Orígenes, Sobre os Princípios · Livro II
A unidade do mundo na sua diversidade, a matéria e os corpos, o começo do mundo e as suas causas.
#P06
1. Embora todas as discussões do livro anterior tenham se referido ao mundo e à sua ordenação, parece agora que convém retomar de modo especial alguns pontos a respeito do próprio mundo, isto é, o seu começo e o seu fim, ou as disposições da divina Providência que ocorreram entre o começo e o fim, ou os acontecimentos que se supõe terem ocorrido antes da criação do mundo, ou que hão de acontecer depois do fim.
Nessa investigação, o primeiro ponto que aparece com clareza é que o mundo, em todas as suas condições diversificadas e variáveis, se compõe não só de naturezas racionais e mais divinas, e de uma diversidade de corpos, mas também de animais irracionais, feras e animais domésticos, de aves e de todos os seres que vivem nas águas;1 depois, em segundo lugar, de lugares, isto é, do céu ou dos céus, da terra ou da água, assim como do ar, que fica no meio e a que chamam éter, e de tudo o que procede da terra ou nela nasce. Visto, então,2 que há tão grande variedade no mundo, e tão grande diversidade entre os próprios seres racionais, por causa da qual se supõe que também toda outra variedade e diversidade veio a existir, que outra causa se deve atribuir à existência do mundo, sobretudo se temos em vista aquele fim pelo qual se mostrou no livro anterior que todas as coisas hão de ser restauradas à sua condição original? E, se isso parecer dito com lógica, que outra causa, como já dissemos, devemos imaginar para tão grande diversidade no mundo, senão a diversidade e a variedade dos movimentos e dos declínios daqueles que caíram daquela unidade e harmonia primitiva em que foram criados por Deus no princípio, e que, expulsos daquele estado de bondade e arrastados em várias direções pela influência perturbadora de motivos e desejos diferentes, transformaram, segundo as suas diferentes inclinações, a bondade única e indivisa da sua natureza em mentes de várias espécies?3
2. Mas Deus, pela inefável arte da sua sabedoria, transformando e restaurando todas as coisas, de qualquer modo que sejam feitas, para algum fim útil e para o proveito comum de todos, reconduz aquelas mesmas criaturas, que tanto diferiam umas das outras na disposição da mente, a um só acordo de trabalho e de propósito; de modo que, embora estejam sob a influência de motivos diferentes, completam, no entanto, a plenitude e a perfeição de um só mundo, e a própria variedade das mentes tende a um só fim de perfeição. Pois é um só poder que abarca e mantém unida toda a diversidade do mundo, e conduz os diferentes movimentos para uma só obra, para que tão imenso empreendimento como o do mundo não se dissolva pelas discórdias das almas. E por esta razão pensamos que Deus, o Pai de todas as coisas, a fim de assegurar a salvação de todas as suas criaturas pelo plano inefável do seu Verbo e da sua Sabedoria, dispôs cada uma delas de tal forma que todo espírito, seja alma, seja existência racional, como quer que se chame, não fosse obrigado pela força, contra a liberdade da sua própria vontade, a nenhum outro rumo além daquele a que o levavam os motivos da sua própria mente (para que, ao fazê-lo, não parecesse tirado o poder de exercer o livre-arbítrio, o que certamente produziria uma mudança na natureza do próprio ser); e que os propósitos variados delas fossem adaptados de modo conveniente e útil à harmonia de um só mundo, umas precisando de ajuda, outras podendo prestá-la, e outras ainda sendo causa de luta e de combate para os que estão progredindo, entre os quais a diligência destes seria tida por mais digna de aprovação, e o posto alcançado depois da vitória seria mantido com maior segurança, uma vez estabelecido pelas dificuldades do combate.4
3. Embora o mundo inteiro esteja ordenado em funções de diferentes espécies, a sua condição, no entanto, não deve ser imaginada como de discrepâncias e discórdias internas; mas, assim como o nosso corpo, que é um só, é provido de muitos membros e mantido unido por uma só alma, assim também sou de opinião que o mundo inteiro deve ser considerado como um animal enorme e imenso, que é mantido unido pelo poder e pela razão de Deus como por uma só alma. Isso também, penso eu, é indicado na Sagrada Escritura pela declaração do profeta: “Não encho eu os céus e a terra?, diz o Senhor” (Jr 23.24); e ainda: “O céu é o meu trono, e a terra é o estrado dos meus pés” (Is 66.1); e pelas palavras do Salvador, quando diz que não devemos jurar “nem pelo céu, por ser o trono de Deus; nem pela terra, por ser estrado de seus pés” (Mt 5.34-35). No mesmo sentido vão também as palavras de Paulo, no seu discurso aos atenienses, quando diz: “Nele vivemos, nos movemos e existimos” (At 17.28). Pois como vivemos, nos movemos e existimos em Deus, senão porque ele abarca e mantém unido o mundo inteiro pelo seu poder? E como é o céu o trono de Deus, e a terra o estrado dos seus pés, como declara o próprio Salvador, senão porque o seu poder enche todas as coisas, tanto no céu como na terra, segundo as palavras do próprio Senhor? E que Deus, o Pai de todas as coisas, enche e mantém unido o mundo com a plenitude do seu poder, segundo as passagens que citamos, ninguém, penso eu, terá dificuldade em admitir. E agora, visto que o curso da discussão anterior mostrou que os diferentes movimentos dos seres racionais e as suas opiniões variadas produziram a diversidade que há no mundo, devemos ver se não convém que este mundo tenha um término semelhante ao seu começo. Pois não há dúvida de que o seu fim deve ser buscado em meio a muita diversidade e variedade; e essa variedade, achando-se no término do mundo, fornecerá de novo base e ocasião para as diversidades do outro mundo que há de suceder ao presente.
4. Se agora, no curso da nossa discussão, se verificou que as coisas são assim, parece que convém considerarmos em seguida a natureza do ser corpóreo, visto que a diversidade no mundo não pode existir sem corpos. É evidente, pela própria natureza das coisas, que a natureza corporal admite diversidade e variedade de mudança, de modo que é capaz de sofrer todas as transformações possíveis, como, por exemplo, a conversão da madeira em fogo, do fogo em fumaça, da fumaça em ar, do azeite em fogo. O próprio alimento, seja do homem, seja dos animais, não mostra o mesmo princípio de mudança? Pois tudo o que tomamos como alimento se converte na substância do nosso corpo. Mas como a água se transforma em terra ou em ar, e o ar por sua vez em fogo, ou o fogo em ar, ou o ar em água, embora não seja difícil de explicar, nesta ocasião basta apenas mencioná-lo, pois o nosso objetivo é discutir a natureza da matéria corporal. Por matéria, portanto, entendemos aquilo que está posto sob os corpos, a saber, aquilo pelo qual, mediante a concessão e a implantação de qualidades, os corpos existem; e mencionamos quatro qualidades: o calor, o frio, a secura e a umidade. Essas quatro qualidades, implantadas na hyle, ou matéria (pois a matéria, na sua própria natureza, existe sem as qualidades mencionadas), produzem as diferentes espécies de corpos. Embora essa matéria, como dissemos acima, seja segundo a sua própria natureza sem qualidades, nunca se encontra existindo sem uma qualidade. E não consigo compreender como tantos homens ilustres foram de opinião que essa matéria, que é tão grande e possui tais propriedades que lhe permitem bastar para todos os corpos do mundo que Deus quis que existissem, e ser auxiliar e serva do Criador para quaisquer formas e espécies que ele quisesse em todas as coisas, recebendo em si quaisquer qualidades que ele desejasse conceder-lhe, era incriada, isto é, não formada pelo próprio Deus, que é o Criador de todas as coisas, mas que a sua natureza e o seu poder eram resultado do acaso. E admira-me que censurem os que negam o poder criador de Deus ou a sua administração providente do mundo, e os acusem de impiedade por pensarem que tão grande obra como o mundo pudesse existir sem arquiteto ou supervisor, enquanto eles mesmos incorrem em semelhante acusação de impiedade ao dizerem que a matéria é incriada e coeterna com o Deus incriado. Segundo essa opinião, então, se supusermos, para argumentar, que a matéria não existisse, como estes sustentam, dizendo que Deus não poderia criar coisa alguma quando nada existia, sem dúvida ele teria ficado ocioso, não tendo matéria sobre a qual operar, matéria que, segundo dizem, lhe foi fornecida não por sua própria disposição, mas por acaso; e pensam que ela, encontrada por acaso, pôde bastar-lhe para um empreendimento de tamanha extensão e para a manifestação do poder da sua força, e, admitindo o plano de toda a sua sabedoria, pôde ser distinguida e formada num mundo. Ora, isso me parece muito absurdo, e a opinião de homens inteiramente ignorantes do poder e da inteligência da natureza incriada. Mas, para vermos a natureza das coisas um pouco mais claramente, conceda-se que por algum tempo a matéria não existisse, e que Deus, quando antes nada existia, fizesse vir à existência as coisas que desejava: por que havemos de supor que Deus criaria uma matéria melhor ou maior, ou de outra espécie, do que aquela que de fato produziu pelo seu poder e pela sua sabedoria, para que existisse o que antes não existia? Criaria ele uma matéria pior e inferior, ou uma igual àquela que eles chamam incriada? Ora, penso que será muito fácil a qualquer um perceber que nem uma matéria melhor nem uma inferior poderia ter assumido as formas e as espécies do mundo, se não fosse tal como aquela que de fato as assumiu. E não parece, então, ímpio chamar incriado aquilo que, se for crido como formado por Deus, sem dúvida se verá que é tal como aquilo que eles chamam incriado?
5. Mas, para que creiamos pela autoridade da Santa Escritura que é assim, ouça como essa verdade é confirmada no livro dos Macabeus, onde a mãe dos sete mártires exorta o seu filho a suportar a tortura; pois ela diz: “Peço-te, meu filho, que olhes para o céu e para a terra, e para todas as coisas que neles há, e, contemplando-as, saibas que Deus fez todas essas coisas quando elas não existiam” (2Mc 7.28). Também no livro do Pastor, no primeiro mandamento, ele fala assim: “Antes de tudo, crê que há um só Deus, que criou e ordenou todas as coisas, e fez todas as coisas virem à existência, e isso a partir do nada.”5 Talvez também a expressão dos Salmos se refira a isso: “Ele falou, e foram feitos; ele ordenou, e foram criados” (Sl 148.5). Pois as palavras “Ele falou, e foram feitos” parecem mostrar que se trata da substância das coisas que existem; ao passo que as outras, “ele ordenou, e foram criados”, parecem ditas das qualidades com que a própria substância foi moldada.
1. Sobre este tema, alguns costumam perguntar se, assim como o Pai gera um Filho incriado e produz um Espírito Santo, não como se estes não tivessem existência anterior, mas porque o Pai é a origem e a fonte do Filho ou do Espírito Santo, e não se pode entender neles nenhuma anterioridade ou posterioridade, assim também se pode entender que um tipo semelhante de união ou de relação subsiste entre as naturezas racionais e a matéria corporal. E, para que este ponto seja examinado de modo mais pleno e cabal, o início da discussão costuma dirigir-se à questão de saber se essa mesma natureza corporal, que sustenta a vida e contém os movimentos das mentes espirituais e racionais, será igualmente eterna com elas, ou se perecerá e será destruída por completo. E, para que a questão seja resolvida com maior precisão, temos, em primeiro lugar, de investigar se é possível que as naturezas racionais permaneçam inteiramente incorpóreas depois de terem atingido o cume da santidade e da felicidade (o que me parece algo dificílimo e quase impossível), ou se devem sempre, por necessidade, estar unidas a corpos. Se, então, alguém pudesse mostrar uma razão pela qual lhes fosse possível dispensar inteiramente os corpos, parecerá seguir-se que, assim como a natureza corporal, criada do nada depois de intervalos de tempo, foi produzida quando não existia, assim também deve deixar de existir quando os fins a que servia já não existirem.
2. Se, porém, é impossível sustentar de algum modo este ponto, a saber, que qualquer outra natureza além do Pai, do Filho e do Espírito Santo possa viver sem corpo, a necessidade do raciocínio lógico nos obriga a entender que as naturezas racionais foram de fato criadas no princípio, mas que a substância material foi separada delas só no pensamento e no entendimento, e parece ter sido formada para elas, ou depois delas, e que elas nunca viveram nem vivem sem ela; pois a vida incorpórea será com razão considerada prerrogativa exclusiva da Trindade. Como observamos acima, portanto, aquela substância material deste mundo, que possui uma natureza capaz de todas as transformações possíveis, quando é arrastada para seres de ordem inferior, é moldada na condição mais grosseira e mais sólida de um corpo, de modo a distinguir as formas visíveis e variadas do mundo; mas, quando se torna serva de seres mais perfeitos e mais bem-aventurados, resplandece no esplendor dos corpos celestes, e adorna ou os anjos de Deus ou os filhos da ressurreição com a veste de um corpo espiritual, de todos os quais se completará o estado diverso e variado do mundo único. Mas, se alguém desejar discutir estes assuntos mais a fundo, será necessário, com toda a reverência e temor de Deus, examinar as Sagradas Escrituras com maior atenção e diligência, para verificar se o sentido secreto e oculto que há nelas porventura revela algo a respeito destes assuntos; e algo pode ser descoberto na sua linguagem obscura e misteriosa, pela demonstração do Espírito Santo aos que são dignos, depois de reunidos muitos testemunhos sobre este mesmo ponto.
1. O próximo objeto de investigação é saber se houve algum outro mundo antes deste que agora existe; e, se houve, se era como o presente, ou um tanto diferente, ou inferior; ou se não houve mundo nenhum, mas algo semelhante ao que entendemos que haverá depois do fim de todas as coisas, quando o reino for entregue a Deus, o Pai; o que, no entanto, pode ter sido o fim de outro mundo, a saber, daquele depois do qual este mundo teve o seu começo; e se as várias quedas das naturezas intelectuais levaram Deus a produzir esta condição diversa e variada do mundo. Também este ponto, penso eu, deve ser investigado de modo semelhante, a saber, se depois deste mundo haverá algum (sistema de) preservação e correção, severo, sem dúvida, e acompanhado de muita dor para os que não quiseram obedecer à palavra de Deus, mas um processo pelo qual, por meio de instrução e de formação racional, cheguem a uma compreensão mais plena da verdade aqueles que nesta vida se dedicaram a essas buscas e que, depois de terem a mente purificada, avançaram a ponto de se tornarem capazes de alcançar a sabedoria divina; e se depois disso se seguirá imediatamente o fim de todas as coisas, e haverá de novo, para a correção e o aperfeiçoamento dos que precisarem, outro mundo, ou semelhante ao que agora existe, ou melhor que ele, ou muito inferior; e quanto tempo durará esse mundo, seja ele qual for, que há de vir depois deste; e se haverá um tempo em que nenhum mundo existirá em parte alguma, ou se houve um tempo em que não havia mundo nenhum; ou se houve, ou haverá, vários; ou se alguma vez acontecerá que haja um semelhante a outro, igual a ele em todos os aspectos e indistinguível dele.
2. Para que fique mais claro, então, se a matéria corporal pode existir durante intervalos de tempo, e se, assim como não existia antes de ser feita, pode de novo ser reduzida à não existência, vejamos primeiro se é possível alguém viver sem corpo. Pois, se uma só pessoa pode viver sem corpo, todas as coisas também podem dispensá-los, visto que o nosso tratado anterior mostrou que todas as coisas tendem para um só fim. Ora, se todas as coisas podem existir sem corpos, sem dúvida não haverá substância corporal, visto que não haverá uso para ela. Mas como entenderemos as palavras do apóstolo naquelas passagens em que, tratando da ressurreição dos mortos, diz: “Este corruptível deve revestir-se de incorruptibilidade, e este mortal deve revestir-se de imortalidade. Quando este corruptível se revestir de incorruptibilidade, e este mortal se revestir de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória! Onde está, ó morte, a tua vitória? Ó morte, o teu aguilhão foi tragado; o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei” (1Co 15.53-56; cf. Os 13.14; Is 25.8)? Algum sentido como este, então, parece ser sugerido pelo apóstolo. Pois a expressão que ele emprega, “este corruptível” e “este mortal”, com o gesto, por assim dizer, de quem toca ou aponta, pode aplicar-se a outra coisa que não à matéria corporal? Esta matéria do corpo, então, que agora é corruptível, se revestirá de incorruptibilidade quando uma alma perfeita, e provida das marcas6 da incorruptibilidade, tiver começado a habitá-la. E não se surpreenda se falamos de uma alma perfeita como a veste do corpo (a qual, por causa do Verbo de Deus e da sua Sabedoria, é agora chamada incorruptibilidade), quando do próprio Jesus Cristo, que é o Senhor e Criador da alma, se diz que é a veste dos santos, segundo a linguagem do apóstolo: “Revistam-se do Senhor Jesus Cristo” (Rm 13.14). Assim como Cristo, então, é a veste da alma, assim, por uma razão bastante inteligível, se diz que a alma é a veste do corpo, visto que é para ele um ornamento, cobrindo e ocultando a sua natureza mortal. A expressão, então, “Este corruptível deve revestir-se de incorruptibilidade” é como se o apóstolo tivesse dito: “Esta natureza corruptível do corpo deve receber a veste da incorruptibilidade, isto é, uma alma que possui em si a incorruptibilidade”, porque foi revestida de Cristo, que é a Sabedoria e o Verbo de Deus. Mas, quando este corpo, que em algum tempo futuro possuiremos em estado mais glorioso, se tiver tornado participante da vida, então, além de ser imortal, se tornará também incorruptível. Pois tudo o que é mortal é necessariamente também corruptível; mas não se pode dizer que tudo o que é corruptível seja também mortal. Dizemos de uma pedra ou de um pedaço de madeira que é corruptível, mas não dizemos que daí se segue que seja também mortal. Mas, como o corpo participa da vida, então, porque a vida pode ser separada dele, e de fato o é, por consequência o chamamos mortal, e, segundo outro sentido, também falamos dele como corruptível. O santo apóstolo, portanto, com notável perspicácia, referindo-se à causa primeira geral da matéria corporal, da qual (matéria), sejam quais forem as qualidades de que esteja dotada (agora, sem dúvida, carnais, mas depois mais refinadas e puras, as quais se chamam espirituais), a alma faz uso constante, diz: “Este corruptível deve revestir-se de incorruptibilidade”. E, em segundo lugar, olhando para a causa particular do corpo, diz: “Este mortal deve revestir-se de imortalidade”. Ora, que outra coisa serão a incorruptibilidade e a imortalidade senão a sabedoria, o verbo e a justiça de Deus, que moldam, vestem e adornam a alma? E daí vem que se diga: “O corruptível se revestirá de incorruptibilidade, e o mortal, de imortalidade”. Pois, embora agora possamos fazer grande progresso, como, no entanto, só conhecemos em parte e profetizamos em parte, e vemos como por espelho, em enigma, aquelas mesmas coisas que parecemos entender, este corruptível ainda não se reveste de incorruptibilidade, nem este mortal está ainda revestido de imortalidade; e, como esta nossa formação no corpo se prolonga, sem dúvida, por um período mais longo, até o tempo, a saber, em que esses mesmos corpos nossos de que estamos envolvidos possam, por causa da palavra de Deus e da sua sabedoria e perfeita justiça, merecer a incorruptibilidade e a imortalidade, por isso se diz: “Este corruptível deve revestir-se de incorruptibilidade, e este mortal deve revestir-se de imortalidade”.
3. Mas, apesar disso, os que pensam que as criaturas racionais podem em algum momento levar uma existência fora do corpo podem levantar aqui questões como as seguintes. Se é verdade que este corruptível se revestirá de incorruptibilidade, e este mortal se revestirá de imortalidade, e que a morte é tragada no fim, isso mostra que não há de ser destruída outra coisa senão uma natureza material, sobre a qual a morte podia operar, ao passo que a agudeza mental dos que estão no corpo parece embotada pela natureza da matéria corpórea. Se, porém, estiverem fora do corpo, então escaparão inteiramente ao incômodo que nasce de uma perturbação desse tipo. Mas, como não poderão escapar imediatamente de toda veste corporal, devem ser considerados, por ora, como habitando corpos mais refinados e mais puros, que possuem a propriedade de não serem mais vencidos pela morte, nem feridos pelo seu aguilhão; de modo que por fim, pelo desaparecimento gradual da natureza material, a morte seja tanto tragada como, no fim, exterminada, e todo o seu aguilhão completamente embotado pela graça divina que a alma se tornou capaz de receber, e assim mereceu obter a incorruptibilidade e a imortalidade. E então será dito com razão por todos: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? O aguilhão da morte é o pecado” (1Co 15.55-56). Se essas conclusões, então, parecem válidas, segue-se que devemos crer que a nossa condição, em algum tempo futuro, será incorpórea; e, se isso se admite, e se diz que todos serão sujeitos a Cristo, também isso (a incorporeidade) deve necessariamente ser concedido a todos aqueles a quem se estende a sujeição a Cristo; visto que todos os que estão sujeitos a Cristo estarão no fim sujeitos a Deus Pai, a quem se diz que Cristo entrega o reino; e assim parece que então também cessará a necessidade dos corpos.7 E, se ela cessa, a matéria corporal volta ao nada, como antes também não existia.
Vejamos agora o que se pode dizer em resposta aos que fazem essas afirmações. Pois parecerá consequência necessária que, se a natureza corporal for aniquilada, ela deva ser de novo restaurada e criada; visto que parece coisa possível que as naturezas racionais, das quais nunca se tira a faculdade do livre-arbítrio, sejam de novo sujeitas a movimentos de alguma espécie, por ato especial do próprio Senhor, para que talvez não viessem a ignorar, se ocupassem sempre uma condição imutável, que é pela graça de Deus e não por mérito próprio que foram colocadas naquele estado final de felicidade; e esses movimentos sem dúvida serão de novo acompanhados de variedade e diversidade de corpos, pelas quais o mundo é sempre adornado; nem jamais será ele composto (de outra coisa) senão de variedade e diversidade, efeito que não se pode produzir sem uma matéria corporal.
4. E agora não entendo com que provas podem sustentar a sua posição os que afirmam que às vezes vêm à existência mundos que não são dessemelhantes entre si, mas em tudo iguais. Pois, se se diz que há um mundo semelhante em tudo (ao presente), então acontecerá que Adão e Eva farão as mesmas coisas que fizeram antes: haverá uma segunda vez o mesmo dilúvio, e o mesmo Moisés tirará de novo do Egito um povo de quase seiscentos mil; Judas também trairá o Senhor uma segunda vez; Paulo guardará uma segunda vez as vestes dos que apedrejaram Estêvão; e se dirá que tudo o que se fez nesta vida se repetirá, estado de coisas que, penso eu, não se pode estabelecer por nenhum raciocínio, se as almas são movidas pela liberdade da vontade e mantêm o seu avanço ou o seu retrocesso segundo o poder da sua vontade. Pois as almas não são impelidas num ciclo que, depois de muitas eras, volta à mesma volta, de modo a fazer ou desejar isto ou aquilo; mas, para onde quer que aponte a liberdade da sua própria vontade, para lá dirigem o curso das suas ações. Pois o que essas pessoas dizem é mais ou menos o mesmo que se alguém afirmasse que, se um medimno de grãos fosse derramado no chão, a queda dos grãos seria na segunda vez idêntica à da primeira, de modo que cada grão ficaria pela segunda vez bem junto daquele grão ao lado do qual fora lançado antes, e assim o medimno se espalharia na mesma ordem e com as mesmas marcas de antes; o que certamente é resultado impossível com os inumeráveis grãos de um medimno, ainda que fossem derramados sem cessar por muitas eras. Assim, portanto, parece-me impossível que um mundo seja restaurado uma segunda vez, com a mesma ordem e com o mesmo número de nascimentos, de mortes e de ações; mas sim que possa existir uma diversidade de mundos, com mudanças de natureza nada desprezível, de modo que o estado de outro mundo seja, por algumas razões inequívocas, melhor (do que este), por outras pior, e por outras ainda intermediário. Mas qual possa ser o número ou a medida disso confesso que ignoro, embora, se alguém puder dizê-lo, eu de bom grado o aprenda.
5. Mas este mundo, que é ele mesmo chamado uma era, diz-se ser a conclusão de muitas eras. Ora, o santo apóstolo ensina que, na era que precedeu esta, Cristo não sofreu, nem mesmo na era que precedeu aquela; e não sei se sou capaz de enumerar a quantidade de eras anteriores em que ele não sofreu. Mostrarei, porém, a partir de que afirmações de Paulo cheguei a esse entendimento. Ele diz: “Mas agora, uma vez, na consumação das eras, ele se manifestou para tirar o pecado pelo sacrifício de si mesmo” (Hb 9.26). Pois diz que ele foi uma vez feito vítima e, na consumação das eras, se manifestou para tirar o pecado. Ora, que depois desta era, que se diz formada para a consumação de outras eras, haverá ainda outras eras a seguir, aprendemos claramente do próprio Paulo, que diz: “Para mostrar nas eras vindouras a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco” (Ef 2.7). Ele não disse “na era vindoura”, nem “nas duas eras vindouras”, donde infiro que pela sua linguagem se indicam muitas eras. Ora, se há algo maior do que as eras, de modo que entre os seres criados se possam entender certas eras, mas entre outros seres que excedem e ultrapassam as criaturas visíveis (eras ainda maiores) (o que talvez se dará na restituição de todas as coisas, quando o universo inteiro chegar a um término perfeito), talvez aquele período em que se dará a consumação de todas as coisas deva ser entendido como algo mais do que uma era. Mas aqui me move a autoridade da Santa Escritura, que diz: “Por uma era e mais.”8 Ora, esta palavra “mais” sem dúvida significa algo maior do que uma era; e veja se aquela expressão do Salvador, “Quero que, onde eu estou, também estes estejam comigo; e, como eu e tu somos um, também estes sejam um em nós” (cf. Jo 17.24, 21-22), não parece expressar algo mais do que uma era e eras, talvez até mais do que eras de eras, a saber, aquele período em que todas as coisas já não estão numa era, mas em que Deus está em todos.
6. Tendo discutido estes pontos a respeito da natureza do mundo da melhor maneira que pudemos, não parece fora de propósito investigar qual é o significado do termo mundo, que na Santa Escritura se mostra muitas vezes ter significados diferentes. Pois o que em latim chamamos mundus em grego se chama kosmos, e kosmos significa não só mundo, mas também ornamento. Por fim, em Isaías, onde a linguagem de repreensão se dirige às principais filhas de Sião, e onde ele diz: “Em lugar do ornamento de uma cabeça de ouro, terás calvície por causa das tuas obras” (cf. Is 3.24),9 emprega o mesmo termo para designar ornamento e para designar mundo, a saber, kosmos. Pois se diz que o plano do mundo está contido na veste do sumo sacerdote, como encontramos na Sabedoria de Salomão, onde ele diz: “Pois na veste talar estava o mundo inteiro” (Sb 18.24).10 Também esta nossa terra, com os seus habitantes, se chama mundo, como quando a Escritura diz: “O mundo inteiro jaz na maldade” (1Jo 5.19). Clemente, de fato, discípulo dos apóstolos, faz menção daqueles a quem os gregos chamavam Antichthones, e de outras partes da terra a que nenhum dos nossos pode chegar, nem pode algum dos que lá estão passar até nós, às quais ele também chamou mundos, dizendo: “O oceano é intransponível para os homens; e são mundos os que estão do outro lado dele, os quais são governados por estas mesmas disposições do Deus soberano.”11 Também aquele universo que é delimitado pelo céu e pela terra se chama mundo, como declara Paulo: “Porque a aparência deste mundo passa” (1Co 7.31). Nosso Senhor e Salvador também aponta para certo outro mundo além deste visível, que seria de fato difícil descrever e dar a conhecer. Ele diz: “Eu não sou deste mundo” (Jo 17.16). Pois, como se ele fosse de certo outro mundo, diz: “Eu não sou deste mundo”. Ora, desse mundo dissemos de antemão que a explicação era difícil; e por esta razão: para que não se desse a ninguém ocasião de supor que sustentamos a existência de certas imagens que os gregos chamam “ideias”; pois é certamente alheio aos nossos (escritores) falar de um mundo incorpóreo que existe só na imaginação, ou no mundo fugidio dos pensamentos; e como podem afirmar que o Salvador vem de lá, ou que os santos irão para lá, não vejo. Não há dúvida, porém, de que o Salvador aponta para algo mais ilustre e excelente do que este mundo presente, ao qual incita e encoraja os crentes a aspirar. Mas, se aquele mundo a que ele deseja aludir está muito separado e apartado deste, seja pela situação, seja pela natureza, seja pela glória; ou se é superior em glória e qualidade, mas encerrado dentro dos limites deste mundo (o que me parece mais provável), é, no entanto, incerto, e, na minha opinião, assunto impróprio para o pensamento humano. Mas, pelo que Clemente parece indicar quando diz: “O oceano é intransponível para os homens, e aqueles mundos que estão além dele”, falando no plural dos mundos que estão além dele, os quais ele dá a entender que são administrados e governados pela mesma providência do Deus Altíssimo, ele parece lançar-nos algumas sementes daquela opinião segundo a qual o universo inteiro das coisas existentes, celestes e supercelestes, terrenas e infernais, é em geral chamado um só mundo perfeito, dentro do qual, ou pelo qual, outros mundos, se os há, devem supor-se contidos. Por esta razão ele quis que o globo do sol ou da lua, e dos outros corpos chamados planetas, fossem cada um chamados mundos. Mais ainda, até mesmo aquele globo proeminente que chamam não errante (aplanes), desejam, no entanto, que seja propriamente chamado mundo. Por fim, convocam o livro do profeta Baruc a dar testemunho desta afirmação, porque nele os sete mundos ou céus são indicados com mais clareza. Contudo, acima daquela esfera que chamam não errante (aplanes), querem que exista outra esfera, a qual, dizem, exatamente como o nosso céu contém todas as coisas que estão debaixo dele, abrange, pelo seu tamanho imenso e pela sua extensão indescritível, os espaços de todas as esferas juntas dentro da sua circunferência mais magnífica; de modo que todas as coisas estão dentro dela, como esta nossa terra está debaixo do céu. E crê-se também que esta é chamada nas Santas Escrituras a boa terra e a terra dos viventes, tendo o seu próprio céu, que é mais alto, e no qual se diz que os nomes dos santos são escritos, ou foram escritos, pelo Salvador; céu pelo qual é cercada e encerrada aquela terra que o Salvador, no Evangelho, promete aos mansos e misericordiosos. Pois querem que esta nossa terra, que antes se chamava “Seca”, tenha recebido o seu nome do nome daquela terra, assim como este céu também foi chamado firmamento a partir do título daquele céu. Mas tratamos mais longamente de tais opiniões no lugar em que tivemos de investigar o significado da declaração de que no princípio “Deus criou os céus e a terra” (Gn 1.1). Pois se mostra que existem outro céu e outra terra além daquele “firmamento” que se diz ter sido feito depois do segundo dia, ou daquela “terra seca” que depois foi chamada “terra”. Certamente, o que alguns dizem deste mundo, que é corruptível porque foi feito, e no entanto não se corrompe, porque a vontade de Deus, que o fez e o mantém unido para que a corrupção não o domine, é mais forte e mais poderosa do que a corrupção, pode-se supor com mais acerto daquele mundo que acima chamamos esfera “não errante”, visto que pela vontade de Deus não está de modo nenhum sujeito à corrupção, pela razão de não ter admitido nenhuma causa de corrupção, visto que é o mundo dos santos e dos inteiramente purificados, e não dos ímpios, como aquele nosso mundo. Devemos ver, além disso, se não é talvez com referência a isto que o apóstolo diz: “Na medida em que não olhamos para as coisas que se veem, mas para as que não se veem. Porque as coisas que se veem são temporais, mas as que não se veem são eternas. Pois sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos da parte de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos humanas, eterna, nos céus” (2Co 4.18-5.1). E quando ele diz em outro lugar: “Porque verei os céus, obra dos teus dedos” (Sl 8.3), e quando Deus disse, a respeito de todas as coisas visíveis, pela boca do seu profeta: “A minha mão fez todas estas coisas” (Is 66.2), ele declara que aquela casa eterna nos céus, que promete aos seus santos, não foi feita por mãos, indicando, sem dúvida, a diferença de criação entre as coisas que se veem e as que não se veem. Pois não se deve entender a mesma coisa pelas expressões “as coisas que não se veem” e “as coisas que são invisíveis”. Pois as coisas que são invisíveis não só não são vistas, mas nem sequer possuem a propriedade da visibilidade, sendo o que os gregos chamam asomata, isto é, incorpóreas; ao passo que aquelas de que Paulo diz “não se veem” possuem, sim, a propriedade de serem vistas, mas, como ele explica, ainda não são contempladas por aqueles a quem são prometidas.
7. Tendo esboçado, então, tanto quanto pudemos entender, estas três opiniões a respeito do fim de todas as coisas e da suprema bem-aventurança, que cada um dos nossos leitores determine por si mesmo, com cuidado e diligência, se alguma delas pode ser aprovada e adotada.12 Pois foi dito que devemos supor ou que uma existência incorpórea é possível, depois que todas as coisas se tiverem sujeitado a Cristo, e por meio de Cristo a Deus Pai, quando Deus for tudo em todos; ou que, quando, apesar de todas as coisas terem sido sujeitas a Cristo, e por meio de Cristo a Deus (com quem formaram também um só espírito, no sentido de que os espíritos são naturezas racionais), então a própria substância corporal, unida também a espíritos puríssimos e excelentes, e transformada numa condição etérea na proporção da qualidade ou dos méritos dos que a assumem (segundo as palavras do apóstolo em 1Co 15.52: “nós seremos transformados”), resplandecerá em esplendor; ou, pelo menos, que, quando passar a aparência das coisas que se veem, e toda corrupção tiver sido sacudida e purificada, e quando todo o espaço ocupado por este mundo, em que se diz estarem as esferas dos planetas, tiver sido deixado para trás e abaixo,13 então se alcança a morada estável dos piedosos e dos bons, situada acima daquela esfera que se chama não errante (aplanes), como numa boa terra, numa terra dos viventes, que será herdada pelos mansos e brandos; terra à qual pertence aquele céu (que, com a sua extensão mais magnífica, rodeia e contém essa mesma terra) que é chamado verdadeira e principalmente céu, céu e terra nos quais o fim e a perfeição de todas as coisas podem ser colocados com segurança e com toda a confiança, a saber, onde estes, depois da sua repreensão e dos castigos pelas ofensas que sofreram a título de purificação, possam, depois de terem cumprido e saldado toda obrigação, merecer habitação naquela terra; ao passo que os que foram obedientes à palavra de Deus, e daí em diante se mostraram por sua obediência capazes de sabedoria, diz-se que merecem o reino daquele céu ou céus; e assim se cumpre mais dignamente a predição: “Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra” (Mt 5.5); e: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque herdarão o Reino dos Céus” (Mt 5.3); e a declaração do Salmo: “Ele o exaltará para que você herde a terra” (Sl 37.34). Pois se chama descida a esta terra, mas exaltação àquela que está no alto. Desta maneira, portanto, parece abrir-se uma espécie de caminho pela partida dos santos daquela terra para aqueles céus; de modo que não parecem tanto permanecer naquela terra quanto habitá-la com uma intenção, a saber, a de passar à herança do reino dos céus, quando tiverem alcançado também esse grau de perfeição.
1. As palavras “in aquis” [“nas águas”] faltam na edição de Redepenning.
2. O original desta frase se encontra no fim da Epístola do imperador Justiniano a Menas, patriarca de Constantinopla, e, traduzido literalmente, é como segue: “Sendo o mundo tão variado e contendo tantos seres racionais diferentes, que outra coisa devemos dizer que foi a causa da sua existência, senão a diversidade da queda daqueles que se afastam da unidade (tes henados) de maneiras diferentes?” (Ruæus). Lommatzsch acrescenta uma oração que não está na nota do editor beneditino: “E às vezes a alma escolhe a vida que está na água” (enydron).
3. Lit. “em várias qualidades de mente”.
4. “Et diversi motus propositi earum (rationabilium subsistentiarum) ad unius mundi consonantiam competenter atque utiliter aptarentur, dum aliæ juvari indigent, aliæ juvare possunt, aliæ vero proficientibus certamina atque agones movent, in quibus eorum probabilior haberetur industria, et certior post victoriam reparati gradus statio teneretur, quæ per difficultates laborantium constitisset.”
5. Hermæ Past., livro II.
6. Dogmatibus. Schnitzer diz que “dogmatibus” aqui não dá sentido. Conjectura deigmasi e traduz “provas”, “marcas”.
7. Esta passagem se encontra na Epístola de Jerônimo a Ávito; e, traduzida literalmente, a sua versão é a seguinte: “Se estas (opiniões) não são contrárias à fé, talvez vivamos algum dia sem corpos. Mas, se aquele que está perfeitamente sujeito a Cristo é entendido como sem corpo, e todos hão de ser sujeitos a Cristo, também nós estaremos sem corpos quando lhe estivermos completamente sujeitos. Se todos estiverem sujeitos a Deus, todos deporão os seus corpos, e toda a natureza das coisas corporais será dissolvida no nada; mas, se em segundo lugar a necessidade o exigir, ela voltará a existir por causa da queda das criaturas racionais. Pois Deus abandonou as almas à luta e ao combate, para que entendam que obtiveram uma vitória plena e perfeita não pela própria bravura, mas pela graça de Deus. E por isso penso que são criados mundos diferentes por uma variedade de causas, e refutados os erros daqueles que sustentam que os mundos se assemelham uns aos outros.” Um fragmento do original grego do texto acima se encontra na Epístola de Justiniano ao patriarca de Constantinopla: “Se as coisas sujeitas a Cristo forem no fim sujeitas também a Deus, todos deporão os seus corpos; e então, penso eu, haverá uma dissolução (analysis) da natureza dos corpos na não existência (eis to me on), para virem a existir uma segunda vez, se os (seres) racionais de novo descerem pouco a pouco (hypokatabe).”
8. In sæculum et adhuc.
9. Orígenes cita aqui a Septuaginta, que difere tanto do hebraico como da Vulgata: kai anti tou kosmou tes kephales tou chrysiou phalakroma hexeis dia ta erga sou.
10. Poderis, lit. “que chega aos pés”.
11. Clemens Rom., Ep. i., ad Cor., c. 20.
12. Esta passagem se encontra na Epístola de Jerônimo a Ávito e, traduzida literalmente, é como segue: “Uma tríplice suposição, portanto, se nos sugere a respeito do fim, das quais o leitor pode examinar qual é a verdadeira e a melhor. Pois ou viveremos sem corpo, quando, sujeitos a Cristo, estivermos sujeitos a Deus, e Deus for tudo em todos; ou, assim como as coisas sujeitas a Cristo estarão sujeitas, juntamente com o próprio Cristo, a Deus, e encerradas numa só aliança, assim toda substância será reduzida à melhor qualidade e dissolvida num éter, que é de natureza mais pura e mais simples; ou, pelo menos, aquela esfera que acima chamamos aplane, e tudo o que se contém dentro da sua circunferência (circulo), será dissolvido no nada, mas aquela pela qual a própria antizona (antizone) é mantida unida e cercada será chamada boa terra; e, além disso, outra esfera, que rodeia esta mesma terra com a sua revolução e se chama céu, será preservada para habitação dos santos.”
13. Omnique hoc mundi statu, in quo planetarum dicuntur sphæræ, supergresso atque superato.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Frederick Crombie (Ante-Nicene Fathers, vol. 4, Buffalo, 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução, feita do latim de Rufino e, nos capítulos III.1 e IV.1, do grego conservado. As notas são do tradutor inglês; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Orígenes cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.