Basílio, Sobre o Espírito Santo · Capítulos 8 e 9

Os nomes do Filho; o que a Escritura ensina do Espírito

Os nomes do Filho e o sentido de "por meio de quem"; o que a Escritura ensina sobre o Espírito Santo, fonte de santificação e de luz.

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Capítulo VIII. De quantas maneiras se emprega “por meio de quem”; e em que sentido “com quem” é mais adequado. Explicação de como o Filho recebe um mandamento e de como é enviado

17. Quando, pois, o apóstolo “dá graças a Deus por meio de Jesus Cristo” (Rm 1.8) e diz ainda que “por meio dele” nós “viemos a receber graça e apostolado para a obediência da fé, entre todos os gentios” (Rm 1.5), ou que “por meio dele temos acesso a esta graça na qual estamos firmes e nos alegramos” (Rm 5.2), ele expõe os benefícios que o Filho nos concede, ora fazendo a graça dos bons dons passar do Pai até nós, ora conduzindo-nos ao Pai por meio de si mesmo. Pois, ao dizer “por meio de quem recebemos graça e apostolado” (Rm 1.5), declara que o suprimento dos bons dons procede daquela fonte; e, ao dizer “por meio de quem obtivemos acesso” (Rm 5.2), expõe a nossa aceitação e o fato de sermos feitos “membros da família de Deus” (cf. Ef 2.19) por meio de Cristo. Será, então, que confessar a graça que ele operou em nosso favor diminui a sua glória? Não é mais verdadeiro dizer que a narração dos seus benefícios é razão própria para glorificá-lo? É por esse motivo que não encontramos a Escritura descrevendo-nos o Senhor por um só nome, nem sequer apenas por termos que indiquem a sua divindade e majestade. Ora ela usa termos que descrevem a sua natureza, pois reconhece o “nome que está acima de todo nome” (Fp 2.9), o nome de Filho,1 e fala de verdadeiro Filho (cf. Mt 14.33; 27.54), de Deus unigênito (Jo 1.18), de Poder de Deus (1Co 1.24),2 de Sabedoria (1Co 1.24) e de Verbo (por exemplo, Jo 1.1; cf. Sl 107.20; Sb 9.1; 18.15; Eclo 43.20). Ora, por outro lado, por causa dos muitos modos3 (cf. Hb 1.1) pelos quais a graça nos é dada, a qual, pelas riquezas da sua bondade,4 segundo a sua multiforme (Ef 3.10) sabedoria, ele concede aos que dela precisam, a Escritura o designa por inúmeros outros títulos, chamando-o Pastor (por exemplo, Jo 10.12), Rei (por exemplo, Mt 21.5), Médico (por exemplo, Mt 9.12), Noivo (por exemplo, Mt 9.15), Caminho (por exemplo, Jo 14.6), Porta (por exemplo, Jo 10.9), Fonte (cf. Ap 21.6), Pão (por exemplo, Jo 6.35), Machado (cf. Mt 3.10) e Rocha (por exemplo, 1Co 10.4). E esses títulos não expõem a sua natureza, mas, como já observei, a variedade da operação eficaz que, por sua ternura para com a própria criação, segundo a necessidade particular de cada um, ele concede aos que dela precisam. Aos que buscaram refúgio sob o seu cuidado soberano e, pela paciente perseverança, corrigiram os seus caminhos desviados,5 ele os chama “ovelhas”, e confessa ser ele mesmo “pastor” para os que ouvem a sua voz e se recusam a dar ouvidos a ensinos estranhos. Pois ele diz: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz” (Jo 10.27). Para os que já alcançaram um grau mais alto e precisam de uma realeza justa,6 ele é Rei. E, porque, pelo caminho reto dos seus mandamentos, conduz os homens às boas ações, e ainda porque encerra em segurança todos os que, pela fé nele, se abrigam na bênção da sabedoria mais elevada,7 ele é Porta.

Assim ele diz: “Se alguém entrar por mim, … entrará, sairá e achará pastagem” (Jo 10.9). E ainda, porque para os fiéis ele é uma defesa forte, inabalável e mais difícil de romper que qualquer baluarte, ele é Rocha. Entre esses títulos, é quando ele é chamado Porta ou Caminho que a expressão “por meio dele” se mostra muito apropriada e clara. Mas, como Deus e Filho, ele é glorificado com o Pai e juntamente com o Pai, visto que “ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai” (Fp 2.10-11). Por isso usamos os dois termos, exprimindo por um a sua própria dignidade e, pelo outro, a sua graça para conosco.

18. Pois “por meio dele” vem todo socorro às nossas almas, e foi conforme cada espécie de cuidado que se criou um título apropriado. Assim, quando apresenta a si mesmo a alma irrepreensível, sem mancha nem ruga (Ef 5.27), como uma virgem pura, ele é chamado Noivo; mas, sempre que recebe uma alma em situação lastimável pelos golpes malignos do diabo, curando-a da grave enfermidade dos seus pecados, ele é chamado Médico. E esse seu cuidado por nós rebaixará à mesquinhez os nossos pensamentos a respeito dele? Ou, ao contrário, não nos encherá de assombro, ao mesmo tempo, diante do grande poder e do amor do Salvador pelos homens,8 já que ele não só suportou sofrer conosco9 em nossas fraquezas, como também foi capaz de descer até a nossa fraqueza? Pois nem o céu e a terra e os grandes mares, nem as criaturas que vivem na água e na terra seca, nem as plantas, as estrelas, o ar e as estações, nem a imensa variedade na ordem do universo10 manifestam tão bem a excelência do seu poder quanto o fato de que Deus, sendo incompreensível, tenha sido capaz, sem sofrer, por meio da carne, de travar combate corpo a corpo com a morte, a fim de nos dar, pelo seu próprio sofrimento, o benefício da libertação do sofrimento.11 É verdade que o apóstolo diz: “Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou” (Rm 8.37). Mas numa frase desse tipo não há nenhuma sugestão de um ministério humilde e subordinado,12 e sim do socorro prestado “na força do seu poder” (Ef 6.10). Pois ele mesmo amarrou o valente e saqueou os seus bens (cf. Mt 12.29), isto é, a nós, homens, de quem o nosso inimigo abusara em toda espécie de atividade maligna, e fez de nós “utensílios úteis ao seu senhor” (2Tm 2.21), a nós, que fomos aperfeiçoados para toda obra mediante a preparação daquela parte de nós que está sob o nosso próprio controle.13 Assim tivemos acesso ao Pai por meio dele, sendo transportados “do poder das trevas” para “participar da herança dos santos na luz” (Cl 1.12-13). Não devemos, porém, considerar a economia realizada por meio do Filho como um ministério forçado e subordinado, resultante da condição humilde de um escravo, mas como a solicitude voluntária que opera eficazmente em favor da sua própria criação, com bondade e compaixão, segundo a vontade de Deus Pai. Pois estaremos de acordo com a verdadeira religião se, em tudo o que foi e é, de tempos em tempos, levado a cabo por ele, não só dermos testemunho da perfeição do seu poder, como também em caso algum o separarmos da vontade do Pai. Por exemplo, sempre que o Senhor é chamado Caminho, somos levados a um sentido mais elevado, e não àquele que deriva do sentido vulgar da palavra. Entendemos por Caminho aquele avanço14 rumo à perfeição que se faz etapa por etapa, e em ordem regular, mediante as obras de justiça e “a iluminação do conhecimento” (2Co 4.6), anelando sempre pelo que está adiante e avançando para as coisas que restam,15 até alcançarmos o fim bem-aventurado, o conhecimento de Deus, que o Senhor, por meio de si mesmo, concede aos que nele confiaram. Pois o nosso Senhor é um Caminho essencialmente bom, onde o erro e o desvio são desconhecidos, para aquilo que é essencialmente bom, para o Pai. Pois ele diz: “ninguém vem ao Pai senão [na Versão Autorizada, ‘by’] por meio de mim” (Jo 14.6). Tal é o nosso caminho de subida até Deus “por meio do Filho”.

19. Segue-se que devemos mostrar, na sequência, o caráter da provisão de bênçãos que o Pai nos concede “por meio dele”. Visto que toda a natureza criada, tanto este mundo visível como tudo o que é concebido pela mente, não pode subsistir sem o cuidado e a providência de Deus, o Verbo Criador, o Deus unigênito, repartindo o seu socorro segundo a medida das necessidades de cada um, distribui misericórdias variadas e multiformes, por causa das muitas espécies e caracteres dos que recebem a sua generosidade, mas apropriadas às exigências de cada necessidade individual. Aos que estão encerrados nas trevas da ignorância, ele ilumina: por isso ele é a verdadeira Luz (Jo 1.9). Retribuindo conforme o mérito das obras, ele julga: por isso ele é o justo Juiz (2Tm 4.8). “E o Pai não julga ninguém, mas confiou todo julgamento ao Filho” (Jo 5.22). Aos que caíram da elevada altura da vida para o pecado, ele os levanta da queda: por isso ele é a Ressurreição (Jo 11.25). Operando eficazmente pelo toque do seu poder e pela vontade da sua bondade, ele faz todas as coisas. Ele pastoreia; ele ilumina; ele nutre; ele cura; ele guia; ele levanta; ele chama à existência as coisas que não eram; ele sustenta o que foi criado. Assim, as coisas boas que vêm de Deus nos alcançam “por meio do Filho”, que opera em cada caso com rapidez maior do que a palavra pode exprimir. Pois nem os relâmpagos, nem o curso da luz pelo ar são tão velozes; nem o rápido volver dos olhos, nem os movimentos do nosso próprio pensamento. Antes, pela energia divina, cada uma dessas coisas é superada em rapidez mais do que a mais lenta de todas as criaturas vivas é superada em movimento pelas aves, ou mesmo pelos ventos, ou pelo ímpeto dos corpos celestes; ou, para não mencionar estes, pelo nosso próprio pensamento. Pois que extensão de tempo é necessária àquele que “sustenta todas as coisas pela sua palavra poderosa” (Hb 1.3), e não opera por instrumento corporal, nem precisa da ajuda de mãos para formar e modelar, mas mantém em obediente seguimento e em consentimento não forçado a natureza de todas as coisas que existem? Assim, como diz Judite: “Tu pensaste, e as coisas que determinaste estavam prontas à mão” (Jt 9.5-6). Por outro lado, para que nunca sejamos levados, pela grandeza das obras realizadas, a imaginar que o Senhor é sem princípio,16 que diz aquele que existe por si mesmo?17 “Eu vivo por meio [na Versão Autorizada, ‘by’] do Pai” (Jo 6.57); e o poder de Deus: “O Filho nada tem poder [na Versão Autorizada, ‘can’] de fazer por si mesmo” (Jo 5.19). E a Sabedoria completa em si mesma? Recebi “mandamento sobre o que dizer e o que anunciar” (Jo 12.49). Por todas essas palavras ele nos conduz ao conhecimento do Pai e refere a ele a nossa admiração por tudo o que vem à existência, a fim de que “por meio dele” conheçamos o Pai. Pois o Pai não é reconhecido pela diferença das operações, pela manifestação de uma energia separada e peculiar; porque tudo o que vê o Pai fazer, “o Filho também faz” (Jo 5.19); mas ele se compraz na nossa admiração por tudo o que acontece, em razão da glória que lhe vem do Unigênito, alegrando-se tanto no próprio Autor como na grandeza das obras, e exaltado por todos os que o reconhecem como Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, “por meio de quem [na Versão Autorizada, ‘by whom’] existem todas as coisas, e para quem existem todas as coisas” (Hb 2.10).18 Por isso diz o Senhor: “Todas as minhas coisas são tuas” (Jo 17.10), como se a soberania sobre as coisas criadas lhe tivesse sido conferida, e “as tuas coisas são minhas”, como se a Causa criadora lhe viesse de lá. Não devemos supor que ele tenha recorrido a auxílio em sua ação, ou que lhe tenha sido confiado o ministério de cada obra individual por encargo minucioso, condição claramente servil e de todo inadequada à dignidade divina. Antes, o Verbo estava cheio das excelências do seu Pai; ele resplandece a partir do Pai e faz todas as coisas segundo a semelhança daquele que o gerou. Pois, se na essência ele é sem variação, assim também é sem variação no poder.19 E, daqueles cujo poder é igual, também a operação é igual em todos os aspectos. E Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus (1Co 1.24). E assim “todas as coisas foram feitas por meio [na Versão Autorizada, ‘by’] dele” (Jo 1.3), e “tudo foi criado por meio [na Versão Autorizada, ‘by’] dele e para ele” (Cl 1.16), não no desempenho de algum serviço servil, mas no cumprimento da vontade do Pai como Criador.

20. Quando, pois, ele diz: “Eu não falei por mim mesmo” (Jo 12.49), e ainda: “Assim como o Pai me falou, assim eu falo” (Jo 12.50), e: “A palavra que vocês estão ouvindo não é minha, mas [do Pai], que me enviou” (Jo 14.24), e em outro lugar: “Assim como o Pai me ordenou, assim eu faço” (Jo 14.31), não é porque lhe falte propósito deliberado ou poder de iniciativa, nem porque tenha de esperar a nota de tom previamente combinada, que ele emprega linguagem desse tipo. O seu objetivo é deixar claro que a sua própria vontade está ligada ao Pai em união indissolúvel. Não entendamos, pois, pelo que se chama “mandamento” uma ordem peremptória transmitida por órgãos da fala e que dá ao Filho, como a um subordinado, instruções sobre o que ele deve fazer. Percebamos antes, num sentido digno da divindade, uma transmissão de vontade, como o reflexo de um objeto num espelho, passando do Pai ao Filho sem intervalo de tempo. “Porque o Pai ama o Filho e lhe mostra tudo” (Jo 5.20), de modo que “tudo o que o Pai tem” (Jo 16.15) pertence ao Filho, não vindo a ele aos poucos, pouco a pouco, mas estando com ele todo junto e de uma só vez. Entre os homens, o artesão que foi plenamente instruído no seu ofício e que, por longo treino, tem nele experiência segura e firmada, é capaz, de acordo com os métodos científicos que agora tem em reserva, de trabalhar dali em diante por si mesmo. E vamos supor que a sabedoria de Deus, o Criador de toda a criação, aquele que é eternamente perfeito, que é sábio sem mestre, o Poder de Deus, “em quem estão ocultos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Cl 2.3),20 precise de instrução aos pedaços para traçar o modo e a medida das suas operações? Presumo que, na vaidade dos seus cálculos, vocês pretendem abrir uma escola; farão um tomar assento no lugar do mestre e o outro ficar ao lado na ignorância de aluno, aprendendo a sabedoria gradualmente e avançando para a perfeição por lições dadas a ele aos pedacinhos. Por isso, se tiverem o bom senso de se ater ao que logicamente se segue, vocês acharão o Filho sendo eternamente ensinado, sem jamais conseguir alcançar o fim da perfeição, visto que a sabedoria do Pai é infinita e o fim do infinito está além da compreensão. Resulta que quem se recusa a admitir que o Filho tem todas as coisas desde o princípio jamais admitirá que ele alcançará a perfeição. Mas envergonho-me da concepção degradante a que, pelo curso do argumento, fui rebaixado. Voltemos, pois, aos temas mais elevados da nossa discussão.

21. “Quem vê a mim vê o Pai” (Jo 14.9); não a expressão exata, nem a forma, pois a natureza divina não admite combinação; mas a bondade da vontade, que, sendo concorrente com a essência, é contemplada como semelhante e igual, ou antes, a mesma, no Pai e no Filho.21

Que significa, então, “tornando-se obediente” (Fp 2.8)? Que significa “por todos nós o entregou” (Rm 8.32)? Significa que o Filho tem do Pai o operar com bondade em favor dos homens. Mas você deve ouvir também as palavras: “Cristo nos resgatou da maldição da lei” (Gl 3.13), e: “quando ainda éramos pecadores, Cristo morreu por nós” (Rm 5.8).

Preste atenção também às palavras do Senhor e observe como, sempre que nos instrui a respeito do seu Pai, ele costuma usar termos de autoridade pessoal, dizendo: “Quero, sim. Fique limpo!” (Mt 8.3), e: “Acalme-se! Fique quieto!” (Mc 4.39), e: “Eu, porém, lhes digo” (Mt 5.22 etc.), e: “Espírito mudo e surdo, eu ordeno a você” (Mc 9.25), e todas as outras expressões do mesmo tipo, para que por estas reconheçamos o nosso Mestre e Criador e, pelas anteriores, sejamos ensinados a conhecer o Pai do nosso Mestre e Criador.22 Assim se demonstra por todos os lados a verdadeira doutrina: o fato de o Pai criar por meio do Filho nem torna imperfeita a criação do Pai, nem mostra fraca a energia ativa do Filho, mas indica a unidade da vontade; assim, a expressão “por meio de quem” contém a confissão de uma Causa antecedente e não é adotada em oposição à Causa eficiente.

Capítulo IX. Conceitos definidos sobre o Espírito, conformes ao ensino das Escrituras

22. Investiguemos agora quais são os nossos conceitos comuns a respeito do Espírito, tanto os que reunimos da Sagrada Escritura a respeito dele como os que recebemos da tradição não escrita dos Pais. Antes de tudo, perguntamos: quem, ao ouvir os títulos do Espírito, não sente a alma elevar-se, quem não alça o seu pensamento à natureza suprema? Ele é chamado “Espírito de Deus” (Mt 12.28 etc.), “Espírito da verdade, que procede do Pai” (Jo 15.26), “Espírito reto” (Sl 51.10), “Espírito que guia” (Sl 51.12).23 O seu24 título próprio e peculiar é “Espírito Santo”, nome especialmente apropriado a tudo o que é incorpóreo, puramente imaterial e indivisível. Assim, quando ensinava à mulher que julgava Deus objeto de culto restrito a um lugar que o incorpóreo é incompreensível, o nosso Senhor disse: “Deus é Espírito” (Jo 4.24). Ao ouvirmos, pois, falar de um espírito, é impossível formar a ideia de uma natureza circunscrita, sujeita a mudança e variação, ou de algum modo semelhante à criatura. Somos obrigados a avançar em nossos conceitos até o mais alto e a pensar numa essência inteligente, infinita em poder, ilimitada em grandeza, não medida por tempos nem por eras, generosa nos seus bons dons; para ela se voltam todas as coisas que precisam de santificação, por ela anseiam todas as coisas que vivem segundo a virtude, como regadas pelo seu sopro e ajudadas a avançar rumo ao seu fim natural e próprio; ela aperfeiçoa todas as outras coisas, mas a ela mesma nada falta; vive não como quem precisa ser restaurado, mas como Doador da vida; não cresce por acréscimos, mas é imediatamente plena, firmada em si mesma, presente em toda parte, origem da santificação, luz perceptível à mente, que fornece, por assim dizer, por meio de si mesma, iluminação a toda faculdade na busca da verdade; inacessível por natureza, apreendida por causa da sua bondade, enchendo todas as coisas com o seu poder (cf. Sb 1.7), mas comunicada só aos dignos; não partilhada numa só medida, mas distribuindo a sua energia segundo “a proporção da fé” (Rm 12.6); simples na essência, variada nos poderes, inteiramente presente em cada um e inteira em toda parte; dividida impassivelmente, partilhada sem deixar de ser inteira, à semelhança do raio de sol, cuja luz benfazeja cai sobre quem a desfruta como se brilhasse só para ele, e no entanto ilumina a terra e o mar e se mistura ao ar. Assim também o Espírito: para cada um que o recebe, é como se fosse dado só a ele, e contudo envia graça suficiente e plena para toda a humanidade, e dele desfrutam todos os que dele participam, segundo a capacidade, não do seu poder, mas da natureza deles.

23. Ora, o Espírito não entra em íntima associação com a alma por aproximação local. Como, de fato, poderia haver aproximação corpórea do incorpóreo? Essa associação resulta do afastamento das paixões que, sobrevindo depois à alma, gradualmente, por causa da sua amizade com a carne, a alienaram da sua estreita relação com Deus. Só então, depois que um homem se purifica da vergonha cuja mancha contraiu pela sua maldade e volta de novo à sua beleza natural, e como que limpa a Imagem Real e lhe restaura a forma antiga, só assim lhe é possível aproximar-se do Paráclito.25 E ele, como o sol, com o auxílio do teu olho purificado, te mostrará em si mesmo a imagem do invisível, e no bem-aventurado espetáculo da imagem contemplarás a indizível beleza do arquétipo.26 Pelo seu auxílio os corações são elevados, os fracos são conduzidos pela mão, e os que estão progredindo são levados à perfeição.27 Brilhando sobre os que estão purificados de toda mancha, ele os torna espirituais pela comunhão consigo mesmo. Assim como, quando um raio de sol incide sobre corpos luzentes e transparentes, eles mesmos também se tornam brilhantes e irradiam de si um novo fulgor, assim as almas em que o Espírito habita, iluminadas pelo Espírito, tornam-se elas mesmas espirituais e enviam a sua graça aos outros. Daí vêm o conhecimento antecipado do futuro, a compreensão dos mistérios, a apreensão do que está oculto, a distribuição dos bons dons, a cidadania celestial, um lugar no coro dos anjos, a alegria sem fim, o permanecer em Deus, o tornar-se semelhante a Deus e, o mais alto de tudo, o ser feito Deus.28 Tais são, pois, para citar uns poucos entre muitos, os conceitos sobre o Espírito Santo que fomos ensinados a sustentar a respeito da sua grandeza, da sua dignidade e das suas operações, pelos próprios oráculos29 do Espírito.

Notas

1. Dois manuscritos, o do Museu Britânico e o de Viena, trazem aqui Iesou (“de Jesus”). Em Cartas 210.4, Basílio escreve que o nome acima de todo nome é auto to kaleisthai auton Huion tou Theou, “o próprio fato de ele ser chamado Filho de Deus”.

2. E possivelmente Rm 1.16, se, com o códice D, lermos “evangelho de Cristo”.

3. To polutropon.

4. Ton plouton tes agathotetos. Compare Rm 2.4, tou ploutou tes chrestotetos.

5. Traduzo aqui a leitura do códice parisiense que os editores beneditinos chamam Regius Secundus, to eumetabolon katorthokotas. A leitura mais difícil, to eumetadoton, que se poderia verter por “aperfeiçoaram a sua prontidão em repartir”, tem a melhor autoridade manuscrita, mas é pouco inteligível; e os editores beneditinos têm toda a razão ao chamar a atenção para o fato de que o ponto em questão aqui não é a prontidão do rebanho em repartir (cf. 1Tm 6.18), mas o seu paciente seguimento do Mestre. Os editores beneditinos propõem ousadamente introduzir uma palavra sem autoridade, to ametabolon, e traduzem qui per patientiam animam immutabilem praebuerunt (“que pela paciência apresentaram uma alma inalterável”). A leitura adotada acima é apoiada por uma passagem de Cartas 244, onde Basílio fala da inconstância de Eustátio, e parece ajustar-se melhor à aplicação da passagem às palavras de nosso Senhor: “buscaram refúgio sob o seu cuidado soberano” corresponde a “as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz” (Jo 10.4), e “corrigiram os seus caminhos desviados”, a “não seguirão o estranho” (v. 5). O sr. Johnston, em sua valiosa nota, compara o ensino de Orígenes sobre os nomes de nosso Senhor.

6. Assim três manuscritos. Outros repetem epistasia, traduzido acima por “cuidado soberano”. Ennomos é usado por Platão no sentido de “legítimo” e “obediente à lei” (Leis 921 C e República 424 E). Em 1Co 9.21, a Versão Autorizada inglesa traduz por “sob a lei”.

7. To tes gnoseos agathon: possivelmente, “o bem do conhecimento dele”.

8. Philanthropia ocorre duas vezes no Novo Testamento (At 28.2 e Tt 3.4) e é traduzida pela Versão Autorizada inglesa, na primeira passagem, por “bondade” e, na segunda, por “amor ao homem”. A philanthropia dos bárbaros de Malta corresponde ao sentido clássico inferior de afabilidade e cortesia. O amor de Deus em Cristo pelo homem introduz, na prática, uma nova conotação na palavra e em seus cognatos.

9. Ou “compadecer-se das nossas fraquezas”.

10. Poikile diakosmesis. Diakosmesis era o termo técnico da filosofia pitagórica para a disposição ordenada do universo (cf. Aristóteles, Metafísica I.5.2, he hole diakosmesis); atribui-se a Pitágoras a primeira aplicação da palavra kosmos ao universo (Plutarco, 2, 886 c). Assim também mundus em latim, de onde o oxímoro de Agostinho: “O munde immunde!” (“Ó mundo imundo!”). Sobre o uso bíblico de kosmos e aion, veja o arcebispo Trench, Sinônimos do Novo Testamento, p. 204.

11. Na Homilia sobre o Salmo 65, seção 5, Basílio descreve o poder de Deus, o Verbo, como manifestado do modo mais claro na economia da encarnação e na sua descida à humildade e à fraqueza da natureza humana. Compare Atanásio, Sobre a encarnação, seção 54: “Ele se fez homem para que nós fôssemos feitos Deus; e manifestou-se por meio de um corpo para que recebêssemos a ideia do Pai invisível; e suportou a insolência dos homens para que herdássemos a imortalidade. Pois, enquanto ele mesmo de modo algum era atingido, sendo impassível, incorruptível, o próprio Verbo e Deus, aos homens que sofriam, e por causa dos quais ele suportou tudo isso, ele os sustentava e preservava em sua própria impassibilidade”.

12. Huperesia. Literalmente, “remar por baixo”. O cognato huperetes é a palavra usada em At 26.16, nas palavras do Salvador a Paulo, “para fazer de você ministro”, e em 1Co 4.1, “considerem-nos como ministros de Cristo”.

13. É difícil traduzir esta passagem, tanto pela variedade das leituras como pela obscuridade de cada uma. Procurei representar a força do grego ek tes hetoimasias tou eph’ hemin, entendendo por to eph’ hemin, na prática, “o nosso livre-arbítrio”. Compare a enumeração do que é eph’ hemin, isto é, do que está sob o nosso próprio controle, no Manual de Epicteto, capítulo I: “Sob o nosso próprio controle estão o impulso, o desejo, a inclinação”. Sobre Is 6.8, “Eis-me aqui, envia-me a mim”, Basílio escreve: “Ele não acrescentou ‘eu irei’; pois aceitar a mensagem está sob o nosso controle (eph’ hemin), mas ser capacitado para ir vem daquele que dá a graça, do Deus que capacita”. A tradução beneditina do texto é per liberi arbitrii nostri praeparationem (“pela preparação do nosso livre-arbítrio”). Mas há outras leituras: (i) tes eph’ hemin, “a preparação que está sob o nosso próprio controle”; (ii) tes hetoimasias autou, “a preparação dele”; e (iii) a siríaca, representada por arbitrio suo (“por seu arbítrio”).

14. Prokope: compare Lc 2.52, onde se diz que nosso Senhor proekopte, isto é, “continuava a abrir caminho para a frente”.

15. Parece haver aqui uma lembrança, não uma citação, de Fp 3.13.

16. Anarchos. Os Pais usam esta palavra em dois sentidos. (i) No sentido de aidios, isto é, eterno, aplica-se (a) à Trindade na unidade; por exemplo, Quaestiones miscellaneae v. 442 (Migne, Atanásio, iv. 783), atribuídas a Atanásio: koinon he ousia; koinon to anarchon (“comum é a essência; comum, o ser sem princípio”); (b) ao Filho; por exemplo, Gregório de Nazianzo, Orações xxix. 490: ean ten apo chronon noes archen kai anarchos ho huios, ouk archetai gar apo chronou ho chronon despotes (“se entendes o princípio no tempo, também o Filho é sem princípio, pois o Senhor dos tempos não começa no tempo”). (ii) No sentido de anaitios, “sem causa”, originis principio carens (“carente de princípio de origem”), aplica-se somente ao Pai, e não ao Filho. Assim Gregório de Nazianzo, na oração citada acima: ho huios, ean hos aition ton patera lambanes, ouk anarchos, “o Filho, se entendes o Pai como causa, não é sem princípio”. Arche gar huiou pater hos aitios: “Pois o Pai, como causa, é Princípio do Filho”. Mas, embora nesse sentido o Filho não fosse anarchos, dizia-se que ele fora gerado anarchos, sem princípio. Assim Gregório de Nazianzo (Homilias xxxvii. 590): to idion onoma tou anarchos gennethentos, huios (“o nome próprio daquele que foi gerado sem princípio é Filho”). Compare a carta de Alexandre de Alexandria a Alexandre de Constantinopla, em Teodoreto, História eclesiástica I.3: ten anarchon auto para tou patros gennesin anatithentas (“atribuindo-lhe a geração sem princípio a partir do Pai”). Compare Hooker, Política eclesiástica V.54: “Pelo dom da geração eterna, Cristo recebeu do Pai uma substância, numericamente a mesma, que o Pai tem de si mesmo, sem a receber de nenhum outro. Pois todo princípio é pai daquilo que dele procede; e todo rebento é filho daquilo de que nasce. Visto, pois, que só o Pai é originariamente aquela Divindade que Cristo originariamente não é (pois Cristo é Deus por ser de Deus, luz por proceder da luz), segue-se daí que tudo o que Cristo tem em comum com o seu Pai celestial lhe deve necessariamente ter sido dado, mas dado por natureza e eternamente”. Assim Hilário, Sobre a Trindade XII.21: Ubi auctor eternus est, ibi et nativitatis aeternitas est: quia sicut nativitas ab auctore est, ita et ab aeterno auctore aeterna nativitas est (“Onde o autor é eterno, aí também há eternidade de nascimento; pois, assim como o nascimento procede do autor, assim também do autor eterno procede um nascimento eterno”). E Agostinho, Sobre a Trindade V.15: Naturam praestat filio sine initio generatio (“A geração sem começo confere a natureza ao Filho”).

17. He autozoe.

18. Compare Rm 11.36, a que a leitura de dois manuscritos assimila mais claramente a citação. A maioria dos comentaristas refere Hb 2.10 ao Pai, mas Teodoreto o entende do Filho, e o argumento de Basílio exige a mesma aplicação.

19. Aparallaktos echei. Compare Tg 1.17, par’ ho ouk eni parallage (“em quem não há mudança”). A palavra aparallaktos foi usada a princípio pelos bispos católicos em Niceia como implicando homoousios. Veja Atanásio, Sobre os decretos, § 20.

20. Assim a Versão Autorizada inglesa. Compare a emenda da Versão Revisada, “todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento, ocultos”, e o bispo Lightfoot sobre o uso, por Paulo, do termo gnóstico apokruphos.

21. O argumento parece ser não que Cristo não seja a “expressão exata” ou a marca impressa do Pai, como é descrito em Hb 1.3, ou a forma, como em Fp 2.6, mas que não é nesse sentido que se devem entender as palavras de nosso Senhor em Jo 14.9 ao descreverem o “ver o Pai”. Charakter e morphe equivalem a he theia phusis, “a natureza divina”, e morphe é usada por Basílio como é usada por Paulo (coincidindo com o uso da filosofia grega mais antiga, se é que não o segue) para significar os atributos essenciais que o Verbo divino tinha antes da encarnação (compare Eustátio em Teodoreto, Diálogos II: “a expressão exata feita homem”, ho to pneumati somatopoietheis anthropos charakter). A natureza divina não admite combinação, no sentido de confusão, com a natureza humana em nosso Senhor (compare os protestos de Teodoreto, em seus Diálogos, contra a confusão da divindade e da humanidade no Cristo), e permanece invisível. Sobre a palavra charakter, veja Suicer; e sobre morphe, o arcebispo Trench, Sinônimos do Novo Testamento, e o bispo Lightfoot sobre Fp 2.6.

22. Há dificuldade em acompanhar o argumento nas citações precedentes. F. Combefis, o editor dominicano francês de Basílio, interporia ousadamente um “não” e leria: “sempre que ele não nos instrui a respeito do Pai”. Mas não há autoridade manuscrita para esse remédio violento. Os editores beneditinos dizem que tudo fica claro se traduzirmos postquam nos de patre erudivit (“depois que nos instruiu sobre o Pai”). Mas o grego não admite isso.

23. Septuaginta. A Versão Revisada e a Versão Autorizada inglesas trazem “free spirit” (“espírito livre”).

24. Lembre-se de que no Credo Niceno “o Senhor e Doador da vida” é to kurion to zoopoion (no neutro). Na Versão Autorizada inglesa temos tanto “he” (“ele”; Jo 15.26, ekeinos) como “it” (pronome neutro; Rm 8.16, auto to pneuma).

25. Compare Teodoreto, Diálogos I: “O pecado não vem da natureza, mas da vontade corrompida”. Assim o nono artigo da Igreja da Inglaterra o descreve não como a natureza, mas como a “falta e corrupção da natureza de todo homem”. Sobre a figura do quadro restaurado, compare Atanásio, Sobre a encarnação, § 14, e Teodoreto, Diálogos II.

26. Compare Cartas 236: “A nossa mente, iluminada pelo Espírito, olha para o Filho e nele, como numa imagem, contempla o Pai”. À primeira vista parece haver no texto certa confusão entre a “Imagem Real” em nós e Cristo como imagem de Deus; mas é na medida em que somos semelhantes a Cristo que vemos Deus em Cristo. São os “limpos de coração” que “verão a Deus”.

27. Proficientes perficiuntur (“os que progridem são aperfeiçoados”). Edição beneditina.

28. Theon genesthai. O pensamento tem a sua expressão mais famosa em Atanásio, Sobre a encarnação, § 54: Ele se fez homem para que nós fôssemos feitos Deus, Theopoiethomen. Compare Sobre os decretos, § 14, e outras passagens de Atanásio. Irineu (Contra as heresias IV.38 [lxxv]) escreve: non ab initio dii facti sumus, sed primo quidem homines, tunc demum dii (“não fomos feitos deuses desde o princípio, mas primeiro homens, e depois, por fim, deuses”); Secundum enim benignitatem suam bene dedit bonum, et similes sibi suae potestatis homines fecit (“Pois, segundo a sua benignidade, deu bem o bem, e fez os homens semelhantes a si, com poder sobre si mesmos”); e Orígenes (Contra Celso III.28): “Para que a natureza humana, pela comunhão com o mais divino, fosse feita divina, não somente em Jesus, mas também em todos os que com fé abraçam a vida que Jesus ensinou”; e Gregório de Nazianzo, Orações xxx, § 14: “Até que, pelo poder da encarnação, ele me faça Deus”. Em Basílio, Contra Eunômio II.4, temos: “Os que são perfeitos na virtude são julgados dignos do título de Deus”. Compare 2Pe 1.4: “para que vocês se tornem coparticipantes da natureza divina”.

29. Hup’ auton ton logion tou pneumatos. Basílio, como outros Pais antigos, desconhece a restrição da palavra logia a “discursos”. Veja Salmon, Introdução ao Novo Testamento, 4ª ed., p. 95.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Blomfield Jackson (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 8, Nova York, 1895), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. Os sumários no começo de cada capítulo e as notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Basílio cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.