Atanásio, A Encarnação do Verbo · Seções 12 a 23
Por que só o Verbo podia renovar a imagem de Deus no homem; ele se faz conhecer pelas suas obras; a morte que vence a morte, em público.
#A02
Pois, embora a graça da Imagem divina fosse por si mesma suficiente para dar a conhecer Deus, o Verbo, e por meio dele o Pai, ainda assim Deus, conhecendo a fraqueza dos homens, providenciou remédio até para a sua negligência: de modo que, se não se importassem em conhecer a Deus por si mesmos, pudessem, por meio das obras da criação, evitar a ignorância a respeito do Criador. 2. Mas, como a negligência dos homens desce pouco a pouco a coisas mais baixas, Deus providenciou, uma vez mais, até para essa fraqueza deles, enviando uma lei e profetas, homens como os que eles conheciam, para que, mesmo que não estivessem dispostos a olhar para o céu e conhecer o seu Criador, recebessem instrução daqueles que estavam perto. Pois os homens conseguem aprender dos homens, de modo mais direto, as coisas mais elevadas. 3. Estava, portanto, ao alcance deles, olhando para a altura do céu e percebendo a harmonia da criação, conhecer o seu Governante, o Verbo do Pai, que, pela sua própria providência sobre todas as coisas, dá a conhecer o Pai a todos, e para esse fim move todas as coisas, a fim de que por meio dele todos conheçam a Deus. 4. Ou, se isso fosse demais para eles, era-lhes possível ao menos encontrar os homens santos e, por meio deles, aprender sobre Deus, o Criador de todas as coisas, o Pai de Cristo; e aprender que o culto aos ídolos é ausência de Deus e está cheio de toda impiedade. 5. Ou ainda lhes era possível, conhecendo ao menos a lei, deixar toda iniquidade e viver uma vida virtuosa. Pois nem a lei era só para os judeus, nem os profetas foram enviados apenas para eles; antes, embora enviados aos judeus e perseguidos pelos judeus, eram para o mundo inteiro uma escola santa do conhecimento de Deus e da conduta da alma. 6. Sendo, pois, tão grandes a bondade e o amor de Deus pelos homens, os homens, no entanto, vencidos pelos prazeres do momento e pelas ilusões e enganos enviados pelos demônios, não ergueram a cabeça para a verdade, mas se carregaram ainda mais de males e pecados, a ponto de já não parecerem racionais, mas, pelo seu modo de viver, serem tidos como desprovidos de razão.
Assim, pois, estando os homens embrutecidos dessa maneira, e o engano dos demônios encobrindo assim todo lugar e escondendo o conhecimento do Deus verdadeiro, que deveria Deus fazer? Guardar silêncio diante de algo tão grave e permitir que os homens fossem desviados pelos demônios e não conhecessem a Deus? 2. E de que serviria o homem ter sido feito, desde o princípio, à imagem de Deus? Pois teria sido melhor para ele ter sido feito simplesmente como um animal irracional do que, uma vez feito racional, viver1 a vida dos irracionais. 3. Ou que necessidade havia de ele receber, desde o começo, a noção de Deus? Pois, se nem agora é capaz de recebê-la, melhor seria que ela não lhe tivesse sido dada no princípio. 4. Ou que proveito para Deus, que os fez, ou que glória para ele poderia haver, se os homens, feitos por ele, não o adoram, mas pensam que outros são os seus criadores? Pois assim Deus se mostraria tendo feito estes para outros, e não para si mesmo. 5. Mais uma vez: um rei, simples homem, não deixa que as terras que colonizou passem a outros para servi-los, nem que se passem para outros homens; mas os adverte por cartas, e muitas vezes lhes envia amigos, ou, se for preciso, vai em pessoa, para repreendê-los, como último recurso, com a sua presença, somente para que não sirvam a outros e a sua própria obra não seja gasta em vão. 6. Não poupará Deus muito mais as suas próprias criaturas, para que não se desviem dele nem sirvam a coisas de nada? Sobretudo porque esse desvio se mostra causa da sua ruína e perdição, e porque não era conveniente que perecessem aqueles que um dia haviam participado da imagem de Deus. 7. Que deveria, então, Deus fazer? Ou que outra coisa havia a fazer senão renovar o que era à imagem de Deus, para que por meio disso os homens pudessem outra vez conhecê-lo? Mas como isso poderia acontecer senão pela presença da própria Imagem de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo? Pois por meio dos homens era impossível, já que eles foram apenas feitos segundo uma imagem; nem por meio dos anjos, pois nem eles são imagens (de Deus). Por isso o Verbo de Deus veio em sua própria pessoa, para que, sendo ele a Imagem do Pai, pudesse criar de novo o homem segundo a imagem. 8. Mas, por outro lado, isso não poderia ter acontecido se a morte e a corrupção não fossem abolidas. 9. Por isso ele tomou, como era natural e conveniente, um corpo mortal, para que nele a morte pudesse ser abolida de uma vez por todas e os homens feitos segundo a sua Imagem pudessem outra vez ser renovados. Ninguém mais, portanto, era suficiente para essa necessidade, senão a Imagem do Pai.
Pois, assim como, quando a figura pintada num painel foi apagada por manchas vindas de fora, aquele de quem é a figura precisa vir outra vez para que o retrato possa ser renovado sobre a mesma madeira (pois, por causa da sua imagem, nem mesmo a simples madeira em que está pintada é jogada fora, mas o contorno é renovado sobre ela), 2. da mesma maneira também o santíssimo Filho do Pai, sendo a Imagem do Pai, veio às nossas regiões para renovar o homem, outrora feito à sua semelhança, e encontrá-lo, como a quem estava perdido, pela remissão dos pecados; como ele mesmo diz nos Evangelhos: “Vim para encontrar e salvar o perdido” (Lc 19.10). Por isso disse também aos judeus: “Se alguém não nascer de novo” (Jo 3.3, 5), não se referindo, como eles pensavam, ao nascimento de mulher, mas falando da alma nascida e criada de novo à semelhança da imagem de Deus. 3. Mas, como a idolatria selvagem e a ausência de Deus ocupavam o mundo, e o conhecimento de Deus estava escondido, a quem cabia ensinar ao mundo acerca do Pai? Ao homem, alguém diria? Mas não estava ao alcance do homem penetrar em toda parte debaixo do sol; pois nem tinham força física para correr tão longe, nem conseguiriam merecer crédito nesse assunto, nem eram suficientes, por si mesmos, para resistir ao engano e às imposturas dos espíritos malignos. 4. Pois, estando todos feridos e confusos na alma pelo engano dos demônios e pela vaidade dos ídolos, como lhes seria possível conquistar a alma e a mente do homem, se nem sequer conseguem vê-las? Ou como pode alguém converter aquilo que não vê? 5. Mas talvez alguém dissesse que a criação bastava; ora, se a criação bastasse, esses grandes males nunca teriam acontecido. Pois a criação já estava ali e, ainda assim, os homens se arrastavam no mesmo erro a respeito de Deus. 6. De quem, então, se precisava, senão do Verbo de Deus, que vê tanto a alma como a mente, que dá movimento a todas as coisas na criação e por meio delas dá a conhecer o Pai? Pois aquele que, pela sua própria providência e pelo ordenamento de todas as coisas, ensinava os homens acerca do Pai, esse era o que podia também renovar esse mesmo ensino. 7. Como, então, isso poderia ser feito? Talvez alguém dissesse que estavam abertos os mesmos meios de antes, para que ele mostrasse outra vez a verdade sobre o Pai por meio da obra da criação. Mas esse já não era um meio seguro. Muito pelo contrário: pois os homens deixaram de ver isso antes, e já não voltam os olhos para cima, mas para baixo. 8. Por isso, querendo, como era natural, beneficiar os homens, ele habita aqui como homem, tomando para si um corpo semelhante aos dos outros, e, a partir das coisas da terra, isto é, pelas obras do seu corpo [ele os ensina], para que aqueles que não quiseram conhecê-lo pela sua providência e pelo seu governo sobre todas as coisas possam, ao menos pelas obras feitas por meio do seu próprio corpo, conhecer o Verbo de Deus que está no corpo e, por meio dele, o Pai.
Pois, assim como um mestre bondoso, que cuida dos seus discípulos, quando alguns deles não conseguem tirar proveito das matérias mais elevadas, desce ao nível deles e os ensina, ao menos, por lições mais simples, assim também fez o Verbo de Deus. Como diz também Paulo: “Visto que, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, Deus achou por bem salvar os que creem por meio da loucura da pregação” (1Co 1.21). 2. Pois, visto que os homens, tendo rejeitado a contemplação de Deus e com os olhos voltados para baixo, como que afundados no abismo, andavam buscando a Deus na natureza e no mundo dos sentidos, fingindo para si deuses feitos de homens mortais e de demônios, para esse fim o Salvador amoroso e universal de todos, o Verbo de Deus, toma para si um corpo e, como homem, anda entre os homens e vai ao encontro dos sentidos de todos os homens no meio do caminho2, a fim de que, digo, os que pensam que Deus é corpóreo percebam a verdade pelo que o Senhor realiza por meio do seu corpo e, por meio dele, reconheçam3 o Pai. 3. Assim, homens como eram, e humanos em todos os seus pensamentos, em qualquer objeto em que fixassem os sentidos, ali se viam encontrados no meio do caminho4 e ensinados na verdade por todos os lados. 4. Pois, se olhavam com temor para a criação, viam, no entanto, como ela confessava a Cristo como Senhor; ou, se a sua mente se inclinava para os homens, a ponto de pensar que eram deuses, ainda assim, pelas obras do Salvador, caso as comparassem, somente o Salvador, entre os homens, aparecia como Filho de Deus; pois entre os demais não se fizeram obras como as que foram feitas pelo Verbo de Deus. 5. Ou, se estavam inclinados até mesmo para os espíritos malignos, vendo-os, porém, expulsos pelo Verbo, deveriam reconhecer que somente ele, o Verbo de Deus, era Deus, e que os espíritos não eram deuses. 6. Ou, se a sua mente já havia descido até os mortos, a ponto de adorar heróis e os deuses de que falam os poetas, vendo, porém, a ressurreição do Salvador, deveriam confessar que aqueles são falsos deuses e que somente o Senhor é verdadeiro, o Verbo do Pai, que era Senhor até da morte. 7. Por essa causa ele nasceu e apareceu como homem, morreu e ressuscitou, ofuscando e lançando na sombra, com as suas próprias obras, as obras de todos os homens anteriores, para que, para qualquer lado a que se inclinassem os homens, dali ele os chamasse de volta e os ensinasse acerca do seu verdadeiro Pai, como ele mesmo diz: “Vim para salvar e para encontrar o que estava perdido” (Lc 19.10)5.
Pois, tendo a mente dos homens caído por fim nas coisas dos sentidos, o Verbo se ocultou, aparecendo num corpo, para, como homem, transferir os homens para si e concentrar em si os sentidos deles, e, vendo-o os homens dali em diante como homem, persuadi-los, pelas obras que fazia, de que ele não é apenas homem, mas também Deus, o Verbo e a Sabedoria do Deus verdadeiro. 2. É isso também o que Paulo quer mostrar quando diz: “Para que vocês, enraizados e alicerçados em amor, possam compreender, com todos os santos, qual é a largura, o comprimento, a altura e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que vocês fiquem cheios de toda a plenitude de Deus” (Ef 3.17-19). 3. Pois, revelando-se o Verbo em toda parte, tanto em cima como embaixo, tanto na profundidade como na largura (em cima, na criação; embaixo, ao fazer-se homem; na profundidade, no Hades; e na largura, no mundo), todas as coisas foram cheias do conhecimento de Deus. 4. Ora, também por essa causa ele não realizou o seu sacrifício por todos logo ao chegar, oferecendo o seu corpo à morte e ressuscitando-o, pois por esse6 meio ele se teria tornado invisível. Mas tornou-se bastante visível pelo que7 fez, permanecendo nele e realizando tais obras e mostrando tais sinais que o davam a conhecer não mais como homem, mas como Deus, o Verbo. 5. Pois, ao fazer-se homem, o Salvador devia realizar as duas obras do amor: primeiro, afastar de nós a morte e renovar-nos outra vez; segundo, sendo invisível e não visto, manifestar-se e dar-se a conhecer, pelas suas obras, como o Verbo do Pai e o Governante e Rei do universo.
Pois ele não estava, como se poderia imaginar, circunscrito no corpo, nem, enquanto presente no corpo, estava ausente de outros lugares; nem, enquanto movia o corpo, ficava o universo privado da sua ação e providência; mas, coisa maravilhosíssima, sendo ele o Verbo, longe de ser contido por alguma coisa, era antes ele mesmo quem continha todas as coisas; e, assim como, estando presente em toda a criação, é ao mesmo tempo distinto do universo quanto ao ser e está presente em todas as coisas pelo seu próprio poder (dando ordem a todas as coisas, revelando sobre todas e em todas a sua própria providência, dando vida a cada coisa e a todas as coisas, abrangendo o todo sem ser abrangido, mas estando somente no seu próprio Pai, inteiramente e sob todos os aspectos), 2. assim também, mesmo estando presente num corpo humano e dando-lhe ele mesmo a vida, estava, sem contradição, vivificando também o universo, estava em todo processo da natureza e estava fora do todo; e, embora conhecido a partir do corpo pelas suas obras, não deixava de manifestar-se também pela ação do universo. 3. Ora, é próprio da alma contemplar, por atos do pensamento, até o que está fora do seu próprio corpo, sem, contudo, agir fora do seu próprio corpo nem mover com a sua presença coisas distantes do corpo. Nunca, de fato, um homem, ao pensar em coisas distantes, por isso as move ou as desloca; nem, se um homem se sentasse em sua casa e raciocinasse sobre os corpos celestes, por isso moveria o sol ou faria os céus girarem. Ele vê que se movem e existem, mas sem ser capaz de exercer realmente influência sobre eles. 4. Ora, o Verbo de Deus, na sua natureza humana, não era assim; pois não estava preso ao seu corpo, mas era antes ele mesmo quem o conduzia, de modo que não estava somente nele, mas estava realmente em todas as coisas e, sendo exterior ao universo, permanecia somente no seu Pai. 5. E esta era a coisa maravilhosa: ele, ao mesmo tempo, andava como homem, como Verbo vivificava todas as coisas e como Filho habitava com o seu Pai. De modo que nem quando a Virgem o deu à luz sofreu ele alguma mudança, nem por estar no corpo foi [a sua glória] ofuscada; mas, pelo contrário, ele santificou também o corpo. 6. Pois nem por estar no universo ele participa da natureza dele; antes, pelo contrário, todas as coisas são vivificadas e sustentadas por ele. 7. Pois, se até o sol, que foi feito por ele e que nós vemos girar no céu, não se contamina8 ao tocar os corpos sobre a terra, nem é apagado pelas trevas, mas, pelo contrário, ele mesmo os ilumina e também os purifica, muito menos foi contaminado o santíssimo Verbo de Deus, Criador e Senhor também do sol, ao dar-se a conhecer no corpo; pelo contrário, sendo incorruptível, vivificou e purificou também o corpo, que em si mesmo era mortal: ele, que “não cometeu”, pois assim está dito, “pecado, nem foi encontrado engano em sua boca” (1Pe 2.22).
Portanto, quando os escritores inspirados falam dele, neste assunto, como alguém que come e que nasce, entenda9 que o corpo, como corpo, nasceu e foi sustentado com alimento correspondente à sua natureza, enquanto Deus, o próprio Verbo, que estava unido ao corpo, ao mesmo tempo que ordenava todas as coisas, mostrava também, pelas obras que fazia no corpo, que ele não era homem, mas Deus, o Verbo. Mas essas coisas são ditas dele porque o próprio corpo que comeu, nasceu e sofreu não pertencia a nenhum outro senão ao Senhor; e porque, tendo ele se feito homem, era próprio que essas coisas fossem afirmadas dele como homem, para mostrar que ele tinha um corpo em verdade, e não em aparência. 2. Mas, assim como por essas coisas se reconhecia que ele estava corporalmente presente, assim também, pelas obras que fazia no corpo, dava-se a conhecer como Filho de Deus. Por isso também clamou aos judeus incrédulos: “Se não faço as obras do meu Pai, não acreditem em mim. Mas, se faço, e vocês não creem em mim, creiam pelo menos nas obras, para que vocês possam saber e compreender que o Pai está em mim e que eu estou no Pai” (Jo 10.37-38). 3. Pois, assim como, embora invisível, ele é conhecido pelas obras da criação, assim também, tendo-se feito homem e estando invisível no corpo, pode-se saber pelas suas obras que aquele que é capaz de fazer essas coisas não é homem, mas o Poder e o Verbo de Deus. 4. Pois dar ordens aos espíritos malignos e eles serem expulsos não é obra de homem, mas de Deus. Ou quem, vendo-o curar as doenças a que o gênero humano está sujeito, ainda pode pensar que ele é homem e não Deus? Pois ele purificou leprosos, fez andar coxos, abriu os ouvidos de surdos, fez cegos tornarem a ver e, numa palavra, afastou dos homens todas as doenças e enfermidades: por esses atos, até o observador mais comum podia ver a sua divindade. Pois quem, vendo-o restituir10 o que faltava a homens que nasceram com falta e abrir os olhos do cego de nascença, deixaria de perceber que a natureza dos homens lhe estava sujeita e que ele era o seu Artífice e Criador? Pois aquele que restituiu o que o homem não tinha desde o nascimento deve ser, é certamente evidente, também o Senhor do nascimento natural dos homens. 5. Por isso, já no começo, quando descia até nós, ele formou para si o seu corpo a partir de uma virgem, para dar assim a todos uma prova nada pequena da sua divindade, uma vez que aquele que formou esse corpo é também o Criador de todas as outras coisas. Pois quem, vendo um corpo proceder somente de uma virgem, sem homem, pode deixar de concluir que aquele que nele aparece é Criador e Senhor também dos outros corpos? 6. Ou quem, vendo a substância da água mudada e transformada em vinho, deixa de perceber que aquele que fez isso é Senhor e Criador da substância de todas as águas? Pois para esse fim ele também andou sobre o mar como seu Senhor e caminhou como em terra seca, para dar aos que o viam a prova do seu senhorio sobre todas as coisas. E, ao alimentar com pouco uma multidão tão vasta e, de si mesmo, produzir fartura onde não havia nenhuma, de modo que de cinco pães cinco mil se fartaram e ainda sobrou outro tanto, mostrou-se ele outra coisa senão o próprio Senhor, cuja providência está sobre todas as coisas?
Mas pareceu bem ao Salvador fazer tudo isso, para que, uma vez que os homens não haviam conhecido a sua providência, revelada no universo, nem percebido a sua divindade, mostrada na criação, ao menos pelas obras do seu corpo recuperassem a vista e, por meio dele, recebessem uma noção do conhecimento do Pai, inferindo, como eu disse antes, a partir dos casos particulares, a sua providência sobre o todo. 2. Pois quem, vendo o seu poder sobre os espíritos malignos, ou vendo os espíritos malignos confessarem que ele era o Senhor deles, ainda manterá a mente em dúvida sobre se este é o Filho, a Sabedoria e o Poder de Deus? 3. Pois ele fez até a criação romper o silêncio: visto que, até na sua morte, coisa maravilhosa de contar, ou antes no seu próprio troféu sobre a morte (refiro-me à cruz), toda a criação confessava que aquele que se manifestou e sofreu no corpo não era simplesmente homem, mas o Filho de Deus e Salvador de todos. Pois o sol escondeu o rosto, a terra tremeu e os montes se fenderam: todos os homens ficaram atemorizados. Ora, essas coisas mostravam que Cristo na cruz era Deus, enquanto toda a criação era sua escrava e testemunhava, com o seu temor, a presença do seu Senhor. Assim, pois, Deus, o Verbo, mostrou-se aos homens pelas suas obras. Mas o nosso próximo passo deve ser relatar e falar do fim da sua vida e carreira corporal e da natureza da morte do seu corpo, especialmente porque esta é a suma da nossa fé e todos os homens, sem exceção, estão cheios dela: para que você saiba que, nem um pouco menos também por isso, Cristo é reconhecido como Deus e Filho de Deus.
Expusemos, pois, agora, em parte, tanto quanto foi possível e quanto nós mesmos conseguimos entender, a razão da sua manifestação corporal: que não estava no poder de nenhum outro transformar o corruptível em incorruptibilidade, senão do próprio Salvador, que também no princípio fez todas as coisas do nada; que nenhum outro podia criar de novo para os homens a semelhança da imagem de Deus, senão a Imagem do Pai; que nenhum outro podia tornar imortal o mortal, senão nosso Senhor Jesus Cristo, que é a própria Vida11; e que nenhum outro podia ensinar os homens acerca do Pai e destruir o culto aos ídolos, senão o Verbo, que ordena todas as coisas e é o único verdadeiro Filho unigênito do Pai. 2. Mas, uma vez que também era necessário que a dívida devida por todos fosse paga (pois, como já disse12, era devido que todos morressem, e foi sobretudo por essa causa que ele veio a nós), para esse fim, depois das provas da sua divindade pelas suas obras, ele ofereceu em seguida também o seu sacrifício por todos, entregando o seu templo à morte em lugar de todos, primeiro para tornar os homens quites e livres da antiga transgressão, e depois para mostrar-se mais poderoso até que a morte, exibindo o seu próprio corpo incorruptível como primícias da ressurreição de todos. 3. E não se admire você se repetimos com frequência13 as mesmas palavras sobre o mesmo assunto. Pois, como estamos falando do desígnio de Deus, expomos o mesmo sentido de mais de uma forma, para não parecer que deixamos algo de fora e incorrer na acusação de tratamento insuficiente: pois é melhor sujeitar-se à censura da repetição do que deixar de fora algo que deveria ser registrado. 4. O corpo, então, como participante da mesma natureza que todos, pois era um corpo humano, embora, por um milagre sem igual, tenha sido formado somente de uma virgem, sendo, contudo, mortal, devia também morrer, em conformidade com os seus semelhantes. Mas, em virtude da união do Verbo com ele, já não estava sujeito à corrupção segundo a sua própria natureza; antes, por causa do Verbo que viera habitar14 nele, foi posto fora do alcance da corrupção. 5. E assim aconteceram duas maravilhas ao mesmo tempo: a morte de todos se cumpriu no corpo do Senhor, e a morte e a corrupção foram inteiramente abolidas por causa do Verbo que estava unido a ele. Pois havia necessidade de morte, e a morte precisava ser sofrida em favor de todos, para que a dívida devida por todos fosse paga. 6. Por isso, como eu disse antes, o Verbo, uma vez que não lhe era possível morrer, sendo imortal, tomou para si um corpo capaz de morrer, para oferecê-lo como seu em lugar de todos e, sofrendo, pela sua união15 com ele, em favor de todos, “destruísse16 aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo, e livrasse todos os que, pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida” (Hb 2.14-15).
Pois bem: agora que o Salvador comum de todos morreu por nós, nós, os fiéis em Cristo, já não morremos a morte como antes, conforme a advertência da lei, pois essa condenação cessou; mas, cessando a corrupção e sendo afastada pela graça da ressurreição, dali em diante somos apenas dissolvidos, conforme a natureza mortal do nosso corpo, no tempo que Deus fixou para cada um, a fim de podermos alcançar uma ressurreição melhor. 2. Pois, como as sementes lançadas na terra, não perecemos pela dissolução, mas, semeados na terra, ressuscitaremos, tendo a morte sido reduzida a nada pela graça do Salvador. Por isso o bem-aventurado Paulo, que foi feito fiador da ressurreição para todos, diz: “É necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade. E, quando este corpo corruptível se revestir de incorruptibilidade e o que é mortal se revestir de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: ‘Tragada foi a morte pela vitória.’ Ó morte, onde está o seu aguilhão? Ó sepulcro, onde está a sua vitória?” (1Co 15.53-55). 3. Por que, então, alguém poderia dizer, se era necessário que ele entregasse o seu corpo à morte em lugar de todos, não o depôs como homem, em particular, em vez de chegar ao ponto de ser crucificado? Pois seria mais conveniente para ele ter deposto o seu corpo com honra do que suportar ignominiosamente uma morte como esta. 4. Ora, veja bem, respondo, se tal objeção não é meramente humana, ao passo que o que o Salvador fez é verdadeiramente divino e, por muitas razões, digno da sua divindade. Primeiro, porque a morte que sobrevém aos homens chega a eles conforme a fraqueza da sua natureza; pois, incapazes de permanecer no mesmo estado, dissolvem-se com o tempo. Por isso também lhes sobrevêm doenças, e eles adoecem e morrem. Mas o Senhor não é fraco; antes, é o Poder de Deus, o Verbo de Deus e a própria Vida. 5. Se, então, ele tivesse deposto o seu corpo em algum lugar, em particular, e sobre um leito, à maneira dos homens, ter-se-ia pensado que também ele fazia isso conforme a fraqueza da sua natureza, e porque nada havia nele além do que há nos outros homens. Mas, uma vez que ele era, em primeiro lugar, a Vida e o Verbo de Deus, e era necessário, em segundo lugar, que se cumprisse a morte em favor de todos, por essa causa, por um lado, porque ele era vida e poder, o corpo se fortalecia nele; 6. por outro lado, como a morte tinha de acontecer, ele não tomou por si mesmo, mas recebeu das mãos de outros, a ocasião de completar o seu sacrifício. Pois também não era conveniente que o Senhor adoecesse, ele que curava as doenças dos outros; nem era justo que perdesse a força aquele corpo no qual ele dá força também às fraquezas dos outros. 7. Por que, então, ele não impediu a morte, como impediu a doença? Porque era para isso que ele tinha o corpo, e não era conveniente impedi-la, para que a ressurreição também não fosse impedida; ao passo que igualmente não era conveniente que a doença precedesse a sua morte, para que não fosse tida como fraqueza da parte daquele que estava no corpo. Então ele não teve fome? Sim, teve fome, conforme as propriedades do seu corpo. Mas não pereceu de fome, por causa do Senhor que o vestia. Por isso, ainda que tenha morrido para resgatar a todos, não viu a corrupção. Pois [o seu corpo] ressuscitou em perfeita integridade, uma vez que o corpo não pertencia a nenhum outro senão à própria Vida.
Mas seria melhor, alguém poderia dizer, ter-se escondido das tramas dos judeus, para guardar o seu corpo inteiramente da morte. Ora, diga-se a esse tal que também isso não convinha ao Senhor. Pois, assim como não era próprio do Verbo de Deus, sendo ele a Vida, infligir a morte ao seu próprio corpo, assim também não era adequado fugir da morte que outros lhe ofereciam, mas antes persegui-la até destruí-la; por essa razão, naturalmente, ele nem depôs o seu corpo por iniciativa própria nem, por outro lado, fugiu dos judeus quando conspiraram contra ele. 2. Mas isso não mostrava fraqueza da parte do Verbo; pelo contrário, mostrava que ele é Salvador e Vida, visto que tanto esperou a morte para destruí-la como se apressou a cumprir a morte que lhe ofereciam, para a salvação de todos. 3. Além disso, o Salvador veio cumprir não a sua própria morte, mas a morte dos homens; por isso não depôs o seu corpo por uma morte sua (cf. Jo 10.17-18), pois ele era a Vida e não tinha morte, mas recebeu a morte que vinha dos homens, para aboli-la perfeitamente quando ela o atingisse no seu próprio corpo. 4. Ainda, também pelo que segue se poderia ver a razão de o corpo do Senhor ter tido esse fim. O Senhor estava especialmente preocupado com a ressurreição do corpo que estava prestes a realizar. Pois o que ele devia fazer era manifestá-lo como monumento de vitória sobre a morte e assegurar a todos que havia efetuado a abolição da corrupção e a incorruptibilidade dos seus corpos dali em diante; como penhor disso e prova da ressurreição reservada a todos, ele preservou incorrupto o seu próprio corpo. 5. Se, então, mais uma vez, o seu corpo tivesse adoecido e o Verbo se tivesse separado dele à vista de todos, seria inconveniente que aquele que curava as doenças dos outros deixasse o seu próprio instrumento definhar na doença. Pois como se teria crido (cf. Mt 27.42) que ele expulsava as doenças dos outros, se o seu próprio templo adoecesse nele17? Pois ou ele teria sido escarnecido como incapaz de afastar as doenças, ou, se pudesse e não o fizesse, seria tido como insensível também para com os outros.
Mas, ainda que, sem nenhuma doença e sem nenhuma dor, ele tivesse escondido o seu corpo em segredo e sozinho “num canto” (At 26.26), ou num lugar deserto, ou numa casa, ou em qualquer outro lugar, e depois aparecesse de repente e dissesse que havia ressuscitado dos mortos, teria parecido a todos que estava contando delírios (cf. Lc 24.11), e o que ele dissesse sobre a ressurreição teria sido ainda mais desacreditado, já que não haveria absolutamente ninguém para testemunhar a sua morte. Ora, a morte deve preceder a ressurreição, pois não haveria ressurreição se a morte não a precedesse; de modo que, se a morte do seu corpo tivesse ocorrido em algum lugar em segredo, sem que a morte fosse manifesta nem ocorresse diante de testemunhas, também a sua ressurreição teria ficado escondida e sem prova. 2. Ou por que, se depois de ressuscitar ele proclamou a ressurreição, deveria fazer a sua morte acontecer em segredo? Ou por que, se expulsava os espíritos malignos na presença de todos, fazia o cego de nascença recuperar a vista e transformava a água em vinho, para que por esses meios se cresse que ele era o Verbo de Deus, não deveria manifestar na presença de todos a sua natureza mortal como incorruptível, para que se cresse que ele mesmo era a Vida? 3. Ou como teriam os seus discípulos ousadia para falar da ressurreição, se não pudessem dizer que primeiro ele morreu? Ou como poderiam ser cridos, dizendo que primeiro ocorrera a morte e depois a ressurreição, se não tivessem como testemunhas da sua morte os próprios homens diante dos quais falavam com ousadia? Pois, se mesmo assim, tendo a sua morte e a sua ressurreição ocorrido à vista de todos, os fariseus daquele tempo não quiseram crer, mas obrigaram até os que tinham visto a ressurreição a negá-la, quantos pretextos de incredulidade, certamente, não teriam inventado se essas coisas tivessem acontecido em segredo? 4. Ou como se poderia provar o fim da morte e a vitória sobre ela, se ele, desafiando-a diante dos olhos de todos, não a tivesse mostrado morta, anulada dali em diante pela incorruptibilidade do seu corpo?
1. O texto beneditino é corrigido aqui com base (1) no testemunho dos manuscritos e (2) na construção (para a qual veja a seção 6.7 e Contra os gentios 20.3).
2. Literalmente, “atrai para si”.
3. Literalmente, “infiram”.
4. Literalmente, “atrai para si”.
5. Compare a seção 14.2.
6. Dia toutou, talvez, nos dois lugares: “por meio dele”, isto é, do seu corpo.
7. Dia toutou, talvez, nos dois lugares: “por meio dele”, isto é, do seu corpo.
8. Compare Santo Agostinho, Sobre a fé e o símbolo 10; Rufino, Comentário ao Símbolo dos Apóstolos 12. Assim também Tertuliano, Contra Marcião: “Quodcunque induerit ipse dignum fecit” [N. do T.: “tudo aquilo de que ele se revestiu, ele mesmo o tornou digno”].
9. Compare Discursos contra os arianos III.31.
10. Compare a seção 49.2.
11. Autozoe; veja Contra os gentios 40 e 46, e Discursos contra os arianos IV.2.
12. Veja especialmente a seção 7.
13. Por exemplo, nas seções 8.4 e 10.5 etc. “É bem uma peculiaridade de Atanásio repetir-se e desculpar-se por fazê-lo” (Newman, nota a Discursos contra os arianos II.80).
14. Epibasis; compare epibainein, seção 43.4 etc.
15. Epibasis; compare epibainein, seção 43.4 etc.
16. Compare a seção 10.4, acima.
17. Isto é, quando sustentado pela sua união com ele.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Archibald Robertson (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 4, Nova York, 1892), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. Os resumos no começo de cada seção e as notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Atanásio cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.