J. A. Wood · Amor Perfeito · Seções VIII e IX

Orientações para alcançar a santidade e as suas evidências

Orientações para quem busca a santidade e as evidências do amor perfeito.

Seção oitava

Orientações para alcançar a santidade

39. Qual é a primeira orientação que você daria a quem busca a santidade?

Procure ter uma visão clara e distinta da bênção prometida. O que é ela? O extermínio do pecado na alma: simples pureza, libertação do pecado. Consiste na destruição e remoção do pecado e na renovação da alma à imagem de Deus, de modo que a fonte dos pensamentos, afetos, desejos e impulsos seja pura.

40. Qual é a segunda orientação que você daria?

Chegue a uma resolução firme e decidida de buscar até obter a vitória: um coração puro. Você precisa de uma resolução que não se encolha quando a faca for posta ao coração para amputar os seus ídolos. O seu propósito deve ser firme, decidido, inabalável e invencível. “O Dia do Senhor está perto, no vale da Decisão” (Jl 3.14). Nada além de uma resolução invencível servirá.

41. Qual é a terceira orientação que você daria?

Procure sentir a sua necessidade dela. Se você tem pouca ou nenhuma consciência de necessidade, certamente não fará progresso. O sentimento requerido é representado pelas sensações de fome e sede. O nosso Salvador diz: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça” (Mt 5.6). Os seus esforços na busca da santidade tenderão a corresponder à força dos seus desejos. Os sentimentos necessários de arrependimento, humilhação de si e forte desejo de santidade podem ser alcançados pela oração, pelo exame das Escrituras, pela meditação e pelo autoexame.

42. Qual é a quarta orientação que você daria?

Faça uma inteira consagração de si mesmo a Deus: a sua alma, o seu corpo, o seu tempo, os seus talentos, a sua influência e tudo o que você tem, uma entrega completa de tudo a Cristo. Examine e entregue, e torne a examinar e a entregar, até pôr todo vestígio do eu sobre o altar da consagração. Não há santificação sem inteira consagração. A consagração, que é obra sua (com a ajuda da graça), não é santificação, mas invariavelmente a precede e sempre a acompanha depois. A santificação, que é obra de Deus, invariavelmente segue a consagração, e deve permanecer sempre com ela como a energia que consome o pecado e guarda a alma. A inteira consagração e a inteira santificação, a nossa obra e a obra de Deus, devem andar juntas.

Você precisa consagrar-se em detalhe e pôr cada item sobre o altar. Para abarcar o todo, é preciso incluir os itens. Faça um inventário completo de tudo o que você tem e transfira-o a Jesus, assinando “por valor recebido”. A consagração precisa ser perfeita antes que a oferta seja recebida. Deus quer uma obra completa, e a pureza nunca será dada nem conservada senão sob a condição do abandono inteiro, universal e incondicional de todo pecado, e da aceitação e aprovação de toda a vontade de Deus.

43. Qual é a única condição, e a condição imediata, da santificação?

A fé. “Creia no Senhor Jesus e você será salvo” (At 16.31). A fé é a única condição da santificação, e Deus sempre salva no momento em que a verdadeira fé é exercida. Você pergunta: “Crer em quê?”

1. Creia que Deus a prometeu nas Sagradas Escrituras.

2. Creia que aquilo que Deus prometeu ele é capaz de realizar.

3. Creia que ele é capaz de fazê-lo agora e quer fazê-lo.

4. Creia que ele o faz.

Se você está buscando a santidade com sinceridade, quer examinar-se a fundo pelas seguintes perguntas?

1. Entendo corretamente a natureza da santidade?

2. Vejo claramente e sinto como devo o meu pecado inato e a consequente necessidade de santidade?

3. Estou disposto, ansioso e decidido a obtê-la?

4. Estou disposto a entregar tudo a Deus (eu mesmo, família, bens, reputação, tempo, talentos, tudo), para ser dele, usado para ele, e nunca retido nem tirado dele?

5. Creio que ele é capaz de me santificar?

6. Creio que ele quer me santificar?

7. Creio que ele prometeu me santificar?

8. Creio que, tendo prometido, ele é capaz de fazê-lo agora e quer fazê-lo, sob a condição da minha fé?

9. Então, vendo tudo isso, creio que ele o fará agora, agora, neste momento?

10. Estou agora entregando tudo e confiando no tempo presente? Se você está, está feito! Que Deus ajude a sua fé trêmula e lhe dê a vitória neste momento!

O sr. Wesley diz: “A voz de Deus à sua alma é: Creia e seja salvo. A fé é a condição, e a única condição, da santificação, exatamente como o é da justificação. Ninguém é santificado antes de crer; todo aquele que crê é santificado.”

44. Pode expor o pensamento do sr. Wesley sobre a fé que santifica?

“Mas que fé é essa pela qual somos santificados, salvos do pecado e aperfeiçoados no amor? Essa fé é uma evidência ou convicção divina:

“1. De que Deus prometeu essa santificação nas Sagradas Escrituras.

“2. É uma evidência ou convicção divina de que aquilo que Deus prometeu ele é capaz de realizar.

“3. É uma evidência ou convicção divina de que ele é capaz de fazê-lo agora e quer fazê-lo.

“4. A essa confiança de que Deus é capaz de nos santificar agora e quer fazê-lo, é preciso acrescentar mais uma coisa: uma evidência ou convicção divina de que ele o faz.”

45. O que você entende por uma fé distinta e nua?

Por fé simples se entende tomar Deus pela palavra, sem raciocinar; e por fé nua se entende a fé independente de todo sentimento e despojada de qualquer outro apoio que não seja só Cristo. O santo Fletcher diz que a fé nua é “uma fé, independente de todo sentimento, numa promessa nua; não trazendo consigo nada além de um coração descuidado, distraído, agitado e endurecido, exatamente o coração que você tem agora”. Lady Maxwell a descreve assim: “Muitas vezes exerci a fé para a santificação na ausência de todo sentimento; e ela sempre espalhou uma doçura indescritível pela minha alma.”

O sr. Fletcher a ilustra da seguinte forma: “Assim como vocês fazem as contas com o credor ou com o hospedeiro e, depois de pagar tudo, se consideram quites, assim agora façam as contas com Deus. Jesus pagou tudo; e pagou por você, comprou o seu perdão e a sua santidade. Portanto, agora é mandamento de Deus: ‘Considere-se morto para o pecado’ (Rm 6.11); e você está vivo para Deus a partir desta hora. Ah, comece, comece a considerar-se assim agora; não tema; creia, creia, CREIA; e continue crendo a cada momento. Assim você continuará livre; pois ela se conserva, como se recebe, somente pela fé.”

46. Em que deve basear-se a fé nua por uma bênção presente?

No fato de que:

1. Foi feita provisão para concedê-la.

2. Deus a prometeu claramente.

3. É conforme à vontade de Deus que você a receba agora.

4. Você agora cumpre as condições de que a promessa depende.

47. Posso vir a Cristo agora, assim como estou?

Sim, alma preciosa, neste mesmo momento. Que o Senhor o ajude. Você não pode tornar-se melhor. Não podemos salvar-nos em parte antes de vir a Cristo. Lágrimas, gemidos, resoluções e lamentações não nos tornarão melhores nem mais dignos. “Eis agora o dia da salvação” (2Co 6.2); agora é o momento em que você deve crer. É errado não crer. Diga: Eis-me aqui, Senhor, eu quero crer, eu creio; tu disseste agora; agora seja feito. E agora descanse a sua alma no mérito de Jesus, que expia tudo.

“Se você esperar até estar melhor,
nunca chegará.”

“Toda a aptidão que ele requer
é sentir a sua necessidade dele.”

48. Há distinção entre inteira consagração e inteira santificação?

Há. A obra da inteira consagração cabe a nós; a obra da inteira santificação cabe a Deus. A inteira consagração é oferecer tudo o que somos e temos como sacrifício completo a Deus; a inteira santificação é a inteira consagração acompanhada do poder do Espírito Santo que consome o pecado. Podemos estar inteiramente consagrados sem estar inteiramente santificados. A santificação inclui a inteira consagração; mas a inteira consagração não inclui necessariamente a inteira santificação: ela a precede e a acompanha.

49. Qual é a diferença entre a consagração anterior à conversão e a anterior à inteira santificação?

São essencialmente a mesma, pois ambas envolvem completa submissão a Deus segundo a luz presente da alma; mas, embora em princípio sejam a mesma, a que precede a inteira santificação é feita com um senso mais pleno e profundo do alcance da submissão perfeita a Deus. O penitente que busca o perdão consagra-se na medida completa do que descobriu da verdade e do dever. O crente que busca a pureza renova essa consagração à vista do que a luz crescente, o tempo e a palavra de Deus lhe revelaram da sua deficiência moral.

50. A Bíblia apresenta algum padrão certo de convicção ou sentimento como necessário na busca da santidade?

A Bíblia não apresenta nenhum padrão particular de sentimento a que todos devam chegar. Apresenta um padrão claro de ação e de pureza, mas não de sentimento. O nosso temperamento terá muito a ver com os nossos sentimentos; daí a insensatez de nos medirmos pelos outros quanto ao sentimento. Não é necessário que todos tenham a mesma convicção, ou a mesma quantidade de sentimento, para buscar a justificação ou a santificação. Todos precisam ser levados, não ao mesmo grau de emoção, mas à inteira submissão a Deus, às condições da salvação e às consequências que possam seguir-se. Nunca devemos depender demais da simples questão do sentimento. Todos os sentimentos que Deus requer são os que existem natural e necessariamente junto com a consagração constante e inteira de toda capacidade e energia ao serviço de Deus. Enganam-se muito os que fazem esforços diretos para produzir sentimentos ou emoções que não sejam os que surgem naturalmente no cumprimento fiel do dever. Quanto às convicções, suponho que crer na doutrina da santificação e, ao mesmo tempo, saber que você não a experimentou e precisa dela, é tudo o que é necessário. Certamente é tudo o que é necessário para começar a buscá-la; então, se convicções mais profundas forem necessárias, elas serão dadas à medida que as convicções presentes forem bem aproveitadas. O objetivo da convicção é levar à ação. “Conhecimento é convicção”; e uma percepção clara do dever é tudo o que um ser racional deve pedir.

51. Convicções profundas a respeito da santidade não obscurecem às vezes, por algum tempo, a luz da justificação presente?

Sem dúvida isso acontece muitas vezes. É comum que o cristão que começa a buscar com seriedade a plena salvação logo conclua que tem, na realidade, muito menos graça do que pensava ter. Às vezes a alma que busca a santidade abandona de vez a sua confiança e conclui que estava enganada e nunca nasceu de novo. Isso é um erro, e deve ser cuidadosamente evitado. Muitas vezes essas pessoas encontram tanto pecado remanescente em si, e as corrupções do seu coração ficam tão irritadas e tão visíveis por serem refreadas e combatidas, que não percebem a evidência da graça que receberam.

52. As convicções do crente que busca a santidade são as mesmas do pecador que busca o perdão?

São substancialmente diferentes das que sente o pecador não perdoado. São convicções de depravação interior, e não de culpa. Produzem dor, mas não condenação. O bispo Hedding diz: “Embora o cristão não se sinta culpado por essa depravação, como se sentiria se tivesse violado voluntariamente a lei de Deus, muitas vezes fica entristecido, aflito e repreendido à vista dessa pecaminosidade da sua natureza.” O sr. Wesley diz: “O arrependimento que se segue à justificação é muito diferente do que a precede. Este não implica culpa, nem senso de condenação, nem consciência da ira de Deus. Não supõe nenhuma dúvida do favor de Deus, nem nenhum medo que ‘envolve castigo’ (1Jo 4.18). É propriamente uma convicção, operada pelo Espírito Santo, do pecado que ainda permanece no nosso coração; da mente carnal, que ‘ainda permanece (como diz a nossa igreja) mesmo nos que são regenerados’, embora já não reine; ela não tem agora domínio sobre eles.”

53. Quais são os exercícios habituais da mente do crente que busca a santidade?

São exatamente o contrário do que muitos supõem. O processo é de humilhação, de peneira, de sondagem, de crucificação. Quando o crente começa a orar pela santidade, em vez de receber de imediato uma torrente de fogo e glória celestial, luminosa e doce, a alma começa a ver cada vez mais a sua própria vileza, deformidade e corrupção interior. Deus faz à alma uma descoberta mais clara e dolorosa da impureza remanescente. A alma não tem agora mais pecado do que tinha antes, mas está conhecendo a si mesma mais a fundo. Tem agora uma visão mais clara da sua própria inclinação para o mal e do fato de que está encerrada na graça de Deus para ter socorro. Daí acontece que, quando o crente começa a orar pela pureza, parece a si mesmo estar ficando cada vez pior. Crente arrependido, persevere; ore e creia até o fim. Esse pode ser um processo necessário. “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados” (Mt 5.4). “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5.3).

54. É importante que a oração seja definida e específica na busca da santidade?

Toda indefinição é evidentemente um obstáculo na busca da pureza. Raramente obtemos bênçãos especiais com orações indefinidas. Que a bênção desejada seja objeto de pensamento distinto e intenso e, separada de tudo o mais, seja pedida.

Temos ampla autoridade na revelação divina para a precisão na oração. Davi, que ansiava pela pureza interior, orou: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável” (Sl 51.10). O Salvador orou: “Santifica-os na verdade” (Jo 17.17). O apóstolo ora: “O mesmo Deus da paz os santifique em tudo” etc. (1Ts 5.23). Essas são orações específicas pela bênção da inteira santificação. Por que você não haveria de pedir exatamente a bênção de que precisa e que deseja? Por que orar a esmo? Quando você quer uma coisa dos seus semelhantes, não pede outra, nem pede tudo. Aquilo mesmo que se pede é o que se pode esperar obter. “Ora, se vocês, que são maus, sabem dar coisas boas aos seus filhos, quanto mais o Pai de vocês, que está nos céus, dará coisas boas aos que lhe pedirem!” (Mt 7.11).

O dr. George Peck diz: “Precisamos fixar a nossa atenção neste único objeto. Ele deve ser tudo para nós. Por esse tempo, o inferno de que queremos ser libertados deve ser o inferno do pecado inato; e o céu que queremos obter, o céu de amar somente a Deus.”

55. Uma evidência clara da justificação deve preceder a busca da inteira santificação?

Normalmente deve ser assim; mas pode haver algumas exceções, como no caso das pessoas que perderam a justificação por se recusarem a buscar a santidade. Pensamos que essas pessoas, em alguns casos, podem recuperar a luz da justificação junto com a sua inteira santificação. Mas a ordem habitual de Deus é: primeiro a luz da justificação, e depois a obra da inteira santificação.

Muitos, receamos, que começam a buscar a inteira santificação em estado de desvio, ao serem abençoados concluem que estão de posse do amor perfeito quando, na verdade, apenas foram restaurados do seu desvio. Esses muitas vezes trazem opróbrio sobre a causa da santidade. É muito desejável partir na luz clara da regeneração e da justificação para buscar a Canaã do amor perfeito.

Seção nona

As evidências do amor perfeito

56. O sr. Wesley ensinou que podemos ter, de que estamos santificados, a mesma evidência que temos da justificação?

À pergunta: “Mas como você sabe que está santificado, salvo da sua corrupção inata?”, o sr. Wesley responde: “Não posso sabê-lo de outra maneira senão como sei que estou justificado. ‘Nisto conhecemos’ que somos de Deus, em ambos os sentidos, ‘pelo Espírito que nos deu’ (1Jo 3.24). Sabemo-lo pelo testemunho e pelo fruto do Espírito.”

57. Alguém deve crer que está inteiramente santificado antes de ter o testemunho do Espírito?

O sr. Wesley diz: “Ninguém, portanto, deve crer que a obra está feita enquanto não se acrescentar o testemunho do Espírito, testificando a sua inteira santificação tão claramente quanto a sua justificação.”

Essa posição do sr. Wesley é segura e aplicável como regra geral; e contudo talvez haja algumas exceções, como nos casos em que Deus se agrade de manter a alma por algum tempo, depois de feita a obra, numa fé nua na sua palavra, antes de dar o testemunho do Espírito. Se não me engano, essa foi a experiência de algumas das testemunhas mais claras do amor perfeito. Talvez o mesmo possa ocorrer em alguns casos de justificação.

58. O que é o testemunho do Espírito?

É uma doce persuasão interior do Espírito de que Deus, por amor de Cristo, ou perdoou os meus pecados e regenerou a minha alma, ou de que o sangue de Jesus Cristo a purificou de todo pecado.

O sr. Wesley dá a seguinte resposta: “Por testemunho do Espírito entendo uma impressão interior na alma, pela qual o Espírito de Deus testifica imediata e diretamente ao meu espírito que sou filho de Deus; que Jesus Cristo me amou e se entregou por mim; que todos os meus pecados foram apagados, e eu, sim, eu, estou reconciliado com Deus, ou purificado de todo pecado e plenamente renovado à imagem de Deus.”

59. O testemunho do Espírito à regeneração e à inteira santificação é diferente?

Diferem apenas nos fatos aos quais o Espírito dá o seu testemunho nos dois casos. Num caso, é uma persuasão deleitosa e decisiva de que Deus perdoou os nossos pecados e converteu a nossa alma. No outro, é uma persuasão deleitosa e decisiva de que o sangue de Jesus Cristo nos purifica de todo pecado.

O dr. Foster diz: “A diferença do testemunho do Espírito na obra da justificação e na da inteira santificação não está tanto no modo quanto naquilo que é testemunhado. É dado de modo muito semelhante; é o mesmo Espírito; os fenômenos são muito semelhantes, mas o próprio testemunho difere.”

60. A evidência da santificação, ou o testemunho do Espírito, é sempre clara desde o início?

“Na verdade, o testemunho da santificação nem sempre é claro desde o início (como também não o é o da justificação), nem depois é sempre o mesmo, mas, como o da justificação, às vezes mais forte e às vezes mais fraco. Sim, e às vezes é retirado. Contudo, em geral, este último testemunho do Espírito é tão claro e tão constante quanto o primeiro.” (Wesley.)

61. É nosso privilégio possuir o testemunho do Espírito sem nenhuma interrupção?

“Alguns têm o testemunho tanto da justificação quanto da santificação sem interrupção nenhuma, e presumo que mais o teriam, se andassem humilde e intimamente com Deus.” (Wesley.)

62. A verdadeira fé evangélica costuma vir acompanhada do testemunho do Espírito?

Sim. Quando se exerce a fé verdadeira e a obra da inteira santificação está plenamente operada, pode-se esperar o testemunho do Espírito, e normalmente ele é então percebido com maior ou menor nitidez. Embora o testemunho do Espírito seja normalmente dado junto com a fé salvadora, pode nem sempre ser percebido nitidamente como tal no momento. Pode agradar ao Senhor retê-lo às vezes temporariamente, para ensinar lições importantes e para disciplinar e provar a fé do crente. São João diz: “Aquele que crê no Filho de Deus tem, nele, esse testemunho” (1Jo 5.10).

63. O testemunho do Espírito pode ser conservado enquanto QUALQUER PECADO É COMETIDO OU CONSENTIDO?

O sr. Wesley diz: “Ele é inevitavelmente destruído não só pela prática de qualquer pecado exterior, ou pela omissão de qualquer dever conhecido, mas por ceder a qualquer pecado interior; numa palavra, por tudo o que entristece o Espírito Santo de Deus.”

64. Há certos frutos que necessariamente procedem de um coração puro como evidência de santidade?

“Há certos frutos que procedem da santificação, que precisam existir onde a própria obra existe, para atestá-la, e certos outros frutos contrários, que necessariamente existem onde ela não existe, para declarar a sua ausência. Ora, esses frutos, se considerados com cuidado, devem constituir um ramo importantíssimo de evidência no caso.” (Foster.)

65. Por que fruto do Espírito podemos saber que o nosso coração está purificado de todo pecado?

“Pelo amor, pela alegria e pela paz sempre permanentes; pela longanimidade, paciência e resignação invariáveis; pela benignidade que triunfa sobre toda provocação; pela bondade, brandura, doçura e ternura de espírito; pela fidelidade, simplicidade e sinceridade piedosa; pela mansidão, calma e serenidade de espírito.” (Wesley.)

O dr. Macknight diz que o fruto do Espírito é “amor a Deus e aos homens; alegria ocasionada por esse excelente afeto; paz com todos; o suportar paciente das injúrias; um modo suave e doce de falar; uma disposição benfazeja; fidelidade aos compromissos, promessas e encargos; calma sob provocação; temperança no uso de comidas e bebidas”.

66. Quais são os frutos amargos do pecado inato, e como ele se manifesta no coração?

Os frutos do pecado inato são orgulho, ira, obstinação, ciúme, cobiça, irritabilidade, impaciência, ódio, discórdias, rivalidades, contendas, invejas, incredulidade e coisas semelhantes. Esses não reinam no crente justificado, mas mantêm uma guerra mais ou menos intensa dentro da alma; “a carne luta contra o Espírito, e o Espírito luta contra a carne, porque são opostos entre si” (Gl 5.17). O pecado inato se manifesta à consciência de quem está parcialmente santificado apegando-se aos apetites e às inclinações da alma, buscando e lutando por satisfações ilícitas. Daí os impulsos de ira, orgulho, obstinação etc. Ele mostra a sua existência nos pensamentos, nos sentimentos e nos anseios e apetites da alma não santificada.

67. A experiência emocional no momento da santificação é variada?

Há sem dúvida tanta variedade quanto na justificação e na regeneração. Alguns são exercitados de um modo, outros de outro; alguns têm uma classe de emoções, outros outra. Às vezes se experimenta uma iluminação incomum da alma. Às vezes há um doce repousar e afundar em Cristo. Às vezes há grande alegria e êxtase, embora isso, penso eu, não seja a experiência geral. Às vezes a alma experimenta um aumento espantoso de fé e uma certeza indescritível de que todo pecado se foi. Às vezes há um senso avassalador da presença divina. Às vezes a energia purificadora vem como torrente poderosa, e às vezes vem como brisa suave. Glória a Deus! Embora haja diversidade de operação, tanto da parte do Espírito divino quanto do espírito humano, os resultados benditos são os mesmos. Leitor, nunca trace um caminho para Deus, mas busque o poder purificador do Espírito Santo até que ele venha exatamente como lhe agradar enviá-lo.

Que a oração do seu coração seja:

“Vem como quiseres, isso eu entrego a ti,
mas, ó meu Jesus, vem.”

As almas santificadas muitas vezes tendem a dar nome à bênção segundo as suas sensações principais, em harmonia com a sua experiência emocional. Uma pessoa experimenta principalmente um notável aumento de fé, e a chama de “vida de fé”. Outra tem consciência de um repouso profundo e doce em Cristo, e a chama de “descanso em Deus”. Outra é penetrada por um senso da presença divina e cheia de arroubos extáticos, e a chama de “plenitude de Deus”. Outra sente o coração subjugado, derretido, refinado e cheio de Deus, e a chama de “santidade”. Outra experimenta principalmente um rio de amor doce e santo correndo pela alma, e a chama de “amor perfeito”. Outra fica prostrada sob o poder do Espírito que refina e mata o pecado, e a chama de “batismo do Espírito Santo”. E outra experimenta principalmente um céu de doçura na completa submissão a Deus, e a chama de “inteira santificação”. Ao passo que outra pode sentir-se clara e fortemente consciente da completa conformidade com toda a vontade de Deus, e a chama de “perfeição cristã”. Se for genuína, a obra operada em cada caso é essencialmente a mesma.

68. A perfeição cristã fará todas as pessoas agirem exatamente do mesmo modo e se apresentarem igualmente bem?

A santidade cristã removerá todo pecado, mas não faz parte da sua função destruir distinções pessoais ou peculiaridades inocentes. Ela dará um coração bom, sincero e puro; e, sendo iguais as demais circunstâncias, conferirá invariavelmente, em todos os aspectos, uma superioridade real e manifesta. Nos elementos essenciais do caráter cristão, tornará qualquer pessoa superior ao que ela própria era sem ela.

69. O estado de inteira santificação se evidenciará claramente pela ausência de todo pecado?

Sim; e qualquer pecado, seja do motivo, da vontade, dos desejos ou da vida, nega a sua existência. As pessoas podem saber tão seguramente que estão num estado santificado quanto que estão num estado não santificado, e podem sabê-lo do mesmo modo: pela consciência e pelo testemunho de Deus. Os que são puros de coração e cheios do Espírito Santo obedecem a Deus de modo decidido, constante, sem hesitação, sem reservas, com alegria e com facilidade: para eles a vontade de Deus é suprema, o fim de toda controvérsia. A questão da obediência nunca se levanta, mas está resolvida: resolvida em todos os pontos e resolvida para sempre. Basta que a vontade de Deus seja entendida para ser obedecida.

70. A inteira santificação me capacitará a orar, crer e me alegrar a cada momento, mesmo diante das maiores provações?

Sem dúvida, na medida em que isso for naturalmente, ou talvez eu deva dizer fisicamente, possível. Embora a alma possa ter tempos de tristeza, duros conflitos e provações prolongadas, que muitas vezes são muito necessárias, ela pode ainda possuir um céu de paz, amor e luz nas suas profundezas oceânicas. Isso capacita a alma santificada a orar, crer e alegrar-se a cada momento, ou a “estar sempre alegres”, “orar sem cessar” e “em tudo dar graças” (1Ts 5.16-18).

71. A dor profunda e a tristeza da alma são incompatíveis com o amor perfeito?

Não são; e, embora a graça nas profundezas de um coração santificado assegure paz, luz e amor permanentes, não nos isenta de ocasiões de dor e de dura provação. Ela dá graça para suportar todas as coisas, até com alegria, pela presença de Deus. A alma santificada nunca está sem consolo. Tem, no sentido mais pleno, o “Consolador” (Jo 14.16).

O sr. Wesley diz: “Sim, a própria mente pode estar profundamente angustiada, pode estar extremamente triste, pode estar perplexa e oprimida pelo peso e pela angústia, até a agonia, enquanto o coração se apega a Deus pelo amor perfeito e a vontade está inteiramente rendida a ele. Não foi assim com o próprio Filho de Deus?” A sra. Hester Ann Rogers diz: “Satanás sugeriu que eu não deveria ter sentido dor alguma; mas o Senhor me ensina que posso sentir dor de modo muito sensível e agudo, em harmonia com o amor puro e a inteira resignação.”

Devemos deixar que a ideia de santidade fique sozinha em nossa mente, inteiramente separada de todos os acidentes de alegria ou tristeza, ou de qualquer outro estado das emoções. Se a alma está agora conscientemente desembaraçada de toda afinidade pecaminosa, e num estado de concordância presente e sentida com a vontade de Deus, isso é santidade, isso é plena salvação.

72. Não temos razão para temer que alguns que experimentaram a bênção do amor perfeito a tenham abandonado na hora da tristeza?

Sem dúvida isso aconteceu com alguns que supunham que, se fossem libertados do pecado, não teriam mais tristeza. Embora o amor perfeito assegure exatamente o tipo certo e a medida certa de alegria, é pela fé que devemos viver, e não pelo sentimento.

Lady Maxwell diz: “O Senhor me ensinou que é pela fé, e não pela alegria, que devo viver”; e contudo, às vezes, ela diz: “A minha evidência da santificação é tão forte quanto um cabo preso a uma rocha inabalável, e tão clara quanto o sol brilhando ao meio-dia.”

73. Qual é o caráter da evidência de um estado de inteira santificação?

É tão forte, positiva e confiável quanto qualquer evidência que se possa dar para comprovar qualquer fato. Na verdade, é a mais forte de todas as evidências.

1. O testemunho da consciência. Desse testemunho não podemos duvidar mais do que podemos duvidar da nossa existência. Nenhum testemunho é mais certo do que este. Por ele sabemos que vivemos, ou respiramos, ou amamos, ou odiamos, ou estamos sentados, ou de pé, ou andando, ou que estamos alegres ou tristes, felizes ou infelizes. A alma santificada pode ter consciência da sua pureza tão clara e plenamente quanto os não santificados a têm da sua impureza. Se, de um lado, orgulho, ira, incredulidade e amor ao mundo são objetos de consciência positiva, do outro lado amor, paz, humildade, paciência e fé o são igualmente. Na verdade, a consciência costuma falar mais alto e mais claro no segundo caso do que no primeiro, porque recebeu mais energia da graça. O pecado paralisa; a graça vivifica.

2. O testemunho de Deus: “o testemunho do Espírito”. Esse testemunho é divino, direto e positivo. O Espírito Santo é o Espírito que testifica.

1. Ele fala primeiro ao coração do pecador. Todo pecador convencido tem o testemunho do Espírito, testificando que ele é culpado, condenado e exposto ao desagrado de Deus.

2. Ele fala a toda alma justificada. Toda alma verdadeiramente regenerada tem, ou pode ter, o testemunho do Espírito, testificando que ela nasceu de Deus e está em estado de justificação.

3. Ele fala a toda alma santificada. Toda alma verdadeiramente santificada tem, ou pode ter, o testemunho do Espírito, testificando que o sangue de Jesus Cristo a purificou de todo pecado.

Ora, embora sustentemos que todo esse testemunho é dado pelo Espírito infalível, afirmamos que este último é dado em circunstâncias mais favoráveis e, por conseguinte, é tão claro e forte quanto qualquer dos outros, se não mais.

Resumiremos esse testemunho da seguinte forma:

1. O pecador convencido e arrependido pode saber, pelo testemunho do seu espírito e pelo testemunho do Espírito Santo, que é culpado e não está salvo. Esse testemunho é mais forte e claro do que no impenitente.

2. A alma justificada pode saber, e ter igual certeza, pelo testemunho do seu espírito e pelo testemunho do Espírito Santo, que Deus regenerou a sua natureza e perdoou os seus pecados. Esse testemunho é mais forte e claro do que o do pecador convencido.

3. A alma santificada pode saber com igual certeza, pelo seu espírito e pelo testemunho do Espírito Santo, que Deus purificou o seu coração de todo pecado. Esse testemunho é ainda mais claro e forte do que o de quem está apenas regenerado.

As evidências inferenciais e corroborativas são igualmente fortes para quem está plenamente santificado, tanto quanto em qualquer dos outros casos.

Tradução para o português a partir de J. A. Wood, Perfect Love; or, Plain Things for Those Who Need Them (Filadélfia, Samuel D. Burlock, 1861), conferida com as imagens das páginas; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.