Cirilo de Jerusalém, Catequeses · Catequese XV

Virá em glória para julgar os vivos e os mortos

A segunda vinda de Cristo, o Anticristo, o juízo e o reino que não terá fim.

Catequese XV. Sobre as palavras: e virá em glória para julgar os vivos e os mortos; e o seu reino não terá fim

Daniel 7.9-14
Continuei olhando, até que foram postos uns tronos, e o Ancião de Dias se assentou; e então eu vi numa visão da noite, e eis que vinha com as nuvens do céu alguém como um filho do homem etc.

1. Anunciamos não apenas uma vinda de Cristo, mas também uma segunda, muito mais gloriosa que a primeira. Pois a primeira mostrou a sua paciência; a segunda, porém, traz consigo a coroa de um reino divino. Porque, em geral, tudo é duplo em nosso Senhor Jesus Cristo: duplo é o seu nascimento, um de Deus, antes dos séculos, e outro de uma virgem, no fim dos séculos; duplas são as suas descidas, uma despercebida, “como a chuva sobre o velo” (Sl 72.6)1, e a segunda, a sua vinda manifesta, que ainda há de acontecer. Na primeira vinda, ele foi envolto em panos na manjedoura; na segunda, ele “se cobre de luz como de um manto” (Sl 104.2). Na primeira vinda, “suportou a cruz, sem se importar com a vergonha” (Hb 12.2); na segunda, vem escoltado por um exército de anjos, recebendo glória2. Não nos detemos, pois, apenas na sua primeira vinda, mas aguardamos também a segunda. E, assim como na primeira vinda dissemos: “Bendito o que vem em nome do Senhor” (Mt 21.9), assim repetiremos o mesmo na segunda vinda (Mt 23.39), para que, saindo com os anjos ao encontro do nosso Soberano, o adoremos e digamos: “Bendito o que vem em nome do Senhor”. O Salvador vem, não para ser julgado de novo, mas para julgar os que o julgaram; aquele que antes guardou silêncio quando era julgado (Mt 26.63) lembrará aos transgressores que cometeram aqueles atos ousados junto à cruz, e dirá: “Você tem feito essas coisas, e eu me calei” (Sl 50.21). Naquela ocasião, ele veio por uma disposição divina, ensinando os homens pela persuasão; desta vez, porém, eles terão por força de tê-lo como Rei, ainda que não o queiram.

2. E sobre essas duas vindas diz o profeta Malaquias: “De repente, o Senhor, a quem vocês buscam, virá ao seu templo” (Ml 3.1): eis uma vinda. E de novo, sobre a segunda vinda, ele diz: “E o mensageiro da aliança, a quem vocês desejam, eis que ele vem, diz3 o Senhor Todo-Poderoso. Mas quem poderá suportar o dia da sua vinda? E quem poderá subsistir quando ele aparecer? Porque ele vem como o fogo do ourives e como o sabão dos lavandeiros; e se assentará como derretedor e purificador” (Ml 3.1-3). E logo depois o próprio Salvador diz: “Virei até vocês para juízo. Terei pressa em testemunhar contra os feiticeiros, contra as adúlteras e contra os que juram falsamente em meu nome” (Ml 3.5), e o restante. Por isso Paulo, advertindo-nos de antemão, diz: “Se o que alguém edifica sobre o fundamento é ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha, a obra de cada um se tornará manifesta, pois o Dia a demonstrará. Porque será revelada pelo fogo” (1Co 3.12-13). Paulo conhecia também essas duas vindas, quando escreveu a Tito: “A graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos. Ela nos educa para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos neste mundo de forma sensata, justa e piedosa, aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo” (Tt 2.11-13)4. Você vê como ele falou de uma primeira vinda, pela qual dá graças, e de uma segunda, pela qual esperamos. Por isso também as palavras da fé que estamos anunciando foram há pouco entregues assim5: que cremos naquele que também subiu aos céus, sentou-se à direita do Pai e virá em glória para julgar os vivos e os mortos; cujo reino não terá fim.

3. Nosso Senhor Jesus Cristo, portanto, vem do céu; e vem com glória no fim deste mundo, no último dia. Pois este mundo há de ter fim, e este mundo criado há de ser refeito de novo6. Porque, visto que a corrupção, o roubo, o adultério e toda espécie de pecados se derramaram sobre a terra, e sangue se misturou com sangue (Os 4.2) no mundo, por isso, para que esta morada admirável não permaneça cheia de iniquidade, este mundo passa, a fim de que se manifeste o mundo mais belo. E você quer receber a prova disso das palavras da Escritura? Ouça Isaías, que diz: “Os céus se enrolarão como um pergaminho; e todas as estrelas cairão, como a folha da videira e como cai a folha da figueira” (Is 34.4). O evangelho também diz: “O sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do firmamento” (Mt 24.29). Não nos entristeçamos, como se só nós morrêssemos; também as estrelas morrerão, mas talvez ressuscitem. E o Senhor enrola os céus, não para destruí-los, mas para levantá-los de novo mais belos. Ouça o profeta Davi, que diz: “Em tempos remotos, Senhor, lançaste os fundamentos da terra; e os céus são obra das tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permaneces” (Sl 102.25-26; Hb 1.10-12). Mas alguém dirá: Eis que ele diz claramente que “perecerão”. Ouça em que sentido ele diz que “perecerão”; isso fica claro pelo que vem a seguir: “Todos eles envelhecerão como veste, como roupa os mudarás, e serão mudados” (Sl 102.26). Pois, assim como se diz que um homem “perece”, conforme o que está escrito: “Os justos perecem, e não há quem se importa com isso” (Is 57.1), e isso embora se espere a ressurreição, assim esperamos também, por assim dizer, uma ressurreição dos céus. “O sol se transformará em trevas, e a lua, em sangue” (Jl 2.31). Que os convertidos dentre os maniqueus aprendam aqui e não façam mais desses luzeiros os seus deuses, nem pensem impiamente que este sol, que será escurecido, é Cristo7. E ouça de novo o Senhor, que diz: “Passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não passarão” (Mt 24.35); pois as criaturas não são tão preciosas quanto as palavras do Soberano.

4. As coisas que se veem passarão, e virão as que se esperam, mais belas que as presentes; mas, quanto ao tempo, ninguém seja curioso. Pois “não cabe a vocês”, diz ele, “conhecer tempos ou épocas que o Pai fixou pela sua própria autoridade” (At 1.7). E você não se atreva a declarar quando essas coisas acontecerão, nem, por outro lado, durma descuidado. Pois ele diz: “Vigiem, porque o Filho do Homem virá à hora em que vocês menos esperam” (Mt 24.42, 44). Mas, como era necessário que conhecêssemos os sinais do fim, e como estamos à espera de Cristo, por isso, para que não morramos enganados nem sejamos desviados por aquele falso anticristo, os apóstolos, movidos pela vontade divina, dirigem-se, por uma disposição providencial, ao verdadeiro Mestre e dizem: “Diga-nos quando essas coisas vão acontecer e que sinal haverá da sua vinda e do fim dos tempos” (Mt 24.3). Esperamos que venhas de novo, mas “Satanás se disfarça de anjo de luz” (2Co 11.14); põe-nos, pois, de sobreaviso, para que não adoremos outro em teu lugar. E ele, abrindo a sua boca divina e bendita, diz: “Tenham cuidado para que ninguém os engane” (Mt 24.4). Também vocês, meus ouvintes, como se agora o vissem com os olhos da mente, ouçam-no dizer o mesmo a vocês: “Tenham cuidado para que ninguém os engane”. E essa palavra exorta todos vocês a prestar atenção ao que se diz; pois não é uma história de coisas passadas, mas uma profecia de coisas futuras, que certamente virão. Não que nós profetizemos, pois somos indignos; mas as coisas que estão escritas serão postas diante de vocês, e os sinais serão declarados. Observe você quais deles já aconteceram e quais ainda faltam; e ponha-se em segurança.

5. “Tenham cuidado para que ninguém os engane. Porque muitos virão em meu nome, dizendo: ‘Eu sou o Cristo’; e enganarão a muitos” (Mt 24.4-5). Isso já aconteceu em parte: pois já o disseram Simão, o Mago, e Menandro8, e alguns outros dos ímpios chefes de heresias; e outros o dirão em nossos dias ou depois de nós.

6. Um segundo sinal. “E vocês ouvirão falar de guerras e rumores de guerras” (Mt 24.6)9. Há ou não há neste momento guerra entre persas e romanos pela Mesopotâmia? Levanta-se ou não nação contra nação, e reino contra reino? “E haverá fomes, epidemias e terremotos em vários lugares” (Mt 24.7). Essas coisas já aconteceram; e ainda: “E coisas espantosas vindas do céu, e grandes tempestades” (Lc 21.11)10. “Vigiem, portanto”, diz ele, “porque vocês não sabem em que hora virá o Senhor de vocês” (Mt 24.42).

7. Mas nós procuramos o nosso próprio sinal da sua vinda; nós, os da Igreja, procuramos um sinal próprio da Igreja11. E o Salvador diz: “Nesse tempo, muitos hão de se escandalizar, trair e odiar uns aos outros” (Mt 24.10). Se você ouvir que bispos avançam contra bispos, clérigos contra clérigos e leigos contra leigos, até o sangue, não se perturbe12; pois isso foi escrito de antemão. Não atente para as coisas que agora acontecem, mas para as que estão escritas; e, ainda que eu, que ensino você, venha a perecer, você não perecerá também comigo; pelo contrário, até um ouvinte pode tornar-se melhor que o seu mestre, e o que chegou por último pode ser o primeiro, pois o Senhor recebe até os da undécima hora. Se entre os apóstolos se achou traição, você se admira de que o ódio entre irmãos se ache entre bispos? Mas o sinal não diz respeito só aos que governam, mas também ao povo; pois ele diz: “E, por se multiplicar a maldade, o amor de muitos se esfriará” (Mt 24.12). Algum dos presentes se vangloriará, então, de ter amizade sem fingimento para com o próximo? Não é verdade que muitas vezes os lábios beijam, o rosto sorri e os olhos brilham, pois sim, enquanto o coração trama engano e o homem planeja o mal com palavras de paz?

8. Você tem também este sinal: “E será pregado este evangelho do Reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então virá o fim” (Mt 24.14). E, como vemos, quase o mundo inteiro está agora cheio da doutrina de Cristo.

9. E o que acontece depois disso? Ele diz em seguida: “Quando, pois, vocês virem o abominável da desolação, de que falou o profeta Daniel, situado no lugar santo, quem lê entenda” (Mt 24.15). E de novo: “Então, se alguém disser a vocês: ‘Olhem! Aqui está o Cristo!’ ou: ‘Ali está ele!’, não acreditem” (Mt 24.23). O ódio entre os irmãos abre caminho, em seguida, para o anticristo; pois o diabo prepara de antemão as divisões no povo, para que aquele que há de vir lhes seja aceitável. Mas Deus não permita que algum dos servos de Cristo, aqui ou em outro lugar, passe para o lado do inimigo! Escrevendo sobre esse assunto, o apóstolo Paulo deu um sinal manifesto, dizendo: “Porque aquele dia não virá sem que primeiro venha a apostasia e seja revelado o homem da iniquidade, o filho da perdição, o qual se opõe e se levanta contra tudo o que se chama Deus ou é objeto de culto, a ponto de assentar-se no santuário de Deus, apresentando-se como se fosse o próprio Deus. Vocês não lembram que eu lhes dizia estas coisas, quando ainda estava com vocês? E, agora, vocês sabem o que o detém, para que ele seja revelado a seu tempo. Porque o mistério da iniquidade já opera; há somente aquele que agora o detém, até que seja afastado. Então será revelado o iníquo, a quem o Senhor Jesus matará com o sopro de sua boca e destruirá pelo resplendor de sua vinda. Ora, o aparecimento do iníquo é segundo a ação de Satanás, com todo poder, sinais e prodígios da mentira, e com todo engano de injustiça aos que estão perecendo” (2Ts 2.3-10). Assim escreveu Paulo, e agora é a apostasia. Pois os homens se afastaram da fé verdadeira13; e uns pregam a identidade do Filho com o Pai14, e outros ousam dizer que Cristo foi trazido à existência do nada15. Antes os hereges eram manifestos; mas agora a Igreja está cheia de hereges disfarçados16. Pois os homens se afastaram da verdade e “sentem coceira nos ouvidos” (2Tm 4.3). É um discurso agradável? Todos o ouvem com prazer. É uma palavra de correção? Todos se desviam dela. A maioria se afastou das palavras retas e prefere escolher o mal a desejar o bem17. Esta é, pois, a apostasia, e o inimigo deve ser esperado em breve; e, enquanto isso, ele já começou em parte a enviar os seus próprios precursores18, para então vir preparado sobre a presa. Cuide, portanto, de si mesmo, ó homem, e ponha a sua alma em segurança. A Igreja agora lhe dá esta ordem diante do Deus vivo; ela lhe declara as coisas a respeito do anticristo antes que aconteçam. Se acontecerão no seu tempo, não sabemos; se acontecerão depois de você, não sabemos; mas é bom que, sabendo dessas coisas, você se ponha em segurança de antemão.

10. O verdadeiro Cristo, o Filho unigênito de Deus, não vem mais da terra. Se alguém vier fazendo falsas aparências19 no deserto, não saiam; se disserem: “Olhem! Aqui está o Cristo!” ou: “Ali está ele!”, “não acreditem” (Mt 24.23). Não olhe mais para baixo e para a terra; pois o Senhor desce do céu; não sozinho como antes, mas com muitos, escoltado por dezenas de milhares de anjos; nem em segredo, como o orvalho sobre o velo (Sl 72.6)20, mas brilhando abertamente como o relâmpago. Pois ele mesmo disse: “Assim como o relâmpago sai do Oriente e brilha até o Ocidente, assim será a vinda do Filho do Homem” (Mt 24.27); e ainda: “E verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens, com poder e grande glória. E ele enviará os seus anjos, com grande trombeta” (Mt 24.30-31); e o restante.

11. Mas, assim como antes, quando ele estava para assumir a natureza humana e se esperava que Deus nascesse de uma virgem, o diabo criou preconceito contra isso, preparando astutamente entre os adoradores de ídolos21 fábulas de falsos deuses que geravam e eram gerados de mulheres, para que, tendo vindo primeiro a mentira, a verdade, como ele supunha, não fosse crida; assim agora, visto que o verdadeiro Cristo há de vir uma segunda vez, o adversário, aproveitando-se da22 expectativa dos simples, e especialmente dos da circuncisão, introduz um certo homem que é mago23, muito perito em feitiçarias e encantamentos de astúcia enganosa; o qual se apoderará do poder do Império Romano e falsamente se intitulará Cristo; com esse nome de Cristo enganará os judeus, que esperam o Ungido24, e seduzirá os dentre os gentios com as suas ilusões mágicas.

12. Mas esse anticristo de que falamos há de vir quando se tiverem cumprido os tempos do Império Romano, e o fim do mundo já estiver se aproximando25. Surgirão juntos dez reis dos romanos, reinando talvez em lugares diferentes, mas todos mais ou menos ao mesmo tempo; e depois deles um décimo primeiro, o anticristo, que pela sua arte mágica se apoderará do poder romano; e, dos reis que reinaram antes dele, “três ele humilhará” (Dn 7.24)26, e os sete restantes manterá sujeitos a si. A princípio, de fato, aparentará brandura (como se fosse pessoa instruída e prudente), sobriedade e benevolência27; e, tendo enganado os judeus com os sinais e prodígios mentirosos do seu engano mágico28, como se fosse o Cristo esperado, depois se caracterizará por toda espécie de crimes de desumanidade e iniquidade, a ponto de superar todos os homens injustos e ímpios que vieram antes dele; mostrará contra todos os homens, mas especialmente contra nós, cristãos, um espírito assassino e crudelíssimo, impiedoso e astuto29. E, depois de praticar tais coisas por apenas três anos e seis meses, será destruído pela gloriosa segunda vinda, do céu, do Filho unigênito de Deus, nosso Senhor e Salvador Jesus, o verdadeiro Cristo, que matará o anticristo “com o sopro de sua boca” (2Ts 2.8)30 e o entregará ao fogo do inferno.

13. Ora, estas coisas não as ensinamos por invenção nossa, mas por tê-las aprendido das divinas Escrituras usadas na Igreja31, e principalmente da profecia de Daniel que acaba de ser lida; como também o arcanjo Gabriel a interpretou, falando assim: “O quarto animal será um quarto reino na terra, que superará todos os reinos” (Dn 7.23)32. E que esse reino é o dos romanos, tem sido a tradição dos intérpretes da Igreja. Pois, assim como o primeiro reino que se tornou célebre foi o dos assírios, o segundo, o dos medos e persas juntos, e depois desses o dos macedônios foi o terceiro, assim o quarto reino é agora o dos romanos33. Depois Gabriel continua a interpretar, dizendo: “Os seus dez chifres são dez reis que se levantarão; e depois deles se levantará outro rei, que superará em maldade todos os que foram antes dele” (Dn 7.24) (diz ele: não só os dez, mas também todos os que foram antes dele); “e derrotará três reis”; evidentemente dentre os dez reis anteriores; mas é claro que, derrotando três desses dez, ele se tornará o oitavo rei; “e falará palavras contra o Altíssimo” (Dn 7.25)34. Blasfemo é o homem, e iníquo, não tendo recebido o reino de seus pais, mas tendo usurpado o poder por meio da feitiçaria.

14. E quem é este, e de que ação procede? Explique-nos, ó Paulo. “O aparecimento dele”, diz ele, “é segundo a ação de Satanás, com todo poder, sinais e prodígios da mentira” (2Ts 2.9)35; dando a entender que Satanás o usou como instrumento, agindo pessoalmente por meio dele; pois, sabendo que o seu julgamento já não terá adiamento, não faz mais guerra por meio dos seus ministros, como costuma, mas daí em diante por si mesmo, mais abertamente36. “E com todos os sinais e prodígios da mentira”; pois o pai da mentira fará uma exibição ilusória37 das obras da mentira, para que as multidões pensem ver um morto ressuscitado, que não ressuscitou, coxos andando e cegos vendo, quando a cura não foi realizada.

15. E de novo ele diz: “O qual se opõe e se levanta contra tudo o que se chama Deus ou é objeto de culto” (contra todo deus; o anticristo, é claro, abominará os ídolos), “a ponto de assentar-se no santuário de Deus” (2Ts 2.4). Que santuário, então? Ele quer dizer o templo dos judeus, que foi destruído. Pois Deus não permita que seja este em que estamos! Por que dizemos isso? Para que não se pense que estamos favorecendo a nós mesmos. Pois, se ele vem aos judeus como Cristo e deseja ser adorado pelos judeus, fará grande caso do templo, para enganá-los mais completamente, dando a entender que ele é o homem da linhagem de Davi que há de reconstruir o templo erguido por Salomão38. E o anticristo virá no tempo em que não ficar no templo dos judeus pedra sobre pedra, segundo a sentença pronunciada por nosso Salvador (Mt 24.2)39; pois quando, seja o desgaste do tempo, seja a demolição feita a pretexto de novas construções, seja qualquer outra causa, tiver derrubado todas as pedras, refiro-me não só às do recinto exterior, mas também às do santuário interior, onde estavam os querubins, então ele virá “com todos os sinais e prodígios da mentira”, exaltando-se contra todos os ídolos; a princípio, de fato, fingindo benevolência, mas depois mostrando o seu caráter implacável, e principalmente contra os santos de Deus. Pois ele diz: “Enquanto eu olhava, esse chifre fazia guerra contra os santos” (Dn 7.21)40; e de novo em outro lugar: “haverá tempo de angústia, como nunca houve, desde que existem nações até aquele tempo” (Dn 12.1). Terrível é aquele animal, grande dragão, invencível ao homem, pronto para devorar; sobre ele, embora tenhamos mais coisas a dizer a partir das divinas Escrituras, por ora nos contentaremos com isto, para não nos estendermos demais.

16. Por esta razão o Senhor, conhecendo a grandeza do adversário, concede indulgência aos piedosos, dizendo: “Então os que estiverem na Judeia fujam para os montes” (Mt 24.16). Mas, se alguém tem consciência de ser muito corajoso para enfrentar Satanás, que permaneça (pois não desespero do vigor da Igreja) e diga: “Quem nos separará do amor de Cristo?”, e o resto (Rm 8.35). Mas os que dentre nós são medrosos cuidem da própria segurança; e os que têm bom ânimo permaneçam firmes: “porque nesse tempo haverá grande tribulação, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora e nunca jamais haverá” (Mt 24.21). Mas graças a Deus, que limitou a grandeza daquela tribulação a poucos dias; pois ele diz: “Mas, por causa dos escolhidos, tais dias serão abreviados” (Mt 24.22); e o anticristo reinará somente três anos e meio. Não falamos com base em livros apócrifos, mas com base em Daniel; pois ele diz: “E serão entregues nas mãos dele por um tempo, tempos e metade de um tempo” (Dn 7.25)41. Um tempo é o primeiro ano, em que a vinda dele terá por algum tempo crescimento; os tempos são os dois anos restantes de iniquidade, que completam a soma dos três anos; e a metade de um tempo são os seis meses. E de novo, em outro lugar, Daniel diz a mesma coisa: “E jurou por aquele que vive eternamente que seria por um tempo, tempos e metade de um tempo” (Dn 12.7). E alguns talvez tenham referido a isso também o que vem a seguir, a saber: “mil duzentos e noventa dias” (Dn 12.11); e isto: “Bem-aventurado o que persevera e chega até mil trezentos e trinta e cinco dias” (Dn 12.12). Por esta razão devemos esconder-nos e fugir; pois talvez “não teremos percorrido as cidades de Israel, até que venha o Filho do Homem” (Mt 10.23).

17. Quem, então, é o bem-aventurado que naquele tempo dará piedosamente testemunho de Cristo? Pois digo que os mártires daquele tempo superam todos os mártires. Os mártires até agora lutaram somente com homens; mas, no tempo do anticristo, combaterão com o próprio Satanás em pessoa42. E os reis perseguidores de antes apenas matavam; não fingiam ressuscitar os mortos, nem faziam falsas exibições43 de sinais e prodígios. Mas, no tempo dele, haverá o mau aliciamento tanto do medo como do engano, de modo “a enganar, se possível, os próprios eleitos” (Mt 24.24). Que nunca entre no coração de nenhum dos que então viverem perguntar: “Que fez Cristo a mais? Pois com que poder este homem faz essas coisas? Se não fosse a vontade de Deus, ele não as teria permitido.” O apóstolo adverte você e diz de antemão: “E por este motivo Deus lhes enviará a operação do erro” (“enviará”, isto é, “permitirá que aconteça”), não para que tivessem desculpa, mas “para que fossem condenados”44. Por quê? “Eles”, diz ele, “que não creram na verdade”, isto é, no verdadeiro Cristo, “mas tiveram prazer na injustiça”, isto é, no anticristo (2Ts 2.11-12). Mas, assim como nas perseguições que acontecem de tempos em tempos, também então Deus permitirá essas coisas, não porque lhe falte poder para impedi-las, mas porque, segundo o seu costume, coroará pela paciência os seus próprios campeões, como fez com os seus profetas e apóstolos; a fim de que, tendo labutado por pouco tempo, herdem o eterno reino dos céus, segundo o que diz Daniel: “E naquele tempo o seu povo será salvo, todo aquele que for achado inscrito no livro” (evidentemente, o livro da vida); “e muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, outros para vergonha e horror eterno; e os sábios resplandecerão como o fulgor do firmamento; e dos muitos justos45, como as estrelas, sempre e eternamente” (Dn 12.1-3).

18. Guarde-se, pois, ó homem; você tem os sinais do anticristo; e não só lembre-se deles você mesmo, mas comunique-os também generosamente a todos. Se você tem um filho segundo a carne, advirta-o disso agora; se gerou um pela catequese46, ponha-o também de sobreaviso, para que não receba o falso como o verdadeiro. Porque “o mistério da iniquidade já opera” (2Ts 2.7). Temo estas guerras das nações47; temo os cismas das Igrejas; temo o ódio mútuo dos irmãos. Mas basta sobre este assunto; Deus não permita que isso se cumpra em nossos dias; contudo, estejamos de sobreaviso. E isto é o bastante sobre o anticristo.

19. Mas esperemos e aguardemos a vinda do Senhor sobre as nuvens, desde o céu. Então soarão trombetas angélicas; “os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro” (1Ts 4.16); os piedosos que estiverem vivos serão arrebatados nas nuvens, recebendo como recompensa dos seus trabalhos uma honra mais que humana, já que a luta deles foi mais que humana; conforme escreve o apóstolo Paulo, dizendo: “Porque o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre com o Senhor” (1Ts 4.16-17).

20. Esta vinda do Senhor e o fim do mundo eram conhecidos do Pregador, que diz: “Alegre-se, jovem, na sua mocidade”, e o resto (Ec 11.9)48; “Portanto, afaste a ira49 do seu coração e remova do seu corpo o mal” (Ec 11.10); … “e lembre-se do seu Criador… antes que venham os dias maus” (Ec 12.1); … “antes que se escureçam o sol, e a luz, e a lua, e as estrelas” (Ec 12.2); … “e se escureçam os que olham pelas janelas” (Ec 12.3) (significando a faculdade da vista); “antes que se rompa o fio de prata” (querendo dizer o conjunto das estrelas, pois a aparência delas é como prata); “e se quebre a flor de ouro”50 (Ec 12.6) (velando assim a menção do sol dourado; pois a camomila é uma planta bem conhecida, que tem muitas folhas semelhantes a raios, que brotam ao seu redor); “e se levantarão à voz do pardal; sim, desviarão os olhos da altura, e haverá terrores no caminho” (Ec 12.4-5)51. Que verão? “Então verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu; e lamentarão tribo por tribo” (Mt 24.30; Zc 12.12). E que acontecerá quando o Senhor tiver vindo? “A amendoeira florescerá, e o gafanhoto ficará pesado, e a alcaparra se espalhará” (Ec 12.5). E, como dizem os intérpretes, a amendoeira em flor significa a partida do inverno; e os nossos corpos, então, depois do inverno, florescerão com uma flor celestial52. “E o gafanhoto crescerá em substância” (isto quer dizer a alma alada revestindo-se do corpo53), “e a alcaparra se espalhará” (isto é, os transgressores, que são como espinhos, serão dispersos54).

21. Você vê como todos predizem a vinda do Senhor. Você vê como conhecem a voz do pardal. Saibamos que espécie de voz é esta. “Porque o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus” (1Ts 4.16). O arcanjo fará a proclamação e dirá a todos: Levantem-se para ir ao encontro do Senhor55. E temível será aquela descida do nosso Mestre. Davi diz: “Deus virá manifestamente, o nosso Deus, e não guardará silêncio; um fogo arderá diante dele, e ao seu redor uma violenta tempestade”, e o resto (Sl 50.3). O Filho do Homem virá ao Pai, segundo a Escritura que acabou de ser lida, “sobre as nuvens do céu”, conduzido por “um rio de fogo” (Dn 7.13, 10), que há de pôr os homens à prova. Então, se as obras de alguém forem de ouro, ele se tornará mais brilhante; se o curso de vida de alguém for como palha, e sem consistência, será queimado pelo fogo (1Co 3.12-13)56. E o Pai “se assentará”, tendo “a sua roupa branca como a neve, e os cabelos da cabeça como a lã pura” (Dn 7.9). Mas isto é dito à maneira humana; por quê? Porque ele é o Rei daqueles que não se contaminaram com pecados; pois ele diz: “Tornarei os seus pecados brancos como a neve e como a lã” (Is 1.18), o que é um símbolo do perdão dos pecados, ou da própria ausência de pecado. Mas o Senhor que virá do céu sobre as nuvens é aquele que subiu sobre as nuvens; pois ele mesmo disse: “E verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória” (Mt 24.30).

22. Mas qual é o sinal da sua vinda? Para que nenhum poder hostil ouse imitá-lo. “Então aparecerá”, diz ele, “no céu o sinal do Filho do Homem” (Mt 24.30). Ora, o verdadeiro sinal próprio de Cristo é a cruz; um sinal de uma cruz luminosa irá adiante do Rei57, declarando claramente aquele que antes foi crucificado: para que os judeus, que antes o traspassaram e conspiraram contra ele, quando o virem, “lamentem tribo por tribo” (Zc 12.12), dizendo: “Este é aquele que foi esbofeteado, este é aquele em cujo rosto cuspiram, este é aquele que amarraram com correntes, este é aquele que outrora crucificaram e desprezaram58. Para onde, dirão, fugiremos da face da tua ira?” Mas as hostes dos anjos os cercarão, de modo que não poderão fugir para lugar nenhum. O sinal da cruz será terror para os seus inimigos, mas alegria para os seus amigos, que creram nele, ou o pregaram, ou sofreram por sua causa. Quem, então, é o feliz que será achado naquele tempo amigo de Cristo? Aquele Rei, tão grande e glorioso, acompanhado pela guarda dos anjos, partícipe do trono do Pai, não desprezará os seus próprios servos. Pois, para que os seus eleitos não se confundam com os seus inimigos, “ele enviará os seus anjos, com grande som de trombeta, os quais reunirão os seus escolhidos dos quatro ventos” (Mt 24.31). Ele não desprezou Ló, que era um só; como, então, desprezará muitos justos? “Venham, benditos de meu Pai” (Mt 25.34), dirá ele aos que então andarão em carros de nuvens e serão reunidos pelos anjos.

23. Mas alguém dos presentes dirá: “Sou pobre”, ou ainda: “Talvez naquele tempo eu seja achado doente de cama”; ou: “Sou apenas uma mulher, e serei apanhada no moinho: seremos, então, desprezados?” Tenha bom ânimo, ó homem; o Juiz não faz acepção de pessoas; “ele não julgará segundo a aparência do homem, nem repreenderá segundo a sua fala” (Is 11.3)59. Não honra o instruído antes do simples, nem o rico antes do necessitado. Ainda que você esteja no campo, os anjos o levarão; não pense que ele levará os proprietários e deixará você, o lavrador. Ainda que você seja escravo, ainda que seja pobre, não se aflija em nada; aquele que “assumiu a forma de servo” (Fp 2.7) não despreza os servos. Ainda que você esteja doente de cama, está escrito: “Então duas pessoas estarão numa cama: uma será levada, e a outra será deixada” (Lc 17.34). Ainda que você seja forçado a moer, quer seja homem, quer mulher (Lc 17.35); ainda que esteja em grilhões60 e sentado junto ao moinho, aquele “que com o seu poder liberta os presos” (Sl 68.6) não deixará de olhar para você. Aquele que tirou José da escravidão e da prisão para um reino também o resgatará das suas aflições para o reino dos céus. Somente tenha bom ânimo, somente trabalhe, somente lute com empenho; pois nada se perderá. Toda oração sua, todo salmo que você canta fica registrado; toda esmola, todo jejum fica registrado; todo casamento devidamente guardado fica registrado; a continência61 guardada por amor de Deus fica registrada; mas as primeiras coroas nos registros são as da virgindade e da pureza; e você brilhará como um anjo. Mas, assim como você ouviu com alegria as coisas boas, ouça de novo sem recuar as contrárias. Toda ação avarenta sua fica registrada; todo ato seu de prostituição fica registrado, todo falso juramento seu fica registrado, toda blasfêmia, e feitiçaria, e furto, e homicídio. Todas essas coisas daqui em diante serão registradas, se você fizer o mesmo agora, depois de batizado; pois as suas obras anteriores foram apagadas.

24. “Quando o Filho do Homem”, diz ele, “vier na sua glória, e todos os anjos com ele” (Mt 25.31). Veja, ó homem, diante de que multidões você comparecerá a juízo. Toda raça humana estará então presente. Calcule, pois, quantos são os da nação romana; calcule quantas são as tribos bárbaras que agora vivem, e quantos morreram nos últimos cem anos; calcule quantas nações foram sepultadas nos últimos mil anos; calcule todos, desde Adão até hoje. Grande, de fato, é a multidão; mas ainda é pequena, pois os anjos são muito mais numerosos. Eles são as “noventa e nove ovelhas”, mas a humanidade é a “única” (Mt 18.12; Lc 15.4)62. Pois segundo a extensão do espaço universal devemos calcular o número dos seus habitantes. A terra inteira é apenas como um ponto no meio do único céu, e ainda assim contém tão grande multidão; que multidão não deve conter o céu que a circunda? E o céu dos céus não deve conter números inimagináveis63? E está escrito: “Milhares de milhares o serviam, e milhões de milhões estavam diante dele” (Dn 7.10); não que a multidão seja apenas desse tamanho, mas porque o profeta não podia exprimir mais do que isso. Assim, estarão presentes ao juízo naquele dia Deus, o Pai de todos, com Jesus Cristo assentado com ele, e o Espírito Santo presente com eles; e a trombeta de um anjo nos convocará a todos para trazermos conosco as nossas obras. Não devemos, então, desde agora, ficar profundamente inquietos? Não pense que é condenação leve, ó homem, mesmo à parte do castigo, ser condenado na presença de tantos. Não preferiremos antes morrer muitas mortes a ser condenados por amigos?

25. Temamos, pois, irmãos, que Deus nos condene; ele, que não precisa de exame nem de provas para condenar. Não diga: De noite eu me prostituí, ou pratiquei feitiçaria, ou fiz qualquer outra coisa, e não havia ninguém presente. Pela sua própria consciência você será julgado, “os seus pensamentos ora acusando-o, ora defendendo-o, no dia em que Deus julgar os segredos das pessoas” (Rm 2.15-16). O semblante terrível do Juiz o obrigará a falar a verdade; ou antes, mesmo que você não fale, ele o convencerá. Pois você ressuscitará revestido dos seus próprios pecados, ou então das suas obras justas. E isto declarou o próprio Juiz (pois é Cristo quem julga): “pois o Pai não julga ninguém, mas confiou todo julgamento ao Filho” (Jo 5.22), não se despojando do seu poder, mas julgando por meio do Filho; o Filho, portanto, julga pela vontade64 do Pai; pois as vontades do Pai e do Filho não são diferentes, mas uma só e a mesma. Que diz, então, o Juiz, quanto a se você levará consigo as suas obras ou não? “E todas as nações serão reunidas em sua presença”: pois na presença de Cristo se deve dobrar “todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra” (Fp 2.10); “e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos” (Mt 25.32). Como faz o pastor a separação? Examina num livro qual é ovelha e qual é cabrito? Ou distingue por seus sinais evidentes? Não é a lã que mostra a ovelha, e a pele peluda e áspera, o cabrito? Do mesmo modo, se você acaba de ser purificado dos seus pecados, as suas obras serão daqui em diante como lã pura; e a sua veste permanecerá sem mancha, e você sempre dirá: “Já tirei a minha túnica! Como posso vesti-la outra vez?” (Ct 5.3)65. Pela sua veste você será reconhecido como ovelha. Mas, se for achado peludo, como Esaú, que era coberto de pelos e perverso de mente, que por comida perdeu a primogenitura e vendeu o seu privilégio, você será um dos que estão à esquerda. Mas Deus não permita que algum dos aqui presentes seja lançado fora da graça, ou por más obras seja achado entre as fileiras dos pecadores à esquerda!

26. Terrível, em verdade, é o juízo, e terríveis as coisas anunciadas. O reino dos céus está posto diante de nós, e o fogo eterno está preparado. Como, então, dirá alguém, escaparemos do fogo? E como entraremos no reino? “Tive fome”, diz ele, “e vocês me deram de comer”. Aprenda daqui o caminho; não há aqui necessidade de alegoria, mas de cumprir o que é dito. “Tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; eu era forasteiro, e vocês me hospedaram; estava nu, e vocês me vestiram; enfermo, e me visitaram; preso, e foram me ver” (Mt 25.35-36). Se você fizer estas coisas, reinará juntamente com ele; mas, se não as fizer, será condenado. Comece, pois, desde já a praticar estas obras e permaneça na fé; para que, como as virgens insensatas, demorando-se a comprar azeite, você não fique de fora. Não confie por simplesmente possuir a lâmpada, mas mantenha-a sempre acesa. Brilhe a luz das suas boas obras diante dos outros (Mt 5.16), e não seja Cristo blasfemado por sua causa. Vista uma veste de incorruptibilidade66, resplandecente de boas obras; e toda coisa que você receber de Deus para administrar como mordomo, administre-a com proveito. Foram-lhe confiadas riquezas? Distribua-as bem. Foi-lhe confiada a palavra do ensino? Seja dela um bom mordomo. Você consegue ganhar as almas dos ouvintes67? Faça isso com diligência. Há muitas portas de boa mordomia. Somente que nenhum de nós seja condenado e lançado fora; para que possamos com ousadia ir ao encontro de Cristo, o Rei eterno, que reina para sempre. Pois reina para sempre aquele que há de julgar vivos e mortos, porque por vivos e mortos morreu. E, como diz Paulo: “Foi precisamente para esse fim que Cristo morreu e tornou a viver: para ser Senhor tanto de mortos como de vivos” (Rm 14.9).

27. E, se alguma vez você ouvir alguém dizer que o reino de Cristo terá fim, abomine a heresia; é outra cabeça do dragão, surgida recentemente na Galácia. Certo homem ousou afirmar que, depois do fim do mundo, Cristo não reinará mais68; ousou também dizer que o Verbo, tendo saído do Pai, será de novo absorvido no Pai e não existirá mais69; proferindo tais blasfêmias para a sua própria perdição. Pois não ouviu o Senhor, que diz: “O Filho fica para sempre” (Jo 8.35). Não ouviu Gabriel, que diz: “Ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim” (Lc 1.33). Considere este texto. Os hereges de hoje ensinam em desprestígio de Cristo, ao passo que Gabriel, o arcanjo, ensinou a permanência eterna do Salvador; em quem, então, você preferirá crer? Não dará antes crédito a Gabriel? Escute o testemunho de Daniel no texto70: “Eu estava olhando na visão da noite, e eis que alguém como o Filho do Homem vinha com as nuvens do céu e chegou até o Ancião de Dias… E foi-lhe dada a honra, e o domínio, e o reino; e todos os povos, tribos e línguas o servirão; o seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino não será destruído” (Dn 7.13-14). Apegue-se antes a estas coisas, creia nestas coisas e lance fora de si as palavras da heresia; pois você ouviu com toda a clareza sobre o reino sem fim de Cristo.

28. Você tem a mesma doutrina também na interpretação da “pedra, que do monte foi cortada sem auxílio de mãos” (Dn 2.45), a qual é “Cristo segundo a carne” (Rm 9.5); “e o seu reino não passará a outro povo” (Dn 2.44). Davi também diz em um lugar: “O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre” (Sl 45.6); e em outro lugar: “Tu, Senhor, no princípio lançaste os fundamentos da terra, etc.; eles perecerão, mas tu permaneces, etc.; tu, porém, és o mesmo, e os teus anos jamais terão fim” (Sl 102.25-27): palavras que Paulo interpretou a respeito do Filho (Hb 1.10-12).

29. E você quer saber como os que ensinam o contrário caíram em tamanha loucura? Leem mal aquela boa palavra do apóstolo: “Porque é necessário que ele reine até que tenha posto todos os inimigos debaixo dos seus pés” (1Co 15.25); e dizem que, quando os seus inimigos tiverem sido postos debaixo dos seus pés, ele deixará de reinar, alegando isto errada e insensatamente. Pois aquele que é rei antes de subjugar os seus inimigos, como não será com mais razão rei depois de ter alcançado domínio sobre eles?

30. Ousaram também dizer que a Escritura: “Quando, porém, todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então o próprio Filho também se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou” (1Co 15.28)71, que esta Escritura mostra que também o Filho será absorvido no Pai. Então vocês, ó mais ímpios de todos os homens, vocês, criaturas de Cristo, continuarão a existir? E Cristo perecerá, ele por meio de quem vocês e todas as coisas foram feitos? Tal palavra é blasfema. Mas, além disso, como todas as coisas lhe serão sujeitas? Perecendo ou permanecendo? As outras coisas, então, quando sujeitas ao Filho, permanecerão, e o Filho, quando sujeito ao Pai, não permanecerá? Pois ele se sujeitará, não porque então começará a fazer a vontade do Pai, visto que desde a eternidade ele faz sempre “o que lhe agrada” (Jo 8.29), mas porque, então como antes, obedece ao Pai, prestando não uma obediência forçada, mas uma concordância livremente escolhida; pois ele não é servo, para ser sujeitado à força, mas Filho, para condescender por livre escolha e amor natural.

31. Mas examinemo-los: qual é o sentido de “até” ou “enquanto”? Pois com a própria expressão lutarei com eles e tentarei derrubar o seu erro. Visto que ousaram dizer que as palavras “até que tenha posto os seus inimigos debaixo dos seus pés” mostram que ele mesmo terá fim, e se atreveram a pôr limites ao reino eterno de Cristo e a dar fim, no que depende de palavras, à sua soberania sem fim, venham, então, leiamos expressões semelhantes no apóstolo: “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés” (Rm 5.14)72. Morreram então os homens até aquele tempo, e depois de Moisés ninguém mais morreu, ou depois da lei não houve mais morte entre os homens? Pois bem, você vê que a palavra “até” não serve para limitar o tempo; mas que Paulo antes quis significar isto: “E, contudo, embora Moisés fosse homem justo e admirável, a sentença de morte pronunciada contra Adão chegou também até ele e aos que vieram depois dele; e isso, embora não tivessem cometido pecados semelhantes aos de Adão, pela sua desobediência em comer da árvore.”

32. Tome ainda outro texto semelhante: “Pois até o dia de hoje… quando Moisés é lido, o véu está posto sobre o coração deles” (2Co 3.14-15). “Até o dia de hoje” significa apenas “até Paulo”? Não significa até o dia presente, e mesmo até o fim? E, se Paulo diz aos coríntios: “Pois já chegamos até vocês com o evangelho de Cristo, tendo esperança de, à medida que cresce a fé que vocês têm, anunciar o evangelho para além das fronteiras em que vocês se encontram” (2Co 10.14-16), você vê claramente que “até” não implica o fim, mas tem algo que o segue. Em que sentido, então, você deve lembrar aquela Escritura: “até que tenha posto todos os inimigos debaixo dos seus pés” (1Co 15.25)? Conforme Paulo diz em outro lugar: “E animem uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama hoje” (Hb 3.13); querendo dizer “continuamente”. Pois, assim como não se pode falar do “princípio dos dias” de Cristo, assim também não permita você que alguém jamais fale do fim do seu reino. Pois está escrito: “O seu reino é um reino eterno” (Dn 7.14, 27).

33. E, embora eu tenha muitos outros testemunhos das divinas Escrituras sobre o reino de Cristo, que não tem fim para sempre, por ora me contentarei com os já mencionados, porque o dia já vai adiantado. Mas você, ó ouvinte, adore somente a ele como seu Rei e fuja de todo erro herético. E, se a graça de Deus nos permitir, os demais artigos da fé também lhes serão expostos no tempo oportuno. E o Deus do mundo inteiro guarde a todos vocês em segurança, lembrados dos sinais do fim e invencíveis diante do anticristo. Você recebeu os sinais do enganador que há de vir; recebeu as provas do verdadeiro Cristo, que descerá abertamente do céu. Fuja, portanto, de um, o falso; e aguarde o outro, o verdadeiro. Você aprendeu o caminho para, no juízo, ser achado entre os que estão à direita; “guarde o que lhe foi confiado” (1Tm 6.20) a respeito de Cristo e seja notável em boas obras, para que possa estar com boa confiança diante do Juiz e herdar o reino dos céus: por meio de quem e com quem seja a glória a Deus, com o Espírito Santo, para todo o sempre. Amém.

Notas

1. Veja XII, 9; e § 10, abaixo.

2. O contraste que Cirilo faz entre as duas vindas parece tomado em parte de Justino Mártir (Apol. I, 52; Tryph. 110). Veja também Tertuliano (Adv. Judaeos, c. 14); Hipólito (De Antichristo, 44).

3. O editor beneditino, omitindo legei, obtém o sentido: Ele vem, sim, o Senhor Todo-Poderoso. Mas legei é confirmado pelos manuscritos de Cirilo, bem como pela Septuaginta e pelo hebraico.

4. O editor beneditino adota tou Soteros em lugar de he soterios, contra a autoridade dos melhores manuscritos de Cirilo.

5. nun paredothe. Cirilo quer dizer que, no começo desta catequese, tinha entregue aos catecúmenos os artigos do Credo que ia explicar. Compare Catequese XVIII, 21, onde vemos que Cirilo primeiro anuncia (epangello) as palavras que os catecúmenos repetem depois dele (apangello). O artigo Cujo reino não terá fim não constava da forma original do Credo de Niceia, de 325 d.C., mas a sua substância se encontra em muitos escritos anteriores. Compare Justino Mártir (Tryph. § 46: kai autou estin he aionios basileia); Const. Apost. VII, 41; as Confissões eusebianas, a 1ª e a 4ª de Antioquia, e a Macrostiquia, de 341, 342 e 344 d.C. O bispo Bull afirma que o Credo de Jerusalém, que contém esse artigo, não era outro senão o antigo Credo oriental, dirigido primeiro contra os gnósticos da era subapostólica (Judicium Eccl. Cathol. VI, 16).

6. O editor beneditino sugere que Cirilo “está refutando os que diziam que o universo havia de perecer completamente, opinião que parece ser de algum modo imputada a Orígenes por Metódio, ou Proclo, em Epifânio (Haeres. LXIV, 31, 32)”. Sobre as opiniões muito controvertidas de Orígenes acerca do princípio e do fim do mundo, veja Huet, Origeniana, II, 4-6; e o bispo Westcott, Dictionary of Christian Biography, “Origen”, pp. 137, 138.

7. Veja Catequese VI, 13; XI, 21.

8. Veja Catequese VI, 14, 16.

9. A guerra com Sapor II, rei da Pérsia, que irrompeu logo após a morte de Constantino e continuou durante todo o reinado de Constâncio, era travada com violência na data destas catequeses; a grande batalha de Singara se deu no ano 348 d.C.

10. Jerônimo, na Crônica, menciona um grande terremoto em 346 d.C., que destruiu Dirráquio e causou grandes danos a Roma e a outras cidades da Itália (editor beneditino). Cirilo põe cheimones (tempestades) em lugar de semeia (sinais), a melhor leitura em Lc 21.11.

11. ekklesiastikos, aplicado a pessoas, significa, como aqui, um membro ortodoxo da Igreja, em contraste com um herege, um pagão ou um judeu (Orígenes, in Job XX, 6), ou, mais especificamente, um clérigo em oposição a um leigo (Catequese XVII, 10).

12. “São Cirilo descreve aqui o estado da Igreja quando a ortodoxia foi por algum tempo pisada, os seus defensores perseguidos, e as variedades de arianismo que tomaram o seu lugar disputavam a supremacia. Gibbon cita duas passagens, uma de um historiador pagão da época e outra de um Pai da Igreja, que confirmam plenamente as palavras de São Cirilo. O que tornava a situação ainda mais deplorável era a defecção de alguns do partido ortodoxo, como Marcelo, para erros opostos; ao passo que as separações posteriores de Apolinário e de Lúcifer mostram que desordens ocultas havia nele no tempo em que São Cirilo escreveu (veja abaixo, 9). As passagens referidas são as seguintes: ‘A religião cristã’, diz Amiano, ‘em si clara e simples, ele (Constâncio) confundiu com as caduquices da superstição. Em vez de reconciliar os partidos com o peso da sua autoridade, alimentou e propagou, com disputas vãs, as divergências que a sua vã curiosidade havia suscitado. As estradas estavam cobertas de tropas de bispos, galopando de todos os lados para as assembleias que chamavam sínodos; e, enquanto se esforçavam por reduzir toda a seita às suas próprias opiniões particulares, o serviço público de postas quase se arruinou com as suas viagens apressadas e repetidas’ (Hist. XXI, 16). Santo Hilário de Poitiers fala assim da Ásia Menor, principal sede das perturbações arianas: ‘É coisa igualmente deplorável e perigosa que haja tantos credos quantas opiniões entre os homens, tantas doutrinas quantas inclinações, e tantas fontes de blasfêmia quantas faltas há entre nós; porque fazemos credos arbitrariamente e os explicamos com o mesmo arbítrio. O homoousion é rejeitado, recebido e explicado de outro modo por sínodos sucessivos. A semelhança parcial ou total do Pai e do Filho é assunto de disputa para esses infelizes teólogos. Todo ano, e até toda lua, fazemos novos credos para descrever mistérios invisíveis. Arrependemo-nos do que fizemos, defendemos os que se arrependem, anatematizamos aqueles a quem defendíamos. Condenamos ou a doutrina dos outros em nós mesmos, ou a nossa nos outros; e, despedaçando-nos reciprocamente, fomos a causa da ruína uns dos outros’ (ad Constant. II, 4, 5). Usam-se as traduções de Gibbon, que, embora prolixas, são fiéis quanto à substância. Que contraste essas descrições apresentam com a declaração constante de Atanásio de que toda a questão fora de fato resolvida em Niceia, e de que nenhum outro sínodo ou debate era necessário!” (R.W.C.). Compare, por exemplo, o relato das sedições em Antioquia e em Constantinopla, em Sócrates, Hist. Ecl. I, 24; I, 12-14, e Atanásio, Hist. Arianorum, passim.

13. Os Pais mais antigos supunham que a predição se referia a um anticristo pessoal, que esperavam viesse em breve. Veja Justino Mártir (Tryph. § 110: ho tes apostasias anthropos; ib. § 32: “Aquele que há de falar coisas blasfemas e ousadas contra o Altíssimo já está às portas”); Ireneu, Haer. V, 25. Cirilo, nesta passagem, vê nas heresias do seu tempo a apostasia em geral, mas espera também um anticristo pessoal (§§ 11, 12).

14. huiopatoria. Sobre esse nome depreciativo do sabelianismo, veja Catequese IV, 8; XI, 16. A Terceira Confissão (eusebiana), ou Terceira de Antioquia, de 341 d.C., anatematiza todos os que sustentam as doutrinas de Marcelo de Ancira, de Sabélio ou de Paulo de Samósata (Atanásio, De Synodis, § 24). Na Ecthesis, ou Exposição da Fé, § 2, Atanásio escreve: “Também não admitimos um Filho-Pai, como os sabelianos, que o dizem de uma só essência (única?), mas não da mesma essência, destruindo assim a existência do Filho.” Quanto a Marcelo, veja Atanásio, Hist. Arian. § 6, e a carta de Júlio na Apologia c. Arian. § 32; veja também § 27, abaixo.

15. Veja Atanásio, De Synod. § 15: “Ário e os seus pensavam e professavam assim: ‘Deus fez o Filho do nada e o chamou seu Filho'”; e Expos. Fidei, § 2: “Não consideramos criatura, nem coisa feita, nem feito do nada, o Deus Criador de todas as coisas, o Filho de Deus, o verdadeiro Ser do verdadeiro Ser, o Único do Único, visto que a mesma glória e o mesmo poder foram eternamente e conjuntamente gerados do Pai.” A 4ª Confissão (eusebiana), ou 4ª de Antioquia, de 342 d.C., termina assim: “Os que dizem que o Filho veio do nada, … a Igreja católica os considera estranhos.”

16. Atanásio, Adversus Arianos, Or. I, 1: “Uma heresia, a última, que agora se levantou como precursora do anticristo, a chamada ariana, vendo que outras heresias, suas irmãs mais velhas, foram abertamente proscritas, com astúcia e manha procura vestir-se com a linguagem da Escritura, como seu pai, o diabo, e força o caminho de volta ao paraíso da Igreja etc.” A data suposta deste Discurso é 8 ou 10 anos posterior à das Catequeses de Cirilo.

17. Uma leitura apoiada pelos melhores manuscritos e aprovada pelo editor beneditino dá outro sentido: “e preferem parecer a resolver-se a ser”, invertendo o provérbio “esse quam videri” (ser antes que parecer).

18. Na passagem citada acima, a heresia ariana é chamada “precursora” (prodromos) do anticristo.

19. phantasiokopon, palavra rara, traduzida por “frenético” em Eclo 4.30; o seu sentido mais preciso parece ser “que faz falsa aparência”, e aqui se aplica a um falso Cristo, e de novo, no § 14, ao pai da mentira, que faz vã exibição de falsos milagres.

20. Cf. § 1.

21. en eidololatreia pode significar “no culto aos ídolos” ou “entre os idólatras”, usado o abstrato pelo concreto, como em Rm 3.30: dikaiosei peritomen.

22. ephodion, “provisão para uma viagem”, equivale aqui em sentido a aphorme, “ponto de partida” ou “ocasião favorável”.

23. O anticristo é descrito por Hipólito (De Christo et Antichristo, § 57) como “filho do diabo e vaso de Satanás”, que reinará e governará “à maneira da lei de Augusto, pela qual se estabeleceu o Império Romano, sancionando tudo por meio dela”. Cf. Ireneu, Haer. V, 30, § 3; Dictionary of Christian Biography, “Antichrist”: “A precisão aguda com que São Paulo apontara ‘o homem da iniquidade’, ‘o iníquo’, ‘o adversário’, ‘o filho da perdição’, levou os homens a se deter nesse pensamento, mais do que nos muitos pseudochristoi de que o próprio Cristo falara.”

24. ton eleimmenon, tradução de Áquila para o hebraico mashiach, adotada pelos judeus em preferência a ton Christon, por ódio ao nome de Cristo ou de cristão. Hipólito, ubi supra, § 6: “O Salvador veio ao mundo na circuncisão, e ele (o anticristo) virá da mesma maneira”; ib. § 14: “Assim como Cristo procede da tribo de Judá, assim o anticristo há de proceder da tribo de Dã.” Hipólito fundava essa expectativa em Gn 49.17.

25. O quarto reino da profecia de Daniel (Dn 7.7, 23) era geralmente entendido pelos antigos escritores cristãos como o Império Romano; e à sua dissolução havia de seguir-se em breve o fim do mundo. Veja o § 13, abaixo; Ireneu, V, 26; e Hipólito, ubi supra, §§ 19, 28.

26. A Versão Revisada inglesa (R.V.) traz: “e derrotará três reis”.

27. O editor de Jerusalém cita como de Hipólito uma descrição semelhante do anticristo (§ 23): “Nos seus primeiros passos será manso, amável, tranquilo, piedoso, pacífico, odiando a injustiça, detestando presentes, não permitindo a idolatria etc.” Mas o tratado é uma falsificação de data desconhecida, aparentemente muito posterior a Cirilo.

28. Ireneu, V, 28, § 2: “Como os demônios e os espíritos apóstatas estão a seu serviço, ele faz por meio deles prodígios, com os quais desvia os habitantes da terra.”

29. Ireneu, V, 25, § 4: “Ele transferirá o seu reino para aquela cidade (Jerusalém) e se assentará no templo de Deus, desviando os que o adoram como se fosse Cristo.” Segundo o tratado autêntico de Hipólito, o anticristo havia de restaurar o reino dos judeus (De Antichristo, § 25), reunir os judeus de todos os países da Dispersão, fazendo-os seus, como se fossem seus próprios filhos, e prometendo restaurar a sua terra e restabelecer o seu reino e a sua nação, a fim de ser adorado por eles como Deus (§ 54); e os levaria a perseguir os santos, isto é, os cristãos (§ 56). Compare a descrição minuciosa do anticristo e da sua crueldade em Lactâncio, Div. Inst. VII, 17; Epit. § 71.

30. Cf. Ireneu, V, 25, § 3; Hipólito, § 64.

31. ekklesiazomenon. Cf. Catequese IV, 35, 36, onde Cirilo distingue as Escrituras has kai en Ekklesia meta parresias anaginoskomen (que lemos com franqueza também na Igreja) daquelas hosa en Ekklesiais me anaginosketai (que não se leem nas igrejas).

32. A Versão Revisada inglesa (R.V.) traz: “será diferente de todos os reinos”.

33. Ireneu (V, 26) identifica o quarto reino com “o império que agora governa”. Hipólito, De Antichristo, § 25: “Um quarto animal, espantoso e terrível: tinha dentes de ferro e garras de bronze. E quem são estes senão os romanos?”

34. O deão Church compara Ap 17.11: “E a besta, que era e não é mais, é também o oitavo rei, mas faz parte dos sete, e caminha para a destruição.” Veja também Ireneu, V, 26, § 1.

35. Lactâncio (por volta de 300 d.C.), Div. Inst. VII, 17: “aquele rei… será também profeta de mentiras; e se constituirá e se chamará Deus, e mandará que o adorem como Filho de Deus; e lhe será dado poder de fazer sinais e prodígios, a cuja vista atraia os homens a adorá-lo.” Cf. Epitome, LXXI.

36. “Veja Ireneu, Haer. V, 26, 2″ (R.W.C.). A passagem é citada por Eusébio (Hist. Ecl. IV, 18), de uma obra perdida de Justino Mártir, Contra Marcião: “Bem disse Justino que, antes da vinda do Senhor, Satanás nunca ousou blasfemar contra Deus, por não conhecer ainda a sua própria condenação, porque ela fora anunciada pelos profetas em parábolas e alegorias. Mas, depois da vinda de nosso Senhor, tendo aprendido claramente das palavras dele e das dos apóstolos que o fogo eterno está preparado para ele, … ele, por meio de homens como esses, blasfema contra o Senhor que traz o juízo sobre ele, como quem já está condenado.” São Cirilo parece esperar que o anticristo seja uma encarnação de Satanás, como esperava Hipólito (de Antichr. § 6): “O Salvador apareceu em forma de homem, e ele também virá em forma de homem.”

37. phantasiokopei. Veja acima, § 10, e a expressão equivalente no § 17: semeion kai teraton phantasias edeiknuon.

38. Veja § 12, e Hipólito, ubi supra: “O Salvador ressuscitou e mostrou a sua santa carne como um templo; e ele levantará um templo de pedra em Jerusalém.” “Cirilo escreveu isto antes da tentativa de Juliano de reconstruir o templo judeu” (R.W.C.).

39. Cirilo refere toda a profecia ao tempo da segunda vinda de Cristo, no fim do mundo, sem considerar a destruição de Jerusalém e do seu templo por Tito como cumprimento de qualquer parte da predição.

40. Aqui também Cirilo segue Hipólito, § 25: “E sob este (chifre) não se significava outro senão o anticristo.”

41. Por livros “apócrifos” Cirilo provavelmente entende todos os que não se permitia ler nos ofícios públicos da Igreja: veja Catequese IV, 33; e a nota do bispo Westcott sobre os vários sentidos da palavra apokruphos, Hist. of the Canon, P. III, c. 1. Que o Apocalipse de São João esteja incluído por Cirilo nesse termo parece provável pelas seguintes razões, sugeridas pelo editor beneditino. (1) Ele não é mencionado na lista das Escrituras canônicas em IV, 36. (2) Os escritores mais antigos que Cirilo segue nesta catequese, Ireneu (Haer. V, 26, § 1) e Hipólito (De Antichristo, § 34), combinam o testemunho do Apocalipse com o de Daniel. A omissão em Cirilo, portanto, não pode ter sido acidental.

42. autoprosopos. Veja acima, § 14. Alguns manuscritos leem antiprosopos, “face a face”, como em XII, 32, antiprosopos.

43. Veja acima, § 14.

44. R.V.: “para que todos fossem julgados”. Cirilo tem katakrithosi.

45. R.V.: “os que conduzem muitos à justiça”. Cirilo segue a tradução da Septuaginta, apo ton dikaion ton pollon, que não dá construção adequada.

46. Compare 1Co 4.15: “eu os gerei pelo evangelho”. Clemente de Alexandria (Strom. III, c. 15): to dia tes alethous katecheseos gennesanti keitai tis misthos (para quem gerou por meio da verdadeira catequese está reservada uma recompensa).

47. Veja acima, §§ 6, 7.

48. A descrição que o Pregador faz da velhice e da morte é interpretada por Cirilo como referente ao fim do mundo, como já o fora um século antes por Gregório Taumaturgo, na sua paráfrase do livro.

49. R.V.: “tristeza”. À margem: ou “irritação”, ou “provocação”.

50. Segundo a interpretação usual, a morte é aqui representada pelo rompimento de uma corrente e da lâmpada que dela pende. Veja Delitzsch e o Speaker’s Commentary, in loc., para outras interpretações. to anthemion tou chrusiou (Septuaginta), que Cirilo entendeu como camomila (anthemis), mais provavelmente significava um desenho de flores em relevo no vaso de ouro: veja Xenofonte (Anab. V, 4, § 32): estigmenous anthemia, “adamascados com flores”.

51. Cirilo quer dizer, com razão, que os idosos recuam diante de uma altura vertiginosa e dos perigos imaginários do caminho. Sobre a voz do pardal, veja abaixo, § 21.

52. “O Dr. Thomson (The Land and the Book, p. 319) diz da amendoeira: ‘É o tipo da velhice, cujo cabelo é branco'” (Speaker’s Commentary).

53. O passo, outrora ágil como o de um gafanhoto, ou locusta, ficará pesado e lento. Para outras interpretações, veja Delitzsch.

54. A alcaparra (kapparis) perderá o efeito, isto é, já não estimulará o apetite. Mas diaschedasthesetai (Septuaginta, Cirilo) significa que o velho será como uma alcaparra que, quando bem madura, rompe a casca e espalha as sementes: assim a R.V. (à margem): “A alcaparra rebentará”. Gregório Taumaturgo (Metaphr. Eccles.): “Os transgressores são lançados fora do caminho, como uma planta de alcaparra negra e desprezível.”

55. Compare o Apocalipse espúrio de João: “E à voz da ave toda planta se levantará; isto é, à voz do arcanjo todo o gênero humano se levantará” (English Trs. Ante-Nic. Libr. p. 496). Segundo o Talmude, o sentido é: “Até uma ave o desperta” (Delitzsch).

56. Sobre dokimastikon, compare o Ensino dos Apóstolos, § 16: “Então toda a humanidade criada virá ao fogo da prova (dokimasias), e muitos se escandalizarão e perecerão.”

57. Catequese XIII, 41. Na carta a Constâncio, três ou quatro anos posterior a esta catequese, Cirilo trata a aparição, naquele tempo, de uma cruz luminosa no céu como cumprimento de Mt 24.30; mas ali acrescenta (Ep. ad Constantium, § 6) que a predição do nosso Senhor “tanto se cumpriu naquele tempo presente, como se cumprirá de novo mais amplamente”. Sobre a opinião de que “o sinal do Filho do Homem no céu” seria a cruz, veja Suicer, Thesaurus, Stauros. Não é improvável que o mais antigo vestígio dessa interpretação se encontre no Ensino dos Apóstolos, § 16: “Então aparecerão os sinais da verdade: primeiro, o sinal de uma (cruz) que se estende (ekpetaseos) no céu.”

58. Compare Barnabé, Epístola, c. VII: “Pois o verão naquele dia vestindo o longo manto escarlate sobre a sua carne, e dirão: Não é este aquele que outrora crucificamos, e desprezamos, e cobrimos de cuspe (al. e traspassamos, e escarnecemos)?”

59. R.V.: “Não julgará segundo a vista dos seus olhos, nem repreenderá segundo o ouvir dos seus ouvidos”.

60. Somente o manuscrito de Jerusalém (A) tem a leitura verdadeira pedas, confirmada por pepedemenous na citação seguinte, em lugar de paidas, que é totalmente inadequada e evidentemente um itacismo.

61. Enkrateia. “Id est viduitas” (isto é, a viuvez) (editor beneditino). Essa referência especial da palavra à viuvez é em certa medida confirmada por 1Co 7.9: ei de ouk enkrateuontai, e torna-se muito provável pela menção separada que Cirilo faz do casamento e da virgindade.

62. Ambrósio (Expos. in Luc. VII, 210): “Rico é aquele pastor de cujo rebanho somos apenas a centésima parte. De anjos e arcanjos, de dominações, potestades, tronos e outros, ele tem rebanhos incontáveis, que deixou sobre os montes.” Compare Gregório de Nissa (Contra Eunom. Or. XII).

63. Há muita variação na leitura e na pontuação desta passagem. Segui o texto adotado pelo editor de Jerusalém, com os Codd. A, Roe, Casaub. e Grodecq, de preferência ao texto beneditino, com o qual o próprio editor está insatisfeito.

64. neumati. Catequese XI, 22.

65. Compare Catequese III, 7; XX (Mistagógica II), 2.

66. A oração pelos catecúmenos nas Constituições Apostólicas, VIII, 6, contém o pedido de que Deus “lhes conceda o banho da regeneração e a veste da incorruptibilidade, que é a verdadeira vida”.

67. prostheinai. Compare At 2.41: prosetethesan. Segundo alguns manuscritos, a frase seria assim: “Foi-lhe confiada a palavra do ensino? Seja um bom mordomo das almas dos seus ouvintes. Você tem poder para governar (prostenai)? Faça isso com diligência.”

68. Marcelo, bispo de Ancira, e o seu discípulo Fotino são anatematizados no Credo chamado Makrostichos por sustentarem que Cristo só se tornou “Filho de Deus quando tomou a nossa carne da Virgem…. Pois querem que Cristo tenha começado então o seu reino, e que este terá fim depois da consumação de todas as coisas e do juízo. Tais são os discípulos de Marcelo e de Escotino, da Ancira da Galácia, etc.” Veja Newman sobre Atanásio, de Synodis, § 26, (5), notas a e b. Compare a descrição de Marcelo na carta dos bispos orientais que se haviam retirado do concílio de Sárdica para Filipópolis (344 d.C.): “Surgiu em nossos dias certo Marcelo, da Galácia, a mais execrável peste de todos os hereges, que com mente sacrílega, boca ímpia e argumentação perversa procura pôr limites ao reino perpétuo, eterno e intemporal de nosso Senhor Cristo, dizendo que ele começou a reinar há quatrocentos anos e terminará na dissolução do mundo presente” (Hilário de Poitiers, Ex Opere Hist. Fragm. III).

69. “A pessoa a quem Cirilo se refere, embora omita o nome, é Marcelo de Ancira; o qual, tendo escrito um livro contra o sofista ariano Astério para explicar a declaração do apóstolo sobre a sujeição do Filho ao Pai, foi considerado renovador da heresia de Paulo de Samósata. Por isso foi repreendido pelos bispos no concílio de Jerusalém, em 335 d.C., por sustentar opiniões falsas, e, recebendo ordem de retratar-se, prometeu queimar o seu livro. Depois recorreu a Constantino, que o remeteu ao concílio de Constantinopla, em 336 d.C., e foi deposto pelos bispos. Como, porém, foi absolvido pelos concílios de Roma, em 342 d.C., e de Sárdica, em 347 d.C., tornou-se questão disputada se ele era realmente herege…. Pelos fragmentos dos seus livros transcritos por Eusébio, talvez se possa absolvê-lo da heresia sabeliana e da confusão do Pai com o Filho, mas certamente não da heresia sobre o fim do reino de Cristo e o abandono, pelo Verbo, da natureza humana que ele assumiu por nós; tão expressas são as suas palavras registradas por Eusébio no início do livro II Contra Marcellum, pp. 50, 51.” (editor beneditino). Compare Dict. Chr. Biogr., “Eusebius of Caesarea”, p. 341; e § 9, acima.

70. ten parousan.

71. Teodoreto (Comment. in Epist. I ad Cor. XV, 28): “Esta passagem os seguidores de Ário e de Eunômio trazem continuamente na boca, pensando desse modo rebaixar a dignidade do Unigênito.”

72. “achri, de akros, como mechri, de mekos, makros” (L. and Sc.). Nem sempre é possível marcar essa distinção na tradução: compare Lobeck, Phrynichus, p. 14; Viger, De Idiot. Gr. p. 419.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Edwin Hamilton Gifford (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 7, Nova York, 1894), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Cirilo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.