As Apologias de Justino Mártir · Primeira Apologia (continuação)
Como os profetas falam em nome de Deus e de Cristo, e como as profecias sobre o nascimento, a paixão, a ressurreição e o reino de Cristo se cumpriram.
Mas, quando vocês ouvem as palavras dos profetas pronunciadas como que em primeira pessoa, não devem supor que sejam ditas pelos próprios inspirados, mas pelo Verbo divino que os move. Pois às vezes ele declara coisas que hão de acontecer, à maneira de quem prediz o futuro; às vezes fala como da pessoa de Deus, o Senhor e Pai de todos; às vezes como da pessoa de Cristo; às vezes como da pessoa do povo que responde ao Senhor ou ao seu Pai, assim como vocês podem ver também nos seus próprios escritores: um só homem é o autor do conjunto, mas introduz as personagens que dialogam. E isso os judeus, que possuíam os livros dos profetas, não entenderam; por isso não reconheceram o Cristo nem mesmo quando ele veio, e ainda nos odeiam a nós, que dizemos que ele já veio e provamos que, como fora predito, foi crucificado por eles.
E, para que também isto fique claro para vocês, foram ditas da pessoa do Pai, por meio do profeta Isaías, as seguintes palavras: “O boi conhece o seu dono, e o jumento, a manjedoura do seu senhor; mas Israel não tem conhecimento, e o meu povo não entendeu. Ai, nação pecadora, povo cheio de pecados, descendência perversa, filhos transgressores! Vocês abandonaram o Senhor.”1 E de novo em outro lugar, quando o mesmo profeta fala de modo semelhante da pessoa do Pai: “Que casa é essa que vocês edificarão para mim?, diz o Senhor. O céu é o meu trono, e a terra é o estrado dos meus pés.”2 E ainda em outro lugar: “As suas luas novas e os seus sábados, a minha alma os odeia; e o grande dia do jejum e do repouso não posso suportar; nem, se vierem para ser vistos por mim, eu os ouvirei: as mãos de vocês estão cheias de sangue; e, se trouxerem flor de farinha e incenso, é abominação para mim: a gordura dos cordeiros e o sangue dos touros eu não quero. Pois quem requereu isso das mãos de vocês? Mas soltem todo laço de maldade, rasguem os nós apertados dos contratos violentos, cubram o desabrigado e o nu, repartam o seu pão com o faminto.”3 Que espécie de coisas são ensinadas por meio dos profetas da parte [da pessoa] de Deus, vocês agora podem perceber.
E, quando o Espírito profético fala da pessoa de Cristo, as palavras são deste tipo: “Estendi as mãos a um povo desobediente e rebelde, aos que andam por um caminho que não é bom.”4 E de novo: “Ofereci as costas aos açoites e o rosto às bofetadas; não desviei o rosto da vergonha das cusparadas; e o Senhor foi o meu auxílio: por isso não fui confundido; mas pus o meu rosto como uma rocha firme, e sabia que não seria envergonhado, porque perto está o que me justifica.”5 E de novo, quando ele diz: “Lançaram sortes sobre a minha veste e traspassaram as minhas mãos e os meus pés. E eu me deitei e dormi, e levantei-me de novo, porque o Senhor me sustentou.”6 E de novo, quando diz: “Falaram com os lábios, menearam a cabeça, dizendo: Que ele livre a si mesmo.”7 E que todas essas coisas aconteceram a Cristo pelas mãos dos judeus, vocês podem verificar. Pois, quando ele foi crucificado, eles de fato torceram os lábios e menearam a cabeça, dizendo: “Ele, que ressuscitou mortos, salve a si mesmo.”8
E, quando o Espírito profético fala predizendo coisas que hão de acontecer, fala desta maneira: “Porque de Sião sairá a lei, e a palavra do Senhor, de Jerusalém. Ele julgará entre as nações e repreenderá muitos povos; e eles transformarão as suas espadas em lâminas de arados, e as suas lanças, em podadeiras. Nação não levantará a espada contra nação, nem aprenderão mais a guerra.”9 E que assim de fato aconteceu, podemos convencê-los. Pois de Jerusalém saíram para o mundo homens em número de doze, e estes iletrados, sem nenhuma habilidade no falar; mas, pelo poder de Deus, anunciaram a toda raça de homens que tinham sido enviados por Cristo para ensinar a todos a palavra de Deus; e nós, que antes nos matávamos uns aos outros, agora não só nos abstemos de fazer guerra aos nossos inimigos, mas também, para não mentir nem enganar os que nos interrogam, morremos de bom grado confessando Cristo. Pois aquele dito, “A língua jurou, mas a mente não jurou”,10 poderia nesse caso ser imitado por nós. Mas, se os soldados alistados por vocês, que prestaram o juramento militar, preferem a sua lealdade à própria vida, aos pais, à pátria e a todos os parentes, embora vocês nada lhes possam oferecer de incorruptível, seria verdadeiramente ridículo que nós, que desejamos ardentemente a incorrupção, não suportássemos todas as coisas para obter o que desejamos daquele que é capaz de concedê-lo.
E ouçam como foi predito a respeito dos que anunciaram a sua doutrina e proclamaram a sua manifestação, quando o profeta e rei acima mencionado falou assim pelo Espírito profético: “Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem nem fala em que não se ouça a sua voz. A sua voz saiu por toda a terra, e as suas palavras, até os confins do mundo. No sol ele pôs a sua tenda, e este, como noivo que sai dos seus aposentos, se alegrará como um gigante a percorrer o seu caminho.”11 E julgamos justo e oportuno mencionar, além destas, algumas outras palavras proféticas de Davi, pelas quais vocês podem aprender como o Espírito profético exorta os homens a viver, e como predisse a conspiração que se formou contra Cristo por parte de Herodes, rei dos judeus, dos próprios judeus e de Pilatos, que era o governador de vocês entre eles, com os seus soldados; e como ele havia de ser crido por homens de toda raça; e como Deus o chama seu Filho e declarou que lhe sujeitará todos os seus inimigos; e como os demônios, quanto podem, se esforçam por escapar do poder de Deus, o Pai e Senhor de todos, e do poder do próprio Cristo; e como Deus chama todos ao arrependimento antes que chegue o dia do juízo. Essas coisas foram ditas assim: “Bem-aventurado o homem que não andou no conselho dos ímpios, não se deteve no caminho dos pecadores, nem se assentou na roda dos escarnecedores; pelo contrário, o seu prazer está na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite. Ele será como árvore plantada junto às correntes de águas, que no devido tempo dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo o que ele faz será bem-sucedido. Os ímpios não são assim; são, porém, como a palha que o vento dispersa da face da terra. Por isso, os ímpios não prevalecerão no juízo, nem os pecadores, na assembleia dos justos. Pois o Senhor conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá. Por que se enfurecem as nações e os povos imaginam coisas novas? Os reis da terra se levantam, e as autoridades conspiram juntas contra o Senhor e contra o seu Ungido, dizendo: Vamos romper os seus laços e sacudir de nós o seu jugo. Aquele que habita nos céus se rirá deles, e o Senhor zombará deles. Então lhes falará na sua ira e no seu furor os deixará apavorados. Eu, porém, fui por ele constituído Rei sobre Sião, o seu santo monte, para proclamar o decreto do Senhor. O Senhor me disse: Tu és meu Filho, hoje eu te gerei. Pede-me, e eu te darei as nações por herança e as extremidades da terra por tua possessão. Tu as apascentarás com vara de ferro; como vaso de oleiro tu as despedaçarás. Agora, pois, ó reis, sejam prudentes; deixem-se instruir, todos vocês, juízes da terra. Sirvam o Senhor com temor e alegrem-se com tremor. Abracem a instrução, para que o Senhor não se ire em algum momento e vocês não pereçam fora do caminho reto, quando a sua ira se acender de repente. Bem-aventurados todos os que nele confiam.”12
E de novo, em outra profecia, o Espírito profético, por meio do mesmo Davi, deu a entender que Cristo, depois de crucificado, havia de reinar, e falou assim: “Cantem ao Senhor, todas as terras, e anunciem a sua salvação dia após dia. Porque o Senhor é grande e digno de ser muito louvado, mais temível do que todos os deuses. Porque todos os deuses das nações são ídolos de demônios; mas Deus fez os céus. Glória e louvor estão diante da sua face, força e glória, na habitação da sua santidade. Deem glória ao Senhor, o Pai eterno. Recebam a graça, entrem na sua presença e adorem nos seus santos átrios. Tema diante da sua face toda a terra; seja ela firmada e não se abale. Alegrem-se entre as nações. O Senhor reinou do madeiro.”13
Mas, quando o Espírito profético fala de coisas que estão para acontecer como se já tivessem acontecido (como se pode observar até nas passagens já citadas por mim), para que essa circunstância não dê pretexto aos leitores [para interpretá-las mal], vamos deixar também isto bem claro. As coisas que ele sabe com absoluta certeza que hão de acontecer, ele as prediz como se já tivessem acontecido. E que as palavras devem ser recebidas desse modo, vocês o perceberão se lhes derem atenção. As palavras citadas acima, Davi as proferiu 150014 anos antes que Cristo se fizesse homem e fosse crucificado; e ninguém dos que viveram antes dele, nem dos seus contemporâneos, proporcionou alegria aos gentios por ter sido crucificado. Mas o nosso Jesus Cristo, crucificado e morto, ressuscitou e, tendo subido ao céu, reinou; e, pelas coisas que em seu nome foram anunciadas pelos apóstolos entre todas as nações, há alegria para os que esperam a imortalidade prometida por ele.
Mas, para que ninguém suponha, pelo que dissemos, que afirmamos que tudo o que acontece acontece por uma necessidade fatal, por ter sido predito como conhecido de antemão, explicamos também isto. Aprendemos dos profetas, e o temos por verdadeiro, que os castigos, as correções e as boas recompensas são dados conforme o mérito das ações de cada um. Pois, se assim não fosse, e todas as coisas acontecessem pelo destino, nada absolutamente estaria em nosso poder. Porque, se estivesse determinado pelo destino que este homem, por exemplo, fosse bom e aquele outro mau, nem o primeiro seria digno de louvor, nem o segundo de censura. E, além disso, se o gênero humano não tivesse o poder de evitar o mal e escolher o bem por livre escolha, não seria responsável pelas suas ações, de qualquer tipo que fossem. Mas que é por livre escolha que os homens tanto andam retamente como tropeçam, nós o demonstramos assim. Vemos o mesmo homem passar a coisas opostas. Ora, se estivesse determinado pelo destino que ele fosse bom ou mau, nunca seria capaz de ambos os opostos, nem de tantas mudanças. E nem sequer haveria uns bons e outros maus, pois assim faríamos do destino a causa do mal e o mostraríamos agindo em oposição a si mesmo; ou então pareceria verdadeiro o que já foi mencionado, que nem a virtude nem o vício são coisa alguma, mas que as coisas só são tidas por boas ou más pela opinião; o que, como mostra a palavra verdadeira, é a maior impiedade e perversidade. Mas o que afirmamos ser destino inevitável é isto: que os que escolhem o bem recebem recompensas dignas, e os que escolhem o contrário recebem a retribuição merecida. Pois Deus não fez o homem como as outras coisas, como as árvores e os quadrúpedes, que não podem agir por escolha; porque ele não seria digno de recompensa nem de louvor se não escolhesse por si mesmo o bem, mas tivesse sido criado para esse fim;15 nem, se fosse mau, seria digno de castigo, não sendo mau por si mesmo, mas não podendo ser outra coisa senão aquilo para que foi feito.
E o santo Espírito profético nos ensinou isso, dizendo-nos por meio de Moisés que Deus falou assim ao primeiro homem criado: “Eis que diante de ti estão o bem e o mal: escolhe o bem.”16 E de novo, pelo outro profeta, Isaías, que a seguinte palavra foi dita como da parte de Deus, o Pai e Senhor de todos: “Lavem-se e purifiquem-se; tirem das suas almas as maldades; aprendam a fazer o bem; garantam o direito do órfão e defendam a causa da viúva; e venham, e vamos discutir a questão, diz o Senhor. E, ainda que os pecados de vocês sejam como o escarlate, eu os tornarei brancos como a lã; e, ainda que sejam vermelhos como o carmesim, eu os tornarei brancos como a neve. E, se estiverem dispostos e me obedecerem, comerão o melhor da terra; mas, se não me obedecerem, a espada os devorará, porque a boca do Senhor o disse.”17 E aquela expressão, “A espada os devorará”, não quer dizer que os desobedientes serão mortos pela espada, mas a espada de Deus é o fogo, do qual se tornam combustível os que escolhem praticar a maldade. Por isso ele diz: “A espada os devorará, porque a boca do Senhor o disse.” E, se ele estivesse falando de uma espada que corta e mata de uma vez, não teria dito “devorará”. E assim também Platão, quando diz: “A culpa é de quem escolhe, e Deus não tem culpa”,18 tomou isso do profeta Moisés e o proferiu. Pois Moisés é mais antigo do que todos os escritores gregos. E tudo o que filósofos e poetas disseram a respeito da imortalidade da alma, ou dos castigos depois da morte, ou da contemplação das coisas celestes, ou de doutrinas semelhantes, receberam dos profetas indicações tais que os capacitaram a compreender e interpretar essas coisas. Por isso parece haver sementes da verdade entre todos os homens; mas eles são acusados de não compreender com exatidão [a verdade] quando afirmam coisas contraditórias. De modo que, quando dizemos que os acontecimentos futuros foram preditos, não o dizemos como se acontecessem por uma necessidade fatal; mas Deus, conhecendo de antemão tudo o que será feito por todos os homens, e sendo decreto seu que as ações futuras dos homens serão todas recompensadas segundo o valor de cada uma, prediz pelo Espírito profético que dará recompensas apropriadas conforme o mérito das ações praticadas, incitando sempre o gênero humano ao esforço e à reflexão, e mostrando que cuida dos homens e provê por eles. Mas, por obra dos demônios, foi decretada a morte contra os que leem os livros de Histaspes, ou da Sibila, ou dos profetas, para que, pelo medo, impeçam os homens que os leem de receber o conhecimento do bem e os retenham na escravidão a eles mesmos; o que, no entanto, nem sempre conseguiram realizar. Pois não só os lemos sem medo, mas, como vocês veem, os apresentamos ao exame de vocês, sabendo que o seu conteúdo agradará a todos. E, se persuadirmos ainda que poucos, o nosso ganho será muito grande; pois, como bons lavradores, receberemos a recompensa do Senhor.
E que Deus, o Pai de todos, havia de levar Cristo ao céu depois de o ter ressuscitado dentre os mortos, e de o manter19 ali até que tenha subjugado os seus inimigos, os demônios, e até que se complete o número dos que são conhecidos de antemão por ele como bons e virtuosos, por causa dos quais ele ainda adiou a consumação, ouçam o que foi dito pelo profeta Davi. Estas são as suas palavras: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés. O Senhor te enviará de Jerusalém a vara do poder; e domina no meio dos teus inimigos. Contigo está o governo no dia do teu poder, nos esplendores dos teus santos: do ventre da aurora20 eu te gerei.”21 O que ele diz, “Ele te enviará de Jerusalém a vara do poder”, anuncia a palavra poderosa que os seus apóstolos, saindo de Jerusalém, pregaram em toda parte; e, embora esteja decretada a morte contra os que ensinam ou de algum modo confessam o nome de Cristo, nós em toda parte o abraçamos e o ensinamos. E, se também vocês lerem estas palavras com espírito hostil, nada mais poderão fazer, como eu disse antes, do que matar-nos; o que, na verdade, não nos causa dano algum, mas a vocês e a todos os que nos odeiam injustamente e não se arrependem traz o castigo eterno pelo fogo.
Mas, para que ninguém, sem razão e para perverter o que ensinamos, sustente que dizemos que Cristo nasceu há cento e cinquenta anos, sob Cirênio, e que depois, no tempo de Pôncio Pilatos, ensinou o que dizemos que ele ensinou, e nos acuse como se todos os homens nascidos antes dele não fossem responsáveis, vamos antecipar e resolver a dificuldade. Fomos ensinados que Cristo é o primogênito de Deus, e declaramos acima que ele é o Verbo, do qual todo o gênero humano participou; e os que viveram segundo a razão22 são cristãos, ainda que tenham sido tidos por ateus; como, entre os gregos, Sócrates e Heráclito e homens semelhantes a eles; e, entre os bárbaros, Abraão, Ananias, Azarias, Misael, Elias e muitos outros cujas ações e nomes nos abstemos agora de enumerar, porque sabemos que seria cansativo. De modo que também os que viveram antes de Cristo e viveram sem a razão foram perversos e hostis a Cristo, e mataram os que viviam segundo a razão. Mas por que motivo, pelo poder do Verbo, segundo a vontade de Deus, o Pai e Senhor de todos, ele nasceu de uma virgem como homem, foi chamado Jesus, foi crucificado, morreu, ressuscitou e subiu ao céu, um homem inteligente poderá compreender pelo que já foi dito tão amplamente. E nós, uma vez que a prova deste assunto é menos necessária agora, passaremos por ora à prova das coisas que são urgentes.
Que a terra dos judeus, pois, havia de ser devastada, ouçam o que foi dito pelo Espírito profético. E as palavras foram ditas como da pessoa do povo que se espanta com o que aconteceu. São estas: “Sião é um deserto, Jerusalém, uma desolação. A casa do nosso santuário tornou-se maldição, e a glória que os nossos pais bendisseram foi queimada pelo fogo, e todas as suas coisas gloriosas estão em ruínas; e tu te contiveste diante disso, e ficaste calado, e nos humilhaste sobremaneira.”23 E vocês estão convencidos de que Jerusalém foi devastada, como foi predito. E sobre a sua desolação, e que a ninguém seria permitido habitá-la, houve a seguinte profecia, por meio de Isaías: “A terra deles está devastada, os seus inimigos a consomem diante deles, e nenhum deles habitará nela.”24 E que ela é guardada por vocês para que ninguém habite nela, e que está decretada a morte contra o judeu apanhado ao entrar nela, vocês sabem muito bem.
E que foi predito que o nosso Cristo havia de curar todas as doenças e ressuscitar os mortos, ouçam o que foi dito. São estas as palavras: “Na sua vinda, o coxo saltará como o cervo, e a língua do gago falará com clareza; os cegos verão, e os leprosos serão purificados; e os mortos ressuscitarão e andarão.”25 E que ele fez essas coisas, vocês podem saber pelos Atos de Pôncio Pilatos. E como foi predito pelo Espírito profético que ele e os que nele esperavam seriam mortos, ouçam o que foi dito por Isaías. São estas as palavras: “Eis que agora o justo perece, e ninguém se importa com isso; e os homens justos são levados, e ninguém considera. Diante da maldade é levado o justo, e o seu sepultamento será em paz: ele é tirado do nosso meio.”26
E de novo, como foi dito pelo mesmo Isaías que as nações gentias, que não o esperavam, haveriam de adorá-lo, mas que os judeus, que sempre o esperavam, não o reconheceriam quando viesse. E as palavras são ditas como da pessoa de Cristo; são estas: “Manifestei-me aos que não perguntavam por mim; fui achado por aqueles que não me buscavam; eu disse: Eis-me aqui, a uma nação que não invocava o meu nome. Estendi as mãos a um povo desobediente e rebelde, aos que andavam por um caminho que não é bom, mas seguem os seus próprios pecados; um povo que me provoca à ira na minha face.”27 Pois os judeus, tendo as profecias e estando sempre à espera do Cristo que havia de vir, não o reconheceram; e não só isso, mas até o trataram de modo vergonhoso. Mas os gentios, que nunca tinham ouvido nada a respeito de Cristo até que os apóstolos partiram de Jerusalém e pregaram a respeito dele e lhes entregaram as profecias, encheram-se de alegria e de fé, lançaram fora os seus ídolos e consagraram-se ao Deus não gerado por meio de Cristo. E que estava previsto que essas infâmias seriam ditas contra os que confessavam Cristo, e que os que o caluniavam e diziam que era bom conservar os costumes antigos seriam infelizes, ouçam o que foi dito brevemente por Isaías; é isto: “Ai dos que ao doce chamam amargo e ao amargo chamam doce.”28
Mas que, tendo-se feito homem por nós, ele suportou sofrer e ser desonrado, e que virá de novo com glória, ouçam as profecias que se referem a isso; são estas: “Porque entregaram a sua alma à morte e ele foi contado com os transgressores, levou o pecado de muitos e intercederá pelos transgressores. Pois eis que o meu Servo procederá com prudência, será exaltado e grandemente engrandecido. Como muitos pasmaram à tua vista, assim desfigurada será a tua forma diante dos homens, e assim encoberta deles a tua glória; assim muitas nações se maravilharão, e os reis fecharão a boca diante dele. Pois aqueles a quem nada fora anunciado a respeito dele, e os que não tinham ouvido, entenderão. Senhor, quem creu em nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor? Anunciamos diante dele como uma criança, como raiz de uma terra seca. Não tinha forma nem glória; e nós o vimos, e não havia forma nem beleza; mas a sua forma era desonrada e desfigurada mais do que a dos filhos dos homens. Homem sob o golpe, e que sabe suportar a enfermidade, porque o seu rosto estava voltado para o outro lado; ele foi desprezado e não teve reputação. É ele quem leva os nossos pecados e é afligido por nós; e nós o considerávamos ferido, castigado e afligido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu próprio caminho. E ele o entregou pelos nossos pecados; e ele não abriu a boca em toda a sua aflição. Foi levado como ovelha ao matadouro e, como cordeiro mudo diante do seu tosquiador, assim ele não abre a boca. Na sua humilhação, o seu julgamento lhe foi tirado.”29 Por isso, depois que ele foi crucificado, até todos os seus conhecidos o abandonaram, tendo-o negado; e depois, quando ressuscitou dentre os mortos e lhes apareceu, e os ensinou a ler as profecias em que todas essas coisas estavam preditas como havendo de acontecer, e quando o viram subir ao céu, e creram, e receberam o poder que dali lhes foi enviado por ele, e foram a toda raça de homens, ensinaram essas coisas e foram chamados apóstolos.
E, para que o Espírito profético nos indicasse que aquele que sofre essas coisas tem uma origem inefável e governa os seus inimigos, falou assim: “A sua geração, quem a declarará? Porque a sua vida é cortada da terra; por causa das transgressões deles ele vai para a morte. E eu darei os ímpios pela sua sepultura, e os ricos pela sua morte; porque ele não praticou violência, nem houve engano em sua boca. E agradou ao Senhor purificá-lo do golpe. Se ele for dado como oferta pelo pecado, a alma de vocês verá a sua descendência prolongada em dias. E agradou ao Senhor livrar a sua alma da dor, mostrar-lhe a luz, formá-lo com conhecimento e justificar o justo que serve bem a muitos. E ele levará sobre si as nossas iniquidades. Por isso herdará muitos e repartirá o despojo dos fortes, porque a sua alma foi entregue à morte; e ele foi contado com os transgressores; e levou sobre si os pecados de muitos, e foi entregue por causa das transgressões deles.”30 Ouçam também como, segundo a profecia, ele havia de subir ao céu. Assim foi dito: “Levantem as portas do céu; abram-se, para que entre o Rei da glória. Quem é este Rei da glória? O Senhor, forte e poderoso.”31 E como também havia de vir de novo do céu com glória, ouçam o que foi dito a esse respeito pelo profeta Jeremias.32 As suas palavras são: “Eis que ele vem como Filho do Homem nas nuvens do céu, e os seus anjos com ele.”33
Visto, pois, que provamos que todas as coisas que já aconteceram tinham sido preditas pelos profetas antes de acontecerem, devemos necessariamente crer também que as coisas preditas da mesma forma, mas que ainda estão por acontecer, certamente acontecerão. Pois, assim como as coisas que já se realizaram aconteceram depois de preditas, ainda que desconhecidas, assim também as que restam, ainda que desconhecidas e desacreditadas, acontecerão. Porque os profetas anunciaram duas vindas dele: uma, a que já passou, quando veio como homem desonrado e sofredor; a segunda, quando, segundo a profecia, virá do céu com glória, acompanhado do seu exército angélico, quando também ressuscitará os corpos de todos os homens que viveram, revestirá de imortalidade os corpos dos dignos e enviará os dos ímpios, dotados de sensibilidade eterna, ao fogo eterno com os demônios perversos. E que também essas coisas foram preditas como futuras, vamos provar. Pelo profeta Ezequiel foi dito: “Juntura se unirá a juntura, e osso a osso, e a carne crescerá de novo; e todo joelho se dobrará diante do Senhor, e toda língua o confessará.”34 E em que tipo de sensação e castigo hão de estar os ímpios, ouçam pelo que foi dito igualmente a esse respeito; é o seguinte: “O seu verme não descansará, e o seu fogo não se apagará”;35 e então se arrependerão, quando já não lhes servir de nada. E o que o povo dos judeus dirá e fará quando o vir chegando em glória foi predito assim pelo profeta Zacarias: “Ordenarei aos quatro ventos que reúnam os filhos dispersos; ordenarei ao vento norte que os traga, e ao vento sul, que não os retenha. E então haverá em Jerusalém grande pranto, não pranto de bocas nem de lábios, mas pranto do coração; e rasgarão não as suas vestes, mas o seu coração. Tribo por tribo prantearão, e então olharão para aquele a quem traspassaram; e dirão: Por que, Senhor, nos fizeste desviar do teu caminho? A glória que os nossos pais bendisseram tornou-se para nós em vergonha.”36
Embora pudéssemos apresentar muitas outras profecias, abstemo-nos, julgando que estas bastam para persuadir os que têm ouvidos para ouvir e entender; e considerando também que essas pessoas são capazes de ver que não fazemos meras afirmações sem poder apresentar provas, como as fábulas que se contam dos chamados filhos de Júpiter. Pois com que razão creríamos, a respeito de um homem crucificado, que ele é o primogênito do Deus não gerado e que ele mesmo julgará todo o gênero humano, se não tivéssemos encontrado testemunhos a seu respeito publicados antes que ele viesse e nascesse como homem, e se não víssemos que as coisas aconteceram de acordo com eles: a devastação da terra dos judeus, e homens de toda raça persuadidos pelo seu ensino por meio dos apóstolos, e rejeitando os seus antigos costumes, nos quais, enganados, haviam vivido; sim, vendo também a nós mesmos, e sabendo que os cristãos dentre os gentios são mais numerosos e mais verdadeiros do que os dentre os judeus e os samaritanos? Pois todas as outras raças humanas são chamadas gentios pelo Espírito profético; mas as raças judaica e samaritana são chamadas tribo de Israel e casa de Jacó. E apresentaremos a profecia em que foi predito que haveria mais crentes dentre os gentios do que dentre os judeus e os samaritanos; dizia assim: “Alegre-se, ó estéril, você que não dá à luz; exulte e grite, você que não sente dores de parto, porque os filhos da desamparada são muito mais numerosos do que os da que tem marido.”37 Pois todos os gentios estavam “desamparados” do verdadeiro Deus, servindo às obras das suas mãos; mas os judeus e os samaritanos, tendo recebido a palavra de Deus por meio dos profetas, e esperando sempre o Cristo, não o reconheceram quando veio, exceto alguns poucos, dos quais o Espírito profético, por meio de Isaías, predissera que seriam salvos. Falou como da pessoa deles: “Se o Senhor não nos tivesse deixado uma descendência, teríamos sido como Sodoma e Gomorra.”38 Pois Moisés relata que Sodoma e Gomorra eram cidades de homens ímpios, que Deus queimou com fogo e enxofre e destruiu, sem que nenhum dos seus habitantes fosse salvo, exceto um estrangeiro, caldeu de nascimento, cujo nome era Ló; com ele também foram salvas as suas filhas. E quem quiser pode ainda ver toda aquela região desolada e queimada, e que permanece estéril. E, para mostrar como os que vinham dos gentios foram preditos como mais verdadeiros e mais fiéis, citaremos o que foi dito pelo profeta Isaías;39 pois ele falou assim: “Israel é incircunciso de coração, mas os gentios são incircuncisos na carne.” Tantas coisas como estas, portanto, quando vistas com os olhos, bastam para produzir convicção e fé nos que abraçam a verdade e não são obstinados nas suas opiniões nem governados pelas suas paixões.
1. Is 1.3-4. Esta citação difere da LXX em uma só palavra.
2. Is 66.1.
3. Is 1.11-15; Is 58.6-7.
4. Is 65.2.
5. Is 50.6-8.
6. Sl 22.16, 18; Sl 3.5.
7. Sl 22.7.
8. Comparar Mt 27.39.
9. Is 2.3-4.
10. Eurípides, Hipólito, 608.
11. Sl 19.2-5.
12. Sl 1; Sl 2.
13. Sl 96.1-10. Esta última frase, que não se encontra nas nossas cópias, nem da LXX nem do hebraico, Justino acusou os judeus de a terem apagado. Ver Diálogo com Trifão, cap. 73.
14. Erro cronológico; não se pode saber se do copista ou do próprio Justino.
15. Ou: “mas tivesse sido feito assim”. As palavras são alla touto genomenos, e o sentido de Justino é suficientemente claro.
16. Dt 30.15, 19.
17. Is 1.16-20.
18. Platão, A República, livro X.
19. Assim Thirlby, Otto e Trollope parecem todos entender a palavra katechein; contudo, parece digno de consideração se Justino não tomou tanto o sentido como a palavra de 2Ts 2.6-7.
20. Ou: “antes da estrela da manhã”.
21. Sl 110.1-3.
22. meta logou, “com razão”, ou “com o Verbo”.
23. Is 64.10-12.
24. Is 1.7.
25. Is 35.5-6.
26. Is 57.1-2.
27. Is 65.1-3.
28. Is 5.20.
29. Is 53.12; Is 52.13-15; Is 53.1-8.
30. Is 53.8-12.
31. Sl 24.7-8.
32. Esta profecia não se encontra em Jeremias, mas em Dn 7.13.
33. Dn 7.13.
34. Ez 37.7-8; Is 45.23.
35. Is 66.24.
36. Zc 12.3-14; Is 63.17; Is 64.11.
37. Is 54.1.
38. Is 1.9.
39. As palavras seguintes encontram-se não em Isaías, mas em Jr 9.26.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Marcus Dods e George Reith na coleção Ante-Nicene Fathers, vol. 1 (Buffalo, 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. Os originais são gregos: esta é, portanto, tradução de tradução. As notas são dos tradutores ingleses; as do editor americano foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Justino cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.