William Arthur · A Língua de Fogo · Capítulo V

Efeitos miraculosos do batismo de fogo

O mais espantoso dos milagres, a Palavra de Deus anunciada a todas as nações e todos os discípulos postos a serviço do Espírito.

Capítulo V

Efeitos miraculosos do batismo de fogo

I. O mais espantoso de todos os milagres

“Começaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem” (At 2.4). Não se diz “em línguas desconhecidas”. Na verdade, a expressão “línguas desconhecidas” nunca foi usada por um escritor inspirado. Na Epístola aos Coríntios, ela se encontra na versão inglesa; mas a palavra “desconhecida” está em itálico, o que mostra que não foi tirada do original. [N. do T.: Arthur se refere à King James, que imprime “unknown” em itálico em 1Co 14; a NAA traz simplesmente “em línguas”.] Nunca se ouviu falar de falar línguas desconhecidas nos dias apostólicos. Esse milagre ocorreu pela primeira vez em Londres, alguns anos atrás. No dia de Pentecostes, ninguém pretendeu falar línguas desconhecidas; mas foi com eles exatamente como se nós, em Londres, começássemos de repente a falar alemão, francês, espanhol, russo, turco e outras línguas estrangeiras. Não se falou naquele dia uma só língua sem que se achasse nas ruas de Jerusalém um homem que se voltasse e exclamasse: “Esta é a minha própria língua materna!” (At 2.8). O milagre consistia no poder de falar as línguas das nações vizinhas, das quais havia pessoas em Jerusalém naquele exato momento. Isso não é apenas milagroso, mas um milagre de forma muito espantosa; talvez, quanto à forma, o mais espantoso de todos os milagres.

A matéria é uma coisa grande e fecunda. Para nós, as suas propriedades não são apenas maravilhosas, mas extremamente misteriosas. Quando a vemos florescer enquanto nós murchamos, elevar-se em montes, correr em ondas ou estender-se no firmamento, quase sentimos que ela é maior do que nós. Contudo, estamos sempre provando que, apesar das aparências, a matéria é menor que a mente. A mente investiga a matéria, maneja-a, molda-a, faz dela a serva da sua vontade. Sendo, pois, a mente a superior, segue-se que uma obra realizada na mente é maior do que uma realizada na matéria. Os milagres nos mares, nos montes, no firmamento ou no corpo humano manifestam um poder que governa a estrutura da natureza e a estrutura do homem. Contudo, como a esfera deles é a matéria, toda essa ordem pode ser chamada de milagre físico: obras acima da natureza, realizadas sobre agentes físicos, em confirmação da revelação de Deus. Mas além deste há um milagre mais alto, cuja esfera é a mente, e que, por isso, podemos chamar de milagre mental: obras acima da natureza, realizadas na mente, em confirmação da revelação de Deus. Dessa ordem já se haviam visto antes duas formas, a inspiração e a profecia; mas agora um novo milagre na mente ia desafiar a fé de toda Jerusalém.

Esse milagre, quanto à sua impressão moral, diferia totalmente de todos os milagres físicos; até mesmo daquele milagre complexo e muito singular, a ressurreição dos mortos, no qual vemos um poder ao qual obedecem igualmente a matéria e o espírito, a vida animal e a iluminação mental. Esse milagre está à parte; contudo, a principal impressão que ele causa, e certamente a impressão que causam todos os milagres puramente físicos, é a de poder. Eles sugerem também, é verdade, a ideia de sabedoria, pois de outro modo o poder não iria tão infalivelmente ao seu fim; e de bondade, pois de outro modo um poder tão irresistível se moveria não para abençoar, mas para destruir; contudo, a impressão predominante que produzem é, sem dúvida, a de poder. Em tais milagres, reconhecemos principalmente a “mão poderosa e o braço estendido” (Sl 136.12).

Na inspiração, vemos a mente do homem capacitada a sentar-se entre as névoas matinais das coisas e escrever um livro que permanecerá enquanto o mundo existir. Na profecia, vemos a mente capacitada a olhar através de mil anos e descrever o que está além com tanta clareza que, quando isso se desdobrar à vista comum, será imediatamente reconhecido. Esses dois milagres nos levam não tanto à presença de um Governante, mas à presença de um Espírito.

Ao contemplar um mar secado ou um deserto coberto de alimento, sentimo-nos perto do Senhor da natureza e do Sustento da vida. Assim, aqui nos sentimos perto da Fonte de toda mente, cujo próprio conhecimento não depende nem dos fenômenos materiais nem do passar do tempo; cujo modo de agir sobre a mente humana não segue leis análogas àquelas pelas quais esta age sobre os órgãos materiais, ou, por meio deles, sobre as mentes que lhe são semelhantes. Mas, ao contemplarmos o milagre das línguas, cai sobre nós uma estranha solenidade: sentimos como se tivéssemos deixado a região onde a mente aprende lenta e obscuramente pelos sentidos, cruzado alguma linha invisível rumo à terra dos espíritos e estivéssemos diante da Mente Original. Que conhecimento da mente seria tão minucioso quanto o que examina cada sinal pelo qual cada mente expressa as suas ideias? Que poder sobre a mente seria tão insondável quanto o que pode enchê-la num instante de novos sinais para todas as suas ideias, sinais nunca antes presentes nela, mas que correspondem exatamente àqueles que outros haviam sido treinados desde a infância a usar?

Um grupo de camponeses galileus sai de um cenáculo para as ruas de Jerusalém. Há um fogo estranho em cada olhar, uma luz estranha em cada semblante. Cada um parece alegre e benigno, como se levasse no peito o bálsamo para a ferida do mundo. Cada um tem visivelmente uma palavra a dizer e procura ouvintes. Provavelmente os seus passos se dirigem ao templo, que, durante os dez dias, havia dividido com o cenáculo a presença deles. Um encontra um árabe e se dirige a ele; outro se aproxima de um romano, e num instante estão em conversa animada; um terceiro vê um persa; um quarto, um africano de Cirene; e, à medida que vão andando, cada um se achega a algum estrangeiro. Conta uma história estranha, estranha na substância, igualmente estranha na eloquência; uma eloquência nova e inexplicável, admirável não pela graça, pela expressão ou pela doçura do som, mas pelo poder.

Um ouvinte em latim, outro em copta, outro em persa, outro em grego, admira-se primeiro do assombro da história e depois do assombro do narrador: “Não és tu galileu? De onde, então, tens essa fluência em latim?” Ele responde que a recebeu hoje como dom de Deus. Um sorriso se desenha nos lábios do romano, e ele se volta para um grupo vizinho. Ali um egípcio acaba de fazer a mesma pergunta e de receber a mesma resposta. Mais adiante há uma rodinha agitada, onde um parto declara que a língua em que um homem lhe falou da morte, ressurreição e ascensão de Jesus é a sua língua materna. Gente de Jerusalém zomba e diz: “Estão bêbados!” (At 2.13); mas os estrangeiros, falando uns com os outros, descobrem que todos ouviram exatamente as mesmas coisas em suas “próprias línguas” (At 2.11).

Aqueles rostos de diferentes tons de pele, ao compararem as suas impressões, ensombram-se de reverência. Descobrem que, em toda essa diversidade de línguas, repetem-se as mesmas notícias, e assim veem a unidade do conteúdo na variedade da linguagem; descobrem que os homens que falam são camponeses sem instrução, mas todos dotados do mesmo poder inaudito, e assim veem, na variedade dos que falam, a unidade da inspiração. As línguas são as línguas de toda a humanidade; mas o impulso é um só, e a mensagem é uma só! De que centro saem todas essas línguas? O mesmo instinto que leva o pensamento a remontar da fala a uma mente o leva a remontar dessa fala universal até que ele se detenha, tomado de assombro, na presença do Intelecto Central, do Espírito que “formou o espírito do ser humano dentro dele” (Zc 12.1), da Mente Suprema, para a qual toda mente é terreno comum, do Pai do Pensamento!

Seria impossível conceber alguma forma de credencial tão bem estruturada para atestar que uma doutrina era fruto imediato da mente de Deus. O simples pensamento de um milagre como o das línguas, ainda que tivesse sido apenas um pensamento, teria feito época, por si mesmo, na história do intelecto humano; e pode-se com razão duvidar de que tal pensamento pudesse ter nascido de outra coisa senão do próprio fato. A característica principal da nova religião seria um ensino divino sobre coisas invisíveis e espirituais, sobre pontos para os quais os poderes humanos, sem auxílio, não poderiam dar nenhuma solução conclusiva. Para tal ensino, nenhum atestado poderia ser tão apropriado quanto um que o acreditasse como mensagem do Espírito que “sonda todas as coisas” (1Co 2.10). O chamado universal ao homem foi dignamente lançado ao mundo por um sinal que mostrava que ele vinha diretamente do único Deus sábio, que dá o entendimento e tem as chaves do pensamento. O domínio de todas as línguas, por um único impulso concorde, proclamou que a nova mensagem era a Palavra de Deus.

II. A Palavra de Deus a todas as nações

A grande pergunta da humanidade é esta: Deus falou? Somos pobres andarilhos, cada um deixado aqui à sua própria luz, enquanto o céu olha em eterno silêncio para todos os nossos desvios e perplexidades? Será que o Espírito Pai, de quem procedem estes nossos espíritos, os envolveu com a sua presença infinita a cada passo da sua jornada vacilante e perigosa, e nunca, nem uma só vez, desde os dias de Adão até os nossos, deu sinal de que via, ouvia e sentia? Terá tratado a alma do homem como “o espírito de um animal” (Ec 3.21) [N. do T.: assim na King James (“the spirit of the beast”); a NAA fala do “fôlego de vida” dos animais], que jamais poderia bendizê-lo nem jamais transgredir a sua lei? Serão todas as palavras palavras de homens que erram, e todas as luzes aquelas luzes duvidosas ou enganosas, seguindo as quais tantos pereceram miseravelmente? Será toda doutrina adivinhação de pensadores ou impostura de sacerdotes? Deus nunca, nunca falou?

“Então Deus falou todas estas palavras!” (Êx 20.1). No Pentecostes de Israel, de dentro do fogo no Sinai, veio uma “voz forte” (Dt 5.22) que, descendo do pico distante como de um trono próximo, encheu os ouvidos de três milhões de pessoas, ou mais, como se fossem um pequeno grupo. Dez vezes a Voz soou misteriosamente sobre toda aquela multidão atemorizada e trêmula, até que a natureza humana, ferida até o âmago, exclamou: “Morremos, morremos!” A Voz havia pronunciado apenas leis brandas e salutares, leis que ligavam o homem a Deus e o homem ao homem, traçando caminhos seguros para a paz e a bem-aventurança; mas a natureza humana já era culpada diante dessas leis, e a Voz despertou apenas esta resposta: “Não fale Deus conosco, para que não morramos” (Êx 20.19).

Assim, nos tempos antigos, era possível apelar a uma nação inteira para mostrar que nem todas as palavras eram incertas, nem todas as questões estavam em aberto: “Então vocês chegaram e ficaram ao pé do monte. E o monte estava em chamas que subiam até o céu, e havia trevas, nuvens e escuridão. Então o Senhor falou a vocês do meio do fogo e vocês ouviram o som das palavras dele. Vocês ouviram a voz, mas não viram aparência nenhuma; só escutaram a voz. Então ele anunciou a sua aliança, que ordenou a vocês, os dez mandamentos, e os escreveu em duas tábuas de pedra” (Dt 4.11-13).

Como no Pentecostes de Israel, assim também no Pentecostes do cristianismo o Senhor fala mais uma vez “do meio do fogo” (Dt 4.12). Agora, porém, os sinais que o acompanham não são físicos, mas mentais: usando muitas mentes humanas e muitas línguas humanas como seus instrumentos, mas manifestando a unidade do impulso que move todas elas, ele faz não apenas o povo de uma nação, mas os representantes de todas as nações sentirem que Deus falou. Sim, anunciem isso onde quer que haja ouvidos para ouvir, anunciem até os confins da terra: Deus falou; o homem não foi esquecido; as conjeturas não são toda a nossa luz; há um evangelho, uma “fala de Deus”; as questões que dizem respeito à salvação estão resolvidas; e o nosso caminho para viver santamente e morrer feliz está traçado pela Mão que governa os dois mundos.

Com respeito ao dom de línguas, levantaram-se algumas questões curiosas, especialmente entre os eruditos. Uma é se o milagre estava realmente no que falava, e não no que ouvia; de modo que, embora tudo o que se falou estivesse numa só língua, a língua comum dos discípulos, os ouvintes de diferentes nações ouviam cada um na sua própria língua. A favor dessa opinião, como de todas as opiniões, é possível citar alguns nomes respeitáveis. Mas, se fosse como aí se supõe, o símbolo do milagre não teria sido línguas repartidas, e sim ouvidos multiplicados. A dupla declaração da narrativa corresponde perfeitamente ao símbolo. Quanto aos que falavam, diz que “começaram a falar em outras línguas” (At 2.4); quanto aos que ouviam, que “cada um os ouvia falar na sua própria língua” (At 2.6).

Quando Paulo censura o uso do dom de línguas em Corinto, não culpa os ouvintes por lhes faltar um ouvido capaz de traduzir a sua própria língua para as estrangeiras, mas culpa os que falam por não dizerem “com a língua palavra compreensível” (1Co 14.9) aos indoutos; e a única razão que ele jamais aponta para os ouvintes não entenderem é que eles eram indoutos; o que mostra claramente que se usava uma língua estrangeira, que a instrução poderia tê-los habilitado a entender, mas para cuja compreensão não parece ter sido jamais concedido poder miraculoso. Se a hipótese do milagre no ouvir, em vez de no falar, foi adotada com a intenção de simplificar o milagre, ela frustra o seu próprio objetivo; pois, para sustentar essa hipótese, a influência miraculosa teria de ser exercida sobre um número de pessoas tanto maior do que no outro caso quanto os ouvintes eram mais numerosos do que os que falavam. Ao mesmo tempo, a natureza da operação miraculosa seria, sob todos os aspectos, igualmente extraordinária.

Outra questão é se os que falavam entendiam o que diziam nas línguas estrangeiras. A dúvida sobre isso não nasce da narrativa de Pentecostes, mas de certas expressões usadas por Paulo ao escrever aos coríntios. Ali ele diz: “Quem fala em línguas, ore para que as possa interpretar” (1Co 14.13); e ainda: “No caso de alguém falar em línguas, haja alguém que interprete” (1Co 14.27). Daí pareceria que alguns podiam falar em línguas sem conseguir verter para a sua própria língua aquilo que haviam falado. Isso, porém, não está claro; pois ele também diz: “Quem profetiza é superior ao que fala em línguas, a não ser que as interprete, para que a igreja receba edificação” (1Co 14.5). Aqui ele supõe que a pessoa que possui o dom de línguas possui também o poder de interpretar na língua comum aquilo que ela proferiu de modo miraculoso.

Mas, mesmo admitindo que alguns não conseguiam interpretar, de modo a edificar a igreja, aquilo que eles mesmos haviam falado, pareceria que isso não decorria de modo algum de não entenderem o que tinham dito, mas de lhes faltar o dom de profecia, o único pelo qual podiam edificar os crentes. Quanto a qualquer dúvida sobre se a pessoa que falava entendia realmente as suas próprias palavras, ela é inteiramente removida pelo texto de 1Coríntios 14.14-19: “Porque, se eu orar em línguas, o meu espírito, de fato, ora, mas o meu entendimento fica infrutífero. Que farei, então? Vou orar com o espírito, mas também vou orar com o entendimento; vou cantar com o espírito, mas também vou cantar com o entendimento. Se você louvar apenas em espírito, como o não instruído poderá dizer o ‘amém’ depois da oração de agradecimento que você fez? Porque ele não entende o que você diz. A sua oração de agradecimento pode ser muito boa, mas o outro não é edificado. Dou graças a Deus, porque falo em línguas mais do que todos vocês. Contudo, na igreja prefiro falar cinco palavras com o meu entendimento, para instruir os outros, do que falar dez mil palavras em línguas.” [N. do T.: nos v. 14-15, a King James diz “understanding” (entendimento), palavra em que o autor se apoia; a NAA traz “mente”.] Aqui, louvar em público “com o entendimento” é entendido como louvar de tal modo que um homem comum possa entender; e pregar em público “com o entendimento” é entendido como falar de modo a “instruir os outros”. Louvar e pregar em público sem isso é agir sem entendimento. As palavras “ele não entende o que você diz”, embora “a sua oração de agradecimento possa ser muito boa”, resolvem toda a questão. Elas dão por certo, como aliás o apóstolo faz do começo ao fim, que quem fala entende claramente a si mesmo; mas a falta está em que ele usa a fala, que nunca foi dada para o trato com Deus, e sim para o trato com os homens, de um modo que frustra o seu próprio objetivo. A fala é a revelação que o homem faz do seu próprio espírito aos seus semelhantes; e, quando nada é revelado, ela se torna uma zombaria. Sentimentos e pensamentos são a linguagem que Deus escuta: o homem presta ouvidos ao ar, Deus à alma, lá dentro. Para falar com ele, não precisamos de sons: os sons são para ouvidos humanos e só são úteis quando o ouvido pode reconhecer o seu significado. O fato de que alguns que não podiam profetizar podiam, contudo, falar em línguas aparece em várias partes das Escrituras e é uma prova singular, ao mesmo tempo, da generalidade e da diversidade dos dons. O dom inferior, o de línguas, estava mais amplamente difundido do que o superior, o de profecia.

O milagre indicava não apenas a origem da nova doutrina, mas também a sua esfera. Era uma mensagem do Pai dos homens a todos os homens. As diversidades nacionais, em vez de serem uma barreira diante da qual ela parasse, eram oportunidades para mostrar a sua adaptação universal. Cada língua diferente se tornava mais uma testemunha de que ela viera para “todas as nações debaixo do céu” (At 2.5). As últimas palavras do nosso Senhor, “até os confins da terra” (At 1.8), tiveram aqui um eco estranho e multiplicado. Pôs-se em movimento uma força que reivindicava toda a humanidade como o seu campo; levantou-se uma voz que chamava cada nação a fazer parte do seu auditório.

Iii. Todos os discípulos postos em serviços espirituais

Além disso, essa manifestação enfrentou e respondeu a todas as dúvidas que pudessem ter surgido quanto ao poder do nosso Senhor de dotar os seus servos da linguagem e da expressão necessárias para a luta que teriam com o mundo inteiro. Ele lhes havia dito que, quando fossem levados diante de governadores e reis por causa do seu nome, lhes seria dado o que haveriam de dizer: “Afinal, não são vocês que estão falando, mas o Espírito do Pai de vocês é quem fala por meio de vocês” (Mt 10.20). Ele evidentemente se referia a esse auxílio divino na fala quando lhes disse que receberiam poder ao descer sobre eles o Espírito Santo e que seriam suas testemunhas “até os confins da terra” (At 1.8). Moisés tivera receio de pleitear diante de Faraó, por temer que não lhe fosse dada uma expressão à altura da gravidade da missão. Jeremias tivera receio por motivo semelhante.

Nada é mais natural do que alguém que se sente encarregado de uma verdade sublime, de cuja devida comunicação dependem interesses infinitos, desconfiar da sua capacidade de encontrar a linguagem adequada. É muito provável que pensamentos assim tivessem perturbado os discípulos ao contemplarem a grande obra que tinham diante de si. Se foi assim, que resposta receberam no milagre das línguas! Aquele que capacitou os lábios deles a derramar o testemunho em palavras que nunca haviam falado nem ouvido certamente poderia dar-lhes toda medida de propriedade, de clareza, de abundância, de poder, de que a fala humana é capaz. Todas as perguntas sobre como uma linguagem fluente poderia ser concedida aos que não têm facilidade de palavra, e força aos fracos; como os lentos poderiam tornar-se impressionantes, e os sem brilho, eloquentes, foram aqui respondidas. A antiga promessa, “eu serei com a sua boca” (Êx 4.12), recebeu um comentário inesperado. Os efeitos que o Espírito do Senhor podia produzir sobre a língua humana mostraram-se impossíveis de limitar por qualquer impedimento natural. A base da confiança no êxito da sua pregação foi visivelmente transferida do talento, da cultura, do cargo ou das credenciais para a atuação do Espírito Santo. O poder deles deixou de ser uma questão de capacidade natural e passou a ser uma questão de dom divino. A medida da primeira podia ser maior ou menor sem afetar substancialmente o fruto do seu trabalho; mas este corresponderia exatamente ao grau do segundo.

André tinha ouvido o Batista pregar, tinha visto como as palavras dele haviam lavrado os sentimentos rudes do soldado e, ao mesmo tempo, dominado a consciência sutil do escriba. Tinha ouvido o próprio Senhor, quando cada palavra soava ao ouvido como uma maravilha. Provavelmente sempre pensara ser impossível que frases tão cortantes como uma espada saíssem algum dia dos seus lábios, ou dos lábios do “seu próprio irmão, Simão” (Jo 1.41). Podia imaginar que seria capaz de repetir a substância das lições que o Senhor lhes havia ensinado e que, quando estivesse diante de conselheiros e magistrados, seria capacitado a dar a razão da sua esperança. Talvez pensasse ser possível que, cheio daquele novo Consolador que tantas vezes lhes fora prometido, pudesse falar com emoção a uma multidão. Mas quanto a palavras como fogo, que derretem e queimam o espírito dos homens; palavras como martelos, que despedaçam os corações de pedra; palavras que se lançam sobre a congregação com uma força avassaladora demais para ser chamada de eloquência, que obtêm uma conquista rápida e completa demais para ser chamada de persuasão, que fazem de quem fala não apenas um prodígio, mas um poder, e dos seus ouvintes não apenas o auditório de um orador, mas discípulos de um Mestre; quanto a palavras como essas, como seria possível que algum dia saíssem dele ou de Simão? Assim poderia ele raciocinar naturalmente; mas, quando se vê contando fluentemente a um homem das costas de Cirene toda a história do nascimento, da morte, da ressurreição e da ascensão, numa língua que nunca ouvira antes; quando o africano lhe assegura que aquela era a língua da sua cidade natal, então, se lhe tivessem perguntado: “Agora é possível que você ou Simão falem com uma voz mais poderosa que a voz de um profeta, ou que o menor do grupo de vocês seja maior que o Batista de voz de trovão?”, ele teria respondido: “Para Deus não há nada impossível” (Lc 1.37).

“E pousaram sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem” (At 2.3-4). A língua de fogo pousou sobre cada discípulo, e todos falaram com uma expressão sobre-humana. Não apenas os Doze, os apóstolos escolhidos pelo Senhor; não apenas os Setenta, os seus evangelistas comissionados; mas também os crentes comuns, e até as mulheres. O batismo do Espírito caiu sobre todos, e dons espirituais foram concedidos a todos, não igualmente; pois a expressão “segundo o Espírito lhes concedia que falassem” parece indicar uma diversidade de dons, o que concorda com outras passagens do Novo Testamento. Não é provável que cada um pudesse falar todas as línguas, pois Paulo diz de si mesmo que falava “em línguas mais do que todos” eles (1Co 14.18), o que implica claramente um limite nesse dom, e um limite diferente em pessoas diferentes. E é certo que nem todos tinham o dom de “profetizar” adequado para falar a congregações como a que logo se reuniria, ou mesmo para ensinar publicamente em assembleias comuns. Como nas suas operações posteriores, assim também agora o bendito Espírito sem dúvida mostraria “diversidade nas realizações” (1Co 12.6), dando “a um a palavra da sabedoria; a outro a palavra do conhecimento; a outro, profecia” (1Co 12.8-10), etc. Mas as línguas repartidas pousaram sobre cada um deles e, pelo efeito conjunto da vida espiritual comunicada e dos dons espirituais concedidos, todos foram imediatamente postos em serviços espirituais; todos foram levados a se tornar testemunhas ativas de Cristo e da sua cruz.

O fogo não caiu sobre os Doze para ser comunicado por eles aos Setenta, e por estes, por sua vez, ao rebanho comum. Caiu tão diretamente sobre a cabeça do discípulo cujo nome nunca ouvimos quanto sobre a do amado e honrado João. Não confundiu João, o apóstolo, na massa indistinta, nem pôs o seu ofício à disposição da multidão; mas o confirmou e o habilitou com novos dons a adornar e a cumprir plenamente o seu ministério. Mas, por outro lado, não deixou os crentes comuns como meros espectadores, para verem a obra espiritual do Senhor entregue inteiramente ao ministério escolhido, cabendo-lhes apenas receber passivamente influências e luz espirituais daqueles que tinham acesso direto àquele com quem está o suprimento do Espírito.

Essa bênção original sai de antemão ao encontro do erro que provavelmente surgiria de se olhar a religião verdadeira sob a luz em que todas as falsas são sempre vistas: como um mistério que deve ficar restrito a uns poucos iniciados, de cujos ofícios a multidão tem de depender para ser aceita pelo Poder invisível. Aqui estava uma religião que de fato separava e elevava alguns acima dos seus semelhantes, investindo-os de um ministério alto e solene; mas varria do ministério deles toda aparência de sacerdócio.

A ideia comum de sacerdócio é a de um poder que se interpõe entre o homem e Deus, e somente por meio do qual podemos nos aproximar e achar misericórdia nas mãos dele. Mas, longe de pertencer ao ministério do evangelho qualquer característica desse tipo, ele se distingue por ser um ofício cujo trabalho especial é apontar cada homem diretamente para Deus e assegurar-lhe que entre ele e o trono da graça não há nenhum poder, visível ou invisível, e nenhum mediador além daquele Único para quem igualmente o apóstolo, o evangelista e o mais humilde penitente devem olhar. É verdade que nem todos eram apóstolos, nem todos eram evangelistas, nem todos eram profetas; mas, no único sentido em que alguns eram sacerdotes, todos eram sacerdotes. O único altar da cruz, o único sacrifício do Cordeiro, o único Sumo Sacerdote dentro do véu eram as únicas coisas que podiam ser mencionadas como meio de paz com Deus. A todos estava igualmente aberto o privilégio de oferecer os sacrifícios de louvor e de oração, de corpos vivos e de bens terrenos. Nenhum homem foi feito depósito ou celeiro em que favores espirituais fossem guardados para uso dos que pudessem comprá-los ou implorá-los das suas mãos. O mais honrado era aquele que conseguia, com maior êxito, desviar a confiança dos homens de todos os outros advogados e fixá-la somente no Filho de Deus.

“Todos começaram a falar” (At 2.4). Isso mostra que o testemunho de Cristo não era dado apenas pelo ministério; que essa obra principal da igreja não estava restrita a mãos oficiais. A multidão dos crentes não era de meros adeptos, mas de agentes vivos, falantes, ardentes no grande movimento pela difusão universal da mensagem de Deus. Muitos acham que a religião, da parte do ministério, deve ser questão de testemunho ousado e público; mas, da parte dos cristãos comuns, um segredo do coração entre eles e Deus. Que esses se sentem diante daquela primeira cena cristã; que contemplem cada semblante iluminado pela alegria comum e ouçam cada língua falar sob o impulso comum, e então perguntem a Bartimeu, ou a Maria, se o discípulo particular não tem tanto motivo para ser testemunha de que Jesus vive e de que Jesus salva quanto Tiago ou João. Que perguntem se se parece com a religião deles que um ministro solitário, no dia do Senhor, dê testemunho diante de mil cristãos, que ouvem decorosamente o seu testemunho como digno de ser aceito por todos, e depois vão embora e nunca repetem aquela melodia a nenhum ouvido humano.

Olhando para o movimento universal daquele dia de Pentecostes, quem poderia pensar que a nova religião chegaria algum dia a isso? que falar das suas alegrias, das suas esperanças, do seu perdão, da sua misericórdia para o mundo inteiro, seria considerado um trabalho profissional, só para solenidades marcadas, e não uma alegria diária e um alívio do coração para multidões sempre crescentes de homens simples e felizes? Sem alegria é o trabalho daquele ministro cristão que, em horários marcados, levanta o seu testemunho aos ouvidos de um povo que, todo ele, tem por hábito escondê-lo no coração. Feliz no seu ofício é aquele que sabe que, enquanto ele, na sua esfera, proclama as boas-novas, centenas ao seu redor estão prontas, cada uma na sua esfera, a fazer delas a sua glória e o seu cântico. O ofício espiritual e os dons espirituais variam muito em grau, honra e autoridade, e quem tem menos deve reverenciar quem tem mais, lembrando quem é que os distribui; mas o maior nunca deve tentar extinguir o menor, nem reduzir o exercício dos dons espirituais aos limites do ministério público e ordenado. Fazer isso é afastar-se do cristianismo primitivo.

Tradução para o português a partir de William Arthur, The Tongue of Fire; or, The True Power of Christianity (1856), na edição de Londres (C. H. Kelly, c. 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.