Cirilo de Jerusalém, Catequeses · Catequese XIII
A cruz, glória da Igreja: as profecias e os testemunhos da paixão, da morte e da sepultura de Cristo.
Isaías 53.1, 7
Quem creu em nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor?… Como cordeiro foi levado ao matadouro etc.
1. Todo feito de Cristo é motivo de glória para a Igreja católica, mas a maior de todas as suas glórias está na cruz; e, sabendo disso, Paulo diz: “Mas longe de mim gloriar-me, senão na cruz de Cristo” (Gl 6.14). Pois foi de fato maravilhoso que um cego de nascença recebesse a vista em Siloé1; mas o que é isso comparado com os cegos do mundo inteiro? Foi coisa grande, acima da natureza, que Lázaro ressuscitasse no quarto dia; mas a graça se estendeu só a ele, e o que foi isso comparado com os mortos em pecados pelo mundo inteiro? Foi admirável que cinco pães fizessem jorrar alimento para cinco mil; mas o que é isso diante dos que, no mundo todo, passam fome na ignorância? Foi admirável que fosse solta aquela que Satanás mantivera presa por dezoito anos; mas o que é isso diante de todos nós, que estávamos bem presos nas correntes dos nossos pecados? A glória da cruz, porém, levou à luz os que estavam cegos pela ignorância, soltou todos os que estavam presos pelo pecado e resgatou o mundo inteiro da humanidade.
2. E não se admire de que o mundo inteiro tenha sido resgatado, pois não foi um simples homem, mas o Filho unigênito de Deus, que morreu por ele. Além disso, o pecado de um só homem, Adão, teve poder para trazer a morte ao mundo; mas, se “pela ofensa de um só a morte reinou” sobre o mundo, como não reinará muito mais a vida “pela justiça de um só” (Rm 5.17-18)? E, se por causa da árvore do alimento eles foram então expulsos do paraíso, não entrarão agora os que creem com mais facilidade no paraíso por causa da árvore de Jesus? Se o primeiro homem, formado da terra, trouxe a morte universal, não trará a vida eterna aquele que o formou da terra, sendo ele mesmo a vida? Se Fineias, quando se encheu de zelo e matou o malfeitor, deteve a ira de Deus, não afastará Jesus a ira que pesa sobre a humanidade, ele que não matou outro, mas “entregou a si mesmo em resgate” (1Tm 2.6)?
3. Não nos envergonhemos, pois, da cruz do nosso Salvador; antes, gloriemo-nos nela. Pois “a palavra da cruz é escândalo para os judeus e loucura para os gentios”, mas para nós é salvação; e “para os que se perdem é loucura, mas para nós, que somos salvos, é poder de Deus” (1Co 1.18, 23). Pois não foi um simples homem que morreu por nós, como eu disse antes, mas o Filho de Deus, Deus feito homem. Mais ainda: se o cordeiro, no tempo de Moisés, afastou para longe o destruidor (Êx 12.23), não nos livrou muito mais dos nossos pecados o Cordeiro de Deus, “que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29)? O sangue de uma ovelha sem entendimento trouxe salvação; e o sangue do Unigênito não salvará muito mais? Se alguém não crê no poder do Crucificado, pergunte aos demônios; se alguém não acredita em palavras, acredite no que vê. Muitos foram crucificados pelo mundo afora, mas nenhum deles assusta os demônios; mas, quando veem até mesmo o sinal da cruz de Cristo, que foi crucificado por nós, eles estremecem2. Pois aqueles homens morreram pelos próprios pecados, mas Cristo pelos pecados dos outros; pois “ele não cometeu pecado, nem foi encontrado engano em sua boca” (1Pe 2.22; Is 53.9). Não é Pedro quem diz isso, pois então poderíamos suspeitar que ele favorecia o seu Mestre; mas quem o diz é Isaías, que não estava com ele na carne, mas no Espírito previu a sua vinda na carne. Mas por que trazer agora só o profeta como testemunha? Tome por testemunha o próprio Pilatos, que deu a sentença contra ele, dizendo: “Não acho culpa nenhuma neste homem” (Lc 23.14); e, quando o entregou e lavou as mãos, disse: “Estou inocente do sangue deste justo” (Mt 27.24). Há ainda outra testemunha da impecabilidade de Jesus: o ladrão, o primeiro homem admitido no paraíso, que repreendeu o companheiro e disse: “Nós recebemos o castigo que os nossos atos merecem; mas este não fez mal nenhum (Lc 23.41)3; pois estivemos presentes, você e eu, ao julgamento dele.”
4. Jesus, então, sofreu realmente por todos os homens; pois a cruz não foi ilusão4, senão também a nossa redenção seria ilusão. A sua morte não foi mera aparência5, pois então também a nossa salvação seria fábula. Se a sua morte foi só aparência, falavam a verdade os que disseram: “Nós lembramos que aquele enganador, enquanto vivia, disse: ‘Depois de três dias ressuscitarei'” (Mt 27.63). A sua paixão, portanto, foi real: pois ele foi realmente crucificado, e não nos envergonhamos disso; foi crucificado, e não o negamos; pelo contrário, eu me glorio em falar disso. Pois, ainda que eu o negasse agora, aqui está o Gólgota para me refutar, junto ao qual estamos agora reunidos; refuta-me o madeiro da cruz, que depois daqui foi distribuído em pedaços por todo o mundo6. Confesso a cruz porque conheço a ressurreição; pois, se ele, depois de crucificado, tivesse ficado como estava, talvez eu não a confessasse, pois poderia esconder tanto ela quanto o meu Mestre; mas, agora que a ressurreição veio depois da cruz, não me envergonho de anunciá-la.
5. Estando, pois, na carne como os outros, ele foi crucificado, mas não por pecados semelhantes. Pois não foi levado à morte por cobiça, já que era mestre da pobreza; nem foi condenado por concupiscência, pois ele mesmo diz claramente: “Todo o que olhar para uma mulher com intenção impura, já cometeu adultério com ela” (Mt 5.28); nem por ferir ou bater com precipitação, pois ofereceu também a outra face a quem o feria; nem por desprezar a Lei, pois era quem cumpria a Lei; nem por injuriar um profeta, pois era a ele mesmo que os profetas anunciavam; nem por defraudar alguém do seu salário, pois servia sem recompensa e de graça; nem por pecar em palavras, ações ou pensamentos, ele que “não cometeu pecado, nem foi encontrado engano em sua boca”; que, “quando insultado, não revidava com insultos; quando maltratado, não fazia ameaças” (1Pe 2.22-23); que veio à sua paixão não contra a vontade, mas de bom grado; sim, se alguém, querendo dissuadi-lo, lhe disser ainda agora: “Que Deus não permita, Senhor!”, ele dirá de novo: “Saia da minha frente, Satanás!” (Mt 16.22-23).
6. E você quer se convencer de que ele veio à sua paixão de bom grado? Os outros, que não a preveem, morrem contra a vontade; mas ele predisse a sua paixão: “Eis que o Filho do Homem será entregue para ser crucificado” (Mt 26.2). Mas você sabe por que este amigo dos homens não fugiu da morte? Foi para que o mundo inteiro não perecesse nos seus pecados. “Eis que subimos para Jerusalém, e o Filho do Homem será entregue e será crucificado” (Mt 20.18-19); e ainda: “Manifestou a firme resolução de ir para Jerusalém” (Lc 9.51). E você quer saber com certeza que a cruz é uma glória para Jesus? Ouça as palavras dele, não as minhas. Judas tornara-se ingrato para com o dono da casa e estava para traí-lo. Mal tendo saído da mesa e bebido o seu cálice de bênção, em troca daquela bebida de salvação procurou derramar sangue justo. “Aquele que comia do seu pão levantava contra ele o calcanhar” (Sl 41.9); as suas mãos ainda há pouco recebiam os dons abençoados7, e logo, pelo salário da traição, tramava a morte dele. E, repreendido, depois de ouvir aquela palavra: “Você disse” (Mt 26.25), saiu de novo; então disse Jesus: “É chegada a hora de ser glorificado o Filho do Homem” (Jo 12.23). Você vê como ele sabia que a cruz era a sua glória própria? Pois então: Isaías não se envergonha de ser serrado ao meio8, e Cristo se envergonharia de morrer pelo mundo? “Agora foi glorificado o Filho do Homem” (Jo 13.31). Não que antes estivesse sem glória, pois era “glorificado com a glória” que havia “antes da fundação do mundo” (Jo 17.5). Sempre foi glorificado como Deus; mas agora havia de ser glorificado ao cingir a coroa da sua paciência. Não entregou a vida à força, nem foi morto por violência assassina, mas por sua própria vontade. Ouça o que ele diz: “Tenho autoridade para entregá-la e também para reavê-la” (Jo 10.18): eu a entrego por minha própria escolha aos meus inimigos; pois, se eu não quisesse, isso não poderia acontecer. Ele veio, pois, por seu próprio propósito deliberado à sua paixão, alegrando-se com o seu nobre feito, sorrindo diante da coroa, animado pela salvação da humanidade; não se envergonhando da cruz, pois ela era para salvar o mundo. Pois não foi um homem comum que sofreu, mas Deus na natureza humana, lutando pelo prêmio da sua paciência.
7. Mas os judeus contradizem isso9, sempre prontos, como são, a cavilar, e lentos para crer; de modo que, por esse motivo, o profeta que acaba de ser lido diz: “Senhor, quem creu em nossa pregação?” (Is 53.1). Os persas creem10, e os hebreus não creem; “verão aqueles a quem ele não foi anunciado, e os que não ouviram entenderão” (Rm 15.21; Is 52.15), enquanto os que estudam essas coisas desprezam o que estudam. Falam contra nós e dizem: “Então o Senhor sofre? Como assim? Mãos humanas tiveram poder sobre a sua soberania?” Leiam as Lamentações; pois nessas Lamentações Jeremias, lamentando por vocês, escreveu o que é digno de lamentação. Ele viu a destruição de vocês, contemplou a sua queda, chorou a Jerusalém que então existia; pois “a que agora existe” (Gl 4.25) não será chorada; pois aquela Jerusalém crucificou o Cristo, mas a que agora existe o adora. Lamentando, pois, ele diz: “O sopro do nosso rosto, Cristo, o Senhor, foi preso nas nossas corrupções” (Lm 4.20)11. Estou eu, então, expondo opiniões minhas? Eis que ele dá testemunho do Senhor Cristo preso por homens. E o que se segue disso? Diga-me, ó profeta. Ele diz: “De quem dizíamos: ‘Debaixo da sua sombra viveremos entre as nações'” (Lm 4.20). Pois ele indica que a graça da vida já não habitaria em Israel, mas entre os gentios.
8. Mas, como eles levantaram muitas contradições, vamos lá: com a ajuda das orações de vocês (e na medida em que a brevidade do tempo permitir), vou apresentar, pela graça do Senhor, alguns poucos testemunhos sobre a paixão. Pois as coisas que se referem a Cristo estão todas postas por escrito, e nada é duvidoso, pois nada está sem texto. Tudo está gravado nos monumentos dos profetas, escrito com clareza, não em tábuas de pedra, mas pelo Espírito Santo. Já que você ouviu o evangelho falar a respeito de Judas, não deveria receber o testemunho sobre isso? Você ouviu que ele foi traspassado no lado por uma lança; não deveria ver se também isso está escrito? Você ouviu que ele foi crucificado num jardim; não deveria ver se também isso está escrito? Você ouviu que ele foi vendido por trinta moedas de prata; não deveria saber que profeta falou isso? Você ouviu que lhe deram vinagre para beber; aprenda onde também isso está escrito. Você ouviu que o seu corpo foi posto numa rocha e que se colocou uma pedra por cima; não deveria receber também esse testemunho do profeta? Você ouviu que ele foi crucificado com ladrões; não deveria ver se também isso está escrito? Você ouviu que ele foi sepultado; não deveria ver se as circunstâncias do seu sepultamento estão escritas com exatidão em algum lugar? Você ouviu que ele ressuscitou; não deveria ver se estamos zombando de você ao ensinar essas coisas? Pois “a nossa palavra e a nossa pregação não consistem em palavras persuasivas de sabedoria humana” (1Co 2.4)12. Não armamos agora artifícios sofísticos, pois estes acabam desmascarados; não vencemos palavras com palavras13, pois estas chegam ao fim; mas “pregamos o Cristo crucificado” (1Co 1.23), que já foi pregado de antemão pelos profetas. Mas você, eu lhe peço, receba os testemunhos e sele-os no seu coração. E, como são muitos, e o resto do nosso tempo se estreitou num curto espaço, ouça agora alguns dos mais importantes, conforme o tempo permitir; e, recebidos estes começos, seja diligente e procure o restante. Que a sua mão não esteja só estendida para receber, mas também pronta para trabalhar (Eclo 4.31)14. Deus dá todas as coisas de graça. Pois, “se algum de vocês necessita de sabedoria, peça a Deus, que dá” (Tg 1.5), e receberá. Que ele, pela oração de vocês, conceda a palavra a nós que falamos e a fé a vocês que ouvem.
9. Procuremos, então, os testemunhos da paixão de Cristo; pois estamos reunidos agora não para fazer uma exposição especulativa das Escrituras, mas antes para ter certeza das coisas em que já cremos. Você já recebeu de mim, primeiro, os testemunhos sobre a vinda de Jesus; e sobre o seu andar sobre o mar, pois está escrito: “O teu caminho foi pelo mar” (Sl 77.19)15. Também sobre as diversas curas você recebeu testemunho em outra ocasião. Agora, pois, começo de onde começou a paixão. Judas foi o traidor, e veio contra ele, e ficou de pé, falando palavras de paz, mas tramando guerra. A respeito dele, portanto, diz o salmista: “Os meus amigos e os meus próximos se aproximaram contra mim e ficaram de pé” (Sl 38.11). E ainda: “As suas palavras eram mais suaves que o azeite, mas eram lanças” (Sl 55.21). “Salve, Mestre!” (Mt 26.49); e no entanto ele entregava o seu Mestre à morte. Não se envergonhou da advertência dele, quando disse: “Judas, com um beijo você trai o Filho do Homem?” (Lc 22.48); pois o que ele lhe dizia era exatamente isto: lembre-se do seu próprio nome; Judas quer dizer confissão16; você fez o contrato, recebeu o dinheiro, confesse depressa. “Ó Deus do meu louvor, não te cales! Pois contra mim se abriram a boca do ímpio e a boca do enganador; falaram contra mim com língua traiçoeira e me cercaram com palavras de ódio” (Sl 109.1-3). Mas que alguns dos principais sacerdotes também estavam presentes e que ele foi amarrado diante das portas da cidade, você já ouviu antes, se se lembra da exposição do salmo, que indicou o tempo e o lugar: como “eles voltaram ao anoitecer, tiveram fome como cães e rodearam a cidade” (Sl 59.6)17.
10. Ouça também sobre as trinta moedas de prata. “E eu lhes direi: Se estiverem de acordo, deem-me o meu preço, ou recusem” (Zc 11.12), e o resto. Um preço vocês me devem por eu ter curado os cegos e os coxos, e recebo outro: em lugar de ação de graças, desonra; em lugar de adoração, insulto. Você vê como a Escritura previu essas coisas? “E pesaram como meu preço trinta moedas de prata” (Zc 11.12). Que exatidão a da profecia! Que grande e infalível sabedoria a do Espírito Santo! Pois ele não disse dez, nem vinte, mas trinta, exatamente quantas foram. Diga também, ó profeta, o que acontece com esse preço! Quem o recebeu fica com ele, ou o devolve? E, depois de devolvido, o que acontece com ele? Diz então o profeta: “E peguei as trinta moedas de prata e as lancei na casa do Senhor, na fundição” (Zc 11.13). Compare o evangelho com a profecia: Judas, diz ele, “tocado de remorso”, “atirando as moedas de prata para dentro do templo, retirou-se” (Mt 27.3, 5).
11. Mas agora tenho de procurar a solução exata dessa aparente discrepância. Pois os que fazem pouco caso dos profetas alegam que o profeta diz, de um lado: “E as lancei na casa do Senhor, na fundição”, e o evangelho, de outro: “E as deram pelo campo do oleiro” (Mt 27.7). Ouça, então, como ambos são verdadeiros. Pois aqueles judeus tão escrupulosos, sem dúvida, os sumos sacerdotes daquele tempo, quando viram que Judas se arrependia e dizia: “Pequei, traindo sangue inocente”, respondem: “Que nos importa? Isso é com você” (Mt 27.4). Então não importa nada a vocês, os que crucificaram? Mas aquele que recebeu e devolveu o preço do assassinato deve cuidar disso, e vocês, os assassinos, não devem cuidar? Depois dizem entre si: “Não é lícito colocá-las no cofre das ofertas, porque é preço de sangue” (Mt 27.6). Pela própria boca de vocês está a sua condenação; se o preço é impuro, o feito também é impuro; mas, se você está cumprindo a justiça ao crucificar Cristo, por que não recebe o preço disso? Mas o ponto da questão é este: como não há desacordo, se o evangelho diz “o campo do oleiro” e o profeta “a fundição”? Ora, não só os ourives ou os fundidores de bronze têm fundição, mas também os oleiros têm fundições para o seu barro. Pois separam por peneira a terra fina, rica e útil, do cascalho, e apartam dela a massa dos refugos, e primeiro amassam o barro com água, para poderem trabalhá-lo com facilidade nas formas desejadas. Por que, então, você se admira de que o evangelho diga claramente “o campo do oleiro”, enquanto o profeta proferiu a sua profecia como um enigma, já que a profecia em muitos lugares é enigmática?
12. Amarraram Jesus e o levaram ao pátio do sumo sacerdote. E você quer aprender e saber que também isso está escrito? Isaías diz: “Ai da alma deles, porque tomaram um mau conselho contra si mesmos, dizendo: Amarremos o justo, porque ele nos é incômodo” (Is 3.9-10)18. E de fato: ai da alma deles! Vejamos: Isaías foi serrado ao meio, e no entanto depois disso o povo foi restaurado. Jeremias foi lançado no lodo da cisterna, e no entanto a ferida dos judeus foi curada; pois o pecado era menor, já que era contra um homem. Mas, quando os judeus pecaram, não contra um homem, mas contra Deus na natureza humana: ai da alma deles! “Amarremos o justo”. Será que ele não podia, então, libertar-se, dirá alguém; ele, que libertou Lázaro dos laços da morte no quarto dia e soltou Pedro das cadeias de ferro de uma prisão? Os anjos estavam prontos ao lado, dizendo: “Vamos romper os seus laços” (Sl 2.3); mas se contêm, porque o seu Senhor quis passar por aquilo. De novo, ele foi levado ao tribunal diante dos anciãos; e você já tem o testemunho disso: “O próprio Senhor entrará em juízo com os anciãos do seu povo e com os seus príncipes” (Is 3.14).
13. Mas o sumo sacerdote, depois de interrogá-lo e ouvir a verdade, se enfurece; e o guarda perverso de homens perversos lhe dá uma bofetada; e o rosto que tinha brilhado como o sol suportou ser esbofeteado por mãos sem lei. Vêm também outros e cospem no rosto daquele que, com saliva, tinha curado o cego de nascença. “É assim que vocês retribuem ao Senhor? Este povo é tolo e insensato” (Dt 32.6). E o profeta, muito admirado, diz: “Senhor, quem creu em nossa pregação?” (Is 53.1); pois é coisa incrível que Deus, o Filho de Deus e “o braço do Senhor” (Is 53.1), sofresse tais coisas. Mas, para que os que estão sendo salvos não deixem de crer, o Espírito Santo escreve de antemão, na pessoa de Cristo, que diz (pois aquele que então falou essas coisas foi depois ele mesmo quem as viveu): “Dei as costas aos açoites”, pois Pilatos, “depois de açoitá-lo, entregou-o para ser crucificado” (Mt 27.26), “e as minhas faces às bofetadas; e não desviei o rosto da vergonha das cusparadas” (Is 50.6); dizendo como que: “Embora eu soubesse de antemão que me baterão, nem sequer desviei a face; pois como eu teria fortalecido os meus discípulos para enfrentar a morte por amor da verdade, se eu mesmo tivesse temido isso?” Eu disse: “Quem ama a sua vida perde-a” (Jo 12.25); se eu tivesse amado a minha vida, como haveria de ensinar sem praticar o que ensinava? Primeiro, então, sendo ele mesmo Deus, suportou sofrer essas coisas da parte dos homens, para que depois disso nós, homens, quando sofrermos tais coisas da parte dos homens por amor dele, não nos envergonhemos. Você vê que também dessas coisas os profetas escreveram claramente de antemão. Muitos dos testemunhos da Escritura, porém, deixo de lado por falta de tempo, como eu disse antes; pois, se alguém pesquisasse tudo com exatidão, nenhuma das coisas referentes a Cristo ficaria sem testemunho.
14. Depois de amarrado, ele foi de Caifás a Pilatos: também isso está escrito? Sim: “E, depois de amarrá-lo, levaram-no como presente ao rei de Jarim” (Os 10.6)19. Mas aqui algum ouvinte arguto objetará: “Pilatos não era rei” (para deixar por um momento as partes principais da questão); “como, então, depois de amarrá-lo, o levaram como presente ao rei?” Mas leia você o evangelho: “Quando Pilatos ouviu que ele era da Galileia, enviou-o a Herodes” (Lc 23.6-7); pois Herodes era então rei e estava presente em Jerusalém. E agora observe a exatidão do profeta, pois ele diz que Jesus foi enviado como presente; pois “naquele mesmo dia, Herodes e Pilatos se reconciliaram, pois antes eram inimigos” (Lc 23.12). Pois convinha que aquele que estava às vésperas de fazer a paz entre a terra e o céu fizesse dos próprios homens que o condenaram os primeiros a ficar em paz; pois estava ali presente o próprio Senhor, “que reconcilia os corações dos príncipes da terra” (Jó 12.24)20. Note a exatidão dos profetas e o seu testemunho verdadeiro.
15. Olhe, pois, com temor reverente para o Senhor que foi julgado. Ele se deixou conduzir e levar por soldados. Pilatos sentou-se para julgar, e aquele que está sentado à direita do Pai ficou de pé e foi julgado21. O povo que ele resgatara da terra do Egito, e muitas vezes de outros lugares, gritou contra ele: “Fora! Fora! Crucifique-o!” (Jo 19.15). Por quê, ó judeus? Porque ele curou os seus cegos? Ou porque fez andar os seus coxos e lhes concedeu os seus outros benefícios? De modo que também disso o profeta fala com espanto: “Contra quem vocês abriram a boca, e contra quem soltaram a língua?” (Is 57.4); e o próprio Senhor diz nos profetas: “A minha herança tornou-se para mim como um leão na floresta; levantou a voz contra mim, e por isso eu a odeio” (Jr 12.8). Não fui eu que os rejeitei, mas eles é que me rejeitaram; por isso eu digo: “Abandonei a minha casa” (Jr 12.7).
16. Quando foi julgado, ficou calado, de modo que Pilatos se comoveu por ele e disse: “Não está ouvindo o que estes testemunham contra você?” (Mt 27.13). Não que conhecesse aquele que era julgado, mas temia o sonho da sua mulher, que lhe tinha sido relatado. E Jesus ficou calado. Diz o salmista: “Sou como quem não ouve e em cujos lábios não há réplica” (Sl 38.14); e ainda: “Mas eu, como surdo, não ouço e, qual mudo, não abro a boca” (Sl 38.13). Você já ouviu antes sobre isso22, se se lembra.
17. Mas os soldados que se aglomeram ao redor zombam dele, e o seu Senhor se torna para eles objeto de brincadeira, e do seu Mestre fazem chacota. “Quando me viram, balançaram a cabeça” (Sl 109.25). Contudo, aparece a figura da realeza; pois, ainda que por zombaria, eles dobram o joelho. E os soldados, antes de crucificá-lo, vestem-no com um manto de púrpura e põem uma coroa na sua cabeça; e que importa que seja de espinhos? Todo rei é proclamado por soldados; e Jesus também devia, em figura, ser coroado por soldados; de modo que, por isso, a Escritura diz no Cântico: “Saiam, ó filhas de Jerusalém, e vejam o rei Salomão com a coroa com que sua mãe o coroou” (Ct 3.11). E a própria coroa era um mistério, pois era remissão dos pecados, libertação da maldição.
18. Adão recebeu a sentença: “Maldita é a terra nos seus trabalhos; ela produzirá espinhos e cardos para você” (Gn 3.17-18)23. Por isso Jesus toma sobre si os espinhos, para anular a sentença; por isso também foi sepultado na terra, para que a terra que fora amaldiçoada recebesse a bênção em lugar da maldição. No tempo do pecado, eles se cobriram com folhas de figueira; por isso Jesus também fez da figueira o último dos seus sinais. Pois, quando estava para ir à sua paixão, amaldiçoa a figueira, não toda figueira, mas só aquela, por causa da figura, dizendo: “Nunca mais alguém coma dos seus frutos!” (Mc 11.14); que a condenação seja anulada. E, porque eles outrora se cobriram com folhas de figueira, ele veio numa época em que não se costumava encontrar alimento na figueira. Quem não sabe que no inverno a figueira não dá fruto, mas está coberta só de folhas? Será que Jesus ignorava isso, que todos sabiam? Não; mas, embora soubesse, veio como quem procura; não ignorando que não acharia, mas mostrando que a maldição simbólica se estendia só às folhas.
19. E, já que tocamos em coisas ligadas ao paraíso, fico verdadeiramente admirado com a verdade das figuras. No paraíso houve a queda, e num jardim houve a nossa salvação. Da árvore veio o pecado, e até a árvore durou o pecado. “Ao entardecer, quando o Senhor andava no jardim, eles se esconderam” (Gn 3.8); e ao entardecer o ladrão é levado pelo Senhor ao paraíso. Mas alguém me dirá: “Você está inventando sutilezas; mostre-me em algum profeta o madeiro da cruz; se não me der um testemunho de um profeta, não me convencerei.” Ouça, então, de Jeremias e fique seguro: “Eu era como um cordeiro inocente levado ao matadouro; não o sabia eu?” (Jr 11.19)24. Pois leia desta maneira, como pergunta, como eu li; pois aquele que disse: “Vocês sabem que, daqui a dois dias, será celebrada a Páscoa, e o Filho do Homem será entregue para ser crucificado” (Mt 26.2) não sabia? “Eu era como um cordeiro inocente levado ao matadouro; não o sabia eu?” Mas que espécie de cordeiro? Que João Batista o interprete, quando diz: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1.29). “Tramaram contra mim uma trama perversa, dizendo” (Jr 11.19) (aquele que conhece as tramas não conhecia o resultado delas? E o que diziam?): “Venham, e ponhamos um madeiro sobre o seu pão” (Jr 11.19)25 (e, se o Senhor o considerar digno, você aprenderá mais tarde que o corpo dele, segundo o evangelho, trazia a figura do pão); “Venham, pois, e ponhamos um madeiro sobre o seu pão, e cortemo-lo da terra dos viventes” (a vida não é cortada; por que vocês trabalham em vão?) “e o seu nome não será mais lembrado”. Vão é o conselho de vocês; pois “antes do sol o seu nome” (Sl 72.17) permanece na Igreja. E que era a vida que estava pendurada na cruz, Moisés o diz, chorando: “E a sua vida estará pendurada diante dos seus olhos; e você terá medo de dia e de noite, e não terá confiança na sua vida” (Dt 28.66). E assim também o que agora mesmo foi lido como texto: “Senhor, quem creu em nossa pregação?”
20. Essa foi a figura que Moisés completou ao fixar a serpente numa cruz, para que quem tivesse sido mordido pela serpente viva e olhasse para a serpente de bronze fosse salvo, crendo (Nm 21.9; Jo 3.14)26. Se então a serpente de bronze salva quando crucificada, não salvará o Filho de Deus encarnado, crucificado também? Em cada ocasião a vida vem por meio do madeiro. Pois no tempo de Noé a preservação da vida se deu por uma arca de madeira. No tempo de Moisés, o mar, ao ver a vara simbólica, recuou envergonhado diante daquele que o feriu; é então poderosa a vara de Moisés, e impotente a cruz do Salvador? Mas deixo de lado a maior parte das figuras, para manter a medida. O madeiro, no caso de Moisés, adoçou a água; e do lado de Jesus a água correu sobre o madeiro.
21. O princípio dos sinais no tempo de Moisés foi sangue e água; e o último de todos os sinais de Jesus foi o mesmo. Primeiro, Moisés transformou o rio em sangue; e Jesus, no fim, fez sair do seu lado água com sangue. Isso talvez se deu por causa das duas falas, a daquele que o julgou e a dos que gritavam contra ele; ou por causa dos que creem e dos que não creem. Pois Pilatos disse: “Estou inocente” (Mt 27.24), e lavou as mãos com água; os que gritavam contra ele disseram: “Que o sangue dele caia sobre nós” (Mt 27.25): saíram, portanto, estes dois do seu lado; a água, talvez, para aquele que o julgou; mas, para os que gritavam contra ele, o sangue. E ainda se pode entender de outro modo: o sangue para os judeus, e a água para os cristãos; pois sobre eles, como conspiradores, veio a condenação por causa do sangue; mas a você, que agora crê, a salvação que vem pela água. Pois nada foi feito sem um significado. Os nossos pais que escreveram comentários deram outra razão para isso. Como nos Evangelhos o poder do batismo salvador é duplo, um concedido por meio da água aos iluminados, e o outro aos santos mártires, nas perseguições, pelo seu próprio sangue, saiu daquele lado salvador sangue e água (Jo 19.34)27, para confirmar a graça da confissão feita por Cristo, seja no batismo, seja nas ocasiões de martírio. Há ainda outra razão para se mencionar o lado. A mulher, que foi formada do lado, abriu caminho ao pecado; mas Jesus, que veio conceder a graça do perdão igualmente a homens e mulheres, foi traspassado no lado em favor das mulheres, para desfazer o pecado.
22. Quem quiser investigar encontrará também outras razões; mas o que foi dito basta, por causa da brevidade do tempo, e para que a atenção dos meus ouvintes não se canse. E, no entanto, nunca podemos nos cansar de ouvir sobre a coroação do nosso Senhor, e menos ainda neste santíssimo Gólgota. Pois outros apenas ouvem, mas nós vemos e tocamos. Que ninguém se canse; tome a sua armadura contra os adversários em defesa da própria cruz; levante a fé na cruz como troféu contra os que a contradizem. Pois, quando você for discutir com os incrédulos sobre a cruz de Cristo, faça primeiro com a mão o sinal da cruz de Cristo, e o contraditor se calará. Não se envergonhe de confessar a cruz; pois os anjos se gloriam nela, dizendo: “Sabemos a quem vocês procuram: Jesus, o crucificado” (Mt 28.5). Você não poderia dizer, ó anjo: “Sei a quem vocês procuram, o meu Senhor?” Mas ele diz com ousadia: “Eu, eu conheço o Crucificado.” Pois a cruz é coroa, e não desonra.
23. Voltemos agora à prova tirada dos profetas, de que falei. O Senhor foi crucificado; você recebeu os testemunhos. Você vê este lugar do Gólgota! Você responde com uma aclamação, como quem concorda. Cuide de não se retratar no tempo da perseguição. Não se alegre na cruz só no tempo de paz, mas mantenha a mesma fé também no tempo da perseguição; não seja, no tempo de paz, amigo de Jesus e, no tempo das guerras, inimigo dele. Agora você recebe a remissão dos seus pecados e os dons da liberalidade espiritual do Rei; quando vier a guerra, lute com nobreza pelo seu Rei. Jesus, o sem pecado, foi crucificado por você; e você não será crucificado por aquele que foi crucificado por você? Você não está fazendo um favor, pois primeiro recebeu; mas está retribuindo um favor, pagando a sua dívida àquele que foi crucificado por você no Gólgota. Ora, Gólgota se interpreta “lugar da Caveira”. Quem foram, então, os que profeticamente deram a este lugar o nome de Gólgota, onde Cristo, a verdadeira Cabeça, suportou a cruz? Como diz o apóstolo: “Ele é a imagem do Deus invisível” (Cl 1.15); e pouco depois: “Ele é a cabeça do corpo, que é a igreja” (Cl 1.18). E ainda: “Cristo é o cabeça de todo homem” (1Co 11.3); e mais: “Ele é o cabeça de todo principado e potestade” (Cl 2.10). A Cabeça sofreu no “lugar da Caveira”. Ó admirável designação profética! O próprio nome também lembra você, dizendo: “Não pense no Crucificado como num simples homem; ele é o cabeça de todo principado e potestade. Aquela Cabeça que foi crucificada é a cabeça de todo poder, e tem por cabeça o Pai; pois o cabeça do homem é Cristo, e o cabeça de Cristo é Deus (1Co 11.3).”
24. Cristo, então, foi crucificado por nós, ele que foi julgado de noite, quando fazia frio, e por isso se acendeu “uma fogueira de brasas” (Jo 18.18). Foi crucificado na hora terceira; e “da hora sexta houve trevas até a hora nona” (Mt 27.45); mas da hora nona em diante houve luz de novo. Também essas coisas estão escritas? Investiguemos. Ora, o profeta Zacarias diz: “E acontecerá naquele dia que não haverá luz, e haverá frio e geada por um dia” (Zc 14.6) (o frio por causa do qual Pedro se aquecia); “e aquele dia será conhecido do Senhor” (Zc 14.7). Como? Não conhecia ele os outros dias? Os dias são muitos, mas “este é o dia” da paciência do Senhor, “que o Senhor fez” (Sl 118.24). “E aquele dia será conhecido do Senhor, nem dia nem noite”. Que palavra obscura é esta que o profeta diz? Aquele dia não é nem dia nem noite? Como, então, o chamaremos? O Evangelho o interpreta, relatando o acontecimento. Não foi dia, pois o sol não brilhou uniformemente do seu nascer até o seu pôr, mas da hora sexta até a hora nona houve trevas ao meio-dia. As trevas, portanto, se interpuseram; mas “Deus chamou às trevas noite” (Gn 1.5). Por isso não foi nem dia nem noite: nem foi tudo luz, para que se chamasse dia; nem foi tudo trevas, para que se chamasse noite; mas depois da hora nona o sol voltou a brilhar. Também isso o profeta predisse; pois, depois de dizer: “Nem dia nem noite”, acrescentou: “E ao entardecer haverá luz” (Zc 14.7)28. Você vê a exatidão dos profetas? Vê a verdade das coisas escritas de antemão?
25. Mas você pergunta exatamente em que hora o sol se eclipsou29? Foi na hora quinta, ou na oitava, ou na décima? Diga, ó profeta, o tempo exato disso aos judeus, que não querem ouvir: quando o sol se porá? O profeta Amós responde: “E acontecerá naquele dia, diz o Senhor Deus, que o sol se porá ao meio-dia” (pois houve trevas desde a hora sexta) “e a luz se escurecerá sobre a terra em pleno dia” (Am 8.9)30. Que tempo é esse, ó profeta, e que dia? “Transformarei as suas festas em luto” (Am 8.10); pois isso se deu nos dias dos pães sem fermento e na festa da Páscoa. Depois ele diz: “E o farei como o luto por um filho único, e os que estão com ele como um dia de angústia” (Am 8.10); pois no dia dos pães sem fermento, e na festa, as mulheres deles se lamentavam e choravam, e os apóstolos se haviam escondido e estavam angustiados. Admirável, então, é esta profecia.
26. Mas alguém dirá: “Dê-me ainda outro sinal; que outro sinal exato há do que aconteceu? Jesus foi crucificado; e ele vestia só uma túnica e um manto. O manto, os soldados o repartiram entre si, rasgando-o em quatro; mas a túnica não foi rasgada, pois, rasgada, já não serviria para nada; por isso os soldados lançam sortes sobre ela; assim, um eles dividem, mas pelo outro lançam sortes. Também isso está escrito?” Sabem-no os diligentes cantores31 da Igreja, que imitam as hostes dos anjos e cantam continuamente louvores a Deus, que são considerados dignos de salmodiar neste Gólgota e de dizer: “Repartiram entre si as minhas roupas e sobre a minha túnica lançaram sortes” (Sl 22.18; Jo 19.24). As “sortes” foram o que os soldados lançaram32.
27. Além disso, depois de julgado diante de Pilatos, ele foi vestido de vermelho; pois ali lhe puseram um manto de púrpura. Também isso está escrito? Isaías diz: “Quem é este que vem de Edom? O vermelho das suas roupas vem de Bosor” (Is 63.1) (quem é este que, desonrado, veste púrpura? Pois Bosor tem em hebraico um sentido desse tipo33). “Por que as suas roupas estão vermelhas, e as suas vestes como de quem pisou o lagar?” (Is 63.2). Mas ele responde e diz: “O dia todo estendi as mãos a um povo desobediente e rebelde” (Is 65.2)34.
28. Ele estendeu as mãos na cruz para abraçar os confins do mundo; pois este Gólgota é o próprio centro da terra. Não é palavra minha, mas é um profeta que disse: “Operaste a salvação no meio da terra” (Sl 74.12)35. Estendeu mãos humanas aquele que com as suas mãos espirituais havia firmado o céu; e elas foram presas com cravos, para que, pregada ao madeiro e morta a sua humanidade, que carregava os pecados dos homens, o pecado morresse com ela, e nós ressuscitássemos em justiça. Pois, “como por um só homem veio a morte, por um só Homem veio também a vida” (Rm 5.12, 17); por um só Homem, o Salvador, que morreu por sua própria vontade; pois lembre-se do que ele disse: “Tenho autoridade para entregar a minha vida e também para reavê-la” (Jo 10.18).
29. Mas, embora tivesse suportado essas coisas, vindo para a salvação de todos, o povo lhe deu uma má recompensa. Jesus diz: “Tenho sede!” (Jo 19.28), ele que lhes havia feito brotar as águas da rocha escarpada; e pediu fruto à videira que ele havia plantado. Mas o que faz a videira? Esta videira, que por natureza vinha dos santos pais, mas por intenção do coração era de Sodoma, pois “a videira deles é de Sodoma, e os seus sarmentos de Gomorra” (Dt 32.32); esta videira, quando o Senhor tinha sede, enchendo uma esponja e pondo-a numa cana, oferece-lhe vinagre. “Por alimento me deram fel e na minha sede me deram a beber vinagre” (Sl 69.21). Você vê a clareza da descrição dos profetas. Mas que espécie de fel me puseram na boca? “Deram-lhe”, diz, “vinho misturado com mirra” (Mc 15.23). Ora, a mirra tem gosto de fel e é muito amarga. É isso que vocês retribuem ao Senhor? São essas as suas ofertas, ó videira, ao seu Senhor? Com razão o profeta Isaías se lamentou outrora por vocês, dizendo: “O meu amado teve uma vinha numa colina fértil” (Is 5.1); e (para não recitar tudo) “esperei”, diz ele, “que desse uvas; tive sede de que desse vinho; mas deu espinhos” (Is 5.2); pois você vê a coroa com que estou adornado. Que decretarei agora? “Darei ordem às nuvens para que não derramem chuva sobre ela” (Is 5.6)36. Pois as nuvens, que são os profetas, foram retiradas deles e estão daqui em diante na Igreja; como diz Paulo: “Falem os profetas, dois ou três, e os outros julguem” (1Co 14.29); e ainda: “Deus deu na Igreja uns como apóstolos, outros como profetas” (Ef 4.11). Ágabo, que amarrou os próprios pés e mãos, era profeta.
30. Sobre os ladrões que foram crucificados com ele, está escrito: “E foi contado com os transgressores” (Is 53.12). Ambos eram, antes disso, transgressores, mas um deixou de sê-lo. Pois um foi transgressor até o fim, obstinado contra a salvação; e, embora tivesse as mãos presas, feria com a blasfêmia da língua. Quando os judeus que passavam meneavam a cabeça, zombando do Crucificado e cumprindo o que estava escrito: “Quando me veem, balançam a cabeça” (Sl 109.25), também ele o insultava com eles. Mas o outro repreendeu o insultador; e isso foi para ele o fim da vida e o começo da restauração, a entrega da sua alma, uma primeira participação na salvação. E, depois de repreender o outro, diz: “Senhor, lembra-te de mim” (Lc 23.42); pois contigo está a minha conta. Não faças caso deste homem, pois os olhos do seu entendimento estão cegos; mas lembra-te de mim. Não digo: lembra-te das minhas obras, pois delas tenho medo. Todo homem tem afeição pelo seu companheiro de viagem; eu viajo contigo rumo à morte; lembra-te de mim, teu companheiro de caminho. Não digo: lembra-te de mim agora, mas: “quando vieres no teu reino”.
31. Que poder, ó ladrão, conduziu você à luz? Quem lhe ensinou a adorar aquele Homem desprezado, seu companheiro na cruz? Ó Luz eterna, que ilumina os que estão nas trevas! Por isso também ele ouviu com justiça as palavras: “Tenha bom ânimo”37; não que as suas obras mereçam bom ânimo, mas porque o Rei está aqui, distribuindo favores. O pedido se estendia a um tempo distante; mas a graça foi muito rápida. “Em verdade lhe digo que hoje você estará comigo no paraíso” (Lc 23.43); porque hoje você “ouviu a minha voz” e não “endureceu o coração” (Sl 95.7-8). Bem depressa pronunciei a sentença contra Adão, bem depressa perdoo você. A ele foi dito: “No dia em que dela comer, você certamente morrerá” (Gn 2.17); mas você hoje obedeceu à fé, hoje é a sua salvação. Adão, pela árvore, caiu; você, pelo madeiro, é conduzido ao paraíso. Não tema a serpente; ela não o expulsará, pois “caiu do céu” (Lc 10.18). E não lhe digo: Hoje você partirá, mas: “Hoje você estará comigo”. Tenha coragem: você não será expulso. Não tema a espada flamejante (Gn 3.24); ela recua diante do seu Senhor38. Ó graça poderosa e inefável! O fiel Abraão ainda não tinha entrado, e o ladrão entra39! Moisés e os profetas ainda não tinham entrado, e o ladrão entra, embora transgressor da lei. Também Paulo se admirou disso antes de você, dizendo: “Onde aumentou o pecado, aumentou muito mais ainda a graça” (Rm 5.20). Os que tinham suportado o calor do dia ainda não tinham entrado; e o da hora undécima entrou. Que ninguém murmure contra o dono da casa, pois ele diz: “Amigo, não estou sendo injusto com você; será que não me é lícito fazer o que quero com o que é meu?” (Mt 20.13, 15). O ladrão tem vontade de praticar a justiça, mas a morte o impede; não espero exclusivamente pela obra, mas aceito também a fé. “Eu vim, eu que apascento as minhas ovelhas entre os lírios” (Ct 6.3); vim apascentá-las nos jardins. “Achei uma ovelha que estava perdida” (Lc 15.5-6), mas a ponho sobre os meus ombros; pois ele crê, já que ele mesmo disse: “Ando errante como ovelha perdida” (Sl 119.176); “Senhor, lembra-te de mim quando vieres no teu reino” (Lc 23.42).
32. Deste jardim cantei outrora à minha esposa no Cântico, e lhe falei assim: “Entrei no meu jardim, minha irmã, minha noiva” (Ct 5.1); ora, “no lugar onde ele foi crucificado havia um jardim” (Jo 19.41); e que tomas de lá? “Colhi a minha mirra” (Ct 5.1), tendo bebido vinho misturado com mirra, e vinagre, depois de receber o qual disse: “Está consumado!” (Jo 19.30). Pois o mistério foi cumprido; as coisas escritas se realizaram; os pecados são perdoados. “Pois Cristo, tendo vindo como sumo sacerdote dos bens futuros, mediante o maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos humanas, quer dizer, não desta criação, e não pelo sangue de bodes e de bezerros, mas pelo seu próprio sangue, entrou no Santuário uma vez por todas e obteve uma eterna redenção; pois, se o sangue de touros e de bodes e a cinza de uma novilha, aspergidos sobre os contaminados, os santificam quanto à purificação da carne, quanto mais o sangue de Cristo?” (Hb 9.11-14). E ainda: “Portanto, irmãos, tendo ousadia para entrar no Santuário, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos abriu por meio do véu, isto é, pela sua carne” (Hb 10.19-20). E, porque a sua carne, este véu, foi desonrada, por isso o véu do templo, que era figura, se rasgou, como está escrito: “Eis que o véu do santuário se rasgou em duas partes, de alto a baixo” (Mt 27.51); pois não ficou dele nem um pedaço; pois, desde que o Senhor disse: “Eis que a casa de vocês ficará deserta” (Mt 23.38), a casa se despedaçou toda.
33. Estas coisas o Salvador suportou, “e fez a paz pelo sangue da sua cruz, para as coisas do céu e as coisas da terra” (Cl 1.20). Pois éramos inimigos de Deus por causa do pecado, e Deus tinha determinado que o pecador morresse. Era preciso, portanto, que acontecesse uma de duas coisas: ou que Deus, na sua verdade, destruísse todos os homens, ou que, na sua bondade, cancelasse a sentença. Mas veja a sabedoria de Deus: ele preservou tanto a verdade da sua sentença quanto o exercício da sua bondade. Cristo levou os nossos pecados “em seu corpo sobre o madeiro, para que nós, pela sua morte, morrêssemos para o pecado e vivêssemos para a justiça” (1Pe 2.24). Não era de pouco valor aquele que morreu por nós; não era uma ovelha literal; não era um simples homem; era mais do que um anjo; era Deus feito homem. A transgressão dos pecadores não era tão grande quanto a justiça daquele que morreu por eles; o pecado que cometemos não era tão grande quanto a justiça que praticou aquele que deu a vida por nós, que a deu quando quis e a retomou quando quis. E você quer saber que ele não deu a vida por violência, nem entregou o espírito contra a sua vontade? Ele clamou ao Pai, dizendo: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!” (Lc 23.46); entrego-o para retomá-lo. “E, dito isto, entregou o espírito” (Mt 27.50); mas não por muito tempo, pois depressa ressuscitou dos mortos.
34. O sol se escureceu, por causa do “Sol da Justiça” (Ml 4.2). As rochas se partiram, por causa da Rocha espiritual. Os túmulos se abriram, e os mortos ressuscitaram, por causa daquele que era “livre entre os mortos” (Sl 88.5); ele “tirou os seus prisioneiros da cova em que não há água” (Zc 9.11). Não se envergonhe, pois, do Crucificado, mas tenha também você a ousadia de dizer: “Ele carrega os nossos pecados e sofre dores por nós, e pelas suas feridas fomos sarados” (Is 53.4-5). Não sejamos ingratos para com o nosso Benfeitor. E ainda: “Pela transgressão do meu povo ele foi levado à morte; e darei os ímpios pela sua sepultura, e os ricos pela sua morte” (Is 53.8-9). Por isso Paulo diz claramente “que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1Co 15.3-4).
35. Mas queremos saber claramente onde ele foi sepultado. O seu túmulo é feito por mãos humanas? É, como os túmulos dos reis, erguido acima do chão? O sepulcro é feito de pedras ajuntadas? E o que está posto sobre ele? Digam-nos, ó profetas, a verdade exata também sobre o seu túmulo, onde ele está deitado e onde o procuraremos. E eles dizem: “Olhem para a rocha sólida que vocês talharam” (Is 51.1). Olhem para dentro e vejam. Você tem nos Evangelhos: “Num sepulcro talhado em pedra, que fora aberto numa rocha” (Mt 27.60; Mc 15.46; Lc 23.53). E o que acontece em seguida? Que espécie de porta tem o sepulcro? Outro profeta diz ainda: “Cortaram a minha vida numa cova40 e lançaram uma pedra sobre mim” (Lm 3.53). Eu, que sou a “pedra angular, eleita e preciosa” (1Pe 2.6), jazo por pouco tempo dentro de uma pedra, eu que sou pedra de tropeço para os judeus e de salvação para os que creem. “A árvore da vida” (Gn 2.9; 3.22)41 foi, portanto, plantada na terra, para que a terra que fora amaldiçoada gozasse da bênção, e para que os mortos fossem libertados.
36. Não nos envergonhemos, pois, de confessar o Crucificado. Seja a cruz o nosso selo, feito com ousadia pelos nossos dedos na fronte e em tudo: sobre o pão que comemos e os cálices que bebemos; nas nossas entradas e saídas; antes do sono, quando nos deitamos e quando nos levantamos; quando estamos a caminho e quando estamos parados42. Grande é essa proteção; é sem preço, por causa dos pobres; sem fadiga, por causa dos doentes; pois também a sua graça vem de Deus. É o sinal dos fiéis e o terror dos demônios; pois ele “triunfou sobre eles” nela, “expondo-os publicamente ao desprezo” (Cl 2.15); pois, quando veem a cruz, lembram-se do Crucificado; têm medo daquele que “esmagou as cabeças do dragão” (Sl 74.13). Não despreze o selo por causa da gratuidade do dom; antes, por isso mesmo, honre ainda mais o seu Benfeitor.
37. E, se algum dia você cair numa disputa e não tiver os argumentos da prova, que a fé, ainda assim, permaneça firme em você; ou melhor, torne-se bem instruído e então faça calar os judeus pelos profetas, e os gregos pelas suas próprias fábulas. Eles mesmos adoram homens que foram fulminados por raios43: mas o raio, quando vem do céu, não vem ao acaso. Se eles não se envergonham de adorar homens fulminados e abominados por Deus, você se envergonha de adorar o Filho amado de Deus, que foi crucificado por você? Tenho vergonha de contar as histórias dos seus chamados deuses, e as deixo por causa do tempo; falem os que as conhecem. E que todos os hereges também se calem. Se alguém disser que a cruz é ilusão, afaste-se dele. Abomine os que dizem que Cristo foi crucificado só em aparência44; pois, se assim fosse, e se a salvação vem da cruz, então também a salvação é aparência. Se a cruz é aparência, também a ressurreição é aparência; mas, “se Cristo não ressuscitou, ainda estamos nos nossos pecados” (1Co 15.17). Se a cruz é aparência, também a ascensão é aparência; e, se a ascensão é aparência, então também a segunda vinda é aparência, e tudo fica daí em diante sem substância.
38. Tome, portanto, primeiro, como fundamento indestrutível, a cruz, e edifique sobre ela os demais artigos da fé. Não negue o Crucificado; pois, se o negar, terá muitos para acusar você. Judas, o traidor, acusará você primeiro; pois aquele que o traiu sabe que ele foi condenado à morte pelos principais sacerdotes e anciãos. As trinta moedas de prata dão testemunho; o Getsêmani dá testemunho, onde se deu a traição; e ainda não falo do monte das Oliveiras, onde, de noite, estavam com ele orando. A lua da noite dá testemunho; dá testemunho o dia, e o sol que se escureceu, pois não suportou olhar o crime dos conspiradores. O fogo acusará você, junto ao qual Pedro ficou e se aqueceu; se você negar a cruz, o fogo eterno o espera. Digo palavras duras, para que você não experimente dores duras. Lembre-se das espadas que vieram contra ele no Getsêmani, para que você não sinta a espada eterna. A casa de Caifás45 acusará você, mostrando pela sua atual desolação o poder daquele que outrora foi julgado ali. Sim, o próprio Caifás se levantará contra você no dia do juízo; levantar-se-á contra você o próprio servo que bateu em Jesus com a palma da mão; e também os que o amarraram e os que o levaram. Até Herodes se levantará contra você, e Pilatos, como se dissesse: Por que você nega aquele que foi caluniado diante de nós pelos judeus, e que sabíamos não ter feito mal nenhum? Pois eu, Pilatos, lavei então as minhas mãos. As falsas testemunhas se levantarão contra você, e os soldados que o vestiram com o manto de púrpura, lhe puseram a coroa de espinhos, o crucificaram no Gólgota e lançaram sortes sobre a sua túnica. Simão, o cireneu, que carregou a cruz atrás de Jesus, clamará contra você.
39. Dentre os astros clamará contra você o sol escurecido; dentre as coisas da terra, o vinho misturado com mirra; dentre as canas, a cana; dentre as ervas, o hissopo; dentre as coisas do mar, a esponja; dentre as árvores, o madeiro da cruz; também os soldados, como eu disse, que o pregaram e lançaram sortes sobre a sua veste; o soldado que lhe traspassou o lado com a lança; as mulheres que então estavam presentes; o véu do templo então rasgado; o pretório de Pilatos, agora devastado pelo poder daquele que então foi crucificado; este santo Gólgota, que se eleva acima de nós e se mostra até hoje, e mostra ainda como, por causa de Cristo, as rochas então se fenderam46; o sepulcro, aqui perto, onde ele foi deposto; e a pedra que foi posta à porta, que jaz até hoje junto ao túmulo; os anjos que então estavam presentes; as mulheres que o adoraram depois da sua ressurreição; Pedro e João, que correram ao sepulcro; e Tomé, que meteu a mão no seu lado e os dedos na marca dos cravos. Pois foi por nossa causa que ele o apalpou com tanto cuidado; e o que você, que não estava presente, teria procurado, ele, estando presente, pela providência de Deus, procurou.
40. Você tem doze apóstolos, testemunhas da cruz; e a terra inteira, e o mundo dos homens que creem naquele que nela foi pendurado. Que a sua própria presença aqui, agora, convença você do poder do Crucificado. Pois quem trouxe você agora a esta assembleia? Que soldados? Com que correntes você foi constrangido? Que sentença o prendeu aqui agora? Não, foi o troféu da salvação, a cruz de Jesus, que reuniu todos vocês. Foi ela que escravizou os persas e domou os citas; ela que deu aos egípcios, em lugar dos gatos e cães e dos seus múltiplos erros, o conhecimento de Deus; ela que até hoje cura doenças, que até hoje expulsa demônios e desfaz os embustes das drogas e dos encantamentos.
41. Ela aparecerá de novo com Jesus, vinda do céu47; pois o troféu precederá o rei, para que, vendo “aquele a quem traspassaram” (Zc 12.10), e conhecendo pela cruz aquele que foi desonrado, os judeus se arrependam e chorem; mas “chorarão tribo por tribo” (Zc 12.12), pois se arrependerão quando já não houver tempo para arrependimento; e para que nós nos gloriemos, exultando na cruz, adorando o Senhor que foi enviado e crucificado por nós, e adorando também Deus, seu Pai, que o enviou, com o Espírito Santo: a quem seja a glória para todo o sempre. Amém.
1. Cf. Atanásio (Sobre a encarnação, § 18, 49).
2. Cf. Catequese I, 3; XVII, 35, 36.
3. Cf. §§ 30, 31, abaixo. O editor beneditino observa: “Não sabemos de onde Cirilo tirou a ideia de que os dois ladrões estavam presentes no julgamento de Jesus.” Ele pode ter deduzido, das palavras en to auto krimati (“na mesma condenação”), que a sentença de crucificação foi pronunciada contra eles ao mesmo tempo que contra Jesus.
4. dokesis. Cf. Inácio (Aos esmirnenses, § 2): “Ele sofreu verdadeiramente, assim como verdadeiramente ressuscitou a si mesmo; não como dizem certos incrédulos, que ele sofreu em aparência (to dokein auton peponthenai).” Veja § 37, abaixo.
5. phantasiodes. Atanásio (Contra Apolinário, § 3): “Supondo que a exibição e o padecimento da paixão fossem mera aparência (phantasian).”
6. Cf. IV, 10; X, 19.
7. tas eulogias. “A palavra tem esse sentido também em Crisóstomo e em Cirilo de Alexandria; mais tarde passou a significar o pão consagrado, distinto do da Eucaristia. Veja Bingham, Antiq. XV, 4, § 3.” (R.W.C.) O costume de enviar o pão da Eucaristia foi proibido na segunda metade do século IV pelo Sínodo de Laodiceia, cânon 14: “Na Páscoa a hóstia não será mais enviada a outras dioceses como eulogiae.” O bispo Hefele (Councils II, p. 308) diz: “Era costume na Igreja antiga não consagrar, mas abençoar aqueles dentre os vários pães da mesma forma postos sobre o altar que não eram necessários para a comunhão, e empregá-los em parte para o sustento do clero e em parte para distribuí-los aos fiéis que não comungavam na missa.” Veja Eusébio (Hist. Ecl. V, 24).
8. Veja Catequese II, 14.
9. Há uma semelhança tão estreita entre o restante desta catequese e a explicação do mesmo artigo do Credo feita por Rufino, que, diz o editor beneditino, “não tenho dúvida de que Rufino bebeu das fontes de Cirilo”. Cf. Rufino, Sobre o Símbolo, § 19 e seguintes.
10. Cf. At 2.9: “Partos, medos, elamitas”. Esses convertidos judeus do dia de Pentecostes seriam naturalmente os primeiros arautos do evangelho nos seus respectivos países. Na dispersão dos apóstolos, “a Pártia, segundo a tradição, coube a Tomé como campo de trabalho” (Eusébio, Hist. Ecl. III, 1; cf. I, 13). Uma notícia mais antiga dessa tradição se encontra nas Recognições clementinas, livro IX, cap. 29, onde o Pseudo-Clemente afirma ter recebido uma carta de “Tomé, que está pregando o evangelho entre eles”.
11. Na versão inglesa: “O fôlego das nossas narinas, o ungido do Senhor, foi apanhado nas covas deles.”
12. O estilo simples do Novo Testamento é defendido por Orígenes, Contra Celso, III, 68, e em muitas outras passagens.
13. Cirilo alude ao mesmo provérbio na Homilia sobre o paralítico, cap. 14: “Palavra resiste a palavra, mas um feito é irresistível.” O editor de Jerusalém remete a Gregório Nazianzeno (tomo II, p. 596): logo palaiei pas logos (toda palavra luta contra outra palavra).
14. Eclo 4.31: “Que a sua mão não esteja estendida para receber e fechada quando você deve retribuir.” A passagem é citada na Didaqué, cap. IV, na Epístola de Barnabé, cap. XIX, e nas Constituições Apostólicas, VII, 11.
15. O editor beneditino, sem outra autoridade além da versão latina de Grodecq, insere uma citação de Jó 9.8: “Que anda sobre o mar como sobre um pavimento.” Cf. XI, 23.
16. Cf. Fílon, o Judeu, Sobre a plantação de Noé, II, § 33: “E o seu nome foi chamado Judá, que, interpretado, é ‘confissão ao Senhor’.” Em Gn 49.8 o nome é interpretado de outro modo: “Judá, a você louvarão os seus irmãos.” A raiz tem os dois sentidos, “confessar” e “louvar”, que estão estreitamente ligados, pois “confessar” é “dar glória a Deus” (Js 7.19).
17. A exposição foi provavelmente feita num sermão pregado a toda a congregação, e não nestas catequeses.
18. Is 3.9, segundo a Revised Version: “fizeram mal a si mesmos. Digam do justo que tudo irá bem com ele.” Na Septuaginta, da qual Cirilo cita, há uma evidente interpolação de Sabedoria 2.12: “Armemos ciladas ao justo, porque ele não nos convém” (duschrestos, como em Cirilo).
19. Segundo a Revised Version: “Também ele será levado à Assíria como presente para o rei Jarebe.” Esta passagem é aplicada do mesmo modo a Lc 23.7 por Justino Mártir (Diálogo com Trifão, § 103), por Tertuliano (Contra Marcião, IV, 42) e por Rufino (Sobre o Símbolo, § 21), que acrescenta: “E com razão o profeta acrescenta o nome ‘Jarim’, que significa ‘videira silvestre’, pois Herodes era… uma videira silvestre, isto é, de linhagem estrangeira.” Para as várias interpretações do nome, veja os comentários a Os 5.13 e 10.6; Schrader, Cuneiform Inscriptions, II, § 439; Driver, Introduction to O. T. Literature, p. 283.
20. Segundo a Revised Version: “Ele tira o coração dos chefes do povo da terra.” A tradução “que reconcilia” (ho diallasson, Septuaginta) é excluída pelo contexto.
21. Alguns manuscritos trazem enescheto ou eneicheto, “submeteu-se a ficar de pé”.
22. “Talvez em alguma homilia” (o editor beneditino).
23. Por um engano de uma letra no hebraico, os Setenta dão o sentido “nos seus trabalhos” em vez de “por sua causa”.
24. Segundo a versão inglesa: “Eu era como um cordeiro manso (Revised Version: dócil) que é levado ao matadouro; e não sabia que tinham tramado tramas contra mim.” A tradução interrogativa de Cirilo não é admissível.
25. Revised Version: “Destruamos a árvore com o seu fruto.” A palavra traduzida por “fruto” é literalmente “pão”. A expressão é evidentemente proverbial. A palavra hebraica que significa “destruir” é mal interpretada por embalomen no grego. Daí surgiu a aplicação fantasiosa da passagem à cruz posta sobre o corpo de Cristo para ser carregada por ele. Justino Mártir (Diálogo com Trifão, LXXII) acusa os judeus de terem recentemente cortado a passagem por causa da suposta referência a Cristo. Tertuliano (Contra os judeus, cap. 10) escreve: “Naturalmente sobre o seu corpo foi posto ‘aquele madeiro’; pois assim Cristo o revelou, chamando o seu corpo de ‘pão’.” Ele dá a mesma interpretação em outros lugares (Contra Marcião, III, 19; IV, 40). Cf. Cipriano (Testemunhos a Quirino, livro II, 15); Atanásio (Sobre a encarnação, § 33).
26. O editor de Jerusalém pergunta: “Como Moisés completou a figura fixando a serpente numa cruz? Primeiro levantou o madeiro e o fixou na terra como um poste; depois, colocando a serpente de bronze atravessada (plagios), formou uma figura da cruz.” Cf. Barnabé (Epist. c. xii); Justino Mártir (Apol. I, c. 60); Ireneu (Haer. IV, c. 2); Tertuliano (Adv. Iudaeos, c. 10).
27. Cf. Catequese III, 10. Orígenes (In Lib. Iudic. Hom. vii, § 2): “Só o batismo de sangue pode nos tornar mais puros do que nos tornou o batismo de água.” Cf. Orígenes (In Ev. Matt. Tom. xvi, 6): “Se o batismo promete a remissão dos pecados, como recebemos a respeito do batismo na água e no Espírito, e se quem suportou o batismo do martírio recebe a remissão dos pecados, então com boa razão o martírio pode ser chamado batismo.” Para um resumo da “interpretação patrística” da passagem, veja o bispo Westcott, Speaker’s Commentary.
28. Cf. Eusébio (Dem. Evang. x, 7): “Não era dia, por causa das trevas do meio-dia; e, por outro lado, não era noite, por causa do dia que se seguiu, o qual ele representou por um sinal, ao dizer: ao entardecer haverá luz.”
29. exelipen. Veja Catequese X, 19. Acta Pilati, c. xi.
30. Cf. Eusébio (Dem. Ev. x, 6).
31. Sínodo de Laodiceia, Cân. xvi. 15: “Além dos cantores designados, que sobem ao ambão e cantam pelo livro, outros não cantarão na igreja.” Hefele pensa que isso não pretendia proibir os leigos de tomar parte na música da igreja, mas apenas proibir que os que não eram cantores assumissem a direção. Veja Bingham, Antiquities, III, c. 7; XIV, c. 1.
32. kleros de en ho lachmos. O bispo Hall, Contemplations, livro IV, 32, fala dos “bárbaros sorteios” dos soldados. O termo técnico é “sortilégio”. Cf. Evangelho de Pedro, § 4; Justino Mártir, Diál. 97.
33. Bozra significa “redil” e é o nome de uma cidade da Idumeia. A interpretação de Cirilo se apoia numa falsa etimologia.
34. “É lugar-comum na literatura patrística que a crucificação foi prefigurada por Is 65.2.” (Dr. C. Taylor, Hermas and the Four Gospels, p. 49.) Cf. Barnabé (Epist. c. xii); Didaquê xvi; Justino Mártir (Apol. I, c. 35; Trif. cc. 97, 114); Tertuliano (Contra Iud. xii); Ireneu IV, xxxiii, 12.
35. A passagem não se refere especialmente à Palestina: “no meio da terra” equivale a “à vista de todas as nações”. Cf. Oráculos Sibilinos viii, 302: “Ele estenderá as mãos e abarcará o mundo inteiro”, citado pelo Dr. Taylor, “The Teaching”, p. 103.
36. Cf. Tertuliano (Adv. Marcion. III, c. 23; Contra Iud. c. 13): “As nuvens, sendo os benefícios celestes que receberam ordem de não se derramar sobre a casa de Israel; pois ela ‘tinha produzido espinhos’, dos quais aquela casa de Israel havia tecido uma coroa para Cristo.” Constituições Apostólicas VI, § 5: “Ele lhes tirou o Espírito Santo e a chuva profética, e encheu a sua Igreja de graça espiritual.”
37. tharsei. Acréscimo ao texto de Lc 23.43 no Codex Bezae.
38. Santo Ambrósio (Sl 119, Serm. xx, § 12): “Todos os que desejam voltar ao paraíso devem ser provados pelo fogo; pois não é em vão que a Escritura diz que, quando Adão e Eva foram expulsos da sua morada no paraíso, Deus colocou à porta do Éden uma espada flamejante que se movia em todas as direções.”
39. Cf. Ireneu V, c. 5, § 1; Atanásio (Expos. Fid. c. i): “Ele nos mostrou… uma entrada no paraíso, do qual Adão foi expulso e no qual entrou de novo por meio do ladrão.” São Leão (De Pass. Dom. Serm. II, c. 1): “Excedit humanam conditionem ista promissio: nec tam de ligno Crucis, quam de throno editur potestatis.” (Essa promessa excede a condição humana: não é proferida tanto do lenho da cruz quanto do trono do poder.)
40. en lakko, “numa cova” ou “num poço”. Cf. Jr 37.16.
41. Metódio (Sympos. ix, c. 3): “Quem não creu em Cristo, nem compreendeu que ele é o primeiro princípio e a árvore da vida etc.”
42. Cf. Catequese IV, 14; Eusébio (Dem. Ev. ix, 14).
43. Veja Catequese VI, 11.
44. kata phantasian. Cf. Inácio (Trall. 9, 10); Catequese IV, 9; XIII, 4.
45. A casa de Caifás e o pretório de Pilatos (§ 39), e o próprio monte Sião (Catequese XVI, 18), sobre o qual ambos estavam, são descritos por Cirilo como arruinados e desolados no seu tempo. Eusébio (Dem. Ev. VIII, 406), referindo-se à profecia de Miqueias (Mq 3.12), repetida por Jeremias (Jr 26.18), de que Sião seria arada como um campo e Jerusalém se tornaria um montão de ruínas, atesta que tinha visto com os próprios olhos o lugar sendo arado e semeado por estrangeiros, e acrescenta que no seu tempo as pedras, tanto para os edifícios públicos como para os particulares, eram tiradas das ruínas. O Peregrino de Bordéus (333 d.C.) diz: “Vê-se onde ficava a casa do sacerdote Caifás; e ainda está ali a coluna em que Cristo foi açoitado.” Essa coluna é descrita por Jerônimo (Ep. 86) como sustentando o pórtico da igreja que, no seu tempo, tinha sido construída no lugar. Prudêncio (c. 400 d.C.): “Impia blasphemi cecidit domus alta Caiphae…. Vinctus in his Dominus stetit aedibus atque columnae Annexus tergum dedit ut servile flagellis. Perstat adhuc, templumque gerit veneranda columna.” (Ruiu a alta casa ímpia do blasfemo Caifás… Nesta casa o Senhor esteve preso e, atado à coluna, ofereceu as costas aos açoites, como um escravo. Ela ainda está de pé, a venerável coluna, e sustenta um templo.) (O editor beneditino.)
46. Cf. Luciano de Antioquia, em Rufino (Hist. Ecl. ix, c. 6): “Golgothana rupes sub patibuli onere disrupta.” (A rocha do Gólgota, partida sob o peso do patíbulo.)
47. Cf. Catequese XV, 22.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Edwin Hamilton Gifford (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 7, Nova York, 1894), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Cirilo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.