Orígenes, Sobre os Princípios · Livro II

Capítulos 8 e 9: a alma; o mundo e as criaturas racionais

O que é a alma; o mundo, a diversidade das criaturas racionais e a justiça de Deus nessa diversidade.

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Capítulo VIII. Sobre a alma (anima)

1. A ordem da nossa exposição exige agora que, depois de discutidos os assuntos anteriores, façamos uma investigação geral a respeito da alma;1 e que, começando pelos pontos de menor importância, subamos aos de maior. Ora, que há almas2 em todos os seres vivos, até nos que vivem nas águas, ninguém, suponho, põe em dúvida. Pois a opinião geral de todos os homens o sustenta; e a isso se acrescenta a confirmação da autoridade da santa Escritura, quando se diz que “Deus fez as grandes baleias e toda alma vivente3 que se move, que as águas produziram segundo a sua espécie” (Gn 1.21).4 Isso se confirma também pelo entendimento comum da razão, da parte daqueles que estabelecem em termos precisos uma definição de alma. Pois a alma se define assim: uma substância phantastike e hormetike, o que se pode verter para o latim, embora não com tanta propriedade, por sensibilis et mobilis.5 Isso certamente se pode dizer com propriedade de todos os seres viventes, até dos que habitam nas águas; e também das criaturas aladas se pode mostrar que vale essa mesma definição de anima. A Escritura acrescentou ainda a sua autoridade a uma segunda opinião, quando diz: “Vocês não comerão o sangue, porque a vida6 de toda carne é o seu sangue; e não comerão a vida com a carne” (Lv 17.14);7 com isso indica com toda a clareza que o sangue de todo animal é a sua vida. E se alguém agora perguntasse como se pode dizer, a respeito das abelhas, das vespas e das formigas, e daqueles outros seres que vivem nas águas, as ostras e os berbigões, e de todos os demais que não têm sangue e que se mostram com toda a evidência seres vivos, que “a vida de toda carne é o sangue”, devemos responder que, nos seres vivos desse tipo, a força que nos outros animais é exercida pela virtude do sangue vermelho é exercida pelo líquido que há neles, ainda que seja de outra cor; pois a cor é coisa sem importância, contanto que a substância seja dotada de vida.8 Que os animais de carga ou o gado miúdo são dotados de alma,9 não há, por consenso geral, dúvida nenhuma. A opinião da santa Escritura, porém, é manifesta, quando Deus diz: “Que a terra produza a alma vivente segundo a sua espécie, quadrúpedes, répteis e animais da terra segundo a sua espécie” (Gn 1.24).10 E agora, quanto ao homem, embora ninguém tenha dúvida nem precise investigar, a santa Escritura declara que “Deus soprou em seu rosto o fôlego de vida, e o homem se tornou alma vivente” (Gn 2.7).11 Resta investigar, a respeito da ordem angélica, se também eles têm alma ou são almas; e também a respeito dos outros poderes divinos e celestes, bem como dos de natureza oposta. Em parte alguma, de fato, encontramos na santa Escritura autoridade para afirmar que os anjos, ou quaisquer outros espíritos divinos que são ministros de Deus, possuem alma ou são chamados almas; e, no entanto, muitíssimas pessoas os percebem como dotados de vida. Mas, a respeito de Deus, encontramos escrito o seguinte: “E porei a minha alma sobre aquela alma que comeu sangue, e a eliminarei do meio do seu povo” (Lv 17.10);12 e também em outra passagem: “As luas novas, os sábados e os grandes dias de vocês, não os aceitarei; os jejuns, os feriados e os dias de festa de vocês, a minha alma os odeia” (Is 1.13-14). E no salmo vinte e dois, a respeito de Cristo (pois é certo, como o Evangelho testemunha, que esse salmo se refere a ele), ocorrem as seguintes palavras: “Senhor, não te afastes para me socorrer; cuida da minha defesa. Ó Deus, livra a minha alma da espada, e a minha amada da mão do cão” (Sl 22.19-20);13 embora haja também muitos outros testemunhos a respeito da alma de Cristo quando ele habitou na carne.

2. Mas a natureza da encarnação tornará desnecessária qualquer investigação sobre a alma de Cristo. Pois, assim como ele verdadeiramente possuiu carne, assim também verdadeiramente possuiu alma. É difícil, de fato, tanto perceber como expressar de que modo se deve entender aquilo que na Escritura se chama alma de Deus; pois reconhecemos que essa natureza é simples, sem nenhuma mistura ou acréscimo. Seja qual for o modo de entendê-lo, parece, por enquanto, que se fala de uma alma de Deus; ao passo que, a respeito de Cristo, não há dúvida. E por isso não me parece absurdo entender ou afirmar algo semelhante a respeito dos santos anjos e dos outros poderes celestes, visto que aquela definição de alma parece aplicar-se também a eles. Pois quem pode negar racionalmente que eles são “sensíveis e móveis”? Mas, se parecer correta a definição segundo a qual se diz que a alma é uma substância racionalmente “sensível e móvel”, a mesma definição pareceria aplicar-se também aos anjos. Pois que outra coisa há neles senão sentimento e movimento racionais? Ora, os seres compreendidos sob a mesma definição têm, sem dúvida, a mesma substância. Paulo, de fato, dá a entender que há uma espécie de homem animal14 que, diz ele, não pode receber as coisas do Espírito de Deus, mas declara que a doutrina do Espírito Santo lhe parece loucura, e que ele não consegue entender o que se deve discernir espiritualmente. Em outra passagem, diz que se semeia corpo animal e ressuscita corpo espiritual, mostrando que na ressurreição dos justos não haverá nada de natureza animal. E por isso investigamos se acaso existe alguma substância que, enquanto é anima, seja imperfeita. Mas se ela é imperfeita porque decaiu da perfeição, ou porque foi criada assim por Deus, será objeto de investigação quando cada tema particular começar a ser discutido em ordem. Pois, se o homem animal não recebe as coisas do Espírito de Deus e, por ser animal, é incapaz de admitir o entendimento de uma natureza melhor, isto é, divina, talvez seja por essa razão que Paulo, querendo ensinar-nos mais claramente o que é aquilo por meio do qual podemos compreender as coisas que são do Espírito, isto é, as coisas espirituais, une e associa ao Espírito Santo uma inteligência15 e não uma alma.16 Pois é isso, penso eu, que ele indica quando diz: “Orarei com o espírito, mas orarei também com a inteligência; cantarei com o espírito, mas cantarei também com a inteligência” (1Co 14.15). E ele não diz: “Orarei com a alma”, mas com o espírito e com a inteligência. Nem diz: “Cantarei com a alma”, mas com o espírito e com a inteligência.

3. Mas talvez se faça esta pergunta: se é a inteligência que ora e canta com o espírito, e se é ela mesma que recebe tanto a perfeição como a salvação, como é que Pedro diz: “obtendo o fim da sua fé, a salvação das suas almas” (1Pe 1.9)? Se a alma nem ora nem canta com o espírito, como esperará a salvação? Ou, quando alcançar a bem-aventurança, já não se chamará alma?17 Vejamos se talvez se possa responder deste modo: assim como o Salvador veio salvar o que estava perdido, e aquilo que antes se dizia perdido não está perdido quando é salvo, assim também, talvez, isto que é salvo se chama alma e, quando tiver sido posto em estado de salvação, receberá do Verbo um nome que indique a sua condição mais perfeita. Mas a alguns parece que se pode acrescentar também isto: assim como aquilo que se perdeu sem dúvida existia antes de se perder, e nesse tempo era outra coisa que não algo destruído, assim também será quando já não estiver em estado de ruína. Do mesmo modo, também a alma que se diz ter perecido parecerá ter sido alguma coisa num tempo em que ainda não havia perecido, e por isso se chamaria alma; e, livre de novo da destruição, poderá tornar-se pela segunda vez o que era antes de perecer, e chamar-se alma. Mas, a partir do próprio significado do nome alma que a palavra grega transmite, pareceu a alguns poucos investigadores curiosos que se pode sugerir um sentido de não pequena importância. Pois na linguagem sagrada Deus é chamado fogo, como quando a Escritura diz: “O nosso Deus é fogo consumidor” (Dt 4.24). A respeito da substância dos anjos também ela fala assim: “Que faz dos seus anjos espíritos, e dos seus ministros fogo ardente” (Sl 104.4; cf. Hb 1.7); e em outro lugar: “O Anjo do Senhor apareceu numa chama de fogo na sarça” (Êx 3.2). Recebemos, além disso, o mandamento de ser “fervorosos de espírito” (Rm 12.11), expressão pela qual, sem dúvida, se mostra que o Verbo de Deus é quente e ígneo. Também o profeta Jeremias ouve daquele que lhe dava as respostas: “Eis que pus na tua boca as minhas palavras, um fogo” (cf. Jr 1.9).18 Sendo, pois, Deus fogo, e os anjos chama de fogo, e todos os santos fervorosos de espírito, assim, ao contrário, dos que se afastaram do amor de Deus se diz, sem dúvida, que esfriaram na sua afeição por ele e se tornaram frios. Pois o Senhor também diz que, “por se multiplicar a maldade, o amor de muitos se esfriará” (Mt 24.12). Mais ainda: em todas as coisas, quaisquer que sejam, com que a santa Escritura compara o poder hostil, diz-se que o diabo se acha sempre frio; e o que se acha mais frio do que ele? Também no mar se diz que reina o dragão. Pois o profeta (cf. Ez 32.2ss) dá a entender que a serpente e o dragão, o que certamente se refere a um dos espíritos malignos, está também no mar. E em outro lugar o profeta diz: “Desembainharei a minha santa espada contra o dragão, a serpente voadora, contra o dragão, a serpente tortuosa, e o matarei” (Is 27.1). E diz ainda: “Ainda que se escondam dos meus olhos e desçam às profundezas do mar, ali darei ordem à serpente, e ela os morderá” (Am 9.3). No livro de Jó também se diz que ele é o rei de todas as coisas que estão nas águas (Jó 41.34). O profeta (Jr 1.14) ameaça que os males serão acesos pelo vento norte sobre todos os que habitam a terra. Ora, o vento norte é descrito na santa Escritura como frio, segundo o que se diz no livro da Sabedoria: “aquele frio vento norte” (Eclo 43.20); e o mesmo, sem dúvida, se deve entender também do diabo. Se, pois, as coisas santas são chamadas fogo, luz e fervorosas, ao passo que as de natureza oposta se dizem frias; e se se diz que o amor de muitos esfriará; temos de investigar se talvez o nome alma, que em grego se diz psyche, não vem de esfriar-se,19 a partir de uma condição melhor e mais divina, e daí se deriva, porque ela parece ter esfriado daquele calor natural e divino, e por isso foi posta na sua posição presente e chamada pelo seu nome presente. Por fim, veja se você consegue achar com facilidade um lugar na santa Escritura em que a alma seja mencionada propriamente em termos de louvor: ao contrário, ela aparece com frequência acompanhada de expressões de censura, como na passagem: “Uma alma má arruína quem a possui” (Eclo 6.4); e: “A alma que pecar, essa morrerá” (Ez 18.4; cf. 18.20). Pois, depois de ter dito: “Todas as almas são minhas; como a alma do pai, assim também a alma do filho é minha” (Ez 18.4), parecia seguir-se que ele diria: “A alma que praticar a justiça, essa será salva”, e “A alma que pecar, essa morrerá”. Mas agora vemos que ele associou à alma o que é censurável e calou o que era digno de louvor. Temos, pois, de ver se, porventura, como dissemos que o próprio nome declara, ela foi chamada psyche, isto é, anima, porque esfriou do fervor das coisas justas20 e da participação no fogo divino, e, no entanto, não perdeu o poder de restaurar-se àquela condição de fervor em que estava no princípio. Daí também o profeta parece indicar algo semelhante com as palavras: “Volta, ó minha alma, ao teu repouso” (Sl 116.7). De tudo isso parece resultar que a inteligência, decaindo do seu estado e da sua dignidade, foi feita ou chamada alma; e que, se for reparada e corrigida, volta à condição de inteligência.21

4. Ora, se é assim, parece-me que essa mesma decadência e queda da inteligência não é igual em todos, mas que essa conversão em alma se dá em grau maior ou menor em casos diferentes, e que certas inteligências conservam algo até do seu vigor anterior, e outras, por sua vez, nada ou muito pouco. Daí que alguns se mostram, desde o próprio começo da vida, de intelecto mais ativo, outros de disposição mental mais lenta, e alguns nascem inteiramente obtusos e de todo incapazes de instrução. Mas a nossa afirmação de que a inteligência se converte em alma, ou o que mais pareça ter esse sentido, o leitor deve considerá-la com cuidado e decidir por si mesmo, pois estas ideias não devem ser tidas como apresentadas por nós de modo dogmático, mas simplesmente como opiniões, tratadas à maneira de investigação e discussão. Considere o leitor também isto: observa-se, a respeito da alma do Salvador, que, das coisas escritas no Evangelho, algumas lhe são atribuídas sob o nome de alma, e outras sob o de espírito. Pois, quando o Evangelho quer indicar algum sofrimento ou perturbação que o afeta, indica-o sob o nome de alma; como quando diz: “Agora a minha alma está angustiada” (Jo 12.27); e: “A minha alma está profundamente triste até a morte” (Mt 26.38); e: “Ninguém tira de mim a minha alma,22 mas eu a dou por mim mesmo” (Jo 10.18). Nas mãos do seu Pai ele não entrega a sua alma, mas o seu espírito; e, quando diz que a carne é fraca, não diz que a alma está pronta, mas o espírito; donde se vê que a alma é algo intermediário entre a carne fraca e o espírito pronto.

5. Mas talvez alguém nos venha com uma daquelas objeções sobre as quais nós mesmos já advertimos você nas nossas exposições, e diga: “Como, então, se diz que há também uma alma de Deus?” A isso respondemos assim: do mesmo modo que, a respeito de tudo o que de corpóreo se diz de Deus, como dedos, mãos, braços, olhos, pés ou boca, dizemos que não se devem entender como membros humanos, mas que por esses nomes de membros do corpo se indicam certos poderes seus, assim também devemos supor que é outra coisa o que se designa por este título: alma de Deus. E, se nos é permitido ousar dizer algo mais sobre tal assunto, talvez se possa entender por alma de Deus o Filho unigênito de Deus. Pois, assim como a alma, implantada no corpo, move tudo nele e exerce a sua força sobre tudo aquilo em que atua, assim também o Filho unigênito de Deus, que é o seu Verbo e a sua Sabedoria, se estende e alcança todo poder de Deus, estando implantado nele; e talvez seja para indicar este mistério que Deus é chamado ou descrito na Escritura como um corpo. Devemos, de fato, considerar se não é talvez por esta razão que se pode entender por alma de Deus o seu Filho unigênito: porque ele mesmo veio a este mundo de aflição, desceu a este vale de lágrimas e a este lugar da nossa humilhação; como ele diz no Salmo: “Porque nos humilhaste no lugar da aflição” (Sl 44.19). Por fim, sei que certos intérpretes, ao explicar as palavras ditas pelo Salvador no Evangelho: “A minha alma está profundamente triste até a morte” (Mt 26.38), as entenderam dos apóstolos, a quem ele teria chamado sua alma por serem melhores do que o resto do seu corpo. Pois, como a multidão dos crentes se chama seu corpo, dizem eles que os apóstolos, por serem melhores do que o resto do corpo, devem ser entendidos como a sua alma.

Apresentamos, como melhor pudemos, estes pontos a respeito da alma racional, como temas de discussão para os nossos leitores, e não como proposições dogmáticas e bem definidas. E, quanto às almas dos animais e das outras criaturas mudas, baste o que dissemos acima em termos gerais.

Capítulo IX. Sobre o mundo e os movimentos das criaturas racionais, sejam bons ou maus; e sobre as suas causas

1. Mas voltemos agora à ordem da discussão proposta e contemplemos o começo da criação, tanto quanto a inteligência pode contemplar o princípio da criação de Deus. Naquele começo,23 portanto, devemos supor que Deus criou um número tão grande de criaturas racionais ou intelectuais (ou seja qual for o nome que se lhes deva dar), as quais antes denominamos inteligências, quanto previu que seria suficiente. É certo que as fez segundo um número definido, predeterminado por ele mesmo: pois não se deve imaginar, como alguns querem, que as criaturas não têm limite, porque onde não há limite não pode haver nem compreensão nem delimitação. Ora, se fosse assim, certamente as coisas criadas não poderiam ser contidas nem administradas por Deus. Pois, por natureza, tudo o que é infinito será também incompreensível. Além disso, como diz a Escritura: “Deus dispôs todas as coisas em número e medida” (Sb 11.20);24 e por isso o número se aplicará corretamente às criaturas racionais ou inteligências, de modo que sejam tão numerosas quanto possam ser dispostas, governadas e dirigidas por Deus. Já a medida se aplicará apropriadamente a um corpo material; e essa medida, devemos crer, foi criada por Deus tal como ele sabia que seria suficiente para o ornamento do mundo. Estas são, pois, as coisas que devemos crer terem sido criadas por Deus no princípio, isto é, antes de todas as coisas. E isso, pensamos, é indicado até naquele princípio que Moisés introduziu em termos um tanto ambíguos, quando diz: “No princípio, Deus fez o céu e a terra” (Gn 1.1). Pois é certo que não se fala do firmamento nem da terra seca, mas daquele céu e daquela terra dos quais este céu e esta terra presentes, que agora vemos, tomaram depois os seus nomes.

2. Mas, como aquelas naturezas racionais que, conforme dissemos acima, foram feitas no princípio, foram criadas quando antes não existiam, por isso mesmo, pelo próprio fato de não terem existido e de terem começado a ser, são necessariamente mutáveis e sujeitas a mudança; visto que qualquer poder que havia na sua substância não estava nela por natureza, mas era efeito da bondade do seu Criador. Aquilo que são, portanto, não é próprio delas nem dura para sempre, mas é concedido por Deus. Pois nem sempre existiu; e tudo o que é dom pode também ser retirado e desaparecer. E a razão da retirada estará em que os movimentos das almas não sejam conduzidos segundo o que é reto e conveniente. Pois o Criador concedeu, como favor, às inteligências por ele criadas o poder de agir livre e voluntariamente, para que o bem que havia nelas se tornasse próprio delas, sendo preservado pelo esforço da sua própria vontade; mas a preguiça, a aversão ao trabalho de preservar o bem, e o desgosto e o descaso pelas coisas melhores deram início ao afastamento do bem. Ora, afastar-se do bem não é outra coisa senão tornar-se mau. Pois é certo que carecer de bondade é ser mau. Daí acontece que, na medida em que alguém decai da bondade, na mesma medida se envolve na maldade. Nessa condição, segundo as suas ações, cada inteligência, negligenciando o bem em grau maior ou menor, foi arrastada para o contrário do bem, que sem dúvida é o mal. Disso parece que o Criador de todas as coisas admitiu certas sementes e causas de variedade e diversidade, para criar variedade e diversidade em proporção à diversidade das inteligências, isto é, das criaturas racionais, diversidade que se deve supor que elas contraíram pela causa que mencionamos acima. E o que entendemos por variedade e diversidade é o que agora queremos explicar.

3. Ora, chamamos mundo tudo o que está acima dos céus, ou nos céus, ou sobre a terra, ou naqueles lugares que se chamam regiões inferiores, ou quaisquer lugares que existam em qualquer parte, juntamente com os seus habitantes. Este todo, pois, se chama mundo. Nesse mundo, certos seres se dizem supracelestes, isto é, postos em moradas mais felizes e revestidos de corpos celestes e resplandecentes; e entre eles se mostra haver muitas distinções, como quando o apóstolo diz: “Uma é a glória do sol; outra, a glória da lua; e outra, a das estrelas. Porque até entre estrela e estrela há diferenças de glória” (1Co 15.41). Certos seres se chamam terrestres, e entre eles, isto é, entre os homens, não é pequena a diferença; pois alguns deles são bárbaros, outros gregos; e dos bárbaros, alguns são selvagens e ferozes, outros de índole mais branda. E alguns deles vivem sob leis plenamente aprovadas; outros, sob leis mais vulgares ou mais severas;25 ao passo que alguns, por sua vez, têm costumes desumanos e selvagens, mais do que leis. E alguns deles, desde a hora do nascimento, são reduzidos à humilhação e à sujeição, e criados como escravos, postos sob o domínio de senhores, ou de príncipes, ou de tiranos. Outros, por sua vez, são criados de modo mais conforme à liberdade e à razão: alguns com corpo são, outros com corpo enfermo desde os primeiros anos; alguns com defeito na vista, outros na audição e na fala; alguns nascidos nessa condição, outros privados do uso dos sentidos logo depois do nascimento, ou ao menos sofrendo tal desgraça ao chegar à idade adulta. E por que eu haveria de repetir e enumerar todos os horrores da miséria humana, dos quais alguns ficaram livres e nos quais outros se viram envolvidos, quando cada um pode pesá-los e considerá-los por si mesmo? Há também certos poderes invisíveis aos quais foi confiada a administração das coisas terrenas; e entre eles se deve crer que existe não pequena diferença, como também se verifica entre os homens. O apóstolo Paulo, de fato, dá a entender que há certos poderes inferiores,26 e que entre eles, do mesmo modo, se deve sem dúvida buscar uma razão de diversidade. Quanto aos animais mudos, às aves e às criaturas que vivem nas águas, parece supérfluo investigar; pois é certo que estes devem ser considerados não de primeira categoria, mas de categoria subordinada.

4. Visto, pois, que todas as coisas criadas se dizem feitas por meio de Cristo e em Cristo, como o apóstolo Paulo indica com toda a clareza quando diz: “Pois nele e por ele foram criadas todas as coisas, as que estão nos céus e as que estão sobre a terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam potestades, sejam principados, sejam soberanias; tudo foi criado por ele e nele” (Cl 1.16); e como João, no seu Evangelho, indica o mesmo, dizendo: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez” (Jo 1.1-3); e como também no Salmo está escrito: “Fizeste todas elas com sabedoria” (Sl 104.24); visto, pois, que Cristo é, por assim dizer, o Verbo e a Sabedoria, e também a Justiça, seguir-se-á sem dúvida que as coisas criadas no Verbo e na Sabedoria se dizem criadas também naquela justiça que é Cristo; de modo que nas coisas criadas não pareça haver nada de injusto ou de casual, mas que todas se mostrem em conformidade com a lei da equidade e da justiça. Como, pois, tamanha variedade de coisas e tamanha diversidade podem ser entendidas como inteiramente justas e retas, estou certo de que nenhum poder ou linguagem humana pode explicar, a não ser que, prostrados como suplicantes, oremos ao próprio Verbo, Sabedoria e Justiça, que é o Filho unigênito de Deus, e que, derramando-se pelas suas graças nos nossos sentidos, se digne iluminar o que é obscuro, abrir o que está oculto e revelar o que é secreto; se é que formos achados buscando, pedindo ou batendo de modo tão digno que mereçamos receber quando pedimos, achar quando buscamos, ou que nos seja aberto quando batemos. Não confiando, pois, nas nossas próprias forças, mas no auxílio daquela Sabedoria que fez todas as coisas e daquela Justiça que cremos estar em todas as suas criaturas, embora por enquanto sejamos incapazes de declará-la, mas confiando na sua misericórdia, procuraremos examinar e investigar como aquela grande variedade e diversidade no mundo pode mostrar-se compatível com toda justiça e razão. Refiro-me, naturalmente, apenas à razão em geral; pois seria sinal de ignorância buscar, ou de insensatez dar, uma razão especial para cada caso individual.

5. Ora, quando dizemos que este mundo foi estabelecido na variedade em que, como explicamos acima, foi criado por Deus, e quando dizemos que esse Deus é bom, reto e justíssimo, há numerosas pessoas, sobretudo as que, vindas da escola de Marcião, de Valentino e de Basílides, ouviram que há almas de naturezas diferentes, que nos objetam que não pode condizer com a justiça de Deus, ao criar o mundo, conceder a algumas das suas criaturas morada nos céus, e não só dar-lhes essa habitação melhor, mas também conceder-lhes uma posição mais elevada e mais honrosa; favorecer outras com a concessão de principados; conferir potestades a algumas e soberanias a outras; dar a algumas os assentos mais honrosos nos tribunais celestes; fazer que algumas brilhem com glória mais resplandecente e cintilem com esplendor de estrela; dar a umas a glória do sol, a outras a glória da lua, a outras a glória das estrelas; fazer que uma estrela difira de outra estrela em glória. E, para dizê-lo de uma vez e brevemente, se ao Deus Criador não falta nem a vontade de empreender nem o poder de completar uma obra boa e perfeita, que razão pode haver para que, na criação das naturezas racionais, isto é, de seres de cuja existência ele mesmo é a causa, fizesse alguns de categoria mais alta, e outros de segunda, ou de terceira, ou de muitos graus mais baixos e inferiores? Em seguida, objetam-nos, a respeito dos seres terrestres, que alguns têm por nascimento uma sorte mais feliz do que outros; como um homem, por exemplo, é gerado de Abraão e nasce da promessa; outro, de Isaque e Rebeca, e, ainda no ventre, suplanta o irmão e se diz amado por Deus antes de nascer. Mais ainda: esta mesma circunstância (sobretudo que um homem nasça entre os hebreus, junto aos quais encontra instrução na lei divina; outro entre os gregos, também eles sábios e homens de não pouca erudição; e ainda outro entre os etíopes, que costumam alimentar-se de carne humana; ou entre os citas, entre os quais o parricídio é ato sancionado por lei; ou entre o povo de Tauro, onde os estrangeiros são oferecidos em sacrifício) é motivo de forte objeção. O argumento deles, portanto, é este: se há essa grande diversidade de circunstâncias e essa condição diversa e variável por nascimento, na qual a faculdade do livre-arbítrio não tem lugar (pois ninguém escolhe para si onde, com quem ou em que condição nasce); se, pois, isso não é causado pela diferença na natureza das almas, isto é, porque uma alma de natureza má é destinada a uma nação perversa, e uma alma boa a uma nação justa, que outra conclusão resta senão que se deve supor que essas coisas são regidas pelo acaso e pela sorte? E, admitido isso, já não se crerá que o mundo foi feito por Deus ou é administrado pela sua providência; e, como consequência, um juízo de Deus sobre as obras de cada um parecerá coisa que não se deve esperar. Nesse assunto, de fato, conhecer o que é claramente a verdade das coisas é privilégio só daquele que sonda todas as coisas, até as profundezas de Deus.

6. Nós, porém, embora sejamos apenas homens, para não alimentar com o nosso silêncio a insolência dos hereges, daremos às suas objeções as respostas que nos ocorrerem, na medida em que as nossas capacidades o permitirem. Mostramos muitas vezes, pelas declarações que pudemos apresentar das santas Escrituras, que Deus, Criador de todas as coisas, é bom, justo e todo-poderoso. Quando ele, no princípio, criou os seres que desejou criar, isto é, as naturezas racionais, não teve outra razão para criá-los senão ele mesmo, isto é, a sua própria bondade. Sendo, pois, ele mesmo a causa da existência das coisas que haviam de ser criadas, e não havendo nele nenhuma variação, nem mudança, nem falta de poder, criou iguais e semelhantes todos os que fez, porque não havia nele mesmo nenhuma razão para produzir variedade e diversidade. Mas, como essas mesmas criaturas racionais, conforme mostramos muitas vezes e ainda mostraremos no lugar próprio, foram dotadas do poder do livre-arbítrio, essa liberdade da vontade incitou cada uma a progredir pela imitação de Deus, ou a reduziu ao fracasso pela negligência. E essa, como já dissemos, é a causa da diversidade entre as criaturas racionais, que tem origem não na vontade ou no juízo do Criador, mas na liberdade da vontade de cada um. Ora, Deus, que julgou justo dispor as suas criaturas segundo o seu mérito, trouxe essas diferentes inteligências para a harmonia de um só mundo, para ornar, por assim dizer, uma só morada, na qual deve haver não só utensílios de ouro e de prata, mas também de madeira e de barro (e uns para honra, outros para desonra), com esses diferentes utensílios, ou almas, ou inteligências. E estas são, na minha opinião, as causas por que aquele mundo apresenta o aspecto de diversidade, enquanto a divina Providência continua a dirigir cada um segundo a variedade dos seus movimentos, ou dos seus sentimentos e propósito. Por isso, nem o Criador parecerá injusto ao distribuir (pelas causas já mencionadas) a cada um segundo os seus méritos; nem a felicidade ou a infelicidade do nascimento de cada um, ou qualquer que seja a condição que lhe cabe por sorte, será tida como casual; nem se crerá que existem criadores diferentes, ou almas de naturezas diferentes.

7. Mas nem mesmo a santa Escritura me parece de todo silenciosa sobre a natureza deste segredo, como quando o apóstolo Paulo, ao discutir o caso de Jacó e Esaú, diz: “E os gêmeos ainda não eram nascidos, nem tinham feito o bem ou o mal, para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama, foi dito: O mais velho será servo do mais moço, como está escrito: Amei Jacó, porém desprezei Esaú” (Rm 9.11-13). E depois disso ele mesmo se responde e diz: “Que diremos, então? Há injustiça da parte de Deus?” E, para nos dar ocasião de investigar estas questões e de verificar como estas coisas não acontecem sem razão, ele mesmo se responde e diz: “De modo nenhum” (Rm 9.14).27 Pois a mesma questão, segundo me parece, que se levanta a respeito de Jacó e Esaú, pode levantar-se a respeito de todas as criaturas celestes e terrestres, e até das do mundo inferior. E do mesmo modo me parece que, assim como ali ele diz: “Os gêmeos ainda não eram nascidos, nem tinham feito o bem ou o mal”, assim também se poderia dizer de todas as outras coisas: “Quando ainda não” tinham sido criadas, “nem tinham ainda feito o bem ou o mal, para que o decreto de Deus, quanto à eleição, prevalecesse”, que (como alguns pensam) umas coisas foram criadas celestes, outras terrestres, e outras ainda debaixo da terra, “não por obras” (como eles pensam), “mas por aquele que chama”; que diremos, então, se estas coisas são assim? “Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum.” Assim, pois, como, quando se examinam com cuidado as Escrituras a respeito de Jacó e Esaú, não se acha que haja injustiça da parte de Deus em que se dissesse, antes de nascerem ou de terem feito alguma coisa nesta vida: “o mais velho será servo do mais moço”; e como se acha que não é injustiça que, até no ventre, Jacó suplantasse o irmão, se entendermos que ele foi dignamente amado por Deus segundo os merecimentos da sua vida anterior, de modo a merecer ser preferido ao irmão; assim também acontece com as criaturas celestes, se notarmos que a diversidade não foi a condição original da criatura, mas que, por causas que existiram antes, o Criador prepara para cada uma um ofício diferente, em proporção ao grau do seu mérito; e isso por esta razão: cada uma, por ter sido criada por Deus como inteligência ou espírito racional, conquistou para si, segundo os movimentos da sua mente e os sentimentos da sua alma, uma porção maior ou menor de mérito, e tornou-se objeto de amor para Deus ou então de desagrado para ele; ao passo que, não obstante, alguns dos que possuem maior mérito são ordenados a sofrer com os outros para o ornamento do estado do mundo e para o cumprimento do dever para com criaturas de grau inferior, a fim de que, por esse meio, eles mesmos sejam participantes da paciência do Criador, segundo as palavras do apóstolo: “Pois a criação foi sujeita à vaidade, não por sua própria vontade, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança” (Rm 8.20). Tendo, pois, em vista o sentimento expresso pelo apóstolo quando, falando do nascimento de Esaú e Jacó, diz: “Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum”, julgo justo que esse mesmo sentimento se aplique com cuidado ao caso de todas as outras criaturas, porque, como observamos antes, a justiça do Criador deve aparecer em todas as coisas. E isso, parece-me, se verá por fim com mais clareza, se se disser que cada um, seja dos seres celestes, seja dos terrestres, seja dos infernais, tem em si mesmo as causas da sua diversidade, e anteriores ao seu nascimento corporal. Pois todas as coisas foram criadas pelo Verbo de Deus e pela sua Sabedoria, e foram postas em ordem pela sua Justiça. E pela graça da sua compaixão ele provê para todos os homens, e encoraja a todos ao uso de quaisquer remédios que possam levar à sua cura, e os incita à salvação.

8. Assim, pois, como não há dúvida de que, no dia do juízo, os bons serão separados dos maus, e os justos dos injustos, e todos, pela sentença de Deus, serão distribuídos segundo os seus merecimentos pelos lugares de que são dignos, assim também sou de opinião que algo semelhante se deu anteriormente, como, se Deus quiser, mostraremos no que segue. Pois se deve crer que Deus faz e ordena todas as coisas, e em todos os tempos, segundo o seu juízo. Pois as palavras que o apóstolo usa quando diz: “Numa grande casa não há somente utensílios de ouro e de prata, mas também de madeira e de barro, e uns para honra, outros para desonra” (2Tm 2.20); e as que acrescenta, dizendo: “Se alguém se purificar, será utensílio para honra, santificado e útil ao seu senhor, preparado para toda boa obra” (2Tm 2.21), indicam sem dúvida isto: aquele que se purificar enquanto está nesta vida estará preparado para toda boa obra na vida que há de vir; ao passo que aquele que não se purificar será, segundo a medida da sua impureza, utensílio para desonra, isto é, indigno. É possível, portanto, entender que houve também anteriormente utensílios racionais, purificados ou não, isto é, que se purificaram ou não o fizeram, e que, por consequência, cada utensílio, segundo a medida da sua pureza ou impureza, recebeu neste mundo um lugar, ou região, ou condição de nascimento, ou um ofício a desempenhar. Tudo isso, até o mais humilde, Deus, provendo e distinguindo pelo poder da sua sabedoria, dispõe pelo seu juízo soberano, segundo uma retribuição perfeitamente imparcial, na medida em que cada um deve ser ajudado ou cuidado conforme os seus merecimentos. Nisso, certamente, se mostra todo princípio de equidade, enquanto a desigualdade das circunstâncias preserva a justiça de uma retribuição segundo o mérito. Mas os fundamentos dos méritos em cada caso individual só são reconhecidos com verdade e clareza pelo próprio Deus, juntamente com o seu Verbo unigênito, a sua Sabedoria e o Espírito Santo.

Notas

1. Anima.

2. Animæ.

3. Animam animantium.

4. Pasan psychen zoon, Septuaginta.

5. Erasmo observa que phantastike pode ser vertido por imaginativa, que é a inteligência; hormetike, por impulsiva, que se refere aos afetos (Schnitzer).

6. Animam.

7. He psyche pases sarkos haima autou esti, Septuaginta.

8. Vitalis.

9. Animantia.

10. “Alma vivente”: animam.

11. Animam viventem.

12. É claro que, no texto que Orígenes ou o seu tradutor tinha diante de si, deve ter-se lido psyche em vez de prosopon; do contrário, a citação seria descabida (Schnitzer).

13. Unicam meam, monogene mou.

14. Animalem.

15. Mens.

16. Anima.

17. Estas palavras se encontram na Epístola de Jerônimo a Ávito e, traduzidas literalmente, são as seguintes: “Por isso se deve usar de infinita cautela, para que porventura, depois que as almas tiverem alcançado a salvação e chegado à vida bem-aventurada, não deixem de ser almas. Pois, assim como o nosso Senhor e Salvador veio buscar e salvar o que estava perdido, para que deixasse de estar perdido, assim a alma que estava perdida, e por cuja salvação o Senhor veio, deixará de ser alma quando tiver sido salva. Deve-se examinar igualmente este ponto: se, assim como aquilo que se perdeu em algum tempo não estava perdido, e virá um tempo em que já não estará perdido, assim também em algum tempo a alma pode não ter sido alma, e pode haver um tempo em que de modo nenhum continuará a ser alma.” Uma parte desse trecho se encontra também, no grego original, na Carta do imperador Justiniano a Menas, patriarca de Constantinopla.

18. A palavra “fogo” não se encontra nem no hebraico nem na Septuaginta.

19. Psyche, de psychesthai.

20. “Decaindo e esfriando-se da vida espiritual, a alma se tornou o que agora é, mas é capaz também de voltar ao que era no princípio, o que penso ser indicado pelo profeta nas palavras: ‘Volta, ó minha alma, ao teu repouso’, de modo a ser inteiramente isso.” (Epístola de Justiniano ao patriarca de Constantinopla.)

21. “A inteligência (Nous), portanto, de algum modo se tornou alma, e a alma, restaurada, torna-se inteligência. A inteligência, decaindo, foi feita alma, e a alma, por sua vez, quando for provida de virtudes, se tornará inteligência. Pois, se examinarmos o caso de Esaú, poderemos descobrir que ele foi condenado por causa dos seus antigos pecados a um modo de vida pior. E a respeito dos corpos celestes devemos investigar que não foi no tempo em que o mundo foi criado que a alma do sol, ou como quer que se deva chamar, começou a existir, mas que antes disso ela entrou naquele corpo brilhante e ardente. Podemos ter opiniões semelhantes a respeito da lua e das estrelas: que, pelas razões acima expostas, foram compelidas, contra a vontade, a sujeitar-se à vaidade em vista das recompensas do futuro, e a fazer não a sua própria vontade, mas a vontade do seu Criador, por quem foram distribuídas pelos seus diferentes ofícios.” (Epístola de Jerônimo a Ávito.) Por estes e por outros trechos, pode-se ver quanto Rufino, na sua tradução, se afastou do original.

22. Animam.

23. O original desta passagem se encontra na Epístola de Justiniano a Menas, patriarca de Constantinopla, apud finem. “Naquele princípio que é cognoscível pela inteligência, Deus, por sua própria vontade, fez existir um número de seres inteligentes tão grande quanto era suficiente; pois devemos dizer que o poder de Deus é finito, e não, a pretexto de louvá-lo, suprimir a sua limitação. Pois, se o poder divino fosse infinito, necessariamente seria incapaz de compreender até a si mesmo, visto que aquilo que é por natureza ilimitado não pode ser compreendido. Ele fez, portanto, as coisas tão grandes quanto pudesse abarcá-las, mantê-las sob o seu poder e governá-las pela sua providência; assim também preparou uma matéria de tal tamanho (tosauten hylen) quanto tinha poder para ornar.”

24. “Tu dispuseste todas as coisas com medida, número e peso.”

25. Vilioribus et asperioribus.

26. Inferna.

27. O texto diz: “Respondet sibi ipse, et ait“, sobre o que Ruæus observa que a frase está incompleta e que provavelmente se deve suprir “absit“. Essa conjectura foi adotada na tradução.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Frederick Crombie (Ante-Nicene Fathers, vol. 4, Buffalo, 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução, feita do latim de Rufino e, nos capítulos III.1 e IV.1, do grego conservado. As notas são do tradutor inglês; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Orígenes cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.