado (Is 29.10-11).
Se vocês perguntarem quais são essas outras abominações, falarei em amor e com espírito de mansidão. Encontram-se entre nós homens avarentos, homens que só pensam nas coisas terrenas (Fp 3.19), que buscam a si mesmos e não a Cristo crucificado, que amam o mundo e as coisas que há no mundo (1Jo 2.15): homens em quem ainda se cumprem estas palavras: Quem há entre vocês que fechasse as portas de graça? Nem acendem de graça o fogo do meu altar. Eu não tenho prazer em vocês, diz o Senhor dos Exércitos (Ml 1.10) [N. do T.: a NAA traz “Quem dera houvesse entre vocês alguém que fechasse as portas do templo, para que não acendessem em vão o fogo do meu altar!”.]. Sim, não há hoje (ah, quem dera eu esteja temendo onde não há o que temer!) os que engordam com as melhores partes de todas as ofertas do povo de Israel (1Sm 2.29)? Não há os que agora alargam o seu apetite como a sepultura, e são como a morte, que nunca se farta (Hc 2.5)? Que, embora não lhes falte comida para comer nem roupa para vestir, buscam mais e mais promoções? Que vivem estudando como ajuntar casas e mais casas e reunir campos e mais campos (Is 5.8)? Como enriquecer no serviço daquele Mestre que não tinha onde reclinar a cabeça (Mt 8.20)? Não é a estes que pertencem aquelas palavras terríveis, capazes de fazer tinir os ouvidos de quem as ouve (1Sm 3.11): Tais cães são gulosos, nunca se fartam; todos seguem o seu próprio caminho (não o caminho do seu Senhor), cada um para a sua ganância, todos sem exceção (Is 56.11)?
Será estranho se entre estes houver alguns homens cruéis e opressores? Visto que a avareza não conhece misericórdia, e quem ama o dinheiro não pode amar o próximo. Não se sabe de alguns que chegaram a moer a face dos pobres (Is 3.15)? A despojar os nus, em vez de vesti-los? Alguns que, enquanto clamavam como a sanguessuga: Dá, dá (Pv 30.15), tomariam se não lhes fosse dado, como aqueles de outrora que diziam: Você tem de me entregar isso agora; se não, eu o pegarei à força (1Sm 2.16); ou como aqueles de quem fala Miqueias: os profetas que clamam: Paz, quando têm o que mastigar, mas apregoam guerra santa contra aqueles que não lhes dão nada para comer (Mq 3.5). Muito grande é o pecado desses homens diante do Senhor. Se houver dez desses hoje na terra, que Deus os fira neste dia com terror e espanto, para que não tenham descanso nos ossos até que o seu pecado seja removido!
34. Será você tão vigilante e zeloso para ganhar almas quanto aqueles o são para ganhar o ouro que perece? Sabe por experiência o que significa o zelo da tua casa me consumiu (Sl 69.9)? Ou é você um daqueles atalaias que não vigiam de modo algum? Que não sabem nem se importam quando vem a espada? Dos quais diz o profeta: Todos são cães mudos, não podem latir. São sonhadores preguiçosos, gostam de dormir (Is 56.10).
Pode-se supor que tais pastores apascentarão o rebanho (1Pe 5.2)? Que darão a cada um o sustento no devido tempo (Lc 12.42)? Que esses advertirão a todos e ensinarão a cada um, a fim de apresentarem cada pessoa perfeita em Cristo Jesus (Cl 1.28)? Que terão o cuidado de “conhecer todo o seu rebanho pelo nome, sem esquecer os criados e as criadas”? Que se informarão sobre o estado de cada alma confiada aos seus cuidados? E que velarão por cada uma com toda a ternura e longanimidade, como quem deve prestar contas (Hb 13.17)? Observando como umas caem e outras se levantam? Como estas se cansam e desanimam (Hb 12.3), e aquelas crescem na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (2Pe 3.18)? Quem pode fazer isso, a menos que todo o seu coração esteja na obra? A menos que nada deseje senão gastar e deixar-se gastar em favor delas (2Co 12.15), e em nada considere a vida preciosa para si mesmo (At 20.24), contanto que possa apresentá-las inculpáveis (Cl 1.22) no dia do Senhor Jesus?
Pode algum pastor fazer isso (e, se não o fizer, nunca prestará contas com alegria (Hb 13.17)) se imagina que tem pouco mais a fazer do que pregar uma ou duas vezes por semana? Que esse é o ponto principal, a parte essencial do ofício que assumiu diante de Deus? Que ignorância grosseira é essa! Que completo engano a respeito da verdade! Que erro miserável quanto à natureza inteira do seu ofício! É de fato coisa muito grande falar em nome de Deus; isso poderia fazer tremer o mais valente de coração, se considerasse que, cada vez que fala aos outros, a sua própria alma está em jogo. Mas, por grande, indizivelmente grande que isso seja, é talvez a menor parte da nossa obra. Buscar e salvar o perdido (Lc 19.10), trazer almas de Satanás para Deus, instruir os ignorantes, recuperar os ímpios, convencer os que contradizem; dirigir os seus pés no caminho da paz e depois mantê-los nele; segui-los passo a passo, para que não se desviem do caminho, e aconselhá-los nas suas dúvidas e tentações; levantar os que caem, reanimar os que desfalecem e consolar os fracos de coração; ministrar auxílios variados, conforme a variedade das ocasiões exigir, segundo as diversas necessidades de cada um: estas são partes do nosso ofício; tudo isso assumimos sob risco da nossa própria alma. A consciência disso levou aquele santo homem de outrora a exclamar: “Admiro-me se algum governante na igreja será salvo”; e alguém maior do que ele a dizer, na plenitude do seu coração: Quem é capaz de fazer estas coisas? (2Co 2.16)
34. Mas quem não é capaz de fazer estas coisas, isto é, de cuidar de uma paróquia, ainda que tenha vinte mil almas, se isso não implica mais do que cuidar de pregar ali uma ou duas vezes por semana, e de arranjar alguém que leia as orações nos outros dias e faça o que se chama serviço paroquial? Há na nação algum ofício tão fácil como esse? Não é qualquer um capaz dele, sem outros talentos, da natureza ou da graça, além de um pequeno grau de entendimento comum? Mas, ah, que espécie de pastores são esses, que não olham mais a fundo a natureza do seu ofício, que não penetram mais profundamente na importância dele do que isso! Não eram como esses aqueles a respeito dos quais a palavra do Senhor veio a Ezequiel, dizendo: Ai dos pastores que apascentam a si mesmos! Será que os pastores não deveriam apascentar as ovelhas? Vocês comem a gordura e vestem-se da lã, mas não apascentam o rebanho. Vocês não fortaleceram as fracas, não curaram as doentes, não enfaixaram as quebradas, não trouxeram de volta as desgarradas e não buscaram as perdidas (…). Assim, elas se espalharam, por não haver pastor, e se tornaram pasto para todos os animais selvagens. As minhas ovelhas andam espalhadas por toda a terra, sem haver quem as procure ou quem as busque (Ez 34.1-6)?
Eu os conjuro, irmãos, em nome do Senhor Jesus, o grande Pastor das ovelhas (Hb 13.20), que comprou a elas e a nós com o seu próprio sangue: apliquem isso cada um à própria alma. Que cada um olhe para Deus e diga: “Senhor, por acaso seria eu (Mt 26.22)? Sou eu um desses pastores ociosos, descuidados e indolentes, que apascentam a si mesmos e não o rebanho? Sou eu um dos que não podem latir, preguiçosos, sonhadores, que gostam de dormir? Um dos que não fortaleceram as fracas, nem curaram as doentes? Examina-me, Senhor, e prova-me; sonda o meu coração e os meus pensamentos (Sl 26.2). Vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno (Sl 139.24).”
35. “Não curei eu, pelo menos, superficialmente a ferida do teu povo? Não disse: Paz, paz, quando não há paz (Jr 6.14)?” Quantos são também os que fazem isso? Que não se esforçam por dizer o que é verdadeiro, especialmente aos ricos e poderosos, tanto quanto o que é agradável? Que lisonjeiam pecadores ilustres, em vez de lhes dizer claramente: Como esperam escapar da condenação do inferno? (Mt 23.33) Ah, que contas vocês terão de prestar, se há um Deus que julga a terra! Não pedirá ele das mãos de vocês o sangue de todas essas almas, das quais vocês se tornaram traidores e assassinos (At 7.52)? Bem falaram os profetas dos pais de vocês, em cujos passos vocês agora andam: Andam enganando o meu povo; e, quando um constrói uma parede, os outros a cobrem com cal (Ez 13.10). Fortalecem as mãos dos malfeitores, para que não se convertam da sua maldade (Jr 23.14). Proclamam mentiras em meu nome (Jr 23.25), diz o Senhor. Dizem aos que me desprezam: Vocês terão paz; e a todos os que andam segundo a dureza do seu coração dizem: Nenhum mal lhes sobrevirá (Jr 23.17).
Quão grande será a condenação de vocês, que destroem almas em vez de salvá-las! Onde vocês aparecerão, ou como ficarão de pé, no grande e terrível Dia do Senhor (Jl 2.31)? Como levantarão a cabeça quando o Senhor se manifestar do céu, em chama de fogo, tomando vingança contra os seus adversários (2Ts 1.7-8)? Mais especialmente contra os que assim traíram a sua causa e fizeram a obra de Satanás sob a bandeira de Cristo! Com que voz você dirá: “Eis-me aqui, Senhor, com as ovelhas que me deste, as quais entreguei ao diabo, dizendo-lhes que estavam no caminho do céu, até que caíram no inferno”?
Não eram exatamente pastores de almas como vocês aqueles a respeito dos quais Deus falou por Jeremias: Muitos pastores destruíram a minha vinha e pisaram o meu campo; fizeram da porção que era o meu prazer um deserto (Jr 12.10); por Ezequiel: Há uma conspiração dos seus profetas. Como um leão que ruge, que arrebata a presa, assim eles devoram pessoas (Ez 22.25); e por Zacarias: Assim diz o Senhor: Apascente as ovelhas destinadas para o matadouro. Aqueles que as compram matam-nas e não são punidos; os que as vendem dizem: Louvado seja o Senhor! Ficamos ricos! E os pastores das ovelhas não se compadecem delas (Zc 11.4-5)?
36. Não é esta a verdadeira causa, a razão principal do atual desprezo pelo clero? E há muito tempo foi apontada como tal por aquele que não pode mentir (Tt 1.2). Os mesmos homens de outrora que levavam o povo do Senhor a transgredir (1Sm 2.24), com isso se tornaram vis (1Sm 3.13) [N. do T.: a NAA traz “trouxeram maldição sobre si”.]. Foram desprezados, tanto como efeito natural quanto como castigo judicial da sua maldade. E o profeta observa que a mesma causa produziu o mesmo efeito muitas centenas de anos depois: Vocês se desviaram do caminho, diz o Senhor; levaram muitos a tropeçar (…). Por isso, também eu os fiz desprezíveis e indignos diante de todo o povo (Ml 2.8-9).
Agora, irmãos, salvei a minha própria alma (Ez 3.19) e, ao fazê-lo, usei de muita ousadia no falar (2Co 3.12), como me propus no início, não procurando agradar pessoas, e sim o Senhor (1Ts 2.4). O resultado deixo com aquele em cujo nome falei, e que tem nas mãos o coração de todos os homens.
Eu lhes trouxe hoje notícias pesadas, e, no entanto, não posso deixar de estar persuadido de que alguns de vocês não me considerarão seu inimigo por lhes dizer a verdade (Gl 4.16). Ah, que todos nós possamos provar a boa palavra que anunciamos (Hb 6.5)! Que possamos receber aquele conhecimento da salvação que temos ordem de pregar a toda criatura, mediante a remissão dos pecados! O desejo do meu coração é que todos nós, a quem foi confiado o ministério da reconciliação (2Co 5.18), sejamos nós mesmos reconciliados com Deus pelo sangue da eterna aliança (Hb 13.20); que ele seja doravante o nosso Deus, e nós sejamos o seu povo; que todos nós possamos conhecer, e não apenas pregar, o Senhor, desde o menor até o maior (Hb 8.11), e isso por este sinal: usarei de misericórdia para com a tua injustiça, e dos teus pecados jamais me lembrarei (Hb 8.12)!
Tradução para o português a partir de John Wesley, An Earnest Appeal to Men of Reason and Religion (1743) e A Farther Appeal to Men of Reason and Religion, partes I a III (1745), no texto revisto por Wesley para as suas Obras (Bristol, William Pine, 1772, vols. 14 e 15; transcrição do Projeto Gutenberg); domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.